sábado, 20 de fevereiro de 2010

Poema para Galileu (António Gedeão - Portugal)


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios).

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te?
A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno
às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita
num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar
(que disparate, Galileu!)
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa
ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos,
hirtos,
de toga e de capelo
a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível
que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a civilização.

Tu, embaraçado e comprometido,
em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites
e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas
(parece-me que estou a vê-las),
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim,
que sim senhor,
que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado
e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite
louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo,
na própria intimidade do teu pensamento,
(livre e calma),
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes,
grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo,
empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer,
homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso, estoicamente,
mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias,
a todos os contratempos,
enquanto eles,
do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

António Gedeão - Lisboa, Portugal (1906-1997)

Oiça este poema dito por Mário Viegas:

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Momentos indeléveis...



A pequena bailarina do avô

Norman Rockwell - Capa do Saturday Evening Post - 1923

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

"Gil Eannes" - O "Navio-Mãe da Frota Branca" Resistiu!

 
Há mais ou menos trinta anos, na década de 1980, o outrora magnífico Gil Eannes jazia como podem ver acima, defronte da cidade de Lisboa.
Andava errante e escorraçado, de sítio em sítio, imprestável, abandonado, aparentemente condenado a um fim indigno da meritória carreira que construíra em mares longínquos - entre gelos mortíferos, tempestades tropicais e gente remota
 
O Gil Eannes caía literalmente aos pedaços, enferrujando centímetro a centímetro as suas insígnias, o seu casco lendário e os seus interiores, que tinham salvo vidas e abrigado sonhos.
Como um fardo inútil, foi sendo empurrado de cais em cais, até se imobilizar no Cais da Rocha, onde o venderam, para abate, à empresa Baptista & Irmãos, Lda.
O Gil Eannes, exausto, estava, de facto, à beira do fim, sentenciado a desaparecer de vez sob a investida das máquinas trituradoras dos sucateiros…

O Gil Eannes actual (ancorado no porto de Viana do Castelo - Portugal) (1)
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Até que ocorreu o milagre!
Salvo pela gratidão e pela sensibilidade das pessoas, o navio estava já em Alhos Vedros quando a Comissão Pró Gil Eannes o foi buscar para ser rebocado até aos estaleiros de Viana do Castelo, no Norte de Portugal, onde ele nascera em 1955.
Aí o recuperaram, milímetro a milímetro, peça a peça, memória a memória. Insuflaram-lhe a vida antiga, tornando-o de novo altivo e acolhedor como sempre fora.
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O Gil Eannes actual (ancorado no porto de Viana do Castelo - Portugal) (2)
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A Comissão deu entretanto lugar à Fundação Gil Eannes, actual proprietária do navio.
E este, ancorado no antigo porto comercial de Viana do Castelo, tornou-se num Museu flutuante, que abriu as portas ao público em Agosto de 1998 (pode ser visitado nos horários que abaixo se indicam).

As antigas enfermarias, de que o Gil Eannes dispunha, foram recuperadas por forma a poderem transformar-se numa Pousada da Juventude, com 65 camas disponíveis e uma acolhedora sala de convívio (serviço concessionado à Movijovem).


O Gil Eannes actual (ancorado no porto de Viana do Castelo - Portugal) (3)
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Um Pouco de História
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O Gil Eannes foi construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (Portugal).
Pronto em 1955, constituiu sem dúvida o maior desafio que até então se colocara à empresa desde o início da sua actividade, onze anos antes.
Foi projectado pelo Eng.º Vasco Taborda Ferreira para ser um navio-hospital de apoio à frota bacalhoeira portuguesa que operava nos distantes mares do Norte, nas águas da Gronelândia e da Terra Nova.
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Casa do leme (1)
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O Gil Eannes, na sua primeira viagem (1955), iria assistir uma frota pesqueira de 70 unidades, com um total de tripulações que ultrapassavam os 5000 homens.
Repetiria a missão, com imenso mérito, nos 18 anos seguintes, acabando por tornar-se conhecido, entre os que apoiava, pela gloriosa e significativa designação de Navio-Mãe da Frota Branca.
Também lhe chamavam a Misericórdia do Mar.
Muito justificadamente, tais eram as condições de indizíveis dificuldades que padeciam os nossos pescadores nessas águas impiedosas.

Casa do leme (2)

O Gil Eannes era, pois, um hospital flutuante. Mas não se reduzia a isso, como iremos ver.
Tinha um comprimento total de 98,40 metros, uma boca de 13,70 m e um calado de 5,50 m.
Possuía dois motores, que lhe podiam dar uma velocidade de 14,3 nós.

