
Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
sábado, 5 de dezembro de 2009
Túmulos dos Reis Católicos (Capela Real da Catedral de Granada - Espanha)
Isabel (1451-1504) e Fernando (1452-1516)
Reis de Castela, Leão e Aragão a partir de 1474.
Estreitamente aparentados com a Casa Real portuguesa.
Foram as figuras basilares da união do reino de Aragão com o de Castela e Leão.
A eles se deve o ataque definitivo ao poder muçulmano na Península Ibérica (conquista de Granada em 1492).
Protegeram Cristóvão Colombo (que acabaria por chegar às Américas).

Em primeiro plano, o túmulo dos Reis Católicos.
Em segundo plano, os túmulos da sua filha e sucessora (Juana de Castela, ou Juana, a Louca) (1479-1555) ao lado de seu marido, Filipe, o Formoso (1478-1506).

Outra perspectiva dos túmulos.
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Debaixo dos túmulos acha-se a cripta com os caixões de chumbo em que repousam os restos mortais das quatro figuras reais.
Também aqui está o pequeno caixão de Miguel da Paz (filho do rei de Portugal, Manuel I, e de uma filha dos Reis Católicos, Isabel), que faleceu com cerca de dois anos.
Este rapazinho, neto dos Reis Católicos, chegou a ser jurado herdeiro simultâneo das Coroas de Portugal, de Castela e de Aragão.
Só a sua morte precoce impediu a União Ibérica (aceite, na altura, por todas as Casas Reais envolvidas).
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
1.º de Dezembro de 1640 - Foi há 369 anos...
Em 1580, dois anos depois da catástrofe militar marroquina em que perdeu a vida, com milhares dos seus súbditos, o rei D. Sebastião de Portugal, a Espanha, encabeçada pelo rei Filipe II, anexou a Coroa lusitana.
Sessenta anos depois, no dia 1.º de Dezembro de 1640, um grupo de conjurados portugueses (Os Restauradores) assaltou, num audacioso golpe-de-mão, a residência da vice-rainha espanhola (Duquesa de Mântua), aprisionou-a e pôs termo ao longo domínio estrangeiro, colocando no trono, para início da 4.ª dinastia portuguesa, o Duque de Bragança (rei D. João IV).
Sessenta anos depois, no dia 1.º de Dezembro de 1640, um grupo de conjurados portugueses (Os Restauradores) assaltou, num audacioso golpe-de-mão, a residência da vice-rainha espanhola (Duquesa de Mântua), aprisionou-a e pôs termo ao longo domínio estrangeiro, colocando no trono, para início da 4.ª dinastia portuguesa, o Duque de Bragança (rei D. João IV).
A seguir se transcreve a forma como Mário Domingues, apoiando-se em Pinheiro Chagas, descreve os primeiros momentos dessa manhã de libertação.
“A manhã de 1 de Dezembro de 1640, ao contrário do que costuma suceder nesta estação do ano, surgiu clara, sem nuvens no azul cetinoso do céu, permitindo que o Sol brilhasse tão vivamente como num dia de Agosto. Dir-se-ia um bom prenúncio para os que desejavam que esta data atingisse um brilho inextinguível na já tão acidentada história de Portugal.
Consoante o plano estabelecido, manhã cedo, começaram a afluir ao Terreiro do Paço os revolucionários, em pequenos ranchos para não despertarem suspeitas, ocultando as armas debaixo das grandes capas em moda nesse tempo, nas quais se embuçavam como se apenas quisessem resguardar-se do frio.
Os fidalgos iniciados no segredo da conjura e os convidados de última hora apresentavam-se placidamente, em ar de descuidoso passeio, conforme Pinto Ribeiro lhes recomendara, o que não suscitou desconfianças, porque nessa época havia hábitos madrugadores e frequentemente apareciam muito cedo grupos no Terreiro do Paço, à espera de que as repartições abrissem a fim de tratarem de assuntos burocráticos.
Duquesa de Mântua, vice-rainha espanhola
Alguns nobres vinham a cavalo, vulgar meio de transporte, outros de coche, dentro do qual ocultavam melhor as suas armas. Detinham-se aqui e além, com aspecto tranquilo, mas intimamente ansiosos por que soassem as nove horas para início da acção. Os minutos, porém, arrastavam-se com a lentidão de lesmas.
