quarta-feira, 25 de julho de 2007

Entrevista de José Saramago - Portugal, Espanha e o Iberismo


Na Torre não se professam as ideias de José Saramago quanto ao tema (um iberismo conceptualmente entendido como tendência para a integração política plena de Portugal no todo peninsular, com a consequente liquidação da independência nacional).
Foi um tema já aqui aflorado noutra perspectiva (rever 8 de Julho) e será um tema a que tornaremos mais cedo do que tarde.
Na Torre, porém, muito se estima a liberdade de caminhos, de escolha e de expressão, pelo que se opta hoje por reproduzir, na íntegra, a entrevista concedida pelo Prémio Nobel português a João Céu e Silva, do Diário de Notícias, no passado dia 15 de Julho.
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"Este foi o regresso mais longo de José Saramago a Portugal desde que a polémica que envolveu a candidatura do seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo ao Prémio Literário Europeu o levou para um "exílio" na ilha espanhola de Lanzarote. A atribuição do Prémio Nobel parece tê-lo feito esquecer essas mágoas, mas não amoleceu a sua visão da sociedade e da História, que continua a ser polémica. Como se pode ver nesta entrevista.
Durante dois dias, o Nobel da Literatura português sentou-se no sofá e analisou o estado do mundo. Na única entrevista que concedeu durante a temporada passada na sua casa de Lisboa, falou muito de política, mais de literatura e também da vida e da morte. Pelo meio ficou o anúncio da criação da fundação com o seu nome e a revelação de que está a escrever um novo livro.

Este regresso a Portugal é um perdão?
O país não me fez mal algum, não confundamos, nem há nenhuma reconciliação porque não houve nenhum corte. O que aconteceu foi com um governo de um partido que já não é governo, com um senhor chamado Sousa Lara e outro de nome Santana Lopes. Claro que as responsabilidades estendem-se ao governo, a quem eu pedi o favor de fazer qualquer coisa mas não fez nada, e resolvi ir embora. Quando foi do Prémio Nobel, dei uma volta pelo país porque toda a gente me queria ver, até pessoas que não lêem apareceram! E desde então tenho vindo com muita frequência a Lisboa.

Vive num país que pouco a pouco toma conta da economia portuguesa. Não o incomoda?
Acho que é uma situação natural. Qual é o futuro de Portugal nesta península? Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos.

Política, económica ou culturalmente?
Culturalmente, não, a Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto da Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis. Quando olhamos para a Península Ibérica o que é que vemos? Observamos um conjunto, que não está partido em bocados e que é um todo que está composto de nacionalidades, e em alguns casos de línguas diferentes, mas que tem vivido mais ou menos em paz.

Integrados o que é que aconteceria?
Não deixaríamos de falar português, não deixaríamos de escrever na nossa língua e certamente com dez milhões de habitantes teríamos tudo a ganhar em desenvolvimento nesse tipo de aproximação e de integração territorial, administrativa e estrutural. Quanto à queixa que tantas vezes ouço sobre a economia espanhola estar a ocupar Portugal, não me lembro de alguma vez termos reclamado de outras economias como as dos Estados Unidos ou da Inglaterra, que também ocuparam o país. Ninguém se queixou, mas como desta vez é o castelhano que vencemos em Aljubarrota que vem por aí com empresas em vez de armas...

Seria, então, mais uma província de Espanha?
Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla la Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria. Se Espanha ofende os nossos brios, era uma questão a negociar. O Ceilão não se chama agora Sri Lanka, muitos países da Ásia mudaram de nome e a União Soviética não passou a Federação Russa? Mas algumas das províncias espanholas também querem ser independentes! A única independência real que se pede é a do País Basco e mesmo assim ninguém acredita.

E os portugueses aceitariam a integração?
Acho que sim, desde que isso fosse explicado, não é uma cedência nem acabar com um país, continuaria de outra maneira. Repito que não se deixaria de falar, de pensar e sentir em português. Seríamos aqui aquilo que os catalães querem ser e estão a ser na Catalunha.

E como é que seria esse governo da Ibéria?
Não iríamos ser governados por espanhóis, haveria representantes dos partidos de ambos os países, que teriam representação num parlamento único com todas as forças políticas da Ibéria, e tal como em Espanha, onde cada autonomia tem o seu parlamento próprio, nós também o teríamos.

Os espanhóis olham-no como um deles?
Há duas Espanhas neste caso. Evidentemente, tratam-me como se fosse um deles, mas com as finanças espanholas ando numa guerra há, pelo menos, quatro anos porque querem que pague lá os impostos e consideram que lhes devo uma grande quantidade de dinheiro. Eu recusei-me a pagar e o meu argumento é extremamente simples, não pago duas vezes o que já paguei uma. Se há duplicação de impostos, então que o governo espanhol se entenda com o português e decidam. Eu tenho cá a minha casa e a minha residência fiscal sempre foi em Lisboa, ou seja, não há dúvidas de que estou numa situação de plena legalidade. Quanto aos impostos, e é por aí que também se vê o patriotismo, pago-os pontualmente em Portugal. Nunca pus o meu dinheiro num paraíso fiscal e repugna-me pensar que há quem o faça. O meu dinheiro é para aquilo que o Governo entender que serve.

