sábado, 28 de julho de 2007

Lugares da Península - A Caminho de Granada



...Entretanto, mais poderosos que as polémicas, os lugares continuam, a terra permanece, a beleza e a sensibilidade ocupam triunfalmente esta bela Península multinacional em que temos a sorte de viver.

Do blogue Língua de Mariposa, uma viagem fascinada e inesquecível da brasileira Nora Borges:

"Quando soube que iria visitar Granada, eu sabia muito pouco sobre a cidade, mas já tinha em mente três coisas muito importantes para ver.

A primeira era a Alhambra, a cidade-fortaleza do último reino nazarí em Espanha, o monumento mais visitado do país.
A segunda era estar em Fuentevaqueros e na casa de Garcia Lorca.
E a terceira era conhecer a Capela Real da Catedral de Granada onde estão os restos mortais de Juana, la Loca.

Na época eu havia acabado de escrever alguns posts sobre ela e estava encantada em poder estar na mesma cidade onde a rainha havia desejado, inutilmente, enterrar o seu amado Felipe, el Hermoso. Talvez eu traga também para cá os posts sobre Juana. Vou pensar. Eu gostei tanto de escrevê-los!

Pero… há que respeitar os ensinamentos de Kavafis e aproveitar a viagem, antes de alcançar qualquer destino.
Aproveitei cada segundo da viagem de Madrid até Granada. É belíssima! E como eu sabia que passaria pela Rota de Quixote, não tinha pressa alguma em chegar. Admirei com calma a vegetação, os vinhedos espalhadas pelos dois lados da estrada, as bodegas de vinho, os moinhos de vento.

Para ir à Andaluzia desde Madrid é necessário atravessar Castilha La Mancha. E, como todos sabem, por aqui estiveram em espetaculares aventuras, Don Quixote e Sancho Pança, na fértil e prodigiosa imaginação de Miguel de Cervantes.

Na minha era como se os famosos personagens tivessem existido de verdade. Não canso de afirmá-lo, porque é assim que me sinto. Sempre. Para mim é como se tivessem feito parte da verdadeira história do lugar. Ali a fantasia e a realidade se entrelaçam de tal forma que eu podia ver sombras na colina, mais além do castelo e dos moinhos… e parecia escutar um murmúrio no ar que dizia: " En algun lugar de La Mancha, de cujo nombre no quiero acordar..." Me emocionei... soprei, quis ficar ali. Por que temos tanta pressa em chegar se há momentos tão especiais para deixar-se estar?

Deixei-me estar, imaginando ver e ouvir o cavaleiro andante, o louco e sonhador fidalgo suspirando por sua amada Dulcinea e lutando contra os moinhos de vento como se fossem perigosos gigantes enfeitiçados pela negromancia de seus inimigos invisíveis!

Prometi a mim mesma voltar ali para estar um dia inteiro, talvez dois. Há uma programação turística que leva pessoas de Madrid até essas paragens. Os moinhos foram recuperados, há restaurantes e pousadas lindas. Vale a pena!
Sugiro que venham... e deixem-se estar entre os caminhos por onde Don Quixote cavalgou com Rocinante e com o inseparável escudeiro e amigo Sancho. Sugiro que, "mientras tanto", se puderem, escutem as músicas de El Hombre de La Mancha… deixem que lhes falem ao coração.
E então compreenderão que não há pressa alguma em sair dali...


Entre Castilha La Mancha e Andaluzia, há uma estreita e perigosa passagem entre as montanhas de Sierra Morena. Gostei do nome. A passagem é a única possível para viajantes em carro partindo de Madrid. Vale o medo da estrada-serpente pela grande beleza de costear o Desfiladeiro de Despeñaperros. O nome é meio estranho, mas descobri que o signicado real vem da época das guerras entre moros e cristãos, em torno dos anos 1200. Esta passagem dificultava o avanço dos árabes para a região e quando estes perdiam as batalhas eram chamados de perros ( cães ) e executados sem apelação, sendo atirados nas profundas gretas entres os enormes rochedos.

Por ali há um bar e restaurante chamado Casa Pepe. É um rincão interessante, pois guarda muitas fotos, recortes de jornais e referências à época franquista espanhola. O dono é um dos fãs mais fiéis de Franco e de seu regime fascista "desde que nasceu".É tão espalhafatoso que o lugar foi ficando famoso dentro e fora da Espanha. " Se houvesse um prémio ao local mais "kitsch" do país e de vocação mais fascista ele ganharia a medalha de ouro." Garante o jornal espanhol El Mundo. É um lugar para descer do carro e tomar um café ou uma cerveja, tirar umas fotos ou comprar alguma "recordação" de sua passagem, se é que interressa ao passante. Ele vende bandeiras, queijos com a cara do Caudillo (???... para meter a faca, é?), dedais com os símbolos da Falange, soldadinhos de chumbo. Mesmo que atualmente seja "politicamente incorreto", eu parei. Gosto de ver tudo.

A partir do desfiladeiro a paisagem muda completamente. E começam os grandes campos de olivos, famosos pelo bom azeite que produzem. Reconheci um cheiro no ar que invadiu minhas narinas e trouxe da memória lembranças de infância. Era um cheiro igualzinho ao do vinhoto da cana de açúcar nordestina. Pensei em Lorca e seus cantos. Nos poemas que cheiravam à Granada em plena Nova York.

" Mi Pueblo: Quando eu era menino vivia em um povoadozinho silencioso e perfumado da vega de Granada. Tudo o que nele ocorria e todos seus sentires passam hoje por mim velados pela nostalgia da infância e pelo tempo. Eu quero dizer o que sentia de sua vida e de suas lendas. Eu quero expressar o que passou por mim através de outro temperamento. Eu anseio referir as distantes modulações de meu outro coração"

Quisera ser poeta também para escrever o que contam minhas raízes! Elas guardam as memórias gravadas pelos cinco sentidos, por onde quer que eu vá.
Pois sim...antes de entrar em Granada fui ver o pueblo onde nasceu Federico Garcia Lorca, cruzando um caminho sombreado e lindo de chopos.
Mas Fuentevaqueros me pareceu uma cidade fantasma. E era.

Naquela tarde, às quase 5 da tarde, não havia uma alma nas ruas... nem um jovem de bicicleta, nem uma criança, nem um velho sentando solitário em algum banco público. Nada... Apenas o sol causticante sobre as casas de janelas pequenas, cobertas por cortinas estampadas. Havia também cortinas nas portas. Com certeza para que o ar pudesse circular sem trazer as moscas, nem perderem suas intimidades. A gente podia apenas imaginar a vida por trás das cortinas...um costume herdado dos árabes e também muito utilizado nas quentes cidades do interior nordestino.

