domingo, 7 de junho de 2009

O Drama de Juana - Irmã de Inês de Castro


Da história de Inês de Castro, assassinada, a mando de um monarca português, numa manhã fria de Janeiro (1355), se tratou já. A imagem mítica da sua tumba sumptuosa, em Alcobaça, permanece nítida na memória de muitos.
"O túmulo de Inês de Castro assenta sobre os dorsos dos responsáveis da sua morte. São várias criaturas enigmáticas, displicentemente agachadas, três de cada lado da arca. Meio-homens, meio-bichos, meio-presos, meio-livres. Reparem neles com vagar. Voltados para fora e, à primeira vista, tranquilos, parecem espiar despreocupadamente quem passa. Como se estivessem apenas curiosos do movimento, debruçados de uma varanda inocente (...). Espreitam, de expressões alheadas, com ares de quem ignora porque os condenaram a suportar tal peso" (*).


Longe de Alcobaça, umas centenas de quilómetros para norte, na catedral de Santiago de Compostela (Galiza, Espanha) descansam os restos de uma outra Castro - Juana, também galega, irmã da Inês martirizada em Portugal.
O seu destino - ainda que menos sangrento do que o da irmã - foi, também, dramático.
Juana cruzou um dia o seu destino com o terrível Pedro I de Castela (El Cruel), de quem falámos a seu tempo.
Soberana por uma noite - porque logo repudiada pelo monarca - intitulou-se rainha durante o resto da sua vida.
Até acabar no túmulo de Santiago de Compostela - maciço, frio e severo, nada comparável aos rendilhados lendários que servem de última morada à irmã.
A história conta-se em palavras breves.

(Túmulo de Juana de Castro, irmã de Inês, na catedral de Santiago de Compostela, Galicia - España)
.
"(...) Dizem que o reizinho se indispôs, nestes começos da Primavera de 1354, com a sua amada Maria de Padilla. Não obstante tratar-se, apenas, de arrufos de namo­rados - tão efémeros e estimulantes como sempre são as zangas dos apaixonados sinceros -, sucede que Pedro, por birra ou por fortuita guinada do instinto, desvia nesta altura o sentido para uma tentadora viuvinha galega, dispondo-se a corte­já-la.

A bela furta-se aos avanços do monarca e faz-lhe graciosamente saber que, com ela, intimidades só por casamento. O reizinho, picado com tão esquiva formosura, morde o anzol e promete logo que sim, que casará. O problema, torna a viuvinha, é que o rei já é casado com a francesa de Bourbon. Pedro não é pessoa para se embaraçar com ninharias destas. Blanche não constitui, para já, em­pecilho de monta, pois ele mantém-na fora de circulação, detida em Arévalo." (*)

 
"Quanto ao resto - isto é, no que respeita às trapalhadas da legalidade -, o rei con­voca de urgência dois homens de autoridade e fé, os bispos Sancho de Ávila e Juan de Salamanca, e com eles arruma o caso em três tempos. Pergunta-lhes Pedro: o que têm os senhores bispos a opinar sobre o malfadado casamento com Blanche de Bourbon em Santa Maria la Nueva?

Os bispos, fartos de saber do que a casa gasta, logo certificam, com um frio na espinha, que não há que falar aqui em casamento: é mais do que óbvio que o enlace de Valladolid não valeu, foi nulo, é como se nunca tivesse existido.
El-rei que se considere, pois, o mais livre dos homens e que se case com quem lhe apetecer.

Convencida pelas respostas destes varões sapien­tes, a viuvinha diz um sim enternecido ao rei e logo se unem os dois em Cuéllar.
O casamento durará, apenas, a noite de núpcias, o que, mesmo lembrados os ante­cedentes do noivo, é coisa de espantar." (*)

 
"Que foi que sucedeu?
No mesmo dia das bodas, chegaram a Pedro notícias da rebelião que ganha vulto nas cercanias de Badajoz. Fornecem-lhe pormenores e nomes: Albuquerque, Enrique, Fadrique, os Castros.
Os Castros?
Pedro indigna-se, fica numa fúria e, no dia seguinte, parte de Cuéllar a toda a pressa, sem mais querer saber da nova esposa.
Jamais se tornarão a ver, e o reizinho não tardará a serenar nos braços quentes e únicos de Maria de Padilla, que daqui a pouco o presenteará com Constanza, a segunda filha.
Para bem se compreender mais esta reviravolta conjugal, desvende-se, enfim, a identidade da es­posa repudiada: Juana de Castro, irmã de Fernando e Álvar de Castro, e também, naturalmente, daquela sedutora Inês que vive e ama em terras lusitanas." (*)


