Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
segunda-feira, 29 de junho de 2009
domingo, 28 de junho de 2009
A Europa - Sempre os mesmos...

"(...) Aliás, "aquela" Europa, desconhecida pela esmagadora maioria dos europeus, está condenada a uma vacuidade.
A fragmentação da União não é, somente, de características ideológicas.
Trata-se de uma acentuada carência de convicções, não prevista pelos chamados "pais fundadores", que fundaram, feitas as contas, um saco de gatos - para não dizer um saco de escorpiões.
Nada sabemos uns dos outros.
Olhamo-nos com desconfiança. E com um misto de inveja e de despeito em relação a países mais desenvolvidos.
Mas a ignorância não é, exclusivamente, portuguesa.
Creio, inclusive, que numerosos dirigentes europeus pouco ou nada conhecem das específicas realidades nacionais.
Pensava-se que o problema dos pobres seria resolvido por uma Europa cheia de solidariedade, de atenções para com os mais débeis, de compaixão por todos os desfavorecidos.
Mentira.
A Europa que aí está favorece os mais ricos, os mais fortes e os mais poderosos, atirando, negligentemente, umas migalhas, e organizando-se para se defender de qualquer pretexto que não seja esse.
A Europa Social é um mito, uma mentira, e uma aldrabice programada, porque as classes mandantes sabiam muito bem o que estavam a fazer.
Foi-nos inculcada a ideia de que seríamos muito felizes, porque seríamos todos iguais.
Nenhuma nação suplantaria as outras.
As decisões seriam irmãmente tomadas, entre sorrisos e reverências amigáveis.
Claro que só a exposição desta ideia mirífica era um absurdo.
A União Europeia, no seu bojo, pretendia, unicamente e talvez exclusivamente, ser uma união económica, comandada pelos países mais desenvolvidos.
Os Estados Unidos nem sequer se perturbaram, eles, em princípio os mais directamente ameaçados por essa hipotética hegemonia. Baralharam, deram as cartas, o sistema ficou na mesma.
Não é bem assim.
Ficou melhor para os mais ricos.
As desigualdades entre as nações não têm sido seriamente discutidas por ser um assunto desinteressante para o eixo económico que, realmente, manda, decide e resolve.
O Parlamento Europeu serve para quê?
É a reprodução dos parlamentos conhecidos.
Há maiorias e minorias. Estas estarão sempre sob o jugo das primeiras." (*)
(*) – Baptista-Bastos – Jornal de Negócios – Lisboa - Portugal - 15 de Maio de 2009.
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sexta-feira, 26 de junho de 2009
Carlota Joaquina - O Pecado Espanhol (de Marsilio Cassotti)
Acaba de ser lançada por A Esfera dos Livros (Lisboa, Portugal) a obra Carlota Joaquina - O Pecado Espanhol.
Trata-se de nova narrativa histórica de Marsilio Cassotti, desta vez centrada na interessantíssima figura da espanhola que foi rainha de Portugal nos princípios do século XIX.
Carlota Joaquina foi casada com o rei português D. João VI, sendo mãe dos infantes D. Pedro e D. Miguel, que se enfrentariam numa sangrenta guerra civil (liberais contra absolutistas).
Esta obra - cuja aquisição a Torre recomenda - vem no seguimento de outras que Cassotti dedicou a personagens e episódios da História de Portugal (como D. Teresa - Primeira Rainha de Portugal e, ainda, Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha, esta última objecto de uma apreciação crítica na Torre da História Ibérica, em 14 de Julho de 2007).
Da sinopse preparada pela editora, destacamos:
Nunca na História de Portugal uma rainha provocou paixões tão contraditórias como Carlota Joaquina de Borbón (1775-1830).
Requintada «divindade tutelar» para os seus seguidores, foi considerada vulgar, luxuriosa e assassina pelos seus inimigos.
Talvez com o objectivo de alcançar a «União Ibérica», o seu avô, Carlos III de Espanha, casou-a com o futuro rei D. João VI.