A Casa Museu é o número 4 da rua García Lorca. E estava fechada. Desta vez, com porta de madeira, sem as cortinas que indicam vida, por mais escondidas que estejam. Era a hora final da siesta espanhola e nem a sorveteria estava aberta.
Suspirei de sede e decepção. Mas não desisti. Finalmente encontrei um pequeno cartaz que dizia: Horários de visita : 5:00h, 6:00h e 7:00h da tarde. Uff! Faltavam apenas três minutos para as cinco!

E, "às 5 en punto de la tarde" (uma referência a um dos seus poemas mais conhecidos) a porta se abriu e um homem apareceu perguntando se queríamos ver o museu. Compramos as entradas e como num passe de mágica, apareceram mais doze pessoas. Onde estavam eu não sei. Soube depois que só atendem 15 de cada vez. Éramos 14... A porta se cerrou à nossas costas e o calor do sol desapareceu.

Como todas as casas da Andaluzia, a Casa de Lorca tem um pátio e um poço. E toda ela rescende a jasmim e frescor. Vi suas pinturas de criança, seu quarto e seu berço, a cozinha e seus utensílios... um piano...Só ali eu soube que ele também tocava piano e compunha belas canções.

A casa é muito simples. Vale pelo sabor de estar dentro da história do grande poeta. Não esperem um museu de verdade... ela não o é.
Na parte de cima, no antigo celeiro de grãos, havia uma pequena exposição, que varia de tempos em tempos. Coube-me a do momento, sobre as cartas e fotos que o poeta trocou com sua grande amiga, Anna Maria Dalí, irmã do pintor surrealista espanhol, Salvador Dalí.
De cara, dei com o quadro que eu adoro e que conheci no Museu Rainha Sofia, em Madrid. Era como encontrar uma velha amiga minha. Inclusive já utilizei-a num dos posts da história para estar aqui.
Chama-se Muchacha en La Ventana.
Que delícia é viver devagar e observar pequenos detalhes que fazem as coisas mais belas!"

Ps. Este post é uma adaptação de antigos arquivos do Cicatrizes da Mirada.
Posted by Nora Borges on setembro 5, 2006 2:06 PM
(Do blogue: Língua de Mariposa)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Saramago, o Iberismo e a Opinião de um Espanhol



Chegou à Torre a opinião de um espanhol, que devemos a Água Lisa (o blogue de João Tunes):

Interessante para a polémica, que vai brava, sobre o Saramago e o seu iberismo, conhecer a opinião de um espanhol. Por exemplo, a do companheiro “popular maiorquino”, Daniel:

"No discutiremos su calidad literaria, aunque podríamos.
Yo solo fui capaz de leer, con gran esfuerzo "La Caverna" y "La Balsa de Piedra", esa prosa farragosa y pesada.
Con "Ensayo sobre la ceguera" ya no pude.
Leer a Saramago es como tragar un pedazo de pan seco que no acaba nunca de bajar por la garganta.
Pero le dieron el premio Nobel, y habrá quien disfrute con sus obras. En fin, si solo se dedicara a escribir, no pasaría nada. Para gustos, colores.
Sí es más discutible su calidad como profeta.
Iberia ya existe desde hace muchos siglos, dividida en dos estados: Portugal y España.
Y puede que desde su retiro canario, alejado del mundanal ruido, haya olvidado los problemas internos que sufre España.
De otro modo no se explicarían sus ejercicios geográficos de salón tan fuera de lugar.
Saramago se equivoca, o busca protagonismo, quién sabe.
Sus palabras parecen venir del resentimiento más que de las convicciones.
Y creo que en Portugal tiene pocos amigos."

(Publicado por João Tunes)

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Iberismo (Defesa de José Saramago)


Ferreira Fernandes, sempre conciso e directo, no Diário de Notícias de hoje:


"LEVANTÁ-LO DO CHÃO?
ELE NÃO ESTÁ AÍ


Saramago foi acusado de tudo, até de traidor. Porque disse que amanhã vamos ser Espanha. Nem disse que gostava que assim fosse, disse como quem diz o inevitável: "Amanhã a Terra acaba." Vamos insultar os cientistas que garantem isso?

Não uivarei com os lobos. Saramago tem mais de 80 anos e continua a trabalhar. Ele paga os impostos em Portugal, podendo não o fazer. Eu, que vivo em Portugal, não cuspo para a sopa.

Outra coisa, ele tem uma profissão útil: escreve (não vende, por exemplo, pit bulls).
E escreve em português. Num país que diz tanto "a minha pátria é a língua portuguesa", é contraditório com ser traidor.
E escreve bem português: não discuto se é ou não grande escritor, digo que não escreve "çamarra". Logo, não lesa a pátria (a língua).

Ah!, e ele ganhou o Nobel de Literatura. Ao alcance de qualquer um, eu sei, mas não é o mesmo que ser administrador em fábrica do sogro. Ou é?

E ainda: ele tem 80 anos e ama. Gostava de ver o caixote do lixo de quem tanto o despreza. "

Iberismo (Ibéria: capital Lisboa)




Transposto de O António Maria:


Ibéria: capital Lisboa


"Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se na Espanha" - José Saramago in Diário de Notícias online, 15.07.2007

Não fora o homem estar eterna e agradecidamente enamorado de uma linda sevilhana chamada Pilar del Rio, que muitíssima importância teve para o êxito internacional do escritor ribatejano, e o assunto do seu reiterado iberismo mereceria, de facto, extenso debate, em vez da urticária que atacou imediatamente alguns arautos profissionais da portugalidade. No entanto, o "sentido de oportunidade" da sua entrevista ao Diário de Notícias, fazendo-a coincidir com a visita do rei de Espanha a Portugal no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia, teve o esperado condão de excitar os espíritos fracos de ambos os lados da fronteira.

O El País excita-se sempre nestas ocasiões e descobre, espantado, que Portugal existe (e continua a ser apetecível), e o Manuel Alegre (que parece ter-se esquecido dos seus mais recentes compromissos com o movimento de cidadãos que desencadeou, e sobretudo com parte importante da base militante e simpatizante do PS) fez previsivelmente ouvir a sua voz adamastórica: "Ele (Saramago) tem a responsabilidade de ter ganho o Nobel da Literatura com a língua portuguesa".


Saramago regressa às "portadas" dos jornais e televisões, e à netosfera, com uma questão típica do século 19: o iberismo. Homens de uma bem mais notável craveira intelectual que Saramago, refiro-me a Miguel de Unamuno, Antero de Quental, Teófilo Braga e António Sérgio, ou mesmo a escritores seus contemporâneos, como Miguel Torga, António Lobo Antunes e Eduardo Lourenço, sonharam ou sonham igualmente com formas mais ou menos evoluídas de iberismo. O já desaparecido José Rodrigues Miguéis, num dos seus deliciosos bilhetes postais publicados no extinto Diário Popular, falava, mais limitadamente, de uma nova quimera que baptizou com o nome Portugalícia.


