sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Onde estão os neoliberais? (*)

"Onde estão os neoliberais, que ninguém os ouve?
Há meses reclamavam, sem cessar, "menos Estado", mais privatizações.
Nada de constrangimentos, de regras éticas, nem de serviços públicos.
O importante era "reduzir os impostos", "deixar o mercado funcionar", quanto menos intervenções públicas, melhor.
A "auto-regulação do mercado", dirigida pela "mão invisível", era bastante, o ideal.
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Privatizar os serviços de saúde (uma invenção socialista),
a segurança social,
as águas,
os cemitérios,
os correios,
os transportes;
pôr gestores privados a gerir os parques nacionais,
privatizar as pousadas,
recorrer a "seguranças privados", mesmo em estado de guerra, como no Iraque;
privatizar, privatizar...
.
Os políticos - e a política - que não alinhassem passaram a ser uma praga, uma arqueologia, vinda de outros tempos, o bom mesmo eram os negócios, quanto mais melhor, a especulação - os políticos nos negócios e os negócios na política - os paraísos fiscais, ganhar dinheiro, a qualquer custo o dinheiro como o supremo valor das sociedades ditas livres e o mercado, "teologizado", como o Deus ex maquina do progresso.
As regras para o funcionamento do mercado eram velharias obsoletas.
A própria "democracia dita liberal" escorregou, a pouco e pouco, para a plutocracia.
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E a pobreza? Os pobres? Os operários, os camponeses, os empregados, as próprias antigamente chamadas classes médias?
Deixados entregues à sua sorte, sujeitos à regra da selecção natural, a chamada lei da selva, em que os mais fortes (os ricos) devoram naturalmente os mais fracos (os pobres)...
Quando muito, as almas sensíveis, que não compreendiam o "espírito do tempo", tinham a caridade, um recurso que não prejudicava o sistema e fazia bem às almas...
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Assim, o capitalismo americano, na sua fase financeira-especulativa, guiado pela ideologia neoliberal, fortalecida com o colapso do comunismo, influenciou fortemente the way of life americano, a ponto de conduzir a América do Norte às portas do descalabro financeiro e da recessão económica (Bush dixit).
Tendo, ao mesmo tempo, efeitos muito negativos na Europa, inclusivamente na esquerda, chamada "terceira via" de Blair e dos seus adeptos...
E começa a contaminar todo o mundo.
Os maiores bancos e seguradoras - coisa nunca vista, desde 1929 - entraram em falência técnica, devido, em parte, à avidez dos subprime (...), ameaçando engolir no descalabro as economias dos que neles confiaram.
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Resultado: o recurso ao Estado (que heresia para os neoliberais!), como no caso das catástrofes naturais, como o Katrina, por exemplo.
Quem paga?
O Estado, quando os privados fogem e assobiam para o lado...
Assim surgiu o plano Paulson, feito e refeito, sob a égide de Bush - que aceitou tudo - para salvar o sistema.
Mas será que o plano, mobilizando 700 mil milhões de dólares, vai resolver alguma coisa? Ou tenta apenas salvar o sistema, nesta situação única de aperto?
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Ora o que está podre, a agonizar, é justamente o capitalismo, na sua fase financeira e especulativa.
É isso que se impõe mudar,
regularizando a globalização,
acabando com os paraísos fiscais, fonte das maiores especulações,
introduzindo regras éticas estritas,
preocupações sociais e ambientais
e, como disse o "extremista" Sarkozy, no seu discurso de Toulon, "metendo na cadeia os grandes responsáveis das falências fraudulentas".
Haverá coragem para o fazer e modificar profundamente o sistema?
Eis o que não está ainda nada claro, quer na América quer na Europa (...)"
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(*) - (Mário Soares, ex-Presidente da República e ex-Primeiro Ministro de Portugal - Diário de Notícias, Lisboa, 7 de Outubro de 2008).

sábado, 4 de outubro de 2008

Namoro Angolano


Aqui, pelo magnífico Fausto:

Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
eu disse que ela tinha
um sorrir luminoso
tão quente e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
espalhando diamantes
na fímbria do mar
e dando calor
ao sumo das mangas.


Sua pele macia - era sumaúma…
Sua pele macia, da cor do jambo,
cheirando a rosas,
sua pele macia
guardava as doçuras
do corpo rijo
tão rijo e tão doce -
como o maboque…
Seus seios, laranjas -
laranjas do Loje,
seus dentes… -
marfim…


Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
Por ti sofre o meu coração
Num canto - SIM,
noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.


Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo,
pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro…
E ela disse que não.


Levei à Avó Chica,
quimbanda de fama,
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
forte e seguro
que nela nascesse
um amor como o meu…
E o feitiço falhou.


Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar
e um anel
e um broche,
paguei-lhe doces
na calçada da Missão,
ficámos num banco
do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos…
falei-lhe de amor…
e ela disse que não.


Andei barbudo,
sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
“-Não viu… (ai, não viu…?)
não viu Benjamim?”
E perdido me deram
no morro da Samba.


Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sô Januário
mas ela lá estava
num canto
a rir
contando o meu caso
às moças mais lindas
do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba -
dancei com ela
e num passo maluco
voámos na sala
qual uma estrela
riscando o céu!
E a malta gritou: “Aí Benjamim !”
Olhei-a nos olhos -
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo -
e ela disse que sim.

["Namoro" - de Viriato da Cruz, poeta de Angola. Nasceu em Kikuvo (Porto Amboim) em 1928. Faleceu na China (Pequim) em 1973].

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Era uma Vez na América ... - Cartazes de Publicidade Antiga (2)

(01) - 1930








(02) - 1954








(03) - 1942








(04) - 1940








(05) - 1958









(06) - 1948









(07) - 1940









(08) - 1959









(09) - 1954








(10) - 1955








(11) - 1940









(12) - 1955








(13) - 1940









(14) - 1950









(15) - 1949









(16) - 1950








(17) - 1952










(18) - 1950








(19) - 1940








(20) - 1955









(21) - 1952









(22) - 1953








(23) - 1957








(24) - 1959









(25) - 1952

sábado, 27 de setembro de 2008

A Inquisição em Portugal (Por Oliveira Martins) (1)


"A Inquisição, ardentemente desejada e pedida por D. João III ao Papa, estava fundada; e se a criação do tribunal era o único meio de conter e moralizar os furores fanáticos da turba, e de evitar o sistema de matanças e pilhagens do reinado anterior, é fora de dúvida que os nervos da nação (Portugal), já flácidos e podres, não podiam usar, de um modo relativamente justo, a arma terrível que lhes era confiada . (...)

 
(...) Os seus processos infringiam todas as regras elementares da justiça e do bom-senso.

Os delatores serviam de testemunhas; os filhos depunham contra os pais, os pais contra os filhos; o réu não podia comunicar com os defensores nem conhecia quem o acusava; a delação era aplaudida e a espionagem considerada uma virtude.

Os "familiares" insinuavam-se nas famílias, como médicos, confessores, íntimos e conselheiros, para captarem os segredos e os delatarem.

Na sentença não havia revisão nem apelação.

Nas prisões não havia prazos preventivos, e o encarcerado jazia meses, anos, todo o resto da vida muitas vezes, ignorante do crime de que o acusavam.

Armavam-lhe laços e perfídias para o perder.

Metiam-lhe no cárcere pessoas subornadas, que se diziam também pacientes, para o afagarem e se condoerem da sua miséria.

Ganha assim a confiança, começavam as confidências: a Inquisição era um horror, uma peste! E se o miserável, perdido, aplaudia, estava condenado. Para lhe obter a confissão de faltas, imaginárias frequentemente, os inquisidores fingiam enternecer-se, prometiam perdões, ajudavam, seduziam, até que o miserável confessasse o que fizera, ou não fizera.

Esta espécie de tortura era muitas vezes mais dolorosa do que a outra; e os infelizes encarcerados chegavam a considerar um céu o calabouço negro, onde lhes não era dado nem ver, nem falar, nem gemer, nem chorar, sob pena da chibata do verdugo. No seio da treva e do silêncio absoluto, nem bem sabiam se viviam ou tinham morrido, e, como idiotas, deixavam-se ficar estendidos no chão, imóveis, no antro dos seus sepulcros.

Cada vez que a porta do cárcere se abria, estremeciam de medo, ou de uma esperança meio-apagada. Levavam-nos amarrados à casa dos tormentos; e enquanto iam descendo as escadas tortuosas, onde os gritos se perdiam abafados, o juízo ardia-lhes, confundiam-se-lhes as ideias, já não distinguiam do real o suposto.

Começavam a crer-se monstros, a acreditar em tudo aquilo de que eram acusados: tinham visto o diabo em pessoa, tinham-lhe vendido a alma, tinham partido com um machado um crucifixo, etc.

O inquisidor, frio e fúnebre, sentado ao fundo da casa de abóbada, mal alumiada por tochas presas em anéis de ferro às paredes, acreditaria no diabo e nos seus aparecimentos? Porque não? Um doido torturava um idiota; e, no fundo escuro de uma cripta, a loucura dos homens tinha os seus ágapes terríveis.

Demónios pareciam os verdugos, mudos e mascarados, com o capuz e samarra de holandilha preta, onde havia os buracos dos olhos e da boca, movendo-se como autómatos a preparar os instrumentos da tortura.

E de toda aquela gente, nem talvez o médico, a um lado, a observar que a vida dos pacientes se não apagasse de todo, tivesse o juízo são.

