domingo, 11 de novembro de 2007

Ramalho Ortigão - Fracasso do Rotativismo (Um Texto Com 96 Anos)

(Retrato de Ramalho Ortigão - por Columbano Bordalo Pinheiro)

"O acordo de dois partidos, revezando-se sucessivamente no poder, dizendo-se um liberal e outro conservador, segundo o regime inglês, falhara inteiramente na sua reiterada aplicação prática.
O jogo permanente dessa rotatividade representativa, com vinte anos de funcionamento automático, desgastara todas as engrenagens, boleara todos os ângulos, puíra todas as arestas, safara todos os cunhos que caracterizavam o sistema.

Quem eram os liberais que pela contribuição de novas ideias se propunham acelerar a energia propulsora do parlamentarismo no sentido do mais rápido progresso?
Quem eram os conservadores incumbidos de coordenar a marcha e de manobrar os travões do maquinismo?...

Ninguém o saberia dizer, porque nenhum dos dois partidos a si mesmo se distinguia do outro, a não ser pelo nome do respectivo chefe, politicamente diferenciado, quando muito, pela ênfase pessoal de mandar para a mesa o orçamento ou de pedir o copo de água aos contínuos.

Um facto sumamente grave preocupava, no entanto, a atenção dos que isoladamente contemplavam a integral concatenação dos acontecimentos.
Esse facto era a decomposição da sociedade, lentamente, surdamente, progressivamente contaminada pela mansa e sinuosa corrupção política.

Quantos sintomas inquietantes!

A indisciplina geral,
o progressivo rebaixamento dos caracteres,
a desqualificação do mérito,
o descomedimento das ambições,
o espírito de insubordinação,
a decadência mental da Imprensa,
a pusilanimidade da opinião,
o rareamento dos homens modelares,
o abastardamento das letras,
a anarquia da arte,
o desgosto do trabalho,
a irreligião,
e, finalmente,
a pavorosa inconsciência do povo."


(Ramalho Ortigão - Últimas Farpas - 1911)

José Duarte Ramalho Ortigão nasceu no Porto a 24 de Outubro de 1836. Os primeiros anos da infância passou-os no campo, em casa da avó materna. Frequentou o curso de Direito em Coimbra, que não concluiu.
De regresso à sua cidade natal, leccionou Francês, durante alguns anos, no Colégio da Lapa, dirigido por seu pai, onde teve como aluno o jovem Eça de Queirós.

A partir de 1862 dedicou-se ao jornalismo. Foi crítico literário do Jornal do Porto e colaborou na Revista Contemporânea e na Gazeta Literária. Iniciou-se no jornalismo e na literatura no momento em que a segunda geração romântica dominava as letras portuguesas (Camilo, Soares de Passos, Arnaldo Gama...).


Por esse motivo, não é de estranhar que tenha participado na célebre polémica conhecida por Questão Coimbrã, com o texto Literatura de Hoje (1866), defendendo António Feliciano de Castilho dos ataques que lhe eram dirigidos.

Essa atitude acabou por levá-lo a enfrentar Antero de Quental em duelo.
Apesar disso, anos mais tarde, vamos encontrá-lo ao lado dos jovens da Geração de 70. Foi nessa altura que escreveu, em colaboração com Eça de Queirós, O Mistério da Estrada de Sintra (1871) e as primeiras Farpas.
Quando Eça ingressou na carreira diplomática e foi nomeado cônsul em Havana (Cuba), Ramalho continuou sozinho a redacção das Farpas.

Em 1870 tinha sido admitido como funcionário da Academia das Ciências, o que lhe permitiu instalar-se definitivamente em Lisboa e dedicar-se, paralelamente, ao jornalismo e literatura.
Anos mais tarde, em 1895, viria a ser nomeado bibliotecário do Palácio da Ajuda.
Ramalho Ortigão, embora tenha mantido durante dezenas de anos um certo prestígio, nunca ombreou com Eça ou Antero como criador literário.