Em pouco tempo, a «engraçadíssima» infanta espanhola, filha de uma bela e intriguista princesa italiana, conquistou com a sua «desenvoltura» o coração da sogra, a rainha D. Maria I.
Contudo, posteriormente, os seus caprichos incomodariam uma corte receosa das suas origens.
Diante das ameaças da Revolução Francesa, D. Carlota tentou obter o protagonismo nos assuntos públicos. Foi travada pelos que não aceitavam que «as mulheres se metessem nos negócios».
O ressentimento contra um marido que considerava fraco e menos inteligente do que ela levou-a a recorrer à conspiração.
Pontos salientes da narrativa:
A misteriosa lealdade de Carlota Joaquina a Portugal durante a traiçoeira «Guerra das Laranjas», declarada por seu pai.
A irregular educação dos filhos.
Os rumores sobre os seus amantes.
As excentricidades no Brasil.
As intenções de ser coroada «rainha» em Buenos Aires.
As intrigas para casar as infantas.
A sua recusa em jurar a Constituição liberal.
Título: Carlota Joaquina - O Pecado Espanhol
Autor: Marsilio Cassotti
Editora: A Esfera dos Livros
Colecção: História Divulgativa
P.V.P: 24 €
Páginas: 320 + 36 extratextos
Formato: 16 X 23,5
Encadernação: Cartonado
Colecção: História Divulgativa
P.V.P: 24 €
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quarta-feira, 24 de junho de 2009
sábado, 20 de junho de 2009
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Portugal Velho ou Portugal Novo? (Guerra Junqueiro - 1896)

"(...) Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas.
Um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai.
Um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)." (*)
(*) - Guerra Junqueiro, “Pátria”, Portugal - 1896.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)." (*)
(*) - Guerra Junqueiro, “Pátria”, Portugal - 1896.
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domingo, 14 de junho de 2009
Aberturas de Grandes Livros - "O Processo" (Franz Kafka - Rep. Tcheca)
“Alguém devia ter caluniado Josef K., visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal.
A cozinheira da sua senhoria, a sr.ª Grubach, que todos os dias, pelas oito horas da manhã, lhe trazia o pequeno-almoço, desta vez não apareceu.
Tal coisa jamais acontecera.
K. ainda se deixou ficar um instante à espera; entretanto, deitado, com a cabeça reclinada na almofada, observou a velha do prédio em frente que, por sua vez, o contemplava com uma curiosidade fora do vulgar; depois, porém, ao mesmo tempo intrigado e cheio de fome, tocou a campainha. Neste momento bateram à porta e um homem, que K. jamais vira na casa da sr.ª Grubach, entrou no quarto.
Esbelto, embora de aspecto robusto, o recém-chegado envergava um fato escuro e justo, cheio de rugas e provido de um cinto, diversos botões, bolsos e fivelas. Ainda que não se visse bem qual a finalidade de tudo aquilo, o vestuário do homem parecia singularmente prático.
- Quem é o senhor? – perguntou K., soerguendo-se imediatamente na cama.
O homem, porém, ignorou a pergunta, como se estivesse habituado a não ter de justificar a sua presença, e perguntou por sua vez:
- O senhor tocou?
- Sim, para a Ana me trazer o pequeno-almoço – respondeu K., tentando em silêncio, num esforço de atenção, deduzir quem poderia ser aquele cavalheiro.
Este, porém, não consentindo em se deixar observar demoradamente, voltou-se para a porta e abriu-a um pouco, para dizer a alguém que devia estar mesmo por detrás dela:
- Ele quer que a Ana lhe traga o pequeno-almoço!
No quarto ao lado houve um pequeno riso que, a julgar pelo som, parecia ter sido compartilhado por várias pessoas.
K. ainda se deixou ficar um instante à espera; entretanto, deitado, com a cabeça reclinada na almofada, observou a velha do prédio em frente que, por sua vez, o contemplava com uma curiosidade fora do vulgar; depois, porém, ao mesmo tempo intrigado e cheio de fome, tocou a campainha. Neste momento bateram à porta e um homem, que K. jamais vira na casa da sr.ª Grubach, entrou no quarto.
