Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
sábado, 3 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Empresas e Predadores

I - 24 suicídios na France Telecom
Um funcionário da France Telecom atirou-se de um viaduto, depois de escrever uma carta denunciando o clima profissional vivido no seio da gigante das telecomunicações francesa France Telecom.
Esta morte aumenta para 24 o número de suicídios de empregados da empresa nos últimos 18 meses.
Um funcionário da France Telecom atirou-se de um viaduto, depois de escrever uma carta denunciando o clima profissional vivido no seio da gigante das telecomunicações francesa France Telecom.
Esta morte aumenta para 24 o número de suicídios de empregados da empresa nos últimos 18 meses.
Casado e pai de dois filhos, o homem de 51 anos deixou dentro do carro uma carta dirigida à sua mulher, “evocando o sofrimento vivido no contexto profissional” (…).
Desde Fevereiro de 2008 que tem havido uma vaga de suicídios na France Telecom, uma maré negra que provocou reacções emotivas na empresa e motivou a intervenção do Estado, accionista principal da empresa.
Os sindicatos reagiram com indignação ao mais recente suicídio de um quadro da empresa, denunciando as condições de trabalho na central telefónica de Annecy.
Desde Fevereiro de 2008 que tem havido uma vaga de suicídios na France Telecom, uma maré negra que provocou reacções emotivas na empresa e motivou a intervenção do Estado, accionista principal da empresa.
Os sindicatos reagiram com indignação ao mais recente suicídio de um quadro da empresa, denunciando as condições de trabalho na central telefónica de Annecy.
Segundo o sindicato SUD-Solidaires, o funcionário que se suicidou tinha sido transferido recentemente e “não se sentia bem” no seu novo serviço, “do qual se libertou”.
"É aterrorizante. Ele trabalhava numa secção conhecida há muito tempo por ser insuportável, havia uma verdadeira indiferença, nenhum calor humano, não se falava senão de números, os empregados eram carne para canhão”.
O presidente da empresa, Didier Lombard, foi “imediatamente” ao local de trabalho do funcionário que se suicidou.
O ministro do Trabalho, Xavier Darcos, pediu a Lombard que acelerasse as “negociações para a prevenção dos riscos psicossociais” no seio da empresa.
A meio de Setembro, pressionado pelo governo francês, o presidente da France Telecom tinha prometido mudar certos métodos de gestão. (*)
(*) - (Dos jornais)
II - Neoliberalismo e restauração do poder de classe
(...) A ortodoxia neoliberal, pressionada tanto pela Inglaterra como pelos EUA, introduziu-se nas instituições financeiras internacionais depois de 1980.
O Fundo Monetário Internacional tornou-se o principal agente na promoção das políticas de “ajustamento estrutural” sempre que tinha de lidar com uma crise de crédito.
Como resultado, países como o México, Argentina, Brasil e África do Sul foram arrastados para o campo neoliberal.
O preço de entrar no sistema económico global para muitos países da área soviética foi a privatização e o assumir de uma postura neoliberal.
A competição global arrastou muitos outros países, até a China e a Índia, para algo aproximado a uma estrutura de Estado neoliberal. (...)
Mas algumas variantes de Estado neoliberal agora predominam em todo o mundo. (...)
Num mundo darwiniano, o argumento neoliberal vinga:
Ficas para trás porque não és competitivo.
Apenas sobrevives se te encaixares suficientemente bem.
Não há nada sistematicamente errado.
A falha está em ti. Não és suficientemente neoliberal.
Em segundo lugar, e mais importante, os grupos com rendimentos mais elevados tornaram-se infinitamente mais ricos sob o neoliberalismo.
A desigualdade social aumentou em vez de diminuir.
Assim, o neoliberalismo tem sido erguido sobre a restauração do poder de classe de uma pequena elite de financeiros e directores-executivos.
E uma vez que essa classe tem um controlo decisivo sobre os processos políticos e sobre os instrumentos de persuasão, é claro que insiste em que o mundo está muito melhor.
