(Fonte: Biblioteca Nacional de España - Madrid)
Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
sexta-feira, 10 de abril de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
Cuanhamas do Sul de Angola (2) - Os Começos da Vida

“(…) As mulheres cuanhamas, como aliás todas as mulheres das tribos da região, com excepção das Bochimanes, recolhem às suas cubatas para terem os filhos, a não ser que as dores do parto as surpreendam longe de casa.
Durante a operação a parturiente é assistida por uma ou mais mulheres velhas, geralmente próximas parentes, que fazem as vezes de parteiras. É facilmente admitida mais uma ou outra espectadora – poucas, porque a cubata cuanhama é de dimensões muito reduzidas. Aos homens é vedada a entrada antes de tudo estar acabado.

A posição da parturiente é a “de joelhos”, com as nádegas apoiadas sobre os calcanhares. Ao referirem-se a um parto prolongado dizem (por exemplo): “Ela esteve de joelhos desde o nascer do Sol até ao meio-dia”, ou coisa parecida.
As secundinas (ositungwa) são enterradas na cabana. Se tardam a sair, chama-se uma especialista, que administra à parturiente um remédio, em cuja composição entram flores secas de uma variedade de aloés.
As secundinas (ositungwa) são enterradas na cabana. Se tardam a sair, chama-se uma especialista, que administra à parturiente um remédio, em cuja composição entram flores secas de uma variedade de aloés.
O cordão umbilical é cortado à faca e o umbigo da criança é esfregado com o fruto oleaginoso assado do arbusto omupeke.
Tratam, logo depois, de untar todo o corpo da criança com lukula (mistura de manteiga e de pó do cerne da árvore omuuva, de cor vermelho-vivo).
Uma vez que dentro da cubata tudo tenha decorrido normalmente, o pai da criança pode enfim entrar nela.
O que lhe interessa saber, em primeiro lugar, é o sexo do seu filho. Tratando-se de um rapaz, diz-se que nasceu um omu-kwati womafuma (ou seja, um “apanha rãs”).
Sendo rapariga, a ela se referem chamando-lhe omu-twi wouvalelo (isto é, uma “moleira de farinha para o jantar”).
Quatro dias depois do parto, pode a mãe sair da cubata. Antes, porém, já o pai procedeu à imposição de nome ao recém-nascido. Para esse efeito, veio ele tomar lugar no grande pátio, enquanto a mãe e as outras mulheres soltam gritos de alegria dentro da cubata da parturiente.
Quatro dias depois do parto, pode a mãe sair da cubata. Antes, porém, já o pai procedeu à imposição de nome ao recém-nascido. Para esse efeito, veio ele tomar lugar no grande pátio, enquanto a mãe e as outras mulheres soltam gritos de alegria dentro da cubata da parturiente.
Os Cuanhamas não se embaraçam grandemente para encontrarem nomes.
Alguém que nasceu durante a noite (oufiku) será Haufiku (tratando-se de um rapaz), e Naufiku (sendo rapariga).
O mesmo acontece com a palavra ongula (“a manhã"), e teremos pois: Hangula (rapaz) e Nangula (rapariga).
Nandyala será alguém que veio ao mundo num ano de fome (ondyala).
Haimbodi é nome de rapaz cuja mãe teve de tomar muitos remédios (oimbodi) durante o período da gravidez. Uma rapariga será nesse caso Naimbodi.
Chamam-se os convidados, de entre os parentes e os vizinhos. Todos se reúnem no pátio grande. O pai pega na criança e, com uma navalha bem afiada, corta-lhe os cabelinhos.
Senta-se a mãe em frente e vai recebendo pedaços de pirão preparados especialmente para ela, e que ela se esforça por engolir sem mastigar. É um ritual a que atribuem mágico poder.
As parentes e amigas acompanham a manducação da mãe da criança com gritos e cantos de alegria em que inúmeras vezes se repete o estribilho: Oike setueta oludalo? (“Que é que nos trouxe este parto?”).
