domingo, 22 de julho de 2007

Papéis do Império Luso - Uma Caçada no Deserto de Moçâmedes (Angola) (1)

Gastão de Sousa Dias redigiu em 1928 o relato de uma surtida de caça ao deserto de Moçâmedes (hoje Namibe) .
Ali se traça o retrato inspirado de uma realidade às vezes cruel, mas de uma beleza arrasadora, de um lugar agreste do Sul de Angola.
Aqui fica o talento e a sensibilidade de um homem que, nascido em Portugal, se apaixonou irremediavelmente pela magia de Angola - à qual acabou por oferecer a sua vida.

NOS AREAIS DE MOÇÂMEDES (Parte I)

"Às quatro horas da manhã ainda a cidade está mergulhada no sono profundo. A sensação de que os passos ressoam mais alto do que é natural, e que de todos os lados o eco os reproduz, causa em nós um efeito estranho. Apenas a água do mar, a dois passos, vindo em onda suave desfazer-se na areia da praia, quebra ritmicamente o silêncio da noite. Para esse lado a negrura é espessa como tinta, prolongando-se as trevas indefinidamente pela superfície da água; mas a pequena distância, logo ali junto do Posto Meteorológico, as casas desenham-se claramente sob o brilho dos milhões de astros que coalham o céu. Que poeirada infinita de mundos, espalhada no firmamento! Lá está o Cruzeiro junto da mancha escura do Saco do Carvão...

Moçâmedes é uma cidadezinha gentil, muito semelhante a Espinho no alinhamento geométrico das suas casas, cortada por arruamentos perpendiculares. Entre o mar e as primeiras frontarias corre um jardim de grandes palmeiras e trepadeiras frondosas.
A esta hora, enquanto os habitantes repousam, não sei que doçura especial há em espiar os silêncios da vida adormecida e os rugidos murmurosos do mar. Um galo cantou e, daí a minutos, essa voz, como que reflectida em todos os quintais, foi repetida por dezenas de gargantas. Ia romper a manhã.

Antes porém que o sol se corasse para os lados do deserto, já nós certamente iríamos a caminho dos areais. Na verdade, o motor de um carro ressoou e, dentro em pouco, avançando na escuridão, os seus faróis resplandecentes caminharam para nós. Andava recebendo os caçadores. Logo outro carro surgiu, depois outro, ao todo três automóveis e uma camionette para transporte da caça.

Marchamos na noite, sobre a estrada de Porto Aexandre. A terra despida, entrevista na escuridão, parece formada de cinzas esparsas, escórias de fornalha, onde nem as varas retorcidas dum arbusto crescem para o ar. Apenas, na faixa luminosa dos faróis, se distingue uma vegetação rasteira e torturada, a agarrar-se desesperadamente ao chão, como se cada planta necessitasse de raízes, ao longo de todo o seu corpo, para poder arrancar do solo a humidade precária que nele porventura ainda existe.

(...) Os carros avançam em fila. Só se distinguem as luzes dos faróis, que se deslocam em silêncio. Dir-se-ia que vamos para alguma empresa inconfessável, para alguma criminosa conjura. Esta sensação nasce da irrealidade da terra, da qual os olhos, já mais habituados à escuridão, adivinham a dura hostilidade.
É uma paisagem trágica, por sobre a qual parece pousar um silêncio asfixiado de boca que quisesse gritar e se sentisse coagida por força misteriosa a abafar em rouquido a impulsão dos seus brados aflitos. Vamos calados. A estrada corta uma duna de areia em que a luz dos faróis lança reflexos espectrais e gera sombras movediças, de uma inverosimilhança de sonho. (...)

Agora os carros, um a um, abandonaram a estrada e marcham alinhados em plena campina. É necessário que esta seja rasa como um salão, para que os carros, em velocidade regular, se aventurem afoitamente a percorrê-la. As luzes parecem deslizar imponderavelmente, navegando suspensas na mancha escura do deserto. Somos ao todo uns vinte caçadores e nem uma palavra se aventura, todos dominados pela impressão estranha da ausência de vida, da escuridão, da planura rasa e negra sobre que voamos.