"É aterrorizante. Ele trabalhava numa secção conhecida há muito tempo por ser insuportável, havia uma verdadeira indiferença, nenhum calor humano, não se falava senão de números, os empregados eram carne para canhão”.
O presidente da empresa, Didier Lombard, foi “imediatamente” ao local de trabalho do funcionário que se suicidou.
O ministro do Trabalho, Xavier Darcos, pediu a Lombard que acelerasse as “negociações para a prevenção dos riscos psicossociais” no seio da empresa.
A meio de Setembro, pressionado pelo governo francês, o presidente da France Telecom tinha prometido mudar certos métodos de gestão. (*)
(*) - (Dos jornais)
II - Neoliberalismo e restauração do poder de classe
(...) A ortodoxia neoliberal, pressionada tanto pela Inglaterra como pelos EUA, introduziu-se nas instituições financeiras internacionais depois de 1980.
O Fundo Monetário Internacional tornou-se o principal agente na promoção das políticas de “ajustamento estrutural” sempre que tinha de lidar com uma crise de crédito.
Como resultado, países como o México, Argentina, Brasil e África do Sul foram arrastados para o campo neoliberal.
O preço de entrar no sistema económico global para muitos países da área soviética foi a privatização e o assumir de uma postura neoliberal.
A competição global arrastou muitos outros países, até a China e a Índia, para algo aproximado a uma estrutura de Estado neoliberal. (...)
Mas algumas variantes de Estado neoliberal agora predominam em todo o mundo. (...)
Num mundo darwiniano, o argumento neoliberal vinga:
Ficas para trás porque não és competitivo.
Apenas sobrevives se te encaixares suficientemente bem.
Não há nada sistematicamente errado.
A falha está em ti. Não és suficientemente neoliberal.
Em segundo lugar, e mais importante, os grupos com rendimentos mais elevados tornaram-se infinitamente mais ricos sob o neoliberalismo.
A desigualdade social aumentou em vez de diminuir.
Assim, o neoliberalismo tem sido erguido sobre a restauração do poder de classe de uma pequena elite de financeiros e directores-executivos.
E uma vez que essa classe tem um controlo decisivo sobre os processos políticos e sobre os instrumentos de persuasão, é claro que insiste em que o mundo está muito melhor.
E está, para eles.
Mas se o crescimento agregado é tão lento, como é que as classes superiores acumulam tanta riqueza?
Elas fazem-no em larga medida devido ao uso de práticas predatórias, desapropriando outros.
Esta “acumulação por desapropriação” assume muitas formas.
Mão-de-obra barata é rapidamente saqueada e quanto mais barata e dócil, melhor.
Os direitos comuns de propriedade (água, território, etc.) estão a ser privatizados.
Populações de camponeses desfazem-se dos seus terrenos.
O meio-ambiente é degradado.
Patentes de direitos para tudo, desde materiais genéticos, sementes, produtos farmacêuticos, até ideias, permitem extrair dinheiro de populações com baixos rendimentos.
Bens fundamentais como a educação e cuidados de saúde são tornados comercializáveis e os preços dos utentes sobem em flecha.
E a lista continua sempre a aumentar.
Mas, mais importante de tudo, os sistemas de crédito e financiamento são usados activamente para acumular riqueza num pólo enquanto a extraem do outro.
O neoliberalismo é uma transferência maciça de riqueza dos pobres para os ricos.
Estas injustiças acenderam inúmeros protestos em todo o mundo, vagamente unidos no movimento anti-globalização ou pela justiça global.
A resposta do neoliberalismo foi frequentemente a repressão do Estado.
Dada a sua base de classe, o Estado neoliberal é compreensivelmente antidemocrático.
A viragem para o autoritarismo e neo-conservadorismo é ilustrativa de quão longe irá essa classe e as estratégias que está preparada para desenvolver a fim de preservar e aumentar os seus poderes.
A massa da população terá de submeter-se a este esmagador poder de classe ou reagir-lhe também em termos de classe.
Se isto parece, age e se sente como luta de classe, então temos de estar preparados para chamá-la pelo seu nome e agir em conformidade. (*)
(*) - David Harvey (Professor de Antropologia no Graduate Center da Universidade da Cidade de Nova Iorque.