- “A aparência pacífica dos coches, que iam chegando ao Terreiro do Paço – descreve-nos Pinheiro Chagas, com o colorido que lhe é peculiar – não assustava os soldados da guarda, acostumados, nesses tempos mais madrugadores do que os nossos, a verem aparecer junto do palácio os cortesãos da duquesa. O povo também ainda não se acumulara em grande quantidade. Com a mão no fecho das portinholas, esperavam os fidalgos impacientes o bater da hora solene.
D. João IV, rei de Portugal.
Dão nove horas.
Abrem-se a um tempo os coches e os fidalgos descem; e enquanto Jorge de Melo, Estêvão da Cunha, António de Melo e Castro, o padre Nicolau da Maia e outros esperam, ainda dentro das carruagens, que venha o sinal do palácio para assaltarem a guarda castelhana, o grosso dos conjurados sobe rapidamente as escadas, entra na sala dos archeiros tudescos e, sem lhes darem tempo nem sequer para suspeitarem do que ia suceder, Afonso de Menezes, Gaspar de Brito Freire e Marco António de Azevedo deitam ao chão os cabides das alabardas, outros, desembainhando as espadas, afugentam os archeiros atónitos e desarmados.
Alguns destes, ou por não terem as alabardas nos cabides, ou por serem resolutos, cumpriram o seu dever com certa bravura, já defendendo a entrada do corredor que ia ter ao forte onde ficavam os quartos de Miguel de Vasconcelos, já cobrindo a porta dos aposentos da duquesa de Mântua.
Os primeiros levam-nos adiante de si Pedro de Mendonça e Tomé de Sousa, os outros resistem com desespero a Luís Godinho Benavente e mais três ou quatro fidalgos, e só fogem depois de terem visto cair dois dos seus, um morto, outro ferido.
Monumento aos Restauradores - Lisboa - Portugal
Entretanto, D. Miguel de Almeida, ébrio de alegria, corre a uma varanda, abre-a e, brandindo um estoque, exclamava:
Liberdade! Liberdade! Viva el-rei D. João IV! O duque de Bragança é nosso legítimo rei!
E as lágrimas, embargando-lhe a voz, inundavam-lhe as barbas alvejantes, que flutuavam ao sopro da brisa do Tejo, que douravam os raios do Sol a campear no céu.
Liberdade! Liberdade! Viva el-rei D. João IV! O duque de Bragança é nosso legítimo rei!
E as lágrimas, embargando-lhe a voz, inundavam-lhe as barbas alvejantes, que flutuavam ao sopro da brisa do Tejo, que douravam os raios do Sol a campear no céu.
Respondeu-lhe de baixo um imenso grito de entusiasmo e júbilo:
Liberdade! Liberdade! – gritou o povo, num clamor uníssono.
É que todos julgavam divisar nesse heróico D. Miguel de Almeida, nesse velho de oitenta anos, radiante de ardor juvenil, o símbolo de Portugal decrépito e alquebrado, mas iluminado nessa hora de ressurreição por um lampejo, por um reflexo do esplendor das suas eras gloriosas”.
Mário Domingues - A Revolução de 1640 - Editado por Livraria Romano Torres - Lisboa - 1970.
domingo, 29 de novembro de 2009
O Grande Salto da Humanidade - Ardi, a Mãe Mais Antiga (4,4 milhões de anos)

A história da Humanidade voltou a recuar no tempo agora que os cientistas concluíram o estudo de Ardi, um hominídeo (fêmea) que viveu há 4,4 milhões de anos numa região de África que actualmente faz parte da Etiópia.
Com 1,20m e 50 quilos, esta fêmea vagueou pela floresta milhões de anos antes da famosa Lucy, nome de baptismo do esqueleto de um outro hominídeo descoberto em 1974, tido até agora como o mais remoto antepassado do Homem.
O estudo de Ardi lançou uma nova luz sobre a evolução do Homem, disse o antropólogo C. Owen Lovejoy da Universidade de Kent, EUA.
Ao contrário do que se pensava até agora, o antepassado mais remoto do homem não será um grande símio semelhante a um chimpanzé.
Com efeito, os cientistas garantem agora que o Homem e o chimpanzé terão seguido caminhos paralelos a partir de um antepassado comum.
"Ardi não é esse antepassado comum, mas nunca tínhamos chegado tão perto", afirmou Tim White, director do Centro de Investigação da Evolução Humana da Universidade da Califórnia em Berkeley, EUA.

