sábado, 13 de março de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Arquipélago de Gulag" (Alexandre Soljenitsine - Rússia)

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“Como se chega a esse misterioso Arquipélago?
A todas as horas para lá voam aviões, navegam barcos e marcham comboios, sem que neles se veja uma só inscrição que indique o lugar de destino.
Os empregados das bilheteiras e os agentes da Sovturista e da Inturista ficarão surpreendidos se você lhes pedir uma passagem para lá. Nem do Arquipélago, no seu conjunto, nem de nenhum dos seus incontáveis ilhéus eles têm conhecimento.

Aqueles que vão dirigir o Arquipélago chegam lá por intermédio da Escola do Ministério do Interior (M. V. D.).
Aqueles que vão ser guardas no Arquipélago são convocados por intermédio de secções militares.
Aqueles que vão lá morrer, como você e eu, leitor, esses devem passar infalível e exclusivamente através da detenção.

Detenção!!!!
Será necessário dizer que isso representa uma viragem brusca em toda a sua vida?
Que é como a queda a pique de um corisco sobre a sua cabeça?
Que é uma comoção espiritual insuportável, a que nem todas as pessoas podem adaptar-se, e que frequentemente leva à loucura?
O universo tem tantos centros quantos os seres vivos que nele existem.
Cada um de nós é o centro do mundo e do universo, e ele desmorona-se quando alguém nos sussurra ao ouvido: “Está preso!” (…)

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(…) A detenção nocturna, do tipo descrito, é a preferida, pois apresenta as maiores vantagens.
Todos os habitantes do apartamento ficam encolhidos pelo terror, desde a primeira pancada na porta.
O preso é arrancado ao calor da cama, todo ele reduzido à impotência do sono, com a mente confusa.

Na detenção nocturna, os agentes têm superioridade de forças: vários homens armados contra um que não chegou sequer a abotoar as calças; durante os preparativos e a revista à casa, por certo que não se junta à entrada nenhum grupo de possíveis partidários da vítima. (…)

As detenções nocturnas têm ainda a vantagem de que nem os inquilinos do prédio, nem os transeuntes das ruas da cidade vêem quantos levaram durante a noite. Se assusta os vizinhos mais próximos, o acontecimento não existirá para os mais distantes. É como se nada tivesse acontecido.
Pela mesma calçada em que transitaram os carros da polícia durante a noite, desfila durante o dia um magote de jovens com bandeiras e flores, entoando alegres canções. (…)”
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Alexandre Soljenitsine (1908-2008)
.Arquipélago de Gulag – Alexandre Soljenitsine - Rússia (Livraria Bertrand - Lisboa - Portugal - 1975)
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Grandes Quadros (Goya - Espanha)

. Retrato de Dona Narcisa Baranana de Goicoechea (c. 1810)
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Goya - Espanha - (c. 1746 - c. 1828)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Infante D. Henrique (1394-1460) - Alma dos Descobrimentos Marítimos Portugueses

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"(...) Em 1418, ao regressar da segunda viagem a Ceuta, D. Henrique era um homem de vinte e quatro anos, na plenitude da força que nos temperamentos espontaneamente activos desabrocha mais têmpora.
Alto e corpulento, de largos e fortes membros, com a pele tostada pelos sóis e ventanias, os cabelos negros, espessos, rijos e empinados, um bigode farto, negro também e hirsuto, este infante não era belo: pelo contrário.

Faltava-lhe na fisionomia o encanto da bondade, sem o qual não há formosura.
A dureza do seu olhar era antipática.
Descendia directamente do pai, no qual se vira um exemplar acabado do temperamento enérgico e tenaz, sem poesia, que sabe aliar a violência à astúcia quando o propósito formado o reclama para atingir um fim: do puro temperamento português, ou beirão, com traços de energia taurina.

A vontade manda exclusivamente em homens pouco dados à contemplação.
Formado um plano, delineada uma vida, todas as energias animais são escravizadas, e o homem torna-se o instrumento do próprio desígnio.
Talvez por se achar retratado nele, D. João I dava a este filho uma estima tão preferente.

