Rubens (c. 1603)
Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
terça-feira, 3 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
Aberturas de Grandes Livros - "Esta Noite a Liberdade" (Sobre a independência da Índia)
“Um grande povo passava um Inverno descontente.
Mergulhada em nevoeiro e melancolia, Londres, naquele primeiro de Janeiro de 1947, tremia de frio. Talvez nunca até então a capital britânica tivesse passado um dia de Ano Novo tão lúgubre. Poucas eram, naquela manhã de festa, as casas que possuíssem água quente suficiente para encher uma banheira. E eram ainda mais raros os londrinos sofredores da habitual ressaca do seu “réveillon”. O pouco whisky à venda para as festas conseguira-se ao preço de oito libras esterlinas a garrafa. Apenas alguns carros deslizavam nas ruas desertas, fantasmas fugazes de uma nação privada de gasolina.
Envoltos nos seus sobretudos coçados e fora de moda após seis anos de guerra, ou em fardas disparatadas e gastas, alguns transeuntes apressavam-se com o pescoço encolhido nos ombros, de ar aborrecido. Nos dias de chuva, um cheiro especial invadia as ruas, e relentos de podridão e incêndio escapavam-se das ruínas espalhadas pela cidade. As docas e o bairro em volta da catedral de São Paulo exibiam ainda uma confusão de escombros. Sinistros abrigos de betão erguiam-se também nalgumas encruzilhadas, e arames farpados juncavam os canteiros de Green Park.
Esta cidade triste e martirizada era contudo a capital de um país vencedor. Dezassete meses antes, a Inglaterra ganhara a guerra mais terrível da história da humanidade. (…)
(…) A sombria realidade que a Inglaterra encarava naquela manhã de Ano Novo fora resumida numa fase cruel do seu maior economista. “Somos um país pobre”, afirmara John Maynard Keynes aos seus compatriotas, “e temos que aprender a viver como tal”.
Todavia, os ingleses eram ricos. Um documento azul e dourado, o passaporte britânico, dava-lhes o privilégio de entrarem livremente em mais territórios do que qualquer outro cidadão de qualquer outro país do mundo. O extraordinário conjunto de possessões, de colónias, de protectorados e de condomínios que constituíam o Império Britânico permanecia intacto naquele dia 1 de Janeiro de 1947.
Esta cidade triste e martirizada era contudo a capital de um país vencedor. Dezassete meses antes, a Inglaterra ganhara a guerra mais terrível da história da humanidade. (…)
(…) A sombria realidade que a Inglaterra encarava naquela manhã de Ano Novo fora resumida numa fase cruel do seu maior economista. “Somos um país pobre”, afirmara John Maynard Keynes aos seus compatriotas, “e temos que aprender a viver como tal”.
Todavia, os ingleses eram ricos. Um documento azul e dourado, o passaporte britânico, dava-lhes o privilégio de entrarem livremente em mais territórios do que qualquer outro cidadão de qualquer outro país do mundo. O extraordinário conjunto de possessões, de colónias, de protectorados e de condomínios que constituíam o Império Britânico permanecia intacto naquele dia 1 de Janeiro de 1947.
A existência de 563 milhões de homens – fantástico mosaico de povos, Tamuls e Chineses, Bushmen e Hotentotes do sudoeste africano, aborígenes dravidianos e Melanesianos, Australianos, Escoceses, Canadianos e tantos outros – dependia ainda das decisões destes ingleses que tremiam de frio numa Londres sem aquecimento. (…)”
Esta Noite a Liberdade - Dominique Lapierre (n. 1931) e Larry Collins (1929-2005) (Publicado por Edições Ática, Lisboa, 1976)
Nota - Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa, numa edição do Círculo de Leitores (Cota --- H.G. 30583 V.)
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Os Primeiros Americanos (1)
"De quem foi a voz que primeiro soou nesta terra? Foi a voz do povo vermelho, que só tinha arcos e flechas..."
"Fizeram-nos muitas promessas, mais do que me posso lembrar. Mas eles nunca as cumpriram, excepto uma: prometeram tomar a nossa terra e tomaram-na.".
"O homem branco só contou as suas melhores acções, só as piores dos índios".
"Este território é meu, cresci aqui. Os meus antepassados viveram e morreram nele - e quero permanecer nele."
