(Artista: Richard Mteki)
Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
sábado, 9 de maio de 2009
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Aberturas de Grandes Livros - "Gabriela, Cravo e Canela" (Jorge Amado - Brasil)

“Naquele ano de 1925, quando floresceu o idílio da mulata Gabriela e do árabe Nacib, a estação das chuvas tanto se prolongara além do normal e necessário que os fazendeiros, como um bando assustado, cruzavam-se nas ruas a perguntar uns aos outros, o medo nos olhos e na voz:
- Será que não vai parar?
Referiam-se às chuvas, nunca se vira tanta água descendo dos céus, dia e noite, quase sem intervalos.
- Mais uma semana e estará tudo em perigo.
- A safra inteira…
- Meu Deus!
Falavam da safra anunciando-se excepcional, a superar de longe todas as anteriores.
Com os preços do cacau em constante alta, significava ainda maior riqueza, prosperidade, fartura, dinheiro a rodo. Os filhos dos coronéis indo cursar os colégios mais caros das grandes cidades, novas residências para as famílias nas novas ruas recém-abertas, móveis de luxo mandados vir do Rio, pianos de cauda para compor as salas, as lojas sortidas, multiplicando-se, o comércio crescendo, bebida correndo nos cabarés, mulheres desembarcando dos navios, o jogo campeando nos bares e nos hotéis, o progresso enfim, a tão falada civilização.
E dizer-se que essas chuvas agora demasiado copiosas, ameaçadoras, diluviais, tinham demorado a chegar, tinham-se feito esperar e rogar! Meses antes, os coronéis levantavam os olhos para o céu límpido em busca de nuvens, de sinais de chuva próxima. Cresciam as roças de cacau, estendendo-se por todo o sul da Baía, esperavam as chuvas indispensáveis ao desenvolvimento dos frutos acabados de nascer, substituindo as flores nos cacauais. A procissão de São Jorge, naquele ano, tomara o aspecto de uma ansiosa promessa colectiva ao santo padroeiro da cidade.
O seu rico andor, bordado de ouro, levavam-no sobre os ombros orgulhosos os cidadãos mais notáveis, os maiores fazendeiros, vestidos com a bata vermelha da confraria, e não é pouco dizer, pois os coronéis do cacau não primavam pela religiosidade, não frequentavam igrejas, rebeldes à missa e à confissão, deixando essas fraquezas para as fêmeas da família:
- Isso de Igreja é coisa para mulheres. (…)" (*)
(*) - Gabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado (1912-2001) - Editado por Publicações Europa-América, Lisboa, Portugal, 1971.
Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota --- L. 20744 V. )
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domingo, 3 de maio de 2009
Os Novos Pobres...
Prémios
"A alta-roda da finança anda num virote.
Tudo começou quando os responsáveis da AIG se decidiram presentear com um bónus de 165 milhões de dólares, seguramente pela excelência da sua prestação.
Para quem não saiba, a AIG é a maior seguradora mundial e teve que ser salva com 85 mil milhões de dólares dos contribuintes, que detêm actualmente 85 por cento da firma.
Para quem não saiba, a AIG é a maior seguradora mundial e teve que ser salva com 85 mil milhões de dólares dos contribuintes, que detêm actualmente 85 por cento da firma.
Numa palavra, a AIG foi nacionalizada.
E Barack Obama foi aos arames com a insensatez do bónus.
Daqui nasceu a ideia de sobretaxar a 90 por cento a parte variável dos vencimentos dos executivos de firmas intervencionadas.
O que é óbvio para o cidadão comum, desencadeou a ira dos banqueiros.
Sentem-se injustiçados, coitados.
Eis o seu argumentário em seis pontos:
1. A nova taxa seria «uma condenação sem processo» com «efeitos retroactivos».
Aqueles senhores, que não se fizeram rogados quando precisaram do Estado, acham, de facto, que nada mudou.
Em consequência, socorrem-se da Constituição dos EUA para declararem a nulidade da medida.