Mas não pode negar que o olham como um deus...
Não diria tanto...

Mesmo sendo a crítica espanhola tão positiva em relação à sua obra?
Também já foi uma ou outra vez um pouco negativa - talvez devido às minhas posições políticas e ideológicas - mas de um modo geral tenho uma excelente crítica em toda a parte, como é o caso dos EUA, onde é quase unânime na apreciação da minha obra."

terça-feira, 24 de julho de 2007

O Retrato do rei D. João II de Portugal (por Oliveira Martins)



















"Dizia o príncipe que tempos havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão (...). Os tempos de coruja tinham acabado, porque não carecia mais de pactuar com as tontices do pai; rei agora (1481), seria o falcão. Mas, para ser verdadeiramente rei, teria de vestir ainda muitas vezes o hábito de ave nocturna, até ver por terra o poder dessa fidalguia que os erros do pai tinham ensoberbado.

Isto, porém, não satisfazia ainda as suas largas ambições. O homem, como Isabel de Castela o designava com espanto, mirava mais longe. A possibilidade de vir a sentar-se, ele ou os seus herdeiros, no trono de uma Espanha unida, afagara-lhe o espírito em moço, e chegou a esperar (antes de Toro) realizá-la. Depois, rechaçado, mas não desesperado, fez de coruja em 1479, contando voar de falcão no momento oportuno.

Nem paravam aí as suas ambições: lembrava-se do falecido infante D. Henrique, e dos vastos planos, abandonados, que tinham fervido naquele cérebro. A sua monarquia dilatava-se da Espanha à Índia: e com a Península da Europa, com a África, a Índia, o encantado reino do Preste João, sonhou a monarquia de Filipe II...

Era sóbrio, severo, detestava o luxo - que proibiu. A sua corte apresentava o que quer que fosse de fúnebre e austero, sempre agradável a portugueses. A sua figura, também, nada tinha de imponente, nem de graciosa. Os hábitos de coruja davam-lhe mais carácter do que os de falcão: às duas aves, porém, pedia a cor que punha em tudo, o negro. De maravilhoso engenho, subida agudeza, de memória viva e esperta, faltavam-lhe porém os dotes exteriores. Não tinha elegância, nem no corpo nem no dizer: arrastava as palavras, falava a custo e com uma voz fanhosa. Era alvo, mas com umas veias de sangue que o faziam ser muy temido.

Inspirava medo sem infundir amor. Aos 37 anos já tinha cãs na barba e nos cabelos; só nessa idade deixou de ser abstémio. A força muscular, dote necessário aos príncipes dos bons tempos, tornava-o célebre: cortava com um golpe de espada três e quatro tochas de cera reunidas. A natureza não o ajudava, decerto. E também, na sua educação de príncipe, deixava de obedecer à regra de Maquivel: Não é necessário ser-se dotado de todas as qualidades, mas é indispensável afectá-las; possuí-las e servir-se delas pode chegar a ser perigoso: fingi-las é sempre útil. Seja-se fiel, clemente, humano, religioso e íntegro; mas de modo que, senhor de si, se possa e saiba fazer todo o contrário, quando a isso o caso obrigue.

D. João não era, nem clemente, nem humano, e não julgava necessário ao seu papel fingi-lo. Isso fazia com que muitos o detestassem, o que era um mal, fazendo com que, se a maior parte o temia, ninguém o amasse, o que se tornava pior ainda. A perspicácia e a autoridade não eram nele bastantes para que soubesse envolvê-las numa simulada bonomia, porque doçura ou humanidade não as havia na sua alma. Não hesitava perante o assassinato, à italiana, mas tinha a fraqueza portuguesa de confessar como isso se praticava."
(Oliveira Martins - "História de Portugal" - Guimarães Editores - 17.ª Ed. - 1977)

Relembre as conspirações contra D. João II - aqui

domingo, 22 de julho de 2007

Papéis do Império Luso - Uma Caçada no Deserto de Moçâmedes (Angola) (2)

Continuação da descrição de uma caçada no deserto de Moçâmedes (por Gastão de Sousa Dias - 1928) (ver, três mensagens atrás, a Parte I)

Nos Areais de Moçâmedes (Parte II)

"O caçador olhou o céu. E lá longe, no horizonte, uns pontos negros voavam em filas: eram os abutres que se apressavam, atraídos pelo cheiro do sangue! O tipo deste caçador e de seu irmão, que conduz o outro carro, é deveras singular. Negros, requeimados de sol, são assim como ciganos endurecidos pelo clima e pelas privações a que se sujeitam nas aventuras de caça, tendo conseguido não só uma adaptação do corpo, mas também do espírito, à vida agitada e arriscada a que permanentemente se sujeitam.
O deserto é o seu campo favorito. A espingarda e o carro são os seus recursos preciosos, de onde tiram a carne - com que gostosamente se banqueteiam - e os lucros dos transportes de passageiros, pois que em Moçâmedes as caçadas nos areais constituem uma curiosidade notável, que atrai todos os forasteiros, pelas condições anormais em que são realizadas. De facto, numa região onde o pasto não passa de uma ervazita rasteira, espécie de malva carnuda, como se aguenta uma vida tão persistente, de animais possantes e velozes?

