domingo, 18 de abril de 2010

A Palavra de Alá - O Encontro de Maomé com Deus

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" (...) Nos espaços agrestes da Península Arábica, durante os primeiros anos do século VII, vivem-se ainda, às vésperas da Revelação, os tempos pesados e abomináveis da ignorância.
Os destinos das tribos, e o de cada um dos homens, flutuam com os humores dos espíritos - os djins - e dependem da vontade de uma corte de deu­ses e deusas mais ou menos complacentes.
As pessoas abandonam-se à melopeia en­torpecente dos adivinhos, percorrem cami­nhos de peregrinação agarradas a bétilos e cele­bram ritos de adoração em torno de árvores, nascentes de água e calhaus sagrados.

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Mas nestas paragens, por estes dias, numa dimensão invisível aos mortais comuns, ocultam-se já ideias e imagens indiscutíveis, por enquanto fragmentadas e obscuras:
Pelos ventos que apressam a marcha ... promete-se-vos uma verdade: o Juízo reali­zar-se-á.
Disfarçada no torvelinho crepitante das tem­pestades de areia, vagueando por céus toldados de nuvens poeirentas, adormecida no tapete brando das dunas, pairando sobre o vinco sinuoso e ressequido dos uedes, a Palavra espera o Enviado:
Eu sou Quem te dá toda a abundância.
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Por cima do deserto de Nefud ou rasando as areias letais do Rub al-Khali, nos calores diurnos de fornalha ou emergindo da dormência gélida das madrugadas, no rasto pachor­rento das caravanas de beduínos ou fluindo do quebranto retemperador dos oásis, aí está, dissimulada, a Palavra:
O teu Senhor conhece perfeitamente quem se extra­viou da Sua senda. Ele conhece perfeita­mente quem está no bom caminho.
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Nas escarpas abruptas que se debruçam para o mar Vermelho, nas pregas da cordi­lheira de Asir, nas planuras que bordejam o golfo Pérsico, no balanço ligeiro das acácias, das tamargueiras e dos juníperos que estremecem ao sopro cálido das ara­gens, por toda a parte e em todas as coisas se insinua a Palavra, aguardando o Profeta que a há-de conduzir ao entendimento e aos cora­ções dos homens:
Prostrai-vos diante de Deus! Adorai-O!
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Nestes lugares, e neste tempo, por alturas do ano de 610, o caravaneiro Muhammad - ou Maomé -, da tribo dos Coraixitas, sente que o assaltam fenómenos es­tranhos, que não é capaz de interpretar.
Casado com a rica Kadidja, a antiga patroa, que se deixou cativar pela sua recta personalidade, ele furta-se com frequência ao bulício próspero da cidade natal, Meca, importante encruzilhada das caravanas de mercadores que atravessam o deserto para unirem o oceano Índico ao Mediterrâneo.

Aqui, onde o fosso entre ricos e deserdados se alarga todos os dias e onde o culto da fortuna e do poder se sobrepõe ao impul­so da honra e da soli­dariedade, este homem de quarenta anos, bom pai, marido afec­tuoso, bem arrumado nos confortos da vida, perturba-se, sente-se a mais, acaba por recolher-se às solidões do monte Hira, nas cercanias da cidade.
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Distraído em meditações graves e inquietas, Muhammad atemo­riza-se com a força que o invade e com a natureza das manifestações que lhe violentam os sentidos.
São zumbidos e si­lêncios, bruscas fulgurâncias, inspi­rações confusas que se desprendem das coi­sas e dos lugares.

Que visões fugidias são es­tas que assim perturbam Muhammad?
O que são e de onde vêm as sentenças enigmáticas que se lhe embrulham na língua febril, contra o céu da boca, e que aí se desfazem e morrem antes de adquirirem um sentido?
Não passará tudo de uma horrível maquinação dos djins?