Desde que os homens se tinham considerado senhores da verdade absoluta, a palavra de Deus enlouquecia-os e fazia deles monstros.

Nessas tragédias lúgubres morria por vezes o miserável, na tortura ou no cárcere; e então era enterrado nas covas do palácio, sendo primeiro o esqueleto dscarnado, religiosamente, para que os ossos pudessem figurar no Auto-da-fé próximo, queimados na fogueira.

O primeiro desses dramas fúnebres e burlescos teve lugar em Lisboa no dia 20 de Setembro de 1540: ainda a Inquisição não estava definitivamente confirmada pelo Papa.

A procissão saía do palácio do Rossio, para a praça da Ribeira, onde tinha lugar a cerimónia.

Vinham à frente os carvoeiros, armados de piques e mosquetes para olhar pelas fogueiras; depois um crucifixo alçado, e os frades de S. Domingos, nos seus hábitos e escapulários brancos, com a cruz preta, levando o estandarte da Inquisição, onde numa bandeira de seda se via a figura do santo, tendo numa das mãos a espada vingadora, na outra um ramo de oliveira: Justitia et Misericordia.

Após os frades seguiam as pessoas de qualidade, a pé; familiares da Inquisição, vestidos de branco e preto, com as cruzes das duas cores, bordadas a fio de ouro.

Depois vinham os réus, um a um, em linha; primeiro os mortos, depois os vivos: fictos, confictos, falsos, simulados, confitentes, diminutos, impenitentes, negativos, pertinazes, relapsos - por ordem de categoria dos delitos, a começar nos mortos e nos contumazes.
Em varas erguidas como guiões, (...) penduravam-se as estátuas dos condenados ausentes; e se a estátua representava o morto, outro verdugo seguia após ela com uma caixa negra pintada de demónios e de chamas, contendo os ossos, para serem lançados aos pés da estátua na fogueira. Mais de uma vez se queimaram esqueletos desenterrados de pessoas que, imunes durante a vida, foram julgadas e condenadas depois de mortas.


Em seguida vinham os réus vivos, por ordem crescente de gravidade dos crimes, sem distinção de sexos, um a um, com o padrinho ao lado, ou com o confessor domínico se iam a queimar.
Os homens vestiam um fato raiado de branco e preto; as mulheres apareciam em longos hábitos da mesma fazenda. Traziam todos tochas de cera amarela na mão e o baraço ao pescoço. Insígnias diferentes distinguiam os que iam ao fogo, dos penitentes e dos confessores. Estes vestiam o sambenito, espécie de casula branca, com as cruzes de Santo André, vermelhas, no peito e nas costas; e levavam a cabeça descoberta.

Os que depois da sentença tinham obtido perdão da fogueira, levavam samarra, uma casula parda; e carocha, uma mitra de papelão; e numa e noutra, pintadas, línguas de chama invertidas, o fogo revolto, a indicar a sua sorte.

Os condenados à morte, quer para serem estrangulados, quer não, levavam na samarra e na carocha o retrato pintado, ardendo em chamas, com demónios pretos pelo meio, e o nome escrito, e o crime por que padeciam.

Depois da estirada procissão, vinham os alabardeiros da Inquisição, e, a cavalo, os oficiais do conselho supremo, inquisidores, qualificadores, relatores e mais sequazes da corte. Os sinos dobravam pausadamente nas torres das igrejas. A turba apinhava-se nas ruas, insultando os pacientes com palavras desonestas e atirando-lhes pedras e lama."

(Continua no post de 30-Novembro-2008)

(Oliveira Martins - História de Portugal - 1.ª ed. - 1879)

domingo, 21 de setembro de 2008

Era uma Vez na América - Cartazes de Publicidade Antiga (1)

1932 - Chevrolet








1933 - LaSalle Seven-Passengers Sedan








1936 - Comet








1937 - Cadillac - Fleetwood Series 75








1937 - Posto de Abastecimento








1941 - Lincoln-Zephir









1942 - Harvesting America's Heaviest Crop








1946 - International Harvester








1946 - Great Northern Railway








1947 - Autocar








1947 - Dodge








1948 - Hiawatha Skytop Lounge








1949 - Dodge








1950 - Southern Pacific Sunset Limited








1950 - Chevrolet








1951 - Cadillac Series 60 Special








1951 - Chevrolet








1953 - Bower Roller Bearings








1953 - Milwaukee Road Hiawatha Super Domes








1954 - Chevrolet








1955 - Chevrolet









1956 - GM Detroit Diesel








1959 - Ford Country Squire









1960 - Pontiac Bonneville Sports Coupé








1960 - Pontiac Bonneville Convertible








1960 - Ford Courier Sedan Delivery