terça-feira, 6 de julho de 2010

Monangambé (O Contratado) - (Ruy Mingas - Angola)

.O poema é de António Jacinto.
Quem o canta, mais abaixo, é Ruy Mingas - a melhor voz de Angola.

Monangambé (O Contratado)


Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;

Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado,
torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina
e em paga recebe desdém
fuba podre,
peixe podre,
panos ruins,
cinquenta angolares
"porrada se refilares"?



Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas,
carros,
senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos
subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer
diluído nas minhas bebedeiras

- "Monangambéé...'"

…………….

Oiçam, a seguir, Ruy Mingas:


Lágrima de Preta (António Gedeão)

 
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

……………..

(António Gedeão - Portugal)

sábado, 3 de julho de 2010

O Castelo de Faria (Alexandre Herculano - Portugal)


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A breve distância da vila de Barcelos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longe um convento de Franciscanos. Aprazível é o sítio, sombreado de velhas árvores. Sente-se ali o murmurar das águas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza que quebra o silêncio daquela solidão, a qual, para nos servirmos de uma expressão de Fr. Bernardo de Brito, com a saudade de seus horizontes parece encaminhar e chamar o espírito à contemplação das coisas celestes.

O monte que se alevanta ao pé do humilde convento é formoso, mas áspero e severo, como quase todos os montes do Minho. Da sua coroa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O espectador colocado no cimo daquela eminência volta-se para um e outro lado, e as povoações e os rios, os prados e as fragas, os soutos e os pinhais apresentam-lhe o panorama variadíssimo que se descobre de qualquer ponto elevado da província de Entre-Douro-e-Minho.

Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre ele se ouviram gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas e estrondo de máquinas de guerra. Claros sinais de que ali viveram homens: porque é com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra.
O castelo de Faria, com suas torres e ameias, com a sua barbacã e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou aí como dominador dos vales vizinhos.

Castelo real da Idade Média, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que já lá vão há muito: mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de mármore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcácer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e caiu. (...) Serviram os fragmentos para se construir o convento edificado ao sopé do monte. (...)

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Reinava entre nós D. Fernando. (...)
O Adiantado de Galiza, Pedro Rodríguez Sarmento, entrou pela província de Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavalo, enquanto a maior parte do pequeno exército português trabalhava inutilmente ou por defender ou por descercar Lisboa.
Prendendo, matando e saqueando, veio o Adiantado até às imediações de Barcelos, sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porém, saiu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de Seia e tio del-rei D. Fernando, com a gente que pôde ajuntar. Foi terrível o conflito; mas, por fim, foram desbaratados os portugueses, caindo alguns nas mãos dos adversários.

Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mor do castelo de Faria, Nuno Gonçalves.
Saíra este com alguns soldados para socorrer o conde de Seia, vindo, assim, a ser companheiro na comum desgraça. Cativo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castelo d'el-rei seu senhor das mãos dos inimigos.
Governava-o, em sua ausência, um seu filho, e era de crer que, vendo o pai em ferros, de bom grado desse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defensão escasseavam.
Estas considerações sugeriram um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse conduzir ao pé dos muros do castelo, porque ele, com as suas exortações, faria com que o filho o entregasse, sem derramamento de sangue.

Antigo livro da Instrução Primária (3.ª classe) - Portugal
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Um troço de besteiros e de homens d'armas subiu a encosta do monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves.
O Adiantado de Galiza seguia atrás com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodrigues de Viedma, estendia-se, rodeando os muros pelo outro lado. O exército vitorioso ia tomar posse do castelo de Faria, que lhe prometera dar nas mãos o seu cativo alcaide.

De roda da barbacã alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria: mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir cintilante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram acolher-se no terreiro que se estendia entre os muros negros do castelo e a cerca exterior ou barbacã. (...)

Quando o troço dos homens d'armas que levavam preso Nuno Gonçalves vinha já a pouca distância da barbacã, os besteiros que coroavam as ameias encurvaram as bestas, e os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contrários as suas quadrelas e virotões, enquanto o clamor e o choro se alevantavam no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado.
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Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbacã, todas as bestas se inclinaram para o chão, e o ranger das máquinas converteu-se num silêncio profundo.
Moço alcaide, moço alcaide! — bradou o arauto — teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodríguez Sarmento, Adiantado de Galiza pelo mui excelente e temido D. Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo.

