(Artista: Stephanie Brice)
Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
O Vírus Liberal (Samir Amin)

Samir Amin, economista egípcio, escreveu em 2003 um interessante livrinho (*), de cuja introdução se retira o pedaço seguinte.
Amin projecta-se num futuro mais ou menos distante, reflectindo sobre ocorrências antigas (de finais do séc. XX - princípios do séc. XXI).
Não seria difícil discorrer assim após as recentes (e omnipresentes) convulsões de índole económico-financeira (essencialmente políticas, pois é disso que, nestes jogos extremos, em última análise se trata).
Notável terá sido fazê-lo há perto de seis anos, como fez o autor...
"Pelos finais do século XX, um mal atacou o mundo. Nem todos morreram dele, mas todos foram atingidos.
Ao vírus que esteve na origem da epidemia deu-se o nome de "vírus liberal". Este fizera a sua aparição por volta do século XVI no seio do triângulo Paris-Londres-Amesterdão.
Os sintomas com que se manifestava pareciam à época insignificantes, e os homens não só se acostumaram, desenvolvendo os anticorpos necessários, como ainda souberam tirar proveito do vigor reforçado que ele provocava.
Mas o vírus atravessou o Atlântico e encontrou na seita dos que o propagaram um terreno favorável, desprovido de anticorpos, o que conferiu formas extremas à doença que ele causava.
O vírus voltou a aparecer na Europa pelos finais do século XX, regressado da América, onde havia sofrido mutações, e, reforçado, conseguiu destruir grande número dos anticorpos que os europeus tinham desenvolvido ao longo dos três séculos precedentes.
Assim provocou uma epidemia que podia ter sido fatal para o género humano, não fora os mais robustos dos habitantes dos países antigos terem sobrevivido à epidemia, acabando por conseguir erradicar o mal.
O vírus provocava nas vítimas uma curiosa esquizofrenia.
O ser humano deixava de viver como um ser total, que se organizava para produzir o necessário à satisfação das suas necessidades (aquilo que os estudiosos qualificaram como 'vida económica') e que ao mesmo tempo desenvolvia instituições, regras e costumes que lhe permitiam progredir (o que os mesmos estudiosos designaram por 'vida política'), conscientes de que estes dois aspectos da vida social eram indissociáveis.
Doravante, passou a assumir-se ora como 'homo economicus', abandonando àquilo a que chamava 'o mercado' a tarefa de regular automaticamente a sua 'vida económica', ora como 'cidadão', depositando nas urnas os votos com que escolhia aqueles que tinham a responsabilidade de estabelecer as regras do jogo da sua 'vida política'.
As crises do final do século XX e do início do século XXI - de que felizmente já nos livrámos definitivamente - giravam todas em torno das confusões e dos impasses provocados por esta esquizofrenia.
A Razão - a verdadeira, não a americana - acabou por levar a melhor.
Todos os povos sobreviveram, os europeus, os asiáticos, os africanos, os americanos e até os texanos, que entretanto mudaram muito e se tornaram seres humanos semelhantes aos outros.
Optei por este final feliz, não por um incorrigível optimismo, mas porque na outra hipótese não haveria mais ninguém para escrever a história.
Fukuyama estaria certo: o liberalismo anunciava efectivamente o fim da história.
Portanto, toda a humanidade teria perecido no holocausto.
Os últimos sobreviventes, texanos, ter-se-iam organizado num bando errante, para depois serem imolados sob as ordens do chefe da sua seita, que julgavam ser uma personagem carismática.
Também se chamava Bush (...)".
Samir Amin, que nasceu no Cairo, Egipto, em 3 de Setembro de 1931, é um economista neo-marxista, um dos mais importantes da sua geração. Realizou os seus estudos (política, estatística, economia) em Paris. Reside, actualmente, em Dakar (Senegal).
Entre 1957 e 1960 trabalhou na administração pública egípcia, na área do desenvolvimento económico.
Foi conselheiro do governo do Mali entre 1960 e 1963.
Em 1970 tornou-se director do Instituto Africano de Desenvolvimento Económico e Planeamento, com sede em Dakar.