Em suma, se durante tantos séculos fomos aliados dos ingleses, para nos defendermos dos castelhanos, depois da vergonhosa Conferência de Berlim (1884-1885) e do ultimato inglês a Portugal, rejeitando o Mapa cor-de-rosa (com que Portugal pretendia assegurar uma boa presença na partilha colonial do continente africano então em curso pelas principais potências europeias), tal ideal estratégico chegara irremediavelmente ao fim. Por outro lado, a decadência mais geral e profunda dos povos peninsulares, verberada por Miguel de Unamuno, tornar-se-ia uma realidade cada vez mais pesada de consequências, tanto para os povos ibéricos como para os dois estados que os protagonizam.

A Espanha deixou entrar Napoleão no seu território a pretexto de obrigar Portugal a cumprir o bloqueio contra os ingleses, a decadente corte lusitana, em consequência desta invasão francesa, fugiu para o Brasil. Mais tarde, a derrota espanhola de 1898, na disputa com os Estados Unidos pelo controlo do continente americano, mergulharia este país num declínio económico e político de que só sairia após a morte de Franco. Perdidos os impérios coloniais espanhol e português, findas as ditaduras oportunistas que emergiram da crise finissecular em ambos os países, criada a União Europeia, nada mais natural do que repensar as relações entre os vários povos ibéricos, entre as várias nações históricas da península e entre os dois estados que há muitos séculos protagonizam as suas alegrias e as suas tristezas.

Tudo isto pode e deve ser feito, com tempo, com cautela, com transparência e sobretudo com elasticidade. Mas daí a alimentarem-se ilusões sobre uma nova união ibérica vai um passo de gigante demasiado improvável. A menos que a capital dessa união seja Lisboa, claro!Post scriptum: Há um argumento falacioso, muito bem montado por alguns estrategas do iberismo castelhano, expresso aliás num recente artigo de Santiago Petschen, que convém desmontar a tempo de evitar excessivos optimismos face à utopia de dissolver o secular bicefalismo geo-estratégico da jangada ibérica.
Petschen resume-o de forma fina e sedutora:

"Há alguns anos, depois de uma exposição que li no Instituto de Defesa Nacional de Lisboa, num português macarrónico, dialoguei com os militares sobre as relações entre os espanhóis e os portugueses e surgiram algumas queixas. Perguntei então: estão de mal com os galegos? A resposta imediata foi: não! Estão de mal com os andaluzes? Também não. Mal com os catalães? De maneira nenhuma. Mal com os bascos? Absolutamente, não. E continuei: os estremenhos, os aragoneses, inclusive os manchegos e os madrilenos. Para com todos os mencionados mostraram os dialogantes a sua simpatia. Só apareceu um cliché, resquício de irredutibilidade, o dos castelhanos velhos. Disse-lhes então: os senhores não têm nada a temer. Portugal e Castela a Velha contam com um número parecido de quilómetros quadrados. Mas sobre a mesma extensão encontram-se, em Portugal, dez milhões de habitantes e em Castela a Velha pouco mais de dois milhões. A estatística, tão favorável a Portugal, produziu no auditório desconhecedor do dado uma surpresa. Dissipou-se, com isto, uma percepção errónea." - "O iberismo", Santiago Petschen, Prof. catedrático de Relações Internacionais na Univ. Complutense de Madrid, in DN online
.


Como é evidente, o problema do poder não se mede hoje em dia pelo critério demográfico, particularmente se estão em causa escalas tão exíguas. O que conta hoje e no futuro próximo são as grandes concentrações urbanas (Madrid, Lisboa-Porto, Barcelona-Valencia) e os sectores-regiões económico-financeiros, logísticos, tecnológicos, de serviços e político-militares, que as mesmas representam e controlam. Neste sentido, seria imperdoável tolerar que a ingenuidade prevalecesse sobre o realismo dos jogos de estratégia em curso. Madrid pretende hegemonizar radialmente a península ibérica - e para isso, tudo tem feito, no sentido de transformar a capital espanhola numa super-metrópole política e financeira. Lisboa, com o Porto e Barcelona (e Bilbao), não estarão jamais dispostos a sucumbir a esta estratégia, e por isso continuarão a desenvolver esforços para consolidar, sob todos os pontos de vista, os aneis atlântico e mediterrânico, de que a sobrevivência estratégica da península afinal depende.


A União Europeia irá passar nas próximas décadas por duras provas à sua consistência estratégica e à sua governabilidade interna, sobretudo por causa das questões energéticas, ambientais, mas também das que respeitam à imediata questão do alargamento. Deverão a Turquia e Marrocos integrar-se na União Europeia, como pretende a Alemanha e vários estados da União (entre eles, Portugal e Espanha), ou, pelo contrário, formar com o resto do Magrebe uma União Mediterrânica, como quer Sarkozi? Se os EUA atacarem o Irão, e a Rússia sair em defesa deste, que fará a Europa? Qual Europa? Portugal é um estado independente há 868 anos; a Espanha é um reino unificado e independente há 538 anos. Vamos pois deixar, para já, as coisas como estão, e um dia, quando a Europa for o que promete, voltemos então a discutir a organização política da ibéria. "

Iberismo - Carta Aberta a José Saramago (Fernando Venâncio)



CARTA ABERTA A JOSÉ SARAMAGO
(in DIÁRIO DE NOTÍCIAS - resposta à entrevista publicada abaixo)


Muy señor mío,

Me perdonará Usted mi pobre castellano, pero desde anteayer me entero de la urgencia de praticarlo.
Al "Diário de Notícias" de Lisboa predijo Usted esto: "Acabaremos por integrar-nos" en España.

Preguntado por el periodista João Céu e Silva si nuestro país seria entonces "uma província de Espanha" (le sigo citando en nuestro antiguo idioma), Usted contestó: "Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla La Mancha e tínhamos Portugal".

Claro, nos asegura, podremos conservar nuestra lengua, nuestros costumbres, y así mismo creo yo nuestro fado, pero (no lo dijo, uno entiende) nos gobernaría el jefe de estado madrileño del momento. Y aunque diga Usted que no es profeta, no hay que olvidar su proverbial modestia. En fin, para gente sencilla como yo, sus palabras son un caritativo aviso del destino.

Pues, señor, no y no. Usted, el más famoso de mis compatriotas, se permite en público unos juegos muy guapos de futurología. Pero se los guarde para sus libros, los cuales están perdiendo el suspense de antaño.