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Um dia, na Grande Noite, ba­nhado pelas cintilações dolorosas de um intenso jorro de luz, na exaustão de um desmaio revelador, ele dá com um ser misterioso, de as­pecto humano, suspenso entre os céus e a terra, que lhe traz afinal a misericórdia da compreensão:
Muhammad, em verdade és Profeta de Alá! E eu sou o anjo Gabriel!
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Doravante, este notável cidadão de Meca será o sucessor - o último, para os crentes - de Abraão, de Moisés, de Jesus Cristo.
Durante mais de vinte anos vão derramar-se no seu espírito, uma a uma, as mensagens de Deus, que ele divulgará aos homens e que se­rão depois da sua morte guardadas num livro que mudará o mundo - o Corão.
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A Palavra achou, enfim, o Enviado:
Não há outra divindade senão Alá, e Muhammad é o Seu Profeta. (...)" (*)
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(*) - José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais (4ª Crónica - A Palavra de Alá) - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal (2003)

sábado, 17 de abril de 2010

Deus Triste (Carlos Drummond de Andrade)

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Deus é triste.
Domingo descobri
que Deus é triste
pela semana fora
e além do tempo.

A solidão de Deus
é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo
e cobre tudo
tristinfinitamente.

A tristeza de Deus é como Deus:
eterna.
Deus criou triste.
Outra fonte não tem
a tristeza do homem.
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Carlos Drummond de Andrade (Brasil) (1902-1987)
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quinta-feira, 15 de abril de 2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

Balada de Coimbra (Carlos Paredes - Portugal)

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Ó Coimbra do Mondego
E dos amores que lá tive…

A magia desta magnífica cidade portuguesa
de estudantes, de tricanas e de saudades
encerra-se toda na balada
que a genialidade de Carlos Paredes eternizou… (*)
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(*) - E parabéns pelo excelente trabalho de chuckgary no vídeo acima.

domingo, 11 de abril de 2010

Um Mito Brasileiro - Lampião, Rei do Cangaço (1897-1938)

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O Cangaço foi um fenómeno ocorrido no Nordeste brasileiro de meados do século XIX ao início do século XX. Tem as suas origens em questões sociais e fundiárias dessa região, caracterizando-se por acções violentas de grupos ou indivíduos isolados: assaltavam fazendas, sequestravam coronéis (grandes fazendeiros) e saqueavam comboios e armazéns.

Não tinham morada fixa: vagueavam pelo sertão, praticando tais crimes, fugindo e se escondendo.
Os cangaceiros conheciam muito bem o território nordestino e a caatinga (“mata branca”), sendo por isso difícil a sua captura.
Estavam sempre preparados para enfrentar todo o tipo de situação. Conheciam as plantas medicinais, as fontes de água, locais com alimento, rotas de fuga e lugares de difícil acesso.

O primeiro bando de cangaceiros de que se tem conhecimento foi o de Jesuíno Alves de Melo Calado, Jesuíno Brilhante, que actuou por volta de 1870.
E o último foi o de Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto) assassinado em 25 de Maio de 1940.

O cangaceiro mais famoso foi Virgulino Ferreira da Silva, o "Lampião", denominado “Senhor do Sertão" e também "Rei do Cangaço".
Actuou durante as décadas de 1920 e 1930 em praticamente todos os estados do Nordeste brasileiro.
Para as autoridades, Lampião simbolizava a brutalidade, o mal, uma verdadeira doença que precisava ser cortada.
Para uma parte da população do sertão ele encarnou valores como a bravura, o heroísmo e o senso da honra.
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Lampião (Virgulino Ferreira da Silva)
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Virgulino Ferreira da Silva nasceu no dia 7 de julho de 1897, na Fazenda Ingazeira, situada no município de Vila Bela (hoje, Serra Talhada), no sertão de Pernambuco.
Foi o segundo filho de José Ferreira da Silva e de Maria Selena da Purificação.

