domingo, 11 de novembro de 2007

Reabilitação de uma Figura Portuguesa do séc. XIV - A Rainha Leonor Teles de Meneses


Leonor Teles de Meneses, que foi esposa do rei D. Fernando de Portugal, é uma das figuras mais vilipendiadas da História de Portugal. Mas as páginas de Fernão Lopes, que continuam a ser a fonte principal para o seu conhecimento, e alguns documentos avulsos sepultados nos arquivos de Portugal e de Espanha, encerram matéria bastante para uma reconstrução mais justa desta personalidade incomum.

Surgiram ultimamente algumas obras ficcionadas sobre Leonor Teles - que, infelizmente, e devido ao grau de liberdade que constitui direito de todo o romancista, acabam por distorcer irremediavelmente, ainda que no intuito de a favorecer, a personagem em causa (relembrem-se, a propósito deste tema do chamado "romance histórico", os nossos comentários de 14 de Julho de 2007).

Podem no entanto seleccionar-se acerca desta figura dois livros sérios e credíveis, editados há relativamente pouco tempo.
Um é o de Manuel Marques Duarte (Leonor Teles - Campo das Letras - Porto - 2002), que se centra exclusivamente, como o próprio título indicia, sobre a história da rainha. Trata-se de obra documentada, muito trabalhada, assente em fontes consultáveis e, sem dúvida, útil a quem queira aprender sem distorções.

A outra obra não-ficcionada é a de José Bento Duarte (Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - 2003), que abrange um período mais extenso e se debruça sobre uma galeria de personagens portuguesas e castelhanas, no período de viragem da 1.ª para a 2.ª dinastias lusitanas, culminando no momento-chave da batalha de Aljubarrota.

É deste último livro que apresentamos alguns excertos sobre a figura que nos ocupa.

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"Leonor Teles de Meneses, que é uma das figuras mais enigmáticas e interessan­tes do Portugal medieval, permanece até hoje recordada como a mulher má por ex­celência. O seu vulto desliza contraditório e irregular pelas memórias, ora baço e débil, ora nítido e forte, por­ventura adulterado num ou noutro episódio mais obscuro. Já sentimos isto com Leonor de Guzmán, com Inês de Castro, com Constanza Manuel, com Maria de Padilla.

Os primeiros cronistas escreveram pouco, e pela rama, sobre as perso­nagens femi­ninas. E quase sempre lhes emprestaram o seu próprio modo de pensar e de sentir, que é escorrido, directo, masculino e, portanto, inadequado. Mas sejamos jus­tos: ainda que eles quisessem perceber mais, cairiam no risco de se desorientarem em labirintos de sombras impenetráveis.
Leonor, como todas as mu­lhe­res, defende-se, ora silenciando a sua verdade ora exprimindo-a por sinais contradi­tórios, en­cobrindo a fantástica complexidade de um espírito insuspei­tado dos homens.

As mulheres procedem assim, por instinto, desde o co­meço - para resisti­rem, para contornarem, para sobre­viverem. E, sem que os desti­natários muitas vezes dêem por isso, para conduzirem. A maior influência delas, como se sabe, não lhes nasce apenas do encanto natural ou da incomparável capacidade de amar, assenta so­bretudo no seu mistério. Num mundo ordenado por homens, as mulheres só impe­ram, de facto, quando li­vres para subtilmente administra­rem o seu poder se­creto – e é por isso que as pai­xões, desde que autênticas e dura­douras, as expõem e as tornam tão vulneráveis.

Neste ano de 1371, no viveiro feminino da infanta Beatriz, a jovem Leonor Teles começa a revelar-se. E o que se lhe descobre não é paixão nem vulnerabilidades, é uma determinação granítica e a crença inabalável de que se acha à beira de um destino grandioso. Tem a seus pés um homem de belas feições, esbelto, abastado e poderoso. E este homem - ele, sim, desvairado pela paixão -, desde que conduzido como se impõe, pode sentá-la a seu lado no trono de Portu­gal.

Tudo leva a crer que ela tenha contado com a cumplicidade activa dos paren­tes no astucioso processo de sedução do rei. O conde de Barcelos, e a sua família, detêm já uma influência enorme entre a nobreza superior do Reino. Contudo, nos tempos incertos que vão correndo, convém-lhes consolidar e acrescentar o pode­rio.