Na fase inicial das Farpas, mostrou-se um observador atento e crítico da vida portuguesa. No espírito da Geração de 70, e recorrendo a um estilo irónico, pretendia aproximar Portugal das sociedades modernas de então. A partir de 1872, a sua formação mais tradicionalista impôs-se e passou a dar mais atenção aos aspectos pitorescos da realidade portuguesa e a orientar-se por um certo bom senso burguês, pouco propício às mudanças radicais. Esse espírito conservador foi-se acentuando com a idade e, já no século XX, Ramalho acabou por se integrar na corrente nacionalista, então em formação.

Outro aspecto em que se distinguiu foi o das impressões de viagem, deixando-nos algumas obras que ainda hoje podem ser lidas com algum prazer.
Faleceu em Lisboa, a 27 de Setembro de 1915.


(De: Aprender Português - 2000)

Reabilitação de uma Figura Portuguesa do séc. XIV - A Rainha Leonor Teles de Meneses


Leonor Teles de Meneses, que foi esposa do rei D. Fernando de Portugal, é uma das figuras mais vilipendiadas da História de Portugal. Mas as páginas de Fernão Lopes, que continuam a ser a fonte principal para o seu conhecimento, e alguns documentos avulsos sepultados nos arquivos de Portugal e de Espanha, encerram matéria bastante para uma reconstrução mais justa desta personalidade incomum.

Surgiram ultimamente algumas obras ficcionadas sobre Leonor Teles - que, infelizmente, e devido ao grau de liberdade que constitui direito de todo o romancista, acabam por distorcer irremediavelmente, ainda que no intuito de a favorecer, a personagem em causa (relembrem-se, a propósito deste tema do chamado "romance histórico", os nossos comentários de 14 de Julho de 2007).

Podem no entanto seleccionar-se acerca desta figura dois livros sérios e credíveis, editados há relativamente pouco tempo.
Um é o de Manuel Marques Duarte (Leonor Teles - Campo das Letras - Porto - 2002), que se centra exclusivamente, como o próprio título indicia, sobre a história da rainha. Trata-se de obra documentada, muito trabalhada, assente em fontes consultáveis e, sem dúvida, útil a quem queira aprender sem distorções.

A outra obra não-ficcionada é a de José Bento Duarte (Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - 2003), que abrange um período mais extenso e se debruça sobre uma galeria de personagens portuguesas e castelhanas, no período de viragem da 1.ª para a 2.ª dinastias lusitanas, culminando no momento-chave da batalha de Aljubarrota.

É deste último livro que apresentamos alguns excertos sobre a figura que nos ocupa.

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"Leonor Teles de Meneses, que é uma das figuras mais enigmáticas e interessan­tes do Portugal medieval, permanece até hoje recordada como a mulher má por ex­celência. O seu vulto desliza contraditório e irregular pelas memórias, ora baço e débil, ora nítido e forte, por­ventura adulterado num ou noutro episódio mais obscuro. Já sentimos isto com Leonor de Guzmán, com Inês de Castro, com Constanza Manuel, com Maria de Padilla.

Os primeiros cronistas escreveram pouco, e pela rama, sobre as perso­nagens femi­ninas. E quase sempre lhes emprestaram o seu próprio modo de pensar e de sentir, que é escorrido, directo, masculino e, portanto, inadequado. Mas sejamos jus­tos: ainda que eles quisessem perceber mais, cairiam no risco de se desorientarem em labirintos de sombras impenetráveis.
Leonor, como todas as mu­lhe­res, defende-se, ora silenciando a sua verdade ora exprimindo-a por sinais contradi­tórios, en­cobrindo a fantástica complexidade de um espírito insuspei­tado dos homens.

As mulheres procedem assim, por instinto, desde o co­meço - para resisti­rem, para contornarem, para sobre­viverem. E, sem que os desti­natários muitas vezes dêem por isso, para conduzirem. A maior influência delas, como se sabe, não lhes nasce apenas do encanto natural ou da incomparável capacidade de amar, assenta so­bretudo no seu mistério. Num mundo ordenado por homens, as mulheres só impe­ram, de facto, quando li­vres para subtilmente administra­rem o seu poder se­creto – e é por isso que as pai­xões, desde que autênticas e dura­douras, as expõem e as tornam tão vulneráveis.

