terça-feira, 6 de abril de 2010

Grandes Quadros (William H. Hunt)

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Oração da Manhã
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William Holman Hunt - Inglaterra (1827-1910)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Arte Africana (Chidi Okoye - Nigéria)

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A Dança das Mães




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Senhoras da Noite





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Véspera de Festival

sábado, 27 de março de 2010

Os Manipuladores - A Imprensa em Portugal no séc. XXI

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“(…) A nossa imprensa, quase toda, vive à procura de sangue, escândalos, tragédias ou heróis.
(...) Entre procurar a verdade da história além das aparências, esperar pelas investigações das autoridades sem antecipar conclusões, ou optar logo pela versão mais trágica e chocante, escolheu esta sem hesitar.
Nada disto aconteceu por acaso.

Não deixa de ser eloquente que, num momento em que na Comissão de Ética da Assembleia da República prosseguem as penosas audições para apurar se há ou não liberdade de imprensa em Portugal, a maior e mais real ameaça a essa liberdade esteja ausente de todas as questões colocadas e de todos os depoimentos prestados.

Essa ameaça é o tipo de jornalismo que hoje se faz e que é ditado, primeiro que tudo, pela necessidade de vender informação e conquistar audiências a qualquer preço.

Os célebres 'conteúdos', que tanto movem os novos patrões da imprensa, são ditados exclusivamente pela vontade de obter lucros e não pelo desejo de prestar um serviço público de informação e formação.
Ninguém pergunta à Ongoing ou à PT para que querem eles ter uma televisão ou um jornal, quais são os seus pergaminhos, o seu currículo, as suas intenções em matéria jornalística.
Parece que ter dinheiro, próprio ou emprestado, é critério suficiente.

Durante quatro semanas a fio, o jornal "Sol" levou a cabo, tranquilamente, a divulgação de escutas telefónicas recolhidas num processo em segredo de justiça e abrangendo até alguma gente que, tanto quanto sabemos, não é suspeita de qualquer crime.
E assim continuou mesmo depois de um tribunal o ter proibido de o fazer, a pedido de um dos escutados.

Todos sabemos que o que o "Sol" fez é crime, que é inaceitável num Estado de direito e que é uma perversão deontológica do jornalismo, grave e insustentável.

Mas a verdade é que onze, entre doze directores de jornais interrogados, conseguiram justificar a atitude do "Sol" com "o direito à informação" e "o interesse público".

E todos nós, mesmo os discordantes, fomos obrigados a ler as escutas e concluir a partir dos factos e indícios nelas contidos, sob pena de sermos excluídos da discussão pública.

E, para que dúvidas não restassem, esse farol da ética jornalística, que é o "Público", titulava na primeira página e triunfantemente, no dia seguinte a o "Sol" ter ignorado altivamente a providência cautelar decretada pelo tribunal: "Primeira tentativa de censura em trinta anos falha". (...) (*)

.(*) Miguel Sousa Tavares – Confesso que não Entendo – Crónica completa no jornal Expresso – Lisboa – Portugal – 23-Março-2010

quarta-feira, 24 de março de 2010

"Samba da Bênção" (Vinicius de Moraes - Brasil)

Vinícius de Moraes (1913-1980)
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(Cantado)

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza
é preciso um bocado de tristeza
se não, não se faz um samba não

(Falado)

Se não, é como amar uma mulher só linda
E daí?
Uma mulher tem que ter
qualquer coisa além da beleza
qualquer coisa de triste
qualquer coisa que chora
qualquer coisa que sente saudade
um molejo de amor machucado
uma beleza que vem da tristeza
de se saber mulher
feita apenas para amar
para sofrer pelo seu amor
e pra ser só perdão

(Cantado)

Fazer samba não é contar piada
e quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
porque o samba é a tristeza que balança
e a tristeza tem sempre uma esperança
a tristeza tem sempre uma esperança
de um dia não ser mais triste não …

Ouvir aqui:



O jovem Vinícius

terça-feira, 23 de março de 2010

Grandes Quadros (John Russell - Inglaterra)

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Menina com Cerejas

John Russell - Inglaterra (1745-1806)

terça-feira, 16 de março de 2010

Virgem de Montserrat - "La Moreneta" (Cataluña - España)

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A Virgem de Montserrat, popularmente conhecida como La Moreneta, é a patrona da Catalunha e uma das sete patronas das Comunidades Autónomas de Espanha.
Está no Mosteiro de Montserrat, que se converteu em local de peregrinação e de visita obrigatória para turistas.

Segundo a lenda, a primeira imagem da Virgem de Montserrat foi encontrada por uns meninos pastores no ano de 880.

