domingo, 21 de outubro de 2007

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (III) - Quem Me Dera...


Quem me dera rasgar o coração com uma navalha,
encerrar-te lá dentro
e voltar a fechar o peito
para que dentro dele
tu estivesses,
para que em mais nenhum
tu habitasses,
até ao dia da ressurreição
e do juízo final.
Assim viverias comigo
enquanto eu existisse
e assim ficarias,
entre as dobras do meu coração,
mesmo depois da minha morte,
rodeada pelas trevas do sepulcro.


(Ibn Hazm) (séc. XI)
(Foto de A. Viana d'Almeida)

Rosa de Hiroshima (Ney Matogrosso)

Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexactas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioactiva
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atómica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Martin Luther King - "I Have a Dream" (Eu Tenho um Sonho)









Discurso de Martin Luther King, Jr. em Washington, D.C., a capital dos Estados Unidos da América, em 28 de Agosto de 1963, após a Marcha para Washington.

O discurso de Martin Luther King, pronunciado na escadaria do Monumento a Lincoln, em Washington, foi ouvido por mais de 250.000 pessoas de todas as etnias, reunidas na capital dos Estados Unidos da América, após a «Marcha para Washington por Emprego e Liberdade».

A manifestação foi pensada como uma maneira de divulgar de forma dramática as condições de vida desesperadas dos negros no Sul dos Estados Unidos, e exigir ao poder federal um maior comprometimento na segurança física dos negros e dos defensores dos direitos civis, sobretudo no Sul.

Devido a pressões políticas exercidas pela Presidência dos Estados Unidos - ocupada por John Kennedy -, as exigências a apresentar no comício tornaram-se mais moderadas, mas mesmo assim foram feitos pedidos claros: o fim da segregação no ensino público, aprovação de legislação clara no que respeita aos direitos civis, assim como de legislação proibindo a discriminação racial no emprego; para além do fim da brutalidade policial contra militantes dos direitos civis e a criação de um salário mínimo para todos os trabalhadores, que beneficiaria sobretudo os negros.

Realizada num clima muito tenso, a manifestação foi um estrondoso sucesso, e o discurso ficou conhecido sobretudo pela frase permanentemente repetida no meio do discurso «I have a Dream» ("Eu tenho um sonho"), mas também pela frase que é repetida no fim - «That Liberty Ring» ("Que a Liberdade ressoe"), que retoma o poema patriótico «América». Tornou-se, com o discurso de Lincoln em Gettysburg, um dos mais importantes da oratória americana.

Em 1964 a Lei dos Direitos Civis foi votada e promulgada por Lyndon B. Johnson. Em 1965 foi por seu turno aprovada a Lei sobre o Direito de Voto.
Martin Luther King, Jr. foi escolhido como Prémio Nobel da Paz no ano seguinte, em 1964.
Foi assassinado em 4 de Abril de 1968.



"Que Ressoe a Liberdade"

"Há cem anos, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre.

Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, estando exilado na sua própria terra.

Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramaticamente mostrarmos esta extraordinária condição. Num certo sentido, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque. Quando os arquitectos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, estavam a assinar uma promissória de que cada cidadão americano se tornaria herdeiro.

Este documento era uma promessa de que todos os homens veriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à procura da felicidade. É óbvio que a América ainda hoje não pagou tal promissória no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar este compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem cobertura; um cheque que foi devolvido com a seguinte inscrição: "saldo insuficiente". Porém, nós recusamo-nos a aceitar a ideia de que o banco da justiça esteja falido. Recusamo-nos a acreditar que não exista dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportunidades deste país.

Por isso viemos aqui cobrar este cheque - um cheque que nos dará, quando o recebermos, as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América a clara urgência do agora. Não é o momento de se dedicar à luxúria do adiamento, nem para se tomar a pílula tranquilizante do gradualismo.

Agora é tempo de tornar reais as promessas da Democracia. Agora é o tempo de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado caminho da justiça racial. Agora é tempo de abrir as portas da oportunidade para todos os filhos de Deus. Agora é tempo para retirar o nosso país das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade.

Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este sufocante Verão do legítimo descontentamento do Negro não passará até que chegue o revigorante Outono da liberdade e da igualdade.

1963 não é um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava só de desabafar, e que a partir de agora ficará sossegado, irão acordar sobressaltados se o País regressar à sua vida de sempre. Não haverá tranquilidade nem descanso na América até que o Negro tenha garantido todos os seus direitos de cidadania.

Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir as fundações do nosso País até que desponte o luminoso dia da justiça. Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No percurso de ganharmos o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de actos errados.

Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio.
Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e disciplina. Não devemos deixar que o nosso protesto, realizado de uma forma criativa, degenere na violência física. Teremos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência.

Esta maravilhosa militância que engolfou a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos nossos irmãos brancos, como é claro pela sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que os seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que a sua liberdade está intrinsecamente ligada à nossa liberdade.

Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder. Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: "Quando é que ficarão satisfeitos?"



Não estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos incontáveis horrores da brutalidade policial.
Não poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados das fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso a um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades.

Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade fundamental do Negro for passar de um gueto pequeno para um maior.

Nunca poderemos estar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não puder votar e um Negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar.

Não, não, não estamos satisfeitos, e só ficaremos satisfeitos quando a justiça correr como a água e a rectidão como uma poderosa corrente.



Sei muito bem que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês saíram recentemente de pequenas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de áreas onde a vossa procura da liberdade vos deixou marcas provocadas pelas tempestades da perseguição e sofrimentos provocados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor.

Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Luisiana, voltem para as bairros de lata e para os guetos das nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada. Não nos embrenharemos no vale do desespero.



Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e das frustrações do momento, ainda tenho um sonho.
É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.


Tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais".

Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

Tenho um sonho que um dia o estado do Mississipi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Tenho um sonho que os meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter.



Tenho um sonho, hoje.


Tenho um sonho que um dia o estado de Alabama, cujos lábios do governador actualmente pronunciam palavras de ódio e de recusa, seja transformado numa condição onde pequenos rapazes negros, e raparigas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos, e raparigas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.



Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul.
Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança.
Com esta fé poderemos transformar as discórdias da nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade.

Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.

Esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: "O meu país é teu, doce terra da liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade".


E se a América quiser ser uma grande nação, isto tem que se tornar realidade.

Que a liberdade ressoe então dos prodigiosos cabeços do Novo Hampshire.
Que a liberdade ressoe das poderosas montanhas de Nova Iorque. Que a liberdade ressoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia!
Que a liberdade ressoe dos cumes cobertos de neve das montanhas Rochosas do Colorado!

Que a liberdade ressoe dos picos curvos da Califórnia!
Mas não só isso; que a liberdade ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!
Que a liberdade ressoe da Montanha Lookout do Tennessee!
Que a liberdade ressoe de cada Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.
Que, de cada localidade, a liberdade ressoe.

Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e de cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra:
"Liberdade finalmente!
Liberdade finalmente!
Louvado seja Deus, Todo Poderoso, estamos livres, finalmente!"



Vejam e ouçam aqui:



Tennessee, Memphis, 4 de abril de 1968: o disparo de um rifle interrompia bruscamente a biografia de um negro chamado Martin Luther King, o maior líder negro das Américas.
O nome com que foi batizado marcou a existência e a trajectória luminosas do Dr. Martin Luther King Jr.: religioso, destemido, líder pacifista, majestoso, estadista, eloqüente, revolucionário.

Nascido no sul dos Estados Unidos, em 1929, em pleno auge do famigerado sistema "Jim Crown" (separados mas iguais), filho de um pastor baptista, Martin Luther King Jr. recebeu o Nobel da Paz aos 35 anos, sagrando-se o mais jovem laureado pelo Prémio Nobel.
Comprometendo as igrejas com as lutas sociais, organizando boicotes aos transportes públicos, apoiando greves de estudantes e de trabalhadores, liderando passeatas integradas por legiões de negros, brancos, judeus e muçulmanos, pregando a resistência pacífica, difundindo os ensinamentos de Gandhi, Martin Luther King Jr. sacrificou a própria vida em nome da igualdade, da justiça e da paz.

Em resposta aos linchamentos e às atrocidades cometidas pelos integrantes da Ku Klux Klan, Martin Luther King organizou a resistência pacífica, valorizou o diálogo, unificou as lutas do seu povo, pregou a não-violência, convocou negros e brancos para fundarem as bases de uma convivência harmoniosa, baseada no respeito, no espírito de compreensão e na tolerância recíproca. A Marcha sobre Washington, que em 1963 colocou mais de 200.000 mil pessoas nas ruas da capital norte-americana - ocasião na qual ele proferiu o seu mais famoso discurso (I Have a Dream...) - mudou a face e a história política e económica dos Estados Unidos.