Faltava-lhe de todo, como ao seu irmão Afonso, o bastardo de Barcelos, aquela veia de sentimento germânico, legada por D. Filipa ao carácter dos outros infantes, aquele indefinido misticismo humano, que só em alemão tem palavra capaz de inteiramente o definir: o gemuth, misto de sentimentalidade afectiva, de emoção melancólica, de serenidade de ânimo contemplativa, de humorismo transcendente, em combinações infinitamente variáveis, e que, desabrochando, produziu os tipos mais sublimes e também os mais extravagantes da imaginação poética, num Shakespeare, num Goethe, num Heine.


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D. Henrique era um peninsular "espanhol", afirmativo, duro, terminante, prático em tudo: na acção enérgica, no misticismo ardente, na habilidade astuta.
Para levar por diante os seus planos, primeiro sacrificou à intriga, e depois chegou a ser cruel; e para não mentir aos seus votos, entendendo a religião ao pé da letra, ficou virgem toda a vida.
Talvez daí provenha também a desumanidade que se lhe encontra no retrato.

As simpatias e a grandeza dos homens, como foi o infante D. Henrique, não está propriamente, pois, no carácter ou na individualidade: está na empresa a que se devotaram.
E como o plano do infante era verdadeiro e fecundo; como a sua ideia de um Portugal novo, destacando-se da Espanha e estendendo-se, pelos confins de Marrocos, África fora, até limites indeterminados nas regiões desconhecidas do mundo, provou afinal ser uma realidade, devemos-lhe, nós portugueses, uma segunda pátria; e deve-lhe a civilização europeia uma das suas três ou quatro conquistas fundamentais.

É isto o que faz dele um herói, na mais nobre acepção da palavra, apesar das sombras que por vezes lhe escurecem a vida, e de não se lhe encontrar beleza nem o encanto humano que distinguem outros filhos de D. João I.
Casto e abstémio, soldado e sacerdote dessa religião que despontava nas alvoradas da Renascença, abraçada ainda às velhas crenças do cristianismo medieval, a dureza ingénita do carácter do infante encontrava nas visões do seu plano um objecto e uma sanção tão profunda, que a sua alma, realistamente mística à espanhola, tinha alucinações, julgando proceder por mandados da divindade.
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Esta fé e esta inclinação de génio, que se chamam loucura, quando chegam à mania e têm como objecto um fim sem utilidade real ou reconhecida, deviam concorrer para acentuar ainda mais o carácter reservado e agreste do infante.
À primeira vista, o seu aspecto era temeroso, segundo dizem os que o trataram, e, arrebatado em sanha, o semblante tornava-se-lhe muito esquivo.

Nenhum homem, perseguido e dominado por uma ideia, tem meiguice, nem aquela impassibilidade íntima que mais ou menos corresponde sempre à morte da energia, pela contemplação, ou pelo cepticismo.
Mas o infante não era expansivamente colérico, não tinha acessos, nem fúrias: era, pelo contrário, esquivo, isto é, reservado.
Amodorrava, franzia a testa, empinava as sobrancelhas, e com a palavra mansa e o gesto comedido, mandava passear quem o desgostava: Dou-vos a Deus, sejais de boa ventura!

Nunca foi avaro, e compreende-se, porque a sua paixão tinha objecto diverso.
A riqueza era-lhe apenas um instrumento ao serviço da sua ideia.
Avarento é o homem que, fazendo-se centro do mundo, refere tudo a si; e o infante via as coisas de um modo diametralmente oposto.
O centro, o núcleo, o âmago de tudo, estava neste plano a que se votaria a si próprio, sacrificando os seus, para exaltação da sua fé e da sua terra, para que germinasse, para que nascesse, florisse e frutificasse a semente que trazia no pensamento, envolvida nas dobras da inconsciência.

Nunca o infante sonhou os cruéis resultados que à sua terra haviam de vir do glorioso sacrifício a que a votava, impondo-lhe a missão de descobrir o mundo, para que a humanidade tivesse, depois das ilusões inebriantes, os desenganos finais, e na garganta o travo amargo dos frutos paradisíacos da arvore da ciência. (...) (*)

(*) - Oliveira Martins (1845-1894) - Os Filhos de D. João I - Lisboa - Imprensa Nacional (segundo a edição de 1891)
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sábado, 6 de março de 2010

A República Doente - "O que faz falta"

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Faz falta um sopro de lucidez
que varra este país de cima a baixo
e nos devolva o bom senso e a esperança.