Em seguida a mãe coloca em volta do pescoço e dos pulsos do pequeno um ou dois fios de missanga e cinge-o na mesma ocasião com uma cinta em volta do meio do corpinho.
Em seguida a mãe coloca em volta do pescoço e dos pulsos do pequeno um ou dois fios de missanga e cinge-o na mesma ocasião com uma cinta em volta do meio do corpinho.
Para uma rapariguita, acrescentará dois fios de missanga chamada ondyeva, fabricada com casca de ovos de avestruz. À medida que a rapariga cresce irá aumentando o número das fiadas, e isto até à festa da puberdade. É, com efeito, esta missanga o sinal distintivo da rapariga solteira.
A cerimónia do ekululo acaba num banquete geral para todos os convidados. Já antes disto foi necessário arranjar a pele com que a mãe traz os filho às costas (odikwa).
Ficam os filhos ao cuidado da mãe, que os amamenta durante um ano ou dois. Se o leite for insuficiente, ou se a mãe ficar grávida antes de o filho estar bastante forte, procura-se criá-lo com leite de vaca.
Neste último caso, o filho será quase sempre entregue a uma irmã ou prima da mãe que não tenha meninos pequenos. Sendo rapariga, a criança ficará geralmente a viver com a tia até ao casamento.
Quando os rapazes tiverem 4 ou 5 anos, acompanharão os mais velhos ao pascio de cabritos ou vitelos. As rapariguitas ajudam a mãe nos trabalhos caseiros (…)” (*)
(*) Extraído e adaptado de: Padre Carlos Estermann - Etnografia do Sudoeste de Angola (Vol. I) – Os Povos Não-Bantos e o Grupo Étnico dos Ambós – Junta de Investigações do Ultramar – Lisboa – Portugal – 1960.
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segunda-feira, 6 de abril de 2009
Barack Obama, o povo e a esperança...
Há poucas horas, em Praga, República Checa, mergulhado na multidão contra todas as regras de segurança. Caminhando destemidamente os passos firmes de um destino ímpar.
Abrem-se sorrisos rasgados e estendem-se mãos negras, mãos róseas, mãos mulatas, mãos brancas, mãos amarelas - as cores do desalento, do desencanto e da raiva em relação aos políticos e decisores do tempo antigo. Mas, também, as cores de um novo alento e de uma nova esperança.
Difícil é, de facto, ser Barack Obama.
Porque ele não leva propriamente aos ombros os pecados do mundo velho, carrega muito mais do que isso: as esperanças sem medida de um universo inteiro.
(Foto - Jim Young - Reuters)
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domingo, 5 de abril de 2009
A Torre e os juízos definitivos...
"Conheci-a era ela uma jovem octogenária, em 1969. Esta semana, a Torre Eiffel fez 120 anos, o que me envelhece mais do que a ela.
Sem saber que seria durante cinco anos a minha paisagem constante, saído da Gare Saint-Lazare corri a vê-la. Fascinado. Então, já tinha passado o tempo que lhe deu aquela patine com a qual o que tem de ser acaba por se impor.
Sem saber que seria durante cinco anos a minha paisagem constante, saído da Gare Saint-Lazare corri a vê-la. Fascinado. Então, já tinha passado o tempo que lhe deu aquela patine com a qual o que tem de ser acaba por se impor.
Mas quando ela era novidade, os artistas desprezavam-na.
Guy de Maupassant, Alexandre Dumas Filho e Charles Gounod acusavam-na de desfigurar Paris e fizeram abaixo-assinados de protesto.
Maupassant costumava almoçar no restaurante do primeiro andar mas explicava-se assim: "É o único lugar de Paris em que a vista não é estragada pela Torre Eiffel."
Construída como homenagem efémera ao primeiro centenário da Revolução Francesa, ela esteve quase a ser demolida em 1909.
Só não foi por uma razão prosaica: era necessária como antena.
Décadas depois tornou-se ícone para outros artistas (Chagall, Dufy...).
