sábado, 23 de janeiro de 2010

Os Vikings (Cromos - Espanha - 1965)

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Publicado por MAGA, Espanha, ano de 1965.
Desenhos - Luis Bermejo e Matías Alonso
Textos - Pedro Quesada
Extraído de "Viñetas", de Joan Navarro.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (Jorge Amado - Brasil)



A Morte de Vadinho


“Vadinho, o primeiro marido de Dona Flor, morreu num domingo de Carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animação, no Largo Dois de Julho, não longe de sua casa. Não pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de mais quatro amigos, todos com traje de baiana, e vinham de um bar no Cabeça onde o uísque correra farto à custa de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulário.

O bloco conduzia uma pequena e afinada orquestra de violões e flautas; ao cavaquinho, Carlinhos Mascarenhas, magricela celebrado nos castelos, ah!, um cavaquinho divino.
Vestiam-se os rapazes de ciganos e as moças de camponesas húngaras ou romenas; jamais, porém, húngara ou romena ou mesmo búlgara ou eslovaca rebolou como rebolavam elas, cabrochas na flor da idade e da faceirice.

Vadinho, o mais animado de todos, ao ver o bloco despontar na esquina e ao ouvir o ponteado do esquelético Mascarenhas no cavaquinho sublime, adiantou-se rápido, postou-se ante a romena carregada na cor, uma grandona, monumental como uma igreja – e era a Igreja de São Francisco, pois se cobria com um desparrame de lantejoula doirada – anunciou:
- Lá vou eu, minha russa do Tororó!…O cigano Mascarenhas, também ele gastando vidrilhos e missangas, festivas argolas penduradas nas orelhas, apurou no cavaquinho, as flautas e os violões gemeram, Vadinho caiu no samba com aquele exemplar entusiasmo, característico de tudo quanto fazia, excepto trabalhar.





Rodopiava em meio ao bloco, sapateava em frente à mulata; avançava para ela em floreios e umbigadas, quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no chão botando uma baba amarela pela boca, onde o esgar da morte não conseguia apagar de todo o satisfeito sorriso do folião definitivo que ele fora.

Os amigos ainda pensaram tratar-se de cachaça, não os uísques do fazendeiro; não seriam aquelas quatro ou cinco doses capazes de possuir bebedor da classe de Vadinho; porém, toda a cachaça acumulada desde a véspera ao meio-dia, quando oficialmente inauguraram o Carnaval no Bar Triunfo, na Praça Municipal, subindo toda ela de uma vez e derrubando-o adormecido.

Mas a mulata grandona não se deixou enganar; enfermeira de profissão, estava acostumada com a morte, frequentava-a diariamente no hospital. Não, porém, tão íntima a ponto de dar-lhe umbigadas, de pinicar-lhe o olho, de sambar com ela. Curvou-se sobre Vadinho, colocou-lhe a mão no pescoço, estremeceu, sentindo um frio no ventre e na espinha:
- ‘tá morto, meu Deus!Outros tocaram também o corpo do moço, tomaram-lhe do pulso, suspenderam-lhe a cabeça de melenas loiras, buscaram-lhe o palpitar do coração.
Nada obtiveram, era sem jeito, Vadinho desertara para sempre do Carnaval da Bahia. (…)” (*)


(*) – Dona Flor e Seus Dois Maridos – Jorge Amado – Brasil (1912-2001) – Editado por Publicações Europa-América – Lisboa – Portugal -1970.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Grandes Quadros - Dante Gabriel Rossetti

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A Noiva (1866)

Dante Gabriel Rossetti - Inglaterra - (1828-1882)

domingo, 17 de janeiro de 2010

O Homem Que Tinha Vergonha do Pai (em: "O Conde d'Abranhos" - Eça de Queiroz)




“(…) Logo que o Conde entrou na Câmara, fez o seu casamento tão rico e se estabeleceu em Lisboa, pensou sem demora em elevar paralelamente a situação social de seu pai.
Encontrou nele, porém, exigências tais que tornaram impossível a realização dos seus desejos.
As negociações foram longas, muito delicadas, muito secretas.
Tenho nas mãos toda essa correspondência, e posso dizer que nela o Conde mostra um tacto, uma prudência, uma previdência geniais.