"Os Castros, sabedores da partida que o rei Pedro pregou à sua Juana, põem-se a remoer vinganças e adquirem outro balanço para a rebelião.
Na Galiza, Fernando faz questão de comparecer, dias a fio, diante de um notário, para que publicamente se ateste a sua ruptura com o rei de Castela. Dentro de pouco tempo, à testa de sete­centos e trinta cavaleiros e de mil e duzentos peões, ele partirá ao encontro das forças dos bastardos e de João Afonso de Albuquerque para com elas formar o exército da rebeli­ão.
Álvar de Castro é por seu turno incumbido de uma missão delicada: a de atrair o herdeiro do trono português à causa dos rebeldes castelhanos (...)". (*)

(*) José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - Lisboa - 2003.

sábado, 6 de junho de 2009

Grandes Quadros (Renoir - França)

O Baile do Moulin de la Galette (1876)

Renoir (1841- 1919 )

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Álbuns do Cavaleiro Andante - "Capitão Audaz"


Alguns números publicados nos anos de 1955 e 1956 pela Empresa Nacional de Publicidade (ENP), Lisboa, Portugal.
Preço: 2$50 (dois escudos e cinquenta centavos).
Ou seja: cerca de 1,25 cêntimos do euro actual.






































sábado, 30 de maio de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "A Batalha de Dien Bien Phu" (Jules Roy - França)



“19 de Maio de 1953.
Um comandante-chefe não é pessoa que se receba como um regedor qualquer.
Fardados de branco sob o calor sufocante do meio-dia, todos os generais e almirantes do Vietname do Sul esperam na pista do aeródromo de Than Son Nut, em Saigão, a aterragem do avião de longo curso de Paris, que sofreu um atraso de três quartos de hora, a fim de permitir que pousasse em primeiro lugar o Dakota do alto-comissário francês, que vem de Hanói.

A bordo do Constellation, o general Navarre contempla, sonhador, a imensa e temível extensão de pântanos e anéis líquidos, enrolados nas terras baixas onde o mar penetra, parcela do vasto reino que recebeu o encargo de defender. As águas brilham à luz do Sol e as aldeias de colmo aninham-se sob os tufos de bambus gigantescos. O avião dirige-se agora para o norte, sobrevoa o porto, a cidade e os seus jardins, rola no cimento da pista e pára.

Ao aparecer na escotilha do Constellation, Navarre não está apenas sufocado pelo calor de fornalha, que lembra o da escala de Calcutá. Outro que não ele teria dificuldade em resistir ao cerimonial disposto para o receber. Evidentemente, conhece todo este ritual desde os tempos em que transportava a pasta dos comandantes-chefes e dos marechais, mas, desta vez, é ele o príncipe esperado, é para ele que tocam as fanfarras e se queima o incenso. Estes prazeres refinados que deliciariam Salan – agora em prolongadas visitas de despedida no Tonquim –, Navarre só os apreciará com um secreto prazer de que gostosamente prescindirá quando perceber qual o seu preço. (…)

(…) Navarre vê a seus pés todos os poderes. Se quiser, o trem da sua casa poderá ser igual ao dum rei. Com o seu pavilhão a drapejar ao vento, poderá, com um simples gesto ou assinatura, decidir da sorte ou desgraça de muita gente. Os seus ditos e silêncios serão estudados e todos ficarão suspensos das suas resoluções. Far-se-á tudo para o poupar às inclemências do clima, a fim de o seu génio poder resolver mais facilmente todos os problemas.

Nesse dia, através da escolta que o acompanhou, limitar-se-á a entrever Saigão, embora pressinta já o ambiente feroz dos negócios, do ágio, do dinheiro que corre a rodos, das casas de diversão nocturna e da vida dissoluta que nunca se interrompe.
Nesta cidade sem pássaros, as flores não têm perfume. Apresentam colorido brilhante, mas são pesadas, carnais, obcecantes. Estas bandas de música, estes apitos da polícia, esta roda-viva de automóveis carregados de estrelas e bonés doirados celebram a chegada dum novo duque da Indochina ou o começo duma liquidação com ar festivo?

