quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "A Cartuxa de Parma" (Stendhal - França)

 
“A 15 de Maio de 1796, o general Bonaparte entrou em Milão à frente daquele juvenil exército que acabava de passar a ponte de Lodi e mostrara ao mundo que, passados tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor.
Os milagres de audácia e de génio que a Itália presenciou no decorrer de alguns meses acordaram um povo adormecido; oito dias antes da chegada dos Franceses, os Milaneses ainda não viam neles senão um punhado de salteadores, habituados a fugir diante das tropas de Sua Majestade Imperial e Real; era, pelo menos, o que, três vezes por semana, lhes repetia um jornalzinho do tamanho da palma da mão, impresso em papel sujo.


Na Idade Média, os Milaneses eram valentes como os Franceses da Revolução, e mereceram ver a sua cidade completamente arrasada pelos imperadores da Alemanha. Desde que se tinham tornado fiéis súbditos, a sua principal preocupação consistia em imprimir sonetos sobre lencinhos de tafetá cor-de-rosa, quando se casava alguma menina pertencente a família nobre ou rica. Dois ou três anos após essa grande época da sua vida, a menina tomava um cavaleiro andante: o nome do chichisbéu escolhido pela família do marido ocupava por vezes um lugar honroso no contrato de casamento..

Ia grande distância desses costumes efeminados às profundas emoções a que deu lugar a chegada imprevista do exército francês. Em breve surgiram novos e apaixonados costumes. Um povo inteiro deu conta, a 15 de Maio de 1796, de que tudo quanto respeitara até então era supremamente ridículo e por vezes odioso. A partida do último regimento austríaco marcou a queda das ideias antigas: arriscar a vida passou a ser moda (…)”. (*)

A Cartuxa de Parma - Stendhal (1783-1842) - Publicado em 1967 por Editorial Estúdios Cor - Lisboa - Portugal.

Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa - (Cota --> L. 18864 V. )

sábado, 15 de agosto de 2009

Os Dias da Indignidade - Escravatura (1)

"(...) O que despontava era um negócio de amplitude colossal, suportado por uma cúpi­da associação de cumplicidades, in­cluindo as de um sem-número de potentados negros, no Congo e fora dele.
Estes líderes, e os seus agentes, promoviam incur­sões bélicas aos territórios vizinhos.


A troco dos prisioneiros que assim obtinham, recebiam das mãos dos negreiros as cobi­çadas armas de fogo, bebidas alcoólicas e bugigangas supérfluas que faziam a sua efémera grandeza.
Neste negócio em progressão, a contagem das peças passou, ao correr dos anos, das centenas aos milhares, dos milhares às centenas de milha­res - e destas aos milhões.

Desmoronavam-se os seculares sistemas produtivos, em especial os que se funda­vam na agricultura.
A África tocada pelos Europeus esvaía-se por acção de guer­ras sem quartel, num cenário de pilhagens e destrui­ções que deslocavam popula­ções inteiras, aterrorizadas pelos caçadores de gente. (...)


(...) Pelas trilhas do sertão africano, galgando destinos de agonia e indignidade de­baixo do silvo do chicote e das injúrias dos guardas, intermináveis colunas de ca­tivos negros dirigem-se a marchas forçadas para os locais de embarque no litoral.
Extenuados e trôpegos, seguem manietados e ligados uns aos outros. Muitos osten­tam os pescoços cingidos por gargalheiras de ferro ou por ramos de árvore bifur­cados. Os retardatários são executados sem contemplações.
Os mais robustos progridem esmagados por fardos de mercadorias ou por grandes pedre­gulhos e sacos de areia com que se suprime neles, de maneira expedita, toda a veleidade de fuga.

 
Chegados à costa, depois de ultrapassada uma rede de numero­sos interme­diários, homens, mulheres e crianças são encafuados em barracões insalubres. Aqui se amontoam dias a fio, aguardando a sinistra aparição, no hori­zonte, do ve­lame dos navios negreiros que vêm para os arrebatar à sua pátria.

