segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

domingo, 10 de janeiro de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Portugal Amordaçado" (Mário Soares - Portugal)

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“Este livro tem uma história.
Começou a ser escrito em São Tomé, quando me encontrava deportado, sem prévio julgamento e por tempo indefinido, nessa pequena ilha equatorial.
Precisamente, a ideia surgiu-me quando tive conhecimento pela rádio, única fonte das notícias do dia, de que Salazar tinha sido operado a um hematoma craniano.
Nesse momento, compreendi que uma época da história portuguesa tinha terminado. E que era justo – e necessário – fazer o ponto de todo esse tão longo e doloroso período histórico.



Em vida de Salazar, um livro como o meu era, em sentido rigoroso, inconcebível. Esta simples verificação diz muito sobre a dureza dos tempos que nos tem sido dado viver, em Portugal, e explica por que razão este é o primeiro depoimento sobre a era salazarista. Outros se lhe seguirão, espero – enriquecidos com a visão de outros ângulos da realidade e mais bem elaborados.

É importante e urgente que assim aconteça, para que daí resulte um melhor conhecimento do período da história pátria que se encerrou com o desaparecimento de Salazar e que tanto tem pesado sobre nós. É importante, sobretudo, como contributo essencial para a reflexão que colectivamente todos temos de fazer sobre o nosso futuro.

Mário Soares foi Presidente da República de Portugal de 1986 a 1996

Tendo-me colocado numa posição de combate clara e fortemente empenhada, não se pode pretender que o meu depoimento tenha a fria objectividade de um observador exterior aos factos. Não procurei fazer história, nem escrever capítulos esparsos de memórias, com o desprendimento de quem fala de um passado morto e encerrado, ou compõe, à sua maneira, os factos em que participou, para ilustração dos vindouros.

O meu objectivo foi outro: dar singelamente testemunho de um longo combate desigual, a que assisti e em que estive interessado, mas preocupando-me essencialmente com a preparação do futuro.
Entretanto, procurei redigir as páginas que se seguem com escrupulosa verdade (…)”.

Portugal Amordaçado - Mário Soares (n. 1924) - Publicado por Editora Arcádia - Lisboa - Portugal - 1974.

sábado, 9 de janeiro de 2010

O José das Caixinhas, ou "O Mano das Manas" (Luís Augusto Palmeirim - 1879)




Quem o não conheceu?
Magro, triste, escalavrado, com o chapéu enterrado pela cabeça abaixo, a sobrecasaca ferindo-lhe a espinha dorsal, e as botas como que convidando mais dois pés a alojarem-se junto dos outros dois.
O José das Caixinhas foi, durante muitos anos, o alegrão da garotada, o debique das compradoras folgazãs das caixinhas de papelão, sem serventia determinada.
Quem foi, ou quem era o José das Caixinhas?

(…) O José das Caixinhas era um estóico.
Levava resignadamente a vida, como um animal de carga as cangalhas que o sobrecarregam, sem perguntar porquê nem para onde.
Com um desbotado lenço da Índia atado pelas quatro pontas, e literalmente prenhe de caixas de papelão de várias cores e feitios, percorria o nosso homem a cidade, subindo aos quintos e sextos andares, justificando-se de inculcar à queima-roupa a sua indústria com o resmungar por entre dentes a sacramental desculpa:
É para as manas! Muita pobreza! Comprem, que é para as manas!”




Quem eram as manas?
Novo mistério! Tinham sido bonitas, esbeltas, provocadoras?
Ou tinham nascido e viviam agarradas à concha como a tartaruga, deitando apenas as mãos de fora para retalhar o papelão e ajeitá-lo em formas caprichosas, inventando-lhe depois aplicações também caprichosas?
Não sabemos. Eram as manas. Nesta fraternidade misteriosa se resumia todo o segredo comercial do José das Caixinhas.
Antigamente havia quem pedisse para as almas do purgatório, para os cativos de Argel, para os órfãos; como hoje se pede por anúncios para os asilos, para os albergues, para as creches, para os hospitais. (…)

Deste entranhado amor fraterno, sempre velho e sempre novo, veio ao José das Caixinhas o duplo cognome do “mano das manas”, que ele aceitava como galardão das estafas diárias que apanhava para vender por dois ou três patacos uma caixa de papelão amarelo, com recortes verde-salsa, ou uma almofadinha da cor das chamas infernais, debruada de azul celeste, aliança pouco engenhosa das duas cores simbólicas da bem-aventurança e da condenação eterna.

