terça-feira, 29 de setembro de 2009

Os Últimos Guerreiros do Imperador Qin (Xian - China)

Guerreiros de Xian, ou Exército do imperador Qin, é uma colecção de mais de oito mil figuras de guerreiros e cavalos em terracota, em tamanho natural, encontradas nas imediações do mausoléu do primeiro imperador da China.Foram descobertas em 1974, próximo de Xian.
As imagens em terracota foram enterradas junto ao mausoléu do imperador Qin Shihuang em c. 209-210 a.C..
A descoberta ficou a dever-se a uns agricultores locais que escavavam um poço de água a leste do monte Lishan, uma elevação de terra feita por mãos humanas (a qual contém a necrópole).
A construção do mausoléu começou em 246 a.C., e acredita-se que 700.000 trabalhadores e artesãos levaram 38 anos para completar a gigantesca obra.
De acordo com o historiador Sima Qian, na obra Registos do Historiador (c. 100 a.C.), o imperador foi sepultado em 210 a.C. juntamente com os seus tesouros e objetos artísticos, bem como com uma réplica do universo, onde os astros eram representados por pedras preciosas, os planetas por pérolas e os mares por lagos de mercúrio.
Pesquisas recentes detectaram altos índices de mercúrio no solo, comprovando o historiador.
O túmulo fica perto de uma pirâmide de terra com 47 metros de altura e 2,18 quilómetros quadrados de área, mas esta não foi ainda devidamente explorada por se temer que a erosão provocada pelas chuvas possa danificá-la.
O complexo foi construído para servir de palácio ou corte imperial. Divide-se em diferentes estruturas e salas, sendo rodeado por uma muralha com diversos portões.
Ficou protegido por este enorme exército de soldados em terracota, em guarda nas proximidades.
Acharam-se restos de muitos artesãos e suas ferramentas, o que faz crer que eles tenham sido enterrados com o imperador para impedir que revelassem a existência dos tesouros a eventuais salteadores. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Combate do Pembe, Sul de Angola. Foi há 105 anos...

Tropas portuguesas atravessam o vau do Pembe, no rio Cunene (Sul de Angola)

Perfazem-se hoje precisamente 105 anos sobre o terrível desastre militar no Sul de Angola, onde pereceram, em condições trágicas, centenas de soldados portugueses.
Completam-se também 104 anos sobre a missa mandada celebrar, na Igreja dos Mártires, em intenção do tenente Luz Rodrigues, um dos heróis do combate (ver dois posts abaixo).
Podem reviver tudo isto aqui: Derrota portuguesa no Pembe

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Os novos valores...

"(...) Pensando bem, temos razões para ser infelizes ou, pelo menos, pouco felizes.
Os políticos mentem-nos, manipulam a nossa benevolência, prometem-nos melhorias, cavalgam as nossas mais rústicas e asseadas esperanças.
As instituições seguem-lhes o rasto. Foram, aliás, criadas por eles, ou são filhas dilectas do sistema.
Os peralvilhos que as dirigem, sob designações as mais diversas, são criaturas pouco recomendáveis.
Todos nós sabemos disto, comentamos amargamente a roubalheira que por aí anda, nem sequer nos divertimos quando banqueiros vão para a cadeia ou estão sob a ameaça de lá ir parar.
Desconfiamos, mas não damos um passo para as coisas serem diferentes.
Votamos nos partidos que sustentam esta gente porque esta gente mantém o sistema e não está nada interessada em o alterar.
Aliás, nada de real e de rigoroso poderá ser feito sem se pulverizar as estruturas que vão segurando, como um andaime, esta sociedade. (...)
Vivemos nesse universo obscuro e inquietante da competitividade e dos objectivos a atingir.
Vale tudo, inclusive a própria vida humana.
Dissiparam-se os exemplos que serviam de rota e de escora.
A palavra de honra deixou de comparecer nas relações sociais.
A classe dirigente recusa-se a entender que uma promessa não é só um compromisso - é um crédito de honra. (...)
A honra desapareceu do circuito normal onde as ligações afins se estabeleciam e se solidificavam.
Os contratos eram feitos através desses compromissos morais. Devo dizer que tenho saudades do tempo em que um aperto de mão cimentava alguma coisa.
A honra, a dignidade e as relações como construção dos laços sociais.
Confiava-se. Apenas isto.
Agora, por todo o lado, as novas figuras de autoridade, a classe dirigente e os seus pequenos estipendiados parece terem renunciado a essas práticas.(...)
É o mundo da mentira, da torpeza e do impudor que campeia por aí, a todos os níveis e em todos os sectores da sociedade.

(Baptista-Bastos - Jornal de Negócios - Lisboa - Portugal - 18 de Setembro de 2009)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Olhares fatais...

 







 
(Fotos de Isabel Gomes da Silva)

sábado, 12 de setembro de 2009

Evocação de David Nasser, de "O Cruzeiro" (Brasil)


O semanário O Cruzeiro foi uma das mais conhecidas e divulgadas revistas brasileiras, também muito popular em Portugal.
Pertencente ao grupo dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand (o Chatô), publicou-se entre 1928 e 1975.
Pela suas páginas desfilaram nomes e figuras como Carlos Lacerda, Rachel de Queiroz, Carlos Estêvão, Millôr Fernandes, O Amigo da Onça, Jean Manzon e muitos, muitos mais...

