sábado, 8 de maio de 2010

D. João V, rei de Portugal (1689-1750) - Majestoso, Esbanjador e Freirático

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D. João V


D. João V foi o 24.º rei de Portugal.
Nasceu em 22 de Outubro de 1689 e faleceu em 31 de Julho de 1750.
Aclamado rei no dia 1 de Janeiro de 1707.
O seu nome completo: João Francisco António José Bento Bernardo de Bragança.

Filho de D. Pedro II, foi pai do rei D. José (que teve o célebre Marquês de Pombal como primeiro-ministro); avô de D. Maria I (que enlouqueceu); bisavô de D. João VI, o rei que se refugiaria a partir de 1808 em terras brasileiras para se furtar à ameaça napoleónica (facto que acabaria por ter influência decisiva na futura declaração de independência do Brasil em relação a Portugal – ano de 1822).

Casou em 1708 com D. Maria Ana Josefa, arquiduquesa de Áustria, filha do Sacro Imperador Germânico, Leopoldo I, e da condessa Leonor Madalena de Neuburg.
A rainha foi irmã dos Sacro Imperadores José I e Carlos VI.

Muito culta, conhecia e falava alemão, francês, italiano, espanhol e latim. Resignou-se rapidamente ao abandono a que D. João V a votava. Muito devota, entregava-se com frequência a práticas piedosas. Interessava-se por coisas do mar, passeava ao longo do rio Tejo com a Família Real e a Corte, assistindo frequentemente a festas e serenatas no rio e a lançamentos de navios ao mar.
Apaixonada por música, assistia sempre aos concertos e aos serões de ópera da Corte.


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Convento de Odivelas, onde viveu a famosa Madre Paula
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Chamaram a D. João V O Magnânimo ou O Rei-Sol Português, em virtude do luxo de que se revestiu o seu reinado; alguns historiadores recordam-no também como O Freirático, devido à sua conhecida apetência sexual por freiras.
A mais famosa de todas foi a Madre Paula, enclausurada no convento de Odivelas, Lisboa.
Esta Madre Paula, que se fez poderosa e influente pelo domínio que exercia sobre o seu régio amante, foi mãe de um dos filhos ilegítimos de D. João V, os chamados Meninos de Palhavã.

Estes amores freiráticos eram de resto generalizados entre os nobres portugueses do tempo, a tal ponto que, em 1724, alguns deles foram convocados à Secretaria de Estado para assinarem um termo em que se comprometiam a não mais visitarem as freiras nos conventos, a deixarem de lhes escrever e a não lhes fazerem acenos da rua.
É claro que o rei D. João V se considerava à partida isento de tais limitações.

Segundo Veríssimo Serrão, D. João V «era senhor de uma vasta cultura, bebida na infância com os padres jesuítas. Falava línguas, conhecia os autores clássicos e modernos, tinha boa cultura literária e científica e amava a música. Para a sua educação teria contribuído sua mãe (Maria Sofia, condessa de Neuburg), que o educou, e aos irmãos, nas práticas religiosas e no pendor literário.»
E a seguir: «Logo na cerimónia da aclamação se viu o pendor régio para a magnificência.”

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A rainha D. Maria Ana Josefa, esposa de D. João V
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Oliveira Martins, o historiador português, escreveu sobre D. João V, e o seu reinado, palavras muito duras:


“(…) Um facto fortuito, alheio aos elementos naturais, tinha vindo pelos fins do século XVII influir poderosamente nos destinos da nação.
Despovoado e inculto o reino, miseráveis e nuas as povoações, sem riqueza nem trabalho – as minas de ouro do Brasil deram ao rei e ao povo uma fortuna que o país lhes negava.
Lisboa era mais a metrópole de um vasto império ultramarino do que a capital de um reino europeu.
Agora, as minas americanas (do Brasil) chamam todas as ambições e todas as forças para a cidade onde se encontra a vida inteira da nação.

Foi sobre o ouro e os diamantes do Brasil que se ergueu o trono absoluto de D. Pedro II; foi com eles que D. João V, e todo o reino, puderam entregar-se ao entusiasmo desvairado dessa ópera ao divino em que desperdiçaram os tesouros americanos.