Neste ano de 1371, no viveiro feminino da infanta Beatriz, a jovem Leonor Teles começa a revelar-se. E o que se lhe descobre não é paixão nem vulnerabilidades, é uma determinação granítica e a crença inabalável de que se acha à beira de um destino grandioso. Tem a seus pés um homem de belas feições, esbelto, abastado e poderoso. E este homem - ele, sim, desvairado pela paixão -, desde que conduzido como se impõe, pode sentá-la a seu lado no trono de Portu­gal.

Tudo leva a crer que ela tenha contado com a cumplicidade activa dos paren­tes no astucioso processo de sedução do rei. O conde de Barcelos, e a sua família, detêm já uma influência enorme entre a nobreza superior do Reino. Contudo, nos tempos incertos que vão correndo, convém-lhes consolidar e acrescentar o pode­rio.

A ma­nobra parece ter-se iniciado com a viúva Maria Teles, irmã de Leonor. Maria fala com Fernando, este responde a Maria, esta insiste com Fernando - e Leonor sempre à distância, como quem espreita e aguarda. Maria deve ter agido como diligente leva-e-traz nestas falas com o rei. A suas palavras soam amiúde a re­cados certei­ros, e, aos poucos, percebe-se que o monarca se encaminha para onde Leonor quer que ele esteja.

Seguem as coisas neste pé quando chegam embaixadores e recados da Beira remota: João Lourenço da Cunha, senhor de Pombeiro, roído de saudades ou já desconfiado por tamanho atraso da sua jovem e fresca esposa, chama por ela, roga-lhe que não demore mais a viajar até aos pinheirais e aos campos de Arganil, banhados pelas águas cantantes do Alva.
Cuidados de João Lourenço, agonias de Fernando: o rei cai em grande desassossego, consome-se numa espécie de febre, já se não pode imaginar sem a mulher que o enfeitiçou. Pede então que mintam ao senhor de Pombeiro, sugere que lhe mandem dizer que Leonor está doente e que não pode viajar.

Com a situação mais do que madura, as duas manas - Maria e Leonor - levam o caso ao conde de Barcelos, seu tio. João Afonso Telo dirige-se ao rei, dizem que para procurar demovê-lo da sua ideia fixa. Mas sabe-se como trabalham as paixões contrariadas: quanto mais lhe dizem que não, mais o enamorado se inflama. Considerando por outro lado o que está em jogo, podem pôr-se em dúvida as reticências do conde. E é provável que também a infanta Beatriz - decerto acostumada, no seu pequeno mundo de segredinhos rendilhados, a estas voltas sentimentais - colabore na conspiração de amor que envolve o régio irmão.

De súbito, tudo se precipita. Em Pombeiro da Beira, João Lourenço da Cunha vê-se de súbito descasado com fundamento nuns vagos parentescos com sua formosíssima mulher. Convicto de que este rei não é homem em quem se possa confiar, ele considera mais prudente mudar-se para Castela. O pequeno Alvarinho é enjeitado pela mãe. E, num dia do segundo semestre de 1371, em presença dos conspiradores, efectua-se o casamento - por enquanto quase clandestino - do rei com Leonor Teles de Meneses. E é certo que, antes que el-rei dormisse com Dona Leonor, a recebeu por mulher na presença de sua irmã e de outros que esta coisa traziam calada.

Neste episódio de interesses e seduções cada um cumpre o seu papel, e Leo­nor Teles desempenha perfeitamente o seu. Não a tomem, contudo, como mero instrumento das conveniências políticas e económicas da família ou da no­breza a que pertence. Na decisão e no frígido calculismo ela de­monstrará, agora e durante o resto da sua carreira, o nervo de uma personalidade indomável e, aqui e ali, uns laivos de grandeza.

Leonor tem um fito, uma ambição dourada, uma grande vontade de poder e, naturalmente, as ilusões próprias de uma mulher tão jovem e de tão esplendorosa beleza. E actua em conformidade. Quando aceita livrar-se do velho fidalgo beirão com quem lhe forçaram um casamento de utili­dade, ela não faz mais do que rebelar-se contra o destino pardacento e desencantado a que a conde­naram. Na época, quase todas as mulheres da sua condição se conformam com si­nas destas, para ficarem depois tristemente murchando no resto das su­as vidas. Leonor não é como elas. Os horizontes serranos de Arganil são amenos, poéticos e cativantes, mas são também apertados para a dimensão dos seus sonhos. Resolve, então, caminhar para a luz e para a liberdade de escolha, e, ganhando assim direito ao seu destino, trans­forma-se numa mulher que antecipa os tempos. (.....)