Seu pai, ao princípio, desejou que o Conde lhe fornecesse meios de abrir em Lisboa um grande estabelecimento de alfaiate.
Isto era naturalmente inaceitável.
Como o Conde me disse muita vez, não podia passar, com o correio de ministro atrás, pela rua onde reluzisse a tabuleta Abranhos, Alfaiate.
Como conseguiria ele, na Câmara, aniquilar um adversário que lhe poderia responder: - Tudo isso é muito bonito, mas o pior é que o senhor seu pai me estragou inteiramente este par de calças e roubou-me na fazenda!

Era impossível esta permanente tortura moral.
E o pai do Conde tanto o compreendeu, que escreveu (não cito textualmente, pois que nem a sua ortografia, nem a sua gramática poderiam ter lugar num livro correcto): - Se não queres que eu possua um estabelecimento do ofício em que me criei, que é honrado e me tem ajudado a viver, e à tua mãe, então o melhor é que eu vá para a tua companhia, para tua casa, onde tua mãe, que é tão económica e tão hábil nos arranjos, pode ser uma governanta útil e poupar a tua mulher todos os incómodos “dos azeites e dos vinagres” (esta expressão é dele).

O Conde recusou com indignação.
Realmente a exigência era curiosa.
Virem aquele homem e aquela mulher de Penafiel, com os hábitos, os modos, as figuras, a fala de dois trabalhadores de Penafiel, viver numa casa onde se recebia a fidalguia de Lisboa, os representantes dos Reis estrangeiros, a flor da literatura, a Maioria!
Absurdo!


Se o Conde, como ele dizia, não fosse um homem público, poderia sacrificar-se a essa companhia plebeia.
Mas como Estadista, a presença na sua casa daquele pai de feição reles, a comer o arroz com a faca, a escabichar os dentes com as unhas, a perguntar às senhoras – então como vai essa bizarria? -, com o seu catarro, cuja expectoração perpétua era repulsiva, só serviria para diminuir a autoridade moral do Conde e o prestígio do seu talento.

Em nome dos interesses superiores do Estado, devia repelir aquela proposta.
Se um dia tivesse a jantar o Ministro de Inglaterra ou de França, no momento de uma negociação delicada e de alto interesse para Portugal, como poderia impressionar os diplomatas estrangeiros, com o pai, ao lado, a tirar cera dos ouvidos?
Foi por isso que ele informou o pai de que só o receberia em sua casa com a condição de nunca aparecer aos jantares ou às soirées.

O velho, decerto mal aconselhado por intrigantes políticos, respondeu com uma carta (que, pelas razões dadas, não cito textualmente) em que lhe diz que, desde que o filho se envergonha de seu pai, todos os arranjos são inúteis, e que cada um siga o seu caminho; eu (diz ele) não posso, aos 55 anos, mudar os meus hábitos e o meu catarro: sou como sou; não tenho as maneiras de um elegante, mas tenho a minha honra e os meus sentimentos.
Que meu filho jante na sala e me faça jantar na cozinha, não!
Continua a ser Abranhos deputado, que eu continuarei a ser Abranhos alfaiate.
Mas nem por isso deixo de ser tão homem de bem como tu (…)” (*)

(*) – Eça de Queiroz (1845-1900) – “O Conde d'Abranhos” – Publicado por Lello & Irmão, Editores – Porto – Portugal – 1973.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Ode ao Gato (Pablo Neruda)




Os animais nasceram imperfeitos,
compridos de rabo,
tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas,
graça
voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho
e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo o gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até aos seus olhos de ouro.

Não há unidade como ele,

não têm nem a lua nem a flor tal contextura:
é uma coisa só,
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha
em seu contorno firme e subtil
é como a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno imperador sem orbe,

conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão,
nupcial sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor na intempérie reclamas,
quando passas e pousas
quatro pés delicados no solo,
cheirando,
desconfiando de todo o terrestre,
porque tudo é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente da casa,

arrogante vestígio da noite,
preguiçoso,
ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta dos quartos,
insígnia de um desaparecido veludo,
certamente não há enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti
e pertences ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários,
tios do gato,
companheiros,
colegas,
discípulos
ou amigos do seu gato.

Eu não.

Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei,
a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica o gineceu
com os seus extravios,
o mais e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.