A ma­nobra parece ter-se iniciado com a viúva Maria Teles, irmã de Leonor. Maria fala com Fernando, este responde a Maria, esta insiste com Fernando - e Leonor sempre à distância, como quem espreita e aguarda. Maria deve ter agido como diligente leva-e-traz nestas falas com o rei. A suas palavras soam amiúde a re­cados certei­ros, e, aos poucos, percebe-se que o monarca se encaminha para onde Leonor quer que ele esteja.

Seguem as coisas neste pé quando chegam embaixadores e recados da Beira remota: João Lourenço da Cunha, senhor de Pombeiro, roído de saudades ou já desconfiado por tamanho atraso da sua jovem e fresca esposa, chama por ela, roga-lhe que não demore mais a viajar até aos pinheirais e aos campos de Arganil, banhados pelas águas cantantes do Alva.
Cuidados de João Lourenço, agonias de Fernando: o rei cai em grande desassossego, consome-se numa espécie de febre, já se não pode imaginar sem a mulher que o enfeitiçou. Pede então que mintam ao senhor de Pombeiro, sugere que lhe mandem dizer que Leonor está doente e que não pode viajar.

Com a situação mais do que madura, as duas manas - Maria e Leonor - levam o caso ao conde de Barcelos, seu tio. João Afonso Telo dirige-se ao rei, dizem que para procurar demovê-lo da sua ideia fixa. Mas sabe-se como trabalham as paixões contrariadas: quanto mais lhe dizem que não, mais o enamorado se inflama. Considerando por outro lado o que está em jogo, podem pôr-se em dúvida as reticências do conde. E é provável que também a infanta Beatriz - decerto acostumada, no seu pequeno mundo de segredinhos rendilhados, a estas voltas sentimentais - colabore na conspiração de amor que envolve o régio irmão.

De súbito, tudo se precipita. Em Pombeiro da Beira, João Lourenço da Cunha vê-se de súbito descasado com fundamento nuns vagos parentescos com sua formosíssima mulher. Convicto de que este rei não é homem em quem se possa confiar, ele considera mais prudente mudar-se para Castela. O pequeno Alvarinho é enjeitado pela mãe. E, num dia do segundo semestre de 1371, em presença dos conspiradores, efectua-se o casamento - por enquanto quase clandestino - do rei com Leonor Teles de Meneses. E é certo que, antes que el-rei dormisse com Dona Leonor, a recebeu por mulher na presença de sua irmã e de outros que esta coisa traziam calada.

Neste episódio de interesses e seduções cada um cumpre o seu papel, e Leo­nor Teles desempenha perfeitamente o seu. Não a tomem, contudo, como mero instrumento das conveniências políticas e económicas da família ou da no­breza a que pertence. Na decisão e no frígido calculismo ela de­monstrará, agora e durante o resto da sua carreira, o nervo de uma personalidade indomável e, aqui e ali, uns laivos de grandeza.

Leonor tem um fito, uma ambição dourada, uma grande vontade de poder e, naturalmente, as ilusões próprias de uma mulher tão jovem e de tão esplendorosa beleza. E actua em conformidade. Quando aceita livrar-se do velho fidalgo beirão com quem lhe forçaram um casamento de utili­dade, ela não faz mais do que rebelar-se contra o destino pardacento e desencantado a que a conde­naram. Na época, quase todas as mulheres da sua condição se conformam com si­nas destas, para ficarem depois tristemente murchando no resto das su­as vidas. Leonor não é como elas. Os horizontes serranos de Arganil são amenos, poéticos e cativantes, mas são também apertados para a dimensão dos seus sonhos. Resolve, então, caminhar para a luz e para a liberdade de escolha, e, ganhando assim direito ao seu destino, trans­forma-se numa mulher que antecipa os tempos. (.....)

Leonor Teles terá de facto amado Fernando? É muito de duvidar. Ao princípio talvez se afirme nela um certo deslumbramento face ao porte físico deste pretendente na força da vida - ele conta então vinte e seis anos - e, sobretudo, di­an­te dos jorros de luz que o envolvem. Não esqueçamos que um rei é sempre um rei, e a gloriosa luminosidade que irradia do trono antigo de Fer­nando parece exercer sobre Leonor um fascínio hipnótico.

