Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
sábado, 19 de julho de 2008
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Nelson Mandela, 90 anos - Feliz Aniversário, Senhor África!
"Nelson Mandela fez hoje 90 anos.
Quando foi libertado no início de 1990, os directos da televisão revelaram-nos, enfim, a cara, o corpo, a pose do mais célebre dos prisioneiros políticos de todo o mundo. Dos seus 27 anos de cativeiro não havia nenhuma imagem recente, e especulava-se então, através de desenhos e simulações fotográficas, como seria na actualidade o homem que simbolizara não só a longa luta contra o apartheid mas também a força exemplar da resistência humana contra a injustiça e a opressão.
Na redacção do Público, estávamos ainda na fase frustrante dos ‘números zero’, esperando que as condições técnicas para o lançamento do jornal se encontrassem finalmente reunidas, mas a libertação de Mandela era o grande destaque da edição do dia seguinte, redigida e paginada como se fosse ‘a sério’.
Quando Mandela apareceu no televisor ao lado da mulher com quem estava então casado, Winnie, de punho erguido mas caminhando com dificuldade, a emoção que percorria as dezenas de olhos postos no ecrã foi toldada por um calafrio: aquele homem que nos habituáramos a ver como um herói lendário era, afinal, um ancião a quem parecia faltar o fulgor e a energia para a ‘missão impossível’ que o aguardava. Mas estávamos enganados.
Se Nelson Mandela é hoje unanimemente reconhecido como a maior autoridade moral do nosso tempo – com uma dimensão equivalente à de Gandhi – é porque ele encarnou, como nenhum outro líder vivo, a intransigência radical na luta por uma causa nobre e a capacidade quase sobre-humana de ultrapassar as humilhações e ofensas sofridas em nome dela – em suma, esse dom normalmente atribuído apenas aos santos: o de vencer o ódio e preconizar o perdão.
Sem Mandela, a África do Sul teria dificilmente escapado à catástrofe de uma vingança sangrenta que destruiria o país. Com ele, foi possível lançar as bases de uma sociedade pós-racial – o impulso que torna hoje possível um fenómeno como o de Barack Obama.
Evidentemente, a actual África do Sul está longe, muitíssimo longe de ser aquela com que Mandela terá sonhado: é um país dividido por tremendas desigualdades e conflitos, devassado pela criminalidade violenta nas grandes metrópoles, e onde o espectro do racismo perdura entre etnias e homens da mesma cor.
O líder que recusou cumprir mais de um mandato presidencial, confirmando com isso o seu desapego do poder, teve como sucessor alguém que representa, em larga medida, o seu retrato em negativo: o medíocre e pusilânime Mbeki, que persiste em caucionar essa vergonha maior para a honra dos africanos que é a condescendência com o ditador demente do Zimbabué, Robert Mugabe. Não por acaso, entre as raras vozes que em África se levantaram vivamente contra o escândalo, estava justamente a de Mandela (sem esquecer a de outra grande figura moral sul-africana, o arcebispo Desmond Tutu).
Mandela lançou a semente, abriu uma porta – para o horizonte da humanidade, não apenas para um continente – mas seria impossível pedir-lhe que, apenas com a inspiração do seu exemplo, tivesse resgatado a África das desgraças que ameaçam devastá-la. Imagina-se o que Mandela deve sofrer por causa disso nestes últimos anos de vida. Mas é ele próprio que obstinadamente recusa o estatuto de homem providencial (tendo-o sido, embora, para a liquidação pacífica do apartheid). Ele considera-se não um missionário nem sequer um ideólogo, tão só um político que conduziu a sua acção para atingir um determinado objectivo.
O jornalista Richard Stengel, actual director da Time, que nos anos 90 colaborou estreitamente com Mandela na redacção da sua autobiografia (O Longo Caminho para a Liberdade), escreve na última edição daquela revista um longo artigo sobre as lições de liderança do primeiro presidente negro sul-africano. Ora, o que talvez pareça mais surpreendente é verificar como, entre essas lições, o pragmatismo e o sentido táctico do antigo prisioneiro do apartheid se revelam indissociáveis da sua grandeza moral para libertar a África do Sul de um regime opressor e desumano.
Mandela não é, conforme confessa, um super-homem que desconhecesse o medo ou um político que menosprezasse a persuasão pelo charme, pelo sorriso (caloroso, inconfundível), para cativar inimigos, adversários ou rivais. Mas para não aparecer vulnerável ao medo e ser eficazmente persuasivo, esforçava-se por transmitir aos outros uma imagem permanente de serenidade e confiança: era esse talvez o segredo essencial da sua leadership. Além disso, não prescindia de procurar todos os consensos possíveis antes de tomar uma decisão e aceitava com naturalidade as opiniões contrárias à sua e ser vencido por elas.
Intransigente e indomável nos princípios, Mandela nunca admitiu negociar a sua libertação em troca de qualquer renúncia. Mas soube antever o momento e a necessidade dos compromissos quando percebeu que ganhara o combate contra o apartheid. E porque a sua própria dolorosa experiência de reclusão lhe tinha ensinado que nada de humano pode ser construído sobre o ressentimento, o ódio e a vingança.