Pablo Neruda - Chile (1904-1973)

Nas imagens: Rex, um aristogato.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Tempos Antigos - Cuba

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Vendedor de géneros alimentícios

Fonte: Álbum Pintoresco de la Isla de Cuba - Habana - Cuba - cerca de 1850.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Santa Eulália - Barcelona




Cripta de Santa Eulália, situada sob o presbitério da catedral de Barcelona, Espanha.
Rezam as histórias antigas que Eulália, humilde pastorinha de gansos, terá sido treze vezes martirizada pelos Romanos, quando estes dominavam a Península Ibérica (um martírio por cada um dos seus anos de idade).
Chegou a ser padroeira desta mesma cidade de Barcelona.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

domingo, 10 de janeiro de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Portugal Amordaçado" (Mário Soares - Portugal)

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“Este livro tem uma história.
Começou a ser escrito em São Tomé, quando me encontrava deportado, sem prévio julgamento e por tempo indefinido, nessa pequena ilha equatorial.
Precisamente, a ideia surgiu-me quando tive conhecimento pela rádio, única fonte das notícias do dia, de que Salazar tinha sido operado a um hematoma craniano.
Nesse momento, compreendi que uma época da história portuguesa tinha terminado. E que era justo – e necessário – fazer o ponto de todo esse tão longo e doloroso período histórico.



Em vida de Salazar, um livro como o meu era, em sentido rigoroso, inconcebível. Esta simples verificação diz muito sobre a dureza dos tempos que nos tem sido dado viver, em Portugal, e explica por que razão este é o primeiro depoimento sobre a era salazarista. Outros se lhe seguirão, espero – enriquecidos com a visão de outros ângulos da realidade e mais bem elaborados.

É importante e urgente que assim aconteça, para que daí resulte um melhor conhecimento do período da história pátria que se encerrou com o desaparecimento de Salazar e que tanto tem pesado sobre nós. É importante, sobretudo, como contributo essencial para a reflexão que colectivamente todos temos de fazer sobre o nosso futuro.

Mário Soares foi Presidente da República de Portugal de 1986 a 1996

Tendo-me colocado numa posição de combate clara e fortemente empenhada, não se pode pretender que o meu depoimento tenha a fria objectividade de um observador exterior aos factos. Não procurei fazer história, nem escrever capítulos esparsos de memórias, com o desprendimento de quem fala de um passado morto e encerrado, ou compõe, à sua maneira, os factos em que participou, para ilustração dos vindouros.

O meu objectivo foi outro: dar singelamente testemunho de um longo combate desigual, a que assisti e em que estive interessado, mas preocupando-me essencialmente com a preparação do futuro.
Entretanto, procurei redigir as páginas que se seguem com escrupulosa verdade (…)”.

Portugal Amordaçado - Mário Soares (n. 1924) - Publicado por Editora Arcádia - Lisboa - Portugal - 1974.

sábado, 9 de janeiro de 2010

O José das Caixinhas, ou "O Mano das Manas" (Luís Augusto Palmeirim - 1879)




Quem o não conheceu?
Magro, triste, escalavrado, com o chapéu enterrado pela cabeça abaixo, a sobrecasaca ferindo-lhe a espinha dorsal, e as botas como que convidando mais dois pés a alojarem-se junto dos outros dois.
O José das Caixinhas foi, durante muitos anos, o alegrão da garotada, o debique das compradoras folgazãs das caixinhas de papelão, sem serventia determinada.
Quem foi, ou quem era o José das Caixinhas?

(…) O José das Caixinhas era um estóico.
Levava resignadamente a vida, como um animal de carga as cangalhas que o sobrecarregam, sem perguntar porquê nem para onde.
Com um desbotado lenço da Índia atado pelas quatro pontas, e literalmente prenhe de caixas de papelão de várias cores e feitios, percorria o nosso homem a cidade, subindo aos quintos e sextos andares, justificando-se de inculcar à queima-roupa a sua indústria com o resmungar por entre dentes a sacramental desculpa:
É para as manas! Muita pobreza! Comprem, que é para as manas!”