2. O legislador «pune indiferentemente» beneficiários de ajudas públicas: os que se portam bem e os que «merecem a cólera do Governo».
Reparem: o ‘sindicato’ dos executivos acha que o condicionamento dos vencimentos é uma ‘punição’.
Olha se os trabalhadores normais se põem a pensar da mesma forma...
3. O esquema seria ainda «contraproducente» porque leva «os administradores a quererem reembolsar o Estado quanto antes», quando deviam procurar a consolidação das firmas.
Este argumento é muito curioso porque nos mostra como funciona a natureza humana lá em cima.
Só pensa nela própria...
4. O legislador «sapa os esforços do Estado e do Tesouro» porque torna mais difícil ainda «o recrutamento de talentos».
Ou seja, se não se pode enriquecer sem limites, então de que vale o esforço?
5. Por outro lado, a medida «semeia dúvidas no mundo dos negócios quanto à honestidade do Estado».
Esta é muito boa e merece desenvolvimento:
como «são os contribuintes que financiam» os programas de saneamento, é legítima a suspeita de que só o fazem «para submeter tais programas a uma vigilância acrescida».
De facto, assim é. Quem adquire títulos, sente-se accionista e pede contas. Mas os administradores, tão humanos como nós, não gostam de ser vigiados.
Já tínhamos percebido...
6. Finalmente, a medida seria «contrária aos interesses americanos» porque não toca nos banqueiros estrangeiros ou no estrangeiro.
Assim, a concorrência pode «contratar os melhores elementos da profissão com aliciantes remunerações» e, em consequência, «os bancos americanos ficarão ainda mais mal armados para reembolsarem o Estado».
O texto da agência económica e financeira que estou a citar, qual ‘sindicato de patrões’, conclui com uma ameaça velada: «A cruzada contra os prémios pode custar cara aos contribuintes».
São tão finos, não são?" (*)
(*) - Miguel Portas ("Sol de Esquerda")
(Negritos e grafismo da responsabilidade da Torre)
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sábado, 2 de maio de 2009
Trem de Ferro (Manuel Bandeira - Brasil)
.
Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virge Maria
que foi isto
maquinista?
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa,
fumaça
Corre,
cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
de ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô...
Vou mimbora
vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...
Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
[Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)]
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quarta-feira, 29 de abril de 2009
terça-feira, 28 de abril de 2009
Grandes Quadros - Rubens (Holanda)
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domingo, 26 de abril de 2009
Os Primeiros Americanos (2)
"Onde estão hoje os pequot? Onde estão os narragansett, os moicanos, os pokanoket e muitas outras tribos outrora poderosas do nosso povo?"
"Meus amigos, estamos neste território há muitos anos. Nunca fomos ao território do Pai Grande incomodá-lo. Foi o seu povo que veio ao nosso território incomodar-nos, fazer muitas coisas más e ensinar o nosso povo a ser mau..."
"Há dois anos atrás vim para esta estrada, seguindo o búfalo, para que as minhas mulheres e os meus filhos pudessem ficar com as faces cheias e os corpos aquecidos."
"Mas os soldados dispararam contra nós e, desde então, houve um barulho como o de uma tempestade e ficámos sem saber que caminho tomar."
"Mas há coisas que vocês me disseram e de que eu não gosto. Não são doces como açúcar, mas amargas como cabaças."
"Disseram que desejavam colocar-nos numa reserva, construir-nos casas e fazer-nos tendas para curar. Não quero nada disso."
"A nossa vontade era viver aqui, na nossa terra, pacificamente, e fazer o possível pelo bem-estar e prosperidade do nosso povo. Mas o Pai Grande encheu-a de soldados que só pensavam na nossa morte."
"Esta guerra não nasceu aqui, na nossa terra. Esta guerra foi trazida até nós pelos filhos do Pai Grande, que vieram tomar a nossa terra sem perguntarem o preço, e que, aqui, fizeram muitas coisas más. O Pai Grande e os seus filhos culpam-nos por estes problemas..."