"Nasci na pradaria, onde o vento sopra livre e não existe nada que interrompa a luz do sol..."
"Não quero deixar nunca este território. Todos os meus parentes jazem neste solo e, quando eu me desfizer, quero desfazer-me aqui."
"Fizeram a tristeza chegar aos nossos acampamentos e nós investimos como os búfalos quando as suas fêmeas são atacadas".
(Fotos de Curtis, obtidas entre 1904 e 1910)
(Citações do livro "Enterrem meu Coração na Curva do Rio", de Dee Alexander Brown - Centro do Livro Brasileiro - Edições Melhoramentos - Brasil - 1973)
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Aberturas de Grandes Livros - "A Última Batalha - A Queda de Berlim" (Cornelius Ryan - Estados Unidos)
“Nas latitudes mais setentrionais, o amanhecer verifica-se muito cedo. Até mesmo quando os bombardeiros se afastavam da cidade, a leste já despontavam os primeiros raios de luz. No meio da tranquilidade da manhã, podiam ver-se grandes colunas de fumo negro a elevarem-se sobre os bairros de Pankow, Weissensee e Lichtenberg, enquanto as nuvens baixas tornavam difícil separar a suave luminosidade da aurora e os reflexos dos incêndios na cidade de Berlim destroçada pelas bombas.
À medida que o fumo se ia dissipando vagarosamente, por entre as ruínas surgia no seu macabro esplendor a cidade mais bombardeada da Alemanha, enegrecida pela fuligem, crivada de milhares de crateras e decorada com as vigas retorcidas dos edifícios destruídos.
Tinham desaparecido numerosos quarteirões de prédios de apartamentos no coração da cidade, o mesmo sucedendo com as zonas suburbanas, completamente volatilizadas. Agora, em todo aquele caos, as largas avenidas e as ruas de outrora eram apenas simples veredas cheias de crateras que serpenteavam através de montanhas de destroços. Por toda a parte, acre após acre, só se viam, escancarados para o céu, edifícios descarnados, sem janelas e sem telhados.
A seguir aos ataques caía do céu uma chuva muito fina de fuligem e de cinzas que polvilhava os destroços, enquanto nos enormes montões de tijolos esmigalhados e vigas de aço torcidas a única coisa que se movia eram os turbilhões de poeira que rodopiavam ao longo da vasta extensão da Unter den Linden, com as suas famosas árvores agora nuas e os rebentos das folhas queimados nos ramos.
A seguir aos ataques caía do céu uma chuva muito fina de fuligem e de cinzas que polvilhava os destroços, enquanto nos enormes montões de tijolos esmigalhados e vigas de aço torcidas a única coisa que se movia eram os turbilhões de poeira que rodopiavam ao longo da vasta extensão da Unter den Linden, com as suas famosas árvores agora nuas e os rebentos das folhas queimados nos ramos.
Eram raros os bancos, livrarias ou estabelecimentos elegantes situados no famoso boulevard que não tivessem sofrido estragos; todavia, no seu extremo oeste, o mais famoso monumento de Berlim – a porta de Brandeburgo – com as suas doze colunas dóricas maciças e de altura igual a um edifício de oito andares, embora crivado de profundos golpes, ainda permanecia de pé na via triumphalis. (…)
(…) Nessa manhã luminosa, os berlinenses dos vinte bairros da capital apareceram à luz do dia como os habitantes das cavernas neolíticas, emergindo dos túneis do metropolitano, dos abrigos situados por baixo dos edifícios públicos e das caves ou pavimentos inferiores dos prémios semidestruídos.
(…) Nessa manhã luminosa, os berlinenses dos vinte bairros da capital apareceram à luz do dia como os habitantes das cavernas neolíticas, emergindo dos túneis do metropolitano, dos abrigos situados por baixo dos edifícios públicos e das caves ou pavimentos inferiores dos prémios semidestruídos.
Fossem quais fossem as suas esperanças ou receios, as suas lealdades ou crenças políticas, todos os berlinenses compartilhavam dum sentimento comum: os que haviam sobrevivido mais uma noite estavam resolvidos a sobreviver mais um dia.
O mesmo se podia dizer quanto à nação.