Naquela época, o sertão quase não possuía escolas e estradas, viajava-se a pé, a cavalo, em burro e em jumento.
Os denominados coronéis (os proprietários de terras) imperavam, sob o signo da prepotência, como os verdadeiros chefes políticos, sem nunca sofrer represálias, porque a força do Estado estava sempre do seu lado.
Eram eles que davam a palavra final, ou seja, elegiam, destituíam, perseguiam, condenavam, absolviam, torturavam e matavam.

Apesar de muito inteligente, Virgulino abandonou a escola para ajudar a família no plantio da roça e na criação de gado. Gostava muito de dançar e de tocar sanfona. Compunha versos e adorava um bom rifle (espingarda).
Sabia costurar muito bem, em pano e couro, e confeccionava as próprias roupas.

Ele tinha 19 anos quando entrou para o cangaço.
Dizem que tudo começou através de disputas com José Saturnino, membro da vizinha família Nogueira. Lutando contra essa família durante muitos anos, Virgulino e seus irmãos já se comportavam como futuros cangaceiros, não tardando a entrar em conflito com a polícia.

A decisão de viver e morrer como bandido, contudo, só foi tomada quando a polícia matou José Ferreira da Silva - o pai de Lampião - enquanto ele debulhava milho.
Naquele mesmo dia, os Ferreira fazem um juramento: o seu luto, até à morte, iria ser o rifle, a cartucheira e os tiroteios.

Quando sabia da existência de um coronel perverso, Lampião não perdia a oportunidade de queimar-lhe as fazendas e matar-lhe o gado.
Nas incursões em vilas e povoados, o grupo saqueava, dizimava e matava. As violências cometidas pelo bando eram inúmeras: tatuagem a fogo, corte de orelha ou de língua, castração, estupro, morte lenta, entre outras.
Muitos habitantes abandonavam definitivamente as suas propriedades, tornando desertas as caatingas, já que elas estavam entregues a soldados e cangaceiros.

Às vezes passavam-se meses sem se ouvir falar de Lampião, pensando-se, inclusive, que teria morrido. Mas, de repente, ele surgia do nada com o seu bando, como um tremendo furacão, lutando contra as volantes (destacamentos móveis da polícia), incendiando fazendas, roubando e matando com a maior naturalidade.
Em algumas ocasiões, seus gestos eram generosos: confraternizava com as pessoas, organizava festas, distribuía dinheiro, pagava bebida para todos.


Maria Déia (ou Maria Bonita, segundo Lampião)
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Em uma de suas paradas para descansar, perto da Cachoeira de Paulo Afonso, Lampião conheceu Maria Déia, filha de um fazendeiro de Jeremoabo, na Bahia.
Ela era casada havia cinco anos com José de Nenén - um comerciante da região - mas nutria uma paixão platónica por Lampião, mesmo sem nunca tê-lo encontrado.

O facto é que Virgulino caiu de amores ao vê-la. E, impressionado com a sua beleza, passou a chamá-la de Maria Bonita.
Em vez de três dias, ficou dez na Fazenda Malhada da Caiçara.
Com a concordância dos pais, que apoiavam o desejo da filha, Maria Déia coloca as suas roupas em dois bornais, penteia os cabelos e parte com Lampião rumo à caatinga.
Era o ano de 1931 e ela tinha 20 anos. Ele, cerca de 34.

Há várias fotos disponíveis sobre a vida dos cangaceiros.
Uma das melhores é a de Maria Bonita (ver acima), cabelos arrumados, sentada num banco, de pernas cruzadas, chapéu sobre o joelho, mão direita sobre o chapéu, exibindo vários anéis, como a modelo moderna orgulhosa por envergar trajes de uma etiqueta de vanguarda.