(…) No fim do jantar que o alto-comissário ofereceu em sua honra, chega a notícia da queda, após dois meses de resistência, do posto de Muong Khoua, alcandorado num pico rochoso, na confluência da Nam Ou e da Nam Pak, sessenta quilómetros a sudoeste de Dien Bien Phu, nome este que Navarre ainda não tinha sequer ouvido.
Uma companhia de soldados laocianos e alguns auxiliares desapareceram. Pela primeira vez, os viets teriam utilizado granadas com fósforo, quer apanhadas do municiamento do corpo expedicionário, quer vindas da China. (…)”

A Batalha de Dien Bien Phu - Jules Roy (1907-2000) - Publicado por Livraria Bertrand - Lisboa - Portugal, 1965.

Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota -- H.G. 24299 V. )

Conquista de Dien Bien Phu pelos vietnamitas

domingo, 24 de maio de 2009

Descobrimento do Brasil pelos Portugueses (22 de Abril de 1500) - Carta de Pêro Vaz de Caminha para o rei D. Manuel I



Notas prévias - No dia 9 de Março do ano de 1500, Pedro Álvares Cabral largou do rio Tejo (Lisboa, Portugal) com destino à Índia, cujo caminho marítimo fora recentemente desvendado, em notabilíssima viagem, por outro navegador português, Vasco da Gama.
Cabral capitaneava doze naus e uma caravela, e tinha sob o seu comando um efectivo de 1200 homens, "gente escolhida".

A 14 de Março a armada passava ao largo das Canárias.
A 22 avistou a ilha de S. Nicolau, pertencente ao arquipélago de Cabo Verde.
A 23 deu-se pela falta da nau de Vasco Ataíde, que jamais tornaria a ser vista.
Cerca de um mês depois, a 21 de Abril, os navegantes divisaram nas águas uns filamentos vegetais, sinal quase certo de terra próxima.

Às 3 horas da tarde do dia seguinte - 22 de Abril de 1500 - a tripulação avistou um grande monte e outras terras.
Ao Monte deram o nome de Pascoal. À terra, o de Vera Cruz.
Os Portugueses tinham achado o caminho marítimo para o território que um dia se transformaria no grande Brasil.

No dia 23 registou-se o primeiro encontro entre a marinhagem lusitana e os naturais da terra.
A 24, dois índios aceitaram subir a bordo da armada.
A 25, Cabral mandou a terra dois dos seus comandados (Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias).
A 26, Domingo de Pascoela, o comandante determinou que se fosse ouvir missa e sermão "naquele ilhéu" (hoje Recife da Coroa Vermelha).
No dia 28 de Abril, alguns marinheiros da armada desembarcaram para lavarem roupa e talharem a grande cruz que depois se ergueria no local.

Fica um curto extracto da famosa carta em que Pêro Vaz de Caminha dá conta ao seu rei, D. Manuel I de Portugal, do descobrimento do Brasil (consulte, no fim do texto, o vocabulário utilizado).


"Senhor: posto que o capitão desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que - para o bem contar e falar - o saiba fazer pior que todos.
Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu. (...)

(...) E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo (1), até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa (2), que foram 21 dias de Abril, estando (distantes) da dita ilha (S. Nicolau - Cabo Verde) obra de seiscentas e sessenta ou seiscentas e setenta léguas, segundo os pilotos diziam, topámos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho (3), assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno (4).
E, quarta-feira seguinte (22 de Abril), pela manhã topámos aves a que chamam fura-buchos (5).
Neste dia, a horas de véspera (6), houvemos vista de terra!

Primeiramente, de um grande monte, muito alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs o nome de Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz.
Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças (7); e, ao sol-posto, obra de seis léguas de terra, lançámos âncoras, em dezanove braças - ancoragem limpa.

Ali permanecemos toda aquela noite. E quinta-feira (23 de Abril), pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante - por dezassete, dezasseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças - até meia légua da terra, onde todos lançámos âncoras em frente à boca de um rio.
E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.
.

E dali avistámos homens que andavam pela praia, obra de uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, que chegaram primeiro.
Então lançámos fora os batéis e esquifes (8); e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor, onde falaram entre si.
E o capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte.

Eram pardos (9), todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas (10). Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente (11) sobre o batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.
Mas não pôde deles haver fala nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro (12) preto.

E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como de papagaio. E outro lhe deu um ramal (13) grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza.
E com isto se volveu às naus, por ser tarde e não se poder haver deles mais fala, por causa do mar.


