sábado, 3 de maio de 2008

Memória - Fantásticas "Garratts"! - As Antigas Viagens de Comboio de Moçâmedes a Sá da Bandeira (Sul de Angola)

 
"Garratt" - mítica locomotiva das grandes distâncias africanas!
Lembro com nitidez o instante da minha infância em que vi uma pela primeira vez - semelhante à que aqui vos deixo. Parada e poderosa nos carris de uma estação ferroviária do Sul de Angola, luzindo com um brilho baço de limpeza recente, soprando da chaminé baixa fumos negros e espessos, esguichando dos flancos um vapor esbranquiçado e impaciente - "fschhhhh..." . A pedir viagens, apeadeiros, descobertas - "fschhhhh...".
Fiquei mudo e extático, esmagado na minha pequenez pela presença imóvel mas fremente do monstro. Sentia-me ao mesmo tempo intimidado e encantado pela novidade, acostumado que estava às maquinazinhas quase de brinquedo que haviam percorrido, até então, os carris de bitola estreita entretanto substituídos por outros mais largos para poderem acolher os gigantes de ferro recém-chegados.

Aconteceu na cidadezinha de Moçâmedes (província do Namibe, Angola), urbe tranquila e doirada, de arvoredos dispersos pelas ruas direitas, traçadas, a régua e esquadro, entre os areais do deserto e uma baía de águas azuis e translúcidas.
 
De um lado da cidade ficava o deserto amplo, povoado de animais furtivos e de uma multidão de "Welwitschia Mirabilis", plantas rastejantes que sempre me fizeram evocar legiões de caranguejos vegetais a fugirem, açodados, da presença perigosa dos intrusos.
Para Gastão Sousa Dias (1), sempre com o justo verbo, a "welwitschia" é " a planta filha do deserto, que, na sua forma e contextura estranhas, parece querer significar toda a aridez, todas as torturas da sede , todo o horror da adaptação a um meio hostil".

 
Do outro lado, apertando o casario e o deserto num abraço de frescuras atlânticas, a espaçosa baía com o moderno porto de mar, onde acostavam paquetes imponentes das Companhias de Navegação portuguesas (a Colonial e a Nacional). O Uíge, o Infante Dom Henrique, o Moçambique, o Pátria, o Império, o Angola, tantos outros...
De vez em quando atracavam vapores estrangeiros ou vasos de guerra de canhões sossegados e recolhidos, pois ali não havia, nem chegou a haver, nesses tempos lusitanos, qualquer novidade bélica.

A tripulação de um navio japonês que por ali passou um dia deixou como lembrança à estação de rádio local (Rádio Clube de Moçâmedes - RCM) um disco de música romântica do seu país, de 45 r. p. m. E, meses a fio, soaram na baía e nos areais vizinhos, por cima das "welwitschias" e das casuarinas, as estrofes doridas e exóticas de um cançonetista nipónico destroçado por terríveis males de amor. Entre a população comovida ninguém percebeu jamais de que sofria o japonês. Suspeitavam, apenas - pelo tom melado, pelas fracturas de voz, pelas bruscas interjeições... E, suspeitando, todos gostavam de o ouvir. O RCM. fazia-lhes a vontade. Até que o disco fatalmente se riscou e o infeliz apaixonado se calou de vez.

 
Este era o edifício da estação ferroviária de Moçâmedes (aqui no seu estado actual).
Naquele tempo ele resplandecia ao sol do mar e do deserto, no seu ocre imaculado, marginado de faixas arroxeadas. As portas centrais, de topos arredondados, davam acesso às bilheteiras e à gare. Defronte da estação começava a "Avenida" (onde terminavam os muros do velho campo de futebol, entretanto desaparecido).
A "Avenida" era um espaço extenso, que cortava a cidade de norte a sul, com os seus canteiros de flores multicoloridas, tanques de água, buganvílias e palmeiras.

