quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Também Já Fui Brasileiro (Carlos Drummond de Andrade)

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Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola,
guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora
em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas,
o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso,
dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.

Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.
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Carlos Drummond de Andrade - Brasil - (1902-1987)
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terça-feira, 10 de agosto de 2010

I Love That Girl (1928)

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Foi há oitenta e dois anos... Tinham saído havia uma década da guerra mortífera (1914-1918) e encaminhavam-se para outra, ainda pior, dentro de onze anos. (Herr Adolfo já se fazia ouvir em fundo na Alemanha, e anunciava, a quem quisesse ver e ouvir, aquilo que não tardaria a pôr em prática com a sua legião de assassinos durante doze anos de terror e desumanidade).

Estavam também todos à beirinha da catástrofe financeira que arruinaria milhões e provocaria uma enorme lista de suicídios e outras desgraças (ah, este mercado omnisciente dos dinheiros abundantes e fáceis, esta cariciosa "mão invisível" que tudo sabe e tudo acerta, este capitalismo à solta, sem rédeas, triturante, insaciável, de que tanto gosta Coelho, o Inenarrável...).

Entretanto, paradoxalmente - ou talvez não -, a alegria expandia-se livremente nos "dancings", ao ritmo trepidante das modas da época. Uma alegria esfuziante, aparentemente genuína. Preocupações não se detectavam à primeira vista. Em particular no que diz respeito às meninas, nem sequer - manifestamente - preocupação com as dietas. Nada de depressões ou de bulimias.
Felizmente para elas.
E para quem via...

sábado, 7 de agosto de 2010

"A Arte da Guerra" - Sun Tzu - China (544 a.C - 496 a.C.)

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O general chinês Sun Tzu (544 a. C. - 496 a. C.), considerado um dos maiores estrategas militares de todos os os tempos, é autor de um famoso livro sobre o assunto (A Arte da Guerra).
Sun Tzu, que nasceu no estado de Wu, escreveu-a no Período dos Reinos Combatentes.

Ele explica, em treze capítulos, todos os aspectos que, em sua opinião, deverão ser considerados antes, durante e depois de enfrentar o inimigo.
Utiliza para esse fim uma linguagem plena de comparações e metáforas, embora, simultaneamente, clara e incisiva, o que converte a obra num dos primeiros tratados do mundo sobre estratégia militar.

Não há uma biografia linear de Sun Tzu, com início, meio e fim. O que existe são concisas narrações de alguns factos da sua vida.
Apesar das especulações sobre a vida do autor, A Arte da Guerra é considerada da maior importância no conjunto de escritos militares produzidos ao longo da história da Humanidade.

Segundo os especialistas, apenas Carl von Clausewitz se lhe pode comparar, embora Sun Tzu seja mais acessível à leitura.
Mais do que um livro militar, A Arte da Guerra é considerado um livro filosófico.
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"Sun Tzu disse:
A arte da guerra é de importância vital para o Estado.
É a matéria da vida e da morte, o caminho que leva à salvação ou à ruína do Império: é forçoso saber manejá-la bem. Não reflectir seriamente sobre o que ela significa é dar prova de culpável indiferença no que diz respeito à conservação ou perda do que nos é mais querido, e isto não deve ocorrer entre nós.

Cinco coisas principais devem ser objecto da nossa constante meditação e do nosso cuidado, como fazem os grandes artistas, que, ao empreenderem qualquer grande obra, têm presente no espírito aquilo que propõem , e aproveitando tudo o que vêem e tudo o que entendem, não negligenciam adquirir novos conhecimentos e todos os recursos que possam conduzi-los ao êxito.

A primeira destas coisas é o Tao, a segunda o Tempo, a terceira o Terreno, a quarta o Comando e a quinta a Disciplina.

O Tao é aquilo que faz o povo em harmonia com o governante, de modo que o siga até onde for sem temer por suas vidas nem correr qualquer perigo.

O Tempo significa o Ying e o Yang, a noite e o dia, o frio e o calor, dias ensolarados ou chuvosos e a mudança das estações.

O Terreno considera as distâncias e faz referência aos locais onde é fácil ou difícil deslocar-se, se em campo aberto ou em lugares estreitos. Isto influencia as possibilidades de sobrevivência.

O Comando deve ter as seguintes qualidades: Sabedoria, Sinceridade, Benevolência, Coragem e Disciplina.

Por último, a Disciplina deve ser compreendida como a organização do exército, as graduações e classes entre os oficiais, o regulamento das rotas de mantimentos e a provisão do exército quanto a material militar.