O seu livro mais recente é The New Imperialism, publicado pela Oxford University Press.)
III- O liberalismo da 25.ª hora
Mas se o crescimento agregado é tão lento, como é que as classes superiores acumulam tanta riqueza?
Elas fazem-no em larga medida devido ao uso de práticas predatórias, desapropriando outros.
Esta “acumulação por desapropriação” assume muitas formas.
Mão-de-obra barata é rapidamente saqueada e quanto mais barata e dócil, melhor.
Os direitos comuns de propriedade (água, território, etc.) estão a ser privatizados.
Populações de camponeses desfazem-se dos seus terrenos.
O meio-ambiente é degradado.
Patentes de direitos para tudo, desde materiais genéticos, sementes, produtos farmacêuticos, até ideias, permitem extrair dinheiro de populações com baixos rendimentos.
Bens fundamentais como a educação e cuidados de saúde são tornados comercializáveis e os preços dos utentes sobem em flecha.
E a lista continua sempre a aumentar.
Mas, mais importante de tudo, os sistemas de crédito e financiamento são usados activamente para acumular riqueza num pólo enquanto a extraem do outro.
O neoliberalismo é uma transferência maciça de riqueza dos pobres para os ricos.
Estas injustiças acenderam inúmeros protestos em todo o mundo, vagamente unidos no movimento anti-globalização ou pela justiça global.
A resposta do neoliberalismo foi frequentemente a repressão do Estado.
Dada a sua base de classe, o Estado neoliberal é compreensivelmente antidemocrático.
A viragem para o autoritarismo e neo-conservadorismo é ilustrativa de quão longe irá essa classe e as estratégias que está preparada para desenvolver a fim de preservar e aumentar os seus poderes.
A massa da população terá de submeter-se a este esmagador poder de classe ou reagir-lhe também em termos de classe.
Se isto parece, age e se sente como luta de classe, então temos de estar preparados para chamá-la pelo seu nome e agir em conformidade. (*)
(*) - David Harvey (Professor de Antropologia no Graduate Center da Universidade da Cidade de Nova Iorque.
O seu livro mais recente é The New Imperialism, publicado pela Oxford University Press.)
III- O liberalismo da 25.ª hora
"A meritocracia", a "gestão por objectivos", a facada nas costas, o desprezo pela condição humana, enfim, o pensamento triunfante que calcula e que governa um pouco por toda a parte, já conduziu ao suicídio de vinte e quatro funcionários da France Telecom.
Condoído, o gerente da coisa prometeu mais "humanidade" e maior atenção às relações laborais e às transferências de postos de trabalho.
Por cá, os "intelectuais" do liberalismo da vigésima quinta hora devem achar maravilhosa a prática desta privatizada empresa.
O bezerro de ouro - o lucro - justifica tudo e o seu contrário, porque vivemos num tempo desprovido de ética e onde o homem se limita a ser uma peça descartável.
E há sempre alguém (o alguém é uma metáfora) disponível para ocupar o lugar do morto seguinte em nome dos "objectivos".
O homem não foi feito para a derrota, como escreveu o Hemingway?
Não teria tanta certeza.
Afinal, a France Telecom (isto é só um nome) prova que pode ser derrotado e destruído." (*)
(*) - "Portugal dos Pequeninos"
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terça-feira, 29 de setembro de 2009
Os Últimos Guerreiros do Imperador Qin (Xian - China)
Guerreiros de Xian, ou Exército do imperador Qin, é uma colecção de mais de oito mil figuras de guerreiros e cavalos em terracota, em tamanho natural, encontradas nas imediações do mausoléu do primeiro imperador da China.Foram descobertas em 1974, próximo de Xian.
As imagens em terracota foram enterradas junto ao mausoléu do imperador Qin Shihuang em c. 209-210 a.C..
A descoberta ficou a dever-se a uns agricultores locais que escavavam um poço de água a leste do monte Lishan, uma elevação de terra feita por mãos humanas (a qual contém a necrópole).