É presentemente director do Forum do Terceiro Mundo, uma associação internacional formada por intelectuais da África, Ásia e América Latina, destinada a fortalecer os laços entre os países do Terceiro Mundo (também com sede em Dakar).
(*) - Le Virus Libéral, Temps des Cerises, 2003.
Editado em Portugal pela Campo das Letras, Porto, 2005, com o título: O Vírus Liberal - A Guerra Permanente e a Americanização do Mundo (96 págs.)
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domingo, 7 de dezembro de 2008
Como devem ser os Conselheiros do Rei de Portugal (Ordenações Afonsinas - século XV)
(...) Disseram os Sabedores antigos,
que os Conselheiros do Rei
hão-de ter muitas virtudes
e bons costumes.
Convém que tenham boa capacidade
e ligeiro entendimento,
para entenderem tudo
o que no Conselho se disser.
Que considerem e entendam
o mal e a gravidade
que do seu conselho se pode seguir:
e hão-de ser corteses,
e bem falantes,
e doces de suas palavras,
por tal maneira
que a língua corresponda ao coração
e ao pensamento.
Que sejam subtis e penetrativos
em toda a moralidade e ciência,
assim Cível, como Canónica,
e em Aritmética,
que é arte verdadeira e demonstrativa,
pela qual se conhecem muitas coisas.
E hão-de ser
verdadeiros em suas palavras,
e amar a verdade,
e arredar-se da falsidade.
Hão-de ser
de grande coração em seu propósito,
e amadores da honra do Rei:
e que o ouro,
e a prata,
e todas as outras coisas semelhantes deste mundo,
sejam desprezáveis para eles,
e que os seus propósitos
e intenções
não estejam senão naquelas coisas
que convêm à sua dignidade
e ao regimento para que foram eleitos.
Não hão-de ser verbosos,
nem de muita palavra,
nem muito rideiros,
porque a temperança é virtude,
e muito apraz em todas as coisas;
E devem tratar benignamente
tudo o que tiverem de fazer,
com resguardo do serviço do Rei,
com honesto sossego e temperamento,
para que pareça a todos os que os virem
que eles têm cuidado
e sentimento de bem fazerem,
tanto nos feitos do Rei
como da República.
Dos Conselheiros de Elrey - Extracto das Ordenações Afonsinas - ou Ordenaçoens do Senhor Rey D. Affonso V, 1.º, título LIX, Coimbra, 1792.
O português foi actualizado na Torre.
As Ordenações Afonsinas (compilação das leis do Reino, até então dispersas) resultaram de um trabalho cometido, ainda no tempo de D. Duarte, ao Doutor Rui Fernandes, que pertencia ao Conselho do Rei. Falecendo aquele monarca precocemente, Rui Fernandes terminou o trabalho já no período da regência do infante D. Pedro, em Julho de 1446 (na menoridade de D. Afonso V).
O infante determinou então que as Ordenações passassem por uma revisão final, o que ocorreu sob a responsabilidade do próprio Fernandes e, ainda, de Lopo Vasques, Luiz Martins e Fernão Rodrigues.
É provável que a versão final da obra tenha sido concluída no segundo semestre de 1446 ou no primeiro de 1447.
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Angola - Curas Milagrosas...
... garantidas pelo Dr. João Diassonama, que exerce (ou exercia) para os lados do Bairro da Petrangol, em Luanda.
Seria decerto também um sucesso em Portugal, onde não haverá especialistas que cheguem para enfrentar males tão graves como a maluquisse, a doença misteriosa e a doença de barata.
Para já não falar da tremenda doença de queimadura da noite e da impertinência dos fenómenos estranhos...
Angola inimitável e eterna!
(Imagem devida a Angola em Fotos)
Máscaras Africanas (4)
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Mãe de Angola
(Retirado de Bimbe, um excelente blogue que a Torre recomenda a todos os que amam ou se interessam por Angola. A foto é de Luís Araújo Pinheiro).
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domingo, 30 de novembro de 2008
A Inquisição em Portugal (Por Oliveira Martins) (2)

(Continuação do post de 27-Set-2008)
" (...) Cordões de tropa impediam que o povo invadisse, na praça, o recinto reservado ao Auto.