... tal como David Nasser (foto abaixo), fantástico jornalista, repórter, cronista - e, também, compositor musical (Nêga do Cabelo Duro...).
Filho de imigrantes libaneses, nasceu em 1917 e faleceu em 1980.
Distinguiu-se sobretudo pelas suas crónicas polémicas, de uma coragem, contundência e paixão incomuns.
Profissional controverso, usando métodos por vezes pouco ortodoxos, acabou por tornar-se figura incontornável do jornalismo brasileiro.
Continua a ser hoje um prazer passar os olhos pelo seu estilo vergastante e inconfundível.

Publica-se adiante uma prosa de homenagem que José Cândido de Carvalho (grande escritor!) lhe dedicou em 1964. Respeita-se a grafia brasileira.

David Nasser

"Uma tarde, lá pelos tempos de 1937, dava entrada na redação de “A Noite” um moço de andar marinheiro, meio adernado no vestir, de fala mansa e olhar de relâmpago. O velho Castelar de Carvalho, com suas longas barbas de judeu das Escrituras, disse mais ou menos assim:
- Se eu fôsse dono desta baiúca (a baiúca era o seu querido jornal) botava êsse sujeitinho de 20 anos na balança e pagava o pêso dêle em ouro. Vale por uma redação inteira e equipada.Olhei para o lado. O sujeitinho que Castelar de Carvalho queria contratar, a poder de barras de ouro do Banco do Brasil, era David Nasser em pessoa, de paletó-saco e jornal na mão.
Agora o velho Castelar é uma saudade e o ano de 1937 apenas uma lembrança de calendário. Mas a frase ficou:
- Vale por uma redação inteira.

É claro que outros anos passaram e outras tardes morreram. A profecia do velho Castelar havia de ganhar corpo e alma. David Nasser firmou nome como um dos grandes mestres do jornalismo nesta e noutras praças nacionais e mundiais, incluindo Europa, Paris e Bahia.
Sua geografia perdeu a noção de fronteiras – o mundo passou a viajar na mala de David, ao lado de suas escôvas e passaportes.
Uma noite estava em Lisboa, na Havaneza de Eça de Queiroz. Outra noite, ao lado de uma fogueira, num naco do Saara, entrevistando um rei do areal qualquer.
O assunto às vezes não prestava. Mas o talentão de David recauchutava tudo, emprestava tonalidades de ouro (e ouro de lei) ao latão mais desmoralizado.
Nessas suas andanças de Marco Pólo há bilhetes e cartas de príncipes com trono e sem trono, de milionários, de mágicos, de ministros, de poetas e bandidos.

Pergunto a David, num dia de confidências, quais os tipos de sua predileção:
- Os vagabundos.
Sim, ele tem um fraco todo especial, todo davidiano pelos vagabundos, pelos andarilhos, pelos humildes. As melhores histórias que gosta de contar são as histórias simples do povo, dos joões da silva, dos joaquins pereiras que falam maravilhosamente pela pena dêsse mestre da crônica e do panfleto.
Nisso, David está com a Bíblia: o reino dos céus não foi feito para os comerciantes de atacado, nem para os açambarcadores de feijão e açúcar. E nem para os burros.

Com o tempo, excelente mestre de estilo e vivência, David perdeu certas asperezas e mandacarus. Sua prosa de hoje tem claridades de cristal lavado. Cintila. É um poderoso escritor a serviço do jornalismo.
Sua crônica semanal é lida, e guardada, por milhões de brasileiros. No seu elenco há figuras de drama e de circo-de-cavalinho. A injustiça funciona nêle como mordida de cobra. Seja a injustiça no varejo ou no atacado, feita a um pequeno funcionário do montepio mais municipal ou ao político caído em desuso. Os moinhos de vento de Dom Quixote estão sempre às ordens de David Nasser. Sancho Pança não faz parte de sua família espiritual. Nunca comeu de seu pão nem bebeu de seu vinho.

Certo político caixa-baixa, esperto como um esquilo, queria por fôrça ser destratado, em prosa ou em verso, por David Nasser. Procurei saber os motivos. O homenzinho, piscando o olhinho miúdo, foi taxativo:
- Levo uma sova, meu caro, mas todo mundo vai tomar conhecimento da minha existência. Viro vedete nacional.
Engano do pobre político municipal. David não bate em gente de meio metro. Suas paradas, as mais ruidosas do Brasil, são na base dos jotas: JK, Jânio ou João Goulart. Não faz por menos. Sua pólvora não é para passarinho de vôo curto. Ou águia, ou tiro ao alvo.
Cá entre nós: gosto de ver David Nasser nessas batalhas campais. Há nelas cintilar de espadas, brilho de aço em noites de lua cheia. David é um mestre perfeito no ataque-arte que êle domina como ninguém neste país. Desmonta o adversário como um velho relojoeiro desmonta um relógio.
O tal político municipal, um esquilo de esperteza, tinha razão. Levava meia dúzia de brilhantes sarrafadas, mas comprava lugar na glória. Mesmo a poder de arnica e esparadrapo.