Aqui passeavam, nas tardes de domingo, com sedutores vagares, ranchinhos perfumados de jovens meninas, cruzando olhares fugidios com os pretendentes, em cenas discretas que as correspondentes famílias (a mãe, o pai, os avós, os manos mais velhos) patrulhavam a conveniente distância.
Das arvorezinhas baixas da "Avenida" pendiam instalações sonoras, de cujos altifalantes escorriam os êxitos musicais da época - de Amália Rodrigues, de Tristão da Silva, de Alberto Ribeiro, de Maria Clara.

Ouvia-se a Casa Portuguesa, o Nem às Paredes Confesso, a Canção do Cigano, a Fonte das Sete Bicas. E soavam ainda tangos plangentes e requebrados, trazendo aos crepúsculos sul-angolanos uma inusitada e muito romântica sugestão argentina. Foi nesses primeiros anos que tomei conhecimento, sem saber a quem pertencia, daquela voz castigada e roufenha a chorar por "mi Buenos Aires querido". Só muito depois soube tratar-se do desditoso Carlos Gardel. Que assim embalou, a milhares de quilómetros, e muitos anos depois de se despedir da vida, o começo de muitos e tórridos amores moçamedenses.

Era por aqui que ficava, então, a estação ferroviária da cidade. E foi por detrás desta vetusta fachada que me encontrei, na minha infância, e nos termos acima descritos, com a minha primeira "Garratt".

 
As "Garrats" apareciam na parte de trás da estação para movimentarem comboios extensos - de passageiros, de mercadorias ou mistos - entre Moçâmedes e Sá da Bandeira (Lubango). Não tardei a descobrir que as guardavam em enormes oficinas próximas da estação. Sentava-me num muro que dava para as instalações ferroviárias e desse poiso privilegiado vigiava durante horas as manobras, as idas e as vindas daqueles monstros de linhas elegantes.



As locomotivas ficavam a aquecer, acumulando vapores e energias, durante as horas que antecediam as grandes viagens pelas planuras e montanhas do Sul de Angola.



Os homens punham-nas em ordem, recuperavam-lhes mazelas de estiradas anteriores, limpavam-nas, acarinhavam-nas.
Elas possuíam três corpos distintos, o que as tornava extraordinariamente manobráveis nas apertadas passagens das serranias africanas. O maquinista seguia no corpo do meio. No da retaguarda recolhia-se o combustível (lenha, carvão). No da frente, fruto das fornalhas incandescentes, acumulava-se a tremenda pressão do vapor que as fazia poderosas e imparáveis.


 
Chegado o grande momento abandonavam o refúgio para irem "formar comboio". Resfolegando - fschhhhh... - alinhavam diante da estação com as carruagens e os vagões. Sempre resfolegando - fschhhhh... - aprontavam-se para o primeiro avanço depois de recolherem tripulações e passageiros. Despedidas derradeiras. E o último aviso-chamada da "Garratt", o apito imperativo e forte, que soaria amiúde durante as centenas de quilómetros da viagem.



De súbito, com ruídos sincopados e fortes, a máquina punha-se em movimento. Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan...
Cilindros, êmbolos, pistões, bielas, eixos das rodas, tudo trabalhando em perfeita sincronia numa nuvem rumorosa de vapor branco, emprestando vida e movimento àquele corpo imenso de metal escuro. A princípio lentamente, com uma espécie de preguiça mecânica, logo depois com outro balanço, a seguir preparando-se para as grandes velocidades do caminho. Fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... - fu-ca-tchi... Lubango, aqui vamos nós.


 
Na despedida de Moçâmedes, a "Garratt" tinha de transpor a ponte do rio Bero, nas "Hortas", um oásis de verdes intensos abençoado pelas cheias periódicas do rio.

"Nestas paragens os rios mantêm-se secos na maior parte do tempo. Porém (...), dá-se nos primeiros meses do ano uma ex­traordinária metamorfose, quando os ventos empurram até ao planalto as gordas nuvens fuliginosas das chuvas torrenciais. As águas despenham-se então para oeste ao longo das vertentes da Chela, alagam as depressões das terras baixas e origi­nam enxurradas tumultuosas ao correr das nervuras fluviais que procuram o oceano. No fim das chuvas subsiste durante algum tempo a correnteza mansa, pouco rumo­rosa, de vários rios, que deslizam através do deserto por leitos de areia macia, or­lados, aqui e ali, por canaviais e arbustos rejuvenescidos (...).