Havia ali, para um lado, afastadas, as pilhas de madeira, rectangulares, com o poste erguido ao centro e um banco; e no meio da praça um espaço reservado com o estrado e as tribunas.
Na da esquerda estava o rei, D. João III, piedosamente satisfeito na sua fé, com o espírito duro, mas sincero e forte; estavam a rainha e a corte; e, ao lado do monarca, o condestável com o estoque desembainhado.
Na outra, da direita, levantavam-se o trono e dossel do cardeal D. Henrique, depois rei, e agora infante inquisidor-mor, ladeado pelos membros do tribunal sagrado, nos seus bancos.
A meio do tablado ficava o altar, com frontal preto, banqueta de seda amarela, e um crucifixo ao centro. Em frente, num plinto, erguia-se o estandarte da Inquisição. (...)
E os padecentes, em linhas, ficavam de pé, voltados para o altar, para o púlpito, para o tribunal.
Disse-se missa. O inquisidor-mor, de capa e mitra, apresentou ao rei os Evangelhos, para sobre eles jurar e defender a fé. D. João III e todos, de pé e descobertos, juraram com solenidade sincera. Depois houve sermão; e finalmente a leitura das sentenças, começando pelos crimes menores.
A adoração das imagens, questão debatida nos concílios, dava lugar a muitas faltas.
Outros iam ali por terem recusado beijar os santos dos mealheiros, com que os irmãos andavam pelas ruas pedindo esmola.
Outros por irreverências, outros por falta de cumprimento dos preceitos canónicos; muitos por coisa nenhuma; a máxima parte, vítimas de delações pérfidas ou interessadas.
Os relatores iam lendo as sentenças, os condenados gemendo, uns, e chorando; outros exultando por se verem soltos do cárcere, livres da tortura, prometendo de si para consigo serem de futuro meticulosamente hipócritas.
Chegou-se finalmente aos condenados à morte, no fogo: eram três mulheres por bruxas, e dois homens, cristãos-novos, por judaizarem, mais um por feiticeiro.
O relator, imperturbável, leu as sentenças, onde se narravam os crimes.
Os cristãos-novos comiam pães ázimos; e um deles, quando varria a casa, chamava nomes a um crucifixo, fazia-lhe caretas, e dava-lhe tantas unhadas quantos eram os golpes de vassoura no chão.
Estes crimes vinham envolvidos em frases horrorosas e generalidades tremendas; e a corte, o clero e o povo, ao ouvirem tão grandes sacrilégios, pasmavam de ódio contra os desgraçados.
A feitiçaria não os impressionava menos.
Cristãos-novos e bruxos, que lançavam malefícios e olhados, eram a causa das pestes, das fomes e dos naufrágios das naus da Índia.
Sobre as cabeças dos desgraçados caíam as maldições de uma população aflita. Ninguém duvidava da verdade dos crimes, que muitas testemunhas afiançavam.
O diabo aparecera a um, e ensinara-lhe as curas infernais, pelo livro de S. Cipriano. Sangrava os doentes na testa, com alfinetes. "Estou picado e enfeitiçado: Jesus! nome de Jesus! despicai-me e desenfeitiçai-me!" - dissera uma vítima a um padre da Beira.
Os diabos, para se vingarem, foram a casa do padre e quebraram-lhe toda a louça.
Um caso terrível era esse; e o povo olhava com horror para o médico de S. Cipriano, que tinha a loucura evidente na face.
Às bruxas o diabo aparecia de dia sob a forma de um gato preto, e, de noite, de forma humana de homem pequeno; assim o dizia gravemente a sentença, com o depoimento das testemunhas.
A bruxa saía com o demónio e iam juntos a um rio, onde as outras estavam com outros demónios; e depois de se banharem tinham coito com circunstâncias lascivas e abomináveis; a sentença enumerava-as e a devassidão da corte e do povo percebia-as, comentava-as.
De volta ao sabbath, de madrugada, as bruxas entravam invisivelmente nas casas, perseguindo as famílias honestas e piedosas.
O rei, a corte e o inquisidor retiraram-se; e os sinos continuavam a dobrar, pausada e funebremente.