White acredita que essa criatura, a partir da qual Homem e macaco evoluíram, terá vivido há cerca de seis ou sete milhões de anos.
Mas Ardi tem muitos traços que actualmente não se encontram nos actuais macacos africanos, o que permite concluir que estes terão evoluído consideravelmente desde que partilharam com o Homem o tal antepassado comum.

O estudo de Ardi, que começou em 1994, ano em que foram descobertos os primeiros ossos, permitiu concluir que viveria na floresta e que poderia subir às árvores usando os membros superiores e inferiores, mas o desenvolvimento dos seus braços e pernas revelou que ela e os companheiros passariam pouco tempo empoleirados.
No solo, eram capazes de caminhar sobre os membros inferiores.
Sob a designação científica Ardipithecus Ramidus, que significa "símio do chão", foi esta descoberta cientificamente documentada em 11 artigos publicados em princípios de Outubro de 2009 na revista Science.
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sábado, 28 de novembro de 2009
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
terça-feira, 24 de novembro de 2009
As Meninas - Pequeno exercício sobre futuras profissões
Pelo jeito de cada uma, em que poderão elas transformar-se quando crescerem?
Uma hipótese, da esquerda para a direita:
1 - Juíza.
2 - Magistrada do Ministério Público perita em casos mediáticos.
3 - Apresentadora de noticiários sensacionais e bombasticamente reveladores na TV.
Artista - Norman Rockwell (1894-1978) - Estados Unidos
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domingo, 22 de novembro de 2009
A Fuga de D. João VI de Portugal para o Brasil - Novembro de 1807 (Oliveira Martins)

"(…) Quem faria face a Napoleão, cuja coorte atravessara a Espanha e pisava já o solo português?
Não seria o príncipe-regente, nem a rainha doida, nem as altas classes ensandecidas, nem o povo faminto, indiferente, sebastianista.
À voz do verdadeiro Anti-Cristo português, que foi Junot, desabou tudo por terra!
A nação, roída nos ossos pelo térmita infatigável, o jesuíta, nem já era o esqueleto, era apenas o pó de um cadáver.
Três séculos antes, Portugal embarcara, cheio de esperanças e cobiça, para a Índia; em 1807 (Novembro, 29) embarcava num préstito fúnebre para o Brasil.
A onda da invasão varria diante de si o enxame dos parasitas imundos, desembargadores e repentistas, peraltas e sécias, frades e freiras, monsenhores e cadastrados.

O embarque para o Brasil, em Lisboa
Tudo isso, a monte, embarcava, ao romper do dia, no cais de Belém.
Parecia o levantar de uma feira e a mobília de uma barraca suja de saltimbancos falidos: porque o príncipe, para abarrotar o bolso com louras peças de ouro, seu enlevo, ficara a dever a todos os credores, deixando a tropa, os empregos, os criados, por pagar.
Desabava tudo a pedaços; e só agora, finalmente, o terramoto começado pela natureza, continuado pelo marquês de Pombal, se tornava um facto consumado. Os cortesãos corriam pela meia-noite as ruas, ofegantes, batendo às lojas, para comprarem o necessário; as mulheres entrouxavam a roupa e os pós, as banhas, o gesso com que caiavam a cara, o carmim com que pintavam os beiços, as perucas e rabichos, os sapatos e fivelas, toda a frandulagem do vestuário.
Era um afã, como quando há fogo; e não havia choro nem imprecações: havia apenas uma desordem surda. Embarcavam promiscuamente, no cais, os criados e os monsenhores, as freiras e os desembargadores, alfaias preciosas e móveis toscos sem valor, nem utilidade.
Era escuro, nada se via, ninguém se conhecia. Os botes formigavam sobre a onda sombria, carregando, levando, vazando bocados da nação despedaçada, farrapos, estilhas, aparas, que o vento seco do fim dispersara nessa noite calada e negra.
(…) O príncipe regente e o infante de Espanha chegaram ao cais na carruagem, sós: ninguém dava por eles; cada qual cuidava de si, e tratava de escapar.
(…) O príncipe regente e o infante de Espanha chegaram ao cais na carruagem, sós: ninguém dava por eles; cada qual cuidava de si, e tratava de escapar.
Dois soldados da polícia levaram-nos ao colo para o escaler.