O acaso concedeu a um tonto o uso de armas perigosas, abrindo-lhe de par em par as portas dos arsenais; e D. João V, enfatuado, corrompeu e gastou, pervertendo-se também a si e desbaratando toda a riqueza da nação. Tal foi o rei.
O povo, beato e devasso, pastoreado pelos jesuítas, arreava-se agora de pompas, para assistir como convinha à festa solene do desbarato dos rendimentos do Brasil.



Terreiro do Paço - Lisboa
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Essa soma quase incalculável de riquezas não bastou para encher a voragem do luxo e da devoção do espaventoso e beato monarca.
O Inglês sentava-se com ele à mesa e aplaudia os desperdícios, porque todo o ouro do Brasil apenas passava por Portugal, indo fundear em Inglaterra para pagamento da farinha e dos géneros fabris com que ela nos alimentava e nos vestia.
As indústrias nacionais eram as óperas e as devoções: todo o comércio externo estava nas mãos dos ingleses, principalmente, e também de italianos.

Por isso, nem todo o ouro do Brasil chegou, a dívida nacional cresceu, e se Lisboa quis deixar de morrer à sede teve de pagar com um imposto especial a construção do seu Aqueduto.
Os dinheiros do Brasil tinham outro e melhor destino.
Iam para Roma custear o preço de concessões valiosas.

Era a elevação da capela do rei a Patriarcado – um arremedo do Vaticano.
Eram as insistências (sem resultado) para que se definisse o dogma da Imaculada Conceição de Maria, antiga teima dos reis Braganças.
Era a licença para os padres dizerem três missas em Dia de Finados. Eram os lausperenes, as relíquias, as canonizações, as indulgências.
D. João V tinha o amor das cerimónias, e sabia todos os pontos da etiqueta do paço e da igreja. Era mestre em liturgia. Queria bem a todos os santos, mas tinha um fraco particular por S. José e por S. Francisco de Assis.


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D. João V
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A Patriarcal era para D. João V o reino, a corte.
Essa ópera contava quase quatrocentos figurantes.
Afora o patriarca, tinha vinte e quatro principais, setenta e dois prelados, vinte cónegos, setenta e três beneficiados, mais de trinta mestres-de-cerimónias, acólitos, capelães.

Custavam todos trezentos contos ao ano.
E, além disso, cento e trinta cantores e músicos, por trinta e oito contos.
E, por cima, as rendas principescas do patriarca.
E mais ainda o preço incalculável das festas magníficas, com o cenário deslumbrante de ouro, pedrarias, veludos, rendas, luzes, em nuvens de incenso despedidas pelos turíbulos cinzelados.

D. João V não regateava o preço das coisas; antes, como rei brasileiro, rico sem saber como, punha a honra na despesa, imaginando espantar o mundo com o modo perdulário com que dissipava.
Mais de duzentos milhões de cruzados foram para Roma; não tem conta o que deu pelo reino às igrejas, aos conventos de frades e freiras, e, na sua fúria de ser esmoler-mor do catolicismo, lembrava-se de todos derramando por toda a parte o ouro do Brasil.
Alexandre de Gusmão, atónito, apertava a cabeça com ambas as mãos, exclamando:
A fradaria absorve-nos, a fradaria suga tudo, a fradaria arruína-nos!

O rei não pensava em tal. E, emproado, soberano, a peruca majestosa, o pulso em fofas rendas, com a mão sobre a bengala, risonho de si, passeava os olhos pela ópera faustosa.
Vestia-se de Paris.
Era, deveras, um grandíssimo rei!
E os mitrados de púrpura, os tonsurados, de rastos, humildes, batendo nos peitos, louvavam e adoravam o Grande Lama do extremo ocidente.



Convento de Mafra - Portugal
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Mas não estava satisfeito ainda o grande rei.
Queria também monumentos, e traçou uma basílica maior do que o reino.
O convento de Mafra devorou, em dinheiro e gente, mais do que Portugal valia.
Por fim o rei conseguira o cúmulo da sua ambição; e a mania dos monumentos, que lavrara em França com Luís XIV, transportada para cá, erguia de uma só vez, num lugar único, uma montanha fria de pedra.