Os carvoeiros de alabardas, os verdugos de capuzes, e os frades de escapulário e crucifixo na mão, ficaram junto dos condenados para os queimar.
O povo cercou em massa o lugar das pilhas quadrangulares de lenha, com os olhos ávidos e a cabeça cheia de cóleras contra esses réus das suas desgraças.
Todos, menos o bruxo, morreram piedosamente, garrotados, depois queimados.
Junto da pilha, o frade, com as mãos postas, pedia-lhe que, por Deus, se arrependesse; mas ele, com o olhar esgazeado do louco, virava a cara e zombava.
Largando a correr pela escada, subia à pilha, e, do alto, sentado no banco, fazia esgares e visagens irreverentes.
O frade batia nos peitos, a plebe rugia colérica.
Os verdugos amarraram-no ao poste e os carvoeiros acenderam a fogueira, que principiou a crepitar.
Os rapazes e as mulheres da Ribeira, salteando-o com paus e garrunchos, arrancaram-lhe um olho. Atiravam-lhe pedras, pregos, e tudo; e faziam-lhe feridas por onde escorria sangue: tinha a cabeça aberta e um beiço rasgado.
Entretanto, a chama começava a romper por entre os toros; e ele com as mãos, estorcendo-se, dava no fogo, querendo apagá-lo; e quando via, com o olho que lhe restava, vir no ar uma pedra, fazia rodela ou escudo com a samarra, para se livrar. Do vão do outro olho escorria pela face um fio de sangue.
Isto já durava por mais de uma hora e divertia muito o povo - agora que tinha a certeza de ver morrer o seu inimigo.
Mas o vento, que soprava rijo do poente, da banda do rio, arrastava consigo as chamas; e por não ter fumos que o afogassem, o condenado ficou três horas vivo, a torrar, agonizando, contorcendo-se, em visagens, e gritando - ai!... ai!... ai!...".
(Oliveira Martins - História de Portugal - 1.ª ed. - 1879)
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Álbuns Especiais do "Cavaleiro Andante" (1)
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Álbum Especial do Cavaleiro Andante, banda desenhada publicada em Junho de 1955 pela Empresa Nacional de Publicidade (Lisboa - Portugal).
Preço: 6 escudos (cerca de 3 cêntimos de euro, em termos actuais).
Continha, entre outras matérias, uma excelente versão de "A Pradaria", história criada em 1827 por J. Fenimore Cooper.
Cooper, autor do divulgadíssimo O Último dos Mohicanos (1826), foi um famoso escritor norte-americano (n. em 1789 - f. em 1851).
Preço: 6 escudos (cerca de 3 cêntimos de euro, em termos actuais).
Continha, entre outras matérias, uma excelente versão de "A Pradaria", história criada em 1827 por J. Fenimore Cooper.
Cooper, autor do divulgadíssimo O Último dos Mohicanos (1826), foi um famoso escritor norte-americano (n. em 1789 - f. em 1851).
Pode ver em baixo a estátua que o homenageia, erigida em Cooperstown, New York.
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domingo, 23 de novembro de 2008
Grandes Pintores - Edvard Munch (Noruega)
Edvard Munch foi um pintor norueguês (n. 1863 – f. 1944).
Frequentou a Escola de Artes e Ofícios de Oslo, vindo a ser influenciado por Courbet e Manet.
Em Paris descobre as obras de Van Gogh e Gauguin e o seu estilo sofre grandes mudanças.
Em 1892, o convite para expor em Berlim torna-se num momento crucial da sua carreira e da história da arte alemã. Inicia um projecto que intitula “O Friso da Vida”, a que pertence O Grito, considerada a sua obra máxima. O quadro retrata a angústia e o desespero e foi inspirado nas decepções do artista tanto no amor quanto com os seus amigos.
Em 1896, em Paris, interessa-se pela gravura, fazendo inovações nesta técnica. Os trabalhos deste período revelam uma segurança notável.
Em 1914 inicia a execução do projecto para a decoração da Universidade de Oslo, usando uma linguagem simples, com motivos da tradição popular.
Em 1914 inicia a execução do projecto para a decoração da Universidade de Oslo, usando uma linguagem simples, com motivos da tradição popular.