Estava equipado com dispositivos contra incêndios, de que se destaca um sistema automático de inundação por meio de chuva, e um outro para alagamento dos porões de carga com gás carbónico, tudo associado a um equipamento de detecção de fumos.

Possuía ainda um sistema de ventilação bastante evoluído, com uma caldeira que permitia uma temperatura ambiente de 18º C.
O casco estava reforçado para a navegação em mares com gelo.
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Casa das máquinas - O coração do navio (1)

Composto por 3 pavimentos devidamente apetrechados para todas as situações hospitalares, a sua capacidade permitia-lhe receber, em condições de normalidade, até 70 doentes.
No primeiro pavimento estavam instalados os gabinetes de consulta e de radiologia, apetrechados com o material mais moderno da época.
Dispunha de salas de espera e tratamento, câmara escura, enfermarias completamente isoladas para doentes infecto-contagiosos, camarotes para dois médicos, capelão e biblioteca.
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Casa das máquinas - O coração do navio (2)

No segundo pavimento ficavam uma enfermaria para oficiais, outra para doentes em observação, com os respectivos serviços sanitários, e a enfermaria geral com 40 camas separadas por divisórias, servidas por largas janelas que davam a possibilidade aos doentes de assistirem dos seus leitos à celebração da missa.
Este pavimento dispunha também dos alojamentos dos enfermeiros, sala dos curativos e gabinete do enfermeiro de vela.

Casa da rádio - TSF

No terceiro pavimento localizava-se o bloco operatório e de ortopedia, constituído por ampla sala de operações, apetrechada do necessário material, salas de desinfecção e esterilização, gabinete de agentes físicos e laboratório de análises.
Os três pavimentos ligavam-se por amplas escadas e elevador com maca para transporte de doentes.
Em eventual situação de emergência, a lotação do navio podia ser “esticada” até aos 320 doentes.

Consultório médico

O Gil Eannes dispunha de local de culto.
Para além da capela da enfermaria, possuía uma capelinha que abria a toda a largura da tolda, onde sobressaía um artístico painel a óleo, da autoria do pintor Domingos Rebelo, representando ao centro Nossa Senhora dos Mares e tendo aos lados um pescador e um grupo familiar.

Sala de operações

A assistência prestada pelo navio era magnífica e totalmente gratuita.
Se o enfermo fosse pescador de um navio de pesca à linha, recebia como pagamento, durante o período de internamento, uma quantia calculada segundo a média capturada pelos companheiros do navio a que pertencia.
Os cuidados humanitários eram prestados aos pescadores (e demais tripulantes) de qualquer navio que actuasse naquelas paragens da Terra Nova e da Gronelândia, fossem eles espanhóis, franceses, italianos, alemães, russos, ingleses ou das Ilhas Faroé…

Sala de esterilização

Embora concebido e preparado como navio-hospital, o Gil Eannes foi “pau para toda a obra”.
Actuou como navio-capitania (com um oficial da Marinha de Guerra a bordo, o qual, no desempenho de funções de Capitão do Porto, tratava dos casos de (in)disciplina relativos a todas as tripulações da frota pesqueira nacional).

A vida a bordo dos navios da frota pesqueira era muito difícil, quase sempre penosa.
Os momentos de lazer – nas poucas horas que sobravam entre o sono, a pesca e o amanho do bacalhau – passavam-se vendo filmes e jogando as cartas.
Uma rara distracção era uma visita a St. John’s, onde as populações terranovenses acarinhavam esses sacrificados do mar que eram os nossos pescadores.

Cozinha

O Gil Eannes funcionou também como navio-correio, recebendo e distribuindo as correspondências e encomendas dos homens da frota.
Em cada campanha manuseava-se a bordo cerca de um milhar de encomendas recebidas em Lisboa para os navios e suas tripulações e encaminhavam-se de setenta a oitenta mil cartas trocadas entre os pescadores e seus familiares.
Por vezes juntavam-se a bordo, para serem seladas, três a quatro mil cartas e tornavam-se necessários bastantes voluntários para ajudar o tripulante encarregado de tal serviço.