Nesse sexto ano da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha de Hitler estava a lutar desesperadamente pela sobrevivência. O Reich que havia de durar mil anos tinha sido invadido a oeste e a leste. As forças anglo-americanas estavam a limpar toda a região ao longo do Reno, haviam atravessado o rio em Remagen e precipitavam-se já em direcção a Berlim, da qual só distavam 300 milhas. Na margem oriental do Oder, tinha-se materializado uma ameaça muito mais urgente e infinitamente mais temerosa, traduzida na presença dos exércitos russos, situados apenas a 50 milhas.
Estava-se a 21 de Março de 1945, uma quarta-feira, com a qual se iniciava a Primavera. Nessa manhã, os berlinenses ouviram através dos aparelhos de rádio de toda a cidade o último êxito em canções: Esta Primavera não terá fim. (…)”
A Última Batalha (A Queda de Berlim) - Cornelius Ryan (1920-1974) - Publicado por Livraria Bertrand, Lisboa, 1967.
Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota --- H.G. 25078 V.)
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
África Antiga - Um Nobre Ashanti da Costa do Ouro (1820)
Um nobre ashanti, Adoo Quamina, da Costa do Ouro (actual Ghana), montando o seu cavalo em 1820.
(Fonte: A voyage to Africa including a narrative of an embassy to one of the interior kingdoms in the year 1820, London, 1821)
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domingo, 15 de fevereiro de 2009
Rip Kirby (1946-1967) (Planeta De Agostini - Espanha)

Excelente presente da editora Planeta De Agostini: uma colecção de 12 volumes dedicados ao Rip Kirby criado pelo grande Alex Raymond.
A colecção, publicada na Biblioteca Grandes del Cómic da editora (ao preço unitário de € 9,95), abrange as tiras diárias publicadas em jornais norte-americanos entre 1946 e 1967.
Elegante, atlético e culto, Rip Kirby - um ex-marine, combatente na Segunda Guerra Mundial - converte-se em detective e soluciona todos os seus casos por recurso a uma poderosa inteligência.
A partir dessa data (7.º volume da colecção) as tiras passaram para a responsabilidade de John Prentice (desenho) e Fred Dickenson (guião).
Rip Kirby foi profusamente publicado em Portugal, sobretudo nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado - em especial pela lendária Agência Portuguesa de Revistas (nas suas colecções Mundo de Aventuras, Tigre e Condor Popular).
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sábado, 14 de fevereiro de 2009
Aberturas de Grandes Livros - "Moby Dick" (Herman Melville - Estados Unidos)
Há alguns anos – não interessa quantos – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas.
É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação.
Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se transforma num Novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e, principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível.
É uma forma de fugir ao suicídio. Onde, com um gesto filosófico, Catão se lança sobre a espada, eu, tranquilamente, meto-me a bordo.
E não há nisto nada de extraordinário. Embora inconscientemente, quase todos os homens sentem, numa altura ou noutra da vida, a mesma atracção pelo Oceano.
Vejam agora o que sucede com a vossa Manhathan, rodeada de docas como uma ilha do Índico cercada pela restinga de coral – o comércio envolve-a com a sua alta ressaca. À direita e à esquerda as ruas conduzem ao litoral. No extremo limite da cidade baixa encontra-se a Bateria, cujos nobres contrafortes são lavados pelas vagas e refrescados por brisas que poucas horas antes ainda sopravam no alto-mar. Observem a multidão que ali se junta para contemplar as águas.
Vejam agora o que sucede com a vossa Manhathan, rodeada de docas como uma ilha do Índico cercada pela restinga de coral – o comércio envolve-a com a sua alta ressaca. À direita e à esquerda as ruas conduzem ao litoral. No extremo limite da cidade baixa encontra-se a Bateria, cujos nobres contrafortes são lavados pelas vagas e refrescados por brisas que poucas horas antes ainda sopravam no alto-mar. Observem a multidão que ali se junta para contemplar as águas.
Dêem uma volta pela cidade numa sonolenta tarde de domingo. Vão de Corlears Hook para Coenties Slip, e daí, pelo Whitehall, dirijam-se para o Norte.
Que encontram?
Postados como sentinelas em toda a periferia da cidade, milhares e milhares de mortais contemplam, hipnotizados, o oceano.
Uns apoiam-se às estacas; outros sentam-se na beira dos molhes; outros namoram o arcaboiço dos navios que vêm da China; alguns sobem até ao topo dos mastros para desfrutar uma perspectiva marinha ainda mais ampla.