Pois vos digo que são essas as minhas pequenas memórias de David Nasser. Todos nós, jornalistas de pequena cabotagem ou das largas navegações, temos um pouco de D’Artagnan, de personagem de capa e espada. Alguns, no rolar dos anos, deixam o chapéu de plumas e o florete. Vão ser funcionários do Fomento Rural ou do Instituto da Piaçava. David não. Nasceu herói de Alexandre Dumas e vai até ao fim dos tempos, assim, cada vez mais mosqueteiro, cada vez mais D’Artagnan.

Um dia, que espero em Deus esteja longe, baterá David às portas de São Pedro. O velho chaveiro, já um tanto gasto em anos e em santidade, não tirará as trancas do reino eterno com a presteza que merece uma figura e a sensibilidade de David Nasser. E já estou vendo o mosqueteiro sacar da espada e gritar bem alto:- Pedro, acautelai-vos!
É assim, glorioso e armado, que David entrará no céu." (*)

(*) - Autor: José Cândido de Carvalho (Publicado em O Cruzeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 18 de Julho de 1964).

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

7 de Setembro de 1822 - Grito do Ipiranga: o Brasil independente de Portugal

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O regente D. Pedro, filho de D. João VI, monarca português, proclama junto ao riacho do Ipiranga a independência do Brasil em relação a Portugal. Completam-se hoje 187 anos, mas os Brasileiros continuam sendo o Povo Irmão. Afinal, 322 anos da sua história (1500-1822) foram partilhados connosco numa Pátria comum. E, daí para cá, foram aquelas paragens, para muitos lusitanos, a Terra da Promissão.
Para além do tempo e independentemente das vicissitudes políticas ou normativas, os Brasileiros jamais serão estrangeiros em Portugal...

sábado, 5 de setembro de 2009

Sul de Angola - O Gado Sagrado entre os Nhanecas-Humbes (2) - O Cortejo do Boi Sagrado

 
(Continuação de 22-Ago-2009)
"A manifestação mais espectacular, respeitante ao gado sagrado, é o chamado "cortejo do boi sagrado", rito que hoje em dia só é praticado entre os Nhanecas.
A festa consiste essencialmente num cortejo solene, que leva o boi sagrado do régulo através do sobado inteiro, com todas as honras que são devidas a um animal no qual as almas dos antigos reis parecem ter estabelecido o seu habitáculo.
O boi, que é de cor branca e preta, tem ao seu serviço um séquito de altos dignitários, entre os quais se destacam o mwene-hambo, que é o chefe dos pastores do gado do soba, e o nthoma, que faz as vezes de arauto, anunciando por toda a parte a passagem do boi.
Antes da saída do cortejo, o soba faz as recomendações seguintes:
Percorrei a terra, fazei a festa. Se o cortejo encontrar um cabrito no caminho, matai-o; se for um boi, comei-o; se for uma criança, prendei-a e que a família pague um boi para a resgatar!
Toda a pessoa adulta deve venerar o boi à sua passagem. Se houver alguém que assim não proceda, tirai-lhe tudo quanto tem. Se resistir, matai-o. Que não se chore o morto. É um tempo de regozijo!
Que tudo seja permitido! No entanto, não se devem maltratar as mulheres. Não deve haver nem questões nem querelas. Não pode haver lamentações, mesmo que alguém morra. O povo quer a festa. Se eu a não permitisse, o povo ficaria descontente. Ide, pois!
Feita esta proclamação, procede-se à cerimónia seguinte: a primeira mulher do soba apanha um pouco do pó das pegadas do chefe dos pastores, ao mesmo tempo que uma pequena porção da bosta do boi sagrado, e leva estes produtos para o quarto de dormir, colocando-os debaixo do travesseiro de madeira. Não podendo tomar parte no cortejo, ficar-lhe-á desta maneira pelo menos indirectamente unida. Durante o cortejo, ela e o régulo têm a obrigação de guardar continência, tal como o chefe dos pastores.
A procissão do boi sagrado dura mais ou menos três semanas. Em todas as quintas por onde ele passa são-lhe prestadas todas as honras e, no decorrer da viagem festiva, junta-se-lhe muito gado para acompanhar o cortejo.