Mafra, vasto abrigo mortuário, povoado de frades negros, era ao mesmo tempo o palácio do moderno Salomão.
50 000 homens andaram nessa obra, como escravos; e ao lado a forca ameaçava os que protestassem.
As oficinas de Roma e de Veneza, de Milão e de Génova, da Flandres e da França tinham fornecido as alfaias preciosas, os lustres e candelabros, os cancelos de bronze arrendado, as lâmpadas e tocheiros, os relógios e carrilhões.
Nunca se vira ópera tão estrondosa de músicas, tão brilhante de ouros, pedrarias, luzes, púrpuras, rendas, sedas!.

D João V
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No meio da comédia burlesca da devoção, a desordem, a corrupção eram enormes.
Tudo se consegue com quaisquer quatro bolsas, aplicadas decentemente a qualquer bonzo, dizia Alexandre de Gusmão, que via as coisas de dentro.
Os fidalgos ocupavam-se de troças brutais, promovendo tumultos e desordens, em que havia mortos.
O próprio irmão do rei, o infante D. Francisco, divertia-se nessas aventuras e raptos nocturnos que ensanguentavam as ruas da capital.
A antiga valentia portuguesa aparecia transformada em uma brutalidade grosseira.

A orgia sanguinária e lúbrica era o fundo real do quadro da devoção e da majestade burlesca.
O conde de Tarouca, tão piedoso, vivia amancebado com a Rocha, furtada por ele ao pai e casada com um criado seu; a Rocha fugiu-lhe com o padre Soares.
O conde de Valadares, que matara a filha com crueldades devotas, ia disfarçado de mulher, de manto e touca, falar à criada em Santa Clara, e dormia no convento com ela.
O prior de S. Jorge tinha 65 anos e um serralho de beatas suas confessadas. A Inquisição interveio, condenando-o a degredo; mas o velho defendia-se dizendo que o amor é caridade, resumo de toda a lei.

A abadessa do convento de Santa Ana de Lisboa fugia para a Holanda com um frade capucho.
A Quaresma e a Semana Santa eram a época desejada das aventuras piedosas.
Dizia-se que o rei ia disfarçado de andrajos de pobre para junto do andor do Senhor dos Passos da Graça beliscar as fidalgas quando beijavam o pé da imagem..
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É verdade que D. João V perdia a cabeça por todas as mulheres.
Mas a sua verdadeira paixão estava em Odivelas, o ninho da Madre Paula.
Madre Paula e a irmã Maria da Luz viviam juntas nesse fofo recinto preparado para todas as voluptuosidades. Todo o luxo da época se acumulara no palacete misterioso e maravilhoso: as talhas douradas, os mosaicos de Itália, os charões da Índia, os móveis de ébano embutidos de marfim, os espelhos de Veneza, os cristais, as cambraias, as rendas, as pratas e ouros, as franjas pesadas, os estofos de melania (a fazenda da moda) e as sedas adamascadas que revestiam as paredes.

As duas irmãs dormiam no mesmo quarto, e entre as duas camas tinham duas pias de prata, com água benta, para se persignarem.
O rei entrava e saía, sem se esconder, sem recear que o vissem. Todo o convento o conhecia e lhe beijava, reverentemente, a mão. Perto do palácio, ao Arco dos Pregos, o Cucolim, ao contar as idas para Odivelas dizia: Ali perde a vergonha!

O voluptuoso monarca era verdadeiramente rei, porque o seu povo – a nobreza, o clero, a burguesia rica – ardia nas mesmas paixões.
A perversão dos instintos, o vazio das inteligências, a maldade imbecil e a carolice piegas e lúbrica retratavam a primor o estado caduco do corpo da nação amortalhada num sudário de brocados de sacristia.
Portugal era um cenário de ópera armado numa igreja.
Não somos nós, com as nossas críticas, quem o diz: confessam-no os contemporâneos. Leia-se o que escreveu o Cavaleiro de Oliveira, leia-se Alexandre de Gusmão, leia-se o Testamento Político de D. Luís da Cunha.
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Nada há a esperar do rei: é a impressão que sai do texto deste último documento.
Foi a este porto, leitor amigo, que nos conduziu a educação que os jesuítas começaram a dar-nos no XVI século.
Não se investe debalde contra a natureza, seja em nome de quem for.
E os padres, secando em nós todas as fontes da vida real e justa, deram-nos em troca um sistema de tresvarios e fraquezas, para nos salvarem.

