quarta-feira, 5 de maio de 2010

Uma Tragédia Ibérica - Imagens da Guerra Civil de Espanha (1936-1939)

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A famosa foto de Robert Capa: morte de um republicano





Situação após um mês de guerra















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Situação a 5 meses do final da guerra. A Catalunha republicana foi separada do teatro de operações de Madrid. Agora é só uma questão de tempo: a República está perdida.







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Bruscamente, a 1 de Abril de 1939, menos de três anos após o início do conflito (18-Julho-1936), o chefe do Movimento Nacionalista, generalíssimo Francisco Franco, escreveu numa simples folhinha de papel timbrado, em letra corrida e desprendida, a fórmula de encerramento de uma tragédia.
En el dia de hoy ... la guerra ha terminado.
Meio milhão de mortos depois...

domingo, 2 de maio de 2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Grandes Quadros (F. G. Waldmüller - Áustria)

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O Aniversário da Avó

Ferdinand Georg Waldmüller - Áustria (1793-1865)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Capitalismo Moderno e Finanças Virtuais - ou: A Era dos Novos Corsários

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"Quando o bando de saqueadores passa pela aldeia os aldeões entregam-lhe o que têm.
Fazem por manter a compostura e a humildade para lhes agradar.
Talvez assim partam mais depressa e escolham outra vítima do saque.
Assim se comportam os Estados perante os salteadores da modernidade.

Primeiro foi a Grécia.
Agora é Portugal.
O Reino Unido, com uma situação económica que esteve, em termos relativos, pior do que a nossa, manteve-se, mesmo depois da falência quase generalizada dos seus bancos, com a sua avaliação intocável.
Porque será?
Porque é um jogo mais pesado.

O facto de a correcção dos ratings da Grécia e de Portugal serem feitos no mesmo dia encaixa na narrativa que foi construída.
Quem tem dúvidas de que estas notações fazem parte dos ataques especulativos às dívidas dos países mais frágeis da União vive num Mundo de fantasia - não há fé mais ingénua do que a fé no equilíbrio purificador do mercado.

Dirão que exagero.
Que as agências de rating não inventam a realidade.
Falso.
A realidade não precisaria delas quando falamos de contas que são públicas e auditadas, como são as dos Estados (recordo que em Portugal não houve, ao contrário do que aconteceu com a Grécia, encobrimentos oficiais do défice).
Os números estão aí para quem os queira analisar.

Estas agências constroem narrativas para os especuladores (ou, na melhor das hipóteses, em vez de darem informação rigorosa, limitam-se a devolver aos mercados a sua própria histeria, acabando por ajudar a criar aquilo que anunciam).
E isso basta para que o virtual se torne real.
Os especuladores só querem saber se na realidade virtual em que jogam terão ganhos.
Como percebemos com o que nos levou a esta crise financeira internacional, enquanto for possível alimentar o jogo a realidade não interessa para nada.

Dirão que exagero.
Que as agências de notação são competentes e que se não fossem deixariam de ser ouvidas pelos investidores.
Falso.
Devo recordar que a mesma Standard & Poor's, que agora corrige em baixa o rating português, foi obrigada, aquando do começo da crise, a corrigir num só dia a notação de mais de 90 activos financeiros ligados ao imobiliário.
Tinha falhado em todos.
Porque o jogo obrigava a alimentar a ilusão.
Como falhou na AIG e na Lehman Brothers.
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Vale a pena recordar que foram estas agências que só se aperceberam da catástrofe financeira do Dubai quando ela chegou aos jornais.
Que deram uma excelente nota à Islândia na véspera de o país ter entrado em falência.
Que avaliaram com um triplo A o que agora chamamos de activos tóxicos.
E aí estão a dar conselhos aos investidores sobre a credibilidade das contas dos Estados.

Dirão que, mesmo assim, a vida é como é e que devemos fazer sacrifícios para lhes agradar.
Elas querem sangue.
O discurso sacrificial diz bem ao ponto a que deixámos que o capitalismo financeiro, que nada produz, nos levasse.

Mas, ainda assim, nada chegaria para contrariar a profecia.
As mesmas agências que já ameaçavam cortes no rating se o PEC não fosse suficientemente austero, também ameaçavam cortes no rating se ele não apontasse para o crescimento económico.
E ameaçavam cortes no rating se prometêssemos as duas coisas e tal não fosse credível, coisa que nunca poderia ser.
Somos uma carta marcada a quem só resta esperar pela sua sorte.