De regresso à residência do soba, este e a mulher principal, mais uma rapariga virgem, apresentam ao animal uma bebida peculiar. O boi sagrado lambe-a com sofreguidão, o que é um motivo de alegria para todos os circunstantes e um óptimo augúrio para toda a tribo. Nesta ordem de ideias, o chefe dos pastores promete prosperidade e uma protecção especial dos espíritos dos antigos sobas para todo o povo." (*)
(*) Adaptado de: Padre Carlos Estermann - Etnografia do Sudoeste de Angola - Vol. 2 - Grupo Étnico Nhaneca-Humbe - Junta de Investigações do Ultramar - Lisboa - Portugal - 1960.

sábado, 29 de agosto de 2009

Prova Falsa (Stanislaw Ponte-Preta -- Brasil)

"Quem teve a idéia foi o padrinho da caçula - ele me conta.
Trouxe o cachorro de presente e logo a família inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra isso de se ter um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um mínimo de educação.
- Mas o cachorro era um chato — desabafou. Desses cachorrinhos de raça, cheio de nhém-nhém-nhém, que comem comidinha especial, precisam de muitos cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isto não bastasse, implicava com o dono da casa.
Vivia de rabo abanando para todo mundo, mas, quando eu entrava em casa, vinha logo com aquele latido fininho e antipático de cachorro de francesa.
Ainda por cima era puxa-saco. Lembrava certos políticos da oposição, que espinafram o ministro, mas quando estão com o ministro ficam mais por baixo que tapete de porão. Quando se cruzavam num corredor ou qualquer outra dependência da casa, o desgraçado rosnava ameaçador, mas quando a patroa estava perto abanava o rabinho, fingindo-se seu amigo.
Quando eu reclamava, dizendo que o cachorro era um cínico, minha mulher brigava comigo, dizendo que nunca houve cachorro fingido e eu é que implicava com o "pobrezinho".
Num rápido balanço poderia assinalar: o cachorro comeu oito meias suas, roeu a manga de um paletó de casimira inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver um pé de sapato que arrastava para locais incríveis. A vida lá em sua casa estava se tornando insuportável. Estava vendo a hora em que se desquitava por causa daquele bicho cretino. Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma choradeira das crianças e uma espinafração da mulher.
Você é um desalmado — disse ela, uma vez.
Venceu a guerra fria com o cachorro graças à má educação do adversário.
O cãozinho começou a fazer pipi onde não devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu no feio vício. Fez diversas vezes no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha maior. Quatro ou cinco vezes fez nos brinquedos da caçula. E tudo culminou com o pipi que fez em cima do vestido novo de sua mulher.
Aí mandaram o cachorro embora? — perguntei.
Mandaram. Mas eu fiz questão de dá-lo de presente a um amigo que adora cachorros. Ele está levando um vidão em sua nova residência.
Ué... mas você não o detestava? Como é que arranjou essa sopa pra ele?
Problema de consciência — explicou: — O pipi não era dele.
E suspirou cheio de remorso." (*)

(*) - Stanislaw Ponte-Preta (Sérgio Porto) - Texto extraído do livro Garoto Linha Dura, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 51.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Grandes Quadros - Renoir (França)

Madame Clémentine Stora (L'Algérienne)

Renoir - França - (1841-1919)

sábado, 22 de agosto de 2009

Sul de Angola - O Gado Sagrado entre os Nhanecas-Humbes (1)


"O grupo étnico que apelidamos de Nhaneca-Humbe constitui um grande agregado populacional no Sudoeste de Angola. Possui uma unidade étnica bastante bem definida e a sua coesão linguística é facilmente observável para quem se dedica a estudos desta natureza.
Inclui os seguintes povos: Muílas, Gambos, Humbes, Donguenas, Hingas, Cuâncuas, Handas, Quipungos e Quilengues.
Com excepção da região de Quilengues e parte da área da Bibala, podemos dizer que estes povos ocupam a terra planáltica do Sul de Angola.
Esta área atinge o seu ponto mais elevado no planalto do Bimbe, perto da Humpata (cerca de 2300 metros), descaindo gradualmente até ao vale do Cunene.

Não se pode falar na vida pastoril destes povos sem mencionar a existência do gado sagrado (machos ou fêmeas bovinos).
Regra geral, os animais sagrados são herdados ou recebidos como presente do pai, de um tio materno ou de um irmão. Referindo-se a um deles no singular, chamam-lhe otyi-panga, que quer dizer "o animal amigo".
O espírito do benfeitor falecido parece protegê-los ou, mesmo, residir neles. Os espíritos comunicam por seu intermédio com os vivos. São como que a protecção da família: todo o bem que a esta sucede é facilmente atribuído à sua interferência. Por isso se lhes presta culto e se lhes dispensam cuidados muito especiais.
Tudo o que esteja relacionado com estes animais reveste um carácter sagrado - o leite, os excrementos, o vaso da ordenha, o lugar onde o leite é distribuído.
Nunca podem ser alienados e, se forem roubados, constitui tal facto um grande desastre para o dono e para a família deste.
Todo o nhaneca que se respeita deve possuir pelo menos dois bois (ou vacas) sagrados: um recebido do pai e o outro herdado do tio materno. Os mais ricos têm quatro ou cinco.

 
É entre os Nhanecas que se encontram talvez mais variedades de animais sagrados. Conhecem eles pelo menos seis classes de "bois" sagrados:

1 - Onaluhonge, que quer dizer: "aquele da vara". - Pode ser um macho que o filho recebe de seu pai. Trata-se, porém, geralmente, de uma vitela. Assim que tiver a primeira cria, o leite só poderá ser utilizado pelo proprietário ou pelos companheiros de circuncisão. Os mesmos, e só eles, podem comer a carne desta vaca, quando ela morrer de doença ou de velhice.