Quando estávamos a bom caminho do fim final, o (rei) Bragança lembrou-se de nos remir, e as minas do Brasil vieram jorrar um dilúvio de ouro nos bolsos de uma gente perdida de corpo e alma.
Das loucuras que isso deu, fiquem estas páginas por documento.
A história interrompe-se, mas não termina aqui.
Se alguém pensa que um povo não podia descer mais, engana-se: em breve se convencerá da verdade". (*)
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(*) - História de Portugal - Oliveira Martins (adaptações e ordenação da Torre da História Ibérica)
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Uma Tragédia Ibérica - Imagens da Guerra Civil de Espanha (1936-1939)

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A famosa foto de Robert Capa: morte de um republicano





Situação após um mês de guerra















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Situação a 5 meses do final da guerra. A Catalunha republicana foi separada do teatro de operações de Madrid. Agora é só uma questão de tempo: a República está perdida.







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Bruscamente, a 1 de Abril de 1939, menos de três anos após o início do conflito (18-Julho-1936), o chefe do Movimento Nacionalista, generalíssimo Francisco Franco, escreveu numa simples folhinha de papel timbrado, em letra corrida e desprendida, a fórmula de encerramento de uma tragédia.
En el dia de hoy ... la guerra ha terminado.
Meio milhão de mortos depois...

domingo, 2 de maio de 2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Grandes Quadros (F. G. Waldmüller - Áustria)

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O Aniversário da Avó

Ferdinand Georg Waldmüller - Áustria (1793-1865)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Capitalismo Moderno e Finanças Virtuais - ou: A Era dos Novos Corsários

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"Quando o bando de saqueadores passa pela aldeia os aldeões entregam-lhe o que têm.
Fazem por manter a compostura e a humildade para lhes agradar.
Talvez assim partam mais depressa e escolham outra vítima do saque.
Assim se comportam os Estados perante os salteadores da modernidade.

Primeiro foi a Grécia.
Agora é Portugal.
O Reino Unido, com uma situação económica que esteve, em termos relativos, pior do que a nossa, manteve-se, mesmo depois da falência quase generalizada dos seus bancos, com a sua avaliação intocável.
Porque será?
Porque é um jogo mais pesado.

O facto de a correcção dos ratings da Grécia e de Portugal serem feitos no mesmo dia encaixa na narrativa que foi construída.
Quem tem dúvidas de que estas notações fazem parte dos ataques especulativos às dívidas dos países mais frágeis da União vive num Mundo de fantasia - não há fé mais ingénua do que a fé no equilíbrio purificador do mercado.

Dirão que exagero.
Que as agências de rating não inventam a realidade.
Falso.
A realidade não precisaria delas quando falamos de contas que são públicas e auditadas, como são as dos Estados (recordo que em Portugal não houve, ao contrário do que aconteceu com a Grécia, encobrimentos oficiais do défice).
Os números estão aí para quem os queira analisar.

Estas agências constroem narrativas para os especuladores (ou, na melhor das hipóteses, em vez de darem informação rigorosa, limitam-se a devolver aos mercados a sua própria histeria, acabando por ajudar a criar aquilo que anunciam).
E isso basta para que o virtual se torne real.
Os especuladores só querem saber se na realidade virtual em que jogam terão ganhos.
Como percebemos com o que nos levou a esta crise financeira internacional, enquanto for possível alimentar o jogo a realidade não interessa para nada.

Dirão que exagero.
Que as agências de notação são competentes e que se não fossem deixariam de ser ouvidas pelos investidores.
Falso.
Devo recordar que a mesma Standard & Poor's, que agora corrige em baixa o rating português, foi obrigada, aquando do começo da crise, a corrigir num só dia a notação de mais de 90 activos financeiros ligados ao imobiliário.
Tinha falhado em todos.
Porque o jogo obrigava a alimentar a ilusão.
Como falhou na AIG e na Lehman Brothers.
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Vale a pena recordar que foram estas agências que só se aperceberam da catástrofe financeira do Dubai quando ela chegou aos jornais.
Que deram uma excelente nota à Islândia na véspera de o país ter entrado em falência.
Que avaliaram com um triplo A o que agora chamamos de activos tóxicos.
E aí estão a dar conselhos aos investidores sobre a credibilidade das contas dos Estados.