A descoberta ficou a dever-se a uns agricultores locais que escavavam um poço de água a leste do monte Lishan, uma elevação de terra feita por mãos humanas (a qual contém a necrópole).
A construção do mausoléu começou em 246 a.C., e acredita-se que 700.000 trabalhadores e artesãos levaram 38 anos para completar a gigantesca obra.
De acordo com o historiador Sima Qian, na obra Registos do Historiador (c. 100 a.C.), o imperador foi sepultado em 210 a.C. juntamente com os seus tesouros e objetos artísticos, bem como com uma réplica do universo, onde os astros eram representados por pedras preciosas, os planetas por pérolas e os mares por lagos de mercúrio.Pesquisas recentes detectaram altos índices de mercúrio no solo, comprovando o historiador.
O túmulo fica perto de uma pirâmide de terra com 47 metros de altura e 2,18 quilómetros quadrados de área, mas esta não foi ainda devidamente explorada por se temer que a erosão provocada pelas chuvas possa danificá-la.
O complexo foi construído para servir de palácio ou corte imperial. Divide-se em diferentes estruturas e salas, sendo rodeado por uma muralha com diversos portões.
Ficou protegido por este enorme exército de soldados em terracota, em guarda nas proximidades.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Combate do Pembe, Sul de Angola. Foi há 105 anos...
Perfazem-se hoje precisamente 105 anos sobre o terrível desastre militar no Sul de Angola, onde pereceram, em condições trágicas, centenas de soldados portugueses.
Completam-se também 104 anos sobre a missa mandada celebrar, na Igreja dos Mártires, em intenção do tenente Luz Rodrigues, um dos heróis do combate (ver dois posts abaixo).
Podem reviver tudo isto aqui: Derrota portuguesa no Pembe
Podem reviver tudo isto aqui: Derrota portuguesa no Pembe
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Os novos valores...
"(...) Pensando bem, temos razões para ser infelizes ou, pelo menos, pouco felizes.Os políticos mentem-nos, manipulam a nossa benevolência, prometem-nos melhorias, cavalgam as nossas mais rústicas e asseadas esperanças.
As instituições seguem-lhes o rasto. Foram, aliás, criadas por eles, ou são filhas dilectas do sistema.
Os peralvilhos que as dirigem, sob designações as mais diversas, são criaturas pouco recomendáveis.
Todos nós sabemos disto, comentamos amargamente a roubalheira que por aí anda, nem sequer nos divertimos quando banqueiros vão para a cadeia ou estão sob a ameaça de lá ir parar.
Desconfiamos, mas não damos um passo para as coisas serem diferentes.
Votamos nos partidos que sustentam esta gente porque esta gente mantém o sistema e não está nada interessada em o alterar.
Aliás, nada de real e de rigoroso poderá ser feito sem se pulverizar as estruturas que vão segurando, como um andaime, esta sociedade. (...)
Vivemos nesse universo obscuro e inquietante da competitividade e dos objectivos a atingir.
Vale tudo, inclusive a própria vida humana.
Dissiparam-se os exemplos que serviam de rota e de escora.
A palavra de honra deixou de comparecer nas relações sociais.
A classe dirigente recusa-se a entender que uma promessa não é só um compromisso - é um crédito de honra. (...)
A honra desapareceu do circuito normal onde as ligações afins se estabeleciam e se solidificavam.
Os contratos eram feitos através desses compromissos morais. Devo dizer que tenho saudades do tempo em que um aperto de mão cimentava alguma coisa.
A honra, a dignidade e as relações como construção dos laços sociais.
Confiava-se. Apenas isto.
Agora, por todo o lado, as novas figuras de autoridade, a classe dirigente e os seus pequenos estipendiados parece terem renunciado a essas práticas.(...)
É o mundo da mentira, da torpeza e do impudor que campeia por aí, a todos os níveis e em todos os sectores da sociedade.
(Baptista-Bastos - Jornal de Negócios - Lisboa - Portugal - 18 de Setembro de 2009)
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
sábado, 12 de setembro de 2009
Evocação de David Nasser, de "O Cruzeiro" (Brasil)
O semanário O Cruzeiro foi uma das mais conhecidas e divulgadas revistas brasileiras, também muito popular em Portugal.