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Estas cinco coisas devem ser conhecidas pelo general.
Quem as domina, vence, quem não as domina, será derrotado.

Por isto, ao fazer planos, deve-se comparar os seguintes fatores valorizando cada um com extremo cuidado:

- Que dirigente é mais sábio e capaz?
- Que comandante possui maior talento?
- Que exército obtém vantagens da natureza e do terreno?
- Quais são as tropas mais fortes?
- Que exércitos observam melhor os regulamentos e instruções?
- Que exército tem oficiais e tropas melhor treinadas?
- Que exército administra recompensas e castigos de forma mais justa?

Ao estudar este sete factores será possível prever que lado sairá vitorioso e que lado sairá derrotado.
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O general que seguir o meu conselho certamente vencerá.
Este general deverá ser mantido no comando.
Aquele que ignora o meu conselho certamente será derrotado.
Este deve ser substituído.

Mais do que prestar atenção aos meus conselhos e planos, o general deve criar situações que contribuam para o seu cumprimento.
A situação deve resultar da análise da situação real, devendo actuar-se de acordo com o que é mais vantajoso.

A Arte da Guerra baseia-se no Engano.
Por isso, quando tens capacidade de atacar finge incapacidade, quando as tropas se movem finge inactividade.

Se estás perto do inimigo deves fazê-lo crer que estás longe, se estás longe aparenta estar perto.
Coloca iscas para atrair ao inimigo.

Golpear o inimigo quando está desordenado.
Preparar-se contra ele quando se está em absoluta segurança.
Evitá-lo no período em que ele está mais forte.
Se o teu oponente tem temperamento colérico, procura irritá-lo.
Se é arrogante, trata de fomentar seu egoísmo.

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Se as tropas inimigas se acham bem preparadas após uma reorganização, intenta desordená-las.
Se estão unidas, semeia a discórdia entre as suas fileiras.
Ataca o inimigo quando não está preparado, e aparece quando não te espera.
Estas são as chaves da vitória para o estrategista.

Agora, se as estimativas realizadas antes da batalha indicam vitória, é porque os cálculos, que devem ser cuidadosamente efectuados, mostram que as tuas condições são mais favoráveis que as condições do inimigo.

Se indicam derrota, é porque mostram que as condições para a batalha não são propícias.
Com uma avaliação cuidadosa pode-se vencer: sem ela, não é possível.
Muito menos oportunidade de vitória terá aquele que não realiza cálculo nenhum.

Graças a este método pode-se examinar qualquer situação e definir o resultado claramente."

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"As Raparigas Lá de Casa"

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...ou de como, pela mão de um grande poeta,
se regressa por entre mil lembranças
aos dias longínquos de uma infância feliz...

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AS RAPARIGAS LÁ DE CASA


Como eu amei as raparigas lá de casa
discretas fabricantes da penumbra

guardavam o meu sono
como se guardassem o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas
por onde saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco
da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar
o odor doce e materno
das manadas quando passam)

aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava
a inquieta maresia dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos,
no outono penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas
como as folhas na primavera

não me lembro da cor dos olhos
quando olhava os olhos
das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia o sol
ou se agitava a superfície dos lagos do jardim com lagos
a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa,
que tinham namorados
e com eles traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre
e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau
de sua inexplicável bondade
o vício da virtude
da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor
pelas raparigas lá de casa


Poema de Emanuel Félix.
Nasceu em Angra do Heroísmo, Açores, Portugal, em 1936.
Faleceu na mesma cidade em 2004.
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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Panorama Jazz Band

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Muito bom, apesar das "tremuras" da filmagem amadora e das "moscas" entretidas a esvoaçar diante dos músicos. O que acabou foram as espessas fumaradas de charutos e cigarros de outrora. Só se detectou um prevaricador, seraficamente especado ali à direita...
Perdeu-se, sem dúvida, "ambiente", mas ganhou-se ar (mais ou menos) respirável e ausência de tossidelas.
Ficou só a música. Em estado puro. Esplendorosa.

sábado, 31 de julho de 2010

Os Primeiros Tempos dos Portugueses em Angola - Amizade, Batalhas e Religião - A Palavra Mágica dos Padres Jesuítas

