(Artistas: os dois primeiros quadros são de Nyakambiza Gutsa; o último, de Patrick Kinuthia)
Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
domingo, 4 de janeiro de 2009
sábado, 3 de janeiro de 2009
Os Direitos Espezinhados (Baptista-Bastos)

Almeida Garrett escreveu, um dia, que "as Constituições são feitas para não ser respeitadas."
A afirmação do grande escritor e soldado da Liberdade era a verificação de um facto, não o eco desencantado de quem se deixara vencer pelo desânimo.
Embora o desencanto e o desânimo também dele se hajam apossado.
Lembrei-me da frase e cotejei-a com exemplos: o da nossa magna carta em especial.
A verdade é que nada do que é humano se proclama por decreto.
Lembro-me de que caminhávamos para o socialismo e para uma sociedade sem classes, objectivos abundantemente aplaudidos, à Direita e à Esquerda.
Foi o que se viu.
É o que se vê.
Saint-Just, na Convenção de Paris, afirmou: "A República Francesa proclama que a liberdade é uma ideia nova na Europa. E também que a felicidade é possível entre os homens."
O documento está repleto de boas intenções. E a verdade é que nem tudo se quedou nas intenções. A Revolução arrastou consigo o sopro de que as coisas do mundo poderiam ser alteradas pelas acções dos homens.
Se foram as palavras que incitaram os homens a agir, nem sempre as palavras possuem o poder de remover os imensos obstáculos que se opõem à natureza do que propõem.
Completam-se sessenta anos sobre a Declaração dos Direitos Humanos.
Logo no primeiro artigo, a nobreza da causa está consignada:
"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."
A própria nascença de uns e de outros está condicionada pelos privilégios.
Quem nasce na Somália possui os mesmos direitos e as mesmas liberdades de quem nasce, por exemplo, na Alemanha?
E quem nasce pobre, na Alemanha, dispõe das mesmas prerrogativas de quem nasce rico?
E o "espírito de fraternidade" passou a ser comum entre os seres humanos, logo a seguir à publicação da Carta?
Evidentemente, estamos no território das intenções.
E, evidentemente também, nenhuma dessas intenções encontrou concretização. O mundo está melhor, diz-se.
Está melhor para quem?
A banalização do desrespeito pelos direitos do homem atingiu níveis insuspeitados, desde que a Declaração foi tornada pública.
O século XX foi o século das maiores atrocidades, com um desfile de horrores sem paralelo na História.
A II Grande Guerra nunca terminou: prolongou-se por outras, regionais, tribais e religiosas, até hoje ininterruptas.
O latrocínio, o etnocídio, o genocídio prosseguem a parada de infâmias.
A África, mas não só a África, é não apenas o continente do desespero como aquele onde a sangueira corre, perante a total indiferença das potências ocidentais, mais propensas a dar continuidade a políticas de devastação do que a preservar os direitos de uma condição humana cada vez mais desumanizada.
São milhões e milhões de povos africanos submetidos a ditaduras sustentadas pela Europa, com a negligência afrontosa de quem nessa mesma Europa tem a hipocrisia de falar em direitos e liberdades.
Quem se interessa pelas dores alheias?
Pouca gente.
A relação com o outro, já de si pouco sólida, transformou-se numa inqualificável impassibilidade.
Os direitos humanos são os direitos daqueles que se julgam acima de todos os direitos e de todos os deveres.
Com a miséria fazem-se negócios: até o negócio da compaixão e da caridade.
Amontoam-se fortunas com a infelicidade de milhões de seres humanos.
Pol Pot e o horrendo caudal de crimes cometido em nome do comunismo;
as chacinas no Vietname;
os crimes praticados pelas diversas juntas militares em diversos países da América Latina;
o estalinismo e a pretensa justificação do goulag, em nome do combate à contra-revolução e à defesa do socialismo - tudo isto aconteceu depois da edição da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
E a abominação não acabou.
Um pouco, ou largamente, por todo o lado o homem é espoliado da sua própria razão de ser.
Forças poderosíssimas opõem-se a quem luta pelos direitos humanos.
Em certos países, os propugnadores desses direitos eram considerados subversivos e, por vezes, eram encarcerados.
Aconteceu, por exemplo, em Portugal, na época de Salazar.
No artigo 7.º da Carta, lê-se: "Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei."
Sabe-se que não é assim.
Não só em Portugal: em todos os países "civilizados."
Advogados importantes do nosso país, o próprio bastonário da Ordem, Marinho Pinto (que de aqui saúdo), admitem, como axioma, que há justiça para quem tem dinheiro; quem o não tem, que se arranje.
Todos os dias somos confrontados com atropelos às consignas do documento, cujos sessenta anos comemoramos.
Comemoramos, realmente?
E quem comemora?
Aqueles que o praticam?
Mas aqueles que, modesta e discretamente o vão tentando, não recebem o aplauso, rejeitam a glória, o soldo ou a prebenda.
(Baptista-Bastos, jornalista e escritor - Jornal de Negócios, Lisboa, 12 de Dezembro de 2008)
(As marcações do texto, em itálico, são da responsabilidade da Torre)
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Blake & Mortimer - O Universo Assombroso e Singular de Edgar Pierre Jacobs
Edgar Pierre Jacobs nasceu a 30 de Março de 1904, em Bruxelas (Bélgica), ali falecendo em 20 de Fevereiro de 1987.
Desde muito novo manifestou grande fascínio pelo desenho e pelas representações cénicas.
Os seus cadernos escolares reproduzem cenas quotidianas, batalhas, pormenores arquitectónicos ou de indumentária, a par do esmero colocado na caligrafia, revelando o seu talento.
Em 1919, depois de concluir a Escola Comercial, começou por trabalhar em publicidade, então inteiramente ilustrada, realizando gravuras para puzzles, álbuns para colorir, jogos, catálogos para grandes armazéns e cartazes, actividade que desenvolveu nos anos 20.
Chegou a barítono da Ópera de Lille em 1929, ano em que ganhou um grande prémio de canto.
Durante os anos em que esteve profundamente envolvido neste meio, aproveitou também para utilizar o seu talento gráfico, concebendo projectos de indumentárias e maquetas de cenários. Trabalhou durante dez anos na Ópera de Lille, até ser mobilizado em 1939, com o eclodir da Segunda Guerra Mundial.
Com a Bélgica invadida, em 1940, recorre ao desenho como meio de sustento.
Contactou a revista Bravo, para a qual realizou o mais variado tipo de ilustrações.
Em 1942, quando a Bravo deixa de receber as provas da muito popular banda desenhada americana Flash Gordon, Edgar foi desafiado a continuar as suas aventuras, sob o título de "Gordon l'Intrepide".
No entanto, por imposição da censura alemã, teve de concluir precipitadamente o seu trabalho, que visava dar uma hipotética continuação à história criada originalmente por Alex Raymond.
Entre 1943 e 1944 continuou a trabalhar em BD, tendo sido convidado pela mesma revista a desenvolver uma história que substituísse Flash Gordon.
A sua primeira BD criada de raiz foi Le Rayon "U" (O Raio "U"), que surgiu na revista Bravo, em 1943.
Uma segunda versão apareceu em 1974 na revista Tintin e em álbum da Lombard.
Em simultâneo, começou a colaborar com Hergé, o pai de Tintim, em 1944, quando Hergé sentiu a necessidade de redesenhar e colorir várias aventuras inicialmente saídas a preto e branco.
Assim sendo, realizou os desenhos dos cenários e a coloração das seguintes histórias de Tintim:
O Lótus Azul, O Ceptro de Ottokar, As 7 Bolas de Cristal e O Templo do Sol.
Como nota do seu bom humor, Jacobs não se coibiu de se desenhar a si próprio, a Hergé e a outras pessoas conhecidas de ambos, entre os "figurantes" de algumas histórias.
A história inicial da série, Le Secret de l'Espadon (O Segredo do Espadão), impôs-se rapidamente com sucesso entre os leitores da revista, acabando por ser reunida em dois álbuns, editados em 1950 e 1953, começando assim uma das séries de culto da BD europeia.
Depois surgiram Le Mystère de la Grande Pyramide (O Mistério da Grande Pirâmide), história também em duas partes, publicada na Tintin entre 1950 e 1954, e La Marque Jaune (A Marca Amarela), publicada em 1953.