Oliveira Martins, criador inspiradíssimo de quadros impressivos, supõe que ocorreu nesta união uma espécie de troca de papéis e de condições: ela conquistou-o por­que ti­nha o génio de um homem; e o segredo dessa aliança tenaz (...) está na in­versão das pessoas e dos sexos. Ela fez-se rei; ele tornou-se a amante, passiva, indo­lente, sensual.
A imagem é daquelas que marcam e que ficam, mas é também, pro­va­velmente, imprecisa e pouco justa – para as mulheres em geral e para Leonor em par­ticular.
Fernando não deixa nunca de ser o homem deste célebre casal. O que sucede é que ele se conduz como os homens de muitos outros casais: é assustadiço, dependente, le­viano e, acima de tudo, manejável.

Leonor Teles, por seu turno, não perde jamais a feminilidade. O que ela demonstra é a fibra de uma mulher de coragem, ciente do que quer e do que é preciso fazer para o obter e, mais importante ainda, quase ferozmente decidida a impor-se.
O futuro confirmará que estamos perante uma personalidade fortíssima. E, não sendo impossível, custa a crer que uma tal criatura se deixe prender por laços de prolongado e genuíno amor a um homem como Fernando, especialmente depois de descobrir nele, com a passagem dos di­as, a frouxidão e a volubilidade do carácter. Neste caso, quem ama, de certeza, é o rei. Ela parece que só o tem como aliado in­dispensá­vel à concretização dos seus sonhos. (.....)

(Nota da Torre: Fernando, rei de Portugal, marido de Leonor Teles, morreu. João de Avis, que manobra decidido para ocupar o trono português, está à cabeça dos revolucionários de Lisboa, secundado por Nuno Álvares Pereira.
A regente Leonor Teles de Meneses, que tem a filha - Beatriz - casada com rei Juan I de Castela, refugia-se em Santarém com os partidários. O genro castelhano, de quem ela muito desconfiava, entra em Portugal à frente de um exército e vai reunir-se-lhe em Santarém.
A partir de certa altura, Leonor Teles é pouco mais do que uma prisioneira do rei castelhano. Mas uma prisioneira indomável...)

"(.....) Em Santarém, o convívio de Leonor Teles com Juan de Castela evolui para comportamentos de mútua duplicidade, pois cada um deles só pensa utilizar os préstimos do outro para alcançar os seus desígnios. No começo ainda trocam promessas e gentilezas. Mas o choque é inevitável. Não só pela secreta oposição de interesses, mas também, e talvez antes do mais, por um fatal contraste de personalidades.

O rei castelhano, débil de físico, face descorada, é piedoso e recatado. Cultiva um sentido obstinado de missão e passeia-se convicto da sua razão e dos seus direitos, orgulhoso da argúcia diplomática que o conduziu - contra a prudência dos conselheiros hesitantes - ao arranjo de Salvaterra de Magos para ganhar um reino de mão beijada.

Cioso da sua dignidade e da conveniência de maneiras, o rei Juan aceita mal as exuberâncias desta sogra sedutora - não muito mais velha do que ele -, que parece tardar a reconhecer-lhe o legítimo ascendente.
Temperada pela vida de corte onde imperou sem sombras nem rivais, Leonor Teles está habituada a levar a sua avante e jamais deparou com alguém capaz de lhe fazer frente a sério. O que Juan I tem diante de si, e que não há forma de entender, é uma mulher de gram coração - isto é, um ser voluntarioso e destemido, que usa viver e impor-se com expressões desprendidas e directas, próprias de quem costuma fazer o que muito bem lhe apetece.

Não é de estranhar que comecem a embirrar um com o outro, implicando por ninharias, embatendo ao menor pretexto. Tudo serve para alimentar estas guerrilhas palacianas. Quando Yuda e David Negro aparecem a disputar a chefia da comunidade judaica, a pequena Beatriz toma o partido do segundo, contra sua mãe, que assume a protecção do primeiro. E logo surge o rei, apressado - e talvez, também, um tanto inábil -, a contrariar a sogra, a tomar o partido da esposa-menina e a fazer de David Negro o rabi-mor.

Juan I dá-se cada vez pior com as atitudes e com a energia vulcânica de Leonor Teles, em cujo espírito refervem, pouco dissimuladas, as ambições de sempre. Às vezes, escandalizado, ele afoita-se a chamá-la de parte, ao segredo de câmaras discretas, para lhe sentenciar, no seu jeito grave e compenetrado, com a solenidade dos círios, que a uma pessoa como ela não caem bem certos modos e liberdades. Por outras palavras: o rei de Castela acha que sua sogra anda demasiado solta nas conversas e nas maneiras, impróprias de mulher viúva tão recente, ainda escurecida de lutos pelo marido.