As águas não tardam a sumir-se, engolidas pelo solo poroso e ávido. Em inúmeros locais, porém, conservam-se vastos lençóis de águas subterrâneas, que se podem alcançar com es­cavações su­perficiais. Formam-se também depósitos abundantes de detritos or­gânicos, arrasta­dos pelas cheias. São adubos preciosos, que favorecem o verdejar repentino de plantas nutritivas, excelentes para o gado e para a multidão de herbí­voros selva­gens que por ali se movimentam." (2)


"A vinda periódica das águas explica a persistência da vida nesses lugares toca­dos por uma espécie de irreali­dade magnética, feita de dias luminosos e chamejan­tes que, na época própria, se submergem em mantos vaporosos de cacimbo impe­netrável.
Este é um mundo impregnado de aromas intensos e envolventes, despren­didos de um misto de madei­ras secas, lodos antigos, maresias penetrantes, capins calcinados e fumosidades longínquas transportadas nas abas do vento desde povo­ados escondidos. Terá sido em parte aquele magnetismo, aliado à possibilidade da vida, o poderoso instiga­dor da atracção que levou os invasores hereros, primeiro, e os conquistadores portugueses, mais tarde, a tenazes acções de fixação nesses er­mos de sol e sede." (2)



Primeiras paragens: o Saco (onde mais tarde se construiria um porto gigantesco para escoamento do minério de Cassinga) e o Giraul. Forcejando, forcejando, a máquina galga depois milha sobre milha, na paisagem escalvada.
E apita, apita, no seu aceleradíssimo e imparável fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi...
E apita de novo. Que som este!
Quem alguma vez ouviu o chamamento de uma "Garratt" jamais o poderá esquecer. É um silvo simultaneamente rouco, estridente e lancinante. É um grito de coisa viva e pensante, não de máquina inerte e bruta. Tanto pode soar a queixume como a brado de triunfo, tanto é apelo como despedida, tanto traduz alegria como raiva.
A voz vibrante de uma "Garratt" é um dos sons mais inebriantes e comoventes que se podem escutar.



Já se vêem as penedias vizinhas da Raposeira, que anunciam as do Caraculo.
"O terreno tem a violência bárbara dum inferno escalvado. A marginar a linha, pedregulhos sobre pedregulhos parecem construções ciclópicas executadas por mãos ciclópicas. De vez em quando surgem grandes morros pelados, de pedra lisa, duma fealdade nua e parda - semelhando, nas suas formas estranhas, bossas de camelos ou dorsos de tartarugas." (3)

 
Agora procuram-se as terras do Luso, do Cuto, do Munhino.
Numa carruagem ouve-se um acordeão de estudantes (será o Nelson, de Moçâmedes?), soam as sentenças solenes do Carlos, "O Mosca", estalam gargalhadas desprendidas e jovens. Fala-se com súbita gravidade da presença numerosa de leões na zona, sobretudo no Cuto, que é o quilómetro 101.
Por sobre tudo isto, o fu-ca-tchi ... fu-ca-tchi da "Garratt", o odor intenso da sua fumarada, a magia da nossa África (4).



"Horas e horas o comboio arfa pelo deserto despido; as paragens, não tendo particularidade que as caracterize, são conhecidas pela numeração quilométrica; e o som do êmbolo, matraqueando rudemente, é o único ruído que acorda o silêncio morno e abafado do areal infinito." (1)

 
Rios secos, águas ocultas, vida fervilhando em redor...
Fu-ca-tchi... - Fu-ca-tchi...- Fu-ca-tchi... (4)

"Errando pelo interior desértico ou semidesértico, meteram por cami­nhos que iam subindo devagar ao longo de ravinas, planuras e montes cónicos iso­lados." (2)

 Aqui e ali, vidas fugidias de guelengues, espantados pelo silvo da "Garratt", confundidos com o seu bafo escuro...