Nem o vulto duma planta, nem o vulto duma pedra! Marchamos por sobre uma superfície absolutamente plana, onde há a certeza de não encontrar senão areia compacta e firme, numa extensão de que não saberíamos dizer a profundidade. A vida deve ter morrido neste areal desolado e, não obstante irmos todos levados pelo desígnio de caçar, no nosso espírito forma-se a incredulidade de que seja possível encontrar um único ser da criação. Devoramos quilómetros. Lentamente, timidamente, as primeiras claridades surgiram. Mas por enquanto era um alvor pálido, que mal iluminava as coisas, deixando apenas diferençar os vultos dos carros galgando a planura. Na nossa frente há claridades alaranjadas, linhas luminosas que se estiram ao longo do horizonte.

(...) Súbito, distinguimos na meia penumbra um vulto de animal, que negreja no fundo pardo da areia. Um carro desvia-se da marcha, outro segue-o. O animal, de que se divisa a cauda plumosa, percebendo que sobre ele caminham, começa a fugir. Mas não tem um arbusto sob que se esconder, um buraco para se ocultar. A única defesa por que a pobre raposa pode optar é a velocidade das suas pernas. Restabelecida a linha de carros, o animal, olhando à esquerda e à direita, galga quanto pode, obrigado a caminhar em frente pela extensão da linha que o ataca. Estão em luta a rijeza das suas canelas e a velocidade das máquinas de que o homem dispõe. É fácil prever quem vencerá.

Mas a raposa galopa numa correria doida. A sucessão das imagens dos seus membros é já vertiginosa. As pernas, no lançamento da fuga, parecem ultrapassar a cabeça. Deve ir quase extenuada. De quando em quando volta para trás a cabeça, raivosamente, como se quisesse morder os quatro monstros que ela decerto desconhece e que vão seguramente esmagá-la! Corre já sem esperança, enquanto o movimento envolvente das máquinas se desenha.
(...) Os carros estão ao alcance e de um deles parte o estalido seco de um tiro. A raposa embrulha-se na carreira, tenta arrastar os membros partidos, tomba, revolve-se de raiva, enquanto os monstros chegam implacáveis e ameaçadores (...)

Em marcha, em marcha! Os caçadores profissionais estão impacientes, que o dia clareia e para longe a caça é alentada e grossa... Não vale a pena perder nem tempo nem pólvora com raposas gaiteiras! Estão á nossa espera a bela cabra de leque, o galengue altaneiro, a zebra galopante. Vamos a andar, vamos a andar!

Nos poucos minutos que nos distraímos o deserto clareou e a iluminação do nascente avermelhou-se. Vamos ter um dia de fornalha, sem um abrigo, sem uma árvore para nos dar sombra (...) O sol começa a romper. É um globo enorme e reluzente que, segundo a segundo, avulta mais na linha do horizonte. À medida que ele surge, o céu vai-se tornando cor de chumbo e a terra aparece em toda a singularidade da sua planura, rasa, espalmada, unicamente vivificada por ervas miseráveis, dolorosamente adaptadas àquele meio de fogo, onde a água não tomba nunca. Em tempos remotos o mar devia ter coberto toda esta terra, que lentamente se foi levantando na sua aridez, tão grande que, passados séculos, a vida vegetal nela não vingou ainda.

(..) De um dos automóveis fazem sinal. Os carros entram em linha, seguindo a marcha do primeiro. Os olhos apuram-se. Efectivamente, à nossa frente, há vultos esbranquiçados que caminham. Mas, ao iniciarem a marcha, dão grandes saltos verticais, parecem mover-se em pulos sucessivos, para a seguir começarem a trotar de cabeça baixa, a rasar a terra! Que extraordinários seres, neste extraordinário panorama, de cuja realidade os nossos olhos ainda vão prontos a duvidar! Estaremos sobre a crosta da Terra, sonhando, ou andamos a caçar no planeta Marte?

Afinal, o que corre à nossa frente é um pequeno grupo de springbocks, a célebre cabra saltadora de Buffon, de que, pela desusada luz que nos alumia, apenas divisamos a parte do corpo cor de canela. Uma das cabras vai-se deixando ficar para trás. Um carro estaca. O chauffeur, velho atirador do deserto, está já de joelho em terra. Um tiro parte e o vulto da cabra tomba vagarosamente sobre o flanco, agitando as pernas no ar. Aproximamo-nos avidamente. Estamos em frente de um animal esbelto, o springbock dos caçadores do Cabo, cuja cabeça é armada de pequenos chifres anelados, em forma de lira, o ventre branco, as pernas altíssimas... A sua pelagem curta e macia cresce na parte posterior do dorso, numa prega aberta, disposição que dá ao animal o curioso nome de cabra de leque.