Faz-nos falta meter na cabeça,
nem que seja à martelada,
que Portugal enfrenta problemas e perigos
de uma dimensão tamanha
que perder tempo a lavar roupa suja
e a discutir lingerie
enquanto os problemas se acumulam e agravam
sem solução,
é mais do que diletância,
é verdadeiro suicídio.

Faz-nos falta que cada um perceba
qual é o seu lugar e a sua função
e não se envolva em tentações e confusões
onde todos se perdem,
sem honra nem proveito público.

Ao Governo cabe governar,
e não imiscuir-se na vida das redacções
ou nas jogadas do poder económico.

Aos juízes cabe acusar e julgar
de acordo com a lei e a sua consciência,
e não de acordo com as suas ideias políticas
ou os seus interesses corporativos.

Aos jornalistas cabe informar
de acordo com os factos e a verdade investigada,
mas não cabe a tarefa
de derrubar governos
nem promover julgamentos públicos
em substituição dos tribunais.

Às empresas públicas ou participadas pelo Estado,
gerindo bens e serviços de necessidade pública,
cabe apenas o papel
de servir os utentes nas melhores condições,
e não o envolvimento
nos grandes negócios do regime
ou em jogadas menores de baixa política
ao serviço do poder do momento. (…)

(…) Se não nos entendemos no essencial -
o que é a liberdade,
o que é a censura,
o que são direitos absolutos e relativos,
o que é o Estado de Direito,
o que valem as decisões dos tribunais -
dificilmente nos entenderemos no resto.

E o resto são coisas factuais,
que não dependem de opiniões ou ideias
e que qualquer um sabe:
são 563.000 desempregados,
um Estado no limiar da insolvência
e um país deserto de esperança. (*)

(*) - Miguel Sousa Tavares - "O Que Faz Falta"
Jornal Expresso - Lisboa - Portugal - 20-Fev-2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

O Lugar da Casa (Eugénio de Andrade)

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.Uma casa que fosse
um areal deserto;
que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso,
e à sua roda
se sentou a alegria;
e aqueceu as mãos;
e partiu
porque tinha um destino;
coisa simples e pouca,
mas destino:
crescer como árvore,
resistir ao vento,
ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir
os passos de Abril
ou, quem sabe?,
a floração dos ramos,
que pareciam secos,
e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.
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Eugénio de Andrade - Portugal (1923-2005)
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terça-feira, 2 de março de 2010

Grandes Quadros (Samuel Michlap)

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Broadway
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Samuel Michlap - Estados Unidos

Aberturas de Grandes Livros - "Morreram pela Pátria" (Mikail Cholokov - Rússia)

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“Ao alvorecer, um vento de Primavera, forte e morno, vindo do sul, açoitou o vale.
Pelos caminhos, os charcos petrificados pela geada nocturna cobriram-se de gotinhas. A última neve, uma neve esponjosa que a noite gelara à superfície, acumulava-se a ranger nas ravinas. Repelido para o norte, o negro velário das nuvens desfilava, desdobrando-se, baixo, num céu de tinta, e resistindo ao vento, lento cortejo majestoso que ultrapassava, com silvos de chamariz, fendendo o ar húmido num tumulto alegre, os inúmeros bandos de patos, marrecos e gansos, que se precipitavam para o local secular das suas migrações para o calor.


Nicolau Streltsov, agrónomo-chefe da M. T. S. de Chernoiarsk, despertou muito antes de ser dia. As gelosias gemiam nas janelas. No fogão, o vento cantava um lamento frouxo. Uma placa de zinco despregada chocalhava no tecto.
Deitado de costas, com as mãos cruzadas sob a nuca, o cérebro vazio de pensamentos, Streltsov contemplava o azul crepuscular do amanhecer, aplicando o ouvido às rajadas de vento que batiam nas paredes e ao respirar igual, tranquilo, quase infantil, de sua mulher, adormecida a seu lado.