Na noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar (14) as naus, e especialmente a capitânia.
E sexta (24 de Abril) pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o capitão levantar as âncoras e fazer vela. E fomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa, na direcção do norte, para ver se achávamos alguma abrigada (15) e bom pouso, onde nos demorássemos para tomar água e lenha. Não que já nos minguasse, mas por aqui nos acertarmos (16).

E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo da costa, e mandou o capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
E, velejando nós pela costa, acharam os ditos navios pequenos, a dez léguas do sítio donde tínhamos levantado ferro, um recife (17) com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram (18). As naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes do sol-posto amainaram também, a uma légua do recife, e ancoraram em onze braças.

E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro.
E tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia (19).
Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram.
Trouxe-os logo, já de noite, ao capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.


A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos.
Andavam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar as suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.
Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos (20) e verdadeiros, do comprimento duma mão travessa, da grossura de um fuso de algodão, agudos na ponta como furador.
Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez (21), ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber.
Os seus cabelos são corredios (22). E andavam tosquiados, de tosquia alta (...).

O capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado.
E Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém.

Porém, um deles pôs olho no colar do capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata.
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o capitão traz consigo. Tomaram-no na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali.
Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. E depois a tomaram, (mas) como espantados.


Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, fartéis (23), mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e se alguma coisa provavam, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada (24). Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar; isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou (devolveu) as contas a quem lhas dera.

Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas (25), e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.
O capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins (26), e o da cabeleira esforçava-se por não a quebrar (desfazer). E lançaram-lhes um manto por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram.


No sábado (25 de Abril), pela manhã, mandou o capitão fazer vela e fomos demandar (procurar) a entrada, a qual era mui larga e funda de seis a sete braças. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças - um ancoradouro que dentro é tão grande, tão formoso e tão seguro que podem abrigar-se nele mais de duzentos navios e naus.

E tanto que as naus quedaram ancoradas, todos os capitães vieram a esta nau do capitão-mor. E daqui mandou o capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem a terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, isto depois de ter feito dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que eles levaram nos braços, e seus cascavéis (guizos) e campainhas.

E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo, a quem chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.


Fomos assim de frecha (rapidamente) direitos à praia.
Ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos.
Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pousassem os arcos. E eles os pousaram, mas não se afastaram muito.
E mal pousaram os arcos, logo saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles.

E, saídos, não pararam mais; nem esperava um pelo outro; mas antes corriam a quem mais corria.
E passaram um rio que por ali corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga (coxa), e outros muitos com eles. E foram assim correndo, além do rio, entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam.
Entretanto, foi-se o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá.
Mas logo tornaram a nós; e com eles vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.


Então se começaram de chegar muitos.
Entraram pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. Traziam cabaços de água e tomavam alguns barris que nós levávamos; enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis.
Não que eles de todo chegassem à borda do batel. Mas, junto a ele, lançavam os barris que nós tomávamos; e pediam que lhes dessem alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas (27). E a uns dava um cascavel, a outros uma manilha, de maneira que com aquele engodo quase nos queriam dar a mão.
Davam-nos aqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho, ou por qualquer coisa que alguém lhes pudesse dar.

Muitos deles, ou quase a maior parte dos que andavam ali, traziam aqueles bicos de osso nos beiços. (...) Aí andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada (...).
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. (...)


(...) No Domingo de Pascoela (26 de Abril), pela manhã, determinou o capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu.
Mandou a todos os capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperavel (28), e dentro dele um altar mui bem corregido (arranjado).

E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo padre Frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.
Ali era com o capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho.

(...) Enquanto assistíamos à missa e à pregação, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de ontem, com seus arcos e setas, a qual andava folgando.
E olhando-nos, sentaram-se.
E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram (tocaram) corno ou buzina e começaram a saltar e a dançar um pedaço (...)."