O caçador, examinando o animal, declara que não vale a pena levá-lo. Efectivamente, numa das pernas, de onde escorre um sangue purulento, a cabra tem um ferimento antigo. "Está cheia de febre, não presta para comer...". Em breve, atraídos pelo cheiro do sangue derramado, os abutres viriam das profundidades do deserto e, seguindo a direcção do seu voo, as raposas também, para caírem sobre o corpo ainda quente do pobre ruminante!

Neste deserto enorme a luta das espécies é formidável, e sobre as pobres cabras, mais tímidas e indefesas, os felinos e as grandes aves de presa, servidos por um faro maravilhoso, tombam implacavelmente. Há a acrescentar uma outra fera, a única que mata por prazer, só para interromper no seu movimento os seres que a Natureza animou de uma vida de formidável resistência (...)"
(Continua)

(Gastão de Sousa Dias - "África Portentosa" - Seara Nova - 1928 - Lisboa)
(Foto do deserto de Moçâmedes, ou Namibe - Okawa Ryuko)

sábado, 21 de julho de 2007

Antiga Oração Chinesa (Aos Seres Transcendentes)

Escolhemos o tempo e o dia,
na respeitosa esperança de um contacto.
Queimamos os óleos com artemísia,
num convite às quatro regiões.
Que se abram os nove espaços celestes
e se mostrem os seres transcendentes.
Que eles façam descer sobre nós
os seus benefícios e graças abundantes.

Os carros dos seres transcendentes
correm sobre as nuvens negras.
Atrelados aos dragões voadores,
ornados de pendões feitos de plumas,
a sua descida é veloz,
como o vento,
como um cavalo lançado.
À esquerda, o dragão verde,
à direita, o tigre branco,
como escolta.

A vinda dos seres transcendentes é veloz,
misteriosa.
Antes deles,
a chuva purificou os ares
e eles chegam como se voassem.
Sem os vermos, saudamo-los à chegada;
e os corações comovem-se,
como se os vissem.

Quando eles se sentam,
a música ressoa,
para os distrair,
para os alegrar
até de madrugada.
A vítima oferecida é jovem e tenra,
os alimentos copiosos
e de odor apreciado.
Existe uma ânfora de vinho com canela,
para alegrar os Génios vindos das oito regiões.
Satisfeitos,
os seres transcendentes abençoam os presentes
com trajes variados
e admiram as ricas decorações do templo.

("A Oração dos Homens - Uma Antologia das Tradições Espirituais" -
Assírio &Alvim - pág. 121)

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Batalha de Aljubarrota - Um Cavalo para El-Rei Juan I de Castela (1385)

 
A 14 de Agosto de 1385, as pretensões de Juan I de Castela ao trono de Portugal estilhaçaram-se em Aljubarrota numa batalha breve mas cruel (ver Batalha de Aljubarrota).

Testemunham alguns relatos que, no instante crucial do recontro, Juan I - doente e vencido - precisou de um cavalo para se evadir do inferno em que se havia metido. Foi então que se adiantou Pedro González de Mendoza, mordomo-mor do rei, disposto a morrer para salvar o seu senhor. Ofereceu ao rei o seu cavalo e, perdendo em seguida a vida às mãos dos portugueses, ficou para sempre eternizado nas velhas lendas ibéricas.

Um artista dotado e sensível, Mariano Salvador Maella, recriou com a sua imaginação o momento supremo em que Juan I recebeu daquele súbdito lealíssimo a montada que o salvaria numa fuga desesperada até Santarém, cidade portuguesa ainda na posse dos castelhanos.
O quadro, a óleo, está guardado em Madrid.
A ferida, essa, dói ainda nos espíritos dos espanhóis que sabem...