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Nota Prévia

Os Portugueses começaram a construir cedo, por volta de 1482, os alicerces daquilo que mais tarde seria a sua grande colónia de Angola, na costa sudoeste da África. Nesse tempo, reinando em Portugal D. João II, os navios de Diogo Cão deram com a embocadura do rio Zaire e as tripulações entraram em contacto com os habitantes do reino do Congo (os Bacongos), que os receberam sem o menor sinal de hostilidade. Os Portugueses chegaram pouco depois ao reino do Ndongo, um pouco mais a sul, e movimentaram-se em torno da área litoral onde actualmente se localiza Luanda, a capital. Estavam na terra dos Ambundos. Entretanto, o negócio da escravatura viera já manchar o que começara por ser um encontro pacífico e festivo entre povos diferentes.
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No tempo do capitão-mor Paulo Dias de Novais (neto do navegador português Bartolomeu Dias e fundador da cidade de Luanda) passara cerca de um século sobre a viagem pioneira de Diogo Cão. Os Portugueses deparavam, agora, com a resistência militar do senhor do Ndongo, Ngola Kiluanje.
Nas guerras que se seguiram, contavam com vários trunfos: exércitos treinados, bem armados, e uma ambição insaciável pelos filões de prata que supunham enterrados nas encostas de Cambambe.
E tinham ainda do seu lado aquilo que constituiu, porventura, a mais poderosa ponta-de-lança do seu avanço para o interior do território nesta fase inicial da colonização - contingentes destemidos e determinados de padres jesuítas.
Estamos no ano de 1585…

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“(...) A meio do ano de 1585 o rei Ngola Kiluanje acedeu ao pedido de um súbdito audacioso, Ndala Kitunga, que se lhe ofereceu para conduzir um exército do Ndongo contra as forças do português Novais.
Kitunga era um ambundo cristia­ni­zado que, por razões ignoradas, resolvera desligar-se dos protectores euro­peus. Kiluanje colocou à sua disposição um efectivo numeroso e, além do ar­mamento tradicional, forneceu-lhe pólvora e armas de fogo. Depois lançou-o no encalço do inimigo..
Movendo-se para ocidente, Kitunga esbarrou com o exército português na região da Ilamba, acima do Cuanza. Os Lusitanos, comandados pelo capitão André Ferreira Pereira, contavam perto de centena e meia de sol­dados europeus e dez mil frecheiros negros, arregimentados entre os povos recentemente vencidos.
O combate deu-se a 25 de Agosto, com os contendores envolvidos por espes­sos lençóis de nevoeiro. Em situação de inferioridade numérica, os Portugueses fizeram uso de todos os trunfos. Através da cerração, fustigaram os esquadrões inimigos com disparos de artilharia, arremessaram-lhes cargas de cavalaria avas­saladoras e puseram em campo a violência brutal dos seus veteranos.
Mas guar­davam na manga uma surpresa especial.
Os Ambundos viram de repente brotar da brancura opaca do nevoeiro alguns vultos de pêlo eriçado e fauces espumantes de raiva: eram matilhas de cães bravos, presumivelmente trazidas pelos invasores das ásperas serranias portuguesas para terror dos adversários africanos.

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Embora se entregassem à luta com in­dómita coragem - três vezes se viram desba­ratados, outras tantas tornaram à refrega -, os homens de Ngola Kiluanje sofreram um desaire esmagador.
A mor­tandade atingiu tais proporções que os Portugueses temeram que os seus rela­tos fossem colocados em dúvida no bastião de Luanda. Trataram por isso de recolher uma cruenta prova do seu triunfo: foi assim que ex­pediram para a reta­guarda uma infinidade de vasilhas repletas de narizes dos inimigos tombados em combate.
Segundo os cronistas lusos, desaparecera na bata­lha a fina flor da fidalguia angolana, tendo sucumbido vários parentes e homens de confiança de Ngola Kiluanje.
Quanto ao temerário Ndala Kitunga, pagou cara a ousadia. Caído nas mãos dos Portugueses, foi escrupulosamente confessado e en­comendado a Deus por um religioso, após o que o confiaram ao carrasco a fim de ser deca­pitado e lançado às chamas de uma fogueira para exemplo de quem fica­va.

