segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Arte Africana (4)

Mãe e Filho







Homem Africano







O Feiticeiro







Preocupação


(Artista: Maynard Maenzanise)

sábado, 27 de dezembro de 2008

Era uma Vez na América ... - Cartazes de Publicidade Antiga (3)

(01) - 1936 (Packard)







(02) - 1950 (Kohler of Kohler)







(03) - 1910







(04) - 1935







(05) - 1916







(06) - 1959 (Kohler of Kohler)







(07) - 1934







(08) - 1950 (Westinghouse)







(09) - 1950







(10) - 1959 (Edsel Corsair)







(11) - 1960







(12) - 1948







(13) - 1920







(14) - 1952







(15) - 1953







(16) - 1952

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Grandes Quadros (Breton)

A Vindima no Château Lagrange (1864)

Jules Breton (França, 1827-1906)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Cinco Coisas... (Pablo Neruda)

 
Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim.
A segunda é ver o Outono.
A terceira é o grave Inverno
Em quarto lugar o Verão.

A quinta coisa são teus olhos.
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da Primavera...
para que continues me olhando.


(Foto de Raul Alexandre)

Arte Africana (3) - O Beijo

 
(Artista: Tizirai Gumbere - Escultura shona)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

sábado, 20 de dezembro de 2008

Grandes Quadros (Rubens)

Marchesa Brigida Spinola Doria

(Rubens - 1606)

Portugueses bem pagos e portugueses mal pagos... (ou: a direita e a esquerda)


"Toda a gente quer perceber porque é que a maioria dos portugueses é de esquerda.
Ou: porque é que, segundo as sondagens, a maioria dos portugueses está a "virar" à esquerda (…).

Não há muito tempo, estudos de opinião situavam o português médio no centro-esquerda. Faziam um retrato conservador daquilo que somos em política: moderados, compromissórios, mas levemente inclinados para a esquerda pela importância que concedemos ao Estado em garantir esquemas vários de assistência social (…).

Se os portugueses que antes eram de centro-esquerda estão hoje ainda mais à esquerda, como explicar o fenómeno?
Verdade que a crise económica e o pessimismo que tomou conta do mundo ajudam a explicar o que se passa.
Quando se tem medo, ninguém pede por mais liberdade e independência, mas por mais segurança e protecção (…).

Mas eu acrescento, e já o escrevi uma vez, que se os portugueses tendem para a esquerda não é por causa de teorias.
Os portugueses são de esquerda porque, no essencial, são mal pagos.
E não são mal pagos no meio de outros igualmente mal pagos.

Os portugueses mal pagos trabalham todos os dias para os portugueses bem pagos.
Mesmo os muito mal pagos têm de "conviver" com os muito bem pagos.

E uns e outros apercebem-se da diferença (…)."

(Pedro Lomba – Diário de Notícias, Lisboa, 11 de Dezembro de 2008)

(Foto de J. Pedro Martins)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Arte Africana (2)

Chefe africano (shona)…






... e a sua mulher.


(Artista: Maynard Maenzanise)

sábado, 13 de dezembro de 2008

O Pesadelo Liberal

"Entregue a si mesmo, o homem é um animal perigoso (...)"
.
"(...) Sobre as ruínas da crença socialista, que produziu milhões de deserdados e de miseráveis, os liberais acharam que tinha soado a hora de uma vingança histórica.
O Estado mínimo, que Greenspan caucionou e Bush levou ao extremo do dogmatismo, descendo os impostos sobre os mais ricos, cortando nos programas de ajuda social e facilitando em tudo os negócios do grande capital, assentava numa outra pretensa verdade, de que Greenspan se fez eco: a de que o mercado saberia auto-regular-se, pois que era do seu próprio interesse, do das grandes empresas e do sistema financeiro, não criar as condições para a auto-implosão.

Mais uma vez, o que ficou esquecido neste "wishfull thinking" foi o factor humano. Se a ambição de ser mais rico é o que faz aumentar a riqueza das nações, a ambição da riqueza desmedida, sem horizonte nem controlo dos meios usados, é o que conduz ao seu colapso.
O que falhou, então, não foi apenas a crença na desregulamentação do mercado, na concentração cada vez maior das empresas, nos lucros pornográficos distribuídos entre accionistas e gestores.

O que falhou, antes de mais, foi a noção de ética nos negócios, a lembrança de que a criação de riqueza tem uma finalidade social, não podendo aproveitar apenas ao seu detentor, e que a riqueza fundada na miséria alheia (ou no endividamento de todos perante a banca) conduz, mais cedo ou mais tarde, à falência geral.