Dirão que, mesmo assim, a vida é como é e que devemos fazer sacrifícios para lhes agradar.
Elas querem sangue.
O discurso sacrificial diz bem ao ponto a que deixámos que o capitalismo financeiro, que nada produz, nos levasse.

Mas, ainda assim, nada chegaria para contrariar a profecia.
As mesmas agências que já ameaçavam cortes no rating se o PEC não fosse suficientemente austero, também ameaçavam cortes no rating se ele não apontasse para o crescimento económico.
E ameaçavam cortes no rating se prometêssemos as duas coisas e tal não fosse credível, coisa que nunca poderia ser.
Somos uma carta marcada a quem só resta esperar pela sua sorte.

Dirão que exagero.
Que as agências de rating são independentes.
Falso.
Elas dependem dos investidores que têm dinheiro empatado no jogo.
Elas estão dependentes de vários interesses no mercado que lhes pagam os serviços.
No dia em que a Europa decidir, como já prometeu, avançar com uma estrutura dependente do Banco Central Europeu que possa ser árbitro e não apenas agente, talvez haja um contrapeso neste jogo viciado.

Entretanto, com uma Europa cega e disposta a ver as suas aldeias (todas da periferia - porque será?) a serem saqueadas sem uma reacção à altura, teremos de aceitar resignados o triunfo da política da aparência - tem de parecer que vai haver sangue -, do capitalismo financeiro improdutivo e da acção sem rosto dessa entidade etérea à qual chamamos "os mercados".
Tudo é virtual menos os estragos que os salteadores deixam à sua passagem.

Há dois anos todos os políticos juraram, perante a irresponsabilidade dos negócios financeiros imobiliários, em que estas agências tiveram o papel de promover lixo tóxico, que alguma coisa teria de mudar.
Também essa vontade era uma ilusão.
Os aldeões continuam entregues aos caprichos dos saqueadores." (*)

(*) Daniel Oliveira - Expresso Online e blogue Arrastão (Lisboa - Portugal)

terça-feira, 27 de abril de 2010

domingo, 25 de abril de 2010

"A Ilustre Casa de Ramires" (Eça de Queiroz) - O Encontro de José Casco com o Fidalgo da Torre

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NOTA PRÉVIA

Neste famoso romance do português Eça de Queiroz, o jovem Gonçalo Mendes Ramires, Fidalgo da Torre, é o representante de uma velha e renomada nobreza.
Orgulhoso das glórias dos antepassados, que imagina personificar no presente, ele passa algum do seu tempo na biblioteca da mansão em que habita, na aldeia de Santa Ireneia, escrevendo uma novela épica sobre as remotas façanhas daqueles.

Gonçalo, infelizmente, vive em permanentes aflições financeiras. Certa ocasião, visitado pelo lavrador José Casco dos Bravais, decide arrendar-lhe a Quinta da Torre por novecentos e cinquenta mil-réis anuais, compromisso solenemente celebrado com um aperto de mão e um farto copo de vinho.
Todavia, quando lhe aparece outro lavrador, o Pereira, a tentá-lo com mais cem mil-réis, Gonçalo – que é tão generoso como arrebatado e pusilânime – logo esquece o negócio fechado com o Casco para aceitar alvoroçadamente a nova oferta. E não pensa mais no assunto.

Até que, decorrido um tempo, seguindo ele ligeiro e desprevenido por um atalho dos pinheirais, dá subitamente de caras com o lavrador enganado, o digno José Casco dos Bravais.
O relato desse memorável e inesperado encontro é apenas um dos exemplos da genialidade de Eça de Queiroz.
Confirmem a seguir.
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"(…) O Fidalgo da Torre chegara à esquina do muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do pinheiral e da mata.
Do portão nobre, que outrora se erguera nesse recanto com lavores e brasão de armas, restavam apenas os dois umbrais de granito, amarelados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancela de tábuas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos anos.
E nesse momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregado de mato, um carro de bois, que uma linda boieirinha guiava.
— Nosso Senhor lhe dê muito boas-tardes!
— Boas-tardes, florzinha!