Dirão que exagero.
Que as agências de rating são independentes.
Falso.
Elas dependem dos investidores que têm dinheiro empatado no jogo.
Elas estão dependentes de vários interesses no mercado que lhes pagam os serviços.
No dia em que a Europa decidir, como já prometeu, avançar com uma estrutura dependente do Banco Central Europeu que possa ser árbitro e não apenas agente, talvez haja um contrapeso neste jogo viciado.

Entretanto, com uma Europa cega e disposta a ver as suas aldeias (todas da periferia - porque será?) a serem saqueadas sem uma reacção à altura, teremos de aceitar resignados o triunfo da política da aparência - tem de parecer que vai haver sangue -, do capitalismo financeiro improdutivo e da acção sem rosto dessa entidade etérea à qual chamamos "os mercados".
Tudo é virtual menos os estragos que os salteadores deixam à sua passagem.

Há dois anos todos os políticos juraram, perante a irresponsabilidade dos negócios financeiros imobiliários, em que estas agências tiveram o papel de promover lixo tóxico, que alguma coisa teria de mudar.
Também essa vontade era uma ilusão.
Os aldeões continuam entregues aos caprichos dos saqueadores." (*)

(*) Daniel Oliveira - Expresso Online e blogue Arrastão (Lisboa - Portugal)

terça-feira, 27 de abril de 2010

domingo, 25 de abril de 2010

"A Ilustre Casa de Ramires" (Eça de Queiroz) - O Encontro de José Casco com o Fidalgo da Torre

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NOTA PRÉVIA

Neste famoso romance do português Eça de Queiroz, o jovem Gonçalo Mendes Ramires, Fidalgo da Torre, é o representante de uma velha e renomada nobreza.
Orgulhoso das glórias dos antepassados, que imagina personificar no presente, ele passa algum do seu tempo na biblioteca da mansão em que habita, na aldeia de Santa Ireneia, escrevendo uma novela épica sobre as remotas façanhas daqueles.

Gonçalo, infelizmente, vive em permanentes aflições financeiras. Certa ocasião, visitado pelo lavrador José Casco dos Bravais, decide arrendar-lhe a Quinta da Torre por novecentos e cinquenta mil-réis anuais, compromisso solenemente celebrado com um aperto de mão e um farto copo de vinho.
Todavia, quando lhe aparece outro lavrador, o Pereira, a tentá-lo com mais cem mil-réis, Gonçalo – que é tão generoso como arrebatado e pusilânime – logo esquece o negócio fechado com o Casco para aceitar alvoroçadamente a nova oferta. E não pensa mais no assunto.

Até que, decorrido um tempo, seguindo ele ligeiro e desprevenido por um atalho dos pinheirais, dá subitamente de caras com o lavrador enganado, o digno José Casco dos Bravais.
O relato desse memorável e inesperado encontro é apenas um dos exemplos da genialidade de Eça de Queiroz.
Confirmem a seguir.
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"(…) O Fidalgo da Torre chegara à esquina do muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do pinheiral e da mata.
Do portão nobre, que outrora se erguera nesse recanto com lavores e brasão de armas, restavam apenas os dois umbrais de granito, amarelados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancela de tábuas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos anos.
E nesse momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregado de mato, um carro de bois, que uma linda boieirinha guiava.
— Nosso Senhor lhe dê muito boas-tardes!
— Boas-tardes, florzinha!

O carro lento passou. E logo atrás surgiu um homem, esgrouviado e escuro, trazendo ao ombro o cajado, de onde pendia um molho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravais. E seguia, como desatento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha as silvas floridas do valado. O outro, porém, estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silêncio do arvoredo e da tarde, o nome do Fidalgo.
Então, com um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou, forçando um sorriso afável:
— Olá! É você, José! Então que temos?

O Casco engasgara, com as costelas a arfar sob a encardida camisa de trabalho. Por fim, desenfiando das cordas o marmeleiro que cravou no chão pela choupa:
— Temos que eu falei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que depois me faltasse à palavra!
Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e custosa — como se levantasse uma maça de ferro:
— Que está você a dizer, Casco? Faltar à palavra! Em que lhe faltei eu à palavra?... Por causa do arrendamento da Torre? Essa é nova! Então houve por acaso escritura assinada entre nós? Você não voltou, não apareceu...
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O Casco emudecera, assombrado.
Depois, com uma cólera em que lhe tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as secas mãos cabeludas, fincadas ao cabo do varapau:
— Se houvesse papel assinado, o Fidalgo não podia recuar!... Mas era como se houvesse, para gente de bem!... Até V. S.ª disse, quando eu aceitei: «viva! está tratado!...» O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo, enfiado, aparentou a paciência dum senhor benévolo:
— Escute, José Casco. Aqui não é lugar, na estrada. Se quer conversar comigo, apareça na Torre. Eu lá estou sempre, como você sabe, de manhã... Vá amanhã, não me incomoda.

