sábado, 15 de setembro de 2007

Os Khoisan (2.ª Parte) - Campeões da Sobrevivência no Sul da África



" (…) Os Bosquímanos, um dos ramos do grupo khoisan, fizeram frente a um destino mais tormentoso do que o dos seus irmãos hotentotes. Isto porque o avanço dos trekboers para leste se realizou muitas vezes através dos seus campos de colheita e caça, tornando o choque inevitável.



Assemelhando-se a mongóis de cabelo enca­rapinhado, eles palmilhavam, livres e infati­gáveis, no seu caminhar gracioso e saltitante, as extensões poeirentas do karroo. Deslocavam-se em grupos cujo efec­tivo rondava, em média, a dezena e meia de pessoas.



Campeões da sobrevivência, predadores superdotados, extraíam proveito de tudo o que obtinham daquele meio agressivo e avaro - desde os tubér­culos aos cágados, passando pelos pássaros e o mel, as bagas e os ovos, as larvas e os gafa­nhotos, as toupeiras e as térmitas.




Com o auxílio de caniços sorviam de solos queimados, aparentemente enxutos e estéreis, a água preciosa e vivificante, que re­colhiam em cabaças, bexigas de animais ou cascas de ovos de avestruz. 



Nas caça­das untavam as pontas das flechas com vene­nos violentos, tirados de ve­ge­tais, de cabeças de víboras ou de uma providencial larva de lagarta. Utilizavam cães para desentocar as rapidíssimas lebres saltadoras e capturavam os animais de maior porte em grandes fossas de fundo armadilhado com estacas aguçadas. À noite recolhiam-se a choças temporárias e saudavam, sempre que ocorria, o apa­recimento da lua cheia, onde pairavam os espíritos dos seus mortos.



Na altura em que as caravanas bóeres principiaram a devassar-lhes o território, os Bosquímanos ripostaram tal como haviam feito os seus antepassados diante das invasões dos negros bantos.



Não tardou que se decidissem por audaciosas incur­sões, durante as quais, recorrendo a estratagemas de caça, se acercavam à sorrelfa dos rebanhos dos invasores para lhes subtraírem algumas cabeças.



Por ve­zes leva­vam mais longe as suas iniciativas, não hesitando em atacar os brancos que sur­pre­endiam isolados no mato. Mas os belicosos calvinistas, nada dispostos a re­nuncia­r ao que entendiam ser os caminhos da sua predestinação, constituíam de facto uma nova e temível espécie de inimigo para o povo san.



Organizados em co­mandos de voluntários, eles devolviam com impiedosa crueza todos os golpes e ameaças. Certa ocasião, no derradeiro quartel do século XVIII, um comando de duzentos e cinquenta bóeres levou a cabo uma devastadora acção de represálias.


Por trágica ironia, faziam-se acompanhar de muitos auxiliares hotentotes, incorporados nas su­as carava­nas como fiéis servidores. No termo da operação, tinham sido aniquilados mais de cinco mil bosquímanos.



Sem possibili­dade de reac­ção eficaz diante daque­las vagas de intrusos que os acossavam por todo o lado, cuspindo um fogo mortí­fero do cimo dos cavalos, os minúsculos caçadores do mato viram-se banidos dos seus territórios. Varridos para leste e para norte, só lhes restou acolherem-se, como proscritos, às estremas adversas dos grandes deser­tos.



À semelhança do que sucedera na época das lutas contra os Bantos, os Khoisan deixaram registo, nos rochedos do Cabo, do seu fatídico encontro com os brancos. Trata-se de desenhos toscos, de uma comovente expressividade, de cujo traço in­génuo parece soltar-se uma silenciosa mas pungente inquie­tação. Ou, então, o pul­sar de uma ameaça mortal.



Num deles sobressai um vistoso galeão, porventura ob­ser­vado numa das baías de aguada. Exibe a proa er­guida, o esporão arrogante, os pavilhões orgulhosamente desfraldados no topo de quatro mastros nus.



Noutras re­presentações divisam-se europeus de cabeças som­breadas por chapéus de aba larga, empoleirados em cavalos altivos, e as avantaja­das mulheres holandesas de grossas ancas realçadas por saias em balão.



Aparece ainda, como que dotado de movimento, um dos característicos carros de bois das deambulações migratórias: transporta um animado grupo de homens, mu­lheres e crianças gesticulantes.


São fi­gurações de intenso e incomodativo drama­tismo. Se forem olhadas longamente e com vontade de sentir, deixam adivinhar murmúrios, risos e clamores desprendidos do fundo dos tempos.(...)" (*) 

(*) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - 1999

Os Khoisan (1.ª Parte) - Campeões da Sobrevivência no Sul da África


"(...) Quando principiaram a assenhorear-se da região do Cabo, os Calvinistas de­pararam com bandos errantes de pequenos homens de epiderme castanho-amare­lada, olhos oblíquos, faces ossudas e precocemente enrugadas e cabelos dispersos em tufos encarapinhados.