 
Os compradores são meticulosos e eficazes.
Investigam-lhes os membros, os dentes, os seios, os testículos, as nádegas, os olhos, a própria expressão. Volteiam-nos. Palpam-nos. Avaliam-nos.
Quando satisfeitos, marcam-nos de modo indelével com ferros em brasa.

Transidos de pânico e dor, são então guiados para porões escuros, quase desprovidos de ventilação, onde ficam acorrentados em tabuados imundos.
Nas travessias do Atlântico, rumo às Américas, gasta-se, em condições infernais, de um a dois meses.
Segundo registos fidedignos, o espaço de cada um dos prisionei­ros raramente excede o de um morto no seu ataúde. Viajam com frequência encai­xados uns nos outros como colheres.

Durante as tempestades, jogados pelo balan­ço dos navios, revolvem-se apavorados, aos gritos, na pasta fétida dos dejectos e do vomitado dos enjoos.
A devastação das epidemias é me­donha e, por vezes, ocorrem suicídios. Os cadáveres são logo atirados pela borda fora. Por tudo isto se qualificam de tumbeiros esses navios lúgubres, que fazem lembrar gigantescas tumbas flutuantes. Levam muitas vezes no seu rasto de espuma alvacenta uma fiei­ra de barbatanas de tubarões impelidos pelo instinto.

Desembarcados nas Américas, os sobreviventes são tratados a preceito. En­gordam-nos, besuntam-nos com óleo, às vezes espevitam-nos com drogas. É for­çoso que evidenciem um aspecto aceitável no instante da venda.
Seguem depois ao seu destino, vergados à dor e à saudade da terra-mãe e das famílias perdidas.

Somem-se de vez no emaranhado das plantações ou no negrume das minas, cum­prindo fados sombrios e desprovidos de esperança. Entoam dolentes cânticos de mágoa - segundo o costume da sua terra, como anotara, muitos anos antes, num irreprimível impulso de compaixão, o cronista Zurara." (*)

(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento (Crónicas Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos) - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal - 1999.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

sábado, 8 de agosto de 2009

A Grande Música Portuguesa - Suite Alentejana n.º 1 (Luís de Freitas Branco)

 
Podem ouvir aqui:



 
Luís de Freitas Branco nasceu em Lisboa, em 12 de Outubro de 1890, e faleceu na mesma cidade em 27 de Novembro de 1955.
Compositor musical, domina o século XX português com a estatura de um colosso, de importância comparável, no domínio da música, a um Fernando Pessoa.
Poderosa e multiforme, a sua criação colocou Portugal em sintonia com a Europa, em certos casos antecipando-se a ela.
Veio estabelecer um novo patamar de excelência, tornando-se pedra de toque do reportório português em praticamente todos os domínios.

Educado no meio familiar, cedo tomou contacto com a música, aprendendo violino e piano.
Aos 14 anos compõe canções que atingem grande popularidade.
Aos 17 inicia a crítica musical no Diário Ilustrado.
Estuda também órgão.

Em 1910
viaja até Berlim para estudar composição, música antiga e metodologia da história da música.
Em Maio de 1911 vai até Paris, onde conhece Claude Debussy e a estética do Impressionismo.
Em 1915 participa nas Conferências da Liga Naval sobre a Questão Ibérica promovidas pelo Integralismo Lusitano.
Em 1916 é nomeado professor no Conservatório de Lisboa, sendo seu subdirector entre 1919 e 1924. Desenvolveu actividade em diversos domínios da vida cultural.
Manteve estreitas relações com diversas figuras, como Alberto Monsaraz, António Sardinha, Hipólito Raposo, Bento de Jesus Caraça e António Sérgio.

A partir de 1940 a sua figura era acusada de irreverente por se comportar de maneira imprópria nas aulas, sendo constituído arguido num processo do qual resultaria a suspensão como docente no Conservatório.
(Extracto do seu Diário, em 27 de Outubro de 1931:
A cena que se passou no Conservatório é grave e sintomática: dois agentes da polícia quiseram levar preso o candidato a concurso para a cadeira de Piano Fernando Lopes Graça.
A prisão era motivada por inscrições nas paredes da cidade de Tomar de que Fernando Lopes Graça teria sido autor e instigador, e que significavam pouco amor à Ditadura.
O júri protestou, impôs-se à polícia, o candidato prestou as suas provas, seguiu preso para Santarém e ficou classificado em primeiro lugar com 18 valores.
E em 1 de Novembro:
O meu discípulo Fernando Graça continua preso e está à mercê de gente que tem do valor dele a mesma noção que a minha égua Picarça pode ter do valor de Shakespeare.)