Pertencente ao grupo dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand (o Chatô), publicou-se entre 1928 e 1975.
Pela suas páginas desfilaram nomes e figuras como Carlos Lacerda, Rachel de Queiroz, Carlos Estêvão, Millôr Fernandes, O Amigo da Onça, Jean Manzon e muitos, muitos mais...
... tal como David Nasser (foto abaixo), fantástico jornalista, repórter, cronista - e, também, compositor musical (Nêga do Cabelo Duro...).
Filho de imigrantes libaneses, nasceu em 1917 e faleceu em 1980.
Distinguiu-se sobretudo pelas suas crónicas polémicas, de uma coragem, contundência e paixão incomuns.
Profissional controverso, usando métodos por vezes pouco ortodoxos, acabou por tornar-se figura incontornável do jornalismo brasileiro.
Continua a ser hoje um prazer passar os olhos pelo seu estilo vergastante e inconfundível.
Publica-se adiante uma prosa de homenagem que José Cândido de Carvalho (grande escritor!) lhe dedicou em 1964. Respeita-se a grafia brasileira.
"Uma tarde, lá pelos tempos de 1937, dava entrada na redação de “A Noite” um moço de andar marinheiro, meio adernado no vestir, de fala mansa e olhar de relâmpago. O velho Castelar de Carvalho, com suas longas barbas de judeu das Escrituras, disse mais ou menos assim:
- Se eu fôsse dono desta baiúca (a baiúca era o seu querido jornal) botava êsse sujeitinho de 20 anos na balança e pagava o pêso dêle em ouro. Vale por uma redação inteira e equipada.Olhei para o lado. O sujeitinho que Castelar de Carvalho queria contratar, a poder de barras de ouro do Banco do Brasil, era David Nasser em pessoa, de paletó-saco e jornal na mão.
Agora o velho Castelar é uma saudade e o ano de 1937 apenas uma lembrança de calendário. Mas a frase ficou:
- Vale por uma redação inteira.
- Vale por uma redação inteira.
É claro que outros anos passaram e outras tardes morreram. A profecia do velho Castelar havia de ganhar corpo e alma. David Nasser firmou nome como um dos grandes mestres do jornalismo nesta e noutras praças nacionais e mundiais, incluindo Europa, Paris e Bahia.
Sua geografia perdeu a noção de fronteiras – o mundo passou a viajar na mala de David, ao lado de suas escôvas e passaportes.
Uma noite estava em Lisboa, na Havaneza de Eça de Queiroz. Outra noite, ao lado de uma fogueira, num naco do Saara, entrevistando um rei do areal qualquer.
O assunto às vezes não prestava. Mas o talentão de David recauchutava tudo, emprestava tonalidades de ouro (e ouro de lei) ao latão mais desmoralizado.
Nessas suas andanças de Marco Pólo há bilhetes e cartas de príncipes com trono e sem trono, de milionários, de mágicos, de ministros, de poetas e bandidos.
Pergunto a David, num dia de confidências, quais os tipos de sua predileção:
- Os vagabundos.
Sim, ele tem um fraco todo especial, todo davidiano pelos vagabundos, pelos andarilhos, pelos humildes. As melhores histórias que gosta de contar são as histórias simples do povo, dos joões da silva, dos joaquins pereiras que falam maravilhosamente pela pena dêsse mestre da crônica e do panfleto.
- Os vagabundos.
Sim, ele tem um fraco todo especial, todo davidiano pelos vagabundos, pelos andarilhos, pelos humildes. As melhores histórias que gosta de contar são as histórias simples do povo, dos joões da silva, dos joaquins pereiras que falam maravilhosamente pela pena dêsse mestre da crônica e do panfleto.
Nisso, David está com a Bíblia: o reino dos céus não foi feito para os comerciantes de atacado, nem para os açambarcadores de feijão e açúcar. E nem para os burros.
Com o tempo, excelente mestre de estilo e vivência, David perdeu certas asperezas e mandacarus. Sua prosa de hoje tem claridades de cristal lavado. Cintila. É um poderoso escritor a serviço do jornalismo.