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.Gotas de chuva tamborilaram no tecto. O vento pareceu amainar. Ouvia-se a água sussurrar, golfar, gorgolejar voluptuosamente na madeira nova e depois cair, pesada e mole, na terra húmida.
O sono não vinha. Streltsov levantou-se e, descalço, andando com precaução sobre as tábuas movediças, foi até à mesa, acendeu o candeeiro, sentou-se e fumou.

Uma corrente de ar acre soprava pelos interstícios do soalho ajustado à matroca. O homem encolheu as pernas musculosas, procurou uma posição mais cómoda e pôs-se de novo a ouvir: a chuva continuava; caía até cada vez com mais força.
Muito bem; isto vai dar humidade”, verificou, satisfeito.
Decidiu imediatamente partir para a inspecção da manhã, a fim de ver como estavam os trigos de Inverno da granja O Caminho do Socialismo e lançar uma vista de olhos às sementeiras do Outono precedente. (…)”

Mikail Cholokov
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Mikail Cholokov - Rússia (1905-1984) - Morreram pela Pátria - Publicado por Portugália Editora - Lisboa - Portugal - 1966.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mataram Zapata! Outra vez!

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Mataram Zapata
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"Aminatu Haidar.
Orlando Zapata.
Ela, uma activista sarauí de 44 anos, fez greve de fome num aeroporto espanhol, depois de ver a sua entrada em Marrocos recusada pelas autoridades locais e conseguiu, graças à atenção e pressão internacionais, regressar à sua terra e aos seus filhos;
ele, um activista cubano de 42 anos, morreu anteontem, após 85 dias de greve de fome na prisão.

Sim: Zapata morreu.
Mas dele só soubemos o nome porque morreu.
Para ele não houve petições a circular no Facebook e entre as "personalidades" portuguesas e estrangeiras, mesmo se houve cartas e apelos do Movimento Republicano Alternativo (a que pertencia) e da Amnistia Internacional a alertar para a sua greve de fome e para os maus tratos e espancamentos de que era alvo. Merecia menos que Aminatu?
Cuba é menos cruel que Marrocos?
Ou faltaram os directos e as entrevistas e as fotografias e os artigos inflamados?

Zapata foi preso em 2003 por "desobediência", "desrespeito" e "desordem pública" e condenado a 25 anos.
Os seus "crimes" dizem tudo por ele.
Tudo sobre a atrocidade da sua morte e tudo sobre o obsceno regime cubano - um regime que continua a merecer o beneplácito e a bonomia de tanta gente que não hesitou em pôr o seu nome na lista pela "libertação" de Aminatu mas que de Orlando não sabe "o suficiente".

Eu, pelo contrário, sei pouco sobre Aminatu e sobre o Sara e Marrocos (deveria saber mais, decerto) mas sei o que é preciso sobre um regime do qual tanta gente diz "não é assim tão mau".
Um regime envolto na mitificação romântica dos heróis de uma esperança massacrada e nas suas imagens épicas, recortadas em multidões empolgadas e em frases grandiosas que só sabem a mágoa.
Um regime horripilante de verdugos charmosos.
Um regime onde se usa sobre pessoas uma palavra que pensei, depois do fim da ditadura portuguesa, nunca mais ouvir ao vivo: "subversivo".

"Esse indivíduo é um subversivo", disseram-me dois polícias a propósito de um rapaz de 19 ou 20 anos, filho de um veterinário, que tanto me seringara na rua que, inexperiente repórter por quatro dias na Havana de 1991, lhe oferecera um jantar na Bodeguita del Medio, o restaurante "de Hemingway", e que o prenderam (prenderam!) à saída porque "é proibido os cubanos falarem com turistas".