Depois veio noutro coche a princesa Carlota Joaquina, com os filhos.
E por fim a rainha (D. Maria I), de Queluz, a galope. Parecia que o juízo lhe voltava com a crise. Mais devagar!, gritava ao cocheiro; diria que fugimos!
A sua loucura proferia com juízo brados de desespero, altos gritos de raiva, estorcendo-se, debatendo-se às punhadas, com os olhos vermelhos de sangue, a boca cheia de espuma.
O protesto da louca era o único vislumbre de vida. O brio, a força, a dignidade portuguesa acabavam assim nos lábios ardentes de uma rainha doida!
Tudo o mais era vergonha calada, passiva inépcia, confessada fraqueza.
O príncipe decidira que o embarque se fizesse de noite, por ter a consciência da vergonha da sua fuga; mas a notícia transpirou, e o cais de Belém encheu-se de povo, que apupava os ministros, os desembargadores, toda essa ralé de ineptos figurões de lodo.
E – tanto podem as ideias! – chorava ainda pelo príncipe, que nada lho merecia. D. João também soluçava, e tremiam-lhe muito as pernas que o povo de rastos abraçava.
A esquadra recebera 15 000 pessoas, e valores consideráveis, em dinheiro e alfaias.
Levantou ferro na manhã de 29, pairando em frente da barra até o dia seguinte, às sete horas, que foi quando Junot entrou em Lisboa. Os navios largaram o pano, na volta do mar, e fizeram proa a sudoeste, caminho do Brasil.
Enquanto a esquadra esteve à vista, pairando, os altos da cidade, donde se descobre o mar, apareciam coroados de povo mudo e aflito.
As salvas dos navios ingleses que bloqueavam o Tejo troavam lugubremente ao longe.
O sol baixava, a esquadra perdia-se no mar, ia-se toda a esperança, ficava um desespero, uma solidão… Soltou-se logo a anarquia da miséria, e na véspera da chegada do Anti-Cristo, Lisboa correu risco de um saque.
Chegada da família real portuguesa ao Brasil
Napoleão estava burlado.
O príncipe D. João, a bordo com as mãos nos bolsos, sentia-se bem remexendo as peças de ouro: ia contente com a sua esperteza saloia, única espécie de sabedoria aninhada no seu gordo cérebro. Bocejava ainda: mas porque o enjoo começava com os balanços do mar.
É o que sucede à história, com os miseráveis balanços do tempo: vem o enjoo incómodo e a necessidade absoluta de vomitar.”
Oliveira Martins (1845-1894) - História de Portugal - 1.ª ed. - 1879 - Lisboa - Portugal
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sábado, 21 de novembro de 2009
A Grande Música de Arturo Márquez (México) - "Danzón n.º 2"
Aqui:
Compositor: Arturo Márquez (n. Sonora, México, 1950)
Orquestra: Simon Bolívar (Venezuela)
Maestro: Gustavo Dudamel (n. Venezuela, 1981)
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Não ao Desemprego (José Saramago)
"A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.
Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?
Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam?
Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.
E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados?
Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas?
Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas?
E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?
Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?
O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos foruns públicos e nas consciências.
Não é exagero.
Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas.
Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita dos governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimento, quer dizer, o seu trabalho.
Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral.
Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.
Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas.
Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua.
E sabemos que temos voz para usá-la.
Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto.
Eles não sabem tudo.
Equivocaram-se.
Enganaram-nos.
Não toleremos ser suas vítimas." (*)
(*) - Texto de José Saramago, escritor português, Prémio Nobel de Literatura.
In O Caderno de Saramago, 10 de Novembro de 2009.
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