Notas:

(1) - De longo - Movimento progressivo e rectilíneo em relação a um ponto determinado.
(2) - Oitavas de Páscoa - Oito dias depois da Festa da Páscoa, que terminam no chamado Domingo de Pascoela.
(3) - Botelho - Espécie de alga, também chamada "sargaço".
(4) - Rabo-de-asno - Supõe-se que seja uma planta medicinal usada para bloquear a hemorragia nasal.
(5) - Fura-buchos - Aves aquáticas da família dos Procelarídeos, conhecidas também, no século XVI, pelos nomes de "chiretas" e "estapagados", típicas da costa portuguesa e do mar dos Açores.
(6) - Horas de véspera - Hora canónica em que se rezava a oração da tarde, entre as 15 horas e o pôr-do-Sol.
(7) - Braça - Medida equivalente a cerca de 2,20 metros.
(8) - Esquifes - Pequenas embarcações transportadas nas naus, utilizadas para salvamento em caso de naufrágio ou como transporte para terra.
(9) - Pardos - Cor entre o branco e o preto.
(10) - Vergonhas - De emprego habitual nos séculos XV e XVI para denominar as partes pudendas.
(11) - Rijamente - Decididamente.
(12) - Sombreiro - Chapéu de abas largas.
(13) - Ramal - Colar.
(14) - Caçar - Sair a nau do seu rumo por acção do vento, maré ou qualquer outro imprevisto da natureza.
(15) - Abrigada - Sítio abrigado das intempéries.
(16) - Nos acertarmos - Nos orientarmos; nos prevenirmos.
(17) - Recife - Rochedo, que corresponde ao actual topónimo Coroa Vermelha.
(18) - Amainaram - Recolheram as velas e pararam o barco.
(19) - Almadia - Embarcação comprida e estreita usada pelos indígenas.
(20) - Ossos brancos - Adorno de ponta fina que se prolongava para fora dos lábios e com uma base larga a segurar.
(21) - Roque de xadrez - Nome dado às quatro torres do xadrez.
(22) - Corredios - Lisos.
(23) - Fartéis - Bolos de açúcar e amêndoas envoltos em capa de farinha de trigo.
(24) - Albarrada - Vasilha própria para beber água e vinho.
(25) - Fanadas - Circuncisadas.
(26) - Coxins - Almofadas que servem também de assento.
(27) - Manilhas - Argolas de metal usadas, como adorno, nos braços ou nas pernas.
(28) - Esperavel - Espécie de dossel, pavilhão ou pálio fixo.

Fontes:

a) Expo 98 - Pêro Vaz de Caminha - Carta a El-Rei D. Manuel Sobre o Achamento do Brasil - Notas de Maria Paula Caetano e Neves Águas - Lisboa, 1997.

b) Leonardo Arroyo - A Carta de Pêro Vaz de Caminha - Edições Melhoramentos (em convénio com o Instituto Nacional do Livro) - Brasil, 1971.

c) Fernando de Castro Brandão - História da Expansão Portuguesa (1367-1580) - Uma Cronologia - Europress - Lisboa, 1995.

sábado, 23 de maio de 2009

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "A Ilustre Casa de Ramires" (Eça de Queiroz - Portugal)


 
“Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava.
Gonçalo Mendes Ramires (que naquela sua velha aldeia de Santa Ireneia, e na vila vizinha, a asseada e vistosa Vila-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos conheciam pelo “Fidalgo da Torre”) trabalhava numa novela histórica, “A Torre de D. Ramires”, destinada ao primeiro número dos “Anais de Literatura e de História”, revista nova, fundada por José Lúcio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenáculo Patriótico, em casa das Severinas.

A livraria, clara e larga, escaiolada de azul, com pesadas estantes de pau-preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos fólios de convento e de foro, respirava para o pomar por duas janelas, uma de peitoril e poiais de pedra almofadados de veludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente perfumada pela madressilva, que se enroscava nas grades.
Diante dessa varanda, na claridade forte, pousava a mesa – mesa imensa de pés torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e atravancada nessa tarde pelos rijos volumes da “História Genealógica”, todo o “Vocabulário” de Bluteau, tomos soltos do “Panorama”, e ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott, sustentando um copo cheio de cravos amarelos.

E daí, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes Ramires, pensativo diante das tiras de papel almaço, roçando pela testa a rama da pena de pato, avistava sempre a inspiradora da sua novela – a Torre, a antiquíssima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que em redor crescera, com uma pouca de hera no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoura bem cortadas no azul de Junho, robusta sobrevivência do Paço acastelado, da falada honra de Santa Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meados do século X.
Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal. (…)” (*)

Eça de Queiroz
(*) - A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz (1845-1900) - Edição de "Livros do Brasil", Lisboa, s/d.

Actualmente publicado por Porto Editora (€ 7,29) e Editorial Presença, Lisboa (€ 12,47).

Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota ---  L. 45696 V.)