Mais do que herói ou santo laico, Mandela será, sobretudo, o testemunho vivo de uma Humanidade que não desistiu de o ser e se revê no seu exemplo (ou noutros, poucos, como os dos europeus Havel ou Geremek, falecido esta semana num desastre).
Parabéns pelos seus 90 anos, senhor Mandela. E obrigado por nos ter ensinado a ser humanos."
(Vicente Jorge Silva)
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domingo, 13 de julho de 2008
A Grande Música do Mundo - Fuga Con Pajarillo (de Aldemaro Romero)
Aldemaro Romero foi um compositor venezuelano. Nasceu em 1928 e faleceu em 2007.
Pode ouvir a sua "Fuga com Pajarillo" na versão da Orquestra Sinfónica del Valle (Colômbia), conduzida por Sergio Bernal.
Aqui:
… ou na do Ensemble Instrumental du Léman, dirigido por Frank Rodriguez-Freitas. Aqui:
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O Homem - As Viagens (Carlos Drummond de Andrade)
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria
e pouca diversão,
faz um foguete,
uma cápsula,
um módulo,
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua
Lua humanidade:
tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte -
ordena a suas máquinas.
Elas obedecem,
o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte
com engenho e arte.
Marte humanizado,
que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho sofisticado e dócil.
Vamos a Vénus.
O homem põe o pé em Vénus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.
O homem funde a cuca
se não for a Júpiter
proclamar justiça
junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto repetitório.
Outros planetas restam
para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol
ou dá uma volta só pra te ver?
Não vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé:
mas que chato que é o Sol,
falso touro espanhol domado.
Restam outros sistemas
fora do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem (estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão do seu coração
experimentar colonizar
civilizar
humanizar o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene,
insuspeitada
alegria de conviver.
(Carlos Drummond de Andrade - Brasil)
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domingo, 6 de julho de 2008
Os primeiros anos de vida do rei D. Carlos de Portugal (1863-1908)

Nascido no dia 28 de Setembro de 1863, seria assassinado em 1 de Fevereiro de 1908, juntamente com o seu filho e sucessor Luís (1887-1908).
Sucedeu-lhe um outro filho, Manuel, que foi o último rei de Portugal (D. Manuel II, deposto pela revolução de Outubro de 1910).
Estas fotos documentam os primeiros anos de vida de D. Carlos. Era filho do rei D. Luís I e da rainha D. Maria Pia de Saboia.

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domingo, 29 de junho de 2008
sábado, 21 de junho de 2008
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Mulher Cuvale Pensativa - (Angola, Namibe)
Manuel Moraes, que eu já não via há décadas, surgiu de súbito das profundezas mais recônditas da minha infância e visitou-me outro dia na Torre, presenteando-me, na ocasião, com esta bela recordação de mulher cuvale pensativa.
Para retratá-la, com mão de mestre (que herdou de seu pai), decerto se inspirou naquilo que foi a sua (nossa) vivência mais recuada, contida entre os areais fulvos do deserto de Moçâmedes (Namibe, Angola), as cordilheiras vertiginosas e luxuriantes da Chela e uma correnteza de ilusões à desfilada.
A milhares de quilómetros daqui - tão longe e tão perto.
Na Torre, entretanto, a mulher cuvale vai persistindo fixamente no curso dos seus pensamentos, entre estantes perfiladas de lombadas, a caravela altaneira, o búzio luzidio, o Afonso Henriques belicoso, o perspicaz Rip Kirby, o São Martinho e o seu dragão, o garboso guerreiro lusitano, o cavalo Bucéfalo...
Mergulhada num mundo atravessado por sombras de passados distantes, estranhos e míticos - que é preciso recolher, tratar e divulgar...
Mergulhada num mundo atravessado por sombras de passados distantes, estranhos e míticos - que é preciso recolher, tratar e divulgar...
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domingo, 15 de junho de 2008
(José Gomes Ferreira - Portugal) - Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir na chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
(José Gomes Ferreira) (1900-1985)
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Mário Quintana (Brasil) - Palavras Soltas ao Vento
à vista de um macaco,
não é que ele tenha sido nosso passado:
é este pressentimento
de que ele venha a ser nosso futuro.
Quando completei quinze anos,
meu compenetrado padrinho
me escreveu uma carta muito,
muito séria:
tinha até ponto-e-vírgula!
Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.
Escadas de caracol
sempre são misteriosas:
conturbam...
Quando as desce,
a gente se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa.
Hoje me acordei pensando
em uma pedra numa rua de Calcutá.
Numa determinada pedra numa rua de Calcutá.
Solta.
Sozinha.
Quem repara nela?
Só eu, que nunca fui lá.
Só eu, deste lado do mundo,
te mando agora esse pensamento...
Minha pedra de Calcutá!
Era um grande nome;
ora que dúvida!
Uma verdadeira glória.
Um dia adoeceu,
morreu,
virou rua...
E continuaram a pisar em cima dele.
Como seriam belas
as estátuas equestres
se constassem apenas dos cavalos!
(Mário de Miranda Quintana foi um poeta, tradutor e jornalista brasileiro. Nasceu em Alegrete na noite de 30 de Julho de 1906 e faleceu em Porto Alegre, em 5 de Maio de 1994).
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