Um regime que fez de um país bonito de gente bonita, praias bonitas, calor, rum e charutos uma coisa única, uma espécie de museu-prisão das revoluções traídas da América do Sul, das utopias "generosas" das esquerdas europeias.
Um cenário de inesgotável nostalgia e amargura, sim, bom para fotografias e documentários.
Mas onde se morre por "desobediência".
Cuba é uma ditadura, os Castro são criminosos e Zapata foi assassinado. Outra vez." (*)

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(*) - Fernanda Câncio - "Mataram Zapata" - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal - 26-Fevereiro-2010.
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Filipa de Lancaster, Rainha de Portugal - A Mãe da Ínclita Geração (1359-1415)

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Filipa de Lancaster (1359-1415) (retrato imaginário)
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Nota Prévia - Filipa de Lancaster, inglesa, foi filha de Blanche de Lancaster e de John de Gaunt, duque de Lancaster (filho do rei inglês Edward III).
Nasceu em 1359 e faleceu em 1415.
Casou em 1387 com D. João I, rei de Portugal, fundador da 2.ª Dinastia (a de Avis).

Foi mãe da Ínclita Geração, expressão devida a Luís de Camões: D. Duarte (sucessor de João I), Infante D. Henrique (alma dos Descobrimentos Portugueses), D. Pedro (regente, após a morte do irmão Duarte), D. João (avô da rainha Isabel, a Católica, de Castela), D. Fernando (o Infante Santo, que morreu prisioneiro dos Muçulmanos em Tânger) e Isabel (que casaria com Filipe, o Bom, duque da Borgonha).
Faleceu de peste, às vésperas da partida do marido e dos filhos para o ataque a Ceuta, no Norte de África, que marcou o início da expansão ultramarina portuguesa (1415).

Júlio Dantas (1876-1962), que na Cultura Portuguesa foi muito mais do que aquilo que dele se guardou no famoso Manifesto Anti-Dantas (de Almada Negreiros), traçou desta inglesa, rainha de Portugal, o seguinte retrato:
..........................................…


“Reflexiva, serena, cheia de pudores e de escrúpulos, decerto feia, a julgar pela estátua do túmulo e pelo silêncio de Fernão Lopes, Filipa de Lancaster entrou na corte portuguesa em circunstâncias que deviam ter ferido o seu natural orgulho de mulher.
D. João I, comprometido já pela letra dum contrato, demorava propositadamente, sob todos os pretextos, a realização do seu casamento. Carácter torcido, espírito interesseiro, tortuoso, cheio de cautela e de simulações, ele reconsiderava e desculpava-se com o facto de ser cavaleiro professo e de não poder contrair matrimónio sem dispensa da Cúria Romana.
Mas o Duque de Lancaster, mais prático, cortou todas as hesitações por uma resolução imprevista: mandou a filha para o Porto, onde estava o rei, acompanhada do bispo de Acres e do confessor.
Ali se conservou a noiva ainda muitos dias, sem que o rei procurasse ao menos vê-la. Por fim, lá se resolveu: trocaram as jóias e casaram.
Os princípios não podiam considerar-se auspiciosos.
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D. João I, rei de Portugal, fundador da Dinastia de Avis (1357-1433)
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Mas, passado pouco tempo, tudo mudou.
Essa pobre mulher de quase trinta anos, sem prestígio e sem beleza, amortalhada em grandes dobras hirtas de pano de oiro, atravessando o paço sempre de olhos baixos, cheia de doçura e de tranquilidade, mas possuindo a terrível energia de certas criaturas aparentemente passivas, dominava inteira e absolutamente o rei.
Algum tempo ainda – e estava também dominada a Corte.

Foi uma conquista palmo a palmo, feita com um singular poder de sugestão, de infiltração, sem exaltações, sem violências, não perdendo um momento a sua impassibilidade, as suas atitudes de figura gótica, os seus movimentos sóbrios, a sua doçura incomparável.
Bastava um volver daqueles olhos azuis e frigidíssimos: adivinhavam-na.
A maior força de Filipa estava no seu exemplo, na sua fundamental e indestrutível virtude. Quase insensivelmente, a corte de D. Fernando (o rei anterior, meio irmão de João I) converteu-se na corte de Filipa de Lancaster – uma corte severa, casta, metódica, onde não se casava por amor mas sim por ordem da rainha, e onde os negócios do sentimento se regulavam à inglesa, simplesmente, praticamente.

Antes dela, já D. Pedro I (pai de João I) pretendera moralizar – mas moralizara à bruta, fazendo justiça de epiléptico, gaguejando impropérios contra as alcoviteiras, enforcando, azorragando bispos, ensanguentando as suas próprias mãos. Passado o primeiro momento de terror, ele tinha de novo em volta de si a mesma corte de devassos, e – pior ainda – era ele próprio o mais devasso de todos.
Um desgraçado como D. Pedro não moraliza: quando muito, assassina.