E endireitava para o pinhal, com as pernas moles, um suor arrepiado na espinha — quando o Casco, num rodeio, num salto leve, atrevidamente se lhe plantou diante, atravessando o cajado:
— O Fidalgo há-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A mim não se me fazem dessas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!

Gonçalo relanceou esgazeadamente em redor, na ânsia dum socorro.
Só o cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara sob um resto de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos já se adensava sombra e névoa.
Então, estarrecido, Gonçalo tentou um refúgio na ideia de Justiça e de Lei, que aterra os homens do campo. E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços ressequidos e trémulos:

— Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a gritar. Pode haver desgosto, aparecer o regedor. Depois é o tribunal, e a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! Se descobriu motivo para se queixar, vá à Torre, conversamos. Pacatamente tudo se esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a enxovia...

Então de repente o Casco cresceu todo, no solitário caminho, negro e alto como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados, quase sangrentos:
— Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!... Pois ainda por cima de me fazer a maroteira, me ameaça com a cadeia!... Então, com os diabos! Primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...
Erguera o cajado... — Mas, num lampejo de razão e respeito, ainda gritou, com a cabeça a tremer para trás, através dos dentes cerrados:
— Fuja, Fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!
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Gonçalo Mendes Ramires correu à cancela entalada nos velhos umbrais de granito, pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou pela latada que orla o muro, numa carreira furiosa de lebre acossada!
Ao fim da vinha, junto aos milheirais, uma figueira-brava, densa em folha, alastrara dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado.
Nesse esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando.

O crepúsculo descera sobre os campos — e com ele uma serenidade em que adormeciam frondes e relvas.
Afoitado pelo silêncio, pelo sossego, Gonçalo abandonou o cerrado abrigo, recomeçou a correr, num correr manso, na ponta das botas brancas, sobre o chão mole das chuvadas, até ao muro da Mãe-d'água.
De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever, longe, à orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas de camisa, atirou um berro ansioso:
— «Oh! Ricardo! Oh! Manuel! Eh lá! alguém! Vai ai alguém?...»

A mancha indecisa fundira na indecisa folhagem.
Uma rã pinchou num regueiro.
Estremecendo, Gonçalo retomou a carreira até ao canto do pomar — onde encontrou fechada uma porta, velha porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou contra ela os ombros, que o terror enrijara como trancas.
Duas tábuas cederam, ele furou através, esgaçando a quinzena num prego. E respirou enfim no agasalho do pomar murado, diante das varandas da casa abertas à frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra de mil anos, mais negra e como mais carregada de anos contra a macia claridade da Lua Nova que subia.

Com o chapéu na mão, enxugando o suor, entrou na horta, costeou o feijoal. E agora subitamente sentia uma cólera amarga pelo desamparo em que se encontrara, numa quinta tão povoada, enxameando de gentes e dependentes!
Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando ele gritara, tão aflito, da borda da Mãe-d'água!
De cinco criados, nenhum acudira, — e ele perdido, ali, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois homens corressem com paus ou enxadas — e ainda colhiam o Casco na estrada, o malhavam como uma espiga.
Ao pé do galinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou o pátio para a porta alumiada da cozinha.
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Dois moços da horta e a filha da Crispola, Rosa, tagarelavam, regaladamente sentados num banco de pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume estralejava — e a panela do caldo, fervendo, rescendia. Toda a cólera do Fidalgo rompeu:
— Então, que sarau é este? Vocês não me ouviram chamar?... Pois encontrei lá em baixo, ao pé do pinheiral, um bêbedo, que me não conheceu, veio para mim com uma foice!... Felizmente levava a bengala. E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que desaforo! Outra vez que suceda, todos para a rua... E quem resmungar, a cacete!
A sua face chamejava, alta e valente. A pequena da Crispola logo se escapulira, encolhida, para o recanto da cozinha, para trás da masseira.

Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento. E enquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamentações sobre «desgraças que assim se armam!», Gonçalo, deleitado pela submissão dos dois homens, ambos tão rijos, com tão grossos varapaus encostados à parede, amansava:
— Realmente! Sois todos surdos, nesta pobre casa!... Além disso a porta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurrão. Ficou em pedaços.
Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com um queixo de cavalo, pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco cuidada, coçou a cabeça, numa desculpa:
— Pois, com perdão do Fidalgo!... Mas já depois da saída do Relho se lhe pôs uma travessa e fechadura nova... E valente!
— Qual fechadura! — gritou o Fidalgo soberbamente. — Despedacei a fechadura, despedacei a travessa... Tudo em estilhas!

O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu, para agradar:
— Santo nome de Deus!... Então, é que o Fidalgo lhe atirou com força!
E o companheiro, convencido, espetando o queixo enorme:
— Mas que força! A matar! Que a porta era rija... E fechadura nova, já depois do Relho!

A certeza da sua força, louvada por aqueles fortes, reconfortou inteiramente o Fidalgo da Torre, já brando, quase paternal:
— Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesmo nova, não me falta força. O que eu não podia, por decência, era arrastar aí por essas estradas um bêbedo com uma foice até casa do Regedor... Foi para isso que chamei, que gritei. Para que vocês o agarrassem, o levassem ao Regedor!... Bem, acabou. Oh! Rosa, dê a estes rapazes, para a ceia, mais uma caneca de vinho... A ver se para a outra vez se afoitam, se aparecem…


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Era agora como um antigo senhor, um Ramires de outros séculos, justo e avisado, que repreende uma fraqueza dos seus solarengos — e logo perdoa, por conta e amor das façanhas próximas.
Depois, com a bengala ao ombro, como uma lança, subiu pela lôbrega escada da cozinha. E em cima, no quarto, apenas o Bento entrara para o vestir, recomeçou a sua epopeia, mais carregada, mais terrífica — assombrando o sensível homem, estacado rente da cómoda, sem mesmo pousar a infusa de água quente, as botas envernizadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam…

O Casco! O José Casco dos Bravais, bêbedo, rompendo para ele, sem o conhecer, com uma foice enorme, a berrar — «Morra, que é marrão!...»
E ele na estrada, diante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a foiçada resvala sobre um tronco de pinheiro... Então arremete desabaladamente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manuel, como se ambos o escoltassem — e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a cambalear, a grunhir…

— Hem, que te parece? Se não é a minha audácia, o homem positivamente me ferra um tiro de espingarda!
O Bento, que quase se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, pestanejou, confuso, mais atónito:
— Mas o sr. Doutor disse que era uma foice!
Gonçalo bateu o pé, impaciente:
— Correu para mim com uma foice. Mas vinha atrás do carro... E no carro trazia uma espingarda. O Casco é caçador, anda sempre de espingarda... Enfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E também porque, felizmente, nestes casos, não me falta decisão!
E apressou o Bento — porque, com o abalo, o esforço, positivamente lhe tremiam as pernas de cansaço e de fome... Além da sede!
— Sobretudo sede! Esse vinho que venha bem fresco... Do verde e do alvarelhão, para misturar. (…)”

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A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz - Portugal (1845-1900)

sábado, 24 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Grandes Quadros (Goya - Espanha)

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Francisca Sabasa y García

Autor: Francisco de Goya y Lucientes (Espanha) (1746-1828)

domingo, 18 de abril de 2010

A Palavra de Alá - O Encontro de Maomé com Deus

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" (...) Nos espaços agrestes da Península Arábica, durante os primeiros anos do século VII, vivem-se ainda, às vésperas da Revelação, os tempos pesados e abomináveis da ignorância.
Os destinos das tribos, e o de cada um dos homens, flutuam com os humores dos espíritos - os djins - e dependem da vontade de uma corte de deu­ses e deusas mais ou menos complacentes.
As pessoas abandonam-se à melopeia en­torpecente dos adivinhos, percorrem cami­nhos de peregrinação agarradas a bétilos e cele­bram ritos de adoração em torno de árvores, nascentes de água e calhaus sagrados.