2 - Ondyila-ombe - É uma vaca oferecida ao filho do falecido dono do gado. O leite pertence exclusivamente ao órfão e a seus filhos, se os tiver. Enquanto pequenos, alimentar-se-ão do leite desta vaca; uma vez crescidos, abster-se-ão de o fazer, por respeito.
De vez em quando conduzem todas as vacas ao cemitério - todas, mesmo as profanas. Vão acompanhadas dos seus vitelos, a um dos quais se racha então uma orelha ao meio. O sangue, derramado sobre as campas, é oferecido como sacrifício aos mortos aí enterrados. Se o vitelo vingar e for fêmea, ficará automaticamente sagrado como otyi-panga. Um animal destes não pode ser alienado.

3 - Onumatwa, "a mordida", por causa da orelha fendida. Esta vaca pouco difere da precedente. Para a consagrar, porém, não é necessário ir fazer a cerimónia ao cemitério. O animal foi recebido por um sobrinho, por ocasião da morte de um tio: é como o seu memorial. O leite pertence ao dono e aos seus filhos. A descendência desta vaca pode no entanto ser vendida.


4 - Onamphinga, "a do herdeiro". - É um boi geralmente abatido por ocasião da morte do dono. Os herdeiros só podem comer da carne do peito, que é imediatamente separada do resto, logo depois de a rês ter sido abatida. A esta carne especial têm também direito os parentes próximos paternos.

5 - Ondilisa, "faz chorar", por alusão aos prantos fúnebres. É o boi morto por ocasião do passamento do proprietário. Mas não se lhe come a carne, a qual é lançada aos cães. O couro pertence aos herdeiros.

6 - Onamulilo, "o do fogo". Temos aqui um boi macho muito respeitado e ao qual se não podem dar maus tratos. O dono, depois de o ter escolhido, manda um dia ministrar-lhe umas drogas por um quimbanda, o que o torna imune aos ataques do leão. Com efeito, declarou-me um velho da região da Quihita: Como poderá ele ser atacado pelo leão, se tem fogo no seu corpo?!
Quando morrer, unicamente mulheres e raparigas lhe podem comer a carne." (*)

(*) - Adaptado de: Padre Carlos Estermann - Etnografia do Sudoeste de Angola - Vol. 2 - Grupo Étnico Nhaneca-Humbe - Junta de Investigações do Ultramar - Lisboa - Portugal - 1960.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "A Cartuxa de Parma" (Stendhal - França)

 
“A 15 de Maio de 1796, o general Bonaparte entrou em Milão à frente daquele juvenil exército que acabava de passar a ponte de Lodi e mostrara ao mundo que, passados tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor.
Os milagres de audácia e de génio que a Itália presenciou no decorrer de alguns meses acordaram um povo adormecido; oito dias antes da chegada dos Franceses, os Milaneses ainda não viam neles senão um punhado de salteadores, habituados a fugir diante das tropas de Sua Majestade Imperial e Real; era, pelo menos, o que, três vezes por semana, lhes repetia um jornalzinho do tamanho da palma da mão, impresso em papel sujo.


Na Idade Média, os Milaneses eram valentes como os Franceses da Revolução, e mereceram ver a sua cidade completamente arrasada pelos imperadores da Alemanha. Desde que se tinham tornado fiéis súbditos, a sua principal preocupação consistia em imprimir sonetos sobre lencinhos de tafetá cor-de-rosa, quando se casava alguma menina pertencente a família nobre ou rica. Dois ou três anos após essa grande época da sua vida, a menina tomava um cavaleiro andante: o nome do chichisbéu escolhido pela família do marido ocupava por vezes um lugar honroso no contrato de casamento..

Ia grande distância desses costumes efeminados às profundas emoções a que deu lugar a chegada imprevista do exército francês. Em breve surgiram novos e apaixonados costumes. Um povo inteiro deu conta, a 15 de Maio de 1796, de que tudo quanto respeitara até então era supremamente ridículo e por vezes odioso. A partida do último regimento austríaco marcou a queda das ideias antigas: arriscar a vida passou a ser moda (…)”. (*)

A Cartuxa de Parma - Stendhal (1783-1842) - Publicado em 1967 por Editorial Estúdios Cor - Lisboa - Portugal.

Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa - (Cota --> L. 18864 V. )

sábado, 15 de agosto de 2009

Os Dias da Indignidade - Escravatura (1)

"(...) O que despontava era um negócio de amplitude colossal, suportado por uma cúpi­da associação de cumplicidades, in­cluindo as de um sem-número de potentados negros, no Congo e fora dele.
Estes líderes, e os seus agentes, promoviam incur­sões bélicas aos territórios vizinhos.


A troco dos prisioneiros que assim obtinham, recebiam das mãos dos negreiros as cobi­çadas armas de fogo, bebidas alcoólicas e bugigangas supérfluas que faziam a sua efémera grandeza.
Neste negócio em progressão, a contagem das peças passou, ao correr dos anos, das centenas aos milhares, dos milhares às centenas de milha­res - e destas aos milhões.