Munch retratava as mulheres ora como sofredoras frágeis e inocentes, ora como causa de grande anseio, ciúme e desespero.
Toda a obra está impregnada pelas suas obsessões: a morte, a solidão, a melancolia, o terror das forças da natureza.
sábado, 22 de novembro de 2008
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
sábado, 15 de novembro de 2008
Pintores da Península Ibérica (Portugal) - Silva Porto
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António Carvalho da Silva foi um pintor português (Porto, 1850-1893), que adoptou como apelido o nome da sua cidade natal, ficando conhecido por Silva Porto.
Estudou na Academia Portuense de Belas Artes, estagiou em Paris (1876-1877) e em Itália (1879).
Em 1879 regressou a Portugal. Aureolado de prestígio, foi convidado a ensinar na Academia de Lisboa como mestre de Paisagem.
Em 1880 realiza uma exposição de quadros paisagísticos inundados de luz, tendo D. Fernando adquirido o quadro Charneca de Belas ao Pôr-do-Sol.
Fez parte do chamado Grupo do Leão, juntamente com António Ramalho, João Vaz, José Malhoa, Cesário Verde, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro.
Entre outros galardões, recebeu a medalha de ouro da Exposição Industrial Portuguesa de 1884 e a primeira medalha do Grémio Artístico.
A sua pintura, cheia de luz e de cor, é sobretudo inspirada na Natureza, sendo tido como um dos fundadores do naturalismo em Portugal.
Encontra-se largamente representado no Museu do Chiado (Lisboa) e no Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto).
Existe uma rua com o seu nome, na freguesia de Paranhos (Porto) e o Parque Silva Porto na freguesia de Benfica (Lisboa).
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quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Chaka e Dingane - Os Zulus e os Bóeres (África do Sul)
"(...) É durante esta odisseia que vai produzir-se um tremendo embate entre os Bóeres e as tribos bantas.
Contra a opinião dos que preferiam os caminhos do Norte, alguns milhares de pioneiros, chefiados por Piet Retief, espicaçaram as juntas de bois rumo a leste. Tiveram o cuidado de tornear os domínios dos Xhosas, o perigoso caldeirão onde havia mais de meio século fervilhavam mortíferas guerras de fronteira.
Efectuaram um desvio por nordeste, a golpes de tenacidade, através das cadeias montanhosas do Drakensberg. Foi literalmente à força de braços que fizeram transpor aos carroções e aos animais os obstáculos dos maciços rochosos e o vazio apavorante dos abismos.
Desta maneira se foram acercando, sem se darem conta, de um torvelinho humano onde se repercutiam ainda as ondas de choque da notável aventura expansionista dos Zulus, guiados por Chaka.

Este famoso soberano negro, que conduzira os destinos do seu povo, no Natal, entre 1816 e 1828, tinha forjado a partir da sua tribo insignificante uma destrutiva máquina de guerra e com ela talhara um poderoso império.
À frente de guerreiros descalços, munidos de escudos enormes e de zagaias curtas que obrigavam ao corpo-a-corpo, Chaka espalhara acções de conquista e extermínio entre os povos vizinhos. Atacou a norte, a oeste e, também, a sul, na direcção das terras onde os Xhosas prosseguiam as suas disputas com os bóeres fronteiriços.
A consolidação do império ficou a dever-se à sua genialidade e à bravura dos seus guerreiros, submetidos a uma disciplina espartana, treinados até à exaustão e de energias espevitadas por forçados períodos de castidade.
O rolo compressor do expansionismo zulu ocasionou milhares de mortos e a fuga espavorida de legiões de sobreviventes, que, no frenesi do recuo, disseminavam a devastação e o luto por onde quer que passassem. Ao redemoinho destas massas humanas deslocadas, pelejando ardorosamente pela sobrevivência, deu-se o nome de mfecane. Teve como resultado, para além do trágico cortejo de vítimas, o desmoronamento de velhos reinos e a emergência de novas e esperançosas nações.