Agora, a Torre Eiffel é o que é - e mais isto: uma lição de prudência contra juízos definitivos." (*)
(*) - Ferreira Fernandes - Felizmente ela ainda lá está, não é? - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal - 2 de Abril de 2009.
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sábado, 4 de abril de 2009
Baixar os salários "dos outros"...
"Na Visão de ontem, uma série de economistas e outros especialistas vem, na senda de Silva Lopes, defender uma descida generalizada dos salários em 20%.
O motivo é a crise, assim como, na formulação de António Nogueira Leite, "o desfasamento entre a produtividade e os custos laborais".
Não sendo a economia o meu forte, acompanho Manuel Carvalho da Silva, citado na revista como ficando "maldisposto com a discussão".
Num país:
- onde a diferença entre os rendimentos dos mais ricos e dos mais pobres é das maiores da Europa,
- onde o ordenado mínimo é metade do praticado em Espanha, mas os salários dos gestores estão ao nível dos auferidos na Alemanha,
- e onde o preço dos bens de consumo é equiparado (quando não superior) ao que se pratica no resto da UE,
haver quem ache que o caminho é baixar ainda mais os salários de todos custa um bocado a perceber.
Claro que num contexto específico - o de uma empresa que arrisca fechar - se aceitam ajustes para salvar postos de trabalho.
Mas estabelecer isso como regra geral, ainda por cima fundamentando-a numa espécie de fatalidade estrutural - a do tal desfasamento -, acrescentando ainda que "os portugueses se habituaram mal", surge apenas imoral.
O salário médio dos portugueses é baixo e baixá-lo global e cegamente não pode ser solução.
Primeiro porque muitas pessoas já vivem no limiar da pobreza - mesmo se o nível de vida médio tem aumentado e as expectativas, felizmente, não têm comparação com as que existiam há 30 anos (será isso o "mau hábito"?).
Em segundo lugar, a ideia de que o investimento estrangeiro poderá ser atraído com salários mais baixos já provou há muito a sua valia - há sempre salários mais baixos noutro lado, e é impossível (e indesejável) competir nesse quesito com países em que as pessoas não têm direitos.
Se há empresas que só podem sobreviver com trabalho escravo, então não devem sobreviver - e essa é provavelmente uma das grandes consequências desta crise, a da inevitabilidade de reformulação de certos sectores, sob pena de desaparecerem.
Terceiro: a animação da economia também depende do consumo - se se baixarem 20% os salários de toda a gente, é muito provável que o consumo baixe pelo menos nessa percentagem, implicando a descida de preços, falência de mais empresas e, por arrasto, uma eventual nova descida dos salários, numa espiral sem fim.
Alegar que, por mais que se resista à ideia, a redução salarial se aplicará "a bem" (por acordo) ou "a mal" (devido ao dumping criado pelo aumento do desemprego) é, paradoxalmente, negar a existência do mercado: mesmo num contexto de crise há sectores que florescem.
E se foi uma ideia de mercado em roda livre e louca, sem relação com a realidade e o realismo, que nos trouxe onde estamos, convém talvez não querer substituí-lo completamente.
É capaz de haver uma outra via - a ver se a encontramos, de preferência sem histerias e mantendo em vista algo de fundamental: a dignidade das pessoas e do trabalho."
Fernanda Câncio - Diário de Notícias - 27 de Março de 2009 - Lisboa - Portugal.
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sexta-feira, 3 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Aberturas de Grandes Livros - "A Maravilhosa Viagem" (Castro Soromenho - Portugal)
O navegador português Diogo Cão, a que se refere o autor, coloca o padrão nas costas do Sul de Angola.
Casa do século XV, ainda hoje existente no centro da cidade de Vila Real (Trás-os-Montes, Portugal), onde a tradição garante ter nascido o navegador Diogo Cão.