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Uma vez inauguradas as hostilidades, jamais deixaram os conquistadores de contar com um apoio muito peculiar - o dos padres jesuítas.
Com efeito, es­tes ho­mens perseverantes mantiveram-se sempre por perto de Novais e das suas tropas, tra­tando sem desfalecimentos do seu negócio da cristandade.
Às vezes não hesitavam em embrenhar-se nos perigosos trilhos da guerra, como na altura em que o recrudescimento da resistência ambunda fez afluir a Luanda muitos dos portugueses dispersos pelo mato.
Prevenindo o desastre, o padre Baltasar Barreira desceu apaixonada­mente à liça, exortando os timoratos a pegarem em armas e a cerrarem fileiras ao lado dos seus irmãos cer­cados em Macunde pelos Ambundos.
Mas o padre não se limitou aos sermões.
Metendo-se pelas margens do Cuanza acima, arrastou consigo uma legião de homens galvanizados, armados até aos dentes e providos de abun­dantes mantimentos, levando até aos sitiados um miraculoso balão de oxigénio.
Acolhido com júbilo no reduto ao som de flautas e charamelas, Barreira propiciou com a sua iniciativa uma bem sucedida ofensiva portuguesa.
Anos mais tarde, seria um seu correligionário, o padre Afonso, quem transportaria até ao próprio Paulo de Novais, refugiado na fortaleza de Massangano, um decisivo auxílio de última hora.
O capitão-mor soube mostrar-se reconhecido para com estes preci­osos aliados, tornando-os beneficiários de uma copiosa série de doações em terras e rendimentos. E, também, em filões de prata - reais ou imaginários.
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Dissipada a feroz exaltação das batalhas, e em caso de êxito, os Portugueses revelavam-se geralmente tolerantes para com os vencidos. Isto, como é evidente, desde que estes aceitassem de boa mente a sua lei.
Os jesuí­tas desempenharam um papel crucial no delicado processo de aproximação. Marchavam, imperturbáveis, na peugada dos destacamentos em operações, e penetravam, de crucifixos em pu­nho, nos povoados submetidos. Compareciam logo depois da passagem dos veteranos de Novais, das matilhas enraivecidas, dos cascos esmagadores da cavalaria, do susto dos arcabu­zes e das peças de artilharia.
Com a visita dos padres, os Ambundos adquiriam consciência da outra face do invasor. Recebiam com um misto de reverência e curiosidade su­persticiosa esses homens estranhos, que lhes ofereciam o bálsamo das suas palavras aliciantes, compassivas e corda­tas. Porém, como não tardaram a compreender, a brandura dos religiosos podia desvanecer-se num abrir e fechar de olhos. Bastava que eles pressentissem nas al­deias a presença de feiticei­ros, muito considerados e temidos pelos Ambundos. Nessas ocasiões, possuí­dos de incontrolável excitação, os padres afadigavam-se em devassas minuci­osas, na pista dos ídolos, amuletos e demais utensílios das práticas de magia. Quando descobertos, tais apetrechos acabavam nas chamas de piras gigantes­cas.
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Os jesuítas achavam-se piamente convencidos de que os feiti­ceiros, esses seres reservados e imperscrutáveis, com olhos de verruma, mantinham tenebrosas alianças com o demónio - o Pai das Maldades, como eles diziam. Relatavam achados ar­repian­tes. Um dia tinham dado com uma idosa e encarquilhada criatura apregoa­da­mente capaz de comandar a chuva e a doença com os seus expedientes mági­cos. Embora se tratasse na realidade de um homem, maléficos desígnios ha­viam-no condenado a viver como mulher. Apertado por aqueles tenazes evange­lizadores, o mago cedeu e mudou de condição, acabando rendido às excelên­cias da virilidade.
De outra vez, os jesuítas desvendaram o enigma de uma velha cabra, utilizada pelo seu proprietário, o ladino Manicafanze, em abominá­veis exercícios de bruxaria. A instâncias dos padres, e após inúmeras prédicas e missas de desagravo, o bicho findou sem glória os seus dias satânicos, de­vorado pelo povo num festivo banque­te.

