terça-feira, 13 de outubro de 2009

Eça de Queiroz, Pinheiro Chagas e a Conquista do Indostão (1872)

 
“Querem conhecer um cidadão absolutamente optimista, rara avis, nesta terra?
É o nosso amigo Pinheiro Chagas.
Revela-o ele, muito finamente, no seu folhetim de 5, no Diário de Notícias.

Aí, acusando, com gentil espírito, os que “fustigam a Pátria”, desenha o País como superiormente perfeito, tão perfeito que na sua superfície social e moral não é possível encontrar nem uma fenda nem uma mancha.
E aí declara que todo aquele que achar na Lusitânia defeitos e no cisne farruscas – é burlesco.



Parece que, segundo o feliz Pinheiro Chagas, nós possuímos toda a perfeita administração, toda a abundância da riqueza, toda a virtude de alma, toda a elevação de carácter, toda a beleza de forma (…).

E sabem quais são as provas que o nosso admirável amigo dá deste estado de perfeição a que chegou Portugal, desta superioridade inteiramente inacessível às raças inferiores?

Duas provas:
- Termos descoberto o caminho da Índia!

- Termos, com a nossa energia, domado o Indostão!



Assim, segundo esta teoria de impecabilidade, sabem por que razão é o Sr. Braamcamp um grande filósofo?
Porque nós descobrimos o caminho da Índia.
E todo aquele que, ou sobre a filosofia do Sr. Braamcamp ou sobre a grandeza de qualquer instituição nossa, puser restrições ou dúvidas – é burlesco.

Assim, as Farpas seriam burlescas, se ousassem duvidar da superioridade filosófica do Sr. Braamcamp; e sê-lo-iam se se atrevessem a negar, sorrindo, a excelência da nossa instrução pública.
(…) É este um sistema de progresso social fácil e cómodo: domar o Indostão.


Quem doma o Indostão está, desde esse momento, na plenitude da verdade e na posse da abundância.
Foi por não o ter domado que a França se acha nos embaraços da inconstituição.
Foi por o não ter domado que Babilónia caiu!

É um erro que uma nação comece a viver sem se ter prevenido com alguns Indostões domados.
Doma o Indostão e deita-te a dormir.
Doma o Indostão e fecha a escola – a população saberá ler.
Doma o Indostão e não faças estradas – a circulação aumentará.


As Farpas acusam a desorganização dos estudos:
– Mentira, os estudos são perfeitos, veja-se a energia com que domámos o Indostão!...

As Farpas censuram a ineficácia da direcção económica:
- Como esqueceis o Indostão domado?...

As Farpas acusam o enfraquecimento dos caracteres:
- E o Indostão, o soberbo Indostão domado, desgraçadas?...

As Farpas condenam o procedimento tumultuoso da Câmara dos Deputados:
- Que ousais dizer, pois não domámos nós o Indostão?...

As Farpas revelam a decadência literária:
- Que novo agravo – pois nem a recordação do Indostão que domámos?...

O País pode e deve dizer, em verso:
Zoilos, tremei, que o Indostão foi meu!”

Eça de Queiroz – Uma Campanha Alegre (in As Farpas)
Lello & Irmão Editores – Porto – Portugal
(Vol. II - Pág. 27-29 - Janeiro de 1872)

domingo, 11 de outubro de 2009

Toadas africanas...

Para aqueles que nasceram em África...





...ou que simplesmente a guardam no coração...






aqui vai o Afrikaan Beat...





...e o Swinging' Safari: (*)




(*) - Ambos devidos a Bert Kaempfert, excepcional chefe de orquestra alemão (n. Hamburgo, 1923 - f. Maiorca, 1980).

Mais um passo para a esperança...

Barack Obama - Presidente dos Estados Unidos

(Prémio Nobel da Paz - 2009)

"(...) Argumentou-se que está há poucos meses na Presidência dos Estados Unidos e que ainda não teve tempo de ter feito nada de concreto.
Nem nos Estados Unidos, nem no Iraque, nem no Afeganistão, nem em Guantánamo.
Não fez nada?
É extraordinário!

Só fez isto: está a mudar radicalmente a América e o mundo.

A América de Bush estava desacreditada, tendo infringido gravemente os Direitos Humanos, a principal bandeira do chamado Mundo Livre, durante a "guerra fria", mentido sem pudor acerca da existência de armas de destruição maciça, no Iraque.
Marginalizou as Nações Unidas, provocou duas guerras cruentas: no Afeganistão e no Iraque, envolvendo a NATO na primeira, o que constituiu um erro fatal, para além de um crime.
Fortaleceu o capitalismo especulativo de inspiração neoliberal, dito de casino, o que provocou a maior crise global financeira e económica de sempre.