Depois daquele 28 de agosto de 1963, os Estados Unidos da América nunca mais foram os mesmos. O mundo nunca mais foi o mesmo - o sonho da igualdade despertou sonhadores em todas as partes: na África, na Índia, na Europa, nas Américas.
No Brasil, tinha início o regime ditatorial-militar que durante mais de duas décadas empurrou lideranças, partidos progressistas e movimentos sociais para a clandestinidade, incluindo o Movimento Negro.

Na concepção e prática da luta negra que retoma espaço após a ditadura, lá estavam as lições, o pensamento, o legado político do Reverendo Martin Luther King. Nos nossos dias, em que se debatem intensamente propostas de políticas de promoção da igualdade racial, permanecem vivos e actuais os métodos e postulados do Dr. Martin Luther King.
Os sonhos não envelhecem.
Pode-se calar um homem, mas não se pode eliminar o vigor e a força de suas ideias, da verdade e da justiça.
Onde houver um ser humano lutando por dignidade, justiça e paz, lá estará sendo concretizado o sonho do Reverendo Martin Luther King.

sábado, 13 de outubro de 2007

O Menino da Sua Mãe (Fernando Pessoa)


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.


Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.


Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»


Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.


De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.


Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe.


Pintores da Península - Portugal - José Malhoa (1855-1933)

1 - Praia das Maçãs (1918)








2 - O Fado (1910)







3 - Clara (1918)







4 - Os Bêbedos (1907)


Malhoa, de seu verdadeiro nome José Victal Branco Malhoa, nasceu numa família de agricultores, nas Caldas da Rainha. Cedo evidenciou qualidades artísticas; e assim, muito novo, seguiu para Lisboa para aprender o ofício de entalhador na Escola de Belas-Artes. Contudo, por indicação do artista Leandro de Sousa Braga, o irmão inscreve-o na Real Academia de Belas-Artes em Outubro de 1867. Aqui haveria de prosseguir estudos durante 8 anos, obtendo as melhores classificações.

Na Academia, foi aluno do mestre romântico Tomás da Anunciação, que o iniciou na pintura de paisagem – a grande paixão da sua vida –, de Miguel Ângelo Lupi e de José Simões de Almeida, entre outros. Ainda estudante, passava as tardes a desenhar os arredores de Lisboa, sobretudo a Tapada da Ajuda e Campolide. Assim que acaba o curso, decide concorrer a pensionista do Estado com o fim de ir estudar para fora. Mas não é admitido (só realizará a primeira viagem a Paris em 1906). Decide então empregar-se na loja de confecções do irmão, onde ficará três anos.

É desta época a obra Seara Invadida (1881), que envia a uma exposição em Madrid, onde obtém o melhor acolhimento. Entusiasmado, e apesar de ter entretanto casado, Malhoa decide deixar a loja do irmão e consagrar-se inteiramente ao ofício de pintor. Ainda antes de 1885 chegam as primeiras encomendas artísticas: um tecto para o Real Conservatório (A Fama Coroando Euterpe) e outro para o Supremo Tribunal de Justiça (A Lei) são alguns exemplos.

Nesse ano, o pintor Silva Porto regressa a Lisboa, vindo de França, onde fora aluno de Daubigny, e recebe na Academia a cadeira de Pintura de Paisagem, que entretanto tinha vagado. À sua volta, na Cervejaria do Leão, em Lisboa, reúne-se em breve um grupo de artistas dos quais Malhoa faz parte. Esta tertúlia, o Grupo do Leão, que discutia temas relativos à prática artística, influenciou decisivamente a opção de Malhoa pela pintura de ar livre. O Paul da Outra Banda, pintado ainda em 1885, é desta um bom exemplo.

Pouco tempo depois, adquire casa de Verão em Figueiró dos Vinhos. É aqui que descobre os temas populares que sempre o encantarão ao longo da vida. Procissões, cenas campestres, camponesas saudáveis e garridas, animais que pastam, pontuam uma pintura que se vai dedicar a transmitir uma imagem do Portugal sentimental e bucólico que outros tratarão na literatura.
Trata-se de pintura naturalista; mas de um naturalismo sem maniqueísmo nem luta de classes, mais próximo de A Cidade e as Serras que de O Germinal – mais próximo do Portugal atrasado desse tempo que da Inglaterra ou da França já industrializadas. Diogo de Macedo, historiador que se debruçou sobre a sua obra, chama-lhe um «historiador da vida rústica de Portugal».