Já se deixou para trás o Munhengo, logo depois Assunção, vieram a seguir as Gargantas (a Grande e a Pequena). A "Garratt" progride em grande velocidade, acerca-se da sua maior adversária antes de chegar ao destino.

 
"Agora o terreno agita-se um pouco. Pequenas ondulações sucedem-se. E à nossa frente, lá ao longe, elevam-se os degraus da serra da Chela, negros e verticais, singularmente recortados no céu (...) Entre eles destaca-se o Morro Maluco (Cha-Malundo), cuja conformação é realmente caprichosa, recurvado como uma garra." (1) (4)

 
É agora, só mais um esforço! Sopra a "Garratt" afanosa, silva, matraqueia, devora espaços - desejosa do maior dos combates...

 
E, de repente, ao quilómetro 186, a barreira esmagadora da Serra da Chela, o grande obstáculo que separa a "Garratt" de Sá da Bandeira (Lubango)!
Aos pés da montanha imponente, o casario raso, colorido e ameno da bela Vila Arriaga (Bibala).

Lá no cimo, como um rasgão trágico, o corte mítico da Tundavala.
"De súbito, depararam com as escarpas da Chela, cujas cristas rompem os céus a mais de dois mil e trezentos me­tros de altitude. A partir do cume, esta regi­ão, planáltica, baixa aos poucos para leste até formar a bacia do Cunene, o lendário rio que, descrevendo uma curva des­comunal, abraça todo o Sudoeste an­golano até ao mar. Foi junto ao sopé desses im­ponentes paredões que os pastores detiveram o passo num primeiro momento." (2) (4)
Foi aqui também que a "Garratt" se deteve, a ganhar forças e balanço.
Daqui a uns minutos, será a última batalha da minha máquina indomável.


(1) Gastão Sousa Dias - África Portentosa - Seara Nova - Lisboa - 1928.
(2) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Editorial Estampa - Lisboa - 1999
(3) José Maria d'Eça de Queiroz - Seara dos Tempos - Edição do autor - Sem data
(4) Esta foto, como algumas mais desta viagem (sobretudo as da Bibala e da Chela), são de Okawa Ryuko, que já temos citado e voltamos a recomendar vivamente. Blogue: Angola: Huíla Namibe Kunene Luanda.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

(Sophia de Mello Breyner Andresen) - Navegações

Vi as águas, os cabos, vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som de suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais.

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri.

(Sophia de Mello Breyner Andresen - Poetisa portuguesa (1919-2004) (in Navegações VII)

(António Gedeão) - Poema do Fecho Éclair


Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
Combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco,
e a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da Terra
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safiras, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo,
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.

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(António Gedeão - Poeta português - 1906-1997)

Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa. António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, concluiu, no Porto, o curso de Ciências Físico-Químicas, exercendo depois a actividade de docente.
Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições, como A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX.
Publicou ainda outros estudos, como História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979).

Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo.
A esta viriam juntar-se outras obras, como Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990).
Na sua poesia, reunida também em Poesias Completas (1964), as fontes de inspiração são heterogéneas e equilibradas de modo original pelo homem que, com um rigor científico, nos comunica o sofrimento alheio, ou a constatação da solidão humana, muitas vezes com surpreendente ironia.

Alguns dos seus textos poéticos foram aproveitados para músicas de intervenção política.
Em 1963 publicou a peça de teatro RTX 78/24 (1963) e dez anos depois a sua primeira obra de ficção, A Poltrona e Outras Novelas (1973).
Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Sant'iago de Espada.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (IX) - (Al-Mutamid) - Separação


Só eu sei quanto me dói a separação!
Na minha nostalgia fico desterrado
à míngua de encontrar consolação.

À pena, no papel, escrever não é possível
sem que a lágrima desenhe, caindo teimosa,
linhas de amor na página aberta.

Se o meu grande orgulho não obstasse,
iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
de visita às pétalas da rosa.

(Al-Mutamid)

sábado, 26 de abril de 2008

Angola Eterna (Na Pintura de Neves e Sousa) (2)

Muceque Prenda, Luanda







Mucuio, Quilengues








Velório Num Muceque de Luanda








Mato no Cuando-Cubango








Habitação de Axiluandas, Luanda








Cheia do Cunene, no Humbe









Queimada em Quilengues


(De uma exposição na Sanzalangola)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

(Fernando Ferreira de Loanda) - Ode Para Bartolomeu Dias

 

Ah, Bartolomeu Dias,
marinheiro sem mulheres,
sem cais,
tanto suaste para divisar o Índico
além da tempestade e da fábula,
tanto quiseste ver-te senhor do Oriente,
plantar as quinas e a cruz muito além do teu sonho,
tantas estrelas seguiste,
louco e lúcido,
e outros tantos alfarrábios e adivinhos consultaste,
fundindo o real ao fantástico -
- e os poetas não falaram de ti, o proficiente,
nem dos teus sonhos,
nem dos fantasmas que evocaste,
embora sulcasses a cortina que envolvia
as palavras e o abismo.


Pensavas servir a pátria
e serviste a muitas,
Bartolomeu Dias da minha infância,
símbolo da minha raça,
fremes e estuas no meu peito,
e te apegas às minhas veias
para alevantar ao vento as velas
e me arrastar ao Índico.


Ah, Bartolomeu Dias,
meu Ulisses lusíada,
eu te sagrarei na pedra,
com a palavra e ante Deus!
Do outrora te lançarei ao porvir,
e não há tempestade
que te abata mais uma vez.

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(1) - Fernando Ferreira de Loanda nasceu em 1924 (em Luanda, Angola). Naturalizado brasileiro, foi jornalista e poeta. Faleceu em 2002, no Rio de Janeiro.

(2) - Bartolomeu Dias, célebre navegador português, que dobrou, numa viagem ocorrida em 1487-1488, o extremo sul da África (Cabo das Tormentas ou da Boa Esperança), na busca lusitana da passagem para a Índia.
Nasceu em data incerta (por volta de 1450) e faleceu em 1500, em consequência do naufrágio da nau que capitaneava e que seguia integrada na armada de Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil.

domingo, 20 de abril de 2008

A Grande Música de Manuel de Falla - "Noches En Los Jardines de España" e outras composições...

Manuel de Falla foi um dos compositores mais destacados do século XX, criador genial de peças envolventes, sensuais e misteriosas, poderosamente evocadoras dessa Espanha profunda e telúrica onde ele nasceu (Cádiz, 23 de Novembro de 1876).

Em criança estudou música com sua mãe e outros professores da sua cidade natal.
De 1905 a 1907 ensinou piano em Madrid, e entre 1907 e 1914 estudou e trabalhou em Paris.
No período que vai de 1914 a 1938 viveu e compôs, sobretudo, em Espanha. Em 1939 fixou residência na Argentina, onde faleceu em 14 de Novembro de 1946.

Sob a influência de Felipe Pedrell, defensor de que as bases da música de um país devem provir do seu próprio folclore, Falla desenvolveu um estilo claramente nacionalista, que caracterizou praticamente todas as suas composições.

Não obstante, não costumava utilizar as canções folclóricas espanholas de forma directa nos seus temas, incorporando, antes, o seu espírito.
Isso é particularmente perceptível na famosíssima "Dança Ritual do Fogo", do "Amor Brujo".

Oiça aqui:


Manuel de Falla foi o inspirador de um movimento contra a influência, no seu tempo, da música alemã e italiana na ópera espanhola e contra a esterilidade da música de câmara e orquestral que então imperava.
Entre as suas mais famosas composições contam-se Noches en los Jardines de España (1909-1915), para orquestra e piano, a ópera La Vida Breve (1913), com texto de Fernández Shaw, os ballets El Amor Brujo (1915) e El Sombrero de Tres Picos (1919), a Fantasía Bética para piano (1919), El Retablo de Maese Pedro (1924), o Concierto para Clave y 7 Instrumentos (1923-1926) e sica para Guitarra.