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro e, chegando à barbacã, disse ao arauto:
A Virgem proteja meu pai: dizei-lhe que eu o espero.
O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé dela, o velho guerreiro saiu dentre os seus guardadores, e falou com o filho:
- Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo, que, segundo o regimento de guerra, entreguei à tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Seia?

É — respondeu Gonçalo Nunes — de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem.
Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?Sei, oh meu pai! — prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar. — Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistência?

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:
Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo sem tropeçarem no teu cadáver.Morra! — gritou o almocadém castelhano — morra o que nos atraiçoou!
E Nuno Gonçalves caiu no chão atravessado de muitas espadas e lanças.
Defende-te, alcaide! — foram as últimas palavras que ele murmurou.
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Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.
Os castelhanos acometeram o castelo; no primeiro dia de combate o terreiro da barbacã ficou alastrado de cadáveres tisnados e de colmos e ramos reduzidos a cinzas.
Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chuça um colmeiro incendiado para dentro da cerca; o vento suão soprava nesse dia com violência, e em breve os habitantes da povoação, que haviam buscado o amparo do castelo, pereceram juntamente com as suas frágeis moradas.

Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldição de seu pai: lembrava-se de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos o último grito do bom Nuno Gonçalves — Defende-te, alcaide!
O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do castelo de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército castelhano foi constrangido a levantar o cerco.

Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento e pelas façanhas que obrara na defensão da fortaleza cuja guarda lhe fora encomendada por seu pai no último transe da vida.
Mas a lembrança do horrível sucesso estava sempre presente no espírito do moço alcaide. Pedindo a el-rei o desonerasse do cargo que tão bem desempenhara, foi depor ao pé dos altares a cervilheira e o saio de cavaleiro, para se cobrir com as vestes pacificas do sacerdócio.

Ministro do santuário, era com lágrimas e preces que ele podia pagar a seu pai o ter coberto de perpétua glória o nome dos alcaides de Faria.
Mas esta glória, não há hoje aí uma única pedra que a ateste.
As relações dos historiadores foram mais duradouras que o mármore. (*)
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(*) - Lendas e Narrativas - Alexandre Herculano - Portugal (1810-1877)
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Alexandre Herculano
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Um Extraordinário Pintor do Feminino - [Adolphe-William Bouguereau (França - 1825/1905)]


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A Oração
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Regresso do Mercado
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O Pássaro de Estimação
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O Segredo
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A Sopa
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As Pequenas Mendigas
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O Búzio
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A Bilha Quebrada
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A Cortesia
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Duas Irmãs
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Meditação
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Ameixas
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A Condessa de Montholon
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domingo, 27 de junho de 2010

Sentimental (Carlos Drummond de Andrade)


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Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria,
cheia de escamas
e debruçados na mesa
todos contemplam esse romântico trabalho.

Desgraçadamente
falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências
um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar."
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Carlos Drummond de Andrade - Brasil (1902-1987)
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sábado, 26 de junho de 2010

Os Espanhóis, os Cavalos e os Índios das Grandes Planícies

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Havia séculos que os Índios americanos habitavam as Grandes Planícies quando chegaram os Europeus.
Nada, porém, modificou tanto a sua vida como a brusca aparição dos Espanhóis com os seus cavalos.
Não se pode dizer ao certo de que forma se apoderaram os Índios destes animais. Provavelmente, alguns cavalos feridos ou coxos terão sido abandonados e outros talvez roubados.

Por exemplo, nos anos de 1540-1541, durante a espantosa expedição do espanhol Coronado - que, levado pela miragem do ouro, marchou desde o noroeste do México até ao Kansas -, teriam sido perdidos alguns cavalos, muito provavelmente furtados pelos Índios.
Nos anos seguintes, tornou-se frequente que estes espantassem os cavalos dos invasores para em seguida os capturarem.