A loucura liberal montou um sistema económico à escala planetária fundado na iniquidade e na falta de escrúpulos e de sentido de serviço à comunidade.
Pior ainda, permitiu que o sistema financeiro se apoderasse da economia, que os lucros fantásticos acumulados não correspondessem a riqueza efectivamente criada e que a economia real e produtiva fosse canibalizada pela especulação.

Os mercados accionistas subiam e desciam, não em resultado do desempenho das empresas cotadas, mas das mais-valias realizadas pelos especuladores - que depois corriam a canalizar os seus lucros para os "off-shores", onde ficavam à espera, sem pagar impostos, de nova oportunidade de raide sobre o mercado.
As pequenas poupanças foram assim devoradas pela especulação instalada, levando muitos a investir antes no consumo ou a endividarem-se no imobiliário, por não encontrarem melhor destino para o dinheiro. (...)

(...) Entregue a si mesmo, aos seus instintos mais primários, o homem é um animal perigoso, quer ande pela rua a deambular de revólver na mão quer esteja sentado a uma secretária a gerir o destino de milhares de famílias.
E o pior "serial killer" é aquele a quem foi confiado o poder de destruir, por simples ambição, os empregos e as pensões de reforma de tantos outros que trabalharam toda uma vida, confiados na honestidade do sistema.

Não estamos apenas perante o falhanço de uma teoria económica, é mais do que isso: estamos perante um verdadeiro crime contra a Humanidade.
Milhões de pessoas em todo o mundo estão já a sofrer as consequências da falta de pudor e de escrúpulos de alguns milhares de agentes económicos colocados em lugares privilegiados. (...)

(...) O mundo pode começar a reencontrar o caminho da esperança, com a eleição de Obama como Presidente dos Estados Unidos.
Não, ele não tem uma varinha mágica nem vai conseguir, por melhor que tente, tirar a América e o mundo deste atoleiro tão cedo.
Mas representa outra gente, outra atitude, outra esperança.

Seguramente que acredita numa economia menos iníqua, menos desonesta e menos entregue à lei da selva.
E acredita na necessidade de uma América menos arrogante e menos egoísta.
Cravará os pregos que forem necessários no caixão do liberalismo e, se tiver a lucidez suficiente para tal, trará a América de volta ao lugar da esperança que já foi seu e que perdeu com estes oito anos de pesadelo que foram os de George W. Bush." (*)

(*) - Miguel Sousa Tavares - O Fim de um Mundo Falso - Jornal Expresso, Lisboa, 1 de Novembro de 2008.

(As marcações de texto, em itálico, são da responsabilidade da Torre).

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Arte Africana (1)

Homem Shona








Rapariga Shona

(Artista: Stephanie Brice)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O Vírus Liberal (Samir Amin)


Samir Amin, economista egípcio, escreveu em 2003 um interessante livrinho (*), de cuja introdução se retira o pedaço seguinte.
Amin projecta-se num futuro mais ou menos distante, reflectindo sobre ocorrências antigas (de finais do séc. XX - princípios do séc. XXI).
Não seria difícil discorrer assim após as recentes (e omnipresentes) convulsões de índole económico-financeira (essencialmente políticas, pois é disso que, nestes jogos extremos, em última análise se trata).
Notável terá sido fazê-lo há perto de seis anos, como fez o autor...

"Pelos finais do século XX, um mal atacou o mundo. Nem todos morreram dele, mas todos foram atingidos.
Ao vírus que esteve na origem da epidemia deu-se o nome de "vírus liberal". Este fizera a sua aparição por volta do século XVI no seio do triângulo Paris-Londres-Amesterdão.
Os sintomas com que se manifestava pareciam à época insignificantes, e os homens não só se acostumaram, desenvolvendo os anticorpos necessários, como ainda souberam tirar proveito do vigor reforçado que ele provocava.
Mas o vírus atravessou o Atlântico e encontrou na seita dos que o propagaram um terreno favorável, desprovido de anticorpos, o que conferiu formas extremas à doença que ele causava.

O vírus voltou a aparecer na Europa pelos finais do século XX, regressado da América, onde havia sofrido mutações, e, reforçado, conseguiu destruir grande número dos anticorpos que os europeus tinham desenvolvido ao longo dos três séculos precedentes.
Assim provocou uma epidemia que podia ter sido fatal para o género humano, não fora os mais robustos dos habitantes dos países antigos terem sobrevivido à epidemia, acabando por conseguir erradicar o mal.