"Será que o homem branco se tornou uma criança, que mata sem se importar, e não come o que matou? Quando os homens vermelhos matam a caça, é para que possam viver, e não morrer de fome."
"O meu povo nunca usou um arco ou disparou uma arma de fogo contra os brancos. Houve problemas na fronteira entre nós, e os meus jovens dançaram a dança da guerra. Mas não fomos nós que começámos."
"Mas, desde que eles vieram e acabaram com as nossas tendas, cavalos e tudo o mais, é difícil para mim acreditar ainda neles".
"Esses soldados cortam a minha madeira, matam o meu búfalo e, quando vejo isso, o meu coração parece partir-se. Fico triste..."
"Gosto de vaguear pelas pradarias. Nelas sinto-me livre e feliz".
Recorde aqui um tema musical famoso:
(Fotos de Curtis, obtidas nos inícios do século XX).
(Citações do livro "Enterrem meu Coração na Curva do Rio", de Dee Alexander Brown - Centro do Livro Brasileiro - Edições Melhoramentos - Brasil - 1973).
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quinta-feira, 23 de abril de 2009
terça-feira, 21 de abril de 2009
Aberturas de Grandes Livros - "O Conde de Monte-Cristo" (Alexandre Dumas - França)
“A 24 de Fevereiro de 1815, a sentinela de Notre Dame de la Garde anunciou a chegada do Faraó, navio de três mastros, proveniente de Esmirna, Trieste e Nápoles.
Como sempre, um barco de pilotos da barra partiu imediatamente do porto, passou rente ao castelo de If e foi acostar ao navio entre o cabo de Morgion e a ilha de Rion.
Imediatamente, e como também era habitual, a plataforma do forte de Saint-Jean enchera-se de curiosos, porque a chegada de um navio a Marselha era sempre um grande acontecimento, sobretudo tratando-se de um barco como o Faraó, que tinha sido construído, aparelhado e estivado nos estaleiros da velha Foceia e pertencia a um armador da cidade.
Enquanto isso, o navio ia avançando; tinha ultrapassado sem dificuldades o estreito que uma qualquer movimentação telúrica escavou entre a ilha de Calasareigne e a ilha de Jaros; tinha dobrado Pomègue e ia avançando, sob as suas três gáveas, a sua bujarrona e a sua brigantina, tão lentamente e numa marcha tão triste que os curiosos, com esse instinto que pressente desgraça, se perguntavam que acidente poderia ter ocorrido a bordo.
Não obstante, os peritos em navegação reconheciam que, caso se tivesse verificado um acidente, não poderia ter sido no próprio navio, pois ele continuava a avançar obedecendo perfeitamente ao leme. A âncora foi lançada, desprenderam-se os patarrases do gurupés e, ao lado do piloto de costa, que se preparava para conduzir o Faraó pela estreita entrada do porto de Marselha, um jovem de gestos rápidos e perspicaz vigiava cada movimento do navio e repetia as ordens do piloto.
A vaga de ansiedade que pairava sobre a multidão tinha atingido particularmente um dos espectadores da esplanada de Saint-Jean, a ponto de não poder esperar pela entrada do navio no porto; saltou para uma pequena barca e ordenou que remassem na direcção do Faraó, alcançando-o defronte da enseada da Reserve.
Ao ver chegar aquele homem, o jovem marinheiro deixou o seu posto junto do piloto e veio, de chapéu na mão, apoiar-se na amurada do navio.
Era um rapaz de dezoito ou vinte anos, alto, esbelto, de belos olhos negros e cabelos de ébano; todo ele transparecia o ar calmo e resoluto característico dos homens habituados, desde a infância, a lutar com o perigo.
- Ah! Cá o temos, Dantès! – gritou o homem da barca. – Que aconteceu e porquê este ar de tristeza que envolve todo o barco?