Pode imaginar-se o efeito que tais sermões piedosos provocam nesta mulher, que, vendo bem, jamais aceitou senhorios ou ascendentes durante toda a vida. Sente-se o faiscar de vontades e de feitios, e não surpreende que depois destes duelos os dois se retirem sempre amuados um com o outro - em fim das razões, nunca se separavam muito de acordo.

Tudo isto é a capa que oculta as questões essenciais. Quem é que manda, de verdade, em Portugal? Quem é que vai mandar no futuro? E em nome de quem se fará o combate aos insurrectos de João de Avis?

À primeira vista, e pelo menos em Santarém, não parecem subsistir dúvidas. Juan I argumenta com a desistência de Leonor Teles, registada pelo tabelião. E, portanto, despacha, decide, governa com chancelaria própria e com todos os sinais que o anunciam como senhor do Reino. Mas tudo indica que o rei castelhano, que obviamente se quis servir dos bons ofícios da sogra para cativar os alcaides, acaba de arranjar em Santarém um problema grave: afastada do poder, frustrada, Leonor Teles pode tornar-se para ele num obstáculo perigoso. Ela faz, em muitas ocasiões, tábua rasa das escrituras, e é cada vez mais crível que lhe arrancaram o consentimento sob coacção ou com falsas promessas.

Em qualquer caso, o episódio da abdicação deve ter representado no seu espírito um mero expediente para ganhar tempo e novas oportunidades. Leonor não se conforma com a perda definitiva do poder, reconhece mal a autoridade deste rapazinho coroado, mas impertinente, que se atreve a falar-lhe de cima para baixo. Furiosa, considera: se o genro, nas pequenas coisas, lhe faz agora tantas desfeitas, o que acontecerá, mais tarde, quanto ao que for, realmente, importante?

Tudo indica que Leonor tenha começado ainda em Santarém a conspirar contra o genro, fazendo-lhe embora, por vezes, boa cara. Age às escondidas, empenhada numa guerra de persistência e de astúcias. Avista-se com alguns dos que lhe fizeram companhia na fuga de Lisboa, comenta-lhes as desconsiderações de Juan I, diz-lhes que deste homem pouco podem esperar - nem ela, nem eles. Vede que senhor este!, acusa, indignada. E afiança que se estivesse no lugar deles, com liberdade de movimentos, trataria de se evadir de Santarém para aderir à causa do mestre de Avis.

Diz-lhes ela: o mestre, pelo menos, é vosso natural - quer dizer, nasceu, como eles, debaixo destes céus portugueses, e nisto surpreendentemente se aproxima Leonor, ainda que por simples despeito, dos sentimentos dos humildes, que arriscam as vidas pelos seus amores da terra. E há quem a escute, quem se guie por tais conselhos, quem desampare a corte luso-castelhana do rei Juan para se juntar aos amotinados de Lisboa.

Deste modo vai Leonor Teles escavando armadilhas debaixo dos pés do genro, de quem aprendeu rapidamente a não gostar. À frente dele, e passando por cima dos amuos, ela transfigura-se, ilumina-se de sorrisos, oferece-se para o ajudar a convencer os alcaides renitentes. Mas escreve encobertamente aos mesmos alcaides a recomendar que se tranquem por trás das pontes levadiças e que não façam entrega das fortalezas, nem que ela própria lhes apareça nas imediações, com o rei de Castela, a pedir o contrário. (.....)

(Nota da Torre: Leonor Teles de Meneses acaba por perder a partida contra o poderoso genro castelhano, Juan I, invasor de Portugal. Não sem que antes, diante de Coimbra, se tenha abalançado a uma última cartada para se lhe escapar, ou, até, como há quem diga, para assassinar o rei de Castela. Este não lhe perdoou e acabou por enviá-la para o exílio em Castela, no mosteiro de Santa Clara de Tordesillas).

(.....) Assim, de todas as alternativas ao seu dispor - eliminar fisicamente a sogra, mantê-la perto de si ou condená-la ao exílio -, o rei de Castela escolheu a que, ainda que cruel e controversa, se pode encarar como mais sensata.

Deste triste modo se sumiu da cena política portuguesa a rainha Leonor Teles de Meneses, que aqui deixará, num sulco fundo e indelével, a sua lenda negra. Todavia, se nas páginas antigas se procurarem com isenção as verdades encobertas, ver-se-á que ela sobressai constantemente como uma figura notável.