Filipa de Lancaster, não. Tinha por si a força do seu exemplo e da sua virtude. Os seus processos eram, pelo menos aparentemente, mais suaves. Sempre cheia de doçura, de serenidade, os olhos baixos, o simbólico pilriteiro de oiro bordado no oral de seda.
Não demolia, edificava; não mandava matar, mandava casar.
Quando menos o esperava, um fidalgo solteiro, com moradia no Paço, recebia ordem terminante da rainha: “prepare-se para casar amanhã”.
Não sabia como, não sabia com quem – mas obedecia.
No dia seguinte, estavam casados.
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Casamento de João I com Filipa de Lancaster (Porto - Portugal - 1387)
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Ninguém se insurgia, ninguém arriscava uma palavra.
E, não obstante, D. Filipa cometia a maior das violências; ia de encontro ao que há de mais íntimo, de mais sagrado no sentimento humano; de encontro à corrente emancipadora das novelas do Ciclo Bretão, que exaltavam, com Tristão e Isolda, a liberdade do amor; de encontro às próprias tradições; de encontro ao que desde antiga data se achava expresso nas leis do reino.

Uma velha lei de Afonso II estabelecia que nem ele nem os seus sucessores poderiam constranger alguém ao casamento.
A legislação era clara.
A rainha sabia bem tudo isto, consultara sobre o caso todos os capelos vermelhos da corte, o seu companheiro e mestre Roberto Paíno, o seu confessor, os seus frades.
As opiniões dividiam-se, as consultas discordavam, folheavam-se cânones, invocavam-se doutores da Igreja – e, entretanto, Filipa de Lancaster, fixando nos bispos e nos prelados os seus olhos azuis impassíveis, continuava a mandar casar, sistematicamente, inflexivelmente – como D. Pedro mandava matar.
E a moralidade voltou – e a revolução fez-se.

Sentia-se, dia a dia, a influência dessa prodigiosa criatura sobre os costumes e sobre o modo de viver na corte e fora dela.
Túmulo de João I e de Filipa (Mosteiro da Batalha, Portugal)

Os fidalgos passaram a ouvir missa, a jejuar, a confessar-se, deixaram-se de freiras e de judias, nunca mais se jogou nas varandas do Paço, nunca mais se viu um escudeiro bêbedo.
Dentro de poucos anos, a grave princesa normanda, a despeito da sua placidez, da sua impassibilidade, da sua candura, do seu ar de figura primitiva, com os olhos baixos, as mãos cruzadas, a roupa em grandes dobras solenes de pano de oiro, aparentemente frágil, passiva, insignificante -, tinha edificado uma corte nova sobre aquela ruína de adultérios, de infanticídios, de incestos e de violações que era a sociedade portuguesa no fim do século XIV.
A honra desse renascimento pertence-lhe exclusivamente a ela." (*)
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(*) - Júlio Dantas, Portugal (1876-1962).
Extraído do livro: Outros Tempos - Inquéritos Médicos às Genealogias Reais Portuguesas - Avis e Bragança, publicado em 1909 pela Editora Portugal-Brasil.
Júlio Dantas foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e membro da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Grandes Quadros (Frans Hals)

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Isabella Coymans
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Frans Hals - Holanda (1580-1666)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Madeira - Portugal - Gente nossa...

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O que aconteceu ontem é simples de dizer e doloroso: aconteceu uma tragédia a Portugal.
Morreram portugueses.
Campos nossos foram arrasados.
Pequenas vilas ficaram isoladas.
Uma nossa cidade, por sinal a mais bela cidade de Portugal, foi invadida por lama.

Janelas debruadas como há séculos os portugueses sabem fazer e espalham pelo mundo fora (Lubango, São Luís do Maranhão, Honolulu...) - e quem mais as espalhou foram os filhos desta cidade, e fizeram delas uma marca de Portugal -, janelas dessas, foram afogadas pelas enxurradas.