Até a colónia portuguesa de Moçambique, situada para norte, à beira do Índico, não se furtaria ao gigantesco abalo, sofrendo a invasão de um exército de zulus comandados por um dissidente de Chaka - Sochangane, ou Manicusse. Deste cabo-de-guerra africano descenderia um neto não menos famoso, Gungunhana, filho de Muzila, muito celebrado pelos Portugueses nas suas coloridas crónicas de guerra do fim do século, em Moçambique.
Foram territórios em parte desembaraçados de gente que os Bóeres, possuídos de optimismo, cruzaram nos começos do Grande Trek. Mas tratava-se de um despovoamento passageiro, provocado pelas fugas aos massacres. Com a paz, produzir-se-ia o refluxo e o consequente choque entre brancos e africanos. Também os dois mil bóeres de Piet Retief se deixaram embalar por doces ilusões, quando, em Outubro de 1837, transpostas enfim as penedias do Drakensberg, poisaram os olhos extasiados nos campos fecundos e floridos do Natal, contíguos ao Índico.
Souberam que algumas dezenas de aventureiros e comerciantes ingleses se agitavam já na costa e perceberam que tinham acabado de desembocar no coração do império zulu.
Chaka fora assassinado em 1828 por Dingane, seu meio-irmão. Este, molemente afundado na velha poltrona que lhe servia de trono e reconfortado pelos mimos de uma centena de concubinas, dirigia de Umgungundhlovu - o Lugar do Elefante - os destinos do seu temível povo de guerreiros.
Dingane, o Grande Elefante, perante quem os visitantes se rojavam de joelhos, acolheu jovialmente Piet Retief, assim que este chegou acompanhado de um comando de sessenta bóeres. O rei africano nem sequer pestanejou quando os estrangeiros lhe estenderam uma vaga papeleta para que ele lhe apusesse o seu sinal. Não lhe ia decerto pela cabeça que, com aquele displicente rabisco, os seus interlocutores se atrevessem a intitular-se proprietários de uma parcela das suas terras. Mesmo que assim fosse, Dingane, posto de sobreaviso quanto à iminente chegada de alguns milhares de brancos, guardava dentro de si a chave que o libertaria daquela embrulhada.
Assim, a 6 de Fevereiro de 1838 convidou Piet Retief e os seus homens para celebrarem o acordo com generosas libações de cerveja local, enquanto os guerreiros tratavam de os homenagear com danças altivas. Os Bóeres, desarmados, sorvendo com placidez o fumo dos cachimbos, seguiam prazenteiros as evoluções dos dançarinos. Isto durou até ao instante em que o dissimulado soberano, deixando tombar a máscara da cortesia, desatou aos berros: Matem os feiticeiros!
Os guerreiros zulus caíram em fúria sobre os brancos desprevenidos, massacraram-nos até ao último e abandonaram os corpos ensanguentados à voracidade dos abutres.
Era seu propósito infligir aos intrusos uma lição mestra, tão aterrorizadora que os convencesse a debandar, de uma vez por todas, dos seus domínios. Soltou os guerreiros pelos vales e colinas do território, na peugada das famílias bóeres desacauteladas. Perto de trezentos calvinistas - homens, mulheres e crianças -, juntamente com duas centenas de servos hotentotes, foram deste modo chacinados.
Depois da matança, e tal como calculara Dingane, alguns dos brancos decidiram tomar a direcção do Norte, para lá do rio Vaal, à procura de refúgios menos conturbados. A maior parte deles, porém, vigorosamente espicaçados pela determinação das mulheres, entre as quais sobressaía a viúva de Piet Retief, optaram por resistir. Isso trouxe-lhes, até quase ao final do ano, um nunca mais acabar de sobressaltos. Flagelados pelas investidas zulus, passavam dias a fio entrincheirados nos seus laagers.
Os laagers consistiam numa espécie de fortalezas ambulantes formadas por carroções dispostos em círculo, com todos os interstícios vulneráveis atravancados de arbustos espinhosos. Os pioneiros desfechavam desses sólidos abrigos um fogo nutrido sobre os assaltantes e, em ocasiões propícias, montavam a cavalo e desferiam rápidos contra-ataques.