O vírus provocava nas vítimas uma curiosa esquizofrenia.
O ser humano deixava de viver como um ser total, que se organizava para produzir o necessário à satisfação das suas necessidades (aquilo que os estudiosos qualificaram como 'vida económica') e que ao mesmo tempo desenvolvia instituições, regras e costumes que lhe permitiam progredir (o que os mesmos estudiosos designaram por 'vida política'), conscientes de que estes dois aspectos da vida social eram indissociáveis.

Doravante, passou a assumir-se ora como 'homo economicus', abandonando àquilo a que chamava 'o mercado' a tarefa de regular automaticamente a sua 'vida económica', ora como 'cidadão', depositando nas urnas os votos com que escolhia aqueles que tinham a responsabilidade de estabelecer as regras do jogo da sua 'vida política'.
As crises do final do século XX e do início do século XXI - de que felizmente já nos livrámos definitivamente - giravam todas em torno das confusões e dos impasses provocados por esta esquizofrenia.

A Razão - a verdadeira, não a americana - acabou por levar a melhor.
Todos os povos sobreviveram, os europeus, os asiáticos, os africanos, os americanos e até os texanos, que entretanto mudaram muito e se tornaram seres humanos semelhantes aos outros.

Optei por este final feliz, não por um incorrigível optimismo, mas porque na outra hipótese não haveria mais ninguém para escrever a história.
Fukuyama estaria certo: o liberalismo anunciava efectivamente o fim da história.
Portanto, toda a humanidade teria perecido no holocausto.
Os últimos sobreviventes, texanos, ter-se-iam organizado num bando errante, para depois serem imolados sob as ordens do chefe da sua seita, que julgavam ser uma personagem carismática.
Também se chamava Bush (...)".

Samir Amin, que nasceu no Cairo, Egipto, em 3 de Setembro de 1931, é um economista neo-marxista, um dos mais importantes da sua geração. Realizou os seus estudos (política, estatística, economia) em Paris. Reside, actualmente, em Dakar (Senegal).

Entre 1957 e 1960 trabalhou na administração pública egípcia, na área do desenvolvimento económico.
Foi conselheiro do governo do Mali entre 1960 e 1963.
Em 1970 tornou-se director do Instituto Africano de Desenvolvimento Económico e Planeamento, com sede em Dakar.

É presentemente director do Forum do Terceiro Mundo, uma associação internacional formada por intelectuais da África, Ásia e América Latina, destinada a fortalecer os laços entre os países do Terceiro Mundo (também com sede em Dakar).

(*) - Le Virus Libéral, Temps des Cerises, 2003.
Editado em Portugal pela Campo das Letras, Porto, 2005, com o título: O Vírus Liberal - A Guerra Permanente e a Americanização do Mundo (96 págs.)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Como devem ser os Conselheiros do Rei de Portugal (Ordenações Afonsinas - século XV)

 
(...) Disseram os Sabedores antigos,
que os Conselheiros do Rei
hão-de ter muitas virtudes
e bons costumes.


Convém que tenham boa capacidade
e ligeiro entendimento,
para entenderem tudo
o que no Conselho se disser.


Que considerem e entendam
o mal e a gravidade
que do seu conselho se pode seguir:
e hão-de ser corteses,
e bem falantes,
e doces de suas palavras,
por tal maneira
que a língua corresponda ao coração
e ao pensamento.


Que sejam subtis e penetrativos
em toda a moralidade e ciência,
assim Cível, como Canónica,
e em Aritmética,
que é arte verdadeira e demonstrativa,
pela qual se conhecem muitas coisas.


E hão-de ser
verdadeiros em suas palavras,
e amar a verdade,
e arredar-se da falsidade.


Hão-de ser
de grande coração em seu propósito,
e amadores da honra do Rei:
e que o ouro,
e a prata,
e todas as outras coisas semelhantes deste mundo,
sejam desprezáveis para eles,
e que os seus propósitos
e intenções
não estejam senão naquelas coisas
que convêm à sua dignidade
e ao regimento para que foram eleitos.


Não hão-de ser verbosos,
nem de muita palavra,
nem muito rideiros,
porque a temperança é virtude,
e muito apraz em todas as coisas;


E devem tratar benignamente
tudo o que tiverem de fazer,
com resguardo do serviço do Rei,
com honesto sossego e temperamento,
para que pareça a todos os que os virem
que eles têm cuidado
e sentimento de bem fazerem,
tanto nos feitos do Rei
como da República.