A imagem que actualmente se venera, feita com madeira de álamo, data do século XII.
Representa a Virgem com o Menino Jesus sentado no regaço e mede cerca de 95 centímetros de altura.
Com excepção do Menino e da cara e das mãos de Maria, a imagem é dourada.
A Virgem é de cor preta, o que justificou a designação popular de La Moreneta (A Morenita).

Pertence ao grupo das chamadas Virgens Negras, que se espalhou pela Europa românica e cujo significado deu lugar a numerosos estudos.
Existem em Espanha outras Virgens Negras também conhecidas por "Moreneta" ou "Morenita" [como a Virgem de Lluc (Mallorca) ou a Virgem da Candelária (Tenerife)].

Em Setembro de 1844, o Papa Leão XIII declarou oficialmente a Virgem de Montserrat como patrona da diocese da Catalunha.

Santa Maria de Montserrat é um mosteiro beneditino situado na montanha de Montserrat (comarca catalã de Bages, província de Barcelona, Espanha).

segunda-feira, 15 de março de 2010

domingo, 14 de março de 2010

Os Melhores Amigos

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Os livros.
A sua cálida,
terna,
serena pele.
Amorosa companhia.
Dispostos sempre
a partilhar
o sol das suas águas.

Tão dóceis,
tão calados,
tão leais.
Tão luminosos
na sua branca
e vegetal
e cerrada melancolia.

Amados como nenhuns outros
companheiros da alma.
Tão musicais
no fluvial
e transbordante
ardor de cada dia.
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Eugénio de Andrade (Portugal) - "Num Exemplar das Geórgicas"

sábado, 13 de março de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Arquipélago de Gulag" (Alexandre Soljenitsine - Rússia)

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“Como se chega a esse misterioso Arquipélago?
A todas as horas para lá voam aviões, navegam barcos e marcham comboios, sem que neles se veja uma só inscrição que indique o lugar de destino.
Os empregados das bilheteiras e os agentes da Sovturista e da Inturista ficarão surpreendidos se você lhes pedir uma passagem para lá. Nem do Arquipélago, no seu conjunto, nem de nenhum dos seus incontáveis ilhéus eles têm conhecimento.

Aqueles que vão dirigir o Arquipélago chegam lá por intermédio da Escola do Ministério do Interior (M. V. D.).
Aqueles que vão ser guardas no Arquipélago são convocados por intermédio de secções militares.
Aqueles que vão lá morrer, como você e eu, leitor, esses devem passar infalível e exclusivamente através da detenção.

Detenção!!!!
Será necessário dizer que isso representa uma viragem brusca em toda a sua vida?
Que é como a queda a pique de um corisco sobre a sua cabeça?
Que é uma comoção espiritual insuportável, a que nem todas as pessoas podem adaptar-se, e que frequentemente leva à loucura?
O universo tem tantos centros quantos os seres vivos que nele existem.
Cada um de nós é o centro do mundo e do universo, e ele desmorona-se quando alguém nos sussurra ao ouvido: “Está preso!” (…)

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(…) A detenção nocturna, do tipo descrito, é a preferida, pois apresenta as maiores vantagens.
Todos os habitantes do apartamento ficam encolhidos pelo terror, desde a primeira pancada na porta.
O preso é arrancado ao calor da cama, todo ele reduzido à impotência do sono, com a mente confusa.

Na detenção nocturna, os agentes têm superioridade de forças: vários homens armados contra um que não chegou sequer a abotoar as calças; durante os preparativos e a revista à casa, por certo que não se junta à entrada nenhum grupo de possíveis partidários da vítima. (…)

As detenções nocturnas têm ainda a vantagem de que nem os inquilinos do prédio, nem os transeuntes das ruas da cidade vêem quantos levaram durante a noite. Se assusta os vizinhos mais próximos, o acontecimento não existirá para os mais distantes. É como se nada tivesse acontecido.
Pela mesma calçada em que transitaram os carros da polícia durante a noite, desfila durante o dia um magote de jovens com bandeiras e flores, entoando alegres canções. (…)”
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Alexandre Soljenitsine (1908-2008)
.Arquipélago de Gulag – Alexandre Soljenitsine - Rússia (Livraria Bertrand - Lisboa - Portugal - 1975)
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Grandes Quadros (Goya - Espanha)

. Retrato de Dona Narcisa Baranana de Goicoechea (c. 1810)
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Goya - Espanha - (c. 1746 - c. 1828)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Infante D. Henrique (1394-1460) - Alma dos Descobrimentos Marítimos Portugueses

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"(...) Em 1418, ao regressar da segunda viagem a Ceuta, D. Henrique era um homem de vinte e quatro anos, na plenitude da força que nos temperamentos espontaneamente activos desabrocha mais têmpora.
Alto e corpulento, de largos e fortes membros, com a pele tostada pelos sóis e ventanias, os cabelos negros, espessos, rijos e empinados, um bigode farto, negro também e hirsuto, este infante não era belo: pelo contrário.