Créame, el real futuro de un Portugal integrado en España lo conocemos ya muy de cerca. Está visible en la Galicia de hoy, donde la lengua dominante, y los derechos dominantes, y los partidos dominantes, son los de Madrid. Esto no es futurología, sino lo qué uno ve. Si quiere verlo.

No creo que sea su caso, Don José. Me contaran que, hace poco, visitó Usted Galicia invitado por el Pen Club. Le rogaran que hiciera su discurso en Portugués. Todos podrían entenderle, sin problema, si hablara en nuestra hermosa variedad de gallego.

Usted - como otras veces ya en Galicia - recusó y habló en Español.

Muchas gracias en realidad. Ahora sabemos como hablarán, en la Provincia española de Portugal, los futuros traidores.


Fernando Venâncio - Amsterdam, 17 de Julio de 2007

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Entrevista de José Saramago - Portugal, Espanha e o Iberismo


Na Torre não se professam as ideias de José Saramago quanto ao tema (um iberismo conceptualmente entendido como tendência para a integração política plena de Portugal no todo peninsular, com a consequente liquidação da independência nacional).
Foi um tema já aqui aflorado noutra perspectiva (rever 8 de Julho) e será um tema a que tornaremos mais cedo do que tarde.
Na Torre, porém, muito se estima a liberdade de caminhos, de escolha e de expressão, pelo que se opta hoje por reproduzir, na íntegra, a entrevista concedida pelo Prémio Nobel português a João Céu e Silva, do Diário de Notícias, no passado dia 15 de Julho.
...............

"Este foi o regresso mais longo de José Saramago a Portugal desde que a polémica que envolveu a candidatura do seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo ao Prémio Literário Europeu o levou para um "exílio" na ilha espanhola de Lanzarote. A atribuição do Prémio Nobel parece tê-lo feito esquecer essas mágoas, mas não amoleceu a sua visão da sociedade e da História, que continua a ser polémica. Como se pode ver nesta entrevista.
Durante dois dias, o Nobel da Literatura português sentou-se no sofá e analisou o estado do mundo. Na única entrevista que concedeu durante a temporada passada na sua casa de Lisboa, falou muito de política, mais de literatura e também da vida e da morte. Pelo meio ficou o anúncio da criação da fundação com o seu nome e a revelação de que está a escrever um novo livro.

Este regresso a Portugal é um perdão?
O país não me fez mal algum, não confundamos, nem há nenhuma reconciliação porque não houve nenhum corte. O que aconteceu foi com um governo de um partido que já não é governo, com um senhor chamado Sousa Lara e outro de nome Santana Lopes. Claro que as responsabilidades estendem-se ao governo, a quem eu pedi o favor de fazer qualquer coisa mas não fez nada, e resolvi ir embora. Quando foi do Prémio Nobel, dei uma volta pelo país porque toda a gente me queria ver, até pessoas que não lêem apareceram! E desde então tenho vindo com muita frequência a Lisboa.

Vive num país que pouco a pouco toma conta da economia portuguesa. Não o incomoda?
Acho que é uma situação natural. Qual é o futuro de Portugal nesta península? Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos.

Política, económica ou culturalmente?
Culturalmente, não, a Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto da Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis. Quando olhamos para a Península Ibérica o que é que vemos? Observamos um conjunto, que não está partido em bocados e que é um todo que está composto de nacionalidades, e em alguns casos de línguas diferentes, mas que tem vivido mais ou menos em paz.

Integrados o que é que aconteceria?
Não deixaríamos de falar português, não deixaríamos de escrever na nossa língua e certamente com dez milhões de habitantes teríamos tudo a ganhar em desenvolvimento nesse tipo de aproximação e de integração territorial, administrativa e estrutural. Quanto à queixa que tantas vezes ouço sobre a economia espanhola estar a ocupar Portugal, não me lembro de alguma vez termos reclamado de outras economias como as dos Estados Unidos ou da Inglaterra, que também ocuparam o país. Ninguém se queixou, mas como desta vez é o castelhano que vencemos em Aljubarrota que vem por aí com empresas em vez de armas...

Seria, então, mais uma província de Espanha?
Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla la Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria. Se Espanha ofende os nossos brios, era uma questão a negociar. O Ceilão não se chama agora Sri Lanka, muitos países da Ásia mudaram de nome e a União Soviética não passou a Federação Russa? Mas algumas das províncias espanholas também querem ser independentes! A única independência real que se pede é a do País Basco e mesmo assim ninguém acredita.

E os portugueses aceitariam a integração?
Acho que sim, desde que isso fosse explicado, não é uma cedência nem acabar com um país, continuaria de outra maneira. Repito que não se deixaria de falar, de pensar e sentir em português. Seríamos aqui aquilo que os catalães querem ser e estão a ser na Catalunha.

E como é que seria esse governo da Ibéria?
Não iríamos ser governados por espanhóis, haveria representantes dos partidos de ambos os países, que teriam representação num parlamento único com todas as forças políticas da Ibéria, e tal como em Espanha, onde cada autonomia tem o seu parlamento próprio, nós também o teríamos.

Os espanhóis olham-no como um deles?
Há duas Espanhas neste caso. Evidentemente, tratam-me como se fosse um deles, mas com as finanças espanholas ando numa guerra há, pelo menos, quatro anos porque querem que pague lá os impostos e consideram que lhes devo uma grande quantidade de dinheiro. Eu recusei-me a pagar e o meu argumento é extremamente simples, não pago duas vezes o que já paguei uma. Se há duplicação de impostos, então que o governo espanhol se entenda com o português e decidam. Eu tenho cá a minha casa e a minha residência fiscal sempre foi em Lisboa, ou seja, não há dúvidas de que estou numa situação de plena legalidade. Quanto aos impostos, e é por aí que também se vê o patriotismo, pago-os pontualmente em Portugal. Nunca pus o meu dinheiro num paraíso fiscal e repugna-me pensar que há quem o faça. O meu dinheiro é para aquilo que o Governo entender que serve.

Mas não pode negar que o olham como um deus...
Não diria tanto...

Mesmo sendo a crítica espanhola tão positiva em relação à sua obra?
Também já foi uma ou outra vez um pouco negativa - talvez devido às minhas posições políticas e ideológicas - mas de um modo geral tenho uma excelente crítica em toda a parte, como é o caso dos EUA, onde é quase unânime na apreciação da minha obra."

terça-feira, 24 de julho de 2007

O Retrato do rei D. João II de Portugal (por Oliveira Martins)



















"Dizia o príncipe que tempos havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão (...). Os tempos de coruja tinham acabado, porque não carecia mais de pactuar com as tontices do pai; rei agora (1481), seria o falcão. Mas, para ser verdadeiramente rei, teria de vestir ainda muitas vezes o hábito de ave nocturna, até ver por terra o poder dessa fidalguia que os erros do pai tinham ensoberbado.

Isto, porém, não satisfazia ainda as suas largas ambições. O homem, como Isabel de Castela o designava com espanto, mirava mais longe. A possibilidade de vir a sentar-se, ele ou os seus herdeiros, no trono de uma Espanha unida, afagara-lhe o espírito em moço, e chegou a esperar (antes de Toro) realizá-la. Depois, rechaçado, mas não desesperado, fez de coruja em 1479, contando voar de falcão no momento oportuno.

Nem paravam aí as suas ambições: lembrava-se do falecido infante D. Henrique, e dos vastos planos, abandonados, que tinham fervido naquele cérebro. A sua monarquia dilatava-se da Espanha à Índia: e com a Península da Europa, com a África, a Índia, o encantado reino do Preste João, sonhou a monarquia de Filipe II...

Era sóbrio, severo, detestava o luxo - que proibiu. A sua corte apresentava o que quer que fosse de fúnebre e austero, sempre agradável a portugueses. A sua figura, também, nada tinha de imponente, nem de graciosa. Os hábitos de coruja davam-lhe mais carácter do que os de falcão: às duas aves, porém, pedia a cor que punha em tudo, o negro. De maravilhoso engenho, subida agudeza, de memória viva e esperta, faltavam-lhe porém os dotes exteriores. Não tinha elegância, nem no corpo nem no dizer: arrastava as palavras, falava a custo e com uma voz fanhosa. Era alvo, mas com umas veias de sangue que o faziam ser muy temido.

Inspirava medo sem infundir amor. Aos 37 anos já tinha cãs na barba e nos cabelos; só nessa idade deixou de ser abstémio. A força muscular, dote necessário aos príncipes dos bons tempos, tornava-o célebre: cortava com um golpe de espada três e quatro tochas de cera reunidas. A natureza não o ajudava, decerto. E também, na sua educação de príncipe, deixava de obedecer à regra de Maquivel: Não é necessário ser-se dotado de todas as qualidades, mas é indispensável afectá-las; possuí-las e servir-se delas pode chegar a ser perigoso: fingi-las é sempre útil. Seja-se fiel, clemente, humano, religioso e íntegro; mas de modo que, senhor de si, se possa e saiba fazer todo o contrário, quando a isso o caso obrigue.

D. João não era, nem clemente, nem humano, e não julgava necessário ao seu papel fingi-lo. Isso fazia com que muitos o detestassem, o que era um mal, fazendo com que, se a maior parte o temia, ninguém o amasse, o que se tornava pior ainda. A perspicácia e a autoridade não eram nele bastantes para que soubesse envolvê-las numa simulada bonomia, porque doçura ou humanidade não as havia na sua alma. Não hesitava perante o assassinato, à italiana, mas tinha a fraqueza portuguesa de confessar como isso se praticava."
(Oliveira Martins - "História de Portugal" - Guimarães Editores - 17.ª Ed. - 1977)

Relembre as conspirações contra D. João II - aqui

domingo, 22 de julho de 2007

Papéis do Império Luso - Uma Caçada no Deserto de Moçâmedes (Angola) (2)

Continuação da descrição de uma caçada no deserto de Moçâmedes (por Gastão de Sousa Dias - 1928) (ver, três mensagens atrás, a Parte I)

Nos Areais de Moçâmedes (Parte II)

"O caçador olhou o céu. E lá longe, no horizonte, uns pontos negros voavam em filas: eram os abutres que se apressavam, atraídos pelo cheiro do sangue! O tipo deste caçador e de seu irmão, que conduz o outro carro, é deveras singular. Negros, requeimados de sol, são assim como ciganos endurecidos pelo clima e pelas privações a que se sujeitam nas aventuras de caça, tendo conseguido não só uma adaptação do corpo, mas também do espírito, à vida agitada e arriscada a que permanentemente se sujeitam.
O deserto é o seu campo favorito. A espingarda e o carro são os seus recursos preciosos, de onde tiram a carne - com que gostosamente se banqueteiam - e os lucros dos transportes de passageiros, pois que em Moçâmedes as caçadas nos areais constituem uma curiosidade notável, que atrai todos os forasteiros, pelas condições anormais em que são realizadas. De facto, numa região onde o pasto não passa de uma ervazita rasteira, espécie de malva carnuda, como se aguenta uma vida tão persistente, de animais possantes e velozes?

Agora o terreno agita-se um pouco. Pequenas ondulações sucedem-se. E à nossa frente, lá ao longe, elevam-se os degraus da Serra da Chela, negros e verticais, singularmente recortados no céu esbranquiçado. Entre eles destaca-se o Morro Maluco (Cha-Malundo), cuja conformação é realmente caprichosa, recurvado como uma garra. O sol já clareia tudo. À medida que se vai elevando, vai dando às coisas os tons que o fogo transmite aos tijolos de um forno. A Natureza encontra-se neste instante ao rubro. Como não há árvores nem acidentes em toda a extensão, a falta de sombras elimina a sensação de relevo e a noção das distâncias perde-se na profundidade incalculável da planura. E assim, quando surge qualquer vulto animal, são precisos olhos experimentados para o distinguir, no fundo cinzento do chão.

Agora mesmo, de um dos carros, veio o sinal de caça. Convergiram todos para a direcção por ele apontada, mas só ao cabo de uns segundos se conseguiu distinguir claramente o corpo de uma zebra tosando as ervas raras. O animal surpreendido entra a trotar e, quando os carros se aproximam, o seu corpo listrado, de cabeça erguida e cauda tesa, inicia uma galopada elegante que nos entusiasma. Galopa velozmente, levando-nos de vencida, até galgar uma elevação, para o outro lado da qual se esconde repentinamente.
Um brado soa: Cautela, cautela! Tínhamos atingido as margens abruptas do rio Bero e os carros dificilmente foram travados na vertigem em que iam lançados. Lá no fundo, quando atingimos a beira da rampa, a zebra trotava ainda, assustada, estacando curiosa a olhar-nos de face.

Afastada a zebra para longe, ficava em frente de nós a curiosidade de um rio absolutamente seco, cujo leito arenoso se prolongava pela trincheira funda praticada no solo. São assim todos os rios alimentados pela vertente ocidental da Chela: durante o período das secas, nem uma gota de água lhes humedece o leito arenoso; vindas as chuvas, a água desce da serrania, às catadupas, galgando obstáculos, arrasando tudo na sua frente, como onda formidável. E, passados dias, horas por vezes, de novo o leito é simplesmente marcado pela areia seca e movediça que foi arrastada pela enxurrada.

Paramos a conversar sobre zebras, para a caça das quais um dos carros trazia um laço armado na extremidade de uma grande vara.
Das três espécies de hippotigris, apenas duas têm representantes nos areais de Moçâmedes, não existindo o cuaga, que é a zebra menos listrada. Animal insubmisso, todas as tentativas de domesticação têm obtido resultados pouco animadores, pois nunca no animal se conseguem anular as qualidades de braveza inata. Os próprios produtos nascidos de pais cativos mantêm a selvajaria insubmissa, e os cruzamentos com a espécie cavalar e asinina não vêm adoçadas, o que evita a sua utilização no serviço do homem.
Assim, esses milhares e milhares de zebras que povoam a África, desde muito acima do Equador até ao Cabo, transformam-se em flagelo das culturas, consideradas em toda a parte como animais daninhos. Apenas o leão as ataca com vantagem: dos outros animais defendem-se aos couces e mesmo à dentada. Desta forma a sua reprodução vai-se operando livremente e dia a dia crescem as manadas que galopam nas planícies africanas.

Nos momentos em que o carro pára, sente-se a fornalha do calor. Pela extensão larga do areal, a atmosfera, ao contacto com a terra, tem vibrações ferventes e trémulas. A cor que ilumina as coisas é de um tom branco incaracterístico. As cabras agora aparecem espalhadas, pastando. O tiroteio repete-se. Tombamos duas... Olhamo-nos uns aos outros com o sentimento da nossa brutalidade e selvajaria. É que naquele nosso divertimento havia muito de ferocidade, que nem ao menos tinha a justificá-la a necessidade do aproveitamento da carne! Era simplesmente o instinto primitivo de deter movimento, de destruir vida (...).

São as horas combinadas de nos juntarmos no Pico do Azevedo, para almoçar. De caminho matamos mais cabras, quase sempre machos. O caçador explica a razão desse facto: as atalaias dos bandos são sempre machos, e também é muito vulgar encontrar bandos enormes deles, repelidos dos rebanhos pelos seus rivais mais fortes e mais felizes. Uma ou outra zebra desgarrada afasta-se de nós, a trote. Seguimos para o ponto de concentração. Sobre nós voam abutres, em grandes círculos, na esperança da caça abandonada. E logo o caçador ilustra este facto com uma narrativa impressionante.

Uma vez, um rapaz de Moçâmedes, andando à caça, perdera-se nos areais.Coisa fácil para quem não conheça bem o deserto. Andou, andou... O calor e a sede foram-no esgotando. Na ansiedade de se salvar, já não andava: corria desorientado! Gritava meio enlouquecido: e cada vez o cansaço o tomava mais. Parecia que o deserto em volta, ardente e infinito, se preparava para o devorar. O calor requeimava. De repente sentiu o ar agitar-se frescamente em volta da sua cabeça. Horror! Eram os abutres, já ali, prontos para o devorar... Foge, tomba, grita, torna a tombar, esconde a face aterrada na areia escaldante, corre de novo, de braços erguidos, louco, perdido...
Quando o carro o encontrou, desmaiado no meio do areal, já os abutres em volta, avançando em saltos receosos, se aproximavam para iniciar o banquete.

Apesar de não correr uma única aragem, lá para longe levantam-se vagas ondas de poeira. Um amigo explica que, sob aquele pó, deve galopar um esquadrão de zebras que nós não distinguimos. Abrem-se os farnéis. Não faltam os clássicos e nacionalíssimos bolos de bacalhau, afirmando que até no deserto fazemos reinar os nossos sagrados hábitos, as ternas recordações da casa e da família. Formamos efectivamente um grupo curioso e heterogéneo, mas igualmente infiltrado da maneira de ser da nossa terra. Somos de todas as categorias, desde os caçadores enegrecidos pelo deserto, como se fossem berberes, aos diletantes que vieram atraídos pelo sonho da acção. E, apesar de tudo, aquele grupo, aconchegado ao rochedo nu, pensa, sente com a mentalidade de Portugal e ri as boas gargalhadas salutares da nossa gente.

(...) Vamos de novo para a caça. Junto do Pico do Azevedo já fica um montão de carne morta, que recolheremos no regresso. Não falta a lebre ligeira e abunda uma variedade de codornizes patorras, duma mansidão impressionante, confiando imbecilmente na fera bípede que está junto delas. O caçador esperou que os animaizinhos tomassem uma disposição conveniente e tombou quatro de um tiro.
Depois, na lomba de um outeiro, projectando-se no céu em vulto engrandecido, começaram passando grupos de zebras a galope. À ilharga dos animais adultos marchavam poldros pequenos, alguns certamente com poucos dias ainda. Não são elegantes: lembram os desenhos que o homem primitivo gravava nos chifres das renas, com aquele mesmo lançamento no galope, as mesmas cabeças exageradamente grandes em relação ao corpo e a mesma disposição em fila.

Um grupo estacou de frente, a contemplar-nos. Depois passaram mais grupos, uns após outros, seguindo os movimentos das avançadas. O escrúpulo do sangue deteve-nos, deixando passar em paz a récua enorme, que desfilava na nossa frente. E quando caminhávamos à cata de novas sensações, um espectáculo inesperado surgiu em frente dos nossos olhos.

Depois de tanta aridez, uma larga superfície de água estendia-se à nossa frente, clara, transparente, reflectindo nitidamente os acidentes do relevo. A superfície lisa reproduzia as imagens do horizonte com a precisão admirável de um espelho. Os caçadores riam perante a nossa ilusão: o que estava em frente era um fenómeno de miragem, repetindo invertidas as imagens do horizonte, por efeito da refracção dos raios luminosos através das camadas aéreas desigualmente aquecidas e, portanto, desigualmente densas.
Assim a Natureza, diabolicamente, cria no deserto a miragem ilusória da água, de molde a enlouquecer o pobre viandante perdido de sede e de cansaço. Era a água tal e qual, ali a dois passos, estendida num lençol de tentadora limpidez.

(...) Mas este dia de surpresas não acabara ainda. As cabras surgiam de todos os lados, às centenas, numa abundância e numa impassibilidade inacreditáveis! Na nossa frente desloca-se, na profundidade e na largura do areal, um número tal de animais, que em nós abrandou a vontade de caçar, encantados com o espectáculo de tanta vida saltando, galopando, vivendo ao nosso alcance! O que está diante dos nossos olhos é de tal forma maravilhoso que só pode ser acreditado por aqueles que já o gozaram. Eu, pela minha parte, só conhecia coisa parecida criada pela imaginação de Flaubert na Lenda de S. João Hospitaleiro e recusar-me-ia a crer que a Natureza o pudesse reproduzir e demais em condições tão extraordinárias.

É um sonho: em frente de nós, aos lados, para a rectaguarda, galopam milhares de cabras! (...) Já ninguém queria matar, banalizado o prazer da caça pela profusão das reses e pela facilidade de as alcançar. Todos sentíamos um começo de fadiga, não corporal, mas um vago aborrecimento e remorso de tanta morte inútil, de tanta dor causada em vão. Para quê mais mortes, para quê mais dor? (...)

O crepúsculo começa a cair e é necessário estar em Moçâmedes a horas convenientes. Acesas as lanternas, a paisagem toma de novo aspectos de uma irrealidade macabra (...) Francamente: éramos dignos de um castigo severo, bárbaros que andavam um dia inteiro a matar, para largarem as vítimas no meio dos areais, às portas de uma cidade civilizada, para pasto da sórdida quimalanca, que durante a noite viria rasteiramente, covardemente, banquetear-se com a carne fria que o homem destruíra e depois abandonara!"

(Gastão de Sousa Dias - "África Portentosa" - Seara Nova - 1928 - Lisboa)

Imagens do Verão Espanhol - Galiza (Coruña)



Ponta da cidade da Coruña, norte da Galiza, que bem poderia ter sido portuguesa se os primeiros reis que Guimarães originou - os Afonsos, os Sanchos - não tivessem sido obrigados a andar com o sentido e com os exércitos virados para sul, onde se perfilava a ameaça muçulmana.
Fica no imaginário o que poderia ter sido.
Como consolo, a beleza livre do quadro que acima fica, com a Torre de Hércules, mais ou menos ao centro, contígua aos caminhos que vão dar ao Aquário, sempre vigilante face ao grande oceano das Descobertas.
Flutua no ar uma brisa leve de Verão, um gosto de iodo salino e fresco, uma renda de espumas soltas, um mar profundo e azul a perder de vista…

Imagens do Verão Português - Ribeira de Alge


Ribeira de Alge, afluente do Zêzere.
Proximidades das Fragas de S. Simão, algures entre Figueiró dos Vinhos e Avelar, distrito de Leiria profundo e bucólico. A quarenta quilómetros de Coimbra.
Temperaturas amenas, céus rasgados de azul puro, carreiros misteriosos em montanhas amáveis, águas mansas, murmurosas e frescas, peixes prateados e distraídos, arvoredos frondosos para repousos, leituras e reflexões...

Papéis do Império Luso - Uma Caçada no Deserto de Moçâmedes (Angola) (1)

Gastão de Sousa Dias redigiu em 1928 o relato de uma surtida de caça ao deserto de Moçâmedes (hoje Namibe) .
Ali se traça o retrato inspirado de uma realidade às vezes cruel, mas de uma beleza arrasadora, de um lugar agreste do Sul de Angola.
Aqui fica o talento e a sensibilidade de um homem que, nascido em Portugal, se apaixonou irremediavelmente pela magia de Angola - à qual acabou por oferecer a sua vida.

NOS AREAIS DE MOÇÂMEDES (Parte I)

"Às quatro horas da manhã ainda a cidade está mergulhada no sono profundo. A sensação de que os passos ressoam mais alto do que é natural, e que de todos os lados o eco os reproduz, causa em nós um efeito estranho. Apenas a água do mar, a dois passos, vindo em onda suave desfazer-se na areia da praia, quebra ritmicamente o silêncio da noite. Para esse lado a negrura é espessa como tinta, prolongando-se as trevas indefinidamente pela superfície da água; mas a pequena distância, logo ali junto do Posto Meteorológico, as casas desenham-se claramente sob o brilho dos milhões de astros que coalham o céu. Que poeirada infinita de mundos, espalhada no firmamento! Lá está o Cruzeiro junto da mancha escura do Saco do Carvão...

Moçâmedes é uma cidadezinha gentil, muito semelhante a Espinho no alinhamento geométrico das suas casas, cortada por arruamentos perpendiculares. Entre o mar e as primeiras frontarias corre um jardim de grandes palmeiras e trepadeiras frondosas.
A esta hora, enquanto os habitantes repousam, não sei que doçura especial há em espiar os silêncios da vida adormecida e os rugidos murmurosos do mar. Um galo cantou e, daí a minutos, essa voz, como que reflectida em todos os quintais, foi repetida por dezenas de gargantas. Ia romper a manhã.

Antes porém que o sol se corasse para os lados do deserto, já nós certamente iríamos a caminho dos areais. Na verdade, o motor de um carro ressoou e, dentro em pouco, avançando na escuridão, os seus faróis resplandecentes caminharam para nós. Andava recebendo os caçadores. Logo outro carro surgiu, depois outro, ao todo três automóveis e uma camionette para transporte da caça.

Marchamos na noite, sobre a estrada de Porto Aexandre. A terra despida, entrevista na escuridão, parece formada de cinzas esparsas, escórias de fornalha, onde nem as varas retorcidas dum arbusto crescem para o ar. Apenas, na faixa luminosa dos faróis, se distingue uma vegetação rasteira e torturada, a agarrar-se desesperadamente ao chão, como se cada planta necessitasse de raízes, ao longo de todo o seu corpo, para poder arrancar do solo a humidade precária que nele porventura ainda existe.

(...) Os carros avançam em fila. Só se distinguem as luzes dos faróis, que se deslocam em silêncio. Dir-se-ia que vamos para alguma empresa inconfessável, para alguma criminosa conjura. Esta sensação nasce da irrealidade da terra, da qual os olhos, já mais habituados à escuridão, adivinham a dura hostilidade.
É uma paisagem trágica, por sobre a qual parece pousar um silêncio asfixiado de boca que quisesse gritar e se sentisse coagida por força misteriosa a abafar em rouquido a impulsão dos seus brados aflitos. Vamos calados. A estrada corta uma duna de areia em que a luz dos faróis lança reflexos espectrais e gera sombras movediças, de uma inverosimilhança de sonho. (...)

Agora os carros, um a um, abandonaram a estrada e marcham alinhados em plena campina. É necessário que esta seja rasa como um salão, para que os carros, em velocidade regular, se aventurem afoitamente a percorrê-la. As luzes parecem deslizar imponderavelmente, navegando suspensas na mancha escura do deserto. Somos ao todo uns vinte caçadores e nem uma palavra se aventura, todos dominados pela impressão estranha da ausência de vida, da escuridão, da planura rasa e negra sobre que voamos.

Nem o vulto duma planta, nem o vulto duma pedra! Marchamos por sobre uma superfície absolutamente plana, onde há a certeza de não encontrar senão areia compacta e firme, numa extensão de que não saberíamos dizer a profundidade. A vida deve ter morrido neste areal desolado e, não obstante irmos todos levados pelo desígnio de caçar, no nosso espírito forma-se a incredulidade de que seja possível encontrar um único ser da criação. Devoramos quilómetros. Lentamente, timidamente, as primeiras claridades surgiram. Mas por enquanto era um alvor pálido, que mal iluminava as coisas, deixando apenas diferençar os vultos dos carros galgando a planura. Na nossa frente há claridades alaranjadas, linhas luminosas que se estiram ao longo do horizonte.

