terça-feira, 24 de março de 2015

O Porquinho-da-Índia

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Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia
foi minha primeira namorada.
,,,
(Manuel Bandeira - Brasil)
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domingo, 22 de março de 2015

O Conselheiro Acácio (que se mantém por aí...)

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Conselheiro Acácio é uma das personagens da obra O Primo Basílio, de Eça de Queiroz (Portugal).

Esta figura fictícia tornou-se célebre como representação da convencionalidade e da mediocridade dos políticos e burocratas portugueses dos finais do século XIX.

É ainda utilizada para designar a pompa balofa e a postura de pseudo-intelectualidade de muitas figuras públicas.

Deu origem ao termo acaciano, designativo de tais figuras e ditos.
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"Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que duma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca - e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio.

Fora, outrora, director-geral do Ministério do Reino, e sempre que dizia El-rei! erguia-se um pouco na cadeira.
Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé.
Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir.
Dizia sempre "o nosso Garrett, o nosso Herculano".
Citava muito.
Era autor.
E sem família, num terceiro andar da rua do Ferragial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política; tinha composto os Elementos Genéricos da Ciência da Riqueza e Sua Distribuição, segundo os melhores autores, e como subtítulo: Leituras do serão!
Havia apenas meses publicara a Relação de Todos os Ministros D'Estado Desde o Grande Marquês de Pombal Até Nossos Dias, Com Datas Cuidadosamente Averiguadas de Seus Nascimentos e Óbitos.

- Já esteve no Alentejo, conselheiro? - perguntou-lhe Luísa.
- Nunca, minha senhora - e curvou-se. - Nunca! E tenho pena, sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.
..... Tomou uma pitada de uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:
- De resto, país de grande riqueza suína!
- Ó Jorge, averigua quanto é o partido da Câmara em Évora - disse Julião do canto do sofá.
..... O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:
- Devem ser seiscentos mil réis, senhor Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porquê, senhor Zuzarte, quer deixar Lisboa?
- Talvez!...
..... Todos desaprovaram.
- Ah! Lisboa sempre é Lisboa! - suspirou Dona Felicidade.
- Cidade de mármore e de granito, na frase sublime do nosso grande historiador! - disse solenemente o conselheiro.
..... E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.
..... Dona Felicidade disse então:
- Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem à mão de Deus Padre, era o conselheiro!
..... O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ela, um pouco curvado, replicou:
- Nasci em Lisboa, Dona Felicidade, sou lisboeta d'alma!
- O conselheiro - lembrou Jorge - nasceu na rua de S. José.
- Número setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada àquela em que viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!

..... Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Acácio fora seu íntimo. Eram vizinhos. Acácio tocava então rabeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo à Filarmónica da rua de S. José.
Depois Acácio, quando entrou nas repartições do Estado, por escrúpulo e por dignidade, abandonou a rabeca, os sentimentos ternos, os serões joviais da Filarmónica. Entregou-se todo à estatística. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquela amizade vigilante; fora padrinho do seu casamento, vinha vê-lo todos os domingos, e, no dia de seus anos, mandava-lhe pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia de ovos.

- Aqui nasci - repetiu, desdobrando o seu belo lenço da Índia - e aqui conto morrer.
.....  E assoou-se discretamente.
- Isso ainda vem longe, conselheiro!
..... Ele disse, com uma melancolia grave:
- Não me arreceio dela, meu Jorge. Até já fiz construir, sem vacilar, no Alto de S. João, a minha última morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento à direita, num lugar abrigado, ao pé da choça dos Veríssimos amigos.
- E já compôs o seu epitáfio, senhor conselheiro? - perguntou Julião, do canto, irónico.
- Não o quero, senhor Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patrícios entenderem que eu fiz alguns serviços, têm outros meios para os comemorar; já têm a imprensa, o comunicado, o necrológio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lápide lisa, em letras negras, o meu nome - com a minha designação de conselheiro - a data do meu nascimento e a data do meu óbito.
..... E com um tom demorado, de reflexão:
- Não me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: Orai por ele!"
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Eça de Queiroz, O Primo Bazílio, 2.ª edição, Livraria Internacional, Porto, Portugal, ano de 1878 (págs. 48-51).
(Actualização ortográfica da responsabilidade da Torre).

sexta-feira, 20 de março de 2015

O Bicho

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Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
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Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
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O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
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O bicho, meu Deus,
era um homem. (*)
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(*) Manuel Bandeira (Brasil)

domingo, 15 de março de 2015

Portugal à Direita - Últimas Notícias do Califado

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“(...) Um dos cancros que hoje rói a humanidade é incompreendido por muitos que se digladiam à sua volta; por isso não cessa de aumentar.