Para não enxovalhar estes primores artísticos saídos das mãos enrugadas mas limpas das manas, usava o José das Caixinhas luvas de pelica branca, a que sobravam quatro ou cinco centímetros no comprimento dos dedos, o que lhe embaraçava a agilidade precisa para desatar os nós do lenço, invólucro da mercadoria que o amor fraterno punha em circulação com tanto interesse como conhecimento de causa. (…)



Já no fim da vida de negociante de caixas de papelão parece que a saúde das manas não era também das mais florescentes; pelo menos, se lhe perguntavam por elas, a resposta sabida era: “Estão muito doentes; muito trabalho; alguma coisinha para as manas”.
Frases incompletas, significativas de que estava por pouco a indústria do papelão ajeitado em caixas com pretensões a enfeites de toucador, ou decoradas com o pomposo título de estojos, quando algumas polegadas de nastro pregadas nas tampas indicavam o local da tesoura, do furador e da agulheta.

Um belo dia desapareceu o José das Caixinhas!
Os jornais que escrevem os necrológios de todos os pais e de todos os maridos que se deixam morrer, esqueceram-se de registar o passamento deste exemplar dos bons irmãos.
O José das Caixinhas, que era um filósofo prático, que não incomodava a letra redonda mas lia no grande livro da natureza, não mereceu a mais leve comemoração dos seus confrades, nem uma dessas frases feitas com que os vivos enxovalham a memória dos mortos!
Pobre mano das manas! (*)

(*) - Luís Augusto Palmeirim – Galeria de Figuras Portuguesas – Lisboa – Portugal (1879)

L. A. Palmeirim nasceu e faleceu em Lisboa (1821-1893). Além de escritor, foi também director do Conservatório de Lisboa.

Fotos de Deyvis Malta (1.ª) e Dias dos Reis (2.ª e 3.ª).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Notícia de Jornal (Manuel Bandeira - Brasil)


Notícia de Jornal

João Gostoso era carregador de feira livre
e morava no morro da Babilônia
num barracão sem número.

Uma noite
ele chegou no bar Vinte de Novembro
bebeu
cantou
dançou
depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas
e morreu afogado.

Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Tempos Antigos - Cuba


Cocheiro com cavalo e carruagem

Fonte: Álbum Pintoresco de la Isla de Cuba - Cerca de 1850 - Habana - Cuba.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (12) - (Al-Mutamid - séc. XI) - "Coração Inquieto"

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Meu coração inquieto não se dá repouso
e o amor por ti não posso disfarçá-lo.
Lágrimas me caem: gotas de aguaceiro
sobre um corpo minguado, amarelento.
E, no entanto, estás perto, minha amada;
que seria de mim se tu te fosses?
Buscaram as desgraças atingir-me
com os teus olhos profundos de gazela.

Pelas estrelas cintilantes no escuro céu!
Pela própria lua refulgente!
Foi-se-me do jardim o meu orvalho
levado pelo perfume ligeiro do narciso.

Sabes, meu amor, estou pálido, cansado,
causa dó o meu estado - e tu tão indiferente!...
E ainda perguntas se estou doente
ou se me atacou o fogo do desejo!...

Senhora minha - alguém já te fez reparo -,
que injustiça a tua para quem te quer bem!
E ainda perguntaste: "sofres de desejo,
não aguentas a tua impaciência?"
Do meu querer duvidas, como és injusta:
notam-no os presentes e os que se ausentaram.

Allah!, deste imenso amor fiquei enfermo.
Como todas as paixões são fracas a seu lado!
Ele transformou o meu pobre corpo.
Quero a tua presença e não a alcanço.
Pede a Allah perdão por seres injusta,
pois todo o injusto deve pedir perdão!