Em Novembro de 1838, senhor de todos os trunfos, o Grande Elefante parecia ter a partida ganha. Naquelas horas de agonia os Bóeres foram vendo desaparecer os seus chefes mais carismáticos. Depois de Piet Retief calhou a vez a Uys, abatido numa emboscada com vários companheiros, e a Maritz, que sucumbiu à doença. Potgieter, que jamais concordara com o malfadado desvio para o Natal, acabou por partir com os apaniguados até à relativa segurança do Vaal.
Em Novembro de 1838, senhor de todos os trunfos, o Grande Elefante parecia ter a partida ganha. Naquelas horas de agonia os Bóeres foram vendo desaparecer os seus chefes mais carismáticos. Depois de Piet Retief calhou a vez a Uys, abatido numa emboscada com vários companheiros, e a Maritz, que sucumbiu à doença. Potgieter, que jamais concordara com o malfadado desvio para o Natal, acabou por partir com os apaniguados até à relativa segurança do Vaal.
Enquanto Dingane se aprestava para o ataque decisivo, operou-se uma reviravolta providencial no destino daquela gente: Andries Pretorius, um abastado proprietário do Cabo que resolvera juntar-se ao êxodo, chegou com o seu comboio de carroções às terras dos Zulus.
Robusto, lúcido e ousado, Pretorius foi eleito comandante dos pioneiros bóeres do Natal. Ordenou que todas as noites se formassem laagers e, bom psicólogo, pressentindo o choque final, manipulou com astúcia o misticismo reinante: convocou o seu meio milhar de combatentes e fê-los jurar que, em caso de triunfo, construiriam um templo comemorativo e passariam a guardar um dia anual de acção de graças. Assim fortalecidos, acolheram-se todos ao laager de sessenta carroções, nas vizinhanças de um estreito curso de água, e esperaram.
Milhares de zulus entoaram cânticos de guerra e lançaram-se sobre os Bóeres. Estes receberam-nos de corações abrasados de fé, com as suas preces, os seus salmos e, como é óbvio, com o fogo das carabinas, sublinhado pelo estampido de algumas salvas de canhão.
Uma e outra vez retrocederam os assaltantes, para logo retomarem a ofensiva. Os mais destemidos conseguiram transpor a barreira de fogo e trepar aos toldos dos carroções, pulando para o interior do círculo defensivo. Aqui se feriu um selvático combate à zagaiada e à machadada, em que o próprio Pretorius escapou à morte por um fio.
Três horas após o início das hostilidades, o exército zulu achava-se exausto e em retirada. Os cadáveres de três mil guerreiros cobriam o solo, contra perdas insignificantes dos defensores, e as águas do riacho adquiriram por instantes a pavorosa tonalidade do sangue das vítimas. Por tal facto, os Bóeres aludiriam daí em diante a este evento como a Batalha do Rio do Sangue.
No arrebatamento da vitória, um numeroso comando calvinista saiu em perseguição do exército inimigo destroçado, fustigando-o ao longo de quilómetros. Dingane, com o orgulho de rastos, deixou aos inimigos Umgungundhlovu em cinzas, onde, não obstante, os Bóeres arranjaram maneira de recuperar os despojos de Piet Retief e o texto do acordo celebrado com o Grande Elefante. Chegaria em breve o tempo de neste se cumprir a espécie de maldição que há muito pairava sobre o destino dos soberanos zulus. Assassino do grande Chaka, que fora, por sua vez, proscrito na infância pelo pai, Dingane acabaria traído e derrotado pouco mais tarde por seu irmão Mpande, que um missionário descreveria como um verdadeiro cavalheiro banto. Posto em fuga, o Grande Elefante seria assassinado na Suazilândia.
Com o momentâneo eclipse da ameaça zulu principiou a desvanecer-se o turbilhão do mfecane e dos morticínios a ele associados. Os Bóeres aproveitaram a maré e, em 1839, proclamaram a República do Natal, convencidos de que os portões da terra prometida rodavam enfim nos gonzos para lhes franquearem a entrada. Pura quimera. Ainda mal haviam saboreado o triunfo sobre Dingane e já tinham de novo à sua frente, como num sonho mau, aqueles persistentes Ingleses de que andavam fugidos. (...)" (*)
(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - 1999
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