Leonor Teles terá de facto amado Fernando? É muito de duvidar. Ao princípio talvez se afirme nela um certo deslumbramento face ao porte físico deste pretendente na força da vida - ele conta então vinte e seis anos - e, sobretudo, di­an­te dos jorros de luz que o envolvem. Não esqueçamos que um rei é sempre um rei, e a gloriosa luminosidade que irradia do trono antigo de Fer­nando parece exercer sobre Leonor um fascínio hipnótico.

Oliveira Martins, criador inspiradíssimo de quadros impressivos, supõe que ocorreu nesta união uma espécie de troca de papéis e de condições: ela conquistou-o por­que ti­nha o génio de um homem; e o segredo dessa aliança tenaz (...) está na in­versão das pessoas e dos sexos. Ela fez-se rei; ele tornou-se a amante, passiva, indo­lente, sensual.
A imagem é daquelas que marcam e que ficam, mas é também, pro­va­velmente, imprecisa e pouco justa – para as mulheres em geral e para Leonor em par­ticular.
Fernando não deixa nunca de ser o homem deste célebre casal. O que sucede é que ele se conduz como os homens de muitos outros casais: é assustadiço, dependente, le­viano e, acima de tudo, manejável.

Leonor Teles, por seu turno, não perde jamais a feminilidade. O que ela demonstra é a fibra de uma mulher de coragem, ciente do que quer e do que é preciso fazer para o obter e, mais importante ainda, quase ferozmente decidida a impor-se.
O futuro confirmará que estamos perante uma personalidade fortíssima. E, não sendo impossível, custa a crer que uma tal criatura se deixe prender por laços de prolongado e genuíno amor a um homem como Fernando, especialmente depois de descobrir nele, com a passagem dos di­as, a frouxidão e a volubilidade do carácter. Neste caso, quem ama, de certeza, é o rei. Ela parece que só o tem como aliado in­dispensá­vel à concretização dos seus sonhos. (.....)

(Nota da Torre: Fernando, rei de Portugal, marido de Leonor Teles, morreu. João de Avis, que manobra decidido para ocupar o trono português, está à cabeça dos revolucionários de Lisboa, secundado por Nuno Álvares Pereira.
A regente Leonor Teles de Meneses, que tem a filha - Beatriz - casada com rei Juan I de Castela, refugia-se em Santarém com os partidários. O genro castelhano, de quem ela muito desconfiava, entra em Portugal à frente de um exército e vai reunir-se-lhe em Santarém.
A partir de certa altura, Leonor Teles é pouco mais do que uma prisioneira do rei castelhano. Mas uma prisioneira indomável...)

"(.....) Em Santarém, o convívio de Leonor Teles com Juan de Castela evolui para comportamentos de mútua duplicidade, pois cada um deles só pensa utilizar os préstimos do outro para alcançar os seus desígnios. No começo ainda trocam promessas e gentilezas. Mas o choque é inevitável. Não só pela secreta oposição de interesses, mas também, e talvez antes do mais, por um fatal contraste de personalidades.

O rei castelhano, débil de físico, face descorada, é piedoso e recatado. Cultiva um sentido obstinado de missão e passeia-se convicto da sua razão e dos seus direitos, orgulhoso da argúcia diplomática que o conduziu - contra a prudência dos conselheiros hesitantes - ao arranjo de Salvaterra de Magos para ganhar um reino de mão beijada.

Cioso da sua dignidade e da conveniência de maneiras, o rei Juan aceita mal as exuberâncias desta sogra sedutora - não muito mais velha do que ele -, que parece tardar a reconhecer-lhe o legítimo ascendente.
Temperada pela vida de corte onde imperou sem sombras nem rivais, Leonor Teles está habituada a levar a sua avante e jamais deparou com alguém capaz de lhe fazer frente a sério. O que Juan I tem diante de si, e que não há forma de entender, é uma mulher de gram coração - isto é, um ser voluntarioso e destemido, que usa viver e impor-se com expressões desprendidas e directas, próprias de quem costuma fazer o que muito bem lhe apetece.