Realiza então palestras na Emissora Nacional e mantém tertúlias com um grupo de discípulos.
Era irmão do maestro português Pedro de Freitas Branco.
Está sepultado no cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Joly Braga Santos, seu discípulo, escreveu sobre ele:
Ao significado da sua obra notabilíssima, da sua personalidade fecunda e dominadora, há a juntar a verdadeira paixão que possuía pela Juventude, o entusiasmo com que via os novos triunfar, a sua luta diária, durante cinquenta anos, pelo renovamento, pela europeização da cultura portuguesa, e ainda a generosidade do seu grande coração, sempre disposto a ajudar os que começavam e vivendo com o mesmo entusiasmo as obras dos próprios discípulos, que pretendia sempre colocar à frente das suas.

Obras principais:

Sinfonia n.º 1 (1924)
Sinfonia n.º 2 (1926)
Sinfonia n.º 3 (1944)
Sinfonia n.º 4 (1952)
Scherzo Fantastique (1907)
Antero de Quental - poema sinfónico (1908)
Paraísos Artificiais - poema sinfónico (1910)
Tentações de S. Frei Gil (1911)
Vathek (1913)
Violin Concerto (1916)
Suite Alentejana n.º 1 (1919)
Suite Alentejana n.º 2 (1927)
Solemnia Verba - poema sinfónico (1951)

(Adaptado de Wikipédia) (Foto alentejana: João Matos)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

Rafael Bordalo Pinheiro (Portugal -- 1846-1905)

 
Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) revelou-se um espírito brilhante, ímpar de criatividade, que aplicou a uma contínua intervenção crítica à vida portuguesa.
Permanecem de surpreendente actualidade os seus comentários à política, à economia e à sociedade da época nas revistas de caricatura e humor que editou, atitude que não raro reflectiu na cerâmica - que a partir de 1884 logrou revitalizar nas Caldas da Rainha.

Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro nasceu na Rua da Fé, em Lisboa, em 21 de Março de 1846, terceiro filho duma extensa prole de doze irmãos, a que pertenceria o célebre retratista Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929). Foram seus pais o pintor romântico Manuel Maria Bordalo Pinheiro e D. Maria Augusta Carvalho Prostes.

Será com a caricatura artística que o génio de Rafael Bordalo Pinheiro deixará uma marca indelével e inconfundível no século XIX português.
O seu lápis traduz, no quotidiano, a perspicaz e oportuna observação da política do País, criando símbolos das realidades nacionais, dos quais o Zé Povinho se ergue como a imagem dum povo explorado e sofredor, mas conformado com a sorte que lhe cabe.



Em 1870, o sucesso obtido por uma caricatura alusiva à peça em cena intitulada O Dente da Baronesa revelara um talento e iria despoletar uma paixão.
Esse ano vê surgir sucessivamente o espirituoso álbum de caricaturas O Calcanhar d’Aquiles, a folha humorística A Berlinda, da qual saem sete números, e O Binóculo, periódico semanal à venda apenas nos teatros, com quatro números publicados.
Deu ainda à estampa o Mapa de Portugal, cujo êxito foi assinalado por vendas superiores a 4000 exemplares, no espaço de um mês.
Data de 1875 a iniciativa da criação do primeiro jornal dedicado à crítica social: A Lanterna Mágica, um projecto que faz a crónica dos factos sociais enquanto tece a crítica às políticas e às instituições.
Neste contexto, nasce a figura do Zé Povinho, tão acertada no seu conteúdo que permanece no imaginário português com uma reforçada carga simbólica.