Podia ter vivido como tranquila amante de um rei – quis ser rainha contra o mundo. Podia ter-se rendido à ambição casando com o assassino do seu mais fiel vassalo - escolheu a dignidade de uma recusa perigosa. Podia ter-se vendido ao mais poderoso dos ibéricos – optou por enfrentá-lo arriscando a vida num combate desigual.

Mulher mui inteira e de coração cavaleiroso, senhora de mil encantos e de astúcias subtis, ela preferiu sempre quebrar em vez de torcer. Personagem de fibra, esculpida numa só peça, não se curvou jamais diante de ninguém nem de qualquer poder político.
Se as histórias que começaram por correr em Estremoz, sobre Juan Fernández de Andeiro, possuírem alguma autenticidade, ela terá talvez cedido a um poder maior - o do amor. Insiste-se: talvez - porque não há forma séria de provar. Mas, se assim tiver acontecido e se desse modo se lhe descobrir um tão grande pecado, este é um pecado que só a faz mais humana, com aquele mesmo tipo de humanidade que lhe testemunhámos um dia em Badajoz, quando ela se separava, lavada em lágrimas, da única das suas filhas que pôde viver.

O drama de Leonor Teles, e a razão das famas ruins que deixou atrás de si, residem porventura no facto de ela ter nascido para ocupar um lugar ingrato na encruzilhada da História, o lugar destinado aos que tombam a lutar, vencidos, contra a marcha irreversível de um mundo que não aceitam. Por isso carrega ela, ainda hoje, tantas e tão graves culpas - culpas próprias e culpas alheias, culpas de ser e de não ser, de estar e de não estar, de fazer e de não fazer.

Nas linhas venerandas do maior dos cronistas lusitanos encontram-se-lhe ainda outras delicadas responsabilidades, como a de nunca mais terem as mulheres portuguesas voltado a ser o que tinham sido antes de ela ter cumprido nestes reinos a sua sina. Com Leonor Teles de Meneses assimilou a lusa humanidade feminina suas maneiras e argúcias, seus disfarces e segredos.
Oiçamos o cronista: desde que ela reinou, aprenderam as mulheres a ter novos jeitos com seus maridos, mostrando uma coisa por outra, como dantes não era costume. E assim se descobre como a difícil arte de ser mulher se fica devendo em Portugal à passagem desta extraordinária figura por aqui."

(José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - 2003)

domingo, 4 de novembro de 2007

Etosha, Namíbia - Dois Passos a Sul de Angola





"Etosha localiza-se a norte da Namíbia, antigo Sudoeste Africano, na faixa de território confinante com os limites meridionais de Angola. Consiste numa gigantesca depressão de dezenas de quilómetros, escavada na planície agreste, pincelada de tufos de capim e de vegetação rala.



Esta é uma região de contrastes e súbitas transformações, varrida por rumorosos torvelinhos de vento. Durante a maior parte dos dias, em que não chove, a lagoa conserva-se quase completamente seca. Mas no seu fundo requeimado de sol, juncado de crostas de lama endurecida, subsistem de longe em longe alguns charcos milagrosos, rasos e barrentos.

São reservas de vida, que, no entanto, se podem converter em ratoeiras de morte para os animais - gnus, zebras, girafas, antílopes - que delas se abeiram para aliviar a sede: embos­cados nas imediações durante horas longas e pacientes, os grandes felinos, como os leões e as chitas, raramente desperdiçam as oportunidades.


Nos derradeiros meses do ano instala-se a época das chuvas, anunciada por nu­vens tingidas de chumbo, baixas e pesadas, e por trovoadas estrepitosas.
Nessa al­tura, acontece o milagre.
A depressão de Etosha principia a inundar-se com as bá­tegas que desabam do céu e com os caudais de água drenados do norte, dos lados de Angola.



É então que a vida rompe, irreprimível e inesperada, de águas que se suporiam mortas. Multidões de peixes, de serpentes, de lagartos, de tartarugas, de rãs-bois, que sobreviveram à seca entranhados no subsolo húmido, fervi­lham à tona da água, nas orlas da lagoa.


Em redor vicejam capinzais a perder de vista, pintalgados de belas e delicadas flores, por onde se passeia um nervoso corrupio de animais recém-chegados. Nas águas regurgitantes de presas, bandos esfaimados de pelicanos, flamingos, capotas, garças, rolas e patos-mergu­lhões en­tregam-se a intermináveis banquetes.



