sexta-feira, 5 de outubro de 2007

(Carlos Drummond de Andrade) - Além da Terra, Além do Céu


ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU


Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.

Além,
muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar o verbo
fundamental
essencial,
o verbo transcendente,
acima das gramáticas
e do medo
e da moeda
e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Lugares da Península - A Caminho de Granada (2)



Outra vez a brasileira Nora Borges, ainda em Espanha, terminando a viagem encantada a Granada (Língua de Mariposa). (Ver a 1.ª parte em 28 de Julho de 2007)
……….

"Saindo de Fuentevaqueros e escutando os poemas de Lorca no som do carro, o coração agradecia pelo especial momento. Nunca viajo sem meus companheiros CDs.
Bueno... deixei atrás o pequeno pueblo de Granada pensando que um dia voltaria com minha filha, para que pudesse - ela também - guardar na memória esse contacto físico com um lugar que guarda uma pequena parte da história do que foi - e ainda é - um dos maiores ícones da poesia em língua castelhana.


Então... fixei-me no espectáculo fantástico que era o horizonte! Sierra Nevada é um conjunto de montanhas belíssimo, onde está o ponto mais alto de toda a Península Ibérica. Quase 4 mil metros acima do nível do mar!
Apesar de ser uma das mais célebres estações de esqui da Espanha, não havia burburinho de gente, nem esquis espalhados pelos suportes de madeira armados diante dos pubs ou bares de tapas. Era Verão. E estavam todos nas praias.Mas morri de vontade de estar ali no Inverno e aprender a esquiar. Uma das minhas fantasias juvenis. Tá bom… já sei que agora vai ser mais difícil, mas eu pretendo tentar. Um dia…


Ao descer a serra encontramos um pueblo chamado Pinos Genil e vários cartazes de hotéis simpáticos, para todos os gostos e bolsos. Escolhemos um que dizia: Hostal Meson de Los Patos. Era esse! Decidimos aproveitar ali o final da tarde e só chegar a Granada no dia seguinte. Decisão mais do que acertada! Estava tudo tão agradável com o frescor que vinha da água!

O povoado era pequeno e lindo, às margens de um rio que desce pelas encostas de Sierra Nevada, o rio Genil. O hotel que escolhemos fica em uma de suas margens.
Agora, vamos combinar o seguinte:
Chame de hotel a hospedaria, limpa e fresca como a casa de um amigo. Chame de rio um córrego gelado, cheio de pedras sob as águas transparentes e que faz um barulho adorável e romântico, descendo a encosta com força e paciência constante. E perca um tempo razoável acompanhando o movimento dos patos entrando e saindo de casitas equilibradas nas pedras…


Agora imagine o duche revigorante e a escolha de uma roupa confortável… um jantar no meio da ruazinha estreita, junto à balaustrada de pedras que a separa do leito do rio. A mesa com toalha xadrez verde, um vinho tinto na taça e um cheiro de carne assando na pedra quente. E mais... uma salada de tomates frescos e os enormes pimentões vermelhos assados na brasa… Além disso, o pão caseiro com um cheiro espectacular de forno de lenha…...

Agora junte um sol a se por, banhando de tons de cobre cada pedra, cada folha das árvores às 10:00 horas da noite, e perguntem-se:
Teriam pressa de chegar a algum lugar?

domingo, 30 de setembro de 2007

Bertolt Brecht (3) - Os Que Lutam

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Há aqueles que lutam um dia;
e por isso são bons;

Há aqueles que lutam muitos dias;
e por isso são muito bons;

Há aqueles que lutam anos;
e são melhores ainda;

Porém há aqueles que lutam toda a vida;
esses são os imprescindíveis.


(Bertolt Brecht)

Bertolt Brecht (2) - O Analfabeto Político

 
O Analfabeto Político

O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve,
não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.


Ele não sabe
que o custo de vida,
o preço do feijão,
do peixe,
da farinha,
do aluguer,
do sapato
e do remédio
dependem das decisões políticas.


O analfabeto político
é tão ignorante
que se orgulha
e estufa o peito
dizendo que odeia a política.

Não sabe o desgraçado
que da sua ignorância política
nasce a prostituta,
o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
o malandro,
o corrupto
o lacaio dos exploradores do povo.


(Bertolt Brecht)

Bertolt Brecht (1) - Perguntas de um Trabalhador que Lê



 PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.


Bertolt Brecht (Augsburg, 10 de Fevereiro de 1898 — Berlim, 14 de Agosto de 1956) foi um influente dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX.

Nascido Eugen Berthold Friedrich Brecht, na Baviera, Brecht estudou Medicina e trabalhou como ordenança num hospital em Munique, durante a Primeira Guerra Mundial. Filho da burguesia, sofreu, como todos no seu país, a sensação de encarar um país completamente destruído pela guerra.

Depois desta mudou-se para Berlim, onde o influente crítico Herbert Ihering lhe chamou a atenção para a apetência do público pelo teatro moderno.
Já em Munique, as suas primeiras peças (Baal e Trommeln in der Nacht) foram levadas ao palco e Brecht conheceu Erich Engel, com quem veio a trabalhar até ao fim da sua vida. Em Berlim, a peça Im Dickicht der Städte tornou-se no seu primeiro sucesso.

O totalitarismo
afirmava-se como a força renovadora que não só iria reerguer o país, como se outorgava a missão de reviver o SacroImpério Romano-Germânico. Mas, ao mesmo tempo, chegavam à Alemanha influências da recém formada União Soviética, com sua bem-sucedida implantação de um regime socialista, o que significava esperança para um povo sofredor como o da Alemanha, naquele período.


É a este último grupo que Brecht se vai unir, na ânsia de debelar o seu desespero existencial. No entanto, depois de Hitler, eleito em 1933, Brecht não estava totalmente seguro na Alemanha Nazi, exilando-se na Áustria, Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Inglaterra, Rússia e, finalmente, nos Estados Unidos.
Recebeu o Prémio Lenine da Paz, em 1954.

Julie Christie - Homenagem à Fascinante "Lara" de "O Doutor Jivago"










































As quatro primeiras imagens são extraídas do filme O Dr. Jivago, de David Lean (1965), que apresentou nos principais papéis Omar Sharif (como Jivago) e uma extraordinária e inesquecível Julie Christie (como Lara).

As duas últimas imagens exibem e homenageiam a actual Julie, sempre sedutora nos seus 66 anos (ela nasceu em 14 de Abril de 1941, na Índia, e por lá cresceu, na plantação de chá de seu pai, antes de atravessar as distâncias para completar os estudos em Londres e Paris).

N. B. - Vale a pena ver (ou rever) a grandiosa e comovente produção do genial Lean, que decorre no período da revolução russa.
Como valerá também a pena recuperar das bibliotecas o denso e belo romance de Boris Pasternak em que ela se baseia (Pasternak foi ostracizado pelo regime soviético. Sendo-lhe atribuído em 1958 o Prémio Nobel, as autoridades soviéticas proibiram que o recebesse).