Sua crônica semanal é lida, e guardada, por milhões de brasileiros. No seu elenco há figuras de drama e de circo-de-cavalinho. A injustiça funciona nêle como mordida de cobra. Seja a injustiça no varejo ou no atacado, feita a um pequeno funcionário do montepio mais municipal ou ao político caído em desuso. Os moinhos de vento de Dom Quixote estão sempre às ordens de David Nasser. Sancho Pança não faz parte de sua família espiritual. Nunca comeu de seu pão nem bebeu de seu vinho.
Certo político caixa-baixa, esperto como um esquilo, queria por fôrça ser destratado, em prosa ou em verso, por David Nasser. Procurei saber os motivos. O homenzinho, piscando o olhinho miúdo, foi taxativo:
- Levo uma sova, meu caro, mas todo mundo vai tomar conhecimento da minha existência. Viro vedete nacional.
- Levo uma sova, meu caro, mas todo mundo vai tomar conhecimento da minha existência. Viro vedete nacional.
Engano do pobre político municipal. David não bate em gente de meio metro. Suas paradas, as mais ruidosas do Brasil, são na base dos jotas: JK, Jânio ou João Goulart. Não faz por menos. Sua pólvora não é para passarinho de vôo curto. Ou águia, ou tiro ao alvo.
Cá entre nós: gosto de ver David Nasser nessas batalhas campais. Há nelas cintilar de espadas, brilho de aço em noites de lua cheia. David é um mestre perfeito no ataque-arte que êle domina como ninguém neste país. Desmonta o adversário como um velho relojoeiro desmonta um relógio.
O tal político municipal, um esquilo de esperteza, tinha razão. Levava meia dúzia de brilhantes sarrafadas, mas comprava lugar na glória. Mesmo a poder de arnica e esparadrapo.
Pois vos digo que são essas as minhas pequenas memórias de David Nasser. Todos nós, jornalistas de pequena cabotagem ou das largas navegações, temos um pouco de D’Artagnan, de personagem de capa e espada. Alguns, no rolar dos anos, deixam o chapéu de plumas e o florete. Vão ser funcionários do Fomento Rural ou do Instituto da Piaçava. David não. Nasceu herói de Alexandre Dumas e vai até ao fim dos tempos, assim, cada vez mais mosqueteiro, cada vez mais D’Artagnan.
Um dia, que espero em Deus esteja longe, baterá David às portas de São Pedro. O velho chaveiro, já um tanto gasto em anos e em santidade, não tirará as trancas do reino eterno com a presteza que merece uma figura e a sensibilidade de David Nasser. E já estou vendo o mosqueteiro sacar da espada e gritar bem alto:- Pedro, acautelai-vos!
É assim, glorioso e armado, que David entrará no céu." (*)
(*) - Autor: José Cândido de Carvalho (Publicado em O Cruzeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 18 de Julho de 1964).
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
7 de Setembro de 1822 - Grito do Ipiranga: o Brasil independente de Portugal
O regente D. Pedro, filho de D. João VI, monarca português, proclama junto ao riacho do Ipiranga a independência do Brasil em relação a Portugal. Completam-se hoje 187 anos, mas os Brasileiros continuam sendo o Povo Irmão. Afinal, 322 anos da sua história (1500-1822) foram partilhados connosco numa Pátria comum. E, daí para cá, foram aquelas paragens, para muitos lusitanos, a Terra da Promissão.
Para além do tempo e independentemente das vicissitudes políticas ou normativas, os Brasileiros jamais serão estrangeiros em Portugal...
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sábado, 5 de setembro de 2009
Sul de Angola - O Gado Sagrado entre os Nhanecas-Humbes (2) - O Cortejo do Boi Sagrado
(Continuação de 22-Ago-2009)
"A manifestação mais espectacular, respeitante ao gado sagrado, é o chamado "cortejo do boi sagrado", rito que hoje em dia só é praticado entre os Nhanecas.