"A Maravilhosa Viagem", de Castro Soromenho (descrição das costas do Sul de Angola)
“Um mundo misterioso vem até às areias desérticas, soltas ao vento, onde se ergue negra penedia que se alonga pelo mar. Pequenos morros nus e escuros destacam-se aqui e ali, na costa, com pássaros marinhos ao sol. Ao redor, um mundo de areia. Uma asa negra de abutre ganha, ao longe, os céus do deserto. Sobranceiro ao grande mar africano, abrem-se os braços de um padrão.
Quando todo o areal luz ao sol e o céu é azul claro, sereno e límpido, enxerga-se na linha do horizonte, terras dentro, uma mancha.
Para as bandas do oceano, calmo como mar morto, é o céu sem fundo. Velhos marinheiros, que dobraram aquele Cabo Negro onde o seu descobridor plantou o padrão, assinalaram essa mancha, parada e enorme quando o céu se abre até aos confins do horizonte, mas nenhum afoitou passos para a sua descoberta.
Entre o mar e essa terra alta, estende-se o deserto de areias soltas. E os marinheiros, que outros mares do Sul iam singrar na descoberta de novas terras, não passaram das praias brancas. É dessa terra alta, como que metida no céu, que vem a noite sobre o deserto. A noite e o mistério sobre que tudo repousa.
Correndo a sua sombra no azul das águas, um pássaro apanha um peixe na ponta vermelha do bico e ganha as brisas do largo, perdendo a brancura das asas nos horizontes longínquos. Outros seguem-lhe o voo largo e lento, de longe em longe interrompido subitamente, para em descidas vertiginosas picarem o peixe à flor da água. E é já com as sombras da noite sobre os braços do padrão que o bando regressa, corta o céu da praia, solta gritos vibrantes e entra e perde-se no fundo da noite da terra erma.
Peixes voadores prateiam-se sobre o mar tranquilo. Nas cavernas das rochas, grilos vermelhos começam a cantar. E como que embalando o seu canto, as águas espumadas marulham nas areias ainda quentes do sol. A noite fecha-se, negra e funda, sobre o deserto e o mar. E tudo cai num grande silêncio. (…)
(…) A recordar os passos do homem por aquelas terras sem nome de gentio - pois Cabo Negro foi a legenda que lhe deu o descobridor - só existe o padrão, enegrecido por mil e mil sóis.
Ergueu-o, em 1485, Diogo Cão, na viagem em que os ventos mais longe levaram as velas da nau da Descoberta. (…)”.
A Maravilhosa Viagem - Castro Soromenho (1910-1968) - Publicado por Editora Arcádia, Lisboa, Portugal, 1961.
Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota -- L. 51791 P.)
terça-feira, 31 de março de 2009
segunda-feira, 30 de março de 2009
Maurice Jarre - O Mágico dos Temas Musicais (1924-2009)
Faleceu ontem, 29 de Março de 2009, em Los Angeles, EUA.
Fica a memória inconfundível e imorredoira dos seus temas musicais.
Quem não se lembra dos acordes de
Lawrence da Arábia (1962)
Doutor Jivago (1965)
Paris Já Está a Arder? (1966)
A Filha de Ryan (1970)
Passagem para a Índia (1984)
Clube dos Poetas Mortos (1989)?
Vencedor de 3 Óscares
e de 4 Globos de Ouro.
Podem recordá-lo aqui:
e também aqui:
sábado, 28 de março de 2009
Um Grande Cronista do Brasil - Stanislaw Ponte Preta (ou Sérgio Porto) (1923-1968)
História de um Nome
"No capítulo dos nomes difíceis têm acontecido coisas das mais pitorescas.
Ou é um camarada chamado Mimoso, que tem físico de mastodonte, ou é um sujeito fraquinho e insignificante chamado Hércules.
Os nomes difíceis, principalmente os nomes tirados de adjetivos condizentes com seus portadores, são raríssimos, e é por isso que minha avó paterna dizia:
— Gente honesta, se for homem deve ser José, se for mulher, deve ser Maria!