O carro lento passou. E logo atrás surgiu um homem, esgrouviado e escuro, trazendo ao ombro o cajado, de onde pendia um molho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravais. E seguia, como desatento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha as silvas floridas do valado. O outro, porém, estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silêncio do arvoredo e da tarde, o nome do Fidalgo.
Então, com um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou, forçando um sorriso afável:
— Olá! É você, José! Então que temos?

O Casco engasgara, com as costelas a arfar sob a encardida camisa de trabalho. Por fim, desenfiando das cordas o marmeleiro que cravou no chão pela choupa:
— Temos que eu falei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que depois me faltasse à palavra!
Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e custosa — como se levantasse uma maça de ferro:
— Que está você a dizer, Casco? Faltar à palavra! Em que lhe faltei eu à palavra?... Por causa do arrendamento da Torre? Essa é nova! Então houve por acaso escritura assinada entre nós? Você não voltou, não apareceu...
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O Casco emudecera, assombrado.
Depois, com uma cólera em que lhe tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as secas mãos cabeludas, fincadas ao cabo do varapau:
— Se houvesse papel assinado, o Fidalgo não podia recuar!... Mas era como se houvesse, para gente de bem!... Até V. S.ª disse, quando eu aceitei: «viva! está tratado!...» O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo, enfiado, aparentou a paciência dum senhor benévolo:
— Escute, José Casco. Aqui não é lugar, na estrada. Se quer conversar comigo, apareça na Torre. Eu lá estou sempre, como você sabe, de manhã... Vá amanhã, não me incomoda.

E endireitava para o pinhal, com as pernas moles, um suor arrepiado na espinha — quando o Casco, num rodeio, num salto leve, atrevidamente se lhe plantou diante, atravessando o cajado:
— O Fidalgo há-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A mim não se me fazem dessas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!

Gonçalo relanceou esgazeadamente em redor, na ânsia dum socorro.
Só o cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara sob um resto de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos já se adensava sombra e névoa.
Então, estarrecido, Gonçalo tentou um refúgio na ideia de Justiça e de Lei, que aterra os homens do campo. E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços ressequidos e trémulos:

— Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a gritar. Pode haver desgosto, aparecer o regedor. Depois é o tribunal, e a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! Se descobriu motivo para se queixar, vá à Torre, conversamos. Pacatamente tudo se esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a enxovia...

Então de repente o Casco cresceu todo, no solitário caminho, negro e alto como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados, quase sangrentos:
— Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!... Pois ainda por cima de me fazer a maroteira, me ameaça com a cadeia!... Então, com os diabos! Primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...
Erguera o cajado... — Mas, num lampejo de razão e respeito, ainda gritou, com a cabeça a tremer para trás, através dos dentes cerrados:
— Fuja, Fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!
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Gonçalo Mendes Ramires correu à cancela entalada nos velhos umbrais de granito, pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou pela latada que orla o muro, numa carreira furiosa de lebre acossada!
Ao fim da vinha, junto aos milheirais, uma figueira-brava, densa em folha, alastrara dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado.
Nesse esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando.

O crepúsculo descera sobre os campos — e com ele uma serenidade em que adormeciam frondes e relvas.
Afoitado pelo silêncio, pelo sossego, Gonçalo abandonou o cerrado abrigo, recomeçou a correr, num correr manso, na ponta das botas brancas, sobre o chão mole das chuvadas, até ao muro da Mãe-d'água.
De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever, longe, à orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas de camisa, atirou um berro ansioso:
— «Oh! Ricardo! Oh! Manuel! Eh lá! alguém! Vai ai alguém?...»

A mancha indecisa fundira na indecisa folhagem.
Uma rã pinchou num regueiro.
Estremecendo, Gonçalo retomou a carreira até ao canto do pomar — onde encontrou fechada uma porta, velha porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou contra ela os ombros, que o terror enrijara como trancas.
Duas tábuas cederam, ele furou através, esgaçando a quinzena num prego. E respirou enfim no agasalho do pomar murado, diante das varandas da casa abertas à frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra de mil anos, mais negra e como mais carregada de anos contra a macia claridade da Lua Nova que subia.