Desmoronavam-se os seculares sistemas produtivos, em especial os que se funda­vam na agricultura.
A África tocada pelos Europeus esvaía-se por acção de guer­ras sem quartel, num cenário de pilhagens e destrui­ções que deslocavam popula­ções inteiras, aterrorizadas pelos caçadores de gente. (...)


(...) Pelas trilhas do sertão africano, galgando destinos de agonia e indignidade de­baixo do silvo do chicote e das injúrias dos guardas, intermináveis colunas de ca­tivos negros dirigem-se a marchas forçadas para os locais de embarque no litoral.
Extenuados e trôpegos, seguem manietados e ligados uns aos outros. Muitos osten­tam os pescoços cingidos por gargalheiras de ferro ou por ramos de árvore bifur­cados. Os retardatários são executados sem contemplações.
Os mais robustos progridem esmagados por fardos de mercadorias ou por grandes pedre­gulhos e sacos de areia com que se suprime neles, de maneira expedita, toda a veleidade de fuga.

 
Chegados à costa, depois de ultrapassada uma rede de numero­sos interme­diários, homens, mulheres e crianças são encafuados em barracões insalubres. Aqui se amontoam dias a fio, aguardando a sinistra aparição, no hori­zonte, do ve­lame dos navios negreiros que vêm para os arrebatar à sua pátria.

 
Os compradores são meticulosos e eficazes.
Investigam-lhes os membros, os dentes, os seios, os testículos, as nádegas, os olhos, a própria expressão. Volteiam-nos. Palpam-nos. Avaliam-nos.
Quando satisfeitos, marcam-nos de modo indelével com ferros em brasa.

Transidos de pânico e dor, são então guiados para porões escuros, quase desprovidos de ventilação, onde ficam acorrentados em tabuados imundos.
Nas travessias do Atlântico, rumo às Américas, gasta-se, em condições infernais, de um a dois meses.
Segundo registos fidedignos, o espaço de cada um dos prisionei­ros raramente excede o de um morto no seu ataúde. Viajam com frequência encai­xados uns nos outros como colheres.

Durante as tempestades, jogados pelo balan­ço dos navios, revolvem-se apavorados, aos gritos, na pasta fétida dos dejectos e do vomitado dos enjoos.
A devastação das epidemias é me­donha e, por vezes, ocorrem suicídios. Os cadáveres são logo atirados pela borda fora. Por tudo isto se qualificam de tumbeiros esses navios lúgubres, que fazem lembrar gigantescas tumbas flutuantes. Levam muitas vezes no seu rasto de espuma alvacenta uma fiei­ra de barbatanas de tubarões impelidos pelo instinto.

Desembarcados nas Américas, os sobreviventes são tratados a preceito. En­gordam-nos, besuntam-nos com óleo, às vezes espevitam-nos com drogas. É for­çoso que evidenciem um aspecto aceitável no instante da venda.
Seguem depois ao seu destino, vergados à dor e à saudade da terra-mãe e das famílias perdidas.

Somem-se de vez no emaranhado das plantações ou no negrume das minas, cum­prindo fados sombrios e desprovidos de esperança. Entoam dolentes cânticos de mágoa - segundo o costume da sua terra, como anotara, muitos anos antes, num irreprimível impulso de compaixão, o cronista Zurara." (*)

(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento (Crónicas Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos) - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal - 1999.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

sábado, 8 de agosto de 2009

A Grande Música Portuguesa - Suite Alentejana n.º 1 (Luís de Freitas Branco)

 
Podem ouvir aqui:



 
Luís de Freitas Branco nasceu em Lisboa, em 12 de Outubro de 1890, e faleceu na mesma cidade em 27 de Novembro de 1955.
Compositor musical, domina o século XX português com a estatura de um colosso, de importância comparável, no domínio da música, a um Fernando Pessoa.
Poderosa e multiforme, a sua criação colocou Portugal em sintonia com a Europa, em certos casos antecipando-se a ela.
Veio estabelecer um novo patamar de excelência, tornando-se pedra de toque do reportório português em praticamente todos os domínios.

Educado no meio familiar, cedo tomou contacto com a música, aprendendo violino e piano.
Aos 14 anos compõe canções que atingem grande popularidade.
Aos 17 inicia a crítica musical no Diário Ilustrado.
Estuda também órgão.

Em 1910
viaja até Berlim para estudar composição, música antiga e metodologia da história da música.
Em Maio de 1911 vai até Paris, onde conhece Claude Debussy e a estética do Impressionismo.
Em 1915 participa nas Conferências da Liga Naval sobre a Questão Ibérica promovidas pelo Integralismo Lusitano.
Em 1916 é nomeado professor no Conservatório de Lisboa, sendo seu subdirector entre 1919 e 1924. Desenvolveu actividade em diversos domínios da vida cultural.
Manteve estreitas relações com diversas figuras, como Alberto Monsaraz, António Sardinha, Hipólito Raposo, Bento de Jesus Caraça e António Sérgio.