(Al-Mutamid - Nascido em Beja, 1040 - f. em Marrocos em 1095)
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Profundamente (Manuel Bandeira - Brasil)

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Profundamente

Quando ontem adormeci
na noite de São João
havia alegria e rumor
vozes
cantigas
e risos
ao pé das fogueiras acesas.


No meio da noite despertei
não ouvi mais vozes
nem risos
apenas balões
passavam errantes
silenciosamente
apenas de vez em quando
o ruído de um bonde
cortava o silêncio
como um túnel.


Onde estavam os que há pouco
dançavam
cantavam
e riam
ao pé das fogueiras acesas? —
Estavam todos dormindo
estavam todos deitados
dormindo
profundamente.

Quando eu tinha seis anos
não pude ver
o fim da festa de São João
porque adormeci.
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
minha avó
meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia Rosa
Onde estão todos eles? —
Estão todos dormindo
estão todos deitados
dormindo
profundamente.

Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Recordações da Casa dos Mortos" (Dostoievski - Rússia)



“No meio das estepes, das montanhas ou das florestas intransitáveis das distantes regiões da Sibéria, encontram-se, de longe em longe, pequenas cidades de mil ou dois mil habitantes, com as casas todas construídas de madeira, muitíssimo feias, tendo duas igrejas – uma ao centro da povoação, outra no cemitério – ou melhor, cidades que mais parecem uma aldeia sossegada dos subúrbios de Moscovo do que uma cidade propriamente dita.
Nelas vivem, a maior parte do ano, grande número de agentes da polícia, de adjuntos e outros funcionários subalternos. A compensar o frio intenso da Sibéria, os serviços oficiais são ali muito bem remunerados.



Os habitantes são pessoas simples, sem ideias avançadas, de costumes antiquados, tradicionais e consagrados pelo tempo. Os funcionários, que são o maior contingente da nobreza siberiana, ou são indivíduos da região – siberianos dos quatro costados – ou então vieram da Rússia.
Estes últimos chegam directamente das capitais das províncias, atraídos pelos bons ordenados, pelas subvenções extraordinárias para as despesas da viagem e por outras não menos tentadoras esperanças de futuro. (…)


(…) Foi numa dessas pequenas cidades – alegres e sempre satisfeitas de si mesmas, e cuja amável população me deixou indelével lembrança – que travei conhecimento com um exilado, Alexandre Petrovitch Goriantchikof, ex-fidalgo e ex-proprietário da Rússia.
Fora condenado a trabalhos forçados de segunda ordem por ter assassinado a esposa. Depois de ter cumprido a pena – dez anos de trabalhos forçados – vivia despreocupado e passando despercebido, como colono, na pequena cidade de K. (…)”

Recordações da Casa dos Mortos - Dostoievski - Rússia (1821-1881) - Publicado por Editora Livraria Progredior - Porto - Portugal - 1951.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Grandes Quadros (Frans Hals - Holanda) (1580-1666)


Banquete dos Oficiais da Companhia S. Jorge da Guarda Civil







Banquete dos Oficiais da Companhia St. Hadrian da Guarda Civil








Oficiais e Sargentos da Companhia S. Jorge







Oficiais e Sargentos da Companhia St. Hadrian

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Propaganda da Segunda Guerra Mundial (2)


Estados Unidos






Grã-Bretanha









União Soviética








Alemanha







Estados Unidos







Grã-Bretanha








União Soviética








Alemanha







Estados Unidos







Grã-Bretanha








União Soviética








Alemanha

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Titanic, o Eurostar e as reencarnações...



Eurostar imita Titanic



O Titanic começou a ser construído há um século e partiu-se em dois em 1912.
Era um mundo (o maior e mais moderno navio até então) e o seu fim ilustrou o mundo como ele sempre foi: da 1.ª classe morreram só 38% dos seus passageiros, da 2.ª, 59%, e da 3.ª, 75%...

O mundo foi sempre assim, dividido entre os que têm e os que não têm - com mais ou menos gradações entre a cabina de luxo e os beliches do porão.
Foi há cem anos.

Agora chegam notícias de outra maravilhosa máquina, o comboio Eurostar que atravessa o canal da Mancha, que naufragou.
Não exageremos, só ficaram duas mil pessoas bloqueadas durante 18 horas.
O culpado foi o do costume, o frio - no Titanic, um iceberg, com o Eurostar, a neve.