Não é de estranhar que comecem a embirrar um com o outro, implicando por ninharias, embatendo ao menor pretexto. Tudo serve para alimentar estas guerrilhas palacianas. Quando Yuda e David Negro aparecem a disputar a chefia da comunidade judaica, a pequena Beatriz toma o partido do segundo, contra sua mãe, que assume a protecção do primeiro. E logo surge o rei, apressado - e talvez, também, um tanto inábil -, a contrariar a sogra, a tomar o partido da esposa-menina e a fazer de David Negro o rabi-mor.

Juan I dá-se cada vez pior com as atitudes e com a energia vulcânica de Leonor Teles, em cujo espírito refervem, pouco dissimuladas, as ambições de sempre. Às vezes, escandalizado, ele afoita-se a chamá-la de parte, ao segredo de câmaras discretas, para lhe sentenciar, no seu jeito grave e compenetrado, com a solenidade dos círios, que a uma pessoa como ela não caem bem certos modos e liberdades. Por outras palavras: o rei de Castela acha que sua sogra anda demasiado solta nas conversas e nas maneiras, impróprias de mulher viúva tão recente, ainda escurecida de lutos pelo marido.

Pode imaginar-se o efeito que tais sermões piedosos provocam nesta mulher, que, vendo bem, jamais aceitou senhorios ou ascendentes durante toda a vida. Sente-se o faiscar de vontades e de feitios, e não surpreende que depois destes duelos os dois se retirem sempre amuados um com o outro - em fim das razões, nunca se separavam muito de acordo.

Tudo isto é a capa que oculta as questões essenciais. Quem é que manda, de verdade, em Portugal? Quem é que vai mandar no futuro? E em nome de quem se fará o combate aos insurrectos de João de Avis?

À primeira vista, e pelo menos em Santarém, não parecem subsistir dúvidas. Juan I argumenta com a desistência de Leonor Teles, registada pelo tabelião. E, portanto, despacha, decide, governa com chancelaria própria e com todos os sinais que o anunciam como senhor do Reino. Mas tudo indica que o rei castelhano, que obviamente se quis servir dos bons ofícios da sogra para cativar os alcaides, acaba de arranjar em Santarém um problema grave: afastada do poder, frustrada, Leonor Teles pode tornar-se para ele num obstáculo perigoso. Ela faz, em muitas ocasiões, tábua rasa das escrituras, e é cada vez mais crível que lhe arrancaram o consentimento sob coacção ou com falsas promessas.

Em qualquer caso, o episódio da abdicação deve ter representado no seu espírito um mero expediente para ganhar tempo e novas oportunidades. Leonor não se conforma com a perda definitiva do poder, reconhece mal a autoridade deste rapazinho coroado, mas impertinente, que se atreve a falar-lhe de cima para baixo. Furiosa, considera: se o genro, nas pequenas coisas, lhe faz agora tantas desfeitas, o que acontecerá, mais tarde, quanto ao que for, realmente, importante?

Tudo indica que Leonor tenha começado ainda em Santarém a conspirar contra o genro, fazendo-lhe embora, por vezes, boa cara. Age às escondidas, empenhada numa guerra de persistência e de astúcias. Avista-se com alguns dos que lhe fizeram companhia na fuga de Lisboa, comenta-lhes as desconsiderações de Juan I, diz-lhes que deste homem pouco podem esperar - nem ela, nem eles. Vede que senhor este!, acusa, indignada. E afiança que se estivesse no lugar deles, com liberdade de movimentos, trataria de se evadir de Santarém para aderir à causa do mestre de Avis.

Diz-lhes ela: o mestre, pelo menos, é vosso natural - quer dizer, nasceu, como eles, debaixo destes céus portugueses, e nisto surpreendentemente se aproxima Leonor, ainda que por simples despeito, dos sentimentos dos humildes, que arriscam as vidas pelos seus amores da terra. E há quem a escute, quem se guie por tais conselhos, quem desampare a corte luso-castelhana do rei Juan para se juntar aos amotinados de Lisboa.