Dos Conselheiros de Elrey - Extracto das Ordenações Afonsinas - ou Ordenaçoens do Senhor Rey D. Affonso V, 1.º, título LIX, Coimbra, 1792.
O português foi actualizado na Torre.

As Ordenações Afonsinas (compilação das leis do Reino, até então dispersas) resultaram de um trabalho cometido, ainda no tempo de D. Duarte, ao Doutor Rui Fernandes, que pertencia ao Conselho do Rei. Falecendo aquele monarca precocemente, Rui Fernandes terminou o trabalho já no período da regência do infante D. Pedro, em Julho de 1446 (na menoridade de D. Afonso V).
O infante determinou então que as Ordenações passassem por uma revisão final, o que ocorreu sob a responsabilidade do próprio Fernandes e, ainda, de Lopo Vasques, Luiz Martins e Fernão Rodrigues.
É provável que a versão final da obra tenha sido concluída no segundo semestre de 1446 ou no primeiro de 1447.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Angola - Curas Milagrosas...

... garantidas pelo Dr. João Diassonama, que exerce (ou exercia) para os lados do Bairro da Petrangol, em Luanda.
Seria decerto também um sucesso em Portugal, onde não haverá especialistas que cheguem para enfrentar males tão graves como a maluquisse, a doença misteriosa e a doença de barata.
Para já não falar da tremenda doença de queimadura da noite e da impertinência dos fenómenos estranhos...
Angola inimitável e eterna!

(Imagem devida a Angola em Fotos)

Máscaras Africanas (4)

.
Pais de origem: Ghana

Artista: Madam Adwoa

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Mãe de Angola


(Retirado de Bimbe, um excelente blogue que a Torre recomenda a todos os que amam ou se interessam por Angola. A foto é de Luís Araújo Pinheiro).

domingo, 30 de novembro de 2008

A Inquisição em Portugal (Por Oliveira Martins) (2)



(Continuação do post de 27-Set-2008)

" (...) Cordões de tropa impediam que o povo invadisse, na praça, o recinto reservado ao Auto.
Havia ali, para um lado, afastadas, as pilhas de madeira, rectangulares, com o poste erguido ao centro e um banco; e no meio da praça um espaço reservado com o estrado e as tribunas.
Na da esquerda estava o rei, D. João III, piedosamente satisfeito na sua fé, com o espírito duro, mas sincero e forte; estavam a rainha e a corte; e, ao lado do monarca, o condestável com o estoque desembainhado.
Na outra, da direita, levantavam-se o trono e dossel do cardeal D. Henrique, depois rei, e agora infante inquisidor-mor, ladeado pelos membros do tribunal sagrado, nos seus bancos.
A meio do tablado ficava o altar, com frontal preto, banqueta de seda amarela, e um crucifixo ao centro. Em frente, num plinto, erguia-se o estandarte da Inquisição. (...)
E os padecentes, em linhas, ficavam de pé, voltados para o altar, para o púlpito, para o tribunal.

 
Disse-se missa. O inquisidor-mor, de capa e mitra, apresentou ao rei os Evangelhos, para sobre eles jurar e defender a fé. D. João III e todos, de pé e descobertos, juraram com solenidade sincera. Depois houve sermão; e finalmente a leitura das sentenças, começando pelos crimes menores.
A adoração das imagens, questão debatida nos concílios, dava lugar a muitas faltas.
Outros iam ali por terem recusado beijar os santos dos mealheiros, com que os irmãos andavam pelas ruas pedindo esmola.
Outros por irreverências, outros por falta de cumprimento dos preceitos canónicos; muitos por coisa nenhuma; a máxima parte, vítimas de delações pérfidas ou interessadas.
Os relatores iam lendo as sentenças, os condenados gemendo, uns, e chorando; outros exultando por se verem soltos do cárcere, livres da tortura, prometendo de si para consigo serem de futuro meticulosamente hipócritas.

Chegou-se finalmente aos condenados à morte, no fogo: eram três mulheres por bruxas, e dois homens, cristãos-novos, por judaizarem, mais um por feiticeiro.
O relator, imperturbável, leu as sentenças, onde se narravam os crimes.
Os cristãos-novos comiam pães ázimos; e um deles, quando varria a casa, chamava nomes a um crucifixo, fazia-lhe caretas, e dava-lhe tantas unhadas quantos eram os golpes de vassoura no chão.
Estes crimes vinham envolvidos em frases horrorosas e generalidades tremendas; e a corte, o clero e o povo, ao ouvirem tão grandes sacrilégios, pasmavam de ódio contra os desgraçados.