Agora o terreno agita-se um pouco. Pequenas ondulações sucedem-se. E à nossa frente, lá ao longe, elevam-se os degraus da Serra da Chela, negros e verticais, singularmente recortados no céu esbranquiçado. Entre eles destaca-se o Morro Maluco (Cha-Malundo), cuja conformação é realmente caprichosa, recurvado como uma garra. O sol já clareia tudo. À medida que se vai elevando, vai dando às coisas os tons que o fogo transmite aos tijolos de um forno. A Natureza encontra-se neste instante ao rubro. Como não há árvores nem acidentes em toda a extensão, a falta de sombras elimina a sensação de relevo e a noção das distâncias perde-se na profundidade incalculável da planura. E assim, quando surge qualquer vulto animal, são precisos olhos experimentados para o distinguir, no fundo cinzento do chão.

Agora mesmo, de um dos carros, veio o sinal de caça. Convergiram todos para a direcção por ele apontada, mas só ao cabo de uns segundos se conseguiu distinguir claramente o corpo de uma zebra tosando as ervas raras. O animal surpreendido entra a trotar e, quando os carros se aproximam, o seu corpo listrado, de cabeça erguida e cauda tesa, inicia uma galopada elegante que nos entusiasma. Galopa velozmente, levando-nos de vencida, até galgar uma elevação, para o outro lado da qual se esconde repentinamente.
Um brado soa: Cautela, cautela! Tínhamos atingido as margens abruptas do rio Bero e os carros dificilmente foram travados na vertigem em que iam lançados. Lá no fundo, quando atingimos a beira da rampa, a zebra trotava ainda, assustada, estacando curiosa a olhar-nos de face.

Afastada a zebra para longe, ficava em frente de nós a curiosidade de um rio absolutamente seco, cujo leito arenoso se prolongava pela trincheira funda praticada no solo. São assim todos os rios alimentados pela vertente ocidental da Chela: durante o período das secas, nem uma gota de água lhes humedece o leito arenoso; vindas as chuvas, a água desce da serrania, às catadupas, galgando obstáculos, arrasando tudo na sua frente, como onda formidável. E, passados dias, horas por vezes, de novo o leito é simplesmente marcado pela areia seca e movediça que foi arrastada pela enxurrada.

Paramos a conversar sobre zebras, para a caça das quais um dos carros trazia um laço armado na extremidade de uma grande vara.
Das três espécies de hippotigris, apenas duas têm representantes nos areais de Moçâmedes, não existindo o cuaga, que é a zebra menos listrada. Animal insubmisso, todas as tentativas de domesticação têm obtido resultados pouco animadores, pois nunca no animal se conseguem anular as qualidades de braveza inata. Os próprios produtos nascidos de pais cativos mantêm a selvajaria insubmissa, e os cruzamentos com a espécie cavalar e asinina não vêm adoçadas, o que evita a sua utilização no serviço do homem.
Assim, esses milhares e milhares de zebras que povoam a África, desde muito acima do Equador até ao Cabo, transformam-se em flagelo das culturas, consideradas em toda a parte como animais daninhos. Apenas o leão as ataca com vantagem: dos outros animais defendem-se aos couces e mesmo à dentada. Desta forma a sua reprodução vai-se operando livremente e dia a dia crescem as manadas que galopam nas planícies africanas.

Nos momentos em que o carro pára, sente-se a fornalha do calor. Pela extensão larga do areal, a atmosfera, ao contacto com a terra, tem vibrações ferventes e trémulas. A cor que ilumina as coisas é de um tom branco incaracterístico. As cabras agora aparecem espalhadas, pastando. O tiroteio repete-se. Tombamos duas... Olhamo-nos uns aos outros com o sentimento da nossa brutalidade e selvajaria. É que naquele nosso divertimento havia muito de ferocidade, que nem ao menos tinha a justificá-la a necessidade do aproveitamento da carne! Era simplesmente o instinto primitivo de deter movimento, de destruir vida (...).

São as horas combinadas de nos juntarmos no Pico do Azevedo, para almoçar. De caminho matamos mais cabras, quase sempre machos. O caçador explica a razão desse facto: as atalaias dos bandos são sempre machos, e também é muito vulgar encontrar bandos enormes deles, repelidos dos rebanhos pelos seus rivais mais fortes e mais felizes. Uma ou outra zebra desgarrada afasta-se de nós, a trote. Seguimos para o ponto de concentração. Sobre nós voam abutres, em grandes círculos, na esperança da caça abandonada. E logo o caçador ilustra este facto com uma narrativa impressionante.

Uma vez, um rapaz de Moçâmedes, andando à caça, perdera-se nos areais.Coisa fácil para quem não conheça bem o deserto. Andou, andou... O calor e a sede foram-no esgotando. Na ansiedade de se salvar, já não andava: corria desorientado! Gritava meio enlouquecido: e cada vez o cansaço o tomava mais. Parecia que o deserto em volta, ardente e infinito, se preparava para o devorar. O calor requeimava. De repente sentiu o ar agitar-se frescamente em volta da sua cabeça. Horror! Eram os abutres, já ali, prontos para o devorar... Foge, tomba, grita, torna a tombar, esconde a face aterrada na areia escaldante, corre de novo, de braços erguidos, louco, perdido...
Quando o carro o encontrou, desmaiado no meio do areal, já os abutres em volta, avançando em saltos receosos, se aproximavam para iniciar o banquete.

Apesar de não correr uma única aragem, lá para longe levantam-se vagas ondas de poeira. Um amigo explica que, sob aquele pó, deve galopar um esquadrão de zebras que nós não distinguimos. Abrem-se os farnéis. Não faltam os clássicos e nacionalíssimos bolos de bacalhau, afirmando que até no deserto fazemos reinar os nossos sagrados hábitos, as ternas recordações da casa e da família. Formamos efectivamente um grupo curioso e heterogéneo, mas igualmente infiltrado da maneira de ser da nossa terra. Somos de todas as categorias, desde os caçadores enegrecidos pelo deserto, como se fossem berberes, aos diletantes que vieram atraídos pelo sonho da acção. E, apesar de tudo, aquele grupo, aconchegado ao rochedo nu, pensa, sente com a mentalidade de Portugal e ri as boas gargalhadas salutares da nossa gente.

(...) Vamos de novo para a caça. Junto do Pico do Azevedo já fica um montão de carne morta, que recolheremos no regresso. Não falta a lebre ligeira e abunda uma variedade de codornizes patorras, duma mansidão impressionante, confiando imbecilmente na fera bípede que está junto delas. O caçador esperou que os animaizinhos tomassem uma disposição conveniente e tombou quatro de um tiro.
Depois, na lomba de um outeiro, projectando-se no céu em vulto engrandecido, começaram passando grupos de zebras a galope. À ilharga dos animais adultos marchavam poldros pequenos, alguns certamente com poucos dias ainda. Não são elegantes: lembram os desenhos que o homem primitivo gravava nos chifres das renas, com aquele mesmo lançamento no galope, as mesmas cabeças exageradamente grandes em relação ao corpo e a mesma disposição em fila.

Um grupo estacou de frente, a contemplar-nos. Depois passaram mais grupos, uns após outros, seguindo os movimentos das avançadas. O escrúpulo do sangue deteve-nos, deixando passar em paz a récua enorme, que desfilava na nossa frente. E quando caminhávamos à cata de novas sensações, um espectáculo inesperado surgiu em frente dos nossos olhos.

Depois de tanta aridez, uma larga superfície de água estendia-se à nossa frente, clara, transparente, reflectindo nitidamente os acidentes do relevo. A superfície lisa reproduzia as imagens do horizonte com a precisão admirável de um espelho. Os caçadores riam perante a nossa ilusão: o que estava em frente era um fenómeno de miragem, repetindo invertidas as imagens do horizonte, por efeito da refracção dos raios luminosos através das camadas aéreas desigualmente aquecidas e, portanto, desigualmente densas.
Assim a Natureza, diabolicamente, cria no deserto a miragem ilusória da água, de molde a enlouquecer o pobre viandante perdido de sede e de cansaço. Era a água tal e qual, ali a dois passos, estendida num lençol de tentadora limpidez.

(...) Mas este dia de surpresas não acabara ainda. As cabras surgiam de todos os lados, às centenas, numa abundância e numa impassibilidade inacreditáveis! Na nossa frente desloca-se, na profundidade e na largura do areal, um número tal de animais, que em nós abrandou a vontade de caçar, encantados com o espectáculo de tanta vida saltando, galopando, vivendo ao nosso alcance! O que está diante dos nossos olhos é de tal forma maravilhoso que só pode ser acreditado por aqueles que já o gozaram. Eu, pela minha parte, só conhecia coisa parecida criada pela imaginação de Flaubert na Lenda de S. João Hospitaleiro e recusar-me-ia a crer que a Natureza o pudesse reproduzir e demais em condições tão extraordinárias.

É um sonho: em frente de nós, aos lados, para a rectaguarda, galopam milhares de cabras! (...) Já ninguém queria matar, banalizado o prazer da caça pela profusão das reses e pela facilidade de as alcançar. Todos sentíamos um começo de fadiga, não corporal, mas um vago aborrecimento e remorso de tanta morte inútil, de tanta dor causada em vão. Para quê mais mortes, para quê mais dor? (...)

O crepúsculo começa a cair e é necessário estar em Moçâmedes a horas convenientes. Acesas as lanternas, a paisagem toma de novo aspectos de uma irrealidade macabra (...) Francamente: éramos dignos de um castigo severo, bárbaros que andavam um dia inteiro a matar, para largarem as vítimas no meio dos areais, às portas de uma cidade civilizada, para pasto da sórdida quimalanca, que durante a noite viria rasteiramente, covardemente, banquetear-se com a carne fria que o homem destruíra e depois abandonara!"

(Gastão de Sousa Dias - "África Portentosa" - Seara Nova - 1928 - Lisboa)

Imagens do Verão Espanhol - Galiza (Coruña)



Ponta da cidade da Coruña, norte da Galiza, que bem poderia ter sido portuguesa se os primeiros reis que Guimarães originou - os Afonsos, os Sanchos - não tivessem sido obrigados a andar com o sentido e com os exércitos virados para sul, onde se perfilava a ameaça muçulmana.
Fica no imaginário o que poderia ter sido.
Como consolo, a beleza livre do quadro que acima fica, com a Torre de Hércules, mais ou menos ao centro, contígua aos caminhos que vão dar ao Aquário, sempre vigilante face ao grande oceano das Descobertas.
Flutua no ar uma brisa leve de Verão, um gosto de iodo salino e fresco, uma renda de espumas soltas, um mar profundo e azul a perder de vista…

Imagens do Verão Português - Ribeira de Alge


Ribeira de Alge, afluente do Zêzere.
Proximidades das Fragas de S. Simão, algures entre Figueiró dos Vinhos e Avelar, distrito de Leiria profundo e bucólico. A quarenta quilómetros de Coimbra.
Temperaturas amenas, céus rasgados de azul puro, carreiros misteriosos em montanhas amáveis, águas mansas, murmurosas e frescas, peixes prateados e distraídos, arvoredos frondosos para repousos, leituras e reflexões...

Papéis do Império Luso - Uma Caçada no Deserto de Moçâmedes (Angola) (1)

Gastão de Sousa Dias redigiu em 1928 o relato de uma surtida de caça ao deserto de Moçâmedes (hoje Namibe) .
Ali se traça o retrato inspirado de uma realidade às vezes cruel, mas de uma beleza arrasadora, de um lugar agreste do Sul de Angola.
Aqui fica o talento e a sensibilidade de um homem que, nascido em Portugal, se apaixonou irremediavelmente pela magia de Angola - à qual acabou por oferecer a sua vida.

NOS AREAIS DE MOÇÂMEDES (Parte I)

"Às quatro horas da manhã ainda a cidade está mergulhada no sono profundo. A sensação de que os passos ressoam mais alto do que é natural, e que de todos os lados o eco os reproduz, causa em nós um efeito estranho. Apenas a água do mar, a dois passos, vindo em onda suave desfazer-se na areia da praia, quebra ritmicamente o silêncio da noite. Para esse lado a negrura é espessa como tinta, prolongando-se as trevas indefinidamente pela superfície da água; mas a pequena distância, logo ali junto do Posto Meteorológico, as casas desenham-se claramente sob o brilho dos milhões de astros que coalham o céu. Que poeirada infinita de mundos, espalhada no firmamento! Lá está o Cruzeiro junto da mancha escura do Saco do Carvão...

Moçâmedes é uma cidadezinha gentil, muito semelhante a Espinho no alinhamento geométrico das suas casas, cortada por arruamentos perpendiculares. Entre o mar e as primeiras frontarias corre um jardim de grandes palmeiras e trepadeiras frondosas.
A esta hora, enquanto os habitantes repousam, não sei que doçura especial há em espiar os silêncios da vida adormecida e os rugidos murmurosos do mar. Um galo cantou e, daí a minutos, essa voz, como que reflectida em todos os quintais, foi repetida por dezenas de gargantas. Ia romper a manhã.

Antes porém que o sol se corasse para os lados do deserto, já nós certamente iríamos a caminho dos areais. Na verdade, o motor de um carro ressoou e, dentro em pouco, avançando na escuridão, os seus faróis resplandecentes caminharam para nós. Andava recebendo os caçadores. Logo outro carro surgiu, depois outro, ao todo três automóveis e uma camionette para transporte da caça.

Marchamos na noite, sobre a estrada de Porto Aexandre. A terra despida, entrevista na escuridão, parece formada de cinzas esparsas, escórias de fornalha, onde nem as varas retorcidas dum arbusto crescem para o ar. Apenas, na faixa luminosa dos faróis, se distingue uma vegetação rasteira e torturada, a agarrar-se desesperadamente ao chão, como se cada planta necessitasse de raízes, ao longo de todo o seu corpo, para poder arrancar do solo a humidade precária que nele porventura ainda existe.

(...) Os carros avançam em fila. Só se distinguem as luzes dos faróis, que se deslocam em silêncio. Dir-se-ia que vamos para alguma empresa inconfessável, para alguma criminosa conjura. Esta sensação nasce da irrealidade da terra, da qual os olhos, já mais habituados à escuridão, adivinham a dura hostilidade.
É uma paisagem trágica, por sobre a qual parece pousar um silêncio asfixiado de boca que quisesse gritar e se sentisse coagida por força misteriosa a abafar em rouquido a impulsão dos seus brados aflitos. Vamos calados. A estrada corta uma duna de areia em que a luz dos faróis lança reflexos espectrais e gera sombras movediças, de uma inverosimilhança de sonho. (...)

Agora os carros, um a um, abandonaram a estrada e marcham alinhados em plena campina. É necessário que esta seja rasa como um salão, para que os carros, em velocidade regular, se aventurem afoitamente a percorrê-la. As luzes parecem deslizar imponderavelmente, navegando suspensas na mancha escura do deserto. Somos ao todo uns vinte caçadores e nem uma palavra se aventura, todos dominados pela impressão estranha da ausência de vida, da escuridão, da planura rasa e negra sobre que voamos.

Nem o vulto duma planta, nem o vulto duma pedra! Marchamos por sobre uma superfície absolutamente plana, onde há a certeza de não encontrar senão areia compacta e firme, numa extensão de que não saberíamos dizer a profundidade. A vida deve ter morrido neste areal desolado e, não obstante irmos todos levados pelo desígnio de caçar, no nosso espírito forma-se a incredulidade de que seja possível encontrar um único ser da criação. Devoramos quilómetros. Lentamente, timidamente, as primeiras claridades surgiram. Mas por enquanto era um alvor pálido, que mal iluminava as coisas, deixando apenas diferençar os vultos dos carros galgando a planura. Na nossa frente há claridades alaranjadas, linhas luminosas que se estiram ao longo do horizonte.

(...) Súbito, distinguimos na meia penumbra um vulto de animal, que negreja no fundo pardo da areia. Um carro desvia-se da marcha, outro segue-o. O animal, de que se divisa a cauda plumosa, percebendo que sobre ele caminham, começa a fugir. Mas não tem um arbusto sob que se esconder, um buraco para se ocultar. A única defesa por que a pobre raposa pode optar é a velocidade das suas pernas. Restabelecida a linha de carros, o animal, olhando à esquerda e à direita, galga quanto pode, obrigado a caminhar em frente pela extensão da linha que o ataca. Estão em luta a rijeza das suas canelas e a velocidade das máquinas de que o homem dispõe. É fácil prever quem vencerá.

Mas a raposa galopa numa correria doida. A sucessão das imagens dos seus membros é já vertiginosa. As pernas, no lançamento da fuga, parecem ultrapassar a cabeça. Deve ir quase extenuada. De quando em quando volta para trás a cabeça, raivosamente, como se quisesse morder os quatro monstros que ela decerto desconhece e que vão seguramente esmagá-la! Corre já sem esperança, enquanto o movimento envolvente das máquinas se desenha.
(...) Os carros estão ao alcance e de um deles parte o estalido seco de um tiro. A raposa embrulha-se na carreira, tenta arrastar os membros partidos, tomba, revolve-se de raiva, enquanto os monstros chegam implacáveis e ameaçadores (...)

Em marcha, em marcha! Os caçadores profissionais estão impacientes, que o dia clareia e para longe a caça é alentada e grossa... Não vale a pena perder nem tempo nem pólvora com raposas gaiteiras! Estão á nossa espera a bela cabra de leque, o galengue altaneiro, a zebra galopante. Vamos a andar, vamos a andar!

Nos poucos minutos que nos distraímos o deserto clareou e a iluminação do nascente avermelhou-se. Vamos ter um dia de fornalha, sem um abrigo, sem uma árvore para nos dar sombra (...) O sol começa a romper. É um globo enorme e reluzente que, segundo a segundo, avulta mais na linha do horizonte. À medida que ele surge, o céu vai-se tornando cor de chumbo e a terra aparece em toda a singularidade da sua planura, rasa, espalmada, unicamente vivificada por ervas miseráveis, dolorosamente adaptadas àquele meio de fogo, onde a água não tomba nunca. Em tempos remotos o mar devia ter coberto toda esta terra, que lentamente se foi levantando na sua aridez, tão grande que, passados séculos, a vida vegetal nela não vingou ainda.

(..) De um dos automóveis fazem sinal. Os carros entram em linha, seguindo a marcha do primeiro. Os olhos apuram-se. Efectivamente, à nossa frente, há vultos esbranquiçados que caminham. Mas, ao iniciarem a marcha, dão grandes saltos verticais, parecem mover-se em pulos sucessivos, para a seguir começarem a trotar de cabeça baixa, a rasar a terra! Que extraordinários seres, neste extraordinário panorama, de cuja realidade os nossos olhos ainda vão prontos a duvidar! Estaremos sobre a crosta da Terra, sonhando, ou andamos a caçar no planeta Marte?

Afinal, o que corre à nossa frente é um pequeno grupo de springbocks, a célebre cabra saltadora de Buffon, de que, pela desusada luz que nos alumia, apenas divisamos a parte do corpo cor de canela. Uma das cabras vai-se deixando ficar para trás. Um carro estaca. O chauffeur, velho atirador do deserto, está já de joelho em terra. Um tiro parte e o vulto da cabra tomba vagarosamente sobre o flanco, agitando as pernas no ar. Aproximamo-nos avidamente. Estamos em frente de um animal esbelto, o springbock dos caçadores do Cabo, cuja cabeça é armada de pequenos chifres anelados, em forma de lira, o ventre branco, as pernas altíssimas... A sua pelagem curta e macia cresce na parte posterior do dorso, numa prega aberta, disposição que dá ao animal o curioso nome de cabra de leque.

O caçador, examinando o animal, declara que não vale a pena levá-lo. Efectivamente, numa das pernas, de onde escorre um sangue purulento, a cabra tem um ferimento antigo. "Está cheia de febre, não presta para comer...". Em breve, atraídos pelo cheiro do sangue derramado, os abutres viriam das profundidades do deserto e, seguindo a direcção do seu voo, as raposas também, para caírem sobre o corpo ainda quente do pobre ruminante!

Neste deserto enorme a luta das espécies é formidável, e sobre as pobres cabras, mais tímidas e indefesas, os felinos e as grandes aves de presa, servidos por um faro maravilhoso, tombam implacavelmente. Há a acrescentar uma outra fera, a única que mata por prazer, só para interromper no seu movimento os seres que a Natureza animou de uma vida de formidável resistência (...)"
(Continua)

(Gastão de Sousa Dias - "África Portentosa" - Seara Nova - 1928 - Lisboa)
(Foto do deserto de Moçâmedes, ou Namibe - Okawa Ryuko)

sábado, 21 de julho de 2007

Antiga Oração Chinesa (Aos Seres Transcendentes)

Escolhemos o tempo e o dia,
na respeitosa esperança de um contacto.
Queimamos os óleos com artemísia,
num convite às quatro regiões.
Que se abram os nove espaços celestes
e se mostrem os seres transcendentes.
Que eles façam descer sobre nós
os seus benefícios e graças abundantes.

Os carros dos seres transcendentes
correm sobre as nuvens negras.
Atrelados aos dragões voadores,
ornados de pendões feitos de plumas,
a sua descida é veloz,
como o vento,
como um cavalo lançado.
À esquerda, o dragão verde,
à direita, o tigre branco,
como escolta.

A vinda dos seres transcendentes é veloz,
misteriosa.
Antes deles,
a chuva purificou os ares
e eles chegam como se voassem.
Sem os vermos, saudamo-los à chegada;
e os corações comovem-se,
como se os vissem.

Quando eles se sentam,
a música ressoa,
para os distrair,
para os alegrar
até de madrugada.
A vítima oferecida é jovem e tenra,
os alimentos copiosos
e de odor apreciado.
Existe uma ânfora de vinho com canela,
para alegrar os Génios vindos das oito regiões.
Satisfeitos,
os seres transcendentes abençoam os presentes
com trajes variados
e admiram as ricas decorações do templo.

("A Oração dos Homens - Uma Antologia das Tradições Espirituais" -
Assírio &Alvim - pág. 121)

O Reverso de Aljubarrota - Derrota dos Portugueses em Toro (Castela - 1476)


Em Maio de 1475, cerca de noventa anos depois da derrota de Juan I em Aljubarrota, o rei português Afonso V atravessou com um poderoso exército a fronteira de Castela para reivindicar para si a coroa do país vizinho. Invocava como pretexto a protecção dos direitos da sobrinha Juana, com quem acabaria por celebrar esponsais, e que era filha de sua irmã Joana e do falecido rei castelhano Enrique IV.
Do outro lado, a disputar-lhe o trono, tinha ele um casal de primos ambiciosos, cheios de talento e de vontade, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que mereceriam um dia do Papa a distinção de passarem a ser designados como os Reis Católicos.



No dia 2 de Março de 1476 as esperanças dos portugueses desfizeram-se à beira do Douro, nos campos de Peleagonzalo, próximos de Toro, com uma derrota militar inapelável, não obstante o comportamento valoroso do herdeiro de Afonso V, João, que seria mais tarde o Príncipe Perfeito e que reinaria com dureza e com sabedoria.

A primeira gravura, lá em cima, foi editada pela Antiga Casa Bertrand - José Bastos. Reproduz um dos episódios da batalha ainda hoje evocado pelos manuais de história ibérica - o feito do alferes Duarte de Almeida, que acabaria a suportar o estandarte português com os cotos e os dentes, depois de lhe levarem as duas mãos à espadeirada (o alferes teria porém a vida salva pelos inimigos, que o recolheram e trataram até o devolverem ao país natal, onde terminaria os seus dias em condições de herói modesto).

A gravura do meio refere-se ao mesmo episódio e foi publicada, há mais de meio século, num dos cromos da História de Portugal da Agência Portuguesa de Revistas.

A derradeira gravura, devida a Francisco de Paula van Halen, fazia parte do Álbum Régio. Representa outro aspecto de uma batalha que, sendo perdida pelos portugueses, lhes terá salvo, a prazo, a independência política na Península Ibérica.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Batalha de Aljubarrota - Um Cavalo para El-Rei Juan I de Castela (1385)

 
A 14 de Agosto de 1385, as pretensões de Juan I de Castela ao trono de Portugal estilhaçaram-se em Aljubarrota numa batalha breve mas cruel (ver Batalha de Aljubarrota).

Testemunham alguns relatos que, no instante crucial do recontro, Juan I - doente e vencido - precisou de um cavalo para se evadir do inferno em que se havia metido. Foi então que se adiantou Pedro González de Mendoza, mordomo-mor do rei, disposto a morrer para salvar o seu senhor. Ofereceu ao rei o seu cavalo e, perdendo em seguida a vida às mãos dos portugueses, ficou para sempre eternizado nas velhas lendas ibéricas.

Um artista dotado e sensível, Mariano Salvador Maella, recriou com a sua imaginação o momento supremo em que Juan I recebeu daquele súbdito lealíssimo a montada que o salvaria numa fuga desesperada até Santarém, cidade portuguesa ainda na posse dos castelhanos.
O quadro, a óleo, está guardado em Madrid.
A ferida, essa, dói ainda nos espíritos dos espanhóis que sabem...

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Oliveira Martins e a Civilização Ibérica (I) - A Espanha Celebrada por Alfonso X el Sabio


O historiador português Oliveira Martins escreveu em 1879 a "História da Civilização Ibérica", em cuja Introdução recolheu o que ele com justeza qualificou como "um dos primeiros monumentos escritos da língua castelhana", ou seja, a descrição funda e emocionada da Espanha que Alfonso X, el Sabio (1252-1284), esculpiu para a eternidade nos granitos do tempo ibérico:

"Pues esta España que deximos, tal es como el parayso de Dios:
carriega-se con cinco rios caudales,
que son Duero, y Ebro, y Tajo, y Guadalquivir y Guadiana;
y cada uno dellos tiene entre si y el otro grandes montañas e sierras;
y los valles y los llanos son grandes y anchos;
y por la bondad de la tierra
y el humor de los rios
llevan muchas frutas y son abondados.
Otrosí en España la mayor parte se riega
con arroyos y de fuentes:
y nunca le menguan pozos en cada logar que los han menester.
Y otrosí España
es bien abondada de mieses y deleitosa de frutas,
viciosa de pescados,
saborosa de leche y de todas las cosas que se de ella facen;
y llena de venados y de caza,
cobierta de ganados,
lozana de caballos,
provechosa de mulas y de mulos;
y segura y abondada de castillos;
alegre por buenos vinos,
folgada de abundamiento de pan,
rica de metales de plomo y de estaño,
y de argén vivo, y de fierro, y de alambre,
y de plata, y de oro, y de piedras preciosas,
y de toda manera de piedra mármol,
y de sales del mar,
y de salinas de tierra,
y de sal en peñas,
y de otros veneros muchos de azul,
y almagra, greda y alumbre,
y de otros muchos de quantos se fallan en otras tierras.
Briosa de sirgo,
y de cuanto se falla de dulzor de miel y de azúcar,
alumbrada de olio,
alegre de azafrán.
Y España sobre todas las cosas es engeñosa
y aun temida
y mucho esforzada en lid,
ligera en afan,
leal al Señor,
afirmada en el estudio,
palaciana en palabra,
complida de todo lo bien;
y non hay tierra en el mundo
que le semeje en bondad,
nin si yguala ninguna a ella en fortalezas,
y pocas hay en el mundo
tan grandes como ella.
Y sobre todas España se abonda en grandeza,
mas que todas preciada por lealtad.
O España!,
non hay ninguno que pueda contar tu bien."

("História da Civilização Ibérica" - Oliveira Martins - Guimarães Editores, 1994 - pág. 34)

domingo, 15 de julho de 2007

Miguel Torga - Poemas Ibéricos (Cortés)

Cortés

Queimar primeiro as naus da retirada.
Depois, o próprio crime
Agiganta e redime
O criminoso.
É um repto ao futuro...
Um acto absoluto,
Puro,
De tão cego e tão bruto.

Assim o herói desenha o seu perfil no tempo:
Brônzea fisionomia
Desumana.
Eterna crispação que desafia
A descuidada paz quotidiana.

Sangrento é o pé que em vez de caminhar
Ocupa.
Num México qualquer,
Numa hora de fúria ocidental,
Sem visível motivo,
Amanhece um destino pessoal
E anoitece um destino colectivo.

(Miguel Torga - Poesia Completa - Dom Quixote, Vol II)

Miguel Torga - Poemas Ibéricos (Bartolomeu Dias)




Bartolomeu Dias

Eu não cheguei ao fim.
Dobrei o Cabo, mas havia em mim
Um herói sem remate.
Quando os loiros da fama me sorriam,
Aceitei o debate
Do meu destino de predestinado
Com singelos destinos que teriam
Um futuro apagado,
Fosse qual fosse a glória prometida.
E sempre que uma nau enfrenta o mar e o teme,
E regressa vencida,
Sou eu que venho ao leme
Com a Índia perdida.

(Miguel Torga - Poesia Completa - Dom Quixote, vol. II)

Espírito da África - Angola Eterna


sábado, 14 de julho de 2007

Oração de um Chefe Africano a Favor do Etnólogo Routlege



"Ó Deus, o homem branco veio a minha casa.
Aceita este sacrifício.
Quando o homem branco adoecer,
faz que nem ele nem a sua mulher
fiquem muito doentes.
O homem branco veio do seu país à nossa terra,
do outro lado da água;
é um homem bom
e trata bem aqueles que trabalham com ele.

Se o homem branco e a sua mulher adoecerem,
faz com que não fiquem muito doentes,
porque eu e o homem branco nos unimos
para te fazermos um sacrifício.
Não os deixes morrer,
pois nós sacrificámos um cordeiro bem gordo.
O homem branco veio de muito longe para nos visitar,
e decidimos fazer-te um sacrifício.
Onde quer que ele for não deixes que ele adoeça,
pois ele é bom e extraordinariamente rico,
e eu também sou bom e rico;
e eu e o homem branco damo-nos tão bem
como se fôssemos filhos da mesma mãe.
Ó Deus, este grande carneiro destinámo-lo a ti;
o homem branco, a sua mulher e eu e o meu povo
vamos sacrificar por ti sobre o tronco de uma árvore
um carneiro,
um precioso carneiro.
Faz com que ele não fique gravemente doente,
porque eu ensinei-o a rezar-te
como se ele fosse um verdadeiro Mikikuyu. "


(Povo Kikouyou - Quénia)

(1) (Extraído de "A Oração dos Homens - Uma Antologia das Tradições Espirituais", pág. 74 - Editora Assírio & Alvim, 2006)
(2) (A foto - africana - deve-se a Okawa Ryuko, uma sul-angolana de extraordinária sensibilidade).