sábado, 23 de maio de 2009

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "A Ilustre Casa de Ramires" (Eça de Queiroz - Portugal)


 
“Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava.
Gonçalo Mendes Ramires (que naquela sua velha aldeia de Santa Ireneia, e na vila vizinha, a asseada e vistosa Vila-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos conheciam pelo “Fidalgo da Torre”) trabalhava numa novela histórica, “A Torre de D. Ramires”, destinada ao primeiro número dos “Anais de Literatura e de História”, revista nova, fundada por José Lúcio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenáculo Patriótico, em casa das Severinas.

A livraria, clara e larga, escaiolada de azul, com pesadas estantes de pau-preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos fólios de convento e de foro, respirava para o pomar por duas janelas, uma de peitoril e poiais de pedra almofadados de veludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente perfumada pela madressilva, que se enroscava nas grades.
Diante dessa varanda, na claridade forte, pousava a mesa – mesa imensa de pés torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e atravancada nessa tarde pelos rijos volumes da “História Genealógica”, todo o “Vocabulário” de Bluteau, tomos soltos do “Panorama”, e ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott, sustentando um copo cheio de cravos amarelos.

E daí, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes Ramires, pensativo diante das tiras de papel almaço, roçando pela testa a rama da pena de pato, avistava sempre a inspiradora da sua novela – a Torre, a antiquíssima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que em redor crescera, com uma pouca de hera no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoura bem cortadas no azul de Junho, robusta sobrevivência do Paço acastelado, da falada honra de Santa Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meados do século X.
Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal. (…)” (*)

Eça de Queiroz
(*) - A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz (1845-1900) - Edição de "Livros do Brasil", Lisboa, s/d.

Actualmente publicado por Porto Editora (€ 7,29) e Editorial Presença, Lisboa (€ 12,47).

Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota ---  L. 45696 V.)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Arte da Caça de Altanaria (1) - (Por Diogo Fernandes Ferreira - Séc. XVII)


Das aves de rapina em geral

"(...) Aves de rapina são aquelas que se mantêm de aves vivas que elas voando caçam para sua comida.
Destas há vários géneros e diferentes sortes de plumagens.
As estimadas dos grandes senhores são Falcões e Açores, Gaviões e Esmerilhões e Ogeas.
Estas são as mais limpas e nobres, e delas usam os príncipes em sua caça, as quais se avantajam a todas as aves do céu na ligeireza do voar, no atrevimento do ânimo e na força que têm na presa das mãos, nas quais têm tanta que apertando muitas vezes o Açor com suas mãos a do caçador por cima da luva, o constrange a lhe doer o braço sem poder menear os dedos.



A Natureza, que nada fez sem causa, criou estas para passatempo dos príncipes, pelo que as dotou e fez diferentes de todas as mais aves; com os dedos das mãos da banda de baixo lhes criou uns nós nervosos como verrugas, da cor dos mesmos dedos, e a cada um deles os deu conforme o seu tamanho, o que fez para que assim tivessem força para sustentarem aquelas prisões de que aí ferrassem e se lhe não fossem. Estas de tal maneira têm aferradas as ralés que tomam, que é necessário engenho e muita força para lhes tirar a presa.


Estes nós que digo só os têm os Falcões, Açores e Esmerilhões, Ogeas e as Águias - as quais se mantêm de aves que elas por sua ponta da asa voando no ar alcançam e prendem, e todas as mais aves carecem deles.
Pelo que advirto ao caçador que for buscar Açores a terras estranhas se lembre do que a Natureza se não esqueceu, porque já aconteceu algumas vezes trazerem a vender, em lugar de Açores, tartaranhas e bilhafres, que em pequenos são bem semelhantes no rosto e plumagem e mais feições aos Açores, e só nas mãos diferem, (pois) que carecem dos nós que digo, e aconteceu haver engano.

As aves que acima digo nobres se cevam (alimentam) duas vezes ao dia, e sempre buscam aves de novo de que comam, e se alguma coisa lhes sobeja pela manhã, não curam de tornar a ela à tarde; só os Gaviões algumas vezes o fazem, que como são aves pequenas e lhes acontece caçarem perdizes e pombas, e lhes sobeja muita comida, por não tornarem a trabalhar de novo, buscando aves de que se cevem (alimentem), tornam a comer o sobejo.


As Águias, a quem todas as aves temem, também caçam aves vivas, e como são aves grandes e pesadas o seu modo de caçar é diferente, porque estas voando à tira não poderão alcançar ave alguma, e para o poderem fazer se levantam às voltas, pondo-se nas nuvens; de lá descem às aves que por baixo passam com as asas fechadas, rompendo com o peso da sua grandeza a densidade do ar mais depressa que todas as aves, e assim fazem sua presa no que hão-de comer.