Surgindo nessa época uma proposta de colaboração em O Mosquito, jornal brasileiro de humor, parte no Verão de 1875 para o Rio de Janeiro, onde viverá quatro anos.
A sua permanência no Brasil fica ainda assinalada pela criação de duas revistas de caricaturas: o Psit!!! (1877) e O Besouro (1878-79).
É a oportunidade para nascerem do seu lápis novas personagens-tipo da sociedade carioca, tais como o Psit!, o Arola ou o Fagundes.
Em Lisboa, publicava-se o Álbum de Caricaturas: Frases e Anexins da Língua Portuguesa (1876), ilustrado com desenhos de Bordalo.

 
Logo após o seu regresso à Pátria, em meados de 1879, dá início à publicação de O António Maria, cujo título alude a António Maria Fontes Pereira de Melo, figura política dominante que presidira ao Ministério.
Até Janeiro de 1885, conjuga-se nas páginas desta revista um combate de ideias que visa os partidos no exercício do poder e as debilitadas instituições da monarquia.
Em simultâneo, vão saindo as folhas do Álbum das Glórias, 42 caricaturas de personalidades e instituições portuguesas, comentadas por literatos contemporâneos.


É por esta época que Rafael Bordalo Pinheiro integra o Grupo do Leão (1881-89), importante formação livre apoiada por Alberto de Oliveira (1861-1922), que reúne artistas, escritores, intelectuais.
De 1885 a 1891 publica os Pontos nos ii, revista com idêntica intenção de defesa das causas portuguesas e de denúncia clara das manobras políticas, em que assumem particular relevo a Questão com a Inglaterra, o Monopólio dos Tabacos, o Ultimatum e a Revolta do Porto de 31 de Janeiro.

Em 1900 surge A Paródia, revista que atesta o desencanto de Rafael Bordalo face à vida política do País.
É nas capas dos primeiros números desta revista que caricatura os variados aspectos da realidade sócio-económica, de forma tão certeira que a sua aplicação continua a ser lembrada com acuidade, como em: A Política: a Grande Porca; A Finança: o Grande Cão; A Economia: a Galinha Choca; ou A Retórica Parlamentar: o Grande Papagaio.
Ele é ainda o pioneiro, nas suas revistas, da banda desenhada portuguesa.

 
A criação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - sob a direcção artística de Bordalo- e a sua instalação na vila, em 1884, contribui decisivamente para a revitalização da ancestral cerâmica local, quer pela revolução das formas, quer pela gramática decorativa de raiz francamente naturalista e tantas vezes duma exuberância a desafiar a realidade.
É a oportunidade de passar à argila a caricatura e o humor, criando os bonecos de movimento, como: o Zé Povinho; a Velha Maria; a Ama das Caldas; o Cura; o Sacristão; o Polícia.

 
Aos 58 anos, quando a sua produção artística ainda teria muito a revelar, Rafael Bordalo Pinheiro morre em Lisboa, no dia 23 de Janeiro de 1905.
Espírito criador, grande talento de artista, renovador da cerâmica das Caldas, o caricaturista “pai” do Zé Povinho deixa uma obra que se identifica com o próprio País e o seu povo, não só pelo génio do Artista, mas também pela intervenção do Homem.

(Adaptado de Matilde Tomaz do Couto, in Centro Virtual Camões)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "Napoleão" (Jacques Bainville - França)


“Quando, em 1768, Luís XV conseguiu reunir a Córsega à França, como não suspeitou ele de que o fundador de uma quarta dinastia nasceria lá um ano depois da sua nova aquisição?
Mas - e se a anexação não tivesse tido lugar?
Em França, eram numerosos os que a não desejavam, considerando-a inútil e embaraçosa.
Se tivesse prevalecido a sua opinião, a ilha ou cairia nas mãos dos ingleses ou seria independente sob o comando de Paoli. Qual teria sido nesse caso a sorte de Napoleão?

Uma vida obscura, no meio das rivalidades dos clãs, e, quando muito, a propriedade de alguns olivais e de uns quantos pés de vinha. Provavelmente, funções medíocres e honoríficas, a exemplo de seu avô Ramolino, que foi inspector de pontes e calçadas por conta da República genovesa.
E os Ingleses? Esses, nem sequer há a certeza de que tivessem dado um uniforme ao jovem indígena.
Quanto à possibilidade de pôr a sua espada ao serviço de um país estrangeiro, ter-lhe-ia decerto faltado a educação militar. Ou tê-la-ia Napoleão recebido?
Sem a França, o seu génio não se teria revelado.