Padaria

O Gil foi ainda navio-abastecedor.
Os serviços de abastecimento aos navios da frota pesqueira eram efectuados sob as mais variadas condições de tempo e mar.
Durante a campanha distribuíam-se por esses navios cerca de 2000 quilos de isco congelado. Também se forneciam 400 toneladas de água potável e 250 toneladas de combustível.
Recebiam-se em terra e entregavam-se aos navios, nos seus locais de pesca, cerca de 90 toneladas de mantimentos e largas centenas de redes e malhas.
Desde equipamentos e farmácias, desde reparações eléctricas até reparações electrónicas – de tudo se fazia para facilitar a vida aos nossos pescadores.

Sala de reuniões

Outras meritórias funções do Gil Eannes: trabalhou como rebocador, salva-vidas e navio quebra-gelos. Quando um dóri ficava encalhado no gelo, o Gil seguia para o local, quebrando o gelo com o seu casco de aço, e abria o sulco de retorno ao barco sinistrado.

Merece realce a assistência prestada ao navio Rio Antuã, que metia água pela proa. O Gil Eannes navegou cerca de 14 horas à frente do barco sinistrado, quebrando com a força das suas duas máquinas a muralha de gelo que lhe surgia pela frente e permitindo assim, em condições excepcionais, que o Rio Antuã chegasse a St. John’s sem novidade de maior.
Por tudo isto lhe chamavam o Navio-Mãe da Frota Branca.
E, também, a Misericórdia do Mar.

Tempos de outrora - O Gil Eannes em alto-mar

O Gil Eannes foi envelhecendo… Os tempos tornaram-se outros, com aquisições directas de bacalhau à Islândia e à Noruega.
A derradeira viagem do navio à Terra Nova ocorreu em 1973.
Ainda nesse ano fez uma viagem diplomática ao Brasil
Mais tarde rumaria à Noruega para de lá trazer bacalhau fresco nas suas câmaras de frio.
Também ajudou a trazer refugiados de Angola…
Depois foi sendo empurrado de cais em cais, como um objecto inútil.
Até que foi salvo, para nosso contentamento, por gente de engenho e coração...
O Gil Eannes resistiu!



Tempos de agora - O Gil Eannes ao anoitecer de Viana do Castelo

Horário de visitas:
Verão (de Abril a Setembro) das 9h00 às 19h00
Inverno (de Outubro a Março) das 9h00 às 17h30

Aberto a visitas todos os dias incluindo sábados, domingos e feriados.
Preço:
Adultos e crianças com mais de 6 anos - € 2,00
Crianças com idades até aos 6 anos - Grátis

O Gil Eannes como Pousada da Juventude
Camarote Duplo - de 22 € a 24 € por dia, consoante a época do ano
Camarote individual - 16 € durante todo o ano
Quarto múltiplo - 9 € a 10 € consoante a época do ano

Reservas

Navio Gil Eannes
+ 351 258 821 582
Central de reservas - 707 20 30 30

Fontes do texto:
Arquivos da Torre
Mário Esteves (comandante do Gil Eannes entre 1959 e 1971)
Brito Ribeiro
Alberto Abreu
Fundação "Gil Eanes"

Fotos:
Clube de Oficiais da Marinha Mercante
Pedro Prata
Rosa Pereira
Brito Ribeiro
Dias dos Reis

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Poeminhas Satíricos - "Um Salão" (Garcia Monteiro)



Às discretas soirées de D. Amália Costa
não vai o que em geral se chama gente baixa;
esta senhora tem sangue fidalgo e gosta
de conservar-se em pé na altura em que se acha.

É tal a selecção que há quem se zangue.
O festejado poeta Aurélio Câncio Rosa
disse já: «Na questão da análise do sangue...
Oh!... É uma senhora extra-escrupulosa!»

A alguém disse ela um dia: «Hoje um simples artista
quer ser gente também. Ah! creia que me exalto
quando vejo um ninguém a erguer-se, a dar na vista,
tendo o arrojo de usar bengala e chapéu alto!»

E os seus olhos aqui tornaram-se fosfóricos.
Ora é fácil de ver por semelhantes falas
que só o que possui pé nobre, pés históricos,
é que pode pisar o chão das suas salas.

Ali vai, por exemplo, o senhor João Proença,
que é barão e será visconde qualquer dia;
homem que às vezes sente uma tristeza imensa
por ter sido alfaiate — um erro que ele expia.

Ali vai o Liró, de esplêndidas maneiras,
cuja profundidade em ciência de minuete
iguala a vastidão das suas algibeiras,
que levam de ordinário o resto do bufete.

Ali vai Câncio Rosa, um vate de alto apreço,
que as damas têm à mão para inventar alcunhas;
mas sempre triste em verso... Um luto! Não conheço
luto mais negro; passa ao colarinho e às unhas.