O erro começa na identificação da questão. A degradação da família e a queda da natalidade são os elementos mais influentes, porque mais nucleares, da situação presente (…). As culturas são muitas e os contornos variados, mas a tendência é geral.

Outro erro é tomar a situação presente, com casamentos desfeitos, uniões de facto e ausência de natalidade, como a nova realidade. Isso é tão ingénuo como ter achado sólida a família tradicional. Por muito que se exaltem ou abominem os chamados "novos" tipos de família, eles são voláteis (…).

É verdade que a emancipação da mulher a masculiniza, desprezando as características femininas, no esforço obsessivo de as provar capazes em jogos de homens. É verdade que, em nome da liberdade sexual radical, se abandonam dignidade e equilíbrio, sacrificando essa liberdade no altar do deboche (…).”
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Autor: João César das Neves (foto acima) – Destino Fora de Casa – Diário de Notícias – Lisboa –  Portugal -11-Março-2015

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terça-feira, 10 de março de 2015

Novo Livro - "História da Expansão e do Império Português"

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Obra da autoria de João Paulo Oliveira e Costa (que coordenou), José Damião Rodrigues e Pedro Aires Oliveira.
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Editora: A Esfera dos Livros - Lisboa
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Um livro essencial para perceber o império português, que se estendeu por quase seis séculos, desde a conquista de Ceuta, em 1415, até 1999, ano em que Macau deixou de estar sob administração portuguesa.

Da apresentação:

A Expansão portuguesa confunde-se com a própria História de Portugal.
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Situado na periferia da Europa, Portugal encontrou no mar um espaço favorável para traçar a sua configuração definitiva e para se projectar pelo Mundo, procurando no exterior o que lhe faltava em território peninsular.
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Nos primeiros séculos da expansão, Portugal rasgou o horizonte dos europeus e uniu outros povos a um destino comum, gerando novos negócios, criando novas paisagens, possibilitando a circulação de gentes, objectos, animais, plantas, conhecimentos e ideias, dando início à globalização.
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Ao longo dos séculos, o império alterou-se: se, num primeiro momento, dominou uma perspectiva de imperialismo marítimo, posteriormente o império português tornou-se predominantemente territorial.
Já no último terço do século XX, o fim da soberania portuguesa em África decorreu em circunstâncias dramáticas, num processo de descolonização  que deixou marcas profundas na política e na sociedade portuguesas.
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Os autores traçam um retrato rigoroso e exaustivo deste período, interpretando o correspondente processo histórico à escala mundial.
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Entre outros temas, analisam o comércio, a conquista, a missionação e os povos ultramarinos, com a suas civilizações e as suas organizações políticas, sociais e económicas, a que os Portugueses tiveram que se adaptar.
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LEITURA MUITO RECOMENDADA PELA TORRE
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Angola dos Nossos Corações!

.Sugestão poética e musical: Albina de Castro

Poema: Rumo (de Alda Lara - Angola, 1930-1962)

Música: Do filme Blood Diamond (J. N. Howard)

Responsável técnico: SoundtracksMusic1
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É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
da Terra ...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou! 

Vamos, companheiro ...
É tempo.


Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas 
e ao prazer dos teus prazeres.
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!


Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama ...


É tempo, companheiro!
Caminhemos ...

domingo, 18 de janeiro de 2015

Recado às figurinhas venais que passeiam pelos dias que correm a sua insignificante, efémera - mas muitíssimo bem paga - importância...

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Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerxes, e o Xenofonte, e o Heráclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.
 
Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?   (*)
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(*) - Poema do Alegre Desespero, António Gedeão, Portugal.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Do fanatismo e da intolerância - O massacre dos judeus de Lisboa (Largo de S. Domingos - Abril de 1506)

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"Era na Primavera de 1506 (...).

Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos.

Faziam-se preces públicas, e a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da igreja de S. Estêvão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas, o povo implorava em gritos a misericórdia divina.

No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada.

No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha.
Espalhou-se logo a voz de milagre.
Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha, ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente.
Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira nas imaginações escandecidas.

Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor.
No domingo seguinte, ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores.

Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre.
A indignação dos crentes, excitada provavelmente pelos autores da burla, comunicou-se à multidão.
O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado, e queimado o seu cadáver.

O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia!

O rugido do tigre popular não tardou a reboar por toda a cidade.
As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada.
Seguiu-se um longo drama de agonia..



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Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo.
O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que, desgrenhada, implorava piedade.

Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo labor.

O grito da revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos.