Quem eram as manas?
Novo mistério! Tinham sido bonitas, esbeltas, provocadoras?
Ou tinham nascido e viviam agarradas à concha como a tartaruga, deitando apenas as mãos de fora para retalhar o papelão e ajeitá-lo em formas caprichosas, inventando-lhe depois aplicações também caprichosas?
Não sabemos. Eram as manas. Nesta fraternidade misteriosa se resumia todo o segredo comercial do José das Caixinhas.
Antigamente havia quem pedisse para as almas do purgatório, para os cativos de Argel, para os órfãos; como hoje se pede por anúncios para os asilos, para os albergues, para as creches, para os hospitais. (…)

Deste entranhado amor fraterno, sempre velho e sempre novo, veio ao José das Caixinhas o duplo cognome do “mano das manas”, que ele aceitava como galardão das estafas diárias que apanhava para vender por dois ou três patacos uma caixa de papelão amarelo, com recortes verde-salsa, ou uma almofadinha da cor das chamas infernais, debruada de azul celeste, aliança pouco engenhosa das duas cores simbólicas da bem-aventurança e da condenação eterna.

Para não enxovalhar estes primores artísticos saídos das mãos enrugadas mas limpas das manas, usava o José das Caixinhas luvas de pelica branca, a que sobravam quatro ou cinco centímetros no comprimento dos dedos, o que lhe embaraçava a agilidade precisa para desatar os nós do lenço, invólucro da mercadoria que o amor fraterno punha em circulação com tanto interesse como conhecimento de causa. (…)



Já no fim da vida de negociante de caixas de papelão parece que a saúde das manas não era também das mais florescentes; pelo menos, se lhe perguntavam por elas, a resposta sabida era: “Estão muito doentes; muito trabalho; alguma coisinha para as manas”.
Frases incompletas, significativas de que estava por pouco a indústria do papelão ajeitado em caixas com pretensões a enfeites de toucador, ou decoradas com o pomposo título de estojos, quando algumas polegadas de nastro pregadas nas tampas indicavam o local da tesoura, do furador e da agulheta.

Um belo dia desapareceu o José das Caixinhas!
Os jornais que escrevem os necrológios de todos os pais e de todos os maridos que se deixam morrer, esqueceram-se de registar o passamento deste exemplar dos bons irmãos.
O José das Caixinhas, que era um filósofo prático, que não incomodava a letra redonda mas lia no grande livro da natureza, não mereceu a mais leve comemoração dos seus confrades, nem uma dessas frases feitas com que os vivos enxovalham a memória dos mortos!
Pobre mano das manas! (*)

(*) - Luís Augusto Palmeirim – Galeria de Figuras Portuguesas – Lisboa – Portugal (1879)

L. A. Palmeirim nasceu e faleceu em Lisboa (1821-1893). Além de escritor, foi também director do Conservatório de Lisboa.

Fotos de Deyvis Malta (1.ª) e Dias dos Reis (2.ª e 3.ª).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Notícia de Jornal (Manuel Bandeira - Brasil)


Notícia de Jornal

João Gostoso era carregador de feira livre
e morava no morro da Babilônia
num barracão sem número.

Uma noite
ele chegou no bar Vinte de Novembro
bebeu
cantou
dançou
depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas
e morreu afogado.

Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Tempos Antigos - Cuba


Cocheiro com cavalo e carruagem

Fonte: Álbum Pintoresco de la Isla de Cuba - Cerca de 1850 - Habana - Cuba.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (12) - (Al-Mutamid - séc. XI) - "Coração Inquieto"

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Meu coração inquieto não se dá repouso
e o amor por ti não posso disfarçá-lo.
Lágrimas me caem: gotas de aguaceiro
sobre um corpo minguado, amarelento.
E, no entanto, estás perto, minha amada;
que seria de mim se tu te fosses?
Buscaram as desgraças atingir-me
com os teus olhos profundos de gazela.

Pelas estrelas cintilantes no escuro céu!
Pela própria lua refulgente!
Foi-se-me do jardim o meu orvalho
levado pelo perfume ligeiro do narciso.

Sabes, meu amor, estou pálido, cansado,
causa dó o meu estado - e tu tão indiferente!...
E ainda perguntas se estou doente
ou se me atacou o fogo do desejo!...

Senhora minha - alguém já te fez reparo -,
que injustiça a tua para quem te quer bem!
E ainda perguntaste: "sofres de desejo,
não aguentas a tua impaciência?"
Do meu querer duvidas, como és injusta:
notam-no os presentes e os que se ausentaram.

Allah!, deste imenso amor fiquei enfermo.
Como todas as paixões são fracas a seu lado!
Ele transformou o meu pobre corpo.
Quero a tua presença e não a alcanço.
Pede a Allah perdão por seres injusta,
pois todo o injusto deve pedir perdão!

(Al-Mutamid - Nascido em Beja, 1040 - f. em Marrocos em 1095)
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