Esbelto, embora de aspecto robusto, o recém-chegado envergava um fato escuro e justo, cheio de rugas e provido de um cinto, diversos botões, bolsos e fivelas. Ainda que não se visse bem qual a finalidade de tudo aquilo, o vestuário do homem parecia singularmente prático.
- Quem é o senhor? – perguntou K., soerguendo-se imediatamente na cama.
O homem, porém, ignorou a pergunta, como se estivesse habituado a não ter de justificar a sua presença, e perguntou por sua vez:
- O senhor tocou?
- Sim, para a Ana me trazer o pequeno-almoço – respondeu K., tentando em silêncio, num esforço de atenção, deduzir quem poderia ser aquele cavalheiro.
Este, porém, não consentindo em se deixar observar demoradamente, voltou-se para a porta e abriu-a um pouco, para dizer a alguém que devia estar mesmo por detrás dela:
- Ele quer que a Ana lhe traga o pequeno-almoço!
No quarto ao lado houve um pequeno riso que, a julgar pelo som, parecia ter sido compartilhado por várias pessoas.
Embora o estranho não pudesse ter depreendido do riso nada de que já não estivesse a par, disse a K., em tom de informação:
- É impossível. (...)"
O Processo - Franz Kafka (1883-1924) - Publicado por Livros do Brasil, Lisboa, Portugal, 1963.
- É impossível. (...)"
O Processo - Franz Kafka (1883-1924) - Publicado por Livros do Brasil, Lisboa, Portugal, 1963.
Actualmente editado por Assírio e Alvim, Lisboa (€ 20,00).
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sábado, 13 de junho de 2009
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Arte da Caça de Altanaria (2) - Diogo Fernandes Ferreira (Séc. XVII)

São os Açores no talhe e feição muito semelhantes aos Gaviões, ainda que maiores de corpo, em cuja grandeza excedem a todas aquelas aves que de rapina se sustentam (deixando à parte a Águia, que esta a todas se avantaja na grandeza).
De suas propriedades tratarei adiante.

Criam os Açores seus filhos em muitas partes do universo, em serras e lugares montosos, cheios de grandes bosques e arvoredos. Nestes fazem seus ninhos; criam uma vez no ano. Em Maio começam a fabricar seu ninho; põem de três até cinco ovos; os primas (fêmeas) estão sempre sobre eles, os treçós (machos) em todo o tempo que a fêmea está chocando lhe trazem de comer perdizes, pombas, e às vezes láparos e rolas.
Quando lhes trazem a caça que tomam, pousam em certa árvore, que para isso tem perto, e chama a prima com piados, a qual se levanta e vem voando; em chegando perto larga o treçó o que lhe traz para comer; ela antes que chegue a terra o toma.
O treçó em largando a caça se vai voando tão apressadamente que parece temer a prima, a qual, em comendo, se torna aos ovos, e neles está mais tempo a tirar os filhos que as galinhas.

Tirados (os filhos) se deixa estar alguns dias até eles estarem enxutos da humidade do ovo e cobertos de penugem.
Se a mãe sente que a quentura do sol enfada aos filhos, enrama o ninho e os ampara com as asas estendidas.
Tem cuidado de lhes dar de comer a miúdo.

Neste nosso tempo vieram a acabar os Açores nestas partes, (pois) que chegou a ser tão excessivo o preço que por cada um em pequeno se dava, que os homens cobiçosos que os tomavam, em achando o ninho o guardavam, para que outros lho não furtassem.
(Certa) vez aconteceu que uns (homens) escondidos esperaram que aqueles que os guardavam fossem buscar de comer e entretanto lho furtaram.
A mim me contou um destes (homens), que mos costumava vender, que subindo a uma árvore a tomar os ovos de um Açor, o prima e o treçó se levantaram e se meteram mui alto no céu, e julgou que daquela vez passavam a África, e nunca mais criaram naquela serra vermelha, onde isto aconteceu.
Pode muito bem ser.