A ebriedade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite.
Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas.
Acima de quinhentas pessoas tinham perecido na véspera: neste dia passaram de mil.

Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança cobarde, a calúnia, a luxúria, o roubo.
As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e muitos cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus.
Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente que não eram circuncidados.

As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés, esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos.
Depois saqueavam tudo.
Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta e cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras.

Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos.
Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas ás chamas.
Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque, além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina.

A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas.
Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda alguns deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas.

Até terça-feira à tarde o número dos mortos orçava por dois mil indivíduos.
À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão serenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.

Evocação do massacre (Largo de S. Domingos, Lisboa, Portugal)

Entretanto, o prior do Crato e o barão de Alvito partiam para Lisboa por ordem de el-rei [D. Manuel I], com largos poderes.
Convocando os juízes criminais, os dois comissários régios mandaram proceder a severas investigações.

Não tardou que fossem presos os mais notáveis entre os facinorosos.
Julgados sumariamente, foram logo enforcados de quarenta a cinquenta, sendo decepadas as mãos a alguns, e esquartejados outros.

Presos, também, os dois dominicanos que haviam capitaneado a plebe, levaram-nos a Setúbal, e dali a Évora, onde, privados das ordens, os condenaram a garrote e a serem queimados os seus cadáveres.

Os outros dominicanos de Lisboa foram expulsos do convento, que se entregou à administração de clérigos seculares, sendo inibidos ao mesmo tempo os frades de tornarem à capital, prova que tinham influído directa ou indirectamente no crime.

Uma carta de lei, expedida a 22 de Maio, condenou finalmente Lisboa a perder grande parte dos antigos privilégios, por causa da indiferença ou da cobardia com que os seus habitantes haviam tolerado os atentados da plebe. Os que intervieram de algum modo no motim, dando-lhe favor e ajuda, tiveram por pena o perdimento de todos os seus bens para o fisco, e à Casa dos Vinte e Quatro tirou-se a prerrogativa de intervir pelos seus representantes nas deliberações municipais.

Debalde a câmara enviou a el-rei um dos seus membros a pedir misericórdia para a capital.
D. Manuel I declarou-lhe que era necessário dar ao mundo aquele exemplo de rigor, por um lado contra tantas atrocidades dos maus, por outro lado contra tanta negligência dos que não o eram.
Assim, a lei de 22 de Maio foi dada à execução.

Porém, as manifestações  da indignação do monarca afrouxaram passados cinco meses, e foi justamente naquela providência em que devera mostrar maior inflexibilidade que el-rei principiou a ceder.
Mandou-se restituir o Convento de S. Domingos, em Lisboa, à Ordem dos Pregadores, com a restrição de não voltarem a ele os frades que aí residiam na conjuntura do motim."    (*)

(*) - Alexandre Herculano, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, Livro VIII.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Hilary Hahn, um geniozinho de saias...

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Famosa violinista, mundialmente conhecida, prefere execuções a solo, ainda que se apresente também em espectáculos de música de câmara.

Nasceu em Lexington, Virgínia, EUA, em 27 de Novembro de 1979.

Por iniciativa de sua mãe, Anne Hahn (foto seguinte), cuja orientação e apoio se revelaram determinantes na sua extraordinária carreira, começou os estudos musicais no Instituto Peabody, de Baltimore, aos três anos de idade, sendo admitida no renomado Curtis Institute of Music (Filadélfia) sete anos mais tarde.
A sua estreia orquestral, como solista de violino, ocorreu aos doze anos (1991) na Baltimore Symphony Orchestra.

Executante primorosa e premiadíssima, Hilary tem-se exibido um pouco por todo o mundo, integrada em conjuntos como a Orquestra Sinfónica de Londres, a Filarmónica de Nova Iorque, a Sinfónica da Rádio Stuttgart ou a Sinfónica de Singapura.

Conseguiu uma das suas magistrais exibições na Cidade do Vaticano, em 2007, tocando para o Papa Bento XVI e seus convidados (o concerto está comercialmente disponível).

Jovem simples, de irradiante simpatia, amiga das pessoas e dos animais, Hilary é dotada de bom senso e de sentido de humor, sobretudo quando opina sobre o mundo, frequentemente hermético, da música clássica. Ela gostaria de ver aparecer nos concertos alguns espectadores de jeans e carregados de correntes, porque, segundo diz, é importante que a música chegue e pertença a todas as opções culturais: "certas pessoas esquecem, às vezes, que isto só diz respeito a música, não à forma como se age ou como se veste".