Sobre as fantásticas Noches En Los Jardines de España, transcreve-se parte de um artigo que Daniel Eisenberg lhes dedicou:

"Os jardins espanhóis que interessavam a Falla eram todos andaluzes.
A peça foi o primeiro disco de música espanhola que possuí. Causou-me calafrios desde o primeiro momento.
Entre todas as peças do compositor, foi aquela cujo sentido mais me custou a encontrar, isto é, descobrir o que se passava de noite nos jardins de Espanha.
Manuel de Falla pinta um mundo formoso, emocional e violento, acaso perigoso, mas, por fim, aprazível e espiritual.
Segundo Joaquín Turina, esta é a obra mais triste de Falla, na qual ele expressa um drama íntimo.
Os três movimentos que a compõem são: "En los Jardines del Generalife"; "Una Danja Lejana" e "En los Jardines de la Sierra de Córdoba".
Os dois últimos movimentos tocam-se sem pausa. O dedicado ao Generalife foi para mim, desde o princípio, o mais compreensível, pois este é o jardim andaluz mais bem conservado.
O Generalife, o lugar mais agradável que conheço no planeta, foi um jardim dedicado ao amor e, ao mesmo tempo, constitui uma expressão dele. Segundo Santiago Rusiñol, "assim como há artistas que do amor fazem poesia, ou música ou obra de arte, houve quem do amor fizesse jardins, e foi o artista enamorado quem idealizou o Generalife". Naturalmente, não se trata do amor conjugal ou procriativo: foi "ninho de amores, mansão de sultana favorita, refúgio de reis, retiro acariciado pelo perfume das flores, os misteriosos sussurros do bosque e o murmúrio das fontes".
Ciprestes, frescura, exclusão dos ruídos do mundo. Tanques e cascatas, fontes, repuxos: água, flores e frutos por todo o lado. A água, símbolo da vida, foi o principal elemento decorativo. "Hoje mesmo, as suas ruínas possuem a vaga tristeza dos lugares que foram teatro de antigas felicidades, e tudo canta o prazer perdido, nessa linguagem muda das coisas que transportam consigo a recordação."


Falla teve interesse pela história andaluza. Os "Jardines de la Sierra de Córdoba" têm que ser os do eremitério de Ibn Masarra. Ibn Masarra foi o fundador do pouco conhecido sufismo espanhol. As danças violentas do terceiro movimento são certamente danças "sufies", danças místico-eróticas, danças que vão até Deus e até ao êxtase, que seriam uma e a mesma coisa. E a paz e o bem-estar com que o movimento termina são, à vez, inseparavelmente, sensuais e espirituais.
Naturalmente, uma obra assim deixou-me encantado, ainda que a não entendesse até há pouco tempo. Em "Noches en los Jardines de España", Falla passa do existente ao desaparecido, do presente ao passado, do amor humano ao amor divino, do leste ao oeste, de Granada a Córdoba, do último reduto do Islão hispânico à sua plenitude.
Recria um mundo apaixonado e apaixonante, não só desaparecido mas também oculto. A sua evocação musical contribuiu muito para que eu me dedicasse ao estudo da cultura hispânica. Mas as minhas aulas de literatura e história espanholas - nas quais a Espanha se identificou completamente com Castela - não me esclareceram.
Tive que descobri-lo à minha custa."

E nós também o podemos descobrir carregando aqui:

sábado, 19 de abril de 2008

Série de TV "Os Tudors" - Uma Delirante Fantasia "Histórica"


Deram entrada na Torre, em DVD, "The Tudors", série pretendidamente histórica centrada no reinado de Henrique VIII de Inglaterra (que a RTP passou outro dia). Apesar do apuro estético e de alguns desempenhos marcantes (como o de Sam Neill, num notável cardeal Wolsey), é trabalho a ver com grande reserva, pois arromba com frequência e militante ligeireza a autenticidade dos factos.