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Oliveira Martins e a Civilização Ibérica (I) - A Espanha Celebrada por Alfonso X el Sabio


O historiador português Oliveira Martins escreveu em 1879 a "História da Civilização Ibérica", em cuja Introdução recolheu o que ele com justeza qualificou como "um dos primeiros monumentos escritos da língua castelhana", ou seja, a descrição funda e emocionada da Espanha que Alfonso X, el Sabio (1252-1284), esculpiu para a eternidade nos granitos do tempo ibérico:

"Pues esta España que deximos, tal es como el parayso de Dios:
carriega-se con cinco rios caudales,
que son Duero, y Ebro, y Tajo, y Guadalquivir y Guadiana;
y cada uno dellos tiene entre si y el otro grandes montañas e sierras;
y los valles y los llanos son grandes y anchos;
y por la bondad de la tierra
y el humor de los rios
llevan muchas frutas y son abondados.
Otrosí en España la mayor parte se riega
con arroyos y de fuentes:
y nunca le menguan pozos en cada logar que los han menester.
Y otrosí España
es bien abondada de mieses y deleitosa de frutas,
viciosa de pescados,
saborosa de leche y de todas las cosas que se de ella facen;
y llena de venados y de caza,
cobierta de ganados,
lozana de caballos,
provechosa de mulas y de mulos;
y segura y abondada de castillos;
alegre por buenos vinos,
folgada de abundamiento de pan,
rica de metales de plomo y de estaño,
y de argén vivo, y de fierro, y de alambre,
y de plata, y de oro, y de piedras preciosas,
y de toda manera de piedra mármol,
y de sales del mar,
y de salinas de tierra,
y de sal en peñas,
y de otros veneros muchos de azul,
y almagra, greda y alumbre,
y de otros muchos de quantos se fallan en otras tierras.
Briosa de sirgo,
y de cuanto se falla de dulzor de miel y de azúcar,
alumbrada de olio,
alegre de azafrán.
Y España sobre todas las cosas es engeñosa
y aun temida
y mucho esforzada en lid,
ligera en afan,
leal al Señor,
afirmada en el estudio,
palaciana en palabra,
complida de todo lo bien;
y non hay tierra en el mundo
que le semeje en bondad,
nin si yguala ninguna a ella en fortalezas,
y pocas hay en el mundo
tan grandes como ella.
Y sobre todas España se abonda en grandeza,
mas que todas preciada por lealtad.
O España!,
non hay ninguno que pueda contar tu bien."

("História da Civilização Ibérica" - Oliveira Martins - Guimarães Editores, 1994 - pág. 34)

domingo, 15 de julho de 2007

Miguel Torga - Poemas Ibéricos (Cortés)

Cortés

Queimar primeiro as naus da retirada.
Depois, o próprio crime
Agiganta e redime
O criminoso.
É um repto ao futuro...
Um acto absoluto,
Puro,
De tão cego e tão bruto.

Assim o herói desenha o seu perfil no tempo:
Brônzea fisionomia
Desumana.
Eterna crispação que desafia
A descuidada paz quotidiana.

Sangrento é o pé que em vez de caminhar
Ocupa.
Num México qualquer,
Numa hora de fúria ocidental,
Sem visível motivo,
Amanhece um destino pessoal
E anoitece um destino colectivo.

(Miguel Torga - Poesia Completa - Dom Quixote, Vol II)

Miguel Torga - Poemas Ibéricos (Bartolomeu Dias)




Bartolomeu Dias

Eu não cheguei ao fim.
Dobrei o Cabo, mas havia em mim
Um herói sem remate.
Quando os loiros da fama me sorriam,
Aceitei o debate
Do meu destino de predestinado
Com singelos destinos que teriam
Um futuro apagado,
Fosse qual fosse a glória prometida.
E sempre que uma nau enfrenta o mar e o teme,
E regressa vencida,
Sou eu que venho ao leme
Com a Índia perdida.

(Miguel Torga - Poesia Completa - Dom Quixote, vol. II)

Espírito da África - Angola Eterna


sábado, 14 de julho de 2007

Núpcias na Ibéria: "Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha"







Saiu em Junho e chegou há dias à Torre uma obra de Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha (A Esfera dos Livros, € 23,00), que aborda as uniões de "onze das doze mulheres portuguesas que, entre 1165 e 1816, casaram com outros tantos príncipes herdeiros ou reis de outros reinos peninsulares, convertendo-se assim em rainhas de Leão, Castela, Aragão e finalmente Espanha".
São elas Urraca (filha de Afonso Henriques); Teresa (Sancho I); Mafalda (idem); Constança (Dinis); Maria (Afonso IV); Beatriz (Fernando I); Isabel (neta de João I); Joana (filha de Duarte); Isabel (Manuel I); Bárbara (João V); Maria Isabel (João VI).