Faltava-lhe na fisionomia o encanto da bondade, sem o qual não há formosura.
A dureza do seu olhar era antipática.
Descendia directamente do pai, no qual se vira um exemplar acabado do temperamento enérgico e tenaz, sem poesia, que sabe aliar a violência à astúcia quando o propósito formado o reclama para atingir um fim: do puro temperamento português, ou beirão, com traços de energia taurina.

A vontade manda exclusivamente em homens pouco dados à contemplação.
Formado um plano, delineada uma vida, todas as energias animais são escravizadas, e o homem torna-se o instrumento do próprio desígnio.
Talvez por se achar retratado nele, D. João I dava a este filho uma estima tão preferente.

Faltava-lhe de todo, como ao seu irmão Afonso, o bastardo de Barcelos, aquela veia de sentimento germânico, legada por D. Filipa ao carácter dos outros infantes, aquele indefinido misticismo humano, que só em alemão tem palavra capaz de inteiramente o definir: o gemuth, misto de sentimentalidade afectiva, de emoção melancólica, de serenidade de ânimo contemplativa, de humorismo transcendente, em combinações infinitamente variáveis, e que, desabrochando, produziu os tipos mais sublimes e também os mais extravagantes da imaginação poética, num Shakespeare, num Goethe, num Heine.


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D. Henrique era um peninsular "espanhol", afirmativo, duro, terminante, prático em tudo: na acção enérgica, no misticismo ardente, na habilidade astuta.
Para levar por diante os seus planos, primeiro sacrificou à intriga, e depois chegou a ser cruel; e para não mentir aos seus votos, entendendo a religião ao pé da letra, ficou virgem toda a vida.
Talvez daí provenha também a desumanidade que se lhe encontra no retrato.

As simpatias e a grandeza dos homens, como foi o infante D. Henrique, não está propriamente, pois, no carácter ou na individualidade: está na empresa a que se devotaram.
E como o plano do infante era verdadeiro e fecundo; como a sua ideia de um Portugal novo, destacando-se da Espanha e estendendo-se, pelos confins de Marrocos, África fora, até limites indeterminados nas regiões desconhecidas do mundo, provou afinal ser uma realidade, devemos-lhe, nós portugueses, uma segunda pátria; e deve-lhe a civilização europeia uma das suas três ou quatro conquistas fundamentais.

É isto o que faz dele um herói, na mais nobre acepção da palavra, apesar das sombras que por vezes lhe escurecem a vida, e de não se lhe encontrar beleza nem o encanto humano que distinguem outros filhos de D. João I.
Casto e abstémio, soldado e sacerdote dessa religião que despontava nas alvoradas da Renascença, abraçada ainda às velhas crenças do cristianismo medieval, a dureza ingénita do carácter do infante encontrava nas visões do seu plano um objecto e uma sanção tão profunda, que a sua alma, realistamente mística à espanhola, tinha alucinações, julgando proceder por mandados da divindade.
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Esta fé e esta inclinação de génio, que se chamam loucura, quando chegam à mania e têm como objecto um fim sem utilidade real ou reconhecida, deviam concorrer para acentuar ainda mais o carácter reservado e agreste do infante.
À primeira vista, o seu aspecto era temeroso, segundo dizem os que o trataram, e, arrebatado em sanha, o semblante tornava-se-lhe muito esquivo.

Nenhum homem, perseguido e dominado por uma ideia, tem meiguice, nem aquela impassibilidade íntima que mais ou menos corresponde sempre à morte da energia, pela contemplação, ou pelo cepticismo.
Mas o infante não era expansivamente colérico, não tinha acessos, nem fúrias: era, pelo contrário, esquivo, isto é, reservado.
Amodorrava, franzia a testa, empinava as sobrancelhas, e com a palavra mansa e o gesto comedido, mandava passear quem o desgostava: Dou-vos a Deus, sejais de boa ventura!