É todavia gente ligada à terra, gente que passa os dias da semana entre quatro paredes de cal e gesso – amarrada aos escritórios, colada aos bancos, debruçada sobre as escrivaninhas.
Então porque se encontra aqui?
Já não existem os belos prados verdes?
Que força os arrasta para este lugar? (…)”
Moby Dick - Herman Melville (1819-1891) - Publicado por Editorial Estúdios Cor, Lisboa, 1962.
Informação adicional: obra disponível, actualmente, em edição da Relógio D'Água, Lisboa (€ 24,00)
Também acessível na Biblioteca Nacional de Lisboa - (Cota --- L. 17157 V.)
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
O caso Dreyfus - ou a incómoda probabilidade da inocência: "J'accuse..."
"Há 111 anos, a 13 de Janeiro de 1898, foi publicada a mais grandiosa peça jornalística de todos os tempos. Escrita como carta aberta ao presidente de França, é um apelo indignado em nome de um inocente injustamente condenado, libelo contra um sistema judicial corrupto e uma opinião pública contaminada pela manipulação da verdade e pelos seus preconceitos (o condenado era judeu) através de uma campanha mediática "abominável".
Num estilo que cruza o jornalismo e o manifesto, descreve a forma como um homem foi desonrado, julgado e condenado a prisão perpétua com base em provas falsas que, sendo consideradas "secretas", nem sequer lhe foram reveladas, e demonstra como o verdadeiro culpado foi absolvido por juízes cientes da sua culpa.
Tem como título J'accuse...! (Eu acuso...!), e é uma defesa empolgada e empolgante da verdade e da justiça.
O seu autor, Émile Zola, sabia ao escrever o risco que corria - aliás, escreveu jogando nesse risco, o de ser acusado de desrespeito e difamação e de poder fazer no seu julgamento a demonstração do que afirmava.
Zola conseguiu o que queria: virar a França a favor do inocente condenado (Dreyfus) - mesmo se à custa de reacções violentas contra ele e contra Dreyfus, incluindo motins anti-judaicos - e reabrir o respectivo processo, mas também ser julgado, três escassas semanas após a publicação do artigo.
Foi condenado à pena máxima no caso, um ano de cadeia, a que escapou fugindo para o estrangeiro.

Zola voltaria a França para assistir à reabertura do processo Dreyfus, no qual este foi, incrivelmente, condenado de novo. Seria no entanto "perdoado" e acabaria ilibado em 1906, reintegrado e promovido no exército que o expulsara.
Zola, arruinado pela defesa de Dreyfus, tinha morrido há quatro anos, sem ver satisfeita a sua exigência de justiça.
Na verdade, a justiça nunca foi realmente feita: ninguém - nem os oficiais do exército que cozinharam a sua "culpa", nem os juízes e procuradores que o condenaram sonegando-lhe as provas, nem aqueles que a propagaram sem se esforçarem por conhecer a verdade - foi julgado pelo martírio de Dreyfus.

As forças contra as quais Zola se ergueu, "fraco e desarmado" (como disse Anatole France no seu elogio fúnebre), nunca foram derrotadas - apenas o necessário para, naquele caso, lavarem a face, revendo a decisão que condenara um inocente.
Fraco consolo.
O caso Dreyfus, como muitos outros antes e depois dele, mostra o lado negro do poder do sistema judicial.
Quando um sistema criado para certificar a procura e o triunfo da verdade despreza a verdade e funciona como se estivesse acima das leis por cujo cumprimento lhe cumpre zelar, instrumentalizando o extraordinário poder que lhe é conferido, não há Estado de Direito.
Sem Estado de Direito, não há grande chance para a democracia, até porque não há para aí Zolas aos pontapés.
O que há aos pontapés é gente que, quiçá imaginando-se da estirpe do autor de J'accuse, se compraz em funcionar como guarda avançada dessa instrumentalização da verdade.
"O meu dever é falar, não quero ser cúmplice", escreveu Zola.
É sempre boa altura para lhe honrar o repto." (*)
(*) Fernanda Câncio - Diário de Notícias, Lisboa, Portugal - 30-Janeiro-2009
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
domingo, 8 de fevereiro de 2009
África Antiga - As Mulheres-Guerreiras do Daomé
Constituíam, no século XIX, um corpo de élite do exército do reino do Daomé (actual Benim).