 
A anexação constituiu o seu primeiro golpe de sorte, pois uniu a Córsega a um país suficientemente liberal, confiante e generoso para abrir as suas melhores escolas aos franceses de última hora.
Além disso, o país atravessaria uma fase de perturbação precisamente na data em que o jovem ajacciano atingia os vinte anos. E esta vasta desordem viria a oferecer oportunidades de inauditos destinos aos indivíduos bem dotados.

Este homem extraordinário não só sabia o que o seu destino tinha tido de prodigioso, como também possuía consciência da conjugação de ocorrências que haviam sido necessárias para o elevar ao Império e torná-lo sobrinho do rei de quem, lugar-tenente obscuro, ele tinha visto a queda por ocasião da jornada do 10 de Agosto.
Que romance, no entanto, foi a minha vida!, exclamará, no momento do epílogo.
De uma outra vez, em Santa Helena, dizia que passariam mil anos antes que as circunstâncias que se tinham acumulado sobre a sua cabeça viessem a escolher um outro de entre a multidão para o elevar assim tão alto (…).”


Napoleão – Jacques Bainville (1879-1936) - (Publicado por Editorial Aster, Lisboa, 1960)

Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota --> H. G. 21472 V. )

terça-feira, 21 de julho de 2009

O "Índia" (Eça de Queiroz - 1872)



"O Índia, o melhor navio que temos, o navio novo, expressamente feito para uso do País, comprado com madura reflexão, examinado com escrupulosa ciência, glória da nossa Marinha, defesa das nossas colónias, garantia da nossa honra, o Índia, que sábias comissões aprovaram, que uma recta imprensa exaltou, que professores da Escola Normal celebraram, que é o nosso transporte para a Índia, que custou muitas mil libras, que é novo, perfeito, impecável, o Índia – mete apenas cinco polegadas de água por dia!

Louvemos a Providência em humilde atitude: o Índia podia não ter fundo!
Mas não, o Índia é novo e bem acabado, é o nosso glorioso vaso, ele conhece, ele sabe o brasão heróico que tem, compreende a responsabilidade que arvora, vê que lhe cumpre sustentar o nome da Lusitânia; e portanto o Índia, com uma moderação que nos comove até às lágrimas, o Índia, o Índia querido e estremecido – mete apenas cinco polegadas de água por dia!

E todavia o Índia podia – quem lho impediria? quem ousaria coibir-lhe a nobre vontade? - o Índia podia não ter casco! O Índia poderia não ter costado!
Mas não, o Índia sabe os deveres da boa educação e a moderação de um procedimento honesto: o Índia - limita-se a meter apenas cinco polegadas de água por dia!"

Eça de Queiroz - As Farpas - Janeiro de 1872 - Lisboa - Portugal.

sábado, 18 de julho de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "O Homem e o Rio" (William Faulkner - Estados Unidos)

“Era uma vez dois forçados (passou-se isto no Mississipi, em Maio, no ano da grande cheia de 1927).
Um deles, alto, esgrouviado, o ventre estio, de pele crestada pelo sol e cabelo negro de índio, andava pelos vinte e cinco anos. Os seus olhos baços, de uma cor de faiança, tinham um ar ofendido – uma ofensa dirigida não tanto contra os homens que goraram o seu crime, nem mesmo contra os advogados e juízes que para ali o mandaram, como contra os autores de folhetins, os nomes incorpóreos ligados às histórias – os Diamond Dicks, os Jesse James e quejandos -, os quais responsabilizava pela sua presente situação, devido à ignorância e credulidade deles em relação ao meio em que se imiscuíam e pelo qual cobravam dinheiro, ao fornecerem informação a que davam o cunho de autenticidade e verosimilhança. (…)
Tinha de cumprir uma pena de quinze anos (chegara ali pouco depois do seu décimo nono aniversário) por tentativa de assalto e roubo num comboio.