Nessa nossa cidade de telhados vermelhos, paredes brancas e persianas verdes, ontem era tudo cinzento e castanho, da montanha ao mar.
As torres-vigias que em tantas casas se erguem para espreitar o mar, de onde chegavam os corsários e por onde partiam os mais cosmopolitas de nós, surpreenderam-se, porque, ontem, o que acontecia vinha do lado contrário.

Esse nosso pedaço de Portugal é pequeno e aos seus rios chama ribeiras, nome dramaticamente irónico, ontem, tal a força das águas revoltas que carregaram automóveis até à baía.

Aquele nosso Portugal tem nome próprio, aqueles nossos portugueses têm um nome particular, uma fala particular, aquela nossa bela cidade tem nome - mas hoje só me apetece dizer o essencial: estou a falar de nós.

Ferreira Fernandes - Diário de Notícias - Lisboa (21 de Fevereiro de 2010)

Livros - "O Talismã" (Walter Scott - Escócia)

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“O sol abrasador da Síria não atingira ainda a sua máxima altura quando um guerreiro, exibindo a Cruz Vermelha, que abandonara a sua longínqua pátria do Norte para se reunir às hostes dos Cruzados da Palestina, atravessava vagarosamente a extensa planura de areia, situada próximo do Mar Morto ou Lago Asiático, onde as águas do Jordão se precipitam como num mar interior.

Durante as primeiras horas do dia o cavaleiro peregrino transpusera precipícios e desfiladeiros escarpados, entrando por fim numa planície onde outrora se erguiam as cidades amaldiçoadas que tinham chamado sobre si a cólera do Todo-Poderoso.
A fadiga, a sede, os perigos de toda a espécie, vencidos durante o caminho, tudo o cavaleiro esqueceu quando recordou a tremenda catástrofe que convertera em árida planície o fértil e formoso vale de Sodoma, outrora banhado por águas frescas e abundantes como o Jardim do Senhor, agora reduzido a deserto árido, requeimado pelo sol, condenado à eterna esterilidade.



O cavaleiro fez o sinal da Cruz mal avistou a massa sombria das águas, tão diferentes na cor e no aspecto das dos outros lagos, e estremeceu ao recordar que, sob a toalha imóvel e glauca, se encontravam as cidades que, em tempos remotos, se haviam erguido na planície, orgulhosas e imponentes.
Cavara-lhes a sepultura o raio caído do céu, ou, quem pode sabê-lo, a súbita erupção do fogo subterrâneo. Mas, de qualquer forma, jazem no fundo desse estranho mar - que não consente peixe no seu seio nem barco algum à superfície, e que, como se as suas águas maléficas não admitissem outro berço senão o seu leito negro, não paga o seu tributo ao oceano.

Em volta, tal como nos tempos de Moisés, a terra não é mais do que enxofre e sal. Não aceita sementes, não produz nem sequer uma ervinha. E, tal como a água do lago, essa terra bem se pode chamar morta, porque, além de estéril, até a própria atmosfera parece abandonada pelos seus habitantes naturais, e as aves não cortam o espaço em voos elegantes nem o enchem com harmoniosos cantos.

O sol brilhava sobre esta cena de desolação, atormentando-a com um calor quase intolerável, e toda a Natureza - tudo quanto tinha um sopro de vida - se escondia, esquivando-se aos seus raios ardentes, excepto a figura isolada que pisava as areias movediças do deserto, e dir-se-ia o único ser vivo na imensa planície. (…)”
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Walter Scott - Escócia (1771-1832)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Poema para Galileu (António Gedeão - Portugal)


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios).

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te?
A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno
às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita
num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar
(que disparate, Galileu!)
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa
ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos,
hirtos,
de toga e de capelo
a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível
que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a civilização.

Tu, embaraçado e comprometido,
em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites
e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas
(parece-me que estou a vê-las),
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim,
que sim senhor,
que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado
e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite
louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo,
na própria intimidade do teu pensamento,
(livre e calma),
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes,
grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo,
empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer,
homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso, estoicamente,
mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias,
a todos os contratempos,
enquanto eles,
do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

António Gedeão - Lisboa, Portugal (1906-1997)

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