Entre outras missões militares, competia-lhes a protecção do rei.
A imagem acima representa Seh-Dong-Hong-Beh, uma das suas comandantes, por volta de 1850. Numa das acções, ela chefiou 6.000 mulheres contra os guerreiros Egba da fortaleza de Abeokuta.
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Conta-se que a sua iniciação implicava obrigatoriamente a decapitação de um inimigo e a consequente ingestão do seu sangue.
Para além das tribos africanas inimigas, enfrentaram bravamente o poder colonial francês, em finais do século XIX. Isso não evitou, contudo, que o rei Gbehanzin (1889-1894) fosse feito prisioneiro e deportado para a Martinica, sendo o Daomé anexado pelos Franceses.
(Fonte, até meados do séc. XIX: Frederick E. Forbes: Daomé e os Daomeanos - Relato de duas missões ao Daomé em 1849 e 1850 - Londres - 1851). (Período posterior: arquivos da Torre).
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sábado, 7 de fevereiro de 2009
Aberturas de Grandes Livros - "A Guerra de África em 1895" (António Ennes - Portugal)
“Saímos de Lisboa, no Sud-Express, a 8 de Dezembro, no fim de um cintilante dia em que o sol emprestara galas e alegrias primaveris à festa da padroeira do reino, e a 12 à noite largámos de Marselha no Iraouaddy, das Méssageries Maritimes, navegando mansamente dentro duma imensa redoma de luar azulado.
Por cima da casaria da cidade, escura e ponteada de luzinhas, faiscava a branca Vénus; o ar estava macio e límpido, o mar chapinhava compassadamente no costado do navio. Mas o Iraouaddy contrastava com aquele cenário de bonança e paz, porque levava o enorme bojo cheio de guerra.
Connosco, que íamos abrir uma campanha em Moçambique, tinham embarcado oficiais e soldados franceses, incumbidos dos primeiros preparativos da expedição a Madagáscar; o alteroso navio era, pois, um repto mandado pela Europa à África, e muitos dos seus passageiros, arautos ou mantenedores desse repto, devem ter olhado ansiosos, ao distanciarem-se de terra, para o negro vulto sobranceiro de Notre-Dâme-de-la-Garde, pedindo nesse olhar de despedida à Mãe de misericórdia que os guardasse dos perigos ignotos que iam afrontar.
Quantos terão sido ouvidos? Quantos estarão hoje vivos, desses nossos joviais companheiros, que se desenfastiavam do mar improvisando cafés-concertos, em que um escotilhão servia de palco, sobre o qual os veteranos requeimados do Tonquim vozeavam hinos patrióticos, e os gaiatos de Paris promovidos a guerreiros sublinhavam cançonetas escabrosas?
Quantos terão sido ouvidos? Quantos estarão hoje vivos, desses nossos joviais companheiros, que se desenfastiavam do mar improvisando cafés-concertos, em que um escotilhão servia de palco, sobre o qual os veteranos requeimados do Tonquim vozeavam hinos patrióticos, e os gaiatos de Paris promovidos a guerreiros sublinhavam cançonetas escabrosas?
Foram corteses connosco, essas predestinadas vítimas da biliosa e da disenteria. No dia de Ano Bom, já no mar das Índias, deram um espectáculo de gala no convés enfeitado a capricho, e o cortinado, corrido a meia nau, que fazia fundo à cena, era formado pelo estandarte tricolor tendo suspensas à direita a bandeira portuguesa e à esquerda a da Rússia.
Champagne em honra de Portugal, trocaram connosco votos efusivos pela fortuna das armas que todos íamos levar ao mundo negro, e dois dias depois, em Mayotte, quando passámos para bordo da Afonso de Albuquerque, apinharam-se nas amuradas para se despedir de nós agitando os kepis, acenando com os lenços, gritando saudações. Bon voyage! Bonne chance! (…)”.
A Guerra de África em 1895 - António Ennes (1848-1901) (Publicado por Edições Gama, Lisboa, 1945)
Aos interessados: foi recentemente reeditado pela Prefácio, Lisboa (€ 32,00).
Também disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota --- H.G. 17660 V.)
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
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