- Uma grande desgraça, senhor Morrel! – respondeu o rapaz. – Uma grande desgraça, principalmente para mim: perdemos o nosso bravo comandante Leclère perto de Civita-Vechia. (…)”
A vaga de ansiedade que pairava sobre a multidão tinha atingido particularmente um dos espectadores da esplanada de Saint-Jean, a ponto de não poder esperar pela entrada do navio no porto; saltou para uma pequena barca e ordenou que remassem na direcção do Faraó, alcançando-o defronte da enseada da Reserve.
Ao ver chegar aquele homem, o jovem marinheiro deixou o seu posto junto do piloto e veio, de chapéu na mão, apoiar-se na amurada do navio.
Era um rapaz de dezoito ou vinte anos, alto, esbelto, de belos olhos negros e cabelos de ébano; todo ele transparecia o ar calmo e resoluto característico dos homens habituados, desde a infância, a lutar com o perigo.
- Ah! Cá o temos, Dantès! – gritou o homem da barca. – Que aconteceu e porquê este ar de tristeza que envolve todo o barco?
- Uma grande desgraça, senhor Morrel! – respondeu o rapaz. – Uma grande desgraça, principalmente para mim: perdemos o nosso bravo comandante Leclère perto de Civita-Vechia. (…)”
O Conde de Monte-Cristo - Alexandre Dumas (1802-1870) - Editado por Círculo de Leitores (3 vols.) - Lisboa - Portugal - 1981.
Actualmente publicado por Europa-América, Lisboa (€ 36,50).
Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota -- L. 73837 V. )
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sábado, 18 de abril de 2009
Crise, Tempo de Grandes Decisões (Manuel Alegre)

1. O capitalismo globalizado esvaziou o papel dos mecanismos reguladores da tensão entre o mercado e o Estado.
O cerco neo-conservador impôs o pensamento único por toda a parte: diminuição do papel do Estado, esvaziamento dos serviços públicos, precariedade, guerra aos sindicatos.
Na Europa, o desequilíbrio entre uma política monetária restritiva e políticas sociais vagas impediu a emergência de alternativas.
Em Portugal, devido às fragilidades estruturais, o Estado tornou-se cada vez mais refém de interesses privados ilegítimos.
Agora até os defensores do Estado mínimo, ideologicamente derrotados, pedem uma maior intervenção do Estado.
Mas para quê?
Suspeita-se que para socializar as perdas e privatizar os ganhos.
É um caminho ética e politicamente inaceitável.
Quando cresce o número dos desempregados e desfavorecidos, não é possível um país pobre injectar milhares de milhões na banca.
Sobretudo quando é preciso dinheiro para garantir a sustentabilidade das políticas públicas na educação, na saúde, na segurança social, na justiça.
2. O agravamento da crise vem pôr em causa os objectivos que até aqui tinham norteado a política do governo.
O défice orçamental vai de novo ultrapassar o limite dos 3%.
A dívida pública vai atingir valores nunca antes atingidos.
O desemprego, as desigualdades, a pobreza a injustiça social vão agravar-se.
3. Precisamos de ter a coragem de mudar.
Coragem para mudar a sociedade e a vida.
Coragem para se saber de que lado se está do ponto de vista das lutas sociais.
Coragem para dialogar onde até agora se monologava.
Coragem para corrigir políticas e comportamentos que contradizem o que foi prometido.
Coragem para procurar soluções políticas novas, sob pena de as mesmas causas continuarem a produzir os mesmos efeitos.
4. A reorientação política da acção governativa tem de se tornar visível em áreas decisivas para a qualidade de vida das pessoas e para a qualidade da própria democracia.
Somos na União Europeia o país com maior desigualdade na distribuição da riqueza.
Quando 52% das famílias pobres em Portugal têm como rendimentos principais os rendimentos do trabalho e cerca de 40% trabalham por conta de outrem, a “culpa” não é dos pobres.
A persistência da pobreza nestas condições não é apenas uma questão social, é estrutural e é de modelo económico. (...)