Consta que no final duma recitação
em que exaltara o mar, «gigante d'ais tamanhos»
perguntou-lhe uma velha em tom de admiração:
«Se o senhor ama o mar, porque não toma banhos?»

Ali vai o senhor Mateus do Nascimento,
depositário fiel, seguro, de tal brio,
que deram-lhe a guardar um certo testamento
e ele fê-lo tão bem que ninguém mais o viu.

Ali vai o major Espadas, um valente,
homem cujo valor tem suscitado invejas,
pronto sempre a bater-se. E ao chá? Façam-lhe frente
Que bravura! É um herói no assalto das bandejas.

Vão outras damas mais de igual merecimento,
a quem se pede à vez «que a festa solenizem»:
E cada qual então, puxando o seu talento,
apresenta o que sabe. E que talentos! dizem.

Produz-se a animação assim desde o começo;
Marca as danças Liró; Espada dá notícias;
toma-se um rico chá, de que se diz o preço...
Umas noites enfim de poéticas delícias.

Não é pois de admirar a roedora inveja
que existe. Câncio então, no Liberal do Pinto,
dá notícia; e conclui: «Inútil talvez seja
dizer que ali só vai o que há de mais distinto».

Garcia Monteiro (1859-1913)

(Horta, Açores, Portugal)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

D. Teresa, mãe do 1.º rei de Portugal (c. 1080-1130)


Retrato imaginário de D. Teresa

Filha natural de D. Afonso VI, rei de Leão e Castela, e de D. Ximena Muniones, ou Nunes.
Ignora-se a data do seu nascimento, calculando-se que este tenha ocorrido cerca do ano de 1080. Faleceu em 1130, por volta dos cinquenta anos.
Casou com D. Henrique de Borgonha, chegado à Península Ibérica para auxiliar o rei de Leão nas lutas da reconquista contra os Mouros. Por tal facto, foi concedido a Henrique o Condado Portucalense, que se tornou no território original de Portugal.

D. Teresa foi mãe do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, que nasceu em Guimarães, cerca de 1109 (?), tendo falecido em 1185.
Não é fácil determinar com precisão os contornos do Condado Portucalense.
Do lado ocidental, sabe-se que ia desde o rio Minho até ao rio Tejo.
Quanto à fronteira oriental, e ao norte do Douro, estendia-se entre a Terra de Panóias e a de Bragança; ao sul do Douro, ia de Lamego ao Côa, devendo seguir uma linha próxima do que é hoje a fronteira portuguesa.

Retrato imaginário do conde D. Henrique, marido de D. Teresa

Quando o conde D. Henrique morreu, em Astorga (1112), tomou D. Teresa a regência do condado sem grande dificuldade, o que prova o carácter hereditário do mesmo. Embora se não conheça qualquer documento probatório, aceita-se que D. Henrique a escolheu para governar na menoridade do filho D. Afonso Henriques.

A confiança ilimitada em Fernão Peres de Trava, representante da fidalguia galega, afastou de D. Teresa os poderosos barões portucalenses, que se associaram em torno do jovem D. Afonso Henriques no sentido da independência do território (em relação a Leão e Castela).

D. Afonso Henriques armou-se a si próprio cavaleiro, em Zamora (1125). O seu primeiro acto militar rumo à independência aconteceu em 1128, junto a Guimarães, quando venceu a batalha de S. Mamede contra as forças de sua mãe, D. Teresa, coligada com os fidalgos galegos (chefiados por Fernão Peres de Trava). Nas forças de Afonso Henriques prevaleciam os minhotos e os beirões.

D. Teresa (a quem aliás a independência de Portugal muito deve) refugiou-se depois da batalha de S. Mamede em terras da Galiza, provavelmente na companhia de Fernão Peres de Trava.
Tendo falecido em 1130, o seu corpo seria trasladado para Portugal.
Repousa na Sé da cidade de Braga, na Capela dos Reis, ao lado do túmulo de seu marido, o conde D. Henrique.


O castelo de Guimarães (Portugal)
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Um texto de Alexandre Herculano sobre D. Teresa

“Os escritores modernos, empenhados em salvar a reputação moral de D. Teresa como mulher, esqueceram-se de lhe fazer justiça como rainha ou regente de Portugal.
Tem-se dissertado largamente sobre o seu consórcio com o conde Fernão Peres de Trava, que nada nos autoriza a admitir, enquanto o valor histórico do seu governo é perfeitamente desprezado.
Todavia, durante catorze anos, os actos da viúva do conde D. Henrique mostram bem a perseverança e a destreza com que buscou desenvolver e realizar o pensamento de independência que ele lhe legara.