Nunca foi avaro, e compreende-se, porque a sua paixão tinha objecto diverso.
A riqueza era-lhe apenas um instrumento ao serviço da sua ideia.
Avarento é o homem que, fazendo-se centro do mundo, refere tudo a si; e o infante via as coisas de um modo diametralmente oposto.
O centro, o núcleo, o âmago de tudo, estava neste plano a que se votaria a si próprio, sacrificando os seus, para exaltação da sua fé e da sua terra, para que germinasse, para que nascesse, florisse e frutificasse a semente que trazia no pensamento, envolvida nas dobras da inconsciência.

Nunca o infante sonhou os cruéis resultados que à sua terra haviam de vir do glorioso sacrifício a que a votava, impondo-lhe a missão de descobrir o mundo, para que a humanidade tivesse, depois das ilusões inebriantes, os desenganos finais, e na garganta o travo amargo dos frutos paradisíacos da arvore da ciência. (...) (*)

(*) - Oliveira Martins (1845-1894) - Os Filhos de D. João I - Lisboa - Imprensa Nacional (segundo a edição de 1891)
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sábado, 6 de março de 2010

A República Doente - "O que faz falta"

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Faz falta um sopro de lucidez
que varra este país de cima a baixo
e nos devolva o bom senso e a esperança.

Faz-nos falta meter na cabeça,
nem que seja à martelada,
que Portugal enfrenta problemas e perigos
de uma dimensão tamanha
que perder tempo a lavar roupa suja
e a discutir lingerie
enquanto os problemas se acumulam e agravam
sem solução,
é mais do que diletância,
é verdadeiro suicídio.

Faz-nos falta que cada um perceba
qual é o seu lugar e a sua função
e não se envolva em tentações e confusões
onde todos se perdem,
sem honra nem proveito público.

Ao Governo cabe governar,
e não imiscuir-se na vida das redacções
ou nas jogadas do poder económico.

Aos juízes cabe acusar e julgar
de acordo com a lei e a sua consciência,
e não de acordo com as suas ideias políticas
ou os seus interesses corporativos.

Aos jornalistas cabe informar
de acordo com os factos e a verdade investigada,
mas não cabe a tarefa
de derrubar governos
nem promover julgamentos públicos
em substituição dos tribunais.

Às empresas públicas ou participadas pelo Estado,
gerindo bens e serviços de necessidade pública,
cabe apenas o papel
de servir os utentes nas melhores condições,
e não o envolvimento
nos grandes negócios do regime
ou em jogadas menores de baixa política
ao serviço do poder do momento. (…)

(…) Se não nos entendemos no essencial -
o que é a liberdade,
o que é a censura,
o que são direitos absolutos e relativos,
o que é o Estado de Direito,
o que valem as decisões dos tribunais -
dificilmente nos entenderemos no resto.

E o resto são coisas factuais,
que não dependem de opiniões ou ideias
e que qualquer um sabe:
são 563.000 desempregados,
um Estado no limiar da insolvência
e um país deserto de esperança. (*)

(*) - Miguel Sousa Tavares - "O Que Faz Falta"
Jornal Expresso - Lisboa - Portugal - 20-Fev-2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

O Lugar da Casa (Eugénio de Andrade)

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.Uma casa que fosse
um areal deserto;
que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso,
e à sua roda
se sentou a alegria;
e aqueceu as mãos;
e partiu
porque tinha um destino;
coisa simples e pouca,
mas destino:
crescer como árvore,
resistir ao vento,
ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir
os passos de Abril
ou, quem sabe?,
a floração dos ramos,
que pareciam secos,
e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.
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Eugénio de Andrade - Portugal (1923-2005)
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terça-feira, 2 de março de 2010

Grandes Quadros (Samuel Michlap)

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Broadway
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Samuel Michlap - Estados Unidos

Aberturas de Grandes Livros - "Morreram pela Pátria" (Mikail Cholokov - Rússia)

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“Ao alvorecer, um vento de Primavera, forte e morno, vindo do sul, açoitou o vale.
Pelos caminhos, os charcos petrificados pela geada nocturna cobriram-se de gotinhas. A última neve, uma neve esponjosa que a noite gelara à superfície, acumulava-se a ranger nas ravinas. Repelido para o norte, o negro velário das nuvens desfilava, desdobrando-se, baixo, num céu de tinta, e resistindo ao vento, lento cortejo majestoso que ultrapassava, com silvos de chamariz, fendendo o ar húmido num tumulto alegre, os inúmeros bandos de patos, marrecos e gansos, que se precipitavam para o local secular das suas migrações para o calor.