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As artes de sedução dos jesuítas mostravam-se muitas vezes irresistíveis, mesmo quando exibidas diante de homens poderosos que se haviam batido com valentia contra os invasores. Isso ficou demonstrado de modo exemplar no caso do nosso conhecido soba de Songa.
Derrotado pelos Portugueses, este chefe da Quissama tornou-se alvo das desveladas atenções dos padres. O se­nhor de Songa, tal como sucedera nos tempos antigos com inúmeros fidalgos do Congo, deixou-se arrebatar pela oratória transbordante de promessas daqueles sábios interlocutores. Eles pare­ciam deveras empenhados em franquear-lhe a entrada no mundo fascinante e in­tangível de que guardavam o segredo. Para Songa, como para grande parte dos seus conterrâneos, importava sobretudo ascender a esse espaço rico de influências mágicas e de espíritos invencíveis. Ele pressentia a parcialidade dos entes sobre­naturais dos brancos, sempre inclinados a socorrerem as hostes que chegavam do mar para assolarem as mar­gens do Cuanza. Mal o sentiram vacilar à beira da con­versão, os jesuítas aprontaram-lhe, de combinação com as autoridades militares, uma pomposa festa de baptismo. Songa foi conduzido com um séquito imponente até Macunde, onde o capitão-mor Novais, que ele escolhera para padrinho, o re­cebeu com afabilidade, rodeado de muitos dos comandantes da conquista.
O corte­jo, abrilhantado por músicos portugueses, desfilou com majestade até um templo improvisado, revestido de sedas verdes e coberto de ramos de palmei­ra. Para admiração e regozijo dos seus, Songa apresentou-se sumptuosamente enfarpelado à europeia. Trajava roupeta de cetim cinzento, capa de racha, gorra de seda e botas cor-de-laranja. Num gesto de cortesia, o chefe africano selecci­onou para seu nome de baptismo o de Paulo de Novais. Este proferiu um dis­curso emocionado, congra­tulando-se com a conversão. Honrou depois o senhor de Songa com o título de capitão-mor do povo da região e com o privilégio de lhe ser permitido sentar-se em alcatifa diante de qualquer autoridade portuguesa. O soba sentiu-se feliz e recompensado. Nos dias imediatos os padres não tive­ram mãos a medir com a multidão de ambundos que, tocados pelo gesto do seu senhor, acorriam a fazer-se igualmente cristãos.

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Com os progressos da conquista e as consequentes cerimónias religiosas, co­meçaram a acumular-se as aparições nos céus do Ndongo. Esses sinais ex­traordi­nários obtinham a sisuda confirmação de um sem-número de brancos e negros.
Falava-se de cruzes deslumbrantes a emergirem de entre os novelos algodoados das nuvens. Provocava especial assombro a visão de uma mulher de semblante grave, amparada por um ancião de barbas esvoaçantes e alvas. Particularidade perturbadora: o velho comparecia armado de uma fulgurante espada de fogo.
Os ambundos convertidos exultavam. Para seu deleite, no tempo das aparições ocor­riam também chuvadas providenciais, autênticas bên­çãos para as sementeiras. Tanto mais que as terras dos idólatras, ainda arre­dios às palavras macias dos ve­nerandos sacerdotes, jaziam ressequidas, gre­tadas e estéreis.
Apesar destes sucessos, Paulo Dias de Novais acabaria por sucumbir, enclau­surado em Massangano, sob a inclemência do clima e a erosão dos gol­pes da re­sistência ambunda. Sobrecarregado de dívidas, gasto pelas desilu­sões, precoce­mente envelhecido, findou os seus dias neste mundo a 9 de Maio de 1589. Vira desaparecer, engolidos pelo turbilhão dos combates, muitos dos seus companhei­ros de armas, sem que se materializassem os sonhos da prata ou de uma apoteótica entrada em Kabassa.
A crua realidade é que Novais se mostrara incapaz de cumprir uma parcela substancial das obrigações impostas pelo malogrado rei D. Sebastião. Isto conduziu a uma relevante transformação política. De facto, com o desaparecimento do capitão-mor, a carta de doação tornou-se letra morta e a Coroa espanhola (que entretanto se apoderara de Portugal) decidiu enveredar por uma dife­rente alternativa de co­lonização, assumindo directamente a responsabilidade da orientação e do financi­amento da empresa.
Em meados de 1592 chegou a Luanda o primeiro governador designado na época da ocupação espanhola de Portugal. Tratava-se de Francisco de Almeida. Inaugurou uma extensa lista de quase duas centenas de homens que, durante perto de quatro séculos, conduziriam os destinos da colónia com sorte, empe­nho e ta­lento muito diferenciados.
Neste ocaso do século XVI a situação dos Portugueses no território, não sendo brilhante, permitia-lhes a concretização dos objectivos mais imediatos. Detinham uma sólida retaguarda no litoral e guarneciam alguns postos avançados nas terras contíguas ao Cuanza.
Era o bastante para que o siste­ma funcionasse: a mão-de-obra escrava continuava a deslizar dos sertões para os navios ancorados junto à costa.
O Ndongo conservava, entretanto, a sua independência (...)". (*)
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(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos (pág. 45-48) - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal - 1999.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Pintores da Península Ibérica (Antonio Abellán - Espanha) (3)

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O Camarote
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Escada de Vizinhos
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Os Três Amigos
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Tango
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Fumadores
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A Sobremesa
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A Pitonisa
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Jogadores de Dominó
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Leques no Camarote





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Músicos de Jazz
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As Três Idades

terça-feira, 27 de julho de 2010

Navios Antigos - 1

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