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Mas nestas paragens, por estes dias, numa dimensão invisível aos mortais comuns, ocultam-se já ideias e imagens indiscutíveis, por enquanto fragmentadas e obscuras:
Pelos ventos que apressam a marcha ... promete-se-vos uma verdade: o Juízo reali­zar-se-á.
Disfarçada no torvelinho crepitante das tem­pestades de areia, vagueando por céus toldados de nuvens poeirentas, adormecida no tapete brando das dunas, pairando sobre o vinco sinuoso e ressequido dos uedes, a Palavra espera o Enviado:
Eu sou Quem te dá toda a abundância.
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Por cima do deserto de Nefud ou rasando as areias letais do Rub al-Khali, nos calores diurnos de fornalha ou emergindo da dormência gélida das madrugadas, no rasto pachor­rento das caravanas de beduínos ou fluindo do quebranto retemperador dos oásis, aí está, dissimulada, a Palavra:
O teu Senhor conhece perfeitamente quem se extra­viou da Sua senda. Ele conhece perfeita­mente quem está no bom caminho.
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Nas escarpas abruptas que se debruçam para o mar Vermelho, nas pregas da cordi­lheira de Asir, nas planuras que bordejam o golfo Pérsico, no balanço ligeiro das acácias, das tamargueiras e dos juníperos que estremecem ao sopro cálido das ara­gens, por toda a parte e em todas as coisas se insinua a Palavra, aguardando o Profeta que a há-de conduzir ao entendimento e aos cora­ções dos homens:
Prostrai-vos diante de Deus! Adorai-O!
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Nestes lugares, e neste tempo, por alturas do ano de 610, o caravaneiro Muhammad - ou Maomé -, da tribo dos Coraixitas, sente que o assaltam fenómenos es­tranhos, que não é capaz de interpretar.
Casado com a rica Kadidja, a antiga patroa, que se deixou cativar pela sua recta personalidade, ele furta-se com frequência ao bulício próspero da cidade natal, Meca, importante encruzilhada das caravanas de mercadores que atravessam o deserto para unirem o oceano Índico ao Mediterrâneo.

Aqui, onde o fosso entre ricos e deserdados se alarga todos os dias e onde o culto da fortuna e do poder se sobrepõe ao impul­so da honra e da soli­dariedade, este homem de quarenta anos, bom pai, marido afec­tuoso, bem arrumado nos confortos da vida, perturba-se, sente-se a mais, acaba por recolher-se às solidões do monte Hira, nas cercanias da cidade.
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Distraído em meditações graves e inquietas, Muhammad atemo­riza-se com a força que o invade e com a natureza das manifestações que lhe violentam os sentidos.
São zumbidos e si­lêncios, bruscas fulgurâncias, inspi­rações confusas que se desprendem das coi­sas e dos lugares.

Que visões fugidias são es­tas que assim perturbam Muhammad?
O que são e de onde vêm as sentenças enigmáticas que se lhe embrulham na língua febril, contra o céu da boca, e que aí se desfazem e morrem antes de adquirirem um sentido?
Não passará tudo de uma horrível maquinação dos djins?

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Um dia, na Grande Noite, ba­nhado pelas cintilações dolorosas de um intenso jorro de luz, na exaustão de um desmaio revelador, ele dá com um ser misterioso, de as­pecto humano, suspenso entre os céus e a terra, que lhe traz afinal a misericórdia da compreensão:
Muhammad, em verdade és Profeta de Alá! E eu sou o anjo Gabriel!
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Doravante, este notável cidadão de Meca será o sucessor - o último, para os crentes - de Abraão, de Moisés, de Jesus Cristo.
Durante mais de vinte anos vão derramar-se no seu espírito, uma a uma, as mensagens de Deus, que ele divulgará aos homens e que se­rão depois da sua morte guardadas num livro que mudará o mundo - o Corão.
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A Palavra achou, enfim, o Enviado:
Não há outra divindade senão Alá, e Muhammad é o Seu Profeta. (...)" (*)
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(*) - José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais (4ª Crónica - A Palavra de Alá) - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal (2003)

sábado, 17 de abril de 2010

Deus Triste (Carlos Drummond de Andrade)

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Deus é triste.
Domingo descobri
que Deus é triste
pela semana fora
e além do tempo.

A solidão de Deus
é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo
e cobre tudo
tristinfinitamente.

A tristeza de Deus é como Deus:
eterna.
Deus criou triste.
Outra fonte não tem
a tristeza do homem.
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Carlos Drummond de Andrade (Brasil) (1902-1987)
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quinta-feira, 15 de abril de 2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

Balada de Coimbra (Carlos Paredes - Portugal)

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Ó Coimbra do Mondego
E dos amores que lá tive…

A magia desta magnífica cidade portuguesa
de estudantes, de tricanas e de saudades
encerra-se toda na balada
que a genialidade de Carlos Paredes eternizou… (*)
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(*) - E parabéns pelo excelente trabalho de chuckgary no vídeo acima.