É verdade que Vovó não tinha nada contra os joões, paulos, mários, odetes e — vá lá — fidélis.
A sua implicância era, sobretudo, com nomes inventados, comemorativos de um acontecimento qualquer, como era o caso, muito citado por ela, de uma tal Dona Holofotina, batizada no dia em que inauguraram a luz elétrica na rua em que a família morava.
Acrescente-se também que Vovó não mantinha relações com pessoas de nomes tirados metade da mãe e metade do pai.
Jamais perdoou a um velho amigo seu — o "Seu" Wagner — porque se casara com uma senhora chamada Emília, muito respeitável, aliás, mas que tivera o mau-gosto de convencer o marido de batizar o primeiro filho com o nome leguminoso de Wagem — "wag" de Wagner e "em" de Emília.
É verdade que a vagem comum, crua ou ensopada, será sempre com "v", enquanto o filho de "Seu" Wagner herdara o "w" do pai. Mas isso não tinha nenhuma importância: a consoante não era um detalhe bastante forte para impedir o risinho gozador de todos aqueles que eram apresentados ao menino Wagem.
Mas deixemos de lado as birras de minha avó — velhinha que Deus tenha, em Sua santa glória — e passemos ao estranho caso da família Veiga, que morava pertinho de nossa casa, em tempos idos.
"Seu" Veiga, amante de boa leitura e cuja cachaça era colecionar livros, embora colecionasse também filhos, talvez com a mesma paixão, levou sua mania ao extremo de batizar os rebentos com nomes que tivessem relação com livros.
Assim, o mais velho chamou-se Prefácio da Veiga; o segundo, Prólogo; o terceiro, Índice e, sucessivamente, foram nascendo o Tomo, o Capítulo e, por fim, Epílogo da Veiga, caçula do casal.
Lembro-me bem dos filhos de "Seu" Veiga, todos excelentes rapazes, principalmente o Capítulo, sujeito prendado na confecção de balões e papagaios. Até hoje (é verdade que não me tenho dedicado muito na busca) não encontrei ninguém que fizesse um papagaio tão bem quanto Capítulo. Nem balões.
Tomo era um bom extrema-direita e Prefácio pegou o vício do pai - vivia comprando livros. Era, aliás, o filho querido de "Seu" Veiga, pai extremoso, que não admitia piadas.
Não tinha o menor senso de humor. Certa vez ficou mesmo de relações estremecidas com meu pai, por causa de uma brincadeira. "Seu" Veiga ia passando pela nossa porta, levando a família para o banho de mar.
Iam todos armados de barracas de praia, toalhas etc. Papai estava na janela e, ao saudá-lo, fez a graça:
— Vai levar a biblioteca para o banho?
"Seu" Veiga ficou queimado durante muito tempo.
Dona Odete — por alcunha "A Estante" — mãe dos meninos, sofria o desgosto de ter tantos filhos homens e não ter uma menina "para me fazer companhia" - como costumava dizer. Acreditava, inclusive, que aquilo era castigo de Deus, por causa da idéia do marido de botar aqueles nomes nos garotos.
Por isso, fez uma promessa: se ainda tivesse uma menina, havia de chamá-la Maria.
As esperanças estavam quase perdidas. Epílogozinho já tinha oito anos, quando a vontade de Dona Odete tornou-se uma bela realidade, pesando cinco quilos e mamando uma enormidade.
Os vizinhos comentaram que "Seu" Veiga não gostou, ainda que se conformasse, com a vinda de mais um herdeiro, só porque já lhe faltavam palavras relacionadas a livros para denominar a criança.
Só meses depois, na hora do batizado, o pai foi informado da antiga promessa. Ficou furioso com a mulher, esbravejou, bufou, mas — bom católico — acabou concordando em parte.
E assim, em vez de receber somente o nome suave de Maria, a garotinha foi registrada, no livro da paróquia, após a cerimônia batismal, como Errata Maria da Veiga.
Estava cumprida a promessa de Dona Odete, estava de pé a mania de "Seu" Veiga."
Texto extraído do livro "A Casa Demolida" - Rio de Janeiro, 1963, pág. 175.
Sérgio Marcus Rangel Porto (Rio de Janeiro, 11 de Janeiro de 1923 — Rio de Janeiro, 30 de Setembro de 1968) foi um cronista, escritor, radialista, e compositor brasileiro.
Era mais conhecido por seu pseudónimo, Stanislaw Ponte Preta.
Sérgio começou sua carreira jornalística no final dos anos 40, actuando em publicações como as revistas Sombra e Manchete e os jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa e Diário Carioca.
Foi aí que surgiu o personagem Stanislaw Ponte Preta e suas crónicas satíricas e críticas (…).
Sérgio era boémio, de um admirável senso de humor, e a sua aparência de homem sisudo escondia um intelectual peculiar capaz de fazer piadas corrosivas contra a ditadura militar e o moralismo social vigente, que fazem parte do FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, uma de suas maiores criações.
FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País tinha como característica simular notas jornalísticas, parecendo noticiário sério.
Era uma forma de criticar a repressão militar, já presente nos primeiros Actos Institucionais (que tinham a sugestiva sigla de AI).
Um deles noticiou a decisão da ditadura militar brasileira de mandar prender o autor grego Sófocles, que morreu há séculos, por causa do conteúdo subversivo de uma peça que ele teria encenado na ocasião (anos 60 do século passado).
Sérgio Porto, ou Stanislaw Ponte Preta alcançou a fama por seu senso de humor refinado e a crítica mordaz aos costumes nos livros Tia Zulmira e Eu e, também, FEBEAPÁ.
Sérgio Porto, ou Stanislaw Ponte Preta alcançou a fama por seu senso de humor refinado e a crítica mordaz aos costumes nos livros Tia Zulmira e Eu e, também, FEBEAPÁ.
A sua jornada diária nunca era inferior a 15 horas de trabalho.
Escrevia para o rádio, para a TV, onde chegou a apresentar programas, e também para revistas e jornais, além de idealizar seus livros.
O excesso de obrigações seria demais para o cardíaco Sérgio, que morreu de enfarte aos 45 anos de idade.
(Extraído e adaptado de Wikipédia)
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sexta-feira, 27 de março de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
Álbum de Cromos de Enriqueta Sanfiz - 1885 (1)
Na portada do álbum aparece uma inscrição manuscrita: "Álbum de Enriqueta Sanfiz 1885".
E, na primeira página, também manuscrita, a seguinte dedicatória:
Enriqueta de Sanfiz
a quien quiere ver feliz
Antonio Sanchez Infante".
(Fonte: Biblioteca Nacional de España - Madrid)
"Recuerdo insignificante
a la bella y eleganteEnriqueta de Sanfiz
a quien quiere ver feliz
Antonio Sanchez Infante".
(Fonte: Biblioteca Nacional de España - Madrid)
quarta-feira, 25 de março de 2009
A Guerra Civil de Espanha Vista Pelas Crianças
(Fonte: Biblioteca Nacional de España - Madrid)
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domingo, 22 de março de 2009
Grandes Quadros - (Rubens - Holanda)
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sábado, 21 de março de 2009
A Globalização - "Como se brincou com o fogo..."

"Quanto mais a actual crise - no início financeira, agora também económica - se desenvolve e se aprofunda, mais nítida se torna a percepção pela opinião pública de que se andou a brincar com a globalização.
Mais prosaicamente, andou-se a brincar com o fogo.
Os principais responsáveis por esta situação são inegavelmente os governos dos países mais ricos – em particular dos EUA e dos estados europeus - que, desde os anos oitenta do século passado apostaram em competir entre si para reduzir as defesas das respectivas economias em face dos choques provocados pela rápida mundialização económica e financeira.