D. Teresa e D. Henrique, titulares do condado Portucalense

Cedendo à força das circunstâncias, não duvidava de reconhecer a supremacia da corte de Leão para obter a paz quando dela carecia, salvo o recusar a obediência quando cria possível resistir.
Associando-se habilmente aos bandos civis que despedaçavam a monarquia leonesa, ia criando no meio dela, para si e para os seus, uma pátria.
Apesar das invasões de cristãos e sarracenos e das devastações e males causados por uns ou por outros nos territórios dos seus estados, estes cresceram em população, em riquezas e em forças militares.
Pelas armas e pela política aumentou a extensão dos próprios domínios ao oriente e ao norte, conservando ao sul a linha das fronteiras que seu marido já lhe deixara encurtadas.

D. Afonso Henriques, 1.º rei de Portugal
(Filho de D. Teresa e de D. Henrique)

O castigo de um erro, que, medido pelos costumes do tempo, estava longe de ser imperdoável, parece-nos demasiado severo, e o procedimento dos barões portugueses para com ela merecerá dos prevenidos a imputação de ingrato.
D. Teresa foi vítima de um sentimento nobre em si, mas às vezes excessivo e cego, que ela tinha feito crescer, radicar-se, definir-se, e que serviu de pretexto de rebeldia à ambição de Afonso Henriques, ou antes: à daqueles que por meio do inexperiente príncipe esperavam melhor satisfazê-la.
Este sentimento era o da nacionalidade.”

(Alexandre Herculano – História de Portugal – Tomo II – 9.ª edição – pág. 130-132).
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Bandeira do conde D. Henrique e 1.ª bandeira do reino de Portugal

NOTA ADICIONAL - Datas relevantes da independência de Portugal
(que não se reconduz a um acto único):

a) 24 de Junho de 1128 – Portugal liberta-se face à Galiza – Batalha de S. Mamede, Guimarães.
b) 4 e 5 de Outubro de 1143 – Conferência de Zamora (Leão) - É reconhecido a Afonso Henriques, por Afonso VII de Leão e Castela, o título de Rei (ele já o usava, “internamente", havia cerca de três anos). Isto não significava, automaticamente, o reconhecimento da independência.
c) 13 de Dezembro de 1143 – Afonso Henriques escreve ao Papa e reconhece-se vassalo da Santa Sé (há nisto uma afirmação de libertação em relação a Leão). (Carta Clavis regni).
d) Reconhecimentos de Portugal pela Santa Sé – 1 de Maio de 1144 (carta Devotionem tuam) e 23 de Maio de 1179 (bula Manifestis probatum). Esta segunda é apenas a confirmação do reconhecimento anterior.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ustedes y Nosotros (Mario Benedetti)


 
Ustedes cuando aman
exigen bienestar
una cama de cedro
y un colchón especial.
Nosotros cuando amamos
es fácil de arreglar
con sábanas qué bueno
sin sábanas da igual.

Ustedes cuando aman
calculan interés
y cuando se desaman
calculan otra vez.
Nosotros cuando amamos
es como renacer
y si nos desamamos
no la pasamos bien.

Ustedes cuando aman
son de otra magnitud
hay fotos, chismes, prensa
y el amor es un 'boom'.
Nosotros cuando amamos
es un amor común
tan simple y tan sabroso
como tener salud.

Ustedes cuando aman
consultan el reloj
porque el tiempo que pierden
vale medio millón.
Nosotros cuando amamos
sin prisa y con fervor
gozamos y nos sale
barata la función.

Ustedes cuando aman
al analista van
él es quien dictamina
si lo hacen bien o mal.
Nosotros cuando amamos
sin tanta cortedad
el subconsciente piola
se pone a disfrutar

Ustedes cuando aman
exigen bienestar
una cama de cedro
y un colchón especial.
Nosotros cuando amamos
es fácil de arreglar
con sábanas qué bueno
sin sábanas da igual.