A cor e os traços fisionómicos dessa gente, que se ex­primia num dialecto pontuado de estalidos, não apresentavam semelhanças com os dos povos africanos encontrados a norte. Tratava-se dos Hotentotes, ou Khoi-Khoi, e dos Bosquímanos, ou San, modernamente agrupados sob a designação de Khoisan. Os Bosquímanos viviam em exclusivo da caça e da recolecção, ao passo que os Hotentotes acrescentavam a criação de gado a tais actividades.



Estes seres constituíram, desde tempos sem memória, os primitivos habitantes de grande parte dos espaços africanos. Surpreendidos em épocas remotas pelas invasões de negros bantos oriundos do Norte, viram-se batidos e empurra­dos para sul e sudoeste do Con­tinente, inexoravelmente esbulhados das pastagens e dos territórios de caça.



Para sobreviver, refugiaram-se nas periferias dos desertos ou procuraram as fran­jas costeiras de menor fertilidade. Gravaram para a posteridade, em cavernas e ro­chedos dispostos ao longo dos caminhos da fuga, dramáticas figurações dos seus recontros com aqueles negros enormes e robustos, de pele retinta e olhos salientes, que lhes iam subtraindo os domínios ancestrais. (…).



Certos viajantes e exploradores europeus deixariam dos Khoisan algumas re­pugnantes descrições. Não hesitaram em apresentá-los, de pena ligeira e cheios de suficiência, como estúpidos, feios e horrendos, talvez mais próximos do irracional do que do ser humano.



Estas desapiedadas impressões, caso fossem levadas ao co­nhecimento daqueles entes minúsculos e engenhosos, maravilhosamente adaptados ao seu meio, dotados de apurada sensibilidade e cultores de um refinado sentido de humor, suscitariam decerto entre eles a hilaridade ou um pasmo escandalizado. 



Com efeito, desde as deambulações do português Bartolomeu Dias pela região, os Khoisan jamais tinham deixado de emocionar-se com a terrífica aparência desses mareantes de tez leitosa e descomunais narizes afilados, os lábios finos e os olhos arregalados, as barbas hirsutas e as cabeleiras esvoaçantes, os enormes corpanzis semeados de pêlos como os dos macacos. 



Os forasteiros exibiam-se por ve­zes co­bertos de estranhas carapaças metálicas ou de trajos espessos que os faziam suar abundantemente. Possuíam a inquietante faculdade de mudar de cor sempre que se encolerizavam ou quando se entregavam a esforços intensos. Nessas ocasi­ões, em que as faces se lhes tingiam de um vermelho carregado, tornavam-se ver­dadeira­mente pavorosos.



Como se não bastasse, dedicavam-se a manobras e ceri­mónias nebulosas, que incutiam o receio e a suspeita nas gentes do Cabo: arrasta­vam para bordo, em grandes recipientes, quantidades prodigiosas de água das nas­centes, dei­xavam nas praias, devorados pelas chamas, alguns dos navios em que se tinham feito transportar e, espanto dos espantos, enterravam no chão esquisitos ob­jectos de pedra ou madeira, em volta dos quais entoavam depois, de joelhos em terra, longas e graves lengalengas na sua fala incompreensível.

 
Não admira que, mal os navega­dores lhes davam as costas e se sumiam de novo no mar, os Hotentotes caíssem com ligei­reza sobre essas ameaçadoras construções e procurassem reduzi-las a pe­daços, es­conjurando qualquer efeito maléfico que delas pudesse desprender-se. (...) (*)

(*) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - 1999)

(Continua)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

(Oswald de Andrade) - Erro de Português





Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
o português.


(Oswald de Andrade)

(Miguel Torga) - Guevara






















Não choro, que não quero
manchar de pranto
um sudário de força combativa.
Reteso a dor,
e canto a tua morte viva.


A tua morte morta
pelo próprio terror em que ficaram
à sua frente
aqueles que te mataram
sem poderem matar o combatente.


O combatente eterno que ficaste
ressuscitado na voluntária crucificação.
Herói a conquistar o inconquistado,
já sem armas na mão.


Quem te abateu
perdeu a guerra santa da liberdade.
Fez brilhar na manhã do mundo inteiro
um sol de redentora claridade:
o teu rosto de Cristo guerrilheiro.


(Miguel Torga - Coimbra, 11 de Outubro de 1967 - in Poesia Completa - Vol. II - Publicações Dom Quixote - Lisboa - 2007)

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Recadinhos do Padre António Vieira (2) - As "Cunhas" ou: Os Escolhidos e os Outros



“Vota o conselheiro no parente, porque é parente;
vota no amigo, porque é amigo;
vota no recomendado, porque é recomendado.
Os mais dignos e os mais beneméritos, porque não têm amizade, nem parentesco, ficam de fora.
Acontece isto muitas vezes? Queira Deus que alguma vez deixe de ser assim.