Já aqui se tinha abordado este tipo de laços ibéricos (em 8 de Julho de 2007), dando-se conta, como Cassotti faz agora na Introdução, de como eles por vezes se articulavam com inequívocos projectos de unidade das Coroas (normalmente as de Portugal e Castela). Cassotti aponta, e aponta bem, outros objectivos, como o da consolidação do poder do Estado, o alargamento das fronteiras ou a simples realização de manobras estratégicas defensivas (em relação a qualquer das outras nações ibéricas).

Extraia-se do texto da contracapa: "Esta obra aborda também a vida privada destas infantas. Os seus casamentos e gravidezes. As rivalidades com a rainha-mãe (ou seja, a sogra) e as amantes do rei (o marido). A educação dos príncipes (os filhos). As lutas pelo poder. O mecenato a pintores, músicos e arquitectos. As vocações religiosas. Trata-se de um fresco original e apaixonante da História de Portugal (e da Península Ibérica) através da felicidade e do sofrimento de onze portuguesas que deram prestígio ao seu país na amada/odiada Espanha".

Apesar do pequeno reparo feito abaixo, a Torre recomenda a leitura. A obra está bem estruturada, o autor trabalhou muito e o estilo é agradável. Marsilio Cassotti (como ele próprio informava há dias numa entrevista) não inventou, quer dizer, não cedeu à tentação de compor mais uma das execráveis (mas muito vendáveis) pasteladas que se alcunham atrevidamente de romances históricos e que, por deficiência insanável de autores com falta de arquivo e de reflexão - e para gáudio de alguns editores de preocupações culturais rudimentares -, nos infestam ultimamente as estantes das livrarias.
É que há romances históricos e "romances históricos". Situar-se em ambiências e enquadramentos históricos para inserir a trama romanceada é caminho legítimo; colocar na boca ou no gesto de uma personagem histórica o que ela documentadamente não disse ou não fez é trapaça cultural, maroteira sinuosa de mero caçador de edições.

(A propósito: devo ao inefável Campos Júnior - que Deus haja - ter palmilhado alguns anos da minha adolescência iludido - e bem iludido - acerca das proezas políticas do nosso terrível Pombal; Campos inventava delirantemente, facto sim, facto não, e o verdadeiro Marquês saiu irreconhecível daquelas páginas amarelecidas; é claro que nem o grande e probo Alexandre Herculano resistiu a meter uns pozinhos de imaginação (culturalmente) ilegítima nos seus devaneios romanceados; mas esse, ao contrário de Campos, tinha do outro lado, na sua obra "séria", o peso de uma genialidade que na Torre se não discute, merecendo por isso absolvição).

Obs. final - O pequeno reparo tem a ver com alguns descuidos de pormenor (descuidos de investigação ou de revisão?), como datas erradas, por exemplo.
Recomendamos à Esfera dos Livros e ao autor, Marsilio Cassotti, um esforço de correcção em próxima edição. Alguns exemplos:
nas págs. 169 e 194 indicam-se, contraditoriamente, as datas de 20 de Julho e de 11 de Julho de 1454 como sendo as da morte de Juan II de Castela (são ambas inexactas);
Enrique IV de Castela não nasceu em 1422, pág. 161 (mas sim em 1425);
a dinastia Trastâmara (originária de Castela) não começou a reinar em Aragão desde 1420, pág. 187 (mas sim desde 1412; relembra-se que, com o Compromisso de Caspe, acontecido neste ano, o regente de Castela - Fernando, irmão do falecido Enrique III - foi escolhido por um grupo de parlamentares como herdeiro da Coroa de Aragão; esta Coroa abrangia Aragão, Valência e a Catalunha, para além de um vastíssimo império mediterrânico que chegou a dominar a Sardenha, a Sicília e grande parte do que é hoje a Itália).

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Miguel Torga, Trasmontano e Ibérico




Miguel Torga nasceu em São Martinho da Anta, proximidades de Vila Real, Trás-os-Montes, em Agosto de 1907, e faleceu em Janeiro de 1995.

Era prosador e poeta à maneira da sua terra nortenha. Esquivo, face angulosa, cheio de esquinas, grandioso e duro, esmagador como as fragas natais.
Um dia pôs-se a mirar em redor com um olhar grande e abrangente, nostálgico da terra antiga e vasta dos antepassados. A terra próxima alargou-se-lhe até à Hispânia velha e total, herdeira de Visigodos, mãe de nações de aventureiros, avó de povos morenos longínquos, para lá do mar. E, porventura sentado numa fraga rasa, criou este espantoso poema:

Ibéria


Terra.
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.


Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...


Terra de pão e vinho
(A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).


Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.

(Miguel Torga - Poesia Completa - Vol. II - pág. 245 - Publicações Dom Quixote)

António Carlos Manso Pinheiro: partiu o Grande Almirante da Estampa


Zarpou aos sessenta e cinco anos, em meados de Março, no dia seguinte ao do seu aniversário, rumo às estrelas em que tanto acreditava...

Conheci-o numa tarde quente do Verão de 1998, na salinha pequena mas hospitaleira da Rua da Escola do Exército onde se acolheu com a Editorial Estampa - magnífica caravela de cultura de que ele foi, desde os primeiros e arrojados dias de bolina literária, o Grande Almirante. Com o desfiar da conversa fui colhendo os indícios fortes de uma personalidade multifacetada e rara, começando a descobrir nele aquilo que pelos anos fora autenticaria vezes sem conta - a generosidade desarmante, o humor culto e subtil, a delicadeza educada, as crenças profundas.
.
Homem de afectividades, de convicções e de nobres causas, era muitíssimo capaz de "obrigar" os astros a pressagiarem, através de cartas geometricamente complexas - que ele mesmo se encarregava de confeccionar -, futuros esplendorosos àqueles necessitados e deprimidos que tinham a ventura de lhe passar ao alcance da bondade proverbial e do sentido de inesgotável solidariedade. Singular conduta a deste editor, que parecia por vezes acreditar mais em certos originais do que os seus mesmos autores, e que, a partir de miraculosos lances de gestão em que era pródigo, conseguia a margem financeira bastante para lançar ao grande mundo obras consabidamente pouco vendáveis - mas de que ele tinha gostado e que, portanto, olimpicamente decretava deverem ser dadas a conhecer ao País...
.
Na bela homenagem que alguns dos seus muitos amigos e admiradores lhe fizeram a 31 de Maio na última Feira do Livro de Lisboa - Feira de que ele foi defensor esclarecido e firme -, um dos oradores lembrou que este homem possuía o estranho condão de fazer sentir a qualquer mortal, por mais sumidas que fossem as qualidades deste, que ele, Manso Pinheiro, o reputava tão importante como ao Presidente da República... Posso prestar sobre isso testemunho pessoal e reforçado: a mim, a quem não conhecia de lado nenhum, acolheu-me, sorridente, prestável e empenhadíssimo, como se lhe tivesse acabado de entrar portas adentro, na tarde cálida daquele Verão de há nove anos, alguém ainda mais importante do que o Presidente da República.
O próprio Óscar Wilde.
Ou Jorge Luís Borges.
Ou Aquilino Ribeiro.
Ou os três juntos...
.
António Carlos Manso Pinheiro, da Editorial Estampa, foi um grande português, um grande homem e um ser humano de eleição.
Adeus, Grande Almirante. A caravela continua, todavia, a vogar triunfalmente de velas pandas - tendo certos os destinos traçados por ti. Como estava, de resto, garantido, a partir da infalível interpretação das estrelas, nas tuas cartas astrais. Naturalmente...

terça-feira, 10 de julho de 2007

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica




Um poema de Ibne Sare, do antigo Al-Andaluz.
Nascido em Santarém, faleceu em 1123, quando Portugal independente ainda não havia surgido.

LARANJEIRA

São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
as suas cores vivas,
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?

São os ramos que se balouçam,
ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?

Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.

Estão congeladas, mas, se fundissem,
seriam vinho.
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.

São como bolas de cornalina em ramos de topázio,
e na mão do zéfiro há martelos para as golpear.

Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor,
e assim são alternadamente
rosto de donzelas ou pomos de perfume.