Barack Obama acabou com o unilateralismo arrogante e agressivo dos Estados Unidos - que, dado o seu poderio militar, tinham acreditado ser os "donos do mundo" - e aceitou o multilateralismo, promovendo o diálogo com todos os países emergentes,
- estendeu a mão aos árabes (discurso do Cairo), acabando com as humilhações a que estavam sujeitos,
- criou uma nova relação com os países emergentes, respeitando-os como iguais,
- prometeu a retirada dos mísseis instalados na Europa de Leste, obviamente dirigidos contra a Rússia,
- desenvolveu o diálogo com a China,
- está a promover um novo relacionamento, entre iguais, com a América Latina (aceitou negociar com Cuba, sem condições prévias e dar passos concretos para vir a pôr fim ao bloqueio),

- condenou o golpe de Estado nas Honduras, um sinal importantíssimo de mudança,
- estendeu a mão a África, invocando a sua qualidade de afro-americano,
- advogou nas Nações Unidas a importância do diálogo, da paz e do respeito pela dignidade dos Povos, propondo um plano de desnuclearização progressiva,
- vai, na próxima reunião de Copenhaga, na Dinamarca, subscrever e relançar os mecanismos de Quioto - como já anunciou - para reduzir drasticamente as emissões de CO2 e iniciar uma política concertada de defesa do planeta das ameaças de tanta gravidade para a sobrevivência das espécies e da espécie humana em particular, que sobre ele pesam.

Todos estes exemplos, entre tantos outros, são só palavras (promessas) e não valem nada?
Quem o diz é porque não tem a noção exacta da importância das ideias e da defesa das boas causas para a mudança do mundo.
Sempre assim foi." (*)

(*) - Mário Soares, antigo Presidente da República (Diário de Notícias - Lisboa - Portugal)

sábado, 10 de outubro de 2009

Woody Allen na primeira pessoa...


“As minhas ideias pessoais mantêm-se iguais ao que sempre foram.
A vida é muito dura, muito agreste, brutal, curta de mais, feia e má, e, no fim, não há esperança que nos salve.
A isto chamo eu realismo. E sei que estou a ser apenas realista.

Claro que, quando a imprensa vem falar comigo, a ideia que transpira é “oh, mas que tipo tão pessimista e cínico!”, mas a sério que não me acho.

Sinto mesmo que a nossa maior obrigação na vida é aceitar o facto de que a vida não quer dizer nada, é vazia, que somos o resultado de um acaso tendo por fundo um universo que também não tem significado nenhum.
Universo esse que, claro, também vai acabar como tudo o resto."



"No meio disto tudo, dizem-me, a minha obrigação continua a ser a de viver como se isto não fosse verdade, viver sem negar o que é evidente, como se fosse possível enxotar a coisa para debaixo do tapete.

Sou ainda suposto acreditar que, por cima de tudo, há um deus a proteger-nos, omnipotente.

Ou, pior, que o amor é capaz de salvar tudo, que a arte é eterna, que os artistas têm um lugar especial no céu; ou outro amortecedor qualquer que passamos de uns para outros para aliviar a crueldade dos factos.
É preciso olhar estas realidades nos olhos e, apesar delas, encontrar o nosso caminho."




"É por isto que não me vejo como pessimista ou cínico.
Quem me acha pessimista é que vive debaixo de uma enorme ilusão.

Essas pessoas, não as percebo. Venderam-se a si mesmas uma verdade sobre o significado final da existência, quando toda a gente sabe que, lá para o fim, não há boas novidades para ninguém.
Lá para o fim é tudo muito decepcionante.
Agora, imagine: tenho de levar uma vida de homem decente tendo como moldura estes parâmetros. (…)"
.


"Veja o meu caso.
Tenho 73 anos. Isso quer dizer que a qualquer momento posso ficar velho.
E enfermo.
E a cair para o lado.
Quer dizer, ainda vou estar sujeito a todas as coisas horrendas que me estão reservadas.

Naturalmente, terei de confirmar que até tive uma vida óptima, no tal contexto cinzento que é a vida humana.
Sei que houve muita gente que levou uma vida impensavelmente cruel.
Mas, no fim, é como naqueles comboios do “Stardust Memories”.
Vão todos dar ao mesmo terminal."

"No fim, é isso que acontece ao homem rico, à actriz bonita, ao artista, ao político, ao médico, ao filósofo e ao homem pobre que pedinchava na rua. Acaba tudo na lixeira.
Eu nunca disse que não tinha tido uma sorte incrível.
Tive.
Nasci nos Estados Unidos, em Nova Iorque, e vivi toda a vida aqui. Nunca tive problemas graves de saúde, apaixonei-me por mulheres lindas, maravilhosas, que tanto trouxeram de bom para a minha vida. Tenho uns filhos bestiais.
Mas isso não quer dizer que, ao sair deste prédio, não vá ser imediatamente espalmado por um piano caído do último andar.” (*)

(*) - Revista Única, jornal Expresso (Lisboa - Portugal), de 5 de Setembro de 2009.
Entrevista obtida por Rui Henriques Coimbra em Nova Iorque.

Aceda a uma das surpreendentes manifestações artísticas de Woody Allen.

Aqui:


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Incomparável Amália Rodrigues - Dez anos depois...

 
Faz hoje precisamente uma década que nos deixou (6-Outubro-1999).
Se os países têm alma, a de Portugal refugiou-se, para sempre, nesta voz incomparável.
Quer se escute numa viela de Lisboa, nas margens do Cunene, na caatinga brasileira, nas serranias de Mouçós, na pampa argentina, numa avenida de New York, numa calle de Salamanca ou numa ruela de Xangai...
E quer se goste ou não de fado...
Na sua voz imortal se guarda, de facto, o espírito de um povo - esta gente portuguesa simples e dada, às vezes demasiadamente crédula, outras vezes destemperada, até excessiva, mas - por regra - de fundo bom e generoso.
Comprovem aqui:

e aqui:

e, ainda,aqui: