quinta-feira, 12 de junho de 2008

Pedro I de Castela e Leão (1.ª Parte) - Cruel ou Justiceiro?


Estátua de Pedro I

Pedro I de Castilla y León (Burgos, 1334 - Montiel, 1369), apelidado El Cruel pelos seus detractores, El Justiciero por seus partidários.
Era filho de Alfonso XI, El Onceno, e de Maria de Portugal (filha do rei português Afonso IV, o Bravo).
Reinou de 1350 a 1369, ano em que morreu às mãos do seu meio-irmão Enrique, conde de Trastâmara, que seria o futuro Enrique II de Castela e Leão. Pedro I foi o último soberano da Casa de Borgonha.


Contam-se coisas horrendas do seu reinado, muitas delas talvez exageradas pelos inimigos que acabaram por vencê-lo. Na infância foi ignorado pelo pai, e aí residirá a origem da iniludível distorção da sua personalidade.
O português João Afonso de Albuquerque foi seu valido, uma espécie de primeiro-ministro, e torna-se por vezes impossível determinar onde termina a vontade de um e começa a do outro. Acabaram desavindos, com Albuquerque metido na conspiração que haveria de conduzir (já depois da morte dele) ao inglório fim do soberano.

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" (...) No começo do seu reinado, Pedro I de Castela relaciona-se com o po­der como se mal acreditasse nele, como se a faculdade de mandar lhe fosse estra­nha e a tivesse re­cebido apenas de empréstimo. O seu vulto é ainda impreciso, quase desaparece no quebra-luz das velhas crónicas, enquanto ele se vai recom­pondo dos anos em que, sendo herdeiro da Coroa, o trataram como se não fosse nada.

Uma vez no trono tolera que se sirvam do seu punho para subscreverem as decisões, deixa que lhe utilizem a figura, a legitimidade e o prestígio do sangue que tem nas veias. O poder verdadeiro reside, em parte, na influência da mãe, que lhe aparou os medos, os despeitos e os fantasmas de uma infância de en­jeitado. Mas só em parte. Porque a força maior, e genuína, procede da inteligência, do engenho e do pulso de ferro com que o português João Afonso de Albuquerque dá corpo àquilo que entende necessário para tornar Pedro um rei vigoro­so e indiscutido. Por mais ou menos três anos o reizinho e o seu ministro são historicamente insepa­ráveis um do outro.

Como qualquer valido de um monarca tão poderoso, Albuquerque tem as costas largas. Assumirá deste modo, no juízo severo de alguns vindouros, não apenas as próprias responsabilidades, mas também as alheias. Ele age com in­des­mentível fidelidade à causa de Maria, a rainha viúva, e defende com intransigência o re­bento desta. O zelo posto na missão será de tal ordem que até Afonso IV de Portugal, que vo­tou ao pai de Albuquerque o ódio que sabemos, o reconhecerá a seu tempo.

Os con­se­lhos do valido são de uma dureza por vezes incomo­da­tiva? Não pode negar-se. Mas ao incitar o rei a proceder desta ou daquela forma, ele escolhe ca­minhos de autoridade semelhantes aos que se percorre­ram em Portu­gal, em Aragão e, até – lembremo-nos do defunto El Onceno -, no próprio reino de Castela. Nos sangrentos lances iniciais do novo reinado, o valido portu­guês, que conhece como poucos a personalidade do monarca, in­s­pira, sugere, persuade. Pedro escuta-o, conde­scende, autoriza to­dos os gestos. Mas, nalgu­mas ocasiões, saboreia, com evidente autonomia, o espectáculo do pavor, do vexame e do padecimento dos outros. (...)

Pode afiançar-se que não foi Albuquerque quem fez nascer em Pedro o que este exibirá mais tarde à vista de todos: o feitio desconfiado, o carác­ter volúvel, a astúcia maldosa, a insânia passional, o vício da crueldade, a volúpia das matanças.
Um dia, séculos após a morte deste rei, alguns sábios irão arrancar-lhe o esqueleto ao negrume bafiento do túmulo para perscrutarem as juntas dos ossos, os ângulos da face, as pro­porções do crânio. E afirmarão, depois de maduramente remexerem e reflectirem, que o homem a quem tais restos pertenceram foi, sem sombra de dúvi­da, um anor­mal. Pode ser que sim. Pode ser que as explicações se achem gravadas nestes despojos amarelentos. Como pode ainda suceder que a verdade se oculte nas histórias contadas pelos cronistas portugueses acerca dos demónios à solta no útero embruxado de Maria de Portugal, durante aquele Agosto longínquo de Burgos. Mas será porventura mais crível que as ra­zões se descubram na consanguinidade das ligações que deram origem a este rei­. Ou na sua infância transtornada, durante a qual o vimos gatinhar pelos bastidores do palco ibérico, atrás das saias, da revolta e do pranto da mãe re­pudiada.

Nada disto deve com justiça assacar-se a João Afonso de Albuquerque: nem as dimensões insólitas de um crânio; nem as travessu­ras avulsas de um bata­lhão de diabretes; nem o perigoso cruzamento de parentescos próximos; nem a se­creta e precoce maturação de um psicopata.
Acreditemos que o valido nada tem de santo. Todavia, postado diante da velha nobreza castel­hana, turbu­lenta e indócil por tradição, ele é um político próprio do tempo, um agente eficaz do seu rei, recorrendo a uma violência feroz, mas usual, neste século XIV manchado de trevas.

Durante perto de três anos, e pelo menos à superfície, Pedro e Albuquerque convivem uni­dos e concordan­tes. O ministro aplica-se na construção de um trono ab­soluto, cuidando, pelo reizinho, dos de dentro e dos de fora. Em 1351 e 1352 as cortes de Valladolid legislam, de forma notável, sobre a organi­zação social, a segurança e as actividades económicas de Castela. As relações com Por­tugal estreitam-se num encontro, promovido pelo valido em Ciudad Rodrigo, entre Pedro e o seu avô materno, Afonso IV.

Garante-se o sossego com Navarra e Aragão. De Granada não há nada a temer. E, como se viu, as oposições mais preocupantes estão liquidadas ou reduzidas à im­potência. O sangue que espirrou em Talavera de la Reina, em Burgos e em Aguilar constitui um aviso tremendo e fun­ciona como poderoso dis­suasor de quais­quer impulsos de rebeldia. Até os bas­tardos de Leonor de Guzmán se avizinham, submissos, do trono. Enrique de Trastâmara chegou a refugiar-se em Portugal depois do caso de Talavera, mas Afonso IV interce­deu por ele junto do neto castelhano e, por agora, as coisas sossegam e compõem-se.

O peso e o valimento do fidalgo português afiguram-se, assim, seguros e está­veis. Mas, numa altura incerta deste período inicial - que se estende de 1350 a 1353 -, alguma coisa se modifica no íntimo do rei em relação ao seu ministro. Al­buquerque sente que o terreno que pisa junto do monarca se está a tornar movediço.
Quando é que as coisas se alteraram? E o que foi que se passou? Ignora-se ao certo. Mas o mais provável é que estejamos perante um pro­cesso gra­dual.

Pedro começa porventura a contemplar o ministro com outros olhos quando toma consciência de que a fonte do poder é ele próprio, o rei, e não a sua mãe ou o valido.
Em Burgos, na câmara da morte de Garci-Laso, a rainha viúva optou por sair de cena e ninguém se atreveu a mexer um dedo apesar da impaciência do ministro - ficaram todos à espera das palavras do reizinho, as únicas que conside­ravam, de facto, decisivas. Este processo, repetido em diferentes ocasiões, contribui para incutir em Pedro a confiança e a sobranceria que, a prin­cípio, ninguém lhe descobre. De humilhado e esquecido ele ascende a todo-pode­roso e temido, um ser tocado por Deus, diante de quem qual­quer pessoa, pequena ou importante, dobra o joelho e a vontade. Pedro pode ter levado algum tempo a compenetrar-se disto, mas tal acaba, natural­mente, por acontecer.

Maria de Padilla

O que precipita o agravamento das relações do monarca com o seu ministro é a influência de uma mulher. Significativamente, não se trata daquela que o valido consegue arranjar a Pedro na corte francesa, durante o período das cortes de Valladolid. Com efeito, Albuquerque, apoiado por Maria de Portugal e pelo bispo de Palência, ajusta o casamento de Pedro com uma sobrinha do rei de França, filha do duque de Bourbon. Mas essa união com a menina Blanche, que acabará por consumar-se em 1353, não passa de um enlace polí­tico, chave de uma aliança franco-castelhana supostamente vantajosa para o Reino. Por tal motivo, não se espera que Pedro diga que sim ou que não: ele acata o com­binado com alguma indiferença, como compete a qualquer cabeça coroada di­ante de um negócio favorável ao trono.


É à margem destas manobras diplomáticas que o rei depara, nos seus iti­nerários, com uma jovem, miudinha de corpo mas cheia de encanto, que se lhe apodera do coração. Sucede o caso nos finais da Primavera de 1352, quando Pedro, interrompendo por uns tempos o cerco a Coronel, acorre às Astúrias para fazer face ao desassossego do bastardo Enrique. De passagem por Saha­gún, ele demora o olhar em Maria Díaz de Padilla, uma menina criada na companhia de Isabel de Menezes, esposa de Albuquerque.


Opinar-se-á mais tarde que o encontro terá resultado de um expediente do valido, desejoso de colocar gente de confiança na intimidade do rei. Não há provas disto, sendo talvez mais provável que Albuquerque esteja a facilitar, com uma donzela conhecida, a iniciação amorosa de um reizinho pouco vivido. É de qualquer modo um tio de Maria - Juan Fernández de Hinestrosa - quem a traz à presença de Pedro. A partir deste momento, que para os dois jovens parece ter sido de mágico e definitivo fascínio, nada tornará ao que era dantes. Maria de Padilla já não deixa o monarca: com ele viaja pelas Astúrias e pelas fronteiras de Aragão, e com ele desce à Andaluzia, onde Pedro vem rematar o assunto de Coronel. Por ocasião da morte deste, Maria de Padilla acha-se em Córdova, quase no termo de uma gravidez que, dentro de poucos dias, oferecerá ao rei, neste ano de 1353, a sua primeira filha, Beatriz.

Pouco depois do parto, Maria de Padilla transfere-se com Pedro para Torrijos, poucas léguas a noroeste de Toledo. O clima é de risos e de festa, e, nesta espécie de irrealidade, ninguém parece lembrar-se de que existe um compromisso sério com a França e com a menina Blanche de Bourbon. Nos finais de Fevereiro cai em Torrijos a notícia de que a noiva gaulesa chegou com o seu séquito a Valladolid. Acompanhada da nata da nobreza castelhana, ela espera que o monarca se digne vir ao seu encontro. Pedro, consternado, não se mexe. A demora é tanta que Albuquerque resolve dirigir-se a Torrijos para o convidar a cumprir os seus deveres.

Neste momento é já visível a mudança de atitude do soberano para com o ministro - uma distância ostensiva, uns laivos de enfado, talvez alguma desconfiança.
Maria de Padilla, amada e omnipresente, acabou por se impor no espírito de Pedro, e, em torno deste, enquista-se uma nova corte de favoritos, nem mais nem menos do que os familiares e os amigos de Maria. Aqui temos os seus irmãos - Diego Garcia de Padilla e Juan Garcia de Villagera. Ali, o tio Hinestrosa. Acolá, os amigos dos manos - Juan Tenório e Suer Pérez de Quiñones. E muitos outros se irão insinuando no espaço que outrora pertenceu a João Afonso de Albuquerque e à rainha-mãe.

O valido insiste com o rei: é urgente partir para Valladolid, onde se celebrará o casamento com Blanche. Pedro vai recalcitrando, reflecte em cada palavra e em cada gesto o efeito dos gestos e das palavras que recebeu de Maria de Padilla e dos conselheiros mais recentes. O problema de Albuquerque torna-se insolúvel, pois nenhuma mulher apaixonada suporta ver no homem amado, seja qual for a razão, influência maior do que a sua. Maria de Padilla, e os seus amigos, consideram que o valido é um obstáculo a suprimir para que o futuro possa pertencer-lhes.

Pedro está, sem dúvida, enamorado - e comporta-se como tal. Mas qual é a escolha que se lhe oferece?
Ou vai por Maria de Padilla ou vai por Albuquerque, não existem mais alternativas. Num lado tem ele o afecto e os mimos de uma doce jovenzinha, servidos num clima de alegre distensão. No outro aborrecem-no as frias razões de Estado, a incomodidade dos objectivos, a secura de sentimentos.

Junto da pequena e bonita Maria, Pedro acredita que os horizontes do poder têm os limites da sua vontade. À sombra do valido, austero e determinado, o espaço de manobra contém-se em fronteiras apertadas, as opções não abundam, o caminho tem sentido único. Portanto, assim que Maria sussurra e sugere alguma coisa, o rei deixa-se embalar pela sabedoria eterna e anestesiante da sedução feminina - e obedece mesmo quando pensa que manda. Com Albuquerque principiam as discordâncias e faísca o choque de vontades, naturais no processo de educação de um monarca absoluto.
A escolha de Pedro está feita, e, para ele, Albuquerque já acabou - embora o ministro não o saiba ainda." (...) (*)

(*) José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - Lisboa - 2003
(CONTINUA)

domingo, 8 de junho de 2008

(Carlos Drummond de Andrade) (Brasil) - Ao Amor Antigo


O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede.
Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.


O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.


Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.


Mais triste? Não.
Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 1 de junho de 2008

Pintores da Península Ibérica (Espanha) - Antonio Abellán

O Mercado








Quarteto de Jazz








Dia de Praia









A Despedida








Eva








Chuva na Cidade








Os Três Amigos








Leitores de Jornais









Jogadores de Xadrez








A Ceia









O Baile








A Boda







O Baptizado








A Família no Sofá







As Três Idades

(Carlos Drummond de Andrade) (Brasil) - A Casa do Tempo Perdido


Bati no portão do tempo perdido,
ninguém atendeu.
Bati segunda vez e outra mais
e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade;
a outra metade são cinzas.

Casa onde não mora ninguém,
e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater.
O eco devolve minha ânsia de entreabrir
esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.

(Carlos Drummond de Andrade) (Brasil) (1901-1987)

domingo, 25 de maio de 2008

Genial George Gershwin: "Summertime"


Uma das mais belas canções que alguma vez se compuseram.
Digna de que uma tripulação de astronautas algum dia a transporte através do espaço para a deixar depositada, em homenagem ao génio humano, num qualquer longínquo recanto do cosmos - algures numa galáxia muito, muito distante...

Extraída de "Porgy and Bess", do inesquecível George Gershwin.
Cantada pela soprano Renée Fleming.
Metropolitan Opera Orchestra, de New York, dirigida por James Levine.

Aqui:


Angola Eterna - (Na Pintura de Neves e Sousa) (3)

Sanzala do Galangue








Varrer das Cinzas, Luanda







Pesca da Tuqueia
Anharas Inundadas pelo Zambeze (Moxico)








Mata do Dundo








Matebas do Cuamato








Mulola ao Entardecer








Pacaça

(De uma exposição da Sanzalangola)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Eterna Edith Piaf (1915-1963) - Non, Je Ne Regrette Rien...



Aqui:


Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait, ni le mal
Tout ça m'est bien égal

Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé

Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n'ai plus besoin d'eux
Balayés mes amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro

Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien ...
Ni le bien, qu'on m'a fait
Ni le mal, tout ça m'est bien égal !
Non ! Rien de rien ...Non !
Je ne regrette rien ...
Car ma vie, car mes joies
Aujourd'hui, ça commence avec toi !


Baptista-Bastos - Onde Está o Lado Certo?

"(...) Vivemos, desde a década de 80, um novo período de sufocação, que se manifesta em vários sectores: desemprego, emigração, esvaziamento ideológico e ausência da política, economia, justiça, cultura, educação.
Há, hoje, dificuldade em escolher o que se julga ser o lado certo onde se deve estar.
E essa dificuldade serve de pretexto para as mais vis renúncias, e de condescendência para com sórdidas traições.

Inculcaram-nos a ideia de que Portugal é inviável e de que somos um povo de madraços.
Como já poucos lêem o que deve ser lido, a afirmação fez fé.
Mas não corresponde à verdade.

Recomendo aos meus dilectos alguns autores antagonistas da absurda tese: Vitorino de Magalhães Godinho, José Mattoso, Luís de Albuquerque, António Borges Coelho e, até, António José Saraiva.
Todos interpelam o País, criticam-no porque o amam, e ensinam-nos que o passado altera-se de todas as vezes que o lemos e interrogamos.
O lado certo está, creio-o bem, quando recusamos a indiferença e não admitimos a resignação."

(Excerto de uma crónica de Baptista-Bastos no "Diário de Notícias", Lisboa, de 21 de Maio de 2008)
(Foto de Alba Luna)

domingo, 18 de maio de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (X) - (Al-Mutamid)

 
A Amada

Ó minha eleita sem par
de entre toda a humanidade:
estrela! lua a brilhar!
haste erguida e escorreita
gazelita no olhar.

Da flor tu és o alento
és a brisa perfumada,
minha dona, meu sustento,
e grilheta bem-amada.

Cego ficaria e surdo
para que fosses resgatada,
chama-me que logo acudo.

Diz: quando será curada
a ardência do meu coração
com o fresco toque dos dentes
que na tua boca estão?

(Al-Mutamid - n. Beja em 1040; f. Marrocos em 1095)

sábado, 17 de maio de 2008

Homenagem a Mário Viegas (1948-1996) - "Manifesto Anti-Dantas"


Lisboa. Corria o ano de 1972, nos tempos quase finais da guerra colonial portuguesa. Era ele aspirante-a-oficial-miliciano quando pela primeira vez o descobri, na sala de aulas de um quartel de Lisboa, empoleirado numa daquelas mesas enormes de tampo esverdeado, debitando poemas vibrantes para uma classe de cadetes extasiados.

Era suposto que ele nos transmitisse uns quaisquer segredos vitais sobre logística, sobre depósitos de víveres, sobre tabelas alimentícias, sobre transportes em zonas de conflito.
Quem teria sido o distraído, ou o ingénuo, que se lembrou de fazer do Mário Viegas um instrutor de guerra? Como seria de prever por quem o conhecesse minimamente, jamais se preocupou com o que pretendiam dele os senhores do quartel. Mário andava o mais arredio que imaginar se possa de qualquer vestígio de ordem castrense. Assim, nas provas por que era responsável, toda a gente copiava, alegre e impunemente, rumo a classificações de brilho.

Ficou-me dele a lembrança da simpatia, da solidariedade, da rebeldia, do comentário pronto, solto e corrosivo sobre os ridículos e as injustiças do mundo. E ficou-me também a recordação (terá ficado em todos nós) da espantosa capacidade de declamação com que, do cimo daquelas grandes mesas de tampo verde, nos ofertava poema atrás de poema.

Como sucedeu, certa vez, com esse inesquecível Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, que ele arremessava em altas vozes aos "Dantas" que, na sua opinião, deambulavam por aquele mundo cinzento.
E que serve, ainda hoje, a todos os "Dantas" que andam nefastamente por aí (por muito injusto que isso possa ser para a memória do homem de sensibilidade e de algum talento que foi, de facto, o "autêntico" Júlio Dantas da cultura portuguesa).

Pode ouvir Mário Viegas aqui:


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Mário Viegas segundo outros:
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Mário Viegas (1948-1996) é considerado um dos melhores actores portugueses da sua geração. Tendo iniciado a sua carreira aos quinze anos de idade, deixou-nos consideráveis e extraordinários testemunhos do seu amor pela arte, assim como do seu esforço, sem dúvida bem sucedido, para fazer um trabalho de qualidade.

"Era um poeta, um homem que dizia poesia de uma forma admirável. Era um grande actor e encenador e teve sempre uma liberdade de espírito e um poder criativo extraordinário. Quem não se lembra da tão recente e espantosa criação, continuamente renovada, que foi o espectáculo «Europa não! Portugal nunca!!»?
Mário Viegas sempre deu o seu testemunho sobre a vida social e política e, além de criador, foi um homem muito inserido no seu tempo, que deixa uma grande obra."
(Jorge Sampaio, Presidente da República, citado in A Capital, 1 de Abril de 1996).

Mário Viegas, encenador, actor, declamador de raro talento, interiorizou a poesia como poucos. Improvisou textos extraordinários, deu a conhecer autores, disse o que tinha a dizer de Portugal e do mundo. Fez da sua vida um poema de luta pelas ideias.
Com radical desprezo pelo poder, foi Rei das Berlengas e amante de Beckett, dos palcos, das palavras, do vinho e da verdade.

Entre o Teatro, a Poesia (intitulava-se "recitador"), o Cinema, a Televisão e a actividade política e cultural, os 47 anos de vida de Mário Viegas geraram riso e choro, amores e ódios.
Homem profundamente culto e consciente do mundo em que vivia, o espectador recorda-o como Artista, mas também pela sua permanente atitude de critico implacável e pelo seu característico estilo de humor.

"1 Abril de 1996. Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas a um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargo da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto."
José Saramago (in Cadernos de Lanzarote)

Nas suas primeiras férias de Natal, após ter ingressado no Colégio Internato Pio XII, em Lisboa, e ter passado o primeiro semestre longe de casa, Mário Viegas anunciou aos pais: "Matriculei-me no Conservatório".
Em meados dos anos 60, num país em plena guerra colonial e governado por uma ditadura já bolorenta, uma declaração destas poderia parecer bombástica. Não foi o caso. António Mário Lopes Pereira Viegas, que na altura era ainda o António, filho varão de uma linhagem de farmacêuticos do lado paterno, não ouviu nenhuma reprimenda.
O pai disse-lhe que esta era uma decisão dele.
A mãe exclamou: "Eu ficaria admirada se não tivesses tomado esta decisão".
O teatro era o caminho mais que natural para quem, no seu diário, aos treze anos de idade, escrevia que o seu sonho era ser actor. Naquela noite de Natal, António ainda ouviu da mãe: "Que faças o melhor".
As palavras revelaram-se quase proféticas. Raul Solnado - o único que poderia ocupar, na história do teatro português contemporâneo, o lugar do filho de Francisco e Mariana Viegas - sempre disse: "Ele é o melhor actor da nossa geração".

Espírita por convicção, apesar da educação católica, Mário Viegas sempre acreditou nos desígnios da sua família. No seu livro auto-photo-biográfico, com apenas duzentos exemplares editados, conta a história da sua família, tanto do lado do pai como da mãe.
Mário Viegas, que morreu há cinco anos, dizia ser a encarnação do seu trisavô paterno, o famoso actor Francisco Leoni, fundador do Teatro da Trindade.

Do lado da mãe, a história é mais comprida. O seu tio, António Cardoso Lopes Júnior, foi o fundador da famosa revista de banda desenhada "O Mosquito", pioneira em Portugal.
A sua mãe, Mariana, aos dezoito anos, foi convidada pelo irmão para dirigir o suplemento feminino da revista, denominado "A Formiga". Assinava como Tia Nita e chegava a dar aconselhamento às muitas cartas de raparigas que chegavam à redacção. Pela sua tenra idade, nunca se deu a conhecer.

Com esta tradição de família e um ambiente propício, era natural que Mário Viegas já brincasse aos quatro anos de idade com os fantoches que a mãe lhe dera. Não era criança para brincar de carrinhos e passava os dias a ler, fechado no quarto e a ensaiar as vozes das personagens que imaginava.
Inventou o Teatro ABC, criava as personagens e desenhava os cartazes das peças de escrevia, espalhando-os pela casa. Já aos dez anos de idade, não havia festa ou sarau em Santarém que não fosse convidado para apresentar o seu teatro, sempre auxiliado pela sua irmã mais velha, Hélia Viegas.

Nos seus 47 anos de vida, Mário Viegas fundou várias companhias de teatro - entre elas a "sua" Companhia do Chiado -, contracenou com Maria do Céu Guerra, fez inúmeras sessões públicas com Zeca Afonso e outros cantores de resistência, trabalhou com Carlos Avilez e encenou peças de vários autores, com especial ênfase para a obra de Samuel Beckett.

No cinema, encarnou "Kilas, o Mau da Fita" (um dos filmes portugueses mais vistos de sempre), trabalhou com Manoel de Oliveira e contracenou com Marcelo Mastroianni e Victoria Abril.
Na televisão, atingiu grande popularidade com o programa "Palavras Ditas", entre 1978 e 1982. Ao longo da sua vida, gravou catorze discos de poesia, onde declamou mais de 200 versos de Almada Negreiros, Alexandre O'Neill, Pablo Neruda, Ruy Belo, entre muitos outros.

Nos seus últimos anos de vida, Mário Viegas não parou de surpreender. Autor de seus próprios textos, concebeu "Europa, Não! Portugal Nunca!!", um espectáculo em forma de conferência de imprensa onde personifica um pseudocandidato à Presidência da República.

Levou tão a sério a sua preocupação com o estado geral do País, que participou nas eleições legislativas de 1995 como candidato independente pela UDP. Um ano antes, era galardoado por Mário Soares, então Presidente da República, com a Ordem do Infante D. Henrique.

Dois meses antes da sua morte, a 1 de Abril de 1996, Mário Viegas entregou o seu espólio pessoal a sua sobrinha, com quem viveu os seus três últimos anos de vida. Ana Viegas é a filha que o actor não teve, nas palavras de sua mãe. Pressentindo o fim da sua vida, ensinou à sobrinha o que fazer com o material que acumulou, deixando instruções por escrito. Nos quadros de que tanto gostava, escreveu por detrás: "Este quadro custou tanto, se um dia venderem, não se deixem morder", conta a mãe Mariana.

Mesmo vivendo em Lisboa, Mário Viegas vinha sempre aos fins-de-semana à casa de família, pois "tinha saudades do seu quarto de garoto".
Este quarto, onde ainda estão as suas almofadas, os seus quadros, os seus livros, é hoje o lugar em que a sua mãe gosta de sentar para escrever, à mesma secretária onde o filho criou as suas peças na infância. Foi neste lugar que escreveu a "última carta ao filho", que será o prefácio do catálogo da exposição que o Museu Nacional do Teatro está a preparar sobre a vida do filho famoso."

(Alexandre Cavalcante)

Pintores da Península Ibérica (Portugal) - Roque Gameiro (2)

Ilustrações para o romance de Júlio Dinis
"As Pupilas do Senhor Reitor":
























































quinta-feira, 15 de maio de 2008

Esmeralda



De Maria José Nogueira Pinto, um artigo de hoje no Diário de Notícias.

Esmeralda

Sempre que vejo o nome da criança nos jornais sinto um aperto mitral, uma mistura de angústia e vergonha.
Esmeralda tornou-se conhecida pela sua má fortuna desde que, vista como uma res nullius, foi dada ao pai biológico por um juiz que pensou ser um qualquer deus, ao ver nesse pai faltoso um seu filho pródigo e por isso merecedor de extrema benevolência para com a sua consciência, forçada e tardia, dos deveres da paternidade. Desde então, Esmeralda tornou-se uma criança-objecto que agora mandam ir para ali, que agora mandam ir para acolá, que agora, afinal, mandam esperar mais um bocadinho.

Os pais afectivos, que são afinal os pais do coração, viraram a sua vida do avesso para poupar Esmeralda às consequências de uma sentença mal dada e lutam por ela, que se não pode defender, contra aqueles que, supostamente e em nome do Estado, deviam pôr o seu interesse e bem-estar acima de tudo.
Tantos anos depois de se ter conseguido despertar as consciências para os direitos das crianças privadas de um meio familiar adequado, de se ter levado a cabo esforços legislativos para conseguir uma Lei da Adopção que combinasse segurança e celeridade, de se ter verbalizado a preocupação do número crescente de crianças institucionalizadas é inquietante que uma coisa destas possa ainda acontecer.

Dir-me-ão que o juiz não estava familiarizado com a matéria, que nem todos o tribunais têm juízes que dominem a filosofia e os princípios que presidem ao enquadramento jurídico dos menores.

E eu pergunto, que culpa tem a Esmeralda por o seu caso ter ido parar ao Tribunal da Sertã? Vamos, por esse facto, consagrar uma tão iníqua quanto comprometedora desigualdade de oportunidades?

Convém lembrar que o casal de acolhimento era, também, um casal adoptante, já que, pouco antes da fatídica decisão de atribuir o poder paternal ao pai biológico, os competentes serviços da Segurança Social tinham iniciado o processo de confiança judicial com vista à adopção de Esmeralda.
Este casal tinha, pois, sido avaliado e considerado idóneo, ao mesmo tempo que a mãe biológica reconhecia ser este o melhor destino para a filha.

Não se previa que um pai ausente, forçado a ver a sua paternidade reconhecida por via judicial, que nunca manifestara interesse pela criança, que nunca cuidara, ao que se sabe, da companheira durante a gravidez, que as deixara entregues à sua sorte viesse a ser considerado por um juiz como o pai ideal.

E porque estas questões são muito sérias e complexas, ouviram-se, e bem, os especialistas, psicólogos, pedopsiquiatras, técnicos de Serviço Social que, em uníssono, alertaram para os riscos que tal decisão acarretaria para a criança.

Porque foi tudo, então, inútil?

Este caso gera necessariamente um sentimento de profunda inquietação: pela alea na decisão judicial; pelo desencontro entre os serviços da Segurança Social e os tribunais que, nestes casos, deviam andar de braço dado; porque em Portugal aumenta o abandono e a institucionalização das crianças e o modo como funcionam os tribunais é decisivo para minimizar os danos emergentes. Que expectativas podem elas ter?