É a sua foto mais famosa, aparecida à época na revista brasileira O Cruzeiro.
A pose de Maria Bonita sugere o papel das mulheres no cangaço.
Deve-se a elas o adoçamento dos costumes dos cangaceiros.
Nessa fase de quase sedentarismo do grupo, Lampião entrava nas cidades e dizia: “É Lampião que vem chegando, amando, gozando e querendo bem”.
Enunciava o oposto da fama terrorista do bando.
Talvez fosse esse o objectivo de Lampião ao admitir mulheres no grupo.
Segundo interpretações de especialistas, elas facilitavam a comunicação com a população e impunham alguns limites à violência do cangaço.
Diante das câmaras, dão o ar de normalidade, de “família”, à condição sublevada dos cangaceiros.
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O convívio dos cangaceiros de Lampião
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Em 1932, Lampião e Maria Bonita têm uma filha. Chamam-na de Expedita.
Maria Bonita deu à luz no meio da caatinga, à sombra de um umbuzeiro, em Porto de Folha, no estado de Sergipe.
Lampião serviu de parteiro.

Como se tratava de um período de intensas perseguições e confrontos, e a vida era bastante incerta, os pais não tinham condições de criar Expedita dentro do cangaço.
Os factos que ocorreram tornaram-se em assunto polémico. Uns diziam que Expedita tinha sido entregue ao tio João, irmão de Lampião, que nunca fez parte do cangaço; e outros testemunharam que a criança foi deixada na casa do vaqueiro Manuel Severo, na Fazenda Jaçoba.

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Tempos de paz e de lazer...
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O bando de Lampião resistiu durante quase 20 anos, lutando com grupos de civis que o perseguiam e com a polícia de 7 estados nordestinos.
Por todo esse tempo, assaltou propriedades de grandes fazendeiros, atacou povoados, vilas e cidades, roubou, pilhou, torturou e matou os seus adversários.

Apesar de ter sido baleado nove vezes, Lampião sobreviveu a todos os ferimentos, sem contar com qualquer tipo de assistência médica formal.
Para estancar o sangue e curar os ferimentos usavam-se mofo, pó de café e, até, excrementos de gado.
Eram usadas, ainda, ervas medicinais e rezas dos curandeiros, que nem sempre funcionavam como se esperava.

Extremamente habilidoso, dotado de grande capacidade de improvisação, era Lampião quem fazia os curativos, encanava pernas e braços quebrados dos feridos e fazia os partos das mulheres dos cangaceiros. Superdotado de inteligência, ele era médico, farmacêutico, dentista, vaqueiro, poeta, estratega, guerrilheiro, artesão.
Desconfiado, só ingeria algo depois que alguém tivesse provado o alimento.
Mas não conseguiu livrar-se da traição dos falsos amigos.
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Posando para a imprensa brasileira
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No dia 27 de Julho de 1938, conforme o costume de anos a fio, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança.
Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas.
Na madrugada do dia 28, a polícia chegou tão de mansinho que nem os cães pressentiram.
Quando um dos cangaceiros deu o alarme, já era tarde de mais.

Não se sabe ao certo quem os traiu. O certo é que o bando foi apanhado totalmente desprevenido. Quando os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.

O ataque durou uns vinte minutos.
Dos 34 cangaceiros presentes, 11 morreram ali mesmo.
Lampião foi um dos primeiros a morrer.
Logo em seguida, Maria Bonita foi gravemente ferida.
Alguns cangaceiros, transtornados pela morte inesperada do seu líder, conseguiram escapar.
Eufóricos com a vitória, os policiais saquearam e mutilaram os mortos.
Roubaram todo o dinheiro, o ouro e as jóias.

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A ferro e fogo...
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A força volante, de maneira bastante desumana, decepou a cabeça de Lampião.
Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando sua cabeça foi separada do corpo.
O mesmo ocorreu com Quinta-Feira e Mergulhão: tiveram suas cabeças arrancadas em vida.

Feito isso, os vencedores salgaram os seus macabros troféus e colocaram-nos em latas de querosene, contendo aguardente e cal.
Os corpos mutilados e ensanguentados foram deixados a céu aberto para servirem de alimento aos urubus.

Percorrendo os estados nordestinos, João Bezerra exibia as cabeças - já em adiantado estado de decomposição - por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas.
Primeiro, os troféus estiveram em Maceió e, depois, foram até ao sul do Brasil.