 
Havia planeado tudo com antecedência e seguira à letra a falsa autoridade impressa.
Guardara durante dois anos os magazines de crime, lendo-os e relendo-os de cor, comparando e verificando cada história e cada método entre si, extraindo o que era útil em cada uma delas, depurando-as da ganga, à medida que surgia o seu plano de acção, e mantendo o espírito alerta para as subtis mudanças de último minuto, sem pressa nem impaciência, enquanto os novos fascículos apareciam nos dias previstos, tal como uma modista conscienciosa faz subtis alterações num vestido de apresentação na corte à medida que vão aparecendo novas revistas de modas.
E, finalmente, quando chegou o dia, nem sequer teve tempo de atravessar as carruagens e apoderar-se dos relógios e anéis, dos broches e dos cintos com dinheiro escondido, porque foi capturado assim que entrou na carruagem do expresso onde se encontrariam o cofre e o ouro.
Não disparara um tiro sequer (…)” (*)

(*) - O Homem e o Rio - William Faulkner (n. 1897 - f. 1962) - Editado por Publicações Europa-América, Lisboa, Portugal, 1971.

Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota - L. 65134 P. )

quarta-feira, 15 de julho de 2009

sábado, 11 de julho de 2009

A Dama de Elche - Um Belo Enigma Ibérico

 
A Dama de Elche - Busto de mulher, encontrado, por acaso, em Elche, província de Alicante (Espanha), perto do mar. No local têm aparecido objectos de quase todas as épocas.
Com 56 cm. de altura, lavrado em calcáreo, é um dos monumentos escultóricos mais notáveis de origem peninsular.
Deverá datar do século IV ou V a.C.
Está presentemente no Museu Arqueológico de Espanha, em Madrid.
O busto foi originalmente colorido (ver, abaixo, um desenho de Francisco Vives com uma hipótese das cores iniciais).
Acha-se em bom estado de conservação.

O seu significado e origem permanecem misteriosos.
Não há dúvida ter sido o seu autor ou grego ou indígena helenizado, tal a perfeição das feições e dos ornatos que exibe, não só no alto da cabeça (tiara) como aos lados, onde aparecem umas caixas circulares para nelas serem metidos os cabelos, depois de enrolados.
Apresenta ainda um diadema na fronte, colares ao pescoço e uma mantilha nos ombros.
A peça tem um largo orifício atrás, onde, de resto, a escultura é menos cuidada.
Seria, talvez, uma peça funerária, modelada sobre a face da defunta - e que guardaria na cavidade praticada no busto a sua urna cinerária ou objectos sagrados? Seria uma divindade? Jamais haverá uma resposta definitiva.

(Texto adaptado de Verbo - Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura e de Wikipédia)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Karl Malden - O Actor Que Pagou a Dívida (*)



"No dia 1 de Julho, aos 97 anos, morreu Karl Malden.
Ele pertence àquela legião de actores secundários que talvez seja a primeira razão para o cinema americano ser grande.
Ganhou um Óscar em Um Eléctrico Chamado Desejo e foi o padre em Há Lodo no Cais...

Mas trago-o para esta crónica por uma história mais ou menos ao lado do ecrã.
Karl Malden foi baptizado Mladen Sekulovich - era filho de um operário sérvio, imigrante em Chicago.
Quando se tornou actor, mudou de nome. Do próprio, ligeiramente transformado, fez o apelido, Malden, e aboliu, claro, o impronunciável Sekulovich. Os actores perseguem a fama e não lhes serve um nome que atrapalhe.

Porém, o seu pai, o imigrante sérvio, viu na mudança um desdém pela família...
Quando se tornou famoso, Karl Malden quis pagar essa dívida ao pai.
Nos contratos, obrigava a que, algures, mesmo a despropósito, o nome "Sekulovich" fosse dito. Em Patton, era um soldado, em O Homem de Alcatraz, era um preso, em Há Lodo no Cais, era um sindicalista...
Nos filmes de Karl Malden houve sempre um Sekulovich. Conheço poucos arrependimentos tão belos."

(*) - Ferreira Fernandes - Diário de Notícias – 4 de Julho de 2009 – Lisboa - Portugal

sábado, 4 de julho de 2009