Em muitas partes de Espanha se tomam Açores em pequenos, como em Navarra, e na terra dos Gélves, nas Astúrias, e em Galiza; e de quaisquer partes que à mão vierem Açores em pequenos os criarão como fica dito no capítulo que trata da criação dos Gaviões, e os cure com a mesma arte, notando que, sendo os Açores já de quatro betas, lhes deitarão rolas e pombinhos de mão, a cada Açor conforme a idade que tiver e se desenvolver voando (…) (*)
(*) - Arte da Caça de Altanaria (por Diogo Fernandes Ferreira)
A obra foi publicada no ano de 1616, ao tempo do domínio espanhol de Portugal (1580-1640).
Teve reedição em 1899, na Biblioteca de Clássicos Portugueses, cujo Director Literário foi Luciano Cordeiro.
Esta última edição ficou a dever-se a: Escriptorio - Rua dos Retrozeiros, 147 - Lisboa - Portugal.
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domingo, 7 de junho de 2009
O Drama de Juana - Irmã de Inês de Castro

Da história de Inês de Castro, assassinada, a mando de um monarca português, numa manhã fria de Janeiro (1355), se tratou já. A imagem mítica da sua tumba sumptuosa, em Alcobaça, permanece nítida na memória de muitos.
"O túmulo de Inês de Castro assenta sobre os dorsos dos responsáveis da sua morte. São várias criaturas enigmáticas, displicentemente agachadas, três de cada lado da arca. Meio-homens, meio-bichos, meio-presos, meio-livres. Reparem neles com vagar. Voltados para fora e, à primeira vista, tranquilos, parecem espiar despreocupadamente quem passa. Como se estivessem apenas curiosos do movimento, debruçados de uma varanda inocente (...). Espreitam, de expressões alheadas, com ares de quem ignora porque os condenaram a suportar tal peso" (*).

Longe de Alcobaça, umas centenas de quilómetros para norte, na catedral de Santiago de Compostela (Galiza, Espanha) descansam os restos de uma outra Castro - Juana, também galega, irmã da Inês martirizada em Portugal.
O seu destino - ainda que menos sangrento do que o da irmã - foi, também, dramático.
Juana cruzou um dia o seu destino com o terrível Pedro I de Castela (El Cruel), de quem falámos a seu tempo.
Soberana por uma noite - porque logo repudiada pelo monarca - intitulou-se rainha durante o resto da sua vida.
Até acabar no túmulo de Santiago de Compostela - maciço, frio e severo, nada comparável aos rendilhados lendários que servem de última morada à irmã.
A história conta-se em palavras breves.
(Túmulo de Juana de Castro, irmã de Inês, na catedral de Santiago de Compostela, Galicia - España)
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"(...) Dizem que o reizinho se indispôs, nestes começos da Primavera de 1354, com a sua amada Maria de Padilla. Não obstante tratar-se, apenas, de arrufos de namorados - tão efémeros e estimulantes como sempre são as zangas dos apaixonados sinceros -, sucede que Pedro, por birra ou por fortuita guinada do instinto, desvia nesta altura o sentido para uma tentadora viuvinha galega, dispondo-se a cortejá-la.
A bela furta-se aos avanços do monarca e faz-lhe graciosamente saber que, com ela, intimidades só por casamento. O reizinho, picado com tão esquiva formosura, morde o anzol e promete logo que sim, que casará. O problema, torna a viuvinha, é que o rei já é casado com a francesa de Bourbon. Pedro não é pessoa para se embaraçar com ninharias destas. Blanche não constitui, para já, empecilho de monta, pois ele mantém-na fora de circulação, detida em Arévalo." (*)
A bela furta-se aos avanços do monarca e faz-lhe graciosamente saber que, com ela, intimidades só por casamento. O reizinho, picado com tão esquiva formosura, morde o anzol e promete logo que sim, que casará. O problema, torna a viuvinha, é que o rei já é casado com a francesa de Bourbon. Pedro não é pessoa para se embaraçar com ninharias destas. Blanche não constitui, para já, empecilho de monta, pois ele mantém-na fora de circulação, detida em Arévalo." (*)
"Quanto ao resto - isto é, no que respeita às trapalhadas da legalidade -, o rei convoca de urgência dois homens de autoridade e fé, os bispos Sancho de Ávila e Juan de Salamanca, e com eles arruma o caso em três tempos. Pergunta-lhes Pedro: o que têm os senhores bispos a opinar sobre o malfadado casamento com Blanche de Bourbon em Santa Maria la Nueva?