Nicolau Streltsov, agrónomo-chefe da M. T. S. de Chernoiarsk, despertou muito antes de ser dia. As gelosias gemiam nas janelas. No fogão, o vento cantava um lamento frouxo. Uma placa de zinco despregada chocalhava no tecto.
Deitado de costas, com as mãos cruzadas sob a nuca, o cérebro vazio de pensamentos, Streltsov contemplava o azul crepuscular do amanhecer, aplicando o ouvido às rajadas de vento que batiam nas paredes e ao respirar igual, tranquilo, quase infantil, de sua mulher, adormecida a seu lado.


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.Gotas de chuva tamborilaram no tecto. O vento pareceu amainar. Ouvia-se a água sussurrar, golfar, gorgolejar voluptuosamente na madeira nova e depois cair, pesada e mole, na terra húmida.
O sono não vinha. Streltsov levantou-se e, descalço, andando com precaução sobre as tábuas movediças, foi até à mesa, acendeu o candeeiro, sentou-se e fumou.

Uma corrente de ar acre soprava pelos interstícios do soalho ajustado à matroca. O homem encolheu as pernas musculosas, procurou uma posição mais cómoda e pôs-se de novo a ouvir: a chuva continuava; caía até cada vez com mais força.
Muito bem; isto vai dar humidade”, verificou, satisfeito.
Decidiu imediatamente partir para a inspecção da manhã, a fim de ver como estavam os trigos de Inverno da granja O Caminho do Socialismo e lançar uma vista de olhos às sementeiras do Outono precedente. (…)”

Mikail Cholokov
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Mikail Cholokov - Rússia (1905-1984) - Morreram pela Pátria - Publicado por Portugália Editora - Lisboa - Portugal - 1966.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mataram Zapata! Outra vez!

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Mataram Zapata
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"Aminatu Haidar.
Orlando Zapata.
Ela, uma activista sarauí de 44 anos, fez greve de fome num aeroporto espanhol, depois de ver a sua entrada em Marrocos recusada pelas autoridades locais e conseguiu, graças à atenção e pressão internacionais, regressar à sua terra e aos seus filhos;
ele, um activista cubano de 42 anos, morreu anteontem, após 85 dias de greve de fome na prisão.

Sim: Zapata morreu.
Mas dele só soubemos o nome porque morreu.
Para ele não houve petições a circular no Facebook e entre as "personalidades" portuguesas e estrangeiras, mesmo se houve cartas e apelos do Movimento Republicano Alternativo (a que pertencia) e da Amnistia Internacional a alertar para a sua greve de fome e para os maus tratos e espancamentos de que era alvo. Merecia menos que Aminatu?
Cuba é menos cruel que Marrocos?
Ou faltaram os directos e as entrevistas e as fotografias e os artigos inflamados?

Zapata foi preso em 2003 por "desobediência", "desrespeito" e "desordem pública" e condenado a 25 anos.
Os seus "crimes" dizem tudo por ele.
Tudo sobre a atrocidade da sua morte e tudo sobre o obsceno regime cubano - um regime que continua a merecer o beneplácito e a bonomia de tanta gente que não hesitou em pôr o seu nome na lista pela "libertação" de Aminatu mas que de Orlando não sabe "o suficiente".

Eu, pelo contrário, sei pouco sobre Aminatu e sobre o Sara e Marrocos (deveria saber mais, decerto) mas sei o que é preciso sobre um regime do qual tanta gente diz "não é assim tão mau".
Um regime envolto na mitificação romântica dos heróis de uma esperança massacrada e nas suas imagens épicas, recortadas em multidões empolgadas e em frases grandiosas que só sabem a mágoa.
Um regime horripilante de verdugos charmosos.
Um regime onde se usa sobre pessoas uma palavra que pensei, depois do fim da ditadura portuguesa, nunca mais ouvir ao vivo: "subversivo".

"Esse indivíduo é um subversivo", disseram-me dois polícias a propósito de um rapaz de 19 ou 20 anos, filho de um veterinário, que tanto me seringara na rua que, inexperiente repórter por quatro dias na Havana de 1991, lhe oferecera um jantar na Bodeguita del Medio, o restaurante "de Hemingway", e que o prenderam (prenderam!) à saída porque "é proibido os cubanos falarem com turistas".

Um regime que fez de um país bonito de gente bonita, praias bonitas, calor, rum e charutos uma coisa única, uma espécie de museu-prisão das revoluções traídas da América do Sul, das utopias "generosas" das esquerdas europeias.
Um cenário de inesgotável nostalgia e amargura, sim, bom para fotografias e documentários.
Mas onde se morre por "desobediência".
Cuba é uma ditadura, os Castro são criminosos e Zapata foi assassinado. Outra vez." (*)

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(*) - Fernanda Câncio - "Mataram Zapata" - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal - 26-Fevereiro-2010.
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