A história europeia em geral, e a lusitana em particular, saem bastante malferidas da cinéfila aventura. Num dos delirantes episódios, por exemplo, servem-nos um D. Manuel I de pesadelo, caquéctico e lúbrico, gulosamente matrimoniado com uma princesa inglesa que jamais existiu.

Após alguns deslizes de irreprimível sensualidade, a real menina vê-se perdida e desventurada numa corte portuguesa exibida como lúgubre e sórdida. Após peripécias várias, historicamente insustentáveis, a bela acaba por assassinar o pobre velho, asfixiando-o com uma almofada durante o sono indefeso - partindo, enfim liberta do horroroso cativeiro conjugal, para novos e trepidantes deslizes.

Nada disto faz o menor sentido, nada disto aconteceu, nada disto foi fado da história portuguesa...
Maria José Nogueira Pinto indignou-se, mui justamente, com a malévola trapalhada e publicou no Diário de Notícias de anteontem, 17 de Abril, o protesto que se segue.
A Torre saúda e subscreve.

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Os Pés do Rei

Acomodei-me no meu sofá para ver "The Tudors", um drama histórico televisivo sobre a vida de Henrique VIII de Inglaterra.
A série prometia, tinha sido difundida pelas televisões de vários países (em Portugal pela RTP) e tivera honras de Emmys e Globos de Ouro. E eu, que pertenço a uma geração que aprendeu História sem audiovisuais, vejo neste género de produção televisiva um modo entretido de relembrar episódios históricos com ganhos de familiaridade com os personagens que a simples leitura, por definição, não propicia.

Qual não é, pois, o meu espanto quando um tal personagem denominado "Princess Margaret", supostamente irmã de Henrique VIII, é dada em casamento ao Rei de Portugal, (D. Manuel I ?).
Sabendo que este nosso Rei se casara três vezes, pensei que a princesa inglesa me tinha escapado, uma falha de memória, sei lá! Inquieta, mas com a curiosidade aguçada, aguardei com expectativa as cenas relativas ao casamento, a entrada em cena da corte portuguesa num período áureo da nossa História.

Vi, então, como a princesa choramingava porque D. Manuel era um velho corcunda, implorando ao irmão que a troco de tão grande sacrifício lhe desse liberdade para escolher segundo marido quando enviuvasse, o que, esperava, ocorreria rapidamente.

Após uma imagem de rara beleza do Tejo e da Ribeira das Naus, seguiu-se uma sucessão de cenas de verdadeiro horror. D. Manuel era um gnomo marreca e saltitante, desdentado e de olhar lúbrico, baboso, falando um português mal amanhado. A corte, um conjunto de velhotas vestidas de negro, clérigos encapuçados, homens feios e sujos. As cerimónias pareciam ter como cenário uma espécie de barracão e as músicas eram espanholas (Falla?).
O casamento consumou-se no que poderia ser um quartinho do Castelo de S. Jorge, com uma data de basbaques de mau aspecto rodeando o tálamo conjugal e aplaudindo grosseiramente.

No dia seguinte - assim prossegue a série - a princesa Margarida, após lançar um olhar nostálgico à sua nau, prestes a partir do Tejo, não está com meias medidas e assassina o nosso Rei, sufocando-o com uma almofada. A última imagem com que o realizador arruma o episódio português é um grande plano dos reais pés, sujíssimos, explicitando que nem para o casamento este se dera ao trabalho de ablações mínimas.

A indignação venceu qualquer inércia que ainda restasse para confirmar a desconformidade de tão burlesca narrativa com a realidade dos factos.
D. Manuel casou três vezes, com duas filhas dos Reis Católicos, Isabel e Maria e, pela segunda vez viúvo, casou novamente, com D. Leonor, irmã de Carlos V. Todas eram excelentes partidos, demonstrando bem a importância, à época, de Portugal e do seu Rei.