Os bispos, fartos de saber do que a casa gasta, logo certificam, com um frio na espinha, que não há que falar aqui em casamento: é mais do que óbvio que o enlace de Valladolid não valeu, foi nulo, é como se nunca tivesse existido.
El-rei que se considere, pois, o mais livre dos homens e que se case com quem lhe apetecer.
Convencida pelas respostas destes varões sapientes, a viuvinha diz um sim enternecido ao rei e logo se unem os dois em Cuéllar.
O casamento durará, apenas, a noite de núpcias, o que, mesmo lembrados os antecedentes do noivo, é coisa de espantar." (*)
Os bispos, fartos de saber do que a casa gasta, logo certificam, com um frio na espinha, que não há que falar aqui em casamento: é mais do que óbvio que o enlace de Valladolid não valeu, foi nulo, é como se nunca tivesse existido.
El-rei que se considere, pois, o mais livre dos homens e que se case com quem lhe apetecer.
Convencida pelas respostas destes varões sapientes, a viuvinha diz um sim enternecido ao rei e logo se unem os dois em Cuéllar.
O casamento durará, apenas, a noite de núpcias, o que, mesmo lembrados os antecedentes do noivo, é coisa de espantar." (*)
"Que foi que sucedeu?
No mesmo dia das bodas, chegaram a Pedro notícias da rebelião que ganha vulto nas cercanias de Badajoz. Fornecem-lhe pormenores e nomes: Albuquerque, Enrique, Fadrique, os Castros.
Os Castros?
Pedro indigna-se, fica numa fúria e, no dia seguinte, parte de Cuéllar a toda a pressa, sem mais querer saber da nova esposa.
Jamais se tornarão a ver, e o reizinho não tardará a serenar nos braços quentes e únicos de Maria de Padilla, que daqui a pouco o presenteará com Constanza, a segunda filha.
Para bem se compreender mais esta reviravolta conjugal, desvende-se, enfim, a identidade da esposa repudiada: Juana de Castro, irmã de Fernando e Álvar de Castro, e também, naturalmente, daquela sedutora Inês que vive e ama em terras lusitanas." (*)
"Os Castros, sabedores da partida que o rei Pedro pregou à sua Juana, põem-se a remoer vinganças e adquirem outro balanço para a rebelião.
Na Galiza, Fernando faz questão de comparecer, dias a fio, diante de um notário, para que publicamente se ateste a sua ruptura com o rei de Castela. Dentro de pouco tempo, à testa de setecentos e trinta cavaleiros e de mil e duzentos peões, ele partirá ao encontro das forças dos bastardos e de João Afonso de Albuquerque para com elas formar o exército da rebelião.
Álvar de Castro é por seu turno incumbido de uma missão delicada: a de atrair o herdeiro do trono português à causa dos rebeldes castelhanos (...)". (*)
(*) José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - Lisboa - 2003.
(*) José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - Lisboa - 2003.
sábado, 6 de junho de 2009
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Álbuns do Cavaleiro Andante - "Capitão Audaz"
Alguns números publicados nos anos de 1955 e 1956 pela Empresa Nacional de Publicidade (ENP), Lisboa, Portugal.
Preço: 2$50 (dois escudos e cinquenta centavos).
Ou seja: cerca de 1,25 cêntimos do euro actual.
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domingo, 31 de maio de 2009
sábado, 30 de maio de 2009
Aberturas de Grandes Livros - "A Batalha de Dien Bien Phu" (Jules Roy - França)
“19 de Maio de 1953.
Um comandante-chefe não é pessoa que se receba como um regedor qualquer.
Fardados de branco sob o calor sufocante do meio-dia, todos os generais e almirantes do Vietname do Sul esperam na pista do aeródromo de Than Son Nut, em Saigão, a aterragem do avião de longo curso de Paris, que sofreu um atraso de três quartos de hora, a fim de permitir que pousasse em primeiro lugar o Dakota do alto-comissário francês, que vem de Hanói.