Seguiram-se L'Enigme de l'Atlantide (O Enigma da Atlântida), de 1955, SOS Météores (SOS Meteoros), de 1958, Le Piège Diabolique (A Armadilha Diabólica), de 1960, L'Affaire du Collier (O Caso do Colar), de 1965, e Les 3 Formules du Professeur Sato I (As 3 Fórmulas do Professor Sato I), de 1971 - histórias publicadas inicialmente na revista Tintin e editadas posteriormente em álbum pela Lombard.
Em 1986 criou a chancela Éditions Blake et Mortimer, que editou todos os álbuns num novo formato, com nova coloração e páginas suplementares, como sucedeu em O Segredo do Espadão, agora editado em três volumes.
Depois de vários problemas de saúde, que marcaram os seus últimos anos de vida, faleceu vítima da doença de Parkinson, em 1987, deixando uma obra pequena pelo número de títulos mas de inegável qualidade narrativa e plástica, que se tornou uma importante referência da BD franco-belga.
Em 1996, Jean Van Hamme e Ted Benoit prosseguiram a série com grande êxito, a que se juntou, mais tarde, outra dupla de autores, Yves Sente e André Juillard.
Em Portugal, antes da edição em álbuns, a série Blake & Mortimer foi publicada na década de 50 do século passado na revista Cavaleiro Andante, da Empresa Nacional de Publicidade (em sistema de continuação).
O mesmo ocorreria duas décadas mais tarde na revista Tintim (em português).
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
sábado, 27 de dezembro de 2008
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Álbuns Especiais do "Cavaleiro Andante" (2) - Um Natal de Outrora...
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Número Especial de banda desenhada publicado, no Natal de 1954, pela Empresa Nacional de Publicidade (Lisboa - Portugal).
Matéria principal desse número: O Pirata, de Walter Scott.
Matéria principal desse número: O Pirata, de Walter Scott.
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Cinco Coisas... (Pablo Neruda)
Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim.
A segunda é ver o Outono.
A terceira é o grave Inverno
Em quarto lugar o Verão.
A quinta coisa são teus olhos.
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da Primavera...
para que continues me olhando.
(Foto de Raul Alexandre)
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Arte Africana (3) - O Beijo
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
domingo, 21 de dezembro de 2008
Grandes Quadros (Rembrandt)
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sábado, 20 de dezembro de 2008
Grandes Quadros (Rubens)
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Portugueses bem pagos e portugueses mal pagos... (ou: a direita e a esquerda)

"Toda a gente quer perceber porque é que a maioria dos portugueses é de esquerda.
Ou: porque é que, segundo as sondagens, a maioria dos portugueses está a "virar" à esquerda (…).
Ou: porque é que, segundo as sondagens, a maioria dos portugueses está a "virar" à esquerda (…).
Não há muito tempo, estudos de opinião situavam o português médio no centro-esquerda. Faziam um retrato conservador daquilo que somos em política: moderados, compromissórios, mas levemente inclinados para a esquerda pela importância que concedemos ao Estado em garantir esquemas vários de assistência social (…).
Se os portugueses que antes eram de centro-esquerda estão hoje ainda mais à esquerda, como explicar o fenómeno?
Verdade que a crise económica e o pessimismo que tomou conta do mundo ajudam a explicar o que se passa.
Verdade que a crise económica e o pessimismo que tomou conta do mundo ajudam a explicar o que se passa.
Quando se tem medo, ninguém pede por mais liberdade e independência, mas por mais segurança e protecção (…).
Mas eu acrescento, e já o escrevi uma vez, que se os portugueses tendem para a esquerda não é por causa de teorias.
Os portugueses são de esquerda porque, no essencial, são mal pagos.
E não são mal pagos no meio de outros igualmente mal pagos.
Os portugueses mal pagos trabalham todos os dias para os portugueses bem pagos.
Mesmo os muito mal pagos têm de "conviver" com os muito bem pagos.
E uns e outros apercebem-se da diferença (…)."
(Pedro Lomba – Diário de Notícias, Lisboa, 11 de Dezembro de 2008)
(Foto de J. Pedro Martins)
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
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