Muitas vezes erram o lanço, e assim frustradas, constrangidas da fome, descem a tomar a lebre e o coelho, e ás vezes o cordeiro novo; muitas vezes a acharão comendo em cão morto.
Outras aves há de rapina, como bilhafres, altaformas, cabisalvas e assorenhas, as quais tomam algumas vezes aves vivas que comem, mas ordinariamente se mantêm de bichos da terra.
Os corvos e milhanos e brita-ossos e abutres também comem aves e são contadas com as de rapina, mas seu próprio mantimento são carniças. (…)" (*)


(*) Arte da Caça de Altanaria (por Diogo Fernandes Ferreira).
A obra foi publicada no ano de 1616, ao tempo do domínio espanhol de Portugal (1580-1640).
Teve reedição em 1899, na Biblioteca de Clássicos Portugueses, cujo Director Literário foi Luciano Cordeiro.
Esta derradeira edição ficou a dever-se a: Escriptorio - Rua dos Retrozeiros, 147, Lisboa, Portugal.

domingo, 10 de maio de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "As Vinhas da Ira" (John Steinbeck - Estados Unidos)






“Para a região vermelha e parte da região cinzenta de Oklahoma, as últimas chuvas caíram suavemente, sem penetrarem fundo na terra escalavrada.
Os arados cruzaram e recruzaram os campos molhados. As últimas chuvas deram um avanço rápido ao milho e espalharam à beira das estradas moitas de ervas daninhas e de relva, de modo que a região vermelha e a região cinzenta começaram a desaparecer sob um tapete verde.

Nos últimos dias de Maio, o céu tornou-se pálido, e as nuvens, que tinham pairado em altos flocos por tanto tempo, durante a Primavera, dissiparam-se. O Sol faiscava sobre o milho em crescimento dia após dia, até que, ao longo do gume de cada baioneta verde, se estendeu uma linha acastanhada. (…)

(…) Chegou Junho. O Sol queimava mais incisivamente. A linha acastanhada das folhas do milho alargava-se, deslocando-se para o centro. As ervas daninhas tombavam enlanguescidas. O ar era transparente, e o céu estava mais pálido, e, de dia para dia, a terra perdia cor.

Nas estradas, onde o gado transitava e onde as rodas dos carros moíam o chão e as patas dos cavalos calcavam a terra, rompia-se a crosta de lama e formava-se a poeira.
Tudo o que se movia lançava a poeira no ar; um viandante levantava uma camada, que lhe chegava à cintura, uma carroça fazia-a subir até aos taipais e um automóvel deixava uma nuvem atrás de si. E só muito tempo depois a poeira acabava por assentar.

Em meados de Junho, apareceram dos lados do Texas e do Golfo nuvens muito densas, carregadas de chuva. Os homens, nos campos, olhavam para as nuvens, fungavam e estendiam os dedos húmidos, a ver de onde soprava o vento. (…)”

As Vinhas da Ira - John Steinbeck (1902-1968) - Editado por Livros do Brasil, Lisboa, Portugal, 1963.

Continua a ser publicado em Portugal por Livros do Brasil (€ 23,50).

Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota - L. 16455 V.)

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sábado, 9 de maio de 2009

domingo, 3 de maio de 2009

Os Novos Pobres...

Prémios

"A alta-roda da finança anda num virote.
Tudo começou quando os responsáveis da AIG se decidiram presentear com um bónus de 165 milhões de dólares, seguramente pela excelência da sua prestação.
Para quem não saiba, a AIG é a maior seguradora mundial e teve que ser salva com 85 mil milhões de dólares dos contribuintes, que detêm actualmente 85 por cento da firma.
Numa palavra, a AIG foi nacionalizada.

E Barack Obama foi aos arames com a insensatez do bónus.
Daqui nasceu a ideia de sobretaxar a 90 por cento a parte variável dos vencimentos dos executivos de firmas intervencionadas.
O que é óbvio para o cidadão comum, desencadeou a ira dos banqueiros.
Sentem-se injustiçados, coitados.
Eis o seu argumentário em seis pontos:

1. A nova taxa seria «uma condenação sem processo» com «efeitos retroactivos».
Aqueles senhores, que não se fizeram rogados quando precisaram do Estado, acham, de facto, que nada mudou.
Em consequência, socorrem-se da Constituição dos EUA para declararem a nulidade da medida.

2. O legislador «pune indiferentemente» beneficiários de ajudas públicas: os que se portam bem e os que «merecem a cólera do Governo».
Reparem: o ‘sindicato’ dos executivos acha que o condicionamento dos vencimentos é uma ‘punição’.
Olha se os trabalhadores normais se põem a pensar da mesma forma...

3. O esquema seria ainda «contraproducente» porque leva «os administradores a quererem reembolsar o Estado quanto antes», quando deviam procurar a consolidação das firmas.
Este argumento é muito curioso porque nos mostra como funciona a natureza humana lá em cima.
Só pensa nela própria...