Mario Benedetti (Uruguai)

(1920-2009)

Vocabulário

arreglar - dar um jeito
bienestar - bem-estar
bueno - bom
cortedad - timidez
chismes - mexericos
dictamina - opina
él - ele
hacen - fazem
interés - proveito
magnitud - importância
no - não
nosotros - nós
piola - liberta-se
pone - põe
prensa - imprensa
prisa - pressa
quien - quem
sábanas - lençóis
sabroso - saboroso
sale - sai
salud - saúde
ustedes - vocês
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Jacques Martin (1921-2010) - Partiu o pai de Alix e de Lefranc

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O autor de banda desenhada francês Jacques Martin, que criou a personagem Alix, morreu aos 88 anos, anunciou a editora Casterman.
Jacques Martin, que nasceu em Estrasburgo e estudou na Bélgica, era considerado um dos últimos elementos da escola clássica de banda desenhada franco-belga, a mesma de Hergé e de Edgar P. Jacobs.
Para a editora Casterman, a morte de Jacques Martin representa «o desaparecimento do último gigante da banda desenhada belga».
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Uma das suas mais populares criações, surgida em finais dos anos 1940 na revista Tintin, foi Alix, um jovem e corajoso gaulês protegido de Júlio César.
Jacques Martin trabalhou durante duas décadas com Hergé, o pai do Tintim, e criou ainda, entre outras, as personagens Lefranc e Jhen.
Por causa de problemas de visão, Jacques Martin contou nos últimos anos com a ajuda de vários colaboradores que concretizaram as suas histórias.
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Hergé (à esquerda) e Jacques Martin (à direita)
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Em Portugal, a série Alix foi publicada durante os anos 1980 pelas Edições 70 e, posteriormente, pela Asa, com álbuns como O Imperador da China, O Filho de Espártaco e O Príncipe do Nilo.
Em poucas semanas, a banda desenhada franco-belga perde assim dois nomes importantes.
No começo de Janeiro morreu o desenhador franco-belga Tibet, criador das personagens de banda desenhada Ric Hochet e Chick Bill.

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(Da Revista "Visão") "Quem diria que no último mês haveriam de zarpar para o país das caçadas eternas dois dos mais gigantescos nomes da BD franco-belga?
Vinte dias depois de Tibet, o criador de Ric Hochet, foi a vez de Jacques Martin, o "pai" de Alix e de Lefranc, entrar definitivamente numa imortalidade que já ia tacteando como figura tutelar da Nona Arte, na mais conhecida das suas vertentes europeias.
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Alsaciano de Estrasburgo, combateria pela França da drôle de guerre e passaria um ano num lager alemão, antes de se converter por completo à Bélgica (cuja nacionalidade adquiriria) e à BD no semanário Tintin, onde viria a colaborar com Hergé e a criar, em 1948, a personagem de Alix, o jovem gaulês seduzido pelos lindos olhos de Roma.
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O egípcio Kéos e o grego Orion transportariam para outras séries o vírus pela Antiguidade, contraído através da leitura de Marguerite Yourcenar, enquanto Jehan nos convida a viajar pela época da Guerra dos Cem Anos, Arno pela época napoleónica, Loïs pelo século de Luís XIV e o jornalista Lefranc por alguns problemas da actualidade.

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Mas foi sobretudo a Roma antiga que Martin nos devolveu em todo o seu perturbante e maligno esplendor, por via dos álbuns de Alix, publicados nos idos de 1980 pelas Edições 70.
Órfão de pai e abandonado pela mãe, num percurso que se intui semelhante ao das suas personagens, é difícil separar o bem do mal nas histórias turvas que nos contou por meio de um traço claro e rigoroso.


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Se normalmente não sabemos ao certo para onde se parte quando se parte, no caso de Jacques Martin o maior problema da vida está pois resolvido: os habitantes do futuro poderão ir ao seu encontro no panteão das divindades antigas." (*)

Jacques Martin (1921-2010)
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(*) - Luís Almeida Martins - Revista Visão n.º 882 (28 de Janeiro a 3 de Fevereiro de 2010) - Lisboa - Portugal.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Canção do Exílio (Gonçalves Dias - Brasil)

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Minha terra tem palmeiras,
onde canta o sabiá;
as aves que aqui gorjeiam,
não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
nossas várzeas têm mais flores,
nossos bosques têm mais vida,
nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
mais prazer encontro eu lá;
minha terra tem palmeiras,
onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
que tais não encontro eu cá;
em cismar - sozinho, à noite -
mais prazer encontro eu lá;
minha terra tem palmeiras,
onde canta o sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
sem que eu volte p'ra lá;
sem que desfrute os primores
que não encontro por cá;
sem qu'inda aviste as palmeiras
onde canta o sabiá.

Gonçalves Dias - Brasil (1823-1864)
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010