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Estes cavalos acabariam por multiplicar-se nas Grandes Planícies, pelo que, duzentos anos depois da expedição de Coronado, praticamente todos os índios das pradarias se tinham tornado hábeis cavaleiros.
As pinturas rupestres de Newspaper Rock, no Estado do Utah, apresentam uma das mais antigas reproduções de um índio a cavalo.
Desde que passaram a dispor de cavalos, os Índios deixaram de percorrer a pradaria a pé em busca de alimentos e de água. Montando rápidos corcéis, podiam agora caçar os búfalos com maior facilidade.
Alguns cavalos eram especialmente treinados para as expedições de caça, outros para a guerra, havendo sempre procura de novas montadas (em que guerreiros a cavalo, brandindo os seus laços, perseguiam e capturavam cavalos das manadas selvagens que vagueavam nas planícies).
E foi montando estes animais, descendentes dos que os Espanhóis tinham levado séculos antes da Europa, que os Índios se tornaram os temíveis adversários do avanço da colonização branca do Oeste Americano.
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Adaptado de: Great Adventures that Changed Our World - (Pinturas de Alfred Jacob Miller e Albert Bierstadt)
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sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago - Portugal (1922-2010)

. Nascido na Azinhaga do Ribatejo, Portugal, 16 de Novembro de 1922.
Falecido hoje, 18 de Junho de 2010, em Lanzarote, Espanha.
Prémio Nobel da Literatura - 1998.

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“Vai sair a procissão de penitência.
Castigámos a carne pelo jejum, maceremo-la agora pelo açoite.
Comendo pouco purificam-se os humores, sofrendo alguma coisa escovam-se as costuras da alma.
Os penitentes, homens todos, vão à cabeça da procissão, logo atrás dos frades que transportam os pendões com as representações da Virgem e do Crucificado.

Seguinte a eles aparece o bispo debaixo do pálio rico, e depois as imagens nos andores, o regimento interminável de padres, confrarias e irmandades, todos a pensarem na salvação da alma, alguns convencidos de que a não perderam, outros duvidosos enquanto se não acharem no lugar das sentenças, porventura um deles pensando secretamente que o mundo está louco desde que nasceu.

Passa a procissão entre filas de povo, e quando passa rojam-se pelo chão homens e mulheres, arranham a cara uns, arrepelam-se outros, dão-se bofetões todos, e o bispo vai fazendo sinaizinhos da cruz para este lado e para aquele, enquanto um acólito balouça o incensório.
Lisboa cheira mal, cheira a podridão, o incenso dá um sentido à fetidez, o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada.” (*)

(*) José Saramago - Memorial do Convento - Editorial Caminho - Lisboa - Portugal - 1982.
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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Gravuras Antigas

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Retrato de Mulheres Malgaxe - Madagáscar - África
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Desenho de Bida - Ano de 1882

domingo, 13 de junho de 2010

A Mulheres na Idade Média

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O Cristianismo herdou do mundo judaico uma mentalidade contrária ao desempenho de determinadas funções pela mulher.
Esta, por exemplo, não podia aceder ao sacerdócio nem equiparar-se ao homem, do qual, em muitos casos, era simples propriedade.

Isso era claramente evidenciado no último dos mandamentos dados por Jeová a Moisés:
Não desejarás a mulher do teu próximo, nem desejarás a sua casa, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu asno, nem nada de quanto ao teu próximo pertence.

O Cristianismo medieval manteve esta formulação do mandamento e o seu sentido de propriedade, de modo que já no século XIV, falando do sétimo mandamento, o bispo segoviano Pedro de Cuéllar ainda assinalava que, em caso de necessidade, todos os bens eram comuns excepto a mulher, porque o acto carnal não é coisa comum, pois a mulher não é dos varões, mas deve ser uma de um.
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Na prática, a sociedade medieval reconhecia à mulher um estatuto muito superior ao de simples propriedade do pai ou do marido e concedia-lhe personalidade jurídica própria.
O Cristianismo, embora nem considerasse a possibilidade de admitir as mulheres no sacerdócio, criou para elas conventos e mosteiros.

Os textos escritos para formação das mulheres, das monjas e das que pertenciam às classes privilegiadas, testemunham a imagem que delas se tinha na sociedade medieval e o papel que lhes estava reservado.
Para as monjas redigiram-se regras e tratados desde muito cedo, embora quase sempre com um claro sentido familiar.