Ao cabo de alguns meses, com o termo das chuvas, novo ciclo de desolação se inicia. Recomeçam então as grandes migrações das manadas, que palmilham as pistas áridas em busca de outros charcos e pasta­gens. E a vida torna a adormecer, até às próximas chuvas, no subsolo mira­culoso de Etosha." (*)

(*) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - 1999

domingo, 28 de outubro de 2007

Lugares da Península - Covadonga (Astúrias - Norte de Espanha)



A Batalha de Covadonga foi a primeira grande vitória das forças militares cristãs na Hispânia, a seguir à invasão árabe em 711.
Uma década depois, provavelmente no Verão de 722, a vitória de Covadonga assegurou a sobrevivência da soberania cristã no Norte da Península Ibérica, e é considerada por muitos autores como o ínicio da Reconquista.

Sete anos depois da invasão árabe, Pelágio das Astúrias
, um nobre descendente dos monarcas visigodos, conseguiu expulsar um governador provincial, Munuza, do distrito das Astúrias, no noroeste da Península. Conseguiu segurar o território contra inúmeras investidas dos Árabes para o recuperar, e depressa estabeleceu o Reino das Astúrias, que viria a transformar-se na região cristã de soberania contra a expansão islâmica.
Pelágio, embora incapaz de conter os Muçulmanos em muitas situações, sobrevivia e dinamizava o movimento para a Reconquista.

Após a vitória de Pelágio, as populações das vilas asturianas emergiam com as suas armas, matando centenas de mouros. Munuza, reconhecendo a derrota, organizou outra força e reuniu os sobreviventes de Covadonga. Mais tarde, iria confrontar Pelágio e o seu exército, agora aumentado, perto de Proaza.
Novamente Pelágio vence, e Munuza morre na batalha.



El valle de Covadonga se encuentra situado al Norte de los Picos de Europa, o sea entre estos y el mar Cantábrico y enclavado dentro del Principado de Asturias.
Al recoger los vientos humedos procedentes del mar recoge una gran cantidad de humedad por cuyo motivo el valle es de un verde intenso, recubierto de praderas y bosques de hoja caduca.
El hecho de estar encajado entre altas montañas y el mar propicia la aparición de nieblas matutinas que se disuelven con el calor del sol, el juego de las nieblas entre el bosque le confiere al valle un aspecto de misterio o quizás de encantamiento como si habitaran en dicho valle las brujas, las meigas o los duendes.



La historia nos cuenta que el ejercito musulman llego hasta estas tierras donde se habían refugiado un puñado de hombres que se negaban a vivir subyugados por el guerrero invasor. Dicen que un puñado de montañeses y cristianos refugiados en estas montañas y capitaneados por Don Pelayo se enfrento al ejercito invasor enviado para aplastar la rebedia de ese reducido grupo de astures.
Las tropas musulmanas que avanzaban por el valle de Covadonga fueron atacadas desde las laderas y las alturas que dominan el valle. En la cabecera del valle y en mitad de una roca vertical hay una cueva donde dicen estaba refugiado Pelayo, desde alli ataco a las tropas sarracenas derrotandolas.
Dicen que las tropas en su retirada se internaron en los Picos de Europa a traves de los Lagos de Covadonga, llegando al Cares, siendo diezmados poco a poco perdidos en esas abruptas montañas.




En la cueva donde cuenta la leyenda que se refugio Don Pelayo hay una pequeña ermita que acoje a la Virgen de Covadonga, una cascada surge de dicha cueva y cae directamente en una gran poza.
Junto a la ermita y sobre una pequeña colina que preside el valle se alza el Santuario de Covadonga, construido con una vistosa piedra rojiza que contrasta con el verde de sus praderas y bosques. Por las mañanas, cuando la niebla cubre el valle de Covadonga y los duendes juegan en el bosque, es fácil ver el Santuario de Covadonga flotando sobre la niebla, como si estuviera construido sobre el aire.



Para rememorar aquella historia el Parque Nacional de los Picos de Europa ha señalizado un sendero que enlaza los Lagos de Covadonga con el Desfiladero del río Cares, parece que sigue el recorrido original que hizo el grueso del ejercito musulman en su retirada y atraviesa bellos parajes saliendo a medio camino entre Poncebos y Cain.




sábado, 27 de outubro de 2007

Bertolt Brecht (8) - Esse Desemprego


Meus senhores,
é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda a oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores!
A todo o momento!
Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.


Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal,
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.


É preciso que nos deixem trabalhar
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Como esse desemprego!
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema,
Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é esta: o nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!


(Bertolt Brecht)

Bertolt Brecht (6) - Máscara do Mal


Na minha parede
há uma escultura
de madeira japonesa
Máscara de um demónio mau,
coberta de esmalte dourado.
Compreensivo, observo
As veias dilatadas da fronte,
indicando
Como é cansativo ser mal.


(Bertolt Brecht)

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Bertolt Brecht (5) - Privatizado

Privatizaram a sua vida,
o seu trabalho,
a sua hora de amar
e o seu direito de pensar.
É da empresa privada
o seu passo em frente,
o seu pão
e o seu salário.

E agora,
não contentes,
querem privatizar
o conhecimento,
a sabedoria,
o pensamento,
que só à Humanidade pertencem.

(Bertolt Brecht)
(Foto: A. Viana d'Almeida)

Bertolt Brecht (4) - Sobre a Violência



A corrente impetuosa
é chamada de violenta,
Mas ao leito do rio que a contém
Ninguém chama de violento.


A tempestade que faz dobrar as bétulas
É tida como violenta.
E a tempestade que faz dobrar
Os dorsos dos operários na rua?


(Bertolt Brecht)

domingo, 21 de outubro de 2007

Pintores da Península - Espanha - Diego Velázquez (1599-1660)

1 - A Rendição de Breda







2 - Velha Senhora Frigindo Ovos







3 - As Meninas







4 - O Vendedor de Água de Sevilha







5 - O Triunfo de Baco (Os Bêbedos)







6 - Papa Inocêncio X


Diego Velázquez

Pintor español, máximo representante de la pintura barroca española.
Nació en Sevilla el 6 de junio de 1599.
Procedente de una familia burguesa sevillana, fue el mayor de seis hermanos.
Entre 1611 y 1617 el joven Velázquez trabajó como aprendiz en el taller del que sería su futuro suegro, Francisco Pacheco, pintor manierista y autor de un importante tratado titulado El arte de la pintura (1649).

Durante sus años de aprendizaje, Velázquez aprendió el naturalismo tenebrista imperante en su época, derivado del realismo italiano y del flamenco.
Las obras más tempranas de Velázquez, realizadas entre los años 1617 y 1623, pueden dividirse en tres categorías, el bodegón (objetos de uso cotidiano combinados con naturalezas muertas), retratos y escenas religiosas.

Muchas de sus primeras obras tienen un marcado acento naturalista, como La comida (c. 1617, Museo del Ermitage, San Petersburgo), bodegón que puede considerarse como la primera obra independiente del maestro.
En sus bodegones, como El Aguador de Sevilla (c. 1619-1620, Aspley House, Londres) los magistrales efectos de luz y sombra, así como la directa observación del natural, llevan a relacionarlo inevitablemente con Caravaggio.

Para sus pinturas religiosas utilizó modelos extraídos de las calles de Sevilla, tal y como Pacheco afirma en su biografía sobre Velázquez. En La Adoración de los Magos (1619, Museo del Prado, Madrid) las figuras bíblicas son, por ejemplo, retratos de miembros de su familia incluido su propio autorretrato.

Velázquez fue también un pintor conocido en los círculos intelectuales de Sevilla, uno de los cuales, la Academia de Artes, fue dirigida de manera informal por Pacheco. En dichos encuentros, tuvo la ocasión de conocer a personalidades de su tiempo como el gran poeta Luis de Góngora y Argote (cuyo retrato, ejecutado en el año 1622 se encuentra en el Museum of Fine Arts Boston).

Esos contactos fueron importantes para las obras posteriores de Velázquez sobre temas mitológicos o clásicos. En el año 1621 Velázquez realizó su primer viaje a Madrid (tal y como Pacheco nos dice) para, presumiblemente, conocer en persona las colecciones reales y probablemente para buscar, sin éxito en esta ocasión, un puesto como pintor de corte.

Sin embargo, en el año 1623 regresó a la capital para pintar un retrato del rey Felipe IV (1623, Museo del Prado) y el monarca le nombró su pintor de cámara. Este lienzo fue el primero de una serie de retratos soberbios y directos, no sólo del rey, sino también de la familia real y otros miembros de la corte, ya que realmente, su principal ocupación en la corte era la de retratar, aunque también abordó temas mitológicos como El triunfo de Baco, popularmente llamado, Los borrachos (1628-1629, Museo del Prado). Esta escena de bacanal en un paisaje abierto, en la que el dios del vino bebe junto a los borrachos, atestigua el interés del artista por el realismo.