As cabeças seguiram depois para Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia.
Posteriormente, e por mais de três décadas, os restos mortais ficaram expostos no Museu Nina Rodrigues, em Salvador.

Memorial da Resistência - Cidade de Mossoró - Rio Grande do Norte - Brasil
Foto de George Vale em: http://www.flickr.com/photos/ge_photo/3553581285/
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Durante muito tempo, as famílias de Lampião, Corisco e Maria Bonita lutaram para dar um enterro digno aos seus parentes.
O economista Silvio Bulhões, filho de Corisco e Dadá (membros do bando), empreendeu muitos esforços para dar sepultamento aos restos mortais dos cangaceiros e parar, de uma vez por todas, essa macabra exibição pública.
A revista O Cruzeiro chegou a publicar (em 6 de Junho de 1959) uma reportagem sobre o caso ("Justiça para Lampião", com texto e fotos de João Martins). Aqui se dava conta do chocante desrespeito e desumanidade que envolvia a exibição dos restos mortais dos cangaceiros, como se estes não passassem de meros troféus ou de chamativas curiosidades para turistas.
Outros órgãos da imprensa brasileira fizeram campanha nesse sentido.
Apesar disso, o enterro dos restos mortais dos cangaceiros só ocorreria em 1969: as cabeças de Lampião e de Maria Bonita, exibidas durante mais de trinta anos, foram sepultadas no dia 6 de Fevereiro desse ano.
Os demais cangaceiros tiveram o seu enterro uma semana depois.

Lampião e Maria Bonita possuem parentes próximos em Aracaju: sua filha, Expedita, casou com Manuel Messias Neto e teve quatro filhos (Djair, Gleuza, Isa Cristina e Vera Lúcia).

Deve salientar-se a grande inteligência de Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), bem como o seu valor como estratega. Só isso explica uma tão longa sobrevivência.
Mais de setenta anos após a sua morte, ele continua sendo lembrado na música, na moda, na literatura de cordel, no teatro, no cinema, em escolas, em museus, em conferências e debates.
O temido cangaceiro, indubitavelmente, o mais importante e carismático de todos, deixou gravado nas caatingas sertanejas um pedaço da história do Nordeste.
E assim se transformou num autêntico mito brasileiro.
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Memórias de Lampião, de Maria Bonita e dos Cangaceiros
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1 - "Mulher Rendeira" é um antigo tema musical, muito popular nos sertões nordestinos ao tempo do Rei do Cangaço.
A tradição atribui esta composição ao próprio Lampião, que a entoaria com os seus companheiros ao entrar nos povoados.

Uma das versões - verdadeiro documento histórico - inclui, ao princípio, a voz de um dos sobreviventes do bando (António dos Santos, mais conhecido por Volta Seca, o mais jovem dos cangaceiros de Lampião):

..." Olê muié rendêra
... Olê muié rendá...
... Tu m'ensina a fazê renda...
... Eu t'ensino a namorá...
... O fuzil de Lampião, tem cinco laços de fita
... O lugar que ele habita, não falta moça bonita…"

Oiça aqui:



2 - Pode ver ainda uma curta reportagem sobre a Exposição do Cangaço em São Paulo.
Contém pequenos filmes sobre os cangaceiros (incluindo Lampião e Maria Bonita).
Veja e oiça também Expedita e Vera (filha e neta deste famoso e trágico casal).

Aqui:



.Fontes:

- Semira Adler Vainsencher (investigadora da Fundação Joaquim Nabuco, Brasil);
- Carlos Alberto Dória (sociólogo);
- Wikipédia.
- George Vale (flickr)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Pintores da Península Ibérica (Antonio Abellán - Espanha)

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Jazz n.º 6




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Os Aficionados




.O Bar







.Almoço no Folie Bergères
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O Piano





. As Vendedoras de Flores


Nota - Antonio Abellán já tinha sido apresentado na Torre, com outros quadros, em 1 de Junho de 2008.
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terça-feira, 6 de abril de 2010

Grandes Quadros (William H. Hunt)

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Oração da Manhã
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William Holman Hunt - Inglaterra (1827-1910)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Arte Africana (Chidi Okoye - Nigéria)

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A Dança das Mães




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Senhoras da Noite





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Véspera de Festival

sábado, 27 de março de 2010

Os Manipuladores - A Imprensa em Portugal no séc. XXI

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“(…) A nossa imprensa, quase toda, vive à procura de sangue, escândalos, tragédias ou heróis.
(...) Entre procurar a verdade da história além das aparências, esperar pelas investigações das autoridades sem antecipar conclusões, ou optar logo pela versão mais trágica e chocante, escolheu esta sem hesitar.
Nada disto aconteceu por acaso.

Não deixa de ser eloquente que, num momento em que na Comissão de Ética da Assembleia da República prosseguem as penosas audições para apurar se há ou não liberdade de imprensa em Portugal, a maior e mais real ameaça a essa liberdade esteja ausente de todas as questões colocadas e de todos os depoimentos prestados.

Essa ameaça é o tipo de jornalismo que hoje se faz e que é ditado, primeiro que tudo, pela necessidade de vender informação e conquistar audiências a qualquer preço.

Os célebres 'conteúdos', que tanto movem os novos patrões da imprensa, são ditados exclusivamente pela vontade de obter lucros e não pelo desejo de prestar um serviço público de informação e formação.
Ninguém pergunta à Ongoing ou à PT para que querem eles ter uma televisão ou um jornal, quais são os seus pergaminhos, o seu currículo, as suas intenções em matéria jornalística.
Parece que ter dinheiro, próprio ou emprestado, é critério suficiente.

Durante quatro semanas a fio, o jornal "Sol" levou a cabo, tranquilamente, a divulgação de escutas telefónicas recolhidas num processo em segredo de justiça e abrangendo até alguma gente que, tanto quanto sabemos, não é suspeita de qualquer crime.
E assim continuou mesmo depois de um tribunal o ter proibido de o fazer, a pedido de um dos escutados.

Todos sabemos que o que o "Sol" fez é crime, que é inaceitável num Estado de direito e que é uma perversão deontológica do jornalismo, grave e insustentável.

Mas a verdade é que onze, entre doze directores de jornais interrogados, conseguiram justificar a atitude do "Sol" com "o direito à informação" e "o interesse público".

E todos nós, mesmo os discordantes, fomos obrigados a ler as escutas e concluir a partir dos factos e indícios nelas contidos, sob pena de sermos excluídos da discussão pública.

E, para que dúvidas não restassem, esse farol da ética jornalística, que é o "Público", titulava na primeira página e triunfantemente, no dia seguinte a o "Sol" ter ignorado altivamente a providência cautelar decretada pelo tribunal: "Primeira tentativa de censura em trinta anos falha". (...) (*)

.(*) Miguel Sousa Tavares – Confesso que não Entendo – Crónica completa no jornal Expresso – Lisboa – Portugal – 23-Março-2010

quarta-feira, 24 de março de 2010

"Samba da Bênção" (Vinicius de Moraes - Brasil)

Vinícius de Moraes (1913-1980)
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(Cantado)

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza
é preciso um bocado de tristeza
se não, não se faz um samba não

(Falado)

Se não, é como amar uma mulher só linda
E daí?
Uma mulher tem que ter
qualquer coisa além da beleza
qualquer coisa de triste
qualquer coisa que chora
qualquer coisa que sente saudade
um molejo de amor machucado
uma beleza que vem da tristeza
de se saber mulher
feita apenas para amar
para sofrer pelo seu amor
e pra ser só perdão

(Cantado)

Fazer samba não é contar piada
e quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
porque o samba é a tristeza que balança
e a tristeza tem sempre uma esperança
a tristeza tem sempre uma esperança
de um dia não ser mais triste não …

Ouvir aqui:



O jovem Vinícius