Mas o mais grave é o facto de ser possível, a quem está investido de poder público para o fazer, decidir sobre a vida de uma criança sem ter em devida conta dois princípios fundamentais: o seu melhor interesse e o respeito pelo seu tempo útil. É que nenhuma sentença pode atropelar, mesmo que seja por uma interpretação muito restrita, aquilo que é o objectivo principal do legislador: dar à criança o futuro a que tem direito e não submetê-la a experiências ou a tentativas que, com grande probabilidade, a magoarão irremediavelmente.

Não há por que dar uma oportunidade a um pai inexistente se, para isso, se retira à criança a sua única oportunidade.

E, sobretudo, não há por que gastar quatro dos seis anos de vida da Esmeralda, dois terços da sua existência, numa série de más práticas.

Vejo com expectativa que o Tribunal de Torres Novas deu seguimento aos pedidos de alteração do poder paternal.
Oxalá, agora, chamem o Rei Salomão.

sábado, 10 de maio de 2008

A Grande Música de Isaac Albéniz (Espanha) - "Astúrias"





A passagem do tempo mais não fez do que robustecer as lendas que correm sobre a vida de Isaac Albéniz (1860-1909), um dos mais brilhantes compositores espanhóis, autor da zarzuela Pepita Jiménez e de Ibéria, a sua obra-prima.
A precoce genialidade e as histórias fantásticas que se lhe atribuem fizeram dele uma figura enigmática.

Isaac Albéniz nasceu em Camprodón, Catalunha, em 29 de Maio de 1860. Menino prodígio, deu o primeiro concerto aos quatro anos. Aos sete foi-lhe recusada a admissão no Conservatório de Paris, pela pouca idade, acabando matriculado no Conservatório de Madrid.
Fugiu de casa e acabou por se esconder num navio com destino à América Central para escapar à perseguição dos pais. De lá foi para os Estados Unidos, onde ganhou a vida tocando em público.
Voltou para a Europa, onde conseguiu entrar, em 1874, para o Conservatório de Leipzig, Alemanha, como aluno de Jodassohn e Reinecke.
Voltou depois a Espanha, recebendo do rei uma bolsa que lhe permitiu continuar os estudos no Conservatório de Bruxelas.

Em 1878 recebeu lições de Liszt, cuja influência se fez sentir na técnica das suas peças mais importantes para piano.
Depois de acompanhar Rubinstein numa excursão artística pela Europa e América, em 1880, ganhando grande reputação como pianista, foi ensinar em Barcelona.
Em 1883 casou-se com Rosina Jordana e, em 1885, voltou para Madrid.Em 1893 Albéniz estabeleceu-se em Paris, decidido a aperfeiçoar cada vez mais a sua técnica de compositor, recomeçando a trabalhar com d'Indy e Dukas, e assimilando os processos impressionistas de Debusssy e Ravel.

Em 1898 apareceram-lhe os primeiros sintomas da doença de Bright (problema renal), da qual viria a morrer, em Cambo-les-Bains, nos Pirinéus, em 18 de maio de 1909.
Pianista famoso, Albéniz foi, como compositor, um dos que iniciaram na Espanha a criação de um estilo musical nacional, baseado nos ritmos e motivos populares. Influenciou, por exemplo, a obra de Manuel de Falla.
Como outros jovens compositores espanhóis da época, seguiu Felipe Pedrell (1841-1922) no culto de uma arte musical genuinamente espanhola.
O poema sinfónico Catalunha (1899) e a colecção de peças para piano Ibéria (1906-1909) são as suas obras mais características.

John Williams, o virtuoso australiano de guitarra clássica, faz-nos, com "Astúrias", uma demonstração da genialidade criativa de Isaac Albéniz.

Pode ouvir aqui:

quarta-feira, 7 de maio de 2008

(Daniel Filipe) - Em Teu Macio Olhar...

Em teu macio olhar
repousa o meu.
E na face polida,
assim formada,
se reflecte e recria
o próprio céu.

(Daniel Filipe)
(Cabo Verde - 1925-1964)

sábado, 3 de maio de 2008

(Pietro Mascagni) - "Intermezzo" de "Cavalleria Rusticana"

Uma virtuosíssima interpretação deste "Intermezzo" de Pietro Mascagni (Compositor italiano. Nasceu em 1863 e faleceu em 1945).
Lim Kek-tjiang conduz a Evergreen Symphony Orchestra.

Aqui: