sábado, 1 de dezembro de 2007

1.º de Dezembro de 1640 - Foi Há 367 Anos...



D. João IV, duque de Bragança, aclamado rei de Portugal em 1640, aquando da recuperação da independência face à Espanha.

"Parece não haver dúvida de que a ideia de nacionalidade esteve por trás da restauração da independência plena de Portugal após 60 anos de monarquia dualista.
Cinco séculos de governo próprio haviam forjado uma nação, fortalecendo-a até ao ponto de rejeitar qualquer espécie de união com o país vizinho. Para mais, a independência fora sempre um desafio a Castela e uma vontade de não ser confundido com ela.

Entre os dois estados foram sucessivas e acerbas as guerras, as únicas que Portugal realmente travou na Europa.
Para a maioria dos Portugueses, os monarcas Habsburgos não eram mais do que usurpadores, os Espanhóis, inimigos, e os seus partidários, traidores. Mas a Restauração carece de ser explicada por grande número de outros elementos.

Estátua de D. João IV em Vila Viçosa, Alentejo, Portugal

Culturalmente, avançara depressa, entre 1580 e 1640, a castelhanização do País.
Autores e artistas portugueses gravitavam nas órbitas da corte espanhola, fixavam residência em Espanha, aceitavam padrões espanhóis e escreviam cada vez mais em castelhano, contribuindo para a riqueza do teatro, da música ou da arte pictórica espanhóis e dando hoje a impressão errada de uma decadência cultural a partir de 1580.

A perda de uma individualidade cultural era sentida por muitos portugueses, com reacções diversas a favor da língua pátria e da sua expressão em termos de prosa e poesia. Contudo, os intelectuais que assim reagiam sabiam perfeitamente que os seus esforços seriam vãos sem a recuperação da independência política.

Economicamente, a situação piorara desde a década de 1620 ou até antes. Muitas das razões que haviam justificado a união das duas coroas ficaram ultrapassadas com a marcha da conjuntura económica. Todo o Império Português atravessava uma séria crise com a entrada em jogo de holandeses e ingleses. Portugal perdera o monopólio comercial na Ásia, África e Brasil, resultando daí que todos – a Coroa, a nobreza, o clero e a burguesia – haviam sofrido no montante das receitas.

Filipe IV, rei de Espanha. Nasceu em 1605 e faleceu em 1665. Ocupava o trono espanhol em 1640. 
Os Espanhóis reagiam fortemente contra a presença portuguesa nos seus territórios, mediante vários processos, entre os quais a Inquisição, situação que suscitou grande animosidade nacionalista tanto em Portugal como em Espanha, aprofundando o fosso já cavado entre os dois países.

Mesmo em Portugal, a situação económica estava longe de brilhante. Os produtores sofriam com a queda dos preços do trigo, do azeite e do carvão, só para dar alguns exemplos.
A crise afectava as classes baixas, cuja pobreza aumentou sem disfarces, como, aliás, em muitos outros países da Europa. O aumento dos impostos tornava a situação ainda pior. Para explicar os tempos difíceis e apaziguar o descontentamento geral, a solução apresentava-se fácil e óbvia: a Espanha, causa de todos os males.

A conspiração a favor da independência começou em 1639, se não antes, congregando um grupo heterogéneo de nobres, clientes-funcionários da casa de Bragança, e elementos do alto e baixo clero. Em Novembro de 1640, a conspiração dos aristocratas conseguiu finalmente o apoio formal do duque de Bragança.

Margarida de Sabóia, duquesa de Mântua. Era prima do rei de Espanha, Filipe IV. Exercia as funções de vice-rainha de Portugal no momento da restauração da independência.

Na manhã do 1º de Dezembro, um grupo de nobres atacou a sede do governo em Lisboa (Paço da Ribeira), prendeu a duquesa de Mântua, e matou ou feriu alguns membros da guarnição militar e funcionários, entre os quais o Secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos. Seguidamente, os revoltosos percorreram a cidade, aclamando o novo estado de coisas, secundados pelo entusiasmo popular.
D. João foi aclamado como D. João IV, entrando em Lisboa alguns dias mais tarde.

Por quase todo o Portugal metropolitano e ultramarino as notícias da mudança do regime e do novo juramento de fidelidade ao Bragança foram recebidas e obedecidas sem qualquer dúvida. Apenas Ceuta permaneceu fiel à causa de Filipe IV.
Como “governadores”, para gerirem os negócios públicos até à chegada do novo rei, foram escolhidos o arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha, o de Braga, D. Sebastião de Matos de Noronha, e o visconde de Vila Nova de Cerveira, D. Lourenço de Lima. D. João IV entrou em Lisboa a 6 de Dezembro, cessando nesta data as funções dos “governadores”.



Proclamar a separação fora coisa relativamente fácil.
Mais difícil seria conseguir mantê-la.
Tal como em 1580, os portugueses de 1640 estavam longe de unidos. Se as classes inferiores conservavam intacta a fé nacionalista e aderiram a D. João IV sem sombra de dúvida, já a nobreza, muitas vezes com laços familiares em Espanha, hesitou e só parte dela alinhou firmemente com o duque de Bragança. O mesmo se poderia afirmar em relação ao clero.

O novo monarca português não gozava por certo de uma posição invejável. Do ponto de vista teórico, tornava-se necessário justificar a secessão: o novo monarca, longe de figurar como usurpador, reavera simplesmente aquilo que por direito legítimo lhe pertencia. Abundante bibliografia produzida em Portugal e fora dele a partir de 1640 procurou demonstrar os direitos reais do duque de Bragança. Se o trono jamais estivera vago de direito, tanto em 1580 como em 1640, não havia razões para qualquer tipo de eleição em cortes, o que retirava ao povo a importância que ele porventura teria, fosse o trono declarado vacante.

Todo o reinado (1640-56) foi orientado por prioridades.
Em primeiro lugar a reorganização do aparelho militar, com reparação de fortalezas das linhas defensivas fronteiriças, fortalecimento das guarnições e obtenção de material e reforços no estrangeiro.
Paralelamente, uma intensa actividade diplomática junto das cortes da Europa – no sentido de obter apoio militar e financeiro, negociar tratados de paz ou de tréguas, e conseguir o reconhecimento da Restauração – e a reconquista do império ultramarino. A nível interno, a estabilidade do regime dependeu, antes de mais, do aniquilamento de toda a dissensão a favor de Espanha.

Batalha de Montes Claros (1665), entre Portugueses e Espanhóis, inserida na chamada Guerra da Restauração. 

A guerra da Restauração (1640-1668) mobilizou todos os esforços que Portugal podia despender e absorveu enormes somas de dinheiro. Pior do que isso, impediu o governo de conceder ajuda às frequentemente atacadas possessões ultramarinas. Mas, se o cerne do Império, pelo menos na Ásia, teve de ser sacrificado, salvou pelo menos a Metrópole de uma ocupação pelas forças espanholas.

Portugal não dispunha de um exército moderno, as suas forças eram escassas – sobretudo na fronteira terrestre –, as suas coudelarias haviam sido extintas, os seus melhores generais lutavam pela Espanha algures na Europa.
Do lado português, tudo isto explica por que motivo a guerra se limitou em geral a operações fronteiriças de pouca envergadura.
Do lado espanhol, é preciso lembrar que a Guerra dos Trinta Anos (prolongada em Espanha até 1659) e a questão da Catalunha (até 1652) demoraram quaisquer ofensivas de vulto.

Regra geral, a guerra, que se prolongou por 28 anos, teve os seus altos e baixos para os dois contendores até ser assinado o Tratado de Lisboa, em 13 de Fevereiro de 1668, entre Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, em que este último reconhece a independência do nosso País."

(Adaptado de A. H. de Oliveira Marques, “A Restauração e suas Consequências”, in História de Portugal, vol. II, Do Renascimento às Revoluções Liberais, Lisboa, Editorial Presença, 1998, pp. 176-201.)

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Miguel Torga - Poema Melancólico a Não Sei Que Mulher


Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.


Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...


(Miguel Torga - Poesia Completa - Vol. II - Publicações Dom Quixote - Lisboa)

domingo, 25 de novembro de 2007

Hereros de Angola - Himbas ou Chimbas

Os Himbas (ou Chimbas) são uma tribo do grupo étnico dos Hereros, de que falámos em 28 de Julho de 2007 a propósito de uma outra tribo do mesmo grupo (os Cuvales).







Eram Himbas (Chimbas) os auxiliares do exército português que, em Setembro de 1904, às vésperas da maior derrota portuguesa na África Negra, abandonaram a campanha após o erro terrível do capitão Pinto de Almeida (ver post de 25 de Setembro de 2007).








Quando chegaram, no século XVI, estenderam-se pelo Sul de Angola, nas proximidades do Cunene, e um número elevado atravessou mesmo a correnteza, fixando-se nas paragens áridas e fascinantes do Norte da Namíbia (antigo Sudoeste Africano, colónia alemã).







As mulheres são amáveis, diligentes e belíssimas, distinguindo-se pelos penteados com os característicos e inconfundíveis ornamentos.








Os homens são secos, musculosos e aguerridos, como os Portugueses puderam testemunhar nas suas operações militares no Sul de Angola em finais do século XIX e princípios do século XX.






















































































































































































































































































 
(Fotos: Martin Caron - Willie Coetzer - Sébastien Cailleux - Loic Brohard - Joop Hessels - Isabelle in Namibia).
Para ver mais de Loic Brohard (to see more of Loic Brohard) :

https://www.flickr.com/photos/loic_brohard/

Recadinhos do Padre António Vieira (3) - O Pecado da Omissão




O Pecado da Omissão

“Sabei, cristãos, sabei, príncipes, sabei ministros, que se vos há-de pedir estreita conta do que fizestes, mas muito mais estreita do que deixastes de fazer.
Pelo que fizeram, se hão-de condenar muitos; pelo que não fizeram, todos.
As culpas por que se condenam os réus são as que se contêm nos relatórios das sentenças.

Lede agora o relatório da sentença do Dia do Juízo e notai o que diz: Ide, malditos, ao fogo eterno! -
E porquê? (…)
Porque não destes de comer,
porque não destes de beber, porque não recolhestes, porque não visitastes, porque não vestistes.

Em suma, que os pecados que ultimamente hão-de levar os condenados ao inferno são os pecados de omissão.
(…) Por uma omissão perde-se uma inspiração;
por uma inspiração perde-se um auxílio;
por um auxílio perde-se uma contrição;
por uma contrição perde-se uma alma;
por uma omissão dai contas a Deus de uma alma (…)”

(Padre António Vieira)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (IV) - Apelo


Ó Dona dos Corações,
em ti talvez
Esteja a causa do tormento do cantor.
Ainda uma vez
Diz adeus a quem te quer,
E que, sem ti,
por nada sente amor.
É que, se por acaso,
longe surges na lembrança
Por ti choro pranto de criança.

(Ibn Habib, que viveu na Silves almorávida - séc. XI)

(Foto de P. Costa)

domingo, 18 de novembro de 2007

(Miguel Torga) - Serenata em Dó Maior


A minha vida é uma cena triste,
Dessas que se fazem numa praça
Por causa duma mulher...
Todos passam, todos olham
E sorriem da paixão...
Mas o namorado insiste:
- Minha Senhora, responda:
Sim ou não!
Sim ou não!


Ah! mas a senhora não responde!
Porque não é resposta aquela esperança
Dada num vago talvez...
E o pobre pobre-diabo
Leva a mão ao coração
E diz:
Minha Senhora,
Mate-me duma vez...

A minha vida é isso e muito mais,
Em direcção às cartas e aos sinais
De aprender a namorar...
Foi tudo colhido em mim,
Porque eu sou um pobre Adão
A começar...


(Miguel Torga - Poesia Completa - Vol. 1 - Publicações Dom Quixote - Lisboa)

Mulheres de Angola - I (Na Pintura de Neves e Sousa)






































Albano Silvino Gama de Carvalho das Neves e Sousa nasceu em 1921 em Matosinhos, Portugal.
Fez o curso do liceu em Luanda, Angola.
Faleceu em Salvador, Brasil, em 11 de Maio de 1995.

Além de pintor, era também poeta e soube retratar como ninguém as belezas do povo e da terra de Angola, a sua grande paixão.
A sua obra pode ser vista em África e em países como Brasil, Portugal e Espanha.

O resultado de seu trabalho vinha das inúmeras viagens que fez e dos desenhos acompanhados por anotações que não deixavam que a memória de tudo o que via se perdesse no tempo.

Jorge Amado, em texto dedicado ao catálogo de uma das exposições do pintor, definiu-o como um artista completo, apaixonado e exigente.
Segundo Amado, Neves e Sousa incorporou-se na vida baiana de corpo e alma, não sabia guardar distância, viver isolado, sozinho.

Era um ser solidário, um criador de arte nascida da intimidade com o povo.

sábado, 17 de novembro de 2007

Agressores e Agredidos

 
"A globalização abriu uma excepção cultural que tende a aniquilar o mais nobre dos direitos humanos: o direito ao trabalho.
Um pouco por todo o lado, esse direito é espezinhado ou, simplesmente, não existe.
Criaram-se leis que parecem constituir uma fuga dilatória de qualquer discussão sobre o assunto, como se este permanecesse definitivamente encerrado.
Não será de mais insistir na interiorização do princípio de igualdade, recomendado na Carta dos Direitos Humanos.
O direito ao trabalho concentra, em si mesmo, o conceito de liberdade e de justiça social, numa compreensão das razões do outro que deve tornar-se num compromisso político e ético.

No mesmo dia em que, no Público, Francisco Sarsfield Cabral, abandonando o estilo pungente que o torna no espírito mais mortificado dos "colunistas" portugueses, dava com o sarrafo nos protestatários antiglobalização, - nesse mesmo dia [11. Junho p.p.], no Diário de Notícias, Céu Neves assinava a segunda parte de uma notável reportagem, sobre os "prestígios" do mercado, através de experiência pessoal na Holanda.
E, à noite, no Prós e Contras, da RTP, os depoimentos sobre os escravos do século XXI atingiram níveis de dramática tensão, sobretudo com as corajosas declarações de António Esteves Martins.

Entre a urgência em se combater os novos códigos sociais, impostos por uma ordem económica cuja selvajaria é constantemente omitida, e os que invocam e ratificam o inverso dos princípios - creio não haver hesitação na escolha.
Sarsfield Cabral estabelece confusos paralelismos entre "acesso aos mercados dos países desenvolvidos" e o que entende ser "folclore mediático".
O G8 não estabelece novas relações de civilidade, nem a natureza da sua estrutura é de bonomia. A agressividade está-lhe na índole; o coração gelado é a sua profissão de fé.

Como num contraponto, o impressionante requisitório de Céu Neves fornece-nos amplos motivos de reflexão. Durante duas semanas ela foi operária numa fábrica de tomates.
Ganhou 200 euros e experimentou a brutalidade do trabalho escravo.
Muitos outros portugueses, por essa Europa fora, são submetidos a leis atrozes, reveladoras de um sistema monstruoso, apregoado como "melhorável", embora "inevitável".

Em Portugal as condições de trabalho dos imigrados são semelhantes.
Os novos protagonistas dos grandes desesperos nacionais andam de um para outro lado, em busca do pão e da equidade que lhes negam.
É esta Europa "globalizada" que desejamos - criadora de sociedades a funcionar segundo regras tão implacáveis quanto desumanas?
E como devemos qualificar os seus panegiristas?"

(Baptista-Bastos - Diário de Notícias - 13 de Junho de 2007)

(Miguel Torga) - À Beleza

 
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço!


(Miguel Torga - Poesia Completa - Vol . 1 - Publicações Dom Quixote - Lisboa)

(Foto de Joãocarlo)