En el año 1628 Petrus Paulus Rubens llegó a la corte de Madrid en misión diplomática y entre los pocos pintores con los que trabó amistad estaba Velázquez. Aunque el gran maestro flamenco no causó un decisivo impacto sobre la obra del pintor, sus conversaciones le impulsaron a visitar las colecciones de arte en Italia que tanto admiraba Rubens.

En agosto de 1629 Velázquez abandonó Barcelona rumbo a Génova y pasó dos años viajando por Italia. De Génova se dirigió a Milán, Venecia, Florencia y Roma, regresó a España desde Nápoles en enero de 1631.

En el transcurso de este viaje estudió de cerca el arte del renacimiento y de la pintura italiana de su tiempo. Algunas de las obras realizadas durante sus viajes dan muestra de la asimilación de estos estilos, un ejemplo representativo es su La túnica de José (1639, Monasterio de El Escorial, Madrid) y La fragua de Vulcano (1630, Museo del Prado), que combinan los efectos escultóricos miguelangelescos con el claroscuro de maestros italianos tales como Guercino y Giovanni Lanfranco.

De vuelta a España, Velázquez reanudó sus encargos como retratista de corte con la obra Príncipe Baltasar Carlos con un enano (1631, Museum of Fine Arts, Boston) imagen conmovedora del príncipe, quien moriría antes de alcanzar la mayoría de edad. Desde la década de 1630 poco se conoce acerca de la vida personal del artista a pesar de que su ascenso en círculos cortesanos está bien documentado.

En el año 1634 Velázquez llevó a cabo el programa decorativo del Salón de Reinos en el nuevo palacio del Buen Retiro. Constaba de 12 escenas de batallas, junto a retratos ecuestres en los que las tropas españolas habían resultado victoriosas.

En esta obra no sólo intervino Velázquez, sino otros artistas de prestigio. Velázquez incluyó en este ciclo de batallas el cuadro titulado Las lanzas o La rendición de Breda (1634, Museo del Prado) que retrata al general español Spínola, después de sitiar las ciudades del norte en el año 1625, recibiendo las llaves de la ciudad de manos del gobernador. La delicadeza en la asombrosa manera de ejecución la convierte, como obra individual, en una de las composiciones históricas más célebres del arte barroco español.

Hacia 1640 pinta los retratos de caza de la familia real para la Torre de la Parada, un pabellón de caza cerca de Madrid. Perteneciente a la década de los últimos años de 1630 y principios de 1640 son los famosos retratos de enanos de corte que reflejan el respeto y la simpatía con que eran tratados en palacio.

Velázquez pintó pocos cuadros religiosos, entre ellos destacan el Crucificado (c. 1632), La coronación de la Virgen (c. 1641) y San Antonio Abad y san Pablo primer ermitaño (c. 1634), todos ellos en el Museo del Prado.
Durante los últimos años de su vida, Velázquez trabajó no sólo como pintor de corte sino también como responsable de la decoración de muchas de las nuevas salas de los palacios reales.

En el año 1649 regresó de nuevo a Italia, en esta ocasión para adquirir obras de arte para la colección del rey. Durante su estancia en Roma (1649-1650) pintó el magnífico retrato de Juan de Pareja (Metropolitan Museum of Art, Nueva York) así como el inquietante y profundo retrato del Papa Inocencio X (Galería Doria-Pamphili, Roma), recientemente exhibido en Madrid.

Al poco tiempo fue admitido como miembro en la Academia de San Lucas de Roma. Su elegante Venus del espejo (National Gallery, Londres) data probablemente de esta época. Las obras clave de las dos últimas décadas de la vida de Velázquez son Las hilanderas o La fábula de Aracné (1644-1648, Museo del Prado) composición sofisticada de compleja simbología mitológica, y una de las obras maestras de la pintura española Las Meninas o La familia de Felipe IV (1656, Museo del Prado), que constituye un imponente retrato de grupo de la familia real con el propio artista incluido en la escena.

Velázquez continuó trabajando para el rey Felipe IV, como pintor, cortesano y fiel amigo hasta su muerte acaecida en Madrid el 6 de agosto de 1660. Su obra fue conocida y ejerció una importante influencia en el siglo XIX, cuando el Museo del Prado la expuso en sus salas.