A partir de 1940 a sua figura era acusada de irreverente por se comportar de maneira imprópria nas aulas, sendo constituído arguido num processo do qual resultaria a suspensão como docente no Conservatório.
(Extracto do seu Diário, em 27 de Outubro de 1931:
A cena que se passou no Conservatório é grave e sintomática: dois agentes da polícia quiseram levar preso o candidato a concurso para a cadeira de Piano Fernando Lopes Graça.
A prisão era motivada por inscrições nas paredes da cidade de Tomar de que Fernando Lopes Graça teria sido autor e instigador, e que significavam pouco amor à Ditadura.
O júri protestou, impôs-se à polícia, o candidato prestou as suas provas, seguiu preso para Santarém e ficou classificado em primeiro lugar com 18 valores.
E em 1 de Novembro:
O meu discípulo Fernando Graça continua preso e está à mercê de gente que tem do valor dele a mesma noção que a minha égua Picarça pode ter do valor de Shakespeare.)

Realiza então palestras na Emissora Nacional e mantém tertúlias com um grupo de discípulos.
Era irmão do maestro português Pedro de Freitas Branco.
Está sepultado no cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Joly Braga Santos, seu discípulo, escreveu sobre ele:
Ao significado da sua obra notabilíssima, da sua personalidade fecunda e dominadora, há a juntar a verdadeira paixão que possuía pela Juventude, o entusiasmo com que via os novos triunfar, a sua luta diária, durante cinquenta anos, pelo renovamento, pela europeização da cultura portuguesa, e ainda a generosidade do seu grande coração, sempre disposto a ajudar os que começavam e vivendo com o mesmo entusiasmo as obras dos próprios discípulos, que pretendia sempre colocar à frente das suas.

Obras principais:

Sinfonia n.º 1 (1924)
Sinfonia n.º 2 (1926)
Sinfonia n.º 3 (1944)
Sinfonia n.º 4 (1952)
Scherzo Fantastique (1907)
Antero de Quental - poema sinfónico (1908)
Paraísos Artificiais - poema sinfónico (1910)
Tentações de S. Frei Gil (1911)
Vathek (1913)
Violin Concerto (1916)
Suite Alentejana n.º 1 (1919)
Suite Alentejana n.º 2 (1927)
Solemnia Verba - poema sinfónico (1951)

(Adaptado de Wikipédia) (Foto alentejana: João Matos)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

Rafael Bordalo Pinheiro (Portugal -- 1846-1905)

 
Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) revelou-se um espírito brilhante, ímpar de criatividade, que aplicou a uma contínua intervenção crítica à vida portuguesa.
Permanecem de surpreendente actualidade os seus comentários à política, à economia e à sociedade da época nas revistas de caricatura e humor que editou, atitude que não raro reflectiu na cerâmica - que a partir de 1884 logrou revitalizar nas Caldas da Rainha.

Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro nasceu na Rua da Fé, em Lisboa, em 21 de Março de 1846, terceiro filho duma extensa prole de doze irmãos, a que pertenceria o célebre retratista Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929). Foram seus pais o pintor romântico Manuel Maria Bordalo Pinheiro e D. Maria Augusta Carvalho Prostes.

Será com a caricatura artística que o génio de Rafael Bordalo Pinheiro deixará uma marca indelével e inconfundível no século XIX português.
O seu lápis traduz, no quotidiano, a perspicaz e oportuna observação da política do País, criando símbolos das realidades nacionais, dos quais o Zé Povinho se ergue como a imagem dum povo explorado e sofredor, mas conformado com a sorte que lhe cabe.



Em 1870, o sucesso obtido por uma caricatura alusiva à peça em cena intitulada O Dente da Baronesa revelara um talento e iria despoletar uma paixão.
Esse ano vê surgir sucessivamente o espirituoso álbum de caricaturas O Calcanhar d’Aquiles, a folha humorística A Berlinda, da qual saem sete números, e O Binóculo, periódico semanal à venda apenas nos teatros, com quatro números publicados.
Deu ainda à estampa o Mapa de Portugal, cujo êxito foi assinalado por vendas superiores a 4000 exemplares, no espaço de um mês.
Data de 1875 a iniciativa da criação do primeiro jornal dedicado à crítica social: A Lanterna Mágica, um projecto que faz a crónica dos factos sociais enquanto tece a crítica às políticas e às instituições.
Neste contexto, nasce a figura do Zé Povinho, tão acertada no seu conteúdo que permanece no imaginário português com uma reforçada carga simbólica.



Surgindo nessa época uma proposta de colaboração em O Mosquito, jornal brasileiro de humor, parte no Verão de 1875 para o Rio de Janeiro, onde viverá quatro anos.
A sua permanência no Brasil fica ainda assinalada pela criação de duas revistas de caricaturas: o Psit!!! (1877) e O Besouro (1878-79).
É a oportunidade para nascerem do seu lápis novas personagens-tipo da sociedade carioca, tais como o Psit!, o Arola ou o Fagundes.
Em Lisboa, publicava-se o Álbum de Caricaturas: Frases e Anexins da Língua Portuguesa (1876), ilustrado com desenhos de Bordalo.