4. O legislador «sapa os esforços do Estado e do Tesouro» porque torna mais difícil ainda «o recrutamento de talentos».
Ou seja, se não se pode enriquecer sem limites, então de que vale o esforço?

5. Por outro lado, a medida «semeia dúvidas no mundo dos negócios quanto à honestidade do Estado».
Esta é muito boa e merece desenvolvimento:
como «são os contribuintes que financiam» os programas de saneamento, é legítima a suspeita de que só o fazem «para submeter tais programas a uma vigilância acrescida».
De facto, assim é. Quem adquire títulos, sente-se accionista e pede contas. Mas os administradores, tão humanos como nós, não gostam de ser vigiados.
Já tínhamos percebido...

6. Finalmente, a medida seria «contrária aos interesses americanos» porque não toca nos banqueiros estrangeiros ou no estrangeiro.
Assim, a concorrência pode «contratar os melhores elementos da profissão com aliciantes remunerações» e, em consequência, «os bancos americanos ficarão ainda mais mal armados para reembolsarem o Estado».
O texto da agência económica e financeira que estou a citar, qual ‘sindicato de patrões’, conclui com uma ameaça velada: «A cruzada contra os prémios pode custar cara aos contribuintes».
São tão finos, não são?" (*)

(*) - Miguel Portas ("Sol de Esquerda")

(Negritos e grafismo da responsabilidade da Torre)

sábado, 2 de maio de 2009

Trem de Ferro (Manuel Bandeira - Brasil)

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Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria
que foi isto
maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa,
fumaça
Corre,
cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
de ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô...
Vou mimbora
vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...

[Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)]

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Álbuns do Cavaleiro Andante - "Bessy"














































Publicado por Empresa Nacional de Publicidade - Lisboa - Portugal -1956, 1957, 1958 e 1959.
Preço: 2$50 (dois escudos e cinquenta centavos). Mais ou menos 1,25 cêntimos do actual euro.

terça-feira, 28 de abril de 2009

domingo, 26 de abril de 2009

Os Primeiros Americanos (2)

"Onde estão hoje os pequot? Onde estão os narragansett, os moicanos, os pokanoket e muitas outras tribos outrora poderosas do nosso povo?"

"Meus amigos, estamos neste território há muitos anos. Nunca fomos ao território do Pai Grande incomodá-lo. Foi o seu povo que veio ao nosso território incomodar-nos, fazer muitas coisas más e ensinar o nosso povo a ser mau..."

"Há dois anos atrás vim para esta estrada, seguindo o búfalo, para que as minhas mulheres e os meus filhos pudessem ficar com as faces cheias e os corpos aquecidos."

"Mas os soldados dispararam contra nós e, desde então, houve um barulho como o de uma tempestade e ficámos sem saber que caminho tomar."

"Mas há coisas que vocês me disseram e de que eu não gosto. Não são doces como açúcar, mas amargas como cabaças."

"Disseram que desejavam colocar-nos numa reserva, construir-nos casas e fazer-nos tendas para curar. Não quero nada disso."

"A nossa vontade era viver aqui, na nossa terra, pacificamente, e fazer o possível pelo bem-estar e prosperidade do nosso povo. Mas o Pai Grande encheu-a de soldados que só pensavam na nossa morte."

"Esta guerra não nasceu aqui, na nossa terra. Esta guerra foi trazida até nós pelos filhos do Pai Grande, que vieram tomar a nossa terra sem perguntarem o preço, e que, aqui, fizeram muitas coisas más. O Pai Grande e os seus filhos culpam-nos por estes problemas..."


"Será que o homem branco se tornou uma criança, que mata sem se importar, e não come o que matou? Quando os homens vermelhos matam a caça, é para que possam viver, e não morrer de fome."

"Os apaches não têm ninguém para contar a sua história."

"O meu povo nunca usou um arco ou disparou uma arma de fogo contra os brancos. Houve problemas na fronteira entre nós, e os meus jovens dançaram a dança da guerra. Mas não fomos nós que começámos."

"Mas, desde que eles vieram e acabaram com as nossas tendas, cavalos e tudo o mais, é difícil para mim acreditar ainda neles".

"Esses soldados cortam a minha madeira, matam o meu búfalo e, quando vejo isso, o meu coração parece partir-se. Fico triste..."


"Gosto de vaguear pelas pradarias. Nelas sinto-me livre e feliz".

Recorde aqui um tema musical famoso:


(Fotos de Curtis, obtidas nos inícios do século XX).
(Citações do livro "Enterrem meu Coração na Curva do Rio", de Dee Alexander Brown - Centro do Livro Brasileiro - Edições Melhoramentos - Brasil - 1973).