Foi assim que se liberalizou sem regras o comércio mundial, que se desregularam os mercados monetários e financeiros, permitindo a especulação desenfreada tanto entre moedas como entre activos financeiros, que se concedeu plena liberdade de manobra ao poder das multinacionais e se fez proliferar os off-shores.
Ao mesmo tempo, a opinião pública era intoxicada com campanhas entoando loas à globalização, campanhas que eram em grande parte impulsionadas pelos governos e organizações internacionais (FMI, OCDE, União Europeia, etc).
Para agravar ainda mais as responsabilidades das autoridades, basta verificar que estas nem sequer podem invocar ignorância ou ausência de alternativas. Não faltaram, com efeito, avisos sobre os efeitos negativos da globalização descontrolada.
E basta recordar o desprezo irónico e desdenhoso com que as autoridades encararam propostas sérias de reforma como a célebre “taxa Tobin”, destinada a reduzir os fluxos de capitais especulativos, para avaliarmos o acréscimo de responsabilidade que recai sobre essa constelação de governos.
O caso europeu é especialmente notável.
O Acto Único Europeu de 1987, que apontou para a realização do mercado interno comunitário e o Tratado de Maastricht em 1992, que criou as actuais instituições europeias na área da economia, foram os instrumentos que tornaram os cidadãos dos estados europeus completamente indefesos face à globalização e ao desemprego.
Estou profundamente convicto que não se trata de invenção demagógica, mas de uma realidade palpável o facto de, no domínio económico, e desde 1992, as instituições europeias actuarem sobretudo em benefício das empresas multinacionais.
Quem conhece, por exemplo a actuação concreta da Comissão Europeia em questões económicas ou a evolução dos critérios do Tribunal de Justiça em questões de concorrência e ajudas de Estado, sabe que tem sido efectivamente assim.
Sem um protesto sequer dos governos, que deveriam defender os interesses das respectivas actividades produtivas nacionais.
Coisas semelhantes verificaram-se por toda a parte. Mas o que torna o caso europeu especialmente repulsivo é que tudo isto foi feito – em nome do controlo da globalização!
Quando é certo que foram as instituições comunitárias a trazer o vendaval da globalização descontrolada para as nossas portas.
Mas conforme reza o final de um velho aforismo “não se pode enganar toda a gente durante todo o tempo”. Por isso, as opiniões públicas europeias - que já se tinham manifestado negativamente em alguns referendos - à medida que a crise se desenrola, vão sedimentando a sua convicção de que têm sido profundamente enganadas.
Talvez esta evolução seja de bom augúrio.
Será porventura a forma de voltar atrás e reencaminhar a integração europeia no sentido de criar efectivamente as instituições que permitam proteger os cidadãos dos choques da globalização.
Caminho que tem de contar com um papel mais importante das políticas definidas a nível nacional.
A forma mais insidiosa de desproteger os cidadãos no espaço europeu face ao poder das multinacionais e dos especuladores tem sido a de reduzir as autonomias dos estados membros em benefício de um inaceitável centralismo a nível europeu.
Bastou o desencadear da crise para verificarmos que a única protecção com que os cidadãos de facto podem contar é a que é prestada pelo respectivo Estado.
Está aí uma nova realidade, que torna caduco, ainda antes de existir, o Tratado Reformador, cuja intenção era perpetuar as instituições comunitárias responsáveis pelo actual desastre económico.
Possa esta nova realidade criar as condições para uma nova Europa." (*)
(*) - João Ferreira do Amaral - in Revista Tempo Livre, n.º 201, Fevereiro de 2009, Fundação INATEL - Lisboa - Portugal.
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terça-feira, 17 de março de 2009
A Lição de Kinshasa (África - República Democrática do Congo)
... uma inesquecível lição ministrada por cento e setenta almas, alegremente - e harmoniosamente - irmanadas pela energia irreprimível do espírito humano, ali, um pouco acima de Angola, à beira do grande rio Congo, na luxuriante cidade africana de quotidianos agrestes...