E o comportamento humano também foi o do costume.
Ficaram famílias sem água nem comida e sem informação.
Eram dos que não têm.

Mas, no túnel bloqueado, alguém foi buscar Claudia Schiffer para a levar até à saída.
Ela tem.
Sempre teve.
Na outra encarnação, ela chamava-se Lady Lucy Duff-Gordon e salvou-se no primeiro salva-vidas que desceu do Titanic (só levava 12 pessoas, havia lugar para 40, mas urgia salvar aqueles passageiros da 1.ª classe).

O mundo o que tem de tranquilizador (e de inquietante, também) é que não nos surpreende. (*)

(*) Ferreira Fernandes - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal (22-Dez-2009)

domingo, 27 de dezembro de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "David Copperfield" (Charles Dickens)



“Serei o herói da minha própria existência ou este papel terá sido desempenhado por outro? Estas páginas o dirão. Para começar a minha vida pelo princípio, registo que nasci (pelo menos assim mo asseveraram e estou disso persuadido) numa sexta-feira à meia-noite. Notou-se que o relógio principiara a dar horas e eu começara a chorar ao mesmo tempo.

Devido ao dia e à hora do meu nascimento, declarou a parteira, bem como várias matronas da vizinhança, que manifestaram vivo interesse por mim antes da data em que o nosso conhecimento se pudesse realizar, primeiro: que eu me destinava a não ter sorte na vida;
segundo, que gozaria do privilégio de ver espíritos e fantasmas.
Estes dons pertenciam inevitavelmente – assim o acreditavam, pelo menos – às pobres crianças, de um ou outro sexo, nascidas às primeiras horas da madrugada de sexta-feira. (…)

 
(…) Nasci em Blunderstone, no Suffolk, ou “algures”, como se diz na Escócia.
Sou um filho póstumo. Os olhos de meu pai tinham-se fechado para a luz do dia seis meses antes de os meus se abrirem.
Ainda hoje há para mim qualquer coisa de estranho nesta ideia de ele nunca me ter visto, qualquer coisa de ainda mais estranho na mistura das minhas recordações de infância com a pedra branca do seu túmulo no cemitério vizinho, e a compaixão inexprimida que eu sentia, ao pensar que ele estava ali, na noite escura, enquanto a nossa pequena sala de estar, tépida e clara, lhe fechava as suas portas – não sem crueldade, pensava eu (…).”


David Copperfield - Charles Dickens - Inglaterra - (1812-1870) - Editado pela Livraria Romano Torres - Lisboa - Portugal - 1967).

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Presépio da Igreja de Nossa Senhora do Cardal (Pombal - Portugal)

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"Tendo pois nascido Jesus em Belém de Judá, em tempo do rei Herodes,
eis que vieram do Oriente uns magos a Jerusalém,
dizendo:
Onde está o rei dos Judeus, que é nascido?
Porque nós vimos no Oriente a sua estrela, e viemos adorá-lo."

A Bíblia - Evangelho de S. Mateus, Capítulo 2 - 1 e 2.
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"Cântico de Natal"- Placido Domingo
Aqui:


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Requiem


 
Há mortos que demoram a morrer
é inútil sepultá-los
eles voltam
demoram-se por vezes numa sombra
num braço de cadeira
ou no rebordo partido de uma chávena.
Ou então escondem-se
em pequenas caixas sobre as mesas.
Há objectos que ficam cheios deles
são como o rosto transmudado dos ausentes
sua marca na casa e no efémero.

Por isso custa tanto retirar o prato e o talher
arrumar os fatos
desfazer a cama.
Há mortos que nunca mais se vão embora.
Há mortos que não param de doer.

(Manuel Alegre - Portugal)
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Gabriel Fauré - Requiem - "In Paradisum":

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Começos...


Pôr-do-Sol

Capa de Norman Rockwell para The Saturday Evening Post - 1926 (U. S. A.)

Grandes Quadros (F. van Dijck - Holanda)


Natureza Morta

Floris Claesz van Dijck - Holanda (1575-1651)