(António Borges Coelho - "Portugal na Espanha Árabe" - Vol. 1, pág. 242 - Edit. Caminho)

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (I)






Os muçulmanos que ocuparam a Península Ibérica a partir da invasão do ano de 711 (até cair Granada, em 1492) deixaram-nos, para além de outras lembranças de uma civilização requintada, alguns tesouros de poesia extraordinariamente sensitiva e elaborada.
Um exemplo, da autoria do poeta Ibne Arraia:

O Repuxo

Que belo o repuxo!
Apedreja o céu com estrelas cadentes
que saltam como ágeis acrobatas!

Serpentes de água caem em borbotões
que correm até à taça como víboras amedrontadas.

E, habituada a escorrer furtivamente sob a terra,
não corre a água lesta ao ver um espaço aberto?

Ao repousar depois satisfeita com a nova casa
sorri orgulhosa mostrando os dentes de bolhas.

E então, quando o sorriso descobre a deliciosa dentadura,
inclinam-se a beijá-la os enamorados ramos.

domingo, 8 de julho de 2007

História de Portugal? História de Espanha? Ou "História Ibérica"?


Descansem os de sentido patriótico mais apurado, que não venho fazer a apologia de uma qualquer união política apressada - nem lenta -, mas apenas dizer que continua a espantar-me a forma autista como, com raras excepções, se continua a encarar e a escrever a história deste rincão ocidental deitado ao mar.

Como se Espanha - e antes Castela, mais Aragão, mais Navarra, mais a Granada muçulmana... - não existissem, ou existissem apenas como comparsas de segunda, espécie de vilões longínquos e ameaçadores, sobretudo a primeira, sempre predisposta a devassar fronteiras e direitos para se apoderar da nossa independência, tão duramente reclamada e obtida pelo pai Afonso...

A Espanha dos nossos compêndios tem sempre ou quase sempre o mesmíssimo papel que em Walt Disney assume o Lobão, dentuça rebrilhante de cobiças pela carninha rosada dos três porquinhos. E, no entanto, como se oculta - ignorância? premeditação? - que, do lado de cá, através de matrimónios calculistas ou de acções armadas, se procurou várias vezes unir as duas coroas num corpo único (o que daria obviamente lugar, a prazo, à absorção política do anão lusitano pelo gigante da Meseta).

Lembram-se de João II, o maior dos nossos reis? - a casar o filho com a castelhana, na secreta esperança de que a nora se transformasse na herdeira dos Reis Católicos, juntando-se depois tudo em família, mas com comando do lado "de cá"... Não surtiu efeito, o rapaz caiu mal do cavalo, à beira do Tejo, e a coisa ficou por ali. Mas logo veio Manuel I, primo e sucessor de João II, que casou ele próprio com a infanta espanhola para pôr no mundo um menino - Miguel da Paz - que chegou a ser o potencial e único herdeiro dos dois tronos. Morreu, todavia, criança, e lá se foi outra vez a união desejada por quem a tinha engendrado.

E Afonso V, o Africano, pai de João II, que não fez por menos e invadiu em armas o reino vizinho para reclamar pela violência tudo para si - Portugal e Castela - com argumentos quase decalcados dos que, menos de um século antes, invocara Juan I, o segundo dos Trastâmaras castelhanos, para exigir o mesmo até soçobrar em Aljubarrota (1385) diante dos portugueses de João de Avis e de Nuno Álvares Pereira.
O nosso generoso mas estouvado Afonso V sofreu, como se sabe, uma derrota definitiva em Toro (1476) - e, pesem algumas carpideiras descentradas do real entendimento das coisas, foi isso que nos salvou a independência.

Não defendo a união política. O que tão-somente sustento é que não é possível, nem desejável, abordar-se com rigor intelectual o passado comum ibérico sem uma perspectiva da comunidade de interesses que então constituíamos - pelo menos ao nível que contava, que era o das altas esferas em que tudo se planeia e decide.
Uma história que se entenda e divulgue de outra maneira - a maneira antiga - pode ser mais tranquilizadora, mas será decerto uma história amputada e coxa.

Transcrevo uns excertos do que a propósito escreveu o insuspeito António Sardinha:


"Quando eu vim para o exílio trazia contra Espanha todos os preconceitos da minha inteligência e da minha sensibilidade. É certo que já pressentia a importância duma maior aproximação entre os dois povos, sobretudo pelo que tocava à continuidade e ao desenvolvimento da nossa influência na América impropriamente chamada latina. O estudo da história levava-me também à compreensão de muitas figuras espanholas, relacionadas com a vida do nosso país. E assim aprendera lentamente, mas com juízo seguro, a corrigir bastantes das prevenções do meu patriotismo alarmado (...)