Entre a consulta à História de Barcelos e o recurso à Internet foi possível constatar a existência de muitos outros erros grosseiros.
De facto, a "Princess Margaret" nunca existiu e é um personagem composto a partir das duas irmãs Tudor de Henrique VIII; o rei português de então era D. João III, de vinte anos de idade; não existiu nenhum Papa Alexandre desde 1503; o cardeal Wolsey não foi preso nem se suicidou e Thomas Tallis não consta que fosse bissexual.
Até na escolha dos adereços se repetem os erros, ridículos, tal como a utilização de um mosquete por Henrique VIII, arma que só foi inventada em 1630, ou seja um século mais tarde.

Posto isto, coloco duas questões.

A primeira tem a ver com este, ou qualquer outro, drama histórico televisivo. Embora se possa e deva esperar algum tempero fantasioso da narrativa, não é suposto que tal fantasia deturpe a História, alterando os seus factos, a sua cronologia, a sua geografia ou a identidade das suas figuras. Perdida a dimensão de relato histórico, o que resta passa de ficção a embuste.

A segunda tem a ver com a nossa reputação nacional e quem é suposto defendê-la.
Num país onde já não se ensina História, o canal estatal difundiu, que eu saiba sem qualquer reparo, uma versão vergonhosa e falsa do nosso passado colectivo.
Se a Internet não mente, todos os que se sentiram atingidos foram reagindo e rectificando, excepto nós.
Porque será?

(Maria José Nogueira Pinto, no Diário de Notícias de 17 de Abril de 2008)

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (VIII) - (Al Mutamid) - Amor Rebelde


Sua beleza fez-se juíza do meu coração,
mas nem por isso foi justa na sua decisão:
morro por ela apesar da sua injusta rebeldia,
meu Deus! não a julgues pela sua tirania!

sábado, 12 de abril de 2008

(Manuel Alegre) - Trinta Dinheiros


No bengaleiro do mercado público
penduraram o coração.
Vestem o fato dos domingos fáceis.
Não têm rosto
têm sorrisos
muitos sorrisos
aprendidos no espelho da própria podridão.

Têm palavras como sanguessugas.
Curvam-se muito.
As mãos parecem prostitutas.
Alma não têm.
Penduraram a alma.
Por fora parecem homens.
Custam apenas trinta dinheiros.

Manuel Alegre (Portugal)

(Foto: Gutemberg Silva Ferreira Júnior)

Mulheres de Angola - II (Na Pintura de Neves e Sousa)

Viúva de Luanda








Mulher Mahunga









Mulher Muximba









Mulher Hotentote









Mulher Ganguela










Muíla Solteira










Muíla Casada









Rapariga Cuanhama

(De uma exposição da Sanzalangola)

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (VII) - (Al Mutamid) - Alma Prisioneira

Sinto-me triste com a tua ausência
e ébrio por ti com o vinho da paixão.
Anseiam meu sangue e meu coração
querendo beijar-te e abraçar-te.

Não me queixo!
Para quê ocultares-te?
Juraram minhas pálpebras não se fecharem
até que o nosso reencontro se consume.

Vem, amor, confia e não temas:
bem sabes que a minha alma em fogo
é prisioneira das tuas algemas.

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Al Mutamid, poeta do "Al Andaluz" (parte da Península Ibérica ocupada pelos Árabes), nasceu em Beja em 1040 (sul de Portugal) e morreu em Marrocos, em 1095.
Considerado um dos maiores poetas muçulmanos.
Foi rei de Sevilha, depois de ter sido califa de Silves.

sábado, 5 de abril de 2008

Angola Eterna - (Na Pintura de Neves e Sousa)

Poente, Huíla









No Rio Kwanza









Paisagem da Kissama









Mulheres à Beira do Rio, Maiombe (Cabinda)









Cuanhamas









Baile Mahungo









Celeiros do Cuamato









Serra da Chela









Casas Mahungo









Igreja de Nossa Senhora do Cabo, Luanda









Rio Cubango









Dançarinas do Bocoio

(De uma galeria temporária da Sanzalangola)