 
A feitiçaria não os impressionava menos.
Cristãos-novos e bruxos, que lançavam malefícios e olhados, eram a causa das pestes, das fomes e dos naufrágios das naus da Índia.
Sobre as cabeças dos desgraçados caíam as maldições de uma população aflita. Ninguém duvidava da verdade dos crimes, que muitas testemunhas afiançavam.
O diabo aparecera a um, e ensinara-lhe as curas infernais, pelo livro de S. Cipriano. Sangrava os doentes na testa, com alfinetes. "Estou picado e enfeitiçado: Jesus! nome de Jesus! despicai-me e desenfeitiçai-me!" - dissera uma vítima a um padre da Beira.
Os diabos, para se vingarem, foram a casa do padre e quebraram-lhe toda a louça.
Um caso terrível era esse; e o povo olhava com horror para o médico de S. Cipriano, que tinha a loucura evidente na face.

 
Às bruxas o diabo aparecia de dia sob a forma de um gato preto, e, de noite, de forma humana de homem pequeno; assim o dizia gravemente a sentença, com o depoimento das testemunhas.
A bruxa saía com o demónio e iam juntos a um rio, onde as outras estavam com outros demónios; e depois de se banharem tinham coito com circunstâncias lascivas e abomináveis; a sentença enumerava-as e a devassidão da corte e do povo percebia-as, comentava-as.
De volta ao sabbath, de madrugada, as bruxas entravam invisivelmente nas casas, perseguindo as famílias honestas e piedosas.


Terminada a leitura, absolvidos os penitentes, os cristãos-novos e as bruxas foram relaxados ao braço secular para serem queimados.
O rei, a corte e o inquisidor retiraram-se; e os sinos continuavam a dobrar, pausada e funebremente.
Os carvoeiros de alabardas, os verdugos de capuzes, e os frades de escapulário e crucifixo na mão, ficaram junto dos condenados para os queimar.
O povo cercou em massa o lugar das pilhas quadrangulares de lenha, com os olhos ávidos e a cabeça cheia de cóleras contra esses réus das suas desgraças.
Todos, menos o bruxo, morreram piedosamente, garrotados, depois queimados.

O médico de S. Cipriano, porém, tinha culpas maiores e fora condenado a ser queimado vivo.
Junto da pilha, o frade, com as mãos postas, pedia-lhe que, por Deus, se arrependesse; mas ele, com o olhar esgazeado do louco, virava a cara e zombava.
Largando a correr pela escada, subia à pilha, e, do alto, sentado no banco, fazia esgares e visagens irreverentes.
O frade batia nos peitos, a plebe rugia colérica.
Os verdugos amarraram-no ao poste e os carvoeiros acenderam a fogueira, que principiou a crepitar.
Os rapazes e as mulheres da Ribeira, salteando-o com paus e garrunchos, arrancaram-lhe um olho. Atiravam-lhe pedras, pregos, e tudo; e faziam-lhe feridas por onde escorria sangue: tinha a cabeça aberta e um beiço rasgado.

Entretanto, a chama começava a romper por entre os toros; e ele com as mãos, estorcendo-se, dava no fogo, querendo apagá-lo; e quando via, com o olho que lhe restava, vir no ar uma pedra, fazia rodela ou escudo com a samarra, para se livrar. Do vão do outro olho escorria pela face um fio de sangue.

Isto já durava por mais de uma hora e divertia muito o povo - agora que tinha a certeza de ver morrer o seu inimigo.
Mas o vento, que soprava rijo do poente, da banda do rio, arrastava consigo as chamas; e por não ter fumos que o afogassem, o condenado ficou três horas vivo, a torrar, agonizando, contorcendo-se, em visagens, e gritando - ai!... ai!... ai!...".

(Oliveira Martins - História de Portugal - 1.ª ed. - 1879)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Álbuns Especiais do "Cavaleiro Andante" (1)


Álbum Especial do Cavaleiro Andante, banda desenhada publicada em Junho de 1955 pela Empresa Nacional de Publicidade (Lisboa - Portugal).
Preço: 6 escudos (cerca de 3 cêntimos de euro, em termos actuais).
Continha, entre outras matérias, uma excelente versão de "A Pradaria", história criada em 1827 por J. Fenimore Cooper.
Cooper, autor do divulgadíssimo O Último dos Mohicanos (1826), foi um famoso escritor norte-americano (n. em 1789 - f. em 1851).
Pode ver em baixo a estátua que o homenageia, erigida em Cooperstown, New York.

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