(...) Súbito, distinguimos na meia penumbra um vulto de animal, que negreja no fundo pardo da areia. Um carro desvia-se da marcha, outro segue-o. O animal, de que se divisa a cauda plumosa, percebendo que sobre ele caminham, começa a fugir. Mas não tem um arbusto sob que se esconder, um buraco para se ocultar. A única defesa por que a pobre raposa pode optar é a velocidade das suas pernas. Restabelecida a linha de carros, o animal, olhando à esquerda e à direita, galga quanto pode, obrigado a caminhar em frente pela extensão da linha que o ataca. Estão em luta a rijeza das suas canelas e a velocidade das máquinas de que o homem dispõe. É fácil prever quem vencerá.

Mas a raposa galopa numa correria doida. A sucessão das imagens dos seus membros é já vertiginosa. As pernas, no lançamento da fuga, parecem ultrapassar a cabeça. Deve ir quase extenuada. De quando em quando volta para trás a cabeça, raivosamente, como se quisesse morder os quatro monstros que ela decerto desconhece e que vão seguramente esmagá-la! Corre já sem esperança, enquanto o movimento envolvente das máquinas se desenha.
(...) Os carros estão ao alcance e de um deles parte o estalido seco de um tiro. A raposa embrulha-se na carreira, tenta arrastar os membros partidos, tomba, revolve-se de raiva, enquanto os monstros chegam implacáveis e ameaçadores (...)

Em marcha, em marcha! Os caçadores profissionais estão impacientes, que o dia clareia e para longe a caça é alentada e grossa... Não vale a pena perder nem tempo nem pólvora com raposas gaiteiras! Estão á nossa espera a bela cabra de leque, o galengue altaneiro, a zebra galopante. Vamos a andar, vamos a andar!

Nos poucos minutos que nos distraímos o deserto clareou e a iluminação do nascente avermelhou-se. Vamos ter um dia de fornalha, sem um abrigo, sem uma árvore para nos dar sombra (...) O sol começa a romper. É um globo enorme e reluzente que, segundo a segundo, avulta mais na linha do horizonte. À medida que ele surge, o céu vai-se tornando cor de chumbo e a terra aparece em toda a singularidade da sua planura, rasa, espalmada, unicamente vivificada por ervas miseráveis, dolorosamente adaptadas àquele meio de fogo, onde a água não tomba nunca. Em tempos remotos o mar devia ter coberto toda esta terra, que lentamente se foi levantando na sua aridez, tão grande que, passados séculos, a vida vegetal nela não vingou ainda.

(..) De um dos automóveis fazem sinal. Os carros entram em linha, seguindo a marcha do primeiro. Os olhos apuram-se. Efectivamente, à nossa frente, há vultos esbranquiçados que caminham. Mas, ao iniciarem a marcha, dão grandes saltos verticais, parecem mover-se em pulos sucessivos, para a seguir começarem a trotar de cabeça baixa, a rasar a terra! Que extraordinários seres, neste extraordinário panorama, de cuja realidade os nossos olhos ainda vão prontos a duvidar! Estaremos sobre a crosta da Terra, sonhando, ou andamos a caçar no planeta Marte?

Afinal, o que corre à nossa frente é um pequeno grupo de springbocks, a célebre cabra saltadora de Buffon, de que, pela desusada luz que nos alumia, apenas divisamos a parte do corpo cor de canela. Uma das cabras vai-se deixando ficar para trás. Um carro estaca. O chauffeur, velho atirador do deserto, está já de joelho em terra. Um tiro parte e o vulto da cabra tomba vagarosamente sobre o flanco, agitando as pernas no ar. Aproximamo-nos avidamente. Estamos em frente de um animal esbelto, o springbock dos caçadores do Cabo, cuja cabeça é armada de pequenos chifres anelados, em forma de lira, o ventre branco, as pernas altíssimas... A sua pelagem curta e macia cresce na parte posterior do dorso, numa prega aberta, disposição que dá ao animal o curioso nome de cabra de leque.

O caçador, examinando o animal, declara que não vale a pena levá-lo. Efectivamente, numa das pernas, de onde escorre um sangue purulento, a cabra tem um ferimento antigo. "Está cheia de febre, não presta para comer...". Em breve, atraídos pelo cheiro do sangue derramado, os abutres viriam das profundidades do deserto e, seguindo a direcção do seu voo, as raposas também, para caírem sobre o corpo ainda quente do pobre ruminante!

Neste deserto enorme a luta das espécies é formidável, e sobre as pobres cabras, mais tímidas e indefesas, os felinos e as grandes aves de presa, servidos por um faro maravilhoso, tombam implacavelmente. Há a acrescentar uma outra fera, a única que mata por prazer, só para interromper no seu movimento os seres que a Natureza animou de uma vida de formidável resistência (...)"
(Continua)

(Gastão de Sousa Dias - "África Portentosa" - Seara Nova - 1928 - Lisboa)
(Foto do deserto de Moçâmedes, ou Namibe - Okawa Ryuko)

sábado, 21 de julho de 2007

Antiga Oração Chinesa (Aos Seres Transcendentes)

Escolhemos o tempo e o dia,
na respeitosa esperança de um contacto.
Queimamos os óleos com artemísia,
num convite às quatro regiões.
Que se abram os nove espaços celestes
e se mostrem os seres transcendentes.
Que eles façam descer sobre nós
os seus benefícios e graças abundantes.

Os carros dos seres transcendentes
correm sobre as nuvens negras.
Atrelados aos dragões voadores,
ornados de pendões feitos de plumas,
a sua descida é veloz,
como o vento,
como um cavalo lançado.
À esquerda, o dragão verde,
à direita, o tigre branco,
como escolta.

A vinda dos seres transcendentes é veloz,
misteriosa.
Antes deles,
a chuva purificou os ares
e eles chegam como se voassem.
Sem os vermos, saudamo-los à chegada;
e os corações comovem-se,
como se os vissem.

Quando eles se sentam,
a música ressoa,
para os distrair,
para os alegrar
até de madrugada.
A vítima oferecida é jovem e tenra,
os alimentos copiosos
e de odor apreciado.
Existe uma ânfora de vinho com canela,
para alegrar os Génios vindos das oito regiões.
Satisfeitos,
os seres transcendentes abençoam os presentes
com trajes variados
e admiram as ricas decorações do templo.

("A Oração dos Homens - Uma Antologia das Tradições Espirituais" -
Assírio &Alvim - pág. 121)