No entanto, ela espera um silêncio absoluto da plateia durante as execuções. Esclarece que isso não tem a ver com eventual snobismo ou com um respeito sagrado pela música, mas apenas com o desejo de que todos - inclusive os que tocam - possam ouvi-la. E, com o humor habitual, remata: "Música boa pode ser muito aconchegante e relaxante. Pode-se até dormir - desde que não se ressone..."

O violino de Hilary Hahn é uma cópia de um exemplar utilizado por Paganini.
Usa arcos do americano Salchow e dos franceses Ouchard, Jombar e Miquel.
Quanto às cordas, utiliza as marcas Dominant (revestidas de alumínio ou de prata) e Pilastro Gold Label (na corda mi).


Hilary e a mãe, Anne, um dos dois pilares da sua carreira, desde os 3 anos. O outro pilar é o fenomenal talento com que veio ao mundo...

A peça abaixo é um impressionante cartão de visita de Hilary Hahn.
Trata-se do Concerto para Violino e Orquestra, Op. 64, de Mendelssohn: 27 minutos de puro deleite e uma espantosa manifestação de virtuosismo da jovem e encantadora solista de violino, que "arrasta" a orquestra, o maestro, a sala e cada um de nós...

Para aqueles que não tenham tempo para seguir a peça inteira ou que pura e simplesmente não apreciem por aí além a chamada "música clássica", recomendamos pelo menos a audição de três curtos momentos:
1.º - os primeiros 2' - 30" de gravação;
2.º - dos 12' aos 13'-20";
3.º - dos 25' aos 27'-22" (o empolgante final)

Quando arranjarem tempo não deixem de ouvir na íntegra.
Hilary merece - e verão que terá valido a pena...
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Recolha e apresentação de Super Theseus. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

O QUE FAREI SEM EURÍDICE?

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Ária: "Che farò senza Euridice?"
Duração: 8' 33"
Compositor: Christoph W. Gluck (1714-1787)
Mezzo-soprano: Teresa Berganza (Madrid, Espanha, n. 1935)
Orchestra of the Royal Opera House, Covent Garden
Maestro: Sir Alexander Gibson
Pesquisa e apresentação: Albina de Castro
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A voz plangente e maravilhosa de Teresa Berganza evoca o lamento doloroso de Orfeu, destroçado pela perda da sua muito amada Eurídice.

Eurídice, mordida por uma cobra durante a perseguição do infame Aristeu, perdera a vida e descera às trevas do mundo inferior, o Reino dos Mortos. Aí a procurara Orfeu, tocando a sua lira mágica e enfrentando mil perigos.

Hades, comovido pela agonia daquela música desesperada, permitiu a Orfeu que reconduzisse a sua Eurídice, através de caminhos tenebrosos, até à luz do sol, mas com a condição de nunca olhar para ela até lá chegar.

Orfeu cumpriu a condição quase até ao fim. Quando, porém, se virou, uma única vez, para confirmar se Eurídice o seguia, esta transformou-se de novo num espectro e, lavada em lágrimas, com um grito de agonia, foi outra vez arrastada para o Reino dos Mortos.

Orfeu, trespassado de saudade e de dor, cantou então o hino pungente de todos os grandes amores perdidos nesta vida: Che farò senza Euridice?

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O que farei sem Eurídice?
Aonde irei sem o meu amor?

Eurídice! Eurídice!

Oh Deus!
Responde!
Responde!

Eu continuo puro e teu fiel!

O que farei sem Eurídice?
Aonde irei sem o meu amor?

Eurídice! Eurídice!

Ah! Já não espero
nem socorro, nem esperança
Nem do mundo, nem do céu!

O que farei sem Eurídice?
Aonde irei sem o meu amor?

(Albina)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Novo livro sobre Angola - "Namibe, Terra da Felicidade"

Na capa: a misteriosa welwitschia mirabilis, só encontrável no deserto do Namibe


Deu recentemente entrada na Torre uma nova e imperdível publicação sobre Angola, mais especificamente uma monografia de 215 páginas dedicada à província do Namibe (ex-distrito de Moçâmedes, no tempo português), território que preenche o sudoeste do país.

A obra, patrocinada pelo Governo Provincial do Namibe e empenhadamente apoiada pelo governador Rui Falcão, foi editada pela Chá de Caxinde (Luanda).  Contém ao longo dos textos, em excelente papel, numerosíssimas e belas ilustrações, algumas de grande raridade.

Segundo informa a UCCLA (União das Cidades  Capitais de Língua Portuguesa), este trabalho corporiza a primeira monografia sobre uma província da Angola independente, ficando, também por isso, a constituir um marco histórico.

Foi lançada, pelas autoridades governamentais, na cidade capital do Namibe.