No século VI, o bispo Cesário de Arles escreveu uma série de conselhos morais para a irmã, Cesária, que entrara para um convento, e o eclesiástico Leandro de Sevilha, na sua obra A Formação das Virgens, instava a irmã, Florentina, a perseverar na vida monástica, afastando-se das mulheres laicas e do trato com homens, especialmente os jovens, e a praticar as virtudes do pudor, da humildade e da paciência, bem como as leituras piedosas.
Mas destas leituras devia excluir livros do Antigo Testamento como O Cântico dos Cânticos, por nele se insinuarem os atractivos carnais do amor humano..

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A preparação monástica tornou possível o aparecimento nos conventos de monjas cultas como a abadessa Hildegarda de Bingen (1098-1179), escritora multifacetada e conselheira de bispos, papas e imperadores.
Ou Herrade de Landsberg (1125-1195), a quem se deve a obra intitulada Jardim das Delícias.
Ou, ainda, as hispânicas Leonor López de Córdova, Teresa de Cartagena e Isabel de Villena.

Quando Teresa de Cartagena escreveu Arvoredo dos Enfermos, alguns “prudentes varões e, igualmente, mulheres discretas” estranharam que uma dona pudesse ter escrito tal obra.
Então ela redigiu em sua defesa uma nova obra (Admiração da Obra de Deus), na qual reivindica para a mulher a possibilidade de aprender e de escrever num plano de igualdade com o homem.

Escreveu Teresa:

Ninguém se admira de que o homem escreva livros porque assim tem acontecido desde tempos imemoriais, e todos se admiram de que uma mulher possa estar à sua altura.
Mas tão fácil é para Deus meter as ciências no entendimento dos homens como no da mulher, embora se considere o cérebro feminino imperfeito e não tão hábil nem suficiente como o dele, e, se Deus o quiser, a mulher terá entendimento equiparável ao masculino na altura oportuna e conveniente, como e quando Ele achar que é mister.”

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As monjas não foram as únicas mulheres cultas, como se pode ver com Dhuoda de Septimânia (século IX) ou com Cristina de Pizan (século XV).
A primeira escreveu entre os anos de 841 e 843 o tratado pedagógico mais antigo do mundo ocidental, o Manual para o Meu Filho.
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A segunda, filha de um médico ao serviço da corte francesa, foi autora de A Cidade das Damas (1405), obra que escreveu em resposta à opinião de tantos homens – clérigos e laicos – que faziam do insulto às mulheres um modo de vida.
No seu Espelho das Damas, a mesma Cristina de Pizan propôs-se combater a opinião de "filósofos, poetas e moralistas que parecem falar a uma só voz para chegarem à conclusão de que a mulher, má por essência e por natureza, sempre se inclina para o vício".

Ajudada pela Razão e pela Justiça, Cristina de Pizan passa em revista na sua obra as mulheres que se destacaram ao longo da história, rebate a ideia masculina de que não devem estudar e opõe-se aos que impedem que o façam as "suas filhas, esposas ou familiares, alegando que os estudos arruinariam os seus
costumes".

Em alguns países medievais, como Castela ou a Inglaterra, reconheciam-se à mulher plenos direitos para chegarem, mesmo, a reinar.
Noutros, como Aragão, esta transmitia os seus direitos aos filhos varões, mas não os exercia pessoalmente, dando-se, em muitos casos, prioridade à sucessão masculina.


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No último degrau da escala, muito longe da mulher ideal celebrada pela poesia dos trovadores, encontravam-se as camponesas ou as mesteirais, das quais pouco se ocupam os textos. Dedica-se alguma atenção às mulheres públicas, embora apenas para preservar a saúde corporal e espiritual dos seus clientes.

A prostituição era um mal menor que os municípios se encarregavam de organizar e manter dentro de limites territoriais a fim de impedir conflitos.
A regulamentação do trabalho das prostitutas, em lugares como Salamanca, durante o reinado dos Reis Católicos, ia desde a nomeação dum “pai de mancebia”, responsável pelo bom funcionamento da casa, até à proibição de que elas se vestissem como as mulheres decentes, a exigência de inspecções médicas periódicas e a proibição de venda de comida ou bebida na casa pública.
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(Adaptado de História de la Humanidad - Edad Media - Direcção de David Solar e Javier Villalba - Editorial Oceano - Barcelona - Espanha).
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