Sabiam que passou a existir, pela fé, pelo engenho e pela sensibilidade desta gente admirável, uma Orquestra Sinfónica de Kinshasa? Na qual, como diz a certa altura Joséphine Matubenza, fazer música como eles a fazem é, realmente, rezar uma segunda vez.
Sabiam que passou a existir, pela fé, pelo engenho e pela sensibilidade desta gente admirável, uma Orquestra Sinfónica de Kinshasa? Na qual, como diz a certa altura Joséphine Matubenza, fazer música como eles a fazem é, realmente, rezar uma segunda vez.
"Nós rezamos", diz ela, "e depois da oração cantamos".
Escutem-nos aqui:
domingo, 15 de março de 2009
Os Cuanhamas do Sul de Angola (1 - Tradições guerreiras)

"(...) Os ambós de Angola surgiram da miscigenação de um povo de caçadores nómadas - saídos, por volta do século XVII, da Donga, no Sudoeste Africano - com pastores estabelecidos entre os rios Cunene e Cubango. Desse obscuro encontro teriam brotado as cinco tribos angolanas do grupo - Cuanhamas, os mais numerosos, e Cuamatos, Evales, Cafimas e Dombondolas -, todas aparentadas com as tribos da Ovambolândia, no Sudoeste.
Estes povos orgulhosos, de elevadíssima estatura, ocupam ainda hoje um território de planuras levemente descaídas para sul, ao correr de outeiros de contornos suaves e de enormes clareiras escavadas no chão arenoso - as chanas -, cingidas por manchas de vegetação onde sobressaem os mutiatis, as acácias e os espinheiros.
Na época seca as chanas revestem-se de tufos de arbustos mirrados e de mantos de capim ressequido. Quando dominam as chuvas, de Outubro a Maio, a correnteza do rio Cuvelai transpõe as margens baixas e derrama-se pela terra sequiosa, inundando as depressões. Numa explosão deslumbrante de odores e de verdes, as chanas transformam-se numa intrincada rede de lagoas, cujas águas, agitadas por turbilhões de peixes e de rãs, escorrem de modo quase imperceptível para sul, isolando as povoações e os homens, rumo à grande cova de Etosha, na Namíbia.
Dedicando os dias à caça, à agricultura de subsistência e, sobretudo, ao pastoreio de numerosas manadas de gado bovino, os Ambós aguardavam com ansiedade a chegada do tempo seco, a meio do ano, para soltarem o poderoso impulso da sua vocação guerreira. Capitaneados pelos lengas - chefes-de-guerra e conselheiros dos sobas -, realizavam expedições de guerrilha e saque num raio de centenas de quilómetros.
Ficaram sobretudo memoráveis as incursões dos Cuanhamas. Eles optavam com frequência por surtidas limitadas a oeste - na direcção do Humbe, da Camba ou do Quiteve -, e a nordeste, no país dos Ganguelas. Noutras ocasiões ousavam levar as razias a locais tão remotos como o Quipungo e Caconda, onde os brancos saídos do mar se esforçavam por firmar posições.
Armados até aos dentes, os guerreiros viajavam protegidos por amuletos suspensos dos pescoços - chifres de bambi recheados de cinzas obtidas dos destemidos corações de companheiros mortos em combate. Beneficiavam ainda da protecção do ondiai, um homem de virtude e magia.
O ondiai caminhava na dianteira com a sua moca enfeitiçada, coroada por uma pele de focinho de hiena. A moca girava no ar, apontando em todas as direcções, livrando a expedição de perigos potenciais e fazendo com que se erguesse, quando necessário, um vento forte e rumoroso, que abafava os passos dos guerreiros.
Depois de homenagens rituais aos antepassados, as hordas caíam como maldições sobre os aldeamentos desprevenidos, espalhando o pavor e a morte. Retornavam quase sempre em triunfo aos eumbos, com ricos espólios de escravos e gado. (...)". (*)
(*) - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - José Bento Duarte - Editorial Estampa - Lisboa - 1999)
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