Dama mucubal regalando-se com o seu cachimbo (foto Rurukina)
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Namibe, Terra da Felicidade teve a coordenação de Miguel Anacoreta Correia e Maria Eleutéria Ornelas, e integrou o contributo de diversos investigadores e especialistas das temáticas abordadas, alguns deles nascidos no Namibe.
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A capital Namibe (ex-Moçâmedes), anos 60
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Com um Prefácio do governador do Namibe, Rui Falcão, e uma Introdução de Miguel Anacoreta Correia, o trabalho divide-se em 4 partes:

1.ª PARTE - MEIO FÍSICO, RECURSOS NATURAIS, POPULAÇÃO

2.ª PARTE - HISTÓRIA - DAS ORIGENS À INDEPENDÊNCIA

3.ª PARTE - NAMIBE: UM OLHAR NO PRESENTE

4.ª PARTE - UM OLHAR PARA O FUTURO
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As vaidosas himbas são rainhas de elegância e de beleza (foto Dror Yalon)
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Os textos de Namibe, Terra da Felicidade tiveram as seguintes autorias (com as respectivas págs. entre parêntesis):

1.ª PARTE
Fauna e Flora (25-26) - Prof. Augusto Manuel Correia
Grupos Humanos no Namibe (43-48) - Dr. Ildeberto Madeira
Mbali, Quimbares. Kimbar. Tyimbari (48-49) - Dr. Ildeberto Madeira

2.ª PARTE
Das Origens à Independência (53-102) - Dr. José Bento Duarte
Da Independência à Actualidade (103-104) - Gen. H. Dolbeth e Costa

3.ª PARTE
Urbanismo (121-133) - Arq.º Vasco Morais Soares
O Namibe nas Letras (162-168) - Dr. Manuel Rodrigues Vaz
Centro de Estudos do Deserto (168-170) - Dr. Samuel Aço
Agricultura e Pecuária (174-178) - Prof. Augusto Manuel Correia

4.ª PARTE
Agricultura e Pecuária (188-192) - Prof. Augusto Manuel Correia

(Os textos não referenciados foram elaborados pela equipa de coordenação)

O maravilhoso deserto do Namibe
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Como se diz na Introdução, Namibe, Terra da Felicidade "pode ser particularmente útil aos estudantes dos ensinos secundários e superior e seus professores, para funcionários públicos com responsabilidades de enquadramento e, também, para responsáveis por organizações da sociedade civil da Província; e ainda para todos aqueles que, por esta ou por aquela razão, têm interesse em melhor conhecer o Namibe, nomeadamente empresários ou candidatos a investidores, ou, apenas, turistas ou amigos de viajar pela leitura".

São abundantes os pontos de interesse deste magnífico trabalho, desde o pequeno ao grande facto, da pequena à grande História... Apenas a título de exemplo, ficam apontamentos que nos permitem distinguir o que há muito é confundido (o deserto do Namibe não é o deserto do Kalahari); a província do Namibe (parte integrante de Angola) nada tem a ver com a Namíbia (país independente confinante com o sul de Angola), embora ambas partilhem o imenso deserto do Namibe.

É defendida a sugestiva e consistente tese de que as cavernas e furnas do Namibe terão sido, com outros lugares de África, um dos berços da Humanidade; há ainda as invasões dos povos hereros (mucubais, himbas, etc.) que aqui acharam os primitivos habitantes (cuissis, kuepes); os navegadores portugueses do século XV, com a tese de que a desgraça política de Diogo Cão, o herói português, terá nascido defronte das terras do Namibe; as produções literárias de um surpreendentemente vasto leque de autores nascidos no território; as semelhanças urbanísticas da capital com as urbes portuguesas do Algarve; a arte inesperada e impressiva dos Mbali; os dramas e as glórias das primeiras colonizações e da luta pela independência; e muitos, muitos outros elementos de interesse desta terra fascinante entre as mais fascinantes...


O belo sorriso de um povo bom e inesquecível (foto Malanjino)
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Segundo informações que recolhemos,  os milhares de exemplares de Namibe, Terra da Felicidade destinaram-se essencialmente a Angola.

Em Portugal, os poucos exemplares restantes podem ser ainda encomendados aos balcões da FNAC.

Para entregas mais rápidas (prazo de 1 dia) é recomendado o contacto online com o distribuidor oficial português, Perfil Criativo, bastando escrever no motor de busca: Perfil Criativo. Loja. Namibe.

Se preferir o contacto por correio electrónico, use   info@perfilcriativo.net

Preço de venda ao público: € 20.

Boa e proveitosa leitura!