(...) Nada mais agradável, para quem tem o amor das ideias e o gosto salutar da verdade, do que reconhecer os seus erros, se os acolheu com espírito livre e sincero. É esse o caso presente, que eu me apresso a confessar num cuidadoso exame de consciência. Evidentemente não é para aqui a análise das mil e uma circunstâncias que afastaram as duas pátrias uma da outra, como se de permeio ficasse o deserto sem fim ou, numa comparação mais incisiva, a muralha infranqueável da China. O que me cabe é acentuar, antes de mais nada, que dum convívio atento com a moderna erudição de Espanha o meu nacionalismo só tirou para si raízes mais fundas e mais documentadas (...)

(...) Claro que nos achamos assim em face de dois etnos diferenciados, em que visivelmente afloram as tendências separatistas das duas pátrias. Separatistas, mas não antagónicas - registe-se. E o erro político de tantos séculos é aí medularmente que reside: - na entranhada e sistemática desconfiança que hoje, tão vizinhos e tão parentes, nos põe uns para os outros de "espaldas vueltas" (...)


(...) Ora, o que não admite dúvidas é que a esse erro político, a essa entranhada e sistemática desconfiança, se deve talvez a decadência das duas nações peninsulares. Se por acaso o esforço absorcionista de Castela colocou em risco a existência autónoma de Portugal, também Portugal colocou mais duma vez em risco a existência autónoma de Castela. Refugiada na dureza da sua meseta, jamais Castela poderia, porém, ser nossa, nem nós, enquadrados na depressão ocidental da Península, vivendo do mar e para o mar, permaneceríamos muito tempo reduzidos pela pressão centrípeta de Castela. As razões da nossa autonomia não são apenas razões dinásticas (...) É conveniente lembrarmos que um autorizado nome espanhol, Torres Campos, ia pedir à própria geologia a explicação da independência de Portugal (...)


(...) Vê-se já por que, exactamente no exílio, cheio de preconceitos sentimentais e intelectuais, o meu nacionalismo se fortificou e esclareceu, ao contacto da mentalidade espanhola - ao mesmo tempo que uma outra noção de "hispanismo" o desdobrava e completava, pela ideia de solidariedade social e espiritual necessária, como pão para a boca, ao prestígio e à vitalidade externa de ambas as pátrias. E eu que envolvera em tantas tiradas de ódio melodramático a Espanha do planalto, a Espanha da conquista, imaginando-a imperialista e agressora, não tardei a sentir, com Almeida Garret e com Oliveira Martins, a fascinação antiga da Grande Madre, aleivosamente difamada.


Foi em pleno coração de Castela que as fontes ocultas do meu ser me testemunharam a presença eterna duma comunhão de origens e de fins que, para desgraça nossa, desde que adormeceu na cinza das coisas mortas, nos levou consigo a única possibilidade de, novamente (...), Portugal desempenhar no mundo a sua alta missão civilizadora. Podemo-nos orgulhar, de que nós, e connosco Castela, nossa irmã mais velha, somos um poder criador de nacionalidades. Do outro lado do mar vinte estados de formação ibérica bendizem com carinho filial o nome de Espanha. Ao coro das suas vozes junta-se a voz do Brasil, apelando debalde para Portugal (...)


(...) Se o lusitano de cabelos corredios difere do celtibero, mais mesclado com cabeleira encrespada, um e outro são "hispânicos" de nascimento e finalidade, lutando ambos em Numância contra o romano, expulsando juntos o muçulmanismo na epopeia da Reconquista; e acabando por abrir à Europa um oceano novo, com a bula solene dum Papa repartindo pelos dois paternalmente as terras que ainda estivessem por ocupar.


Tal foi a "Espanha" que eu vim descobrir a Espanha. É a Espanha-Madre - são as "Espanhas" das inscrições clássicas e dos roteiros primitivos. Tanto é Castela como Aragão, tanto é Portugal como Navarra, senti-a num dia amargo de saudade, à sombra da catedral de Toledo (...)".


(Escrito por António Sardinha em 1919 - Livro: "À Lareira de Castela" - Capítulo "À Descoberta de Espanha" - Editorial Restauração - Excertos recolhidos entre as págs. 5 e 13).