Com o chapéu na mão, enxugando o suor, entrou na horta, costeou o feijoal. E agora subitamente sentia uma cólera amarga pelo desamparo em que se encontrara, numa quinta tão povoada, enxameando de gentes e dependentes!
Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando ele gritara, tão aflito, da borda da Mãe-d'água!
De cinco criados, nenhum acudira, — e ele perdido, ali, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois homens corressem com paus ou enxadas — e ainda colhiam o Casco na estrada, o malhavam como uma espiga.
Ao pé do galinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou o pátio para a porta alumiada da cozinha.
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Dois moços da horta e a filha da Crispola, Rosa, tagarelavam, regaladamente sentados num banco de pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume estralejava — e a panela do caldo, fervendo, rescendia. Toda a cólera do Fidalgo rompeu:
— Então, que sarau é este? Vocês não me ouviram chamar?... Pois encontrei lá em baixo, ao pé do pinheiral, um bêbedo, que me não conheceu, veio para mim com uma foice!... Felizmente levava a bengala. E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que desaforo! Outra vez que suceda, todos para a rua... E quem resmungar, a cacete!
A sua face chamejava, alta e valente. A pequena da Crispola logo se escapulira, encolhida, para o recanto da cozinha, para trás da masseira.

Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento. E enquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamentações sobre «desgraças que assim se armam!», Gonçalo, deleitado pela submissão dos dois homens, ambos tão rijos, com tão grossos varapaus encostados à parede, amansava:
— Realmente! Sois todos surdos, nesta pobre casa!... Além disso a porta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurrão. Ficou em pedaços.
Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com um queixo de cavalo, pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco cuidada, coçou a cabeça, numa desculpa:
— Pois, com perdão do Fidalgo!... Mas já depois da saída do Relho se lhe pôs uma travessa e fechadura nova... E valente!
— Qual fechadura! — gritou o Fidalgo soberbamente. — Despedacei a fechadura, despedacei a travessa... Tudo em estilhas!

O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu, para agradar:
— Santo nome de Deus!... Então, é que o Fidalgo lhe atirou com força!
E o companheiro, convencido, espetando o queixo enorme:
— Mas que força! A matar! Que a porta era rija... E fechadura nova, já depois do Relho!

A certeza da sua força, louvada por aqueles fortes, reconfortou inteiramente o Fidalgo da Torre, já brando, quase paternal:
— Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesmo nova, não me falta força. O que eu não podia, por decência, era arrastar aí por essas estradas um bêbedo com uma foice até casa do Regedor... Foi para isso que chamei, que gritei. Para que vocês o agarrassem, o levassem ao Regedor!... Bem, acabou. Oh! Rosa, dê a estes rapazes, para a ceia, mais uma caneca de vinho... A ver se para a outra vez se afoitam, se aparecem…


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Era agora como um antigo senhor, um Ramires de outros séculos, justo e avisado, que repreende uma fraqueza dos seus solarengos — e logo perdoa, por conta e amor das façanhas próximas.
Depois, com a bengala ao ombro, como uma lança, subiu pela lôbrega escada da cozinha. E em cima, no quarto, apenas o Bento entrara para o vestir, recomeçou a sua epopeia, mais carregada, mais terrífica — assombrando o sensível homem, estacado rente da cómoda, sem mesmo pousar a infusa de água quente, as botas envernizadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam…

O Casco! O José Casco dos Bravais, bêbedo, rompendo para ele, sem o conhecer, com uma foice enorme, a berrar — «Morra, que é marrão!...»
E ele na estrada, diante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a foiçada resvala sobre um tronco de pinheiro... Então arremete desabaladamente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manuel, como se ambos o escoltassem — e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a cambalear, a grunhir…

— Hem, que te parece? Se não é a minha audácia, o homem positivamente me ferra um tiro de espingarda!
O Bento, que quase se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, pestanejou, confuso, mais atónito:
— Mas o sr. Doutor disse que era uma foice!
Gonçalo bateu o pé, impaciente:
— Correu para mim com uma foice. Mas vinha atrás do carro... E no carro trazia uma espingarda. O Casco é caçador, anda sempre de espingarda... Enfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E também porque, felizmente, nestes casos, não me falta decisão!
E apressou o Bento — porque, com o abalo, o esforço, positivamente lhe tremiam as pernas de cansaço e de fome... Além da sede!
— Sobretudo sede! Esse vinho que venha bem fresco... Do verde e do alvarelhão, para misturar. (…)”

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A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz - Portugal (1845-1900)

sábado, 24 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010