Fardados de branco sob o calor sufocante do meio-dia, todos os generais e almirantes do Vietname do Sul esperam na pista do aeródromo de Than Son Nut, em Saigão, a aterragem do avião de longo curso de Paris, que sofreu um atraso de três quartos de hora, a fim de permitir que pousasse em primeiro lugar o Dakota do alto-comissário francês, que vem de Hanói.
A bordo do Constellation, o general Navarre contempla, sonhador, a imensa e temível extensão de pântanos e anéis líquidos, enrolados nas terras baixas onde o mar penetra, parcela do vasto reino que recebeu o encargo de defender. As águas brilham à luz do Sol e as aldeias de colmo aninham-se sob os tufos de bambus gigantescos. O avião dirige-se agora para o norte, sobrevoa o porto, a cidade e os seus jardins, rola no cimento da pista e pára.
Ao aparecer na escotilha do Constellation, Navarre não está apenas sufocado pelo calor de fornalha, que lembra o da escala de Calcutá. Outro que não ele teria dificuldade em resistir ao cerimonial disposto para o receber. Evidentemente, conhece todo este ritual desde os tempos em que transportava a pasta dos comandantes-chefes e dos marechais, mas, desta vez, é ele o príncipe esperado, é para ele que tocam as fanfarras e se queima o incenso. Estes prazeres refinados que deliciariam Salan – agora em prolongadas visitas de despedida no Tonquim –, Navarre só os apreciará com um secreto prazer de que gostosamente prescindirá quando perceber qual o seu preço. (…)
(…) Navarre vê a seus pés todos os poderes. Se quiser, o trem da sua casa poderá ser igual ao dum rei. Com o seu pavilhão a drapejar ao vento, poderá, com um simples gesto ou assinatura, decidir da sorte ou desgraça de muita gente. Os seus ditos e silêncios serão estudados e todos ficarão suspensos das suas resoluções. Far-se-á tudo para o poupar às inclemências do clima, a fim de o seu génio poder resolver mais facilmente todos os problemas.
Nesse dia, através da escolta que o acompanhou, limitar-se-á a entrever Saigão, embora pressinta já o ambiente feroz dos negócios, do ágio, do dinheiro que corre a rodos, das casas de diversão nocturna e da vida dissoluta que nunca se interrompe.
Nesta cidade sem pássaros, as flores não têm perfume. Apresentam colorido brilhante, mas são pesadas, carnais, obcecantes. Estas bandas de música, estes apitos da polícia, esta roda-viva de automóveis carregados de estrelas e bonés doirados celebram a chegada dum novo duque da Indochina ou o começo duma liquidação com ar festivo?
Nesta cidade sem pássaros, as flores não têm perfume. Apresentam colorido brilhante, mas são pesadas, carnais, obcecantes. Estas bandas de música, estes apitos da polícia, esta roda-viva de automóveis carregados de estrelas e bonés doirados celebram a chegada dum novo duque da Indochina ou o começo duma liquidação com ar festivo?
(…) No fim do jantar que o alto-comissário ofereceu em sua honra, chega a notícia da queda, após dois meses de resistência, do posto de Muong Khoua, alcandorado num pico rochoso, na confluência da Nam Ou e da Nam Pak, sessenta quilómetros a sudoeste de Dien Bien Phu, nome este que Navarre ainda não tinha sequer ouvido.
Uma companhia de soldados laocianos e alguns auxiliares desapareceram. Pela primeira vez, os viets teriam utilizado granadas com fósforo, quer apanhadas do municiamento do corpo expedicionário, quer vindas da China. (…)”
A Batalha de Dien Bien Phu - Jules Roy (1907-2000) - Publicado por Livraria Bertrand - Lisboa - Portugal, 1965.
Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota -- H.G. 24299 V. )
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| Conquista de Dien Bien Phu pelos vietnamitas |
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quinta-feira, 28 de maio de 2009
terça-feira, 26 de maio de 2009
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