(...) 6. Há que tirar partido dos nossos pontos fortes - a língua, a cultura e a história - em virtude dos quais a capacidade de influência de Portugal vai muito para além do seu peso demográfico e económico.
Não é aceitável que em 2009, quando o Orçamento de Estado consagra, através do PIDDAC, mais de 4 mil milhões de euros aos investimentos da Administração Central, a promoção e defesa da língua portuguesa no mundo receba apenas um milhão de euros. (...)
(...) 8. O “pensamento único” conduziu ao endeusamento do mercado e à diabolização do Estado, mesmo quando os níveis de satisfação desceram, o desemprego aumentou e os custos dispararam.
À sombra das parcerias público-privadas floresceram grandes negócios privados e desvirtuaram-se regras de transparência obrigatórias no serviço público.
Casos de promiscuidade impune entre negócios privados e cargos políticos contribuem para agravar a descrença.
A submissão dos serviços públicos às regras da concorrência priva o Estado de intervir em áreas essenciais para a satisfação das necessidades básicas dos cidadãos e distorce a avaliação dos serviços prestados.
Os serviços públicos não podem ser tratados como se fossem uma qualquer mercadoria.
A perda de milhares de empregos no sector público não é condição de progresso.
E o encerramento de serviços públicos no interior do país contribui, às vezes de forma dramática, para a desertificação do território.
9. A defesa da transparência e dos serviços públicos passa pelas seguintes mudanças:
O artigo 86.º do Tratado Europeu, segundo o qual as empresas que prestam serviços de interesse económico geral estão sujeitas às regras da concorrência, deve ser contestado.
O Estado não deve continuar a entregar sistematicamente ao privado sectores económicos rentáveis, nomeadamente na área da energia.
É preciso reforçar os poderes reguladores e interventores do Estado e garantir que eles são exercidos com independência e em prol do interesse público.
O direito à água é hoje reconhecido como um direito humano; a exploração dos recursos hídricos nacionais tem que incorporar esse direito.
A escola pública, o serviço nacional de saúde e a segurança social pública são garantia de direitos fundamentais dos cidadãos e como tal devem ser defendidos e reforçados na prática.
Há que definir políticas públicas para as cidades e zonas urbanas, que incluam o transporte, a habitação, o património, a cultura, o ambiente, o espaço público e a participação cívica.
A especulação imobiliária em Portugal permite a acumulação de mais-valias milionárias a partir de decisões administrativas das autarquias ou da administração pública.
Há que impor regras novas, limitando a privatização de mais-valias urbanísticas, à semelhança do que ocorre na generalidade dos países da OCDE.
O combate à corrupção e à promiscuidade entre partidos políticos, autarquias, Estado e mundo empresarial é um dos pilares da reforma da política.
Exige regras legais claras, meios de fiscalização eficazes e efectiva sanção penal de quem pratica tais actos.
A melhor forma de combater a corrupção é promover a transparência das decisões dos poderes públicos, o escrutínio da utilização dos dinheiros públicos e o reforço da capacidade de fiscalização, controle e participação cívica dos cidadãos." (*)
(*) - Extraído de: Manuel Alegre - Revista OPS! - n.º 3 - Março 2009 - Lisboa - Portugal
(Negritos e grafismo da responsabilidade da Torre)
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quarta-feira, 15 de abril de 2009
terça-feira, 14 de abril de 2009
domingo, 12 de abril de 2009
Grande Cronista do Brasil - Stanislaw Ponte Preta (2)
A Casa Demolida
"Seriam ao todo umas trinta fotografias.
Já nem me lembrava mais delas, e talvez que ficassem para sempre ali, perdidas entre papéis inúteis que sabe lá Deus por que guardamos.
Encontrá-las foi, sem dúvida, pior e, se algum dia imaginasse que havia de passar pelo momento que passei, não teria batido fotografia nenhuma.