Agora quisera eu perguntar ao conselheiro que deu este voto e que o assinou, se lhe remordeu a consciência ou se soube o que fazia.
Homem cego, homem precipitado, sabes o que fazes? Sabes o que firmas?
Sabes que, ainda que o pecado que cometeste contra o teu cargo seja um só, as consequências que dele se seguem são infinitas e maiores que o mesmo pecado?
Sabes que com essa pena te escreves réu de todos os males que fizer, que consentir, e que não estorvar esse homem indigno por quem votaste, e de todos os males que deles se seguirem, até ao fim do Mundo?

Oh, grande miséria!
Miserável é a república onde há tais votos, miseráveis são os povos onde mandam ministros feitos por tais eleições; mas os conselheiros que neles votaram são os mais miseráveis de todos: os outros levam o proveito, eles ficam com o encargo.

Se o que elegestes furta, Deus há-de pedir-vos a conta a vós, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles roubos.
Oprime o que elegestes os pobres, choram as viúvas, padecem os órfãos, clamam os inocentes; e Deus vos há-de condenar a vós, porque o vosso voto foi a causa de todas aquelas opressões, de todas aquelas tiranias (…)

E da parte dos beneméritos que deixastes de fora, quais serão as consequências?
Ficarem os mesmos beneméritos sem o prémio devido a seus serviços;
ficarem seus filhos e netos sem remédio e sem honra;
ficar a república mal servida;
os bons escandalizados;
os príncipes murmurados;
o governo odiado;
o mesmo conselho a que assistis, ou presidis, infamado;
o merecimento sem esperança;
o prémio sem justiça;
Deus ofendido;
o rei enganado;
a Pátria destruída (…)”

(Padre António Vieira)

domingo, 9 de setembro de 2007

(Atahualpa Yupanka) - Onde está Deus? Ele almoça à mesa do patrão?


Cantor e compositor, Atahualpa Yupanqui nasceu em El Campo de la Cruz, Argentina (1908), e faleceu em Nîmes, França (1992).

É considerado um dos maiores poetas populares de toda a América de língua espanhola. De ascendência índia quetchua por parte do pai, e basco pela parte materna, Hector Roberto Chavero Aramburu (seu verdadeiro nome) passou a infância em Fortín Roca, na Pampa, onde seu pai era chefe de gare. Aprendeu a tocar violão aos seis anos.

À morte do pai, em 1921, abandonou os estudos e decidiu tornar-se artista. Percorreu então os grandes espaços da Argentina, descobrindo a realidade miserável da vida do povo dos campos, índios ou mestiços. Ele tornou-se o seu porta-voz logo nas primeiras composições – Camino del Indio, Nostalgia de Tucumán.

En 1928, jornalista em Buenos Aires, encontra o etnólogo Alfred Métraux, com o qual explora a Bolívia. O seu conhecimento íntimo das pessoas, das paisagens, dos costumes ancestrais e da alma índia alimentou-lhe a inspiração. "Penso - dizia ele - que a missão do artista não consiste em resolver os problemas políticos, mas em estar junto do povo, testemunhando os seus problemas e as suas dificuldades".

En 1941, sob um pseudónimo escolhido na adolescência (formado de Atahualpa, o último chefe inca, e de Yupanqui, cacique supremo dos índios quetchuas), publicou uma recolha poética, Piedra Sola, seguida de Cerro Bayo (1943) e de Aires Indios (1946).

Oiça-o aqui:



Un dia yo pregunté
Abuelo, donde está Dios?
Mi abuelo se puso triste,
y nada me respondió.


Mi abuelo murio en los campos,
sin rezo ni confesión.
Y lo enterraron los indios
flauta de caña y tambor.


Al tiempo yo pregunté
Padre, que sabes de Dios?
Mi padre se puso serio
y nada me respondió.


Mi padre murio en la mina
sin doctor ni protección.
Color de sangre minera
tiene el oro del patrón


Mi hermano vive en los montes
y no conoce una flor.
Sudor, malaria, serpientes,
es la vida del leniador.


Y que nadie le pregunte
Si sabe donde está Dios.
Por su casa no ha pasado
tan importante señor.


Yo canto por los caminos,
y cuando estoy en prisión
oigo las voces del pueblo
que canta mejor que yo.


Hay un asunto en la tierra
mas importante que Dios.
Y es que nadie escupa sangre
para que otro viva mejor.


Que Dios vela por los pobres?
Tal vez si, y tal vez no.
Pero es seguro que almuerza
en la mesa del patrón.


(Atahualpa Yupanki)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Lembranças de Agosto










































































































































































Centro-Norte de Portugal.
Sombras subtis,
correntezas escorregadias.
Florestas olorosas,
verdes profundos e densos
como pimentos de Padrón.
Repousos, êxtases.
Horas eternas.
Verão.
Férias...

terça-feira, 4 de setembro de 2007

(Sophia de Mello Breyner Andresen) - Porque...


Porque os outros se mascaram, mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo, mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam, mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis, mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam, mas tu não.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

António Gedeão - (Lágrima de Preta)

 
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

(António Gedeão)