Deste modo vai Leonor Teles escavando armadilhas debaixo dos pés do genro, de quem aprendeu rapidamente a não gostar. À frente dele, e passando por cima dos amuos, ela transfigura-se, ilumina-se de sorrisos, oferece-se para o ajudar a convencer os alcaides renitentes. Mas escreve encobertamente aos mesmos alcaides a recomendar que se tranquem por trás das pontes levadiças e que não façam entrega das fortalezas, nem que ela própria lhes apareça nas imediações, com o rei de Castela, a pedir o contrário. (.....)

(Nota da Torre: Leonor Teles de Meneses acaba por perder a partida contra o poderoso genro castelhano, Juan I, invasor de Portugal. Não sem que antes, diante de Coimbra, se tenha abalançado a uma última cartada para se lhe escapar, ou, até, como há quem diga, para assassinar o rei de Castela. Este não lhe perdoou e acabou por enviá-la para o exílio em Castela, no mosteiro de Santa Clara de Tordesillas).

(.....) Assim, de todas as alternativas ao seu dispor - eliminar fisicamente a sogra, mantê-la perto de si ou condená-la ao exílio -, o rei de Castela escolheu a que, ainda que cruel e controversa, se pode encarar como mais sensata.

Deste triste modo se sumiu da cena política portuguesa a rainha Leonor Teles de Meneses, que aqui deixará, num sulco fundo e indelével, a sua lenda negra. Todavia, se nas páginas antigas se procurarem com isenção as verdades encobertas, ver-se-á que ela sobressai constantemente como uma figura notável.

Podia ter vivido como tranquila amante de um rei – quis ser rainha contra o mundo. Podia ter-se rendido à ambição casando com o assassino do seu mais fiel vassalo - escolheu a dignidade de uma recusa perigosa. Podia ter-se vendido ao mais poderoso dos ibéricos – optou por enfrentá-lo arriscando a vida num combate desigual.

Mulher mui inteira e de coração cavaleiroso, senhora de mil encantos e de astúcias subtis, ela preferiu sempre quebrar em vez de torcer. Personagem de fibra, esculpida numa só peça, não se curvou jamais diante de ninguém nem de qualquer poder político.
Se as histórias que começaram por correr em Estremoz, sobre Juan Fernández de Andeiro, possuírem alguma autenticidade, ela terá talvez cedido a um poder maior - o do amor. Insiste-se: talvez - porque não há forma séria de provar. Mas, se assim tiver acontecido e se desse modo se lhe descobrir um tão grande pecado, este é um pecado que só a faz mais humana, com aquele mesmo tipo de humanidade que lhe testemunhámos um dia em Badajoz, quando ela se separava, lavada em lágrimas, da única das suas filhas que pôde viver.

O drama de Leonor Teles, e a razão das famas ruins que deixou atrás de si, residem porventura no facto de ela ter nascido para ocupar um lugar ingrato na encruzilhada da História, o lugar destinado aos que tombam a lutar, vencidos, contra a marcha irreversível de um mundo que não aceitam. Por isso carrega ela, ainda hoje, tantas e tão graves culpas - culpas próprias e culpas alheias, culpas de ser e de não ser, de estar e de não estar, de fazer e de não fazer.

Nas linhas venerandas do maior dos cronistas lusitanos encontram-se-lhe ainda outras delicadas responsabilidades, como a de nunca mais terem as mulheres portuguesas voltado a ser o que tinham sido antes de ela ter cumprido nestes reinos a sua sina. Com Leonor Teles de Meneses assimilou a lusa humanidade feminina suas maneiras e argúcias, seus disfarces e segredos.
Oiçamos o cronista: desde que ela reinou, aprenderam as mulheres a ter novos jeitos com seus maridos, mostrando uma coisa por outra, como dantes não era costume. E assim se descobre como a difícil arte de ser mulher se fica devendo em Portugal à passagem desta extraordinária figura por aqui."

(José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - 2003)

domingo, 4 de novembro de 2007

Etosha, Namíbia - Dois Passos a Sul de Angola





"Etosha localiza-se a norte da Namíbia, antigo Sudoeste Africano, na faixa de território confinante com os limites meridionais de Angola. Consiste numa gigantesca depressão de dezenas de quilómetros, escavada na planície agreste, pincelada de tufos de capim e de vegetação rala.



Esta é uma região de contrastes e súbitas transformações, varrida por rumorosos torvelinhos de vento. Durante a maior parte dos dias, em que não chove, a lagoa conserva-se quase completamente seca. Mas no seu fundo requeimado de sol, juncado de crostas de lama endurecida, subsistem de longe em longe alguns charcos milagrosos, rasos e barrentos.

São reservas de vida, que, no entanto, se podem converter em ratoeiras de morte para os animais - gnus, zebras, girafas, antílopes - que delas se abeiram para aliviar a sede: embos­cados nas imediações durante horas longas e pacientes, os grandes felinos, como os leões e as chitas, raramente desperdiçam as oportunidades.


Nos derradeiros meses do ano instala-se a época das chuvas, anunciada por nu­vens tingidas de chumbo, baixas e pesadas, e por trovoadas estrepitosas.
Nessa al­tura, acontece o milagre.
A depressão de Etosha principia a inundar-se com as bá­tegas que desabam do céu e com os caudais de água drenados do norte, dos lados de Angola.



É então que a vida rompe, irreprimível e inesperada, de águas que se suporiam mortas. Multidões de peixes, de serpentes, de lagartos, de tartarugas, de rãs-bois, que sobreviveram à seca entranhados no subsolo húmido, fervi­lham à tona da água, nas orlas da lagoa.


Em redor vicejam capinzais a perder de vista, pintalgados de belas e delicadas flores, por onde se passeia um nervoso corrupio de animais recém-chegados. Nas águas regurgitantes de presas, bandos esfaimados de pelicanos, flamingos, capotas, garças, rolas e patos-mergu­lhões en­tregam-se a intermináveis banquetes.



Ao cabo de alguns meses, com o termo das chuvas, novo ciclo de desolação se inicia. Recomeçam então as grandes migrações das manadas, que palmilham as pistas áridas em busca de outros charcos e pasta­gens. E a vida torna a adormecer, até às próximas chuvas, no subsolo mira­culoso de Etosha." (*)

(*) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - 1999

domingo, 28 de outubro de 2007

Lugares da Península - Covadonga (Astúrias - Norte de Espanha)



A Batalha de Covadonga foi a primeira grande vitória das forças militares cristãs na Hispânia, a seguir à invasão árabe em 711.
Uma década depois, provavelmente no Verão de 722, a vitória de Covadonga assegurou a sobrevivência da soberania cristã no Norte da Península Ibérica, e é considerada por muitos autores como o ínicio da Reconquista.

Sete anos depois da invasão árabe, Pelágio das Astúrias
, um nobre descendente dos monarcas visigodos, conseguiu expulsar um governador provincial, Munuza, do distrito das Astúrias, no noroeste da Península. Conseguiu segurar o território contra inúmeras investidas dos Árabes para o recuperar, e depressa estabeleceu o Reino das Astúrias, que viria a transformar-se na região cristã de soberania contra a expansão islâmica.
Pelágio, embora incapaz de conter os Muçulmanos em muitas situações, sobrevivia e dinamizava o movimento para a Reconquista.

Após a vitória de Pelágio, as populações das vilas asturianas emergiam com as suas armas, matando centenas de mouros. Munuza, reconhecendo a derrota, organizou outra força e reuniu os sobreviventes de Covadonga. Mais tarde, iria confrontar Pelágio e o seu exército, agora aumentado, perto de Proaza.
Novamente Pelágio vence, e Munuza morre na batalha.



El valle de Covadonga se encuentra situado al Norte de los Picos de Europa, o sea entre estos y el mar Cantábrico y enclavado dentro del Principado de Asturias.
Al recoger los vientos humedos procedentes del mar recoge una gran cantidad de humedad por cuyo motivo el valle es de un verde intenso, recubierto de praderas y bosques de hoja caduca.
El hecho de estar encajado entre altas montañas y el mar propicia la aparición de nieblas matutinas que se disuelven con el calor del sol, el juego de las nieblas entre el bosque le confiere al valle un aspecto de misterio o quizás de encantamiento como si habitaran en dicho valle las brujas, las meigas o los duendes.