Na hora, porém, achara uma boa idéia tirar os retratos, única maneira — pensei — de conservar na lembrança os cantos queridos daquela casa onde nasci e vivi os primeiros vinte e quatro felizes anos de minha vida.Como se precisássemos de máquina fotográfica para guardar na memória as coisas que nos são caras!
Foi nas vésperas de sair, antes de retirarem os móveis, que me entregara à tarefa de fotografar tudo aquilo, tal como era até então. Gastei alguns filmes, que, mais tarde revelados, ficaram esquecidos, durante anos, na gaveta cheia de papéis, cartas, recibos e outras inutilidades.
Esta era a escada, que rangia no quinto degrau, e que era preciso pular para não acordar Mamãe. Precaução, aliás, de pouca valia, porque ela não dormia mesmo, enquanto o último dos filhos a chegar não pulasse o quinto degrau e não se recolhesse, convencido que chegava sem fazer barulho.
A idéia de fotografar este canto do jardim deveu-se — é claro — ao banco de madeira, cúmplice de tantos colóquios amorosos, geralmente inocentes, que eram inocentes as meninas daquele tempo.
Ao fundo, quase encostado ao muro do vizinho, a acácia que floria todos os anos e que a moça pedante que estudava botânica um dia chamou de "linda árvore leguminosa ornamental".
As flores, quando vinham, eram tantas, que não havia motivo de ciúmes, quando alguns galhos amarelos pendiam para o outro lado do muro. Mesmo assim, ao ler pela primeira vez o soneto de Raul de Leoni, lembrei-me da acácia e lamentei o fato de ela também ser ingrata e ir florir na vizinhança.
Isto aqui era a sala de jantar.
A mesa grande, antiga, ficava bem ao centro, rodeada por seis cadeiras, havendo ainda mais duas sobressalentes, ao lado de cada janela, para o caso de aparecerem visitas.
Quando vinham os primos recorria-se à cozinha, suas cadeiras toscas, seus bancos... tantos eram os primos!Nas paredes, além dos pratos chineses — orgulho do velho — a indefectível "Ceia do Senhor", em reprodução pequena e discreta, e um quadro de autor desconhecido. Tão desconhecido que sua obra desde o dia da mudança está enrolada num lençol velho, guardada num armário, túmulo do pintor desconhecido.
Além das três fotografias — da escada, do jardim e da sala de jantar — existem ainda uma de cada quarto, duas da cozinha, outra do escritório de Papai. O resto é tudo do quintal.
São quinze ao todo e, embora pareçam muitas, não chegam a cumprir sua missão, que, afinal, era retratar os lugares gratos à recordação.
O quintal era grande, muito grande, e maior que ele os momentos vividos ali pelo menino que hoje olha estas fotos emocionado.
Cada recanto lembrava um brinquedo, um episódio. Ah Poeta, perdoe o plágio, mas resistir quem há-de? Gemia em cada canto uma tristeza, chorava em cada canto uma saudade.
Agora, se ainda morasse na casa, talvez que tudo estivesse modificado na aparência, não mais que na aparência, porque, na lembrança do menino, ficou o quintal daquele tempo.
Rasgo as fotografias.
De que vale sofrer por um passado que demoliram com a casa?
Pedra por pedra, tijolo por tijolo, telha por telha, tudo se desmanchou.
A saudade é inquebrantável, mas as fotografias eu também posso desmanchar.
Vou atirando os pedacinhos pela janela, como se lá na rua houvesse uma parada, mas onde apenas há o desfile da minha saudade.
E os papeizinhos vão saindo a voejar pela janela deste apartamento de quinto andar, num prédio construído onde um dia foi a casa.
Olha, Manuel Bandeira:
a casa demoliram,
mas o menino ainda existe."
Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) - Texto extraído do livro "A casa demolida", pág. 9, Editora do Autor — Rio de Janeiro - Brasil - 1963.
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Stanislaw Ponte Preta
sexta-feira, 10 de abril de 2009
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