 
Logo após o seu regresso à Pátria, em meados de 1879, dá início à publicação de O António Maria, cujo título alude a António Maria Fontes Pereira de Melo, figura política dominante que presidira ao Ministério.
Até Janeiro de 1885, conjuga-se nas páginas desta revista um combate de ideias que visa os partidos no exercício do poder e as debilitadas instituições da monarquia.
Em simultâneo, vão saindo as folhas do Álbum das Glórias, 42 caricaturas de personalidades e instituições portuguesas, comentadas por literatos contemporâneos.


É por esta época que Rafael Bordalo Pinheiro integra o Grupo do Leão (1881-89), importante formação livre apoiada por Alberto de Oliveira (1861-1922), que reúne artistas, escritores, intelectuais.
De 1885 a 1891 publica os Pontos nos ii, revista com idêntica intenção de defesa das causas portuguesas e de denúncia clara das manobras políticas, em que assumem particular relevo a Questão com a Inglaterra, o Monopólio dos Tabacos, o Ultimatum e a Revolta do Porto de 31 de Janeiro.

Em 1900 surge A Paródia, revista que atesta o desencanto de Rafael Bordalo face à vida política do País.
É nas capas dos primeiros números desta revista que caricatura os variados aspectos da realidade sócio-económica, de forma tão certeira que a sua aplicação continua a ser lembrada com acuidade, como em: A Política: a Grande Porca; A Finança: o Grande Cão; A Economia: a Galinha Choca; ou A Retórica Parlamentar: o Grande Papagaio.
Ele é ainda o pioneiro, nas suas revistas, da banda desenhada portuguesa.

 
A criação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - sob a direcção artística de Bordalo- e a sua instalação na vila, em 1884, contribui decisivamente para a revitalização da ancestral cerâmica local, quer pela revolução das formas, quer pela gramática decorativa de raiz francamente naturalista e tantas vezes duma exuberância a desafiar a realidade.
É a oportunidade de passar à argila a caricatura e o humor, criando os bonecos de movimento, como: o Zé Povinho; a Velha Maria; a Ama das Caldas; o Cura; o Sacristão; o Polícia.

 
Aos 58 anos, quando a sua produção artística ainda teria muito a revelar, Rafael Bordalo Pinheiro morre em Lisboa, no dia 23 de Janeiro de 1905.
Espírito criador, grande talento de artista, renovador da cerâmica das Caldas, o caricaturista “pai” do Zé Povinho deixa uma obra que se identifica com o próprio País e o seu povo, não só pelo génio do Artista, mas também pela intervenção do Homem.

(Adaptado de Matilde Tomaz do Couto, in Centro Virtual Camões)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "Napoleão" (Jacques Bainville - França)


“Quando, em 1768, Luís XV conseguiu reunir a Córsega à França, como não suspeitou ele de que o fundador de uma quarta dinastia nasceria lá um ano depois da sua nova aquisição?
Mas - e se a anexação não tivesse tido lugar?
Em França, eram numerosos os que a não desejavam, considerando-a inútil e embaraçosa.
Se tivesse prevalecido a sua opinião, a ilha ou cairia nas mãos dos ingleses ou seria independente sob o comando de Paoli. Qual teria sido nesse caso a sorte de Napoleão?

Uma vida obscura, no meio das rivalidades dos clãs, e, quando muito, a propriedade de alguns olivais e de uns quantos pés de vinha. Provavelmente, funções medíocres e honoríficas, a exemplo de seu avô Ramolino, que foi inspector de pontes e calçadas por conta da República genovesa.
E os Ingleses? Esses, nem sequer há a certeza de que tivessem dado um uniforme ao jovem indígena.
Quanto à possibilidade de pôr a sua espada ao serviço de um país estrangeiro, ter-lhe-ia decerto faltado a educação militar. Ou tê-la-ia Napoleão recebido?
Sem a França, o seu génio não se teria revelado.

 
A anexação constituiu o seu primeiro golpe de sorte, pois uniu a Córsega a um país suficientemente liberal, confiante e generoso para abrir as suas melhores escolas aos franceses de última hora.
Além disso, o país atravessaria uma fase de perturbação precisamente na data em que o jovem ajacciano atingia os vinte anos. E esta vasta desordem viria a oferecer oportunidades de inauditos destinos aos indivíduos bem dotados.

Este homem extraordinário não só sabia o que o seu destino tinha tido de prodigioso, como também possuía consciência da conjugação de ocorrências que haviam sido necessárias para o elevar ao Império e torná-lo sobrinho do rei de quem, lugar-tenente obscuro, ele tinha visto a queda por ocasião da jornada do 10 de Agosto.
Que romance, no entanto, foi a minha vida!, exclamará, no momento do epílogo.
De uma outra vez, em Santa Helena, dizia que passariam mil anos antes que as circunstâncias que se tinham acumulado sobre a sua cabeça viessem a escolher um outro de entre a multidão para o elevar assim tão alto (…).”


Napoleão – Jacques Bainville (1879-1936) - (Publicado por Editorial Aster, Lisboa, 1960)

Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota --> H. G. 21472 V. )