La historia nos cuenta que el ejercito musulman llego hasta estas tierras donde se habían refugiado un puñado de hombres que se negaban a vivir subyugados por el guerrero invasor. Dicen que un puñado de montañeses y cristianos refugiados en estas montañas y capitaneados por Don Pelayo se enfrento al ejercito invasor enviado para aplastar la rebedia de ese reducido grupo de astures.
Las tropas musulmanas que avanzaban por el valle de Covadonga fueron atacadas desde las laderas y las alturas que dominan el valle. En la cabecera del valle y en mitad de una roca vertical hay una cueva donde dicen estaba refugiado Pelayo, desde alli ataco a las tropas sarracenas derrotandolas.
Dicen que las tropas en su retirada se internaron en los Picos de Europa a traves de los Lagos de Covadonga, llegando al Cares, siendo diezmados poco a poco perdidos en esas abruptas montañas.




En la cueva donde cuenta la leyenda que se refugio Don Pelayo hay una pequeña ermita que acoje a la Virgen de Covadonga, una cascada surge de dicha cueva y cae directamente en una gran poza.
Junto a la ermita y sobre una pequeña colina que preside el valle se alza el Santuario de Covadonga, construido con una vistosa piedra rojiza que contrasta con el verde de sus praderas y bosques. Por las mañanas, cuando la niebla cubre el valle de Covadonga y los duendes juegan en el bosque, es fácil ver el Santuario de Covadonga flotando sobre la niebla, como si estuviera construido sobre el aire.



Para rememorar aquella historia el Parque Nacional de los Picos de Europa ha señalizado un sendero que enlaza los Lagos de Covadonga con el Desfiladero del río Cares, parece que sigue el recorrido original que hizo el grueso del ejercito musulman en su retirada y atraviesa bellos parajes saliendo a medio camino entre Poncebos y Cain.




sábado, 27 de outubro de 2007

Bertolt Brecht (8) - Esse Desemprego


Meus senhores,
é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda a oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores!
A todo o momento!
Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.


Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal,
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.


É preciso que nos deixem trabalhar
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Como esse desemprego!
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema,
Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é esta: o nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!


(Bertolt Brecht)

Bertolt Brecht (7) - Se os Tubarões Fossem Homens


Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos.
Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar para os peixes pequenos, com todos os tipos de alimentos, tanto vegetais, como animais.
Eles cuidariam de que as caixas tivessem água sempre renovada e adoptariam todas as providências sanitárias se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana: imediatamente colocariam uma ligadura a fim de que ele não morresse antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam de vez em quando uma festa aquática, pois os peixes alegres sabem melhor do que os tristonhos.



Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas.
Nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.
Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para encontrarem os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí.
A aula principal seria naturalmente a da formação moral dos peixinhos.
Eles seriam ensinados de que o acto mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.
Meter-se-ia na cabeça dos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo o mais, os peixinhos deveriam guardar-se de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E cada peixinho denunciaria imediatamente aos tubarões aquele de entre eles que manifestasse essas inclinações.



Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos.
Eles ensinariam aos peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões, existem diferenças gigantescas.
Eles explicariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que se entendam uns com os outros.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua muda seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.



Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões.
A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes, e com a orquestra à frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões possuídos dos mais agradáveis pensamentos.
Também haveria uma religião ali. Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião.


E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.
Além disso, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos. Alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.
Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusivamente comer os menores, e isso seria muito agradável aos tubarões, pois estes obteriam assim, constantemente, maiores bocados para devorar.
E os peixinhos maiores que detivessem os cargos zelariam pela ordem entre os peixinhos, para que estes pudessem vir a ser professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante.
Curto e grosso, só então haveria civilização no mar - se os tubarões fossem homens.

(Bertolt Brecht)

Bertolt Brecht (6) - Máscara do Mal


Na minha parede
há uma escultura
de madeira japonesa
Máscara de um demónio mau,
coberta de esmalte dourado.
Compreensivo, observo
As veias dilatadas da fronte,
indicando
Como é cansativo ser mal.


(Bertolt Brecht)