A festa consiste essencialmente num cortejo solene, que leva o boi sagrado do régulo através do sobado inteiro, com todas as honras que são devidas a um animal no qual as almas dos antigos reis parecem ter estabelecido o seu habitáculo.
O boi, que é de cor branca e preta, tem ao seu serviço um séquito de altos dignitários, entre os quais se destacam o mwene-hambo, que é o chefe dos pastores do gado do soba, e o nthoma, que faz as vezes de arauto, anunciando por toda a parte a passagem do boi.
A festa consiste essencialmente num cortejo solene, que leva o boi sagrado do régulo através do sobado inteiro, com todas as honras que são devidas a um animal no qual as almas dos antigos reis parecem ter estabelecido o seu habitáculo.
O boi, que é de cor branca e preta, tem ao seu serviço um séquito de altos dignitários, entre os quais se destacam o mwene-hambo, que é o chefe dos pastores do gado do soba, e o nthoma, que faz as vezes de arauto, anunciando por toda a parte a passagem do boi.
Antes da saída do cortejo, o soba faz as recomendações seguintes:
Percorrei a terra, fazei a festa. Se o cortejo encontrar um cabrito no caminho, matai-o; se for um boi, comei-o; se for uma criança, prendei-a e que a família pague um boi para a resgatar!
Toda a pessoa adulta deve venerar o boi à sua passagem. Se houver alguém que assim não proceda, tirai-lhe tudo quanto tem. Se resistir, matai-o. Que não se chore o morto. É um tempo de regozijo!
Que tudo seja permitido! No entanto, não se devem maltratar as mulheres. Não deve haver nem questões nem querelas. Não pode haver lamentações, mesmo que alguém morra. O povo quer a festa. Se eu a não permitisse, o povo ficaria descontente. Ide, pois!
Percorrei a terra, fazei a festa. Se o cortejo encontrar um cabrito no caminho, matai-o; se for um boi, comei-o; se for uma criança, prendei-a e que a família pague um boi para a resgatar!
Toda a pessoa adulta deve venerar o boi à sua passagem. Se houver alguém que assim não proceda, tirai-lhe tudo quanto tem. Se resistir, matai-o. Que não se chore o morto. É um tempo de regozijo!
Que tudo seja permitido! No entanto, não se devem maltratar as mulheres. Não deve haver nem questões nem querelas. Não pode haver lamentações, mesmo que alguém morra. O povo quer a festa. Se eu a não permitisse, o povo ficaria descontente. Ide, pois!
Feita esta proclamação, procede-se à cerimónia seguinte: a primeira mulher do soba apanha um pouco do pó das pegadas do chefe dos pastores, ao mesmo tempo que uma pequena porção da bosta do boi sagrado, e leva estes produtos para o quarto de dormir, colocando-os debaixo do travesseiro de madeira. Não podendo tomar parte no cortejo, ficar-lhe-á desta maneira pelo menos indirectamente unida. Durante o cortejo, ela e o régulo têm a obrigação de guardar continência, tal como o chefe dos pastores.
A procissão do boi sagrado dura mais ou menos três semanas. Em todas as quintas por onde ele passa são-lhe prestadas todas as honras e, no decorrer da viagem festiva, junta-se-lhe muito gado para acompanhar o cortejo.
A procissão do boi sagrado dura mais ou menos três semanas. Em todas as quintas por onde ele passa são-lhe prestadas todas as honras e, no decorrer da viagem festiva, junta-se-lhe muito gado para acompanhar o cortejo.
De regresso à residência do soba, este e a mulher principal, mais uma rapariga virgem, apresentam ao animal uma bebida peculiar. O boi sagrado lambe-a com sofreguidão, o que é um motivo de alegria para todos os circunstantes e um óptimo augúrio para toda a tribo. Nesta ordem de ideias, o chefe dos pastores promete prosperidade e uma protecção especial dos espíritos dos antigos sobas para todo o povo." (*)
(*) Adaptado de: Padre Carlos Estermann - Etnografia do Sudoeste de Angola - Vol. 2 - Grupo Étnico Nhaneca-Humbe - Junta de Investigações do Ultramar - Lisboa - Portugal - 1960.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009
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