(Fonte: Luísa Soares de Oliveira, in ArtLink)

Lugares da Península - Cáceres, Espanha, Jóia Medieval Suspensa no Tempo











































































































































































































































Cáceres, capital da província homónima, é uma cidade espanhola situada na zona central da antiga província romana da Lusitânia, na Comunidade Autónoma da Extremadura, com 91.606 habitantes (censo municipal de 1 de Janeiro de 2007).
É a maior e mais povoada cidade da província, contando com 21,58% da população da mesma.
Foi declarada em 1986 Património da Humanidade pela UNESCO, já que possui um dos conjuntos urbanos da Idade Média e do Renascimento mais completos do mundo. Destaca-se por ser a sede de um dos campus com que conta a Universidade da Extremadura e pela sua dinâmica vida cultural no conjunto da Comunidade Autónoma.

O coração da urbe, conhecido como Cidade Monumental, exibe no interior das muralhas tesouros arquitectónicos como a Igreja de Santa Maria (do século XV, em estilo gótico), a bela Casa de los Golfines de Abajo (século XVI), o Museu Provincial, alojado num palacete do século XVI construído sobre uma cisterna árabe do século XII, e a elegante Torre de las Cigüeñas (Torre das Cegonhas), entre muitas outras mansões e igrejas.

A leste de Cáceres e aninhada num vale profundo e arborizado, a vila de Guadalupe cresceu em volta do seu grande mosteiro, fundado em 1340, onde se encontra a famosa imagem da Virgem de Guadalupe.

A província de Cáceres oferece outras vilas e cidades dignas de interesse, como Alcântara (com uma magnífica ponte romana), Coria (de muralhas bem conservadas e uma imponente catedral gótico-renascentista) ou Plasencia (com duas catedrais e uma encantadora parte antiga), mas as belezas naturais da região não lhes ficam atrás.

No vale do rio Tejo, o Parque Natural de Monfragüe gaba-se de possuir as mais espectaculares colónias de aves de rapina de Espanha, enquanto as serras de Las Hurdes, durante muito tempo uma zona remota e de extrema pobreza, são agora procuradas pelas suas aldeias pitorescas, gastronomia tradicional e um cenário de beleza austera.
Igualmente cheias de encanto rural são as aldeolas aninhadas entre olivais e pomares da Sierra de Gata, com as ruínas de várias fortalezas medievais nas vertentes mais elevadas.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

(Carlos Drummond de Andrade) - Ainda Que Mal


Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,

ainda que mal repitas;

ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,

ainda que mal me julgues;

ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;

ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;

ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

(Carlos Drummond de Andrade) - E Agora, José?

 
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?


E agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?


Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?


E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?


Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?


Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!


Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Lugares da Península - Muralha Urbana de Ávila (Espanha - Comunidade de Castilla y León)



Ávila es una ciudad española, en la Comunidad Autónoma de Castilla y León, capital de la provincia homónima.
Ávila de los Caballeros es un título honorífico de la ciudad. Otro, es Ávila del Rey, y aún otro Ávila de los leales.
Todas están presentes en la bandera de la ciudad.
La ciudad se caracteriza especialmente por tener una muralla medieval completa, románica.

También es una de las ciudades con mayor número de iglesias (románicas y góticas) en relación al número de sus habitantes (Wikipédia)



Rodeada de muralhas medievais ainda intactas, Ávila é a capital de província mais alta de Espanha e também a que sofre um Inverno mais cruel.
As muralhas do século XI têm mais de 2000 metros de extensão e são pontuadas por 88 torres cilíndricas; a secção do lado leste forma a ábside da Catedral, com um exterior invulgar de fortaleza e o interior a exibir uma mistura dos estilos românico e gótico.

Outro monumento românico digno de nota é a igreja de San Vicente, de belo campanário ornamentado.
Muitos dos templos religiosos da cidade estão associados a Santa Teresa de Ávila, como é o caso do Convento de Santa Teresa, construído no local da casa em que nasceu, ou do Monasterio de la Encarnación, onde viveu 27 anos.


 

Outro mosteiro que merece uma visita é o Real Monasterio de Santo Tomás, construído por encomenda dos Reis Católicos e concluído em 1492; com três belos claustros interligados, inclui também um museu de arte sacra.

Ávila é um bom ponto de partida para o visitante explorar a Sierra de Gredos, a cordilheira a oeste de Madrid que abriga uma fauna abundante, nomeadamente um grande número de cabritos-monteses e de aves de rapina.

O esqui, a caça, a pesca ou os passeios a pé são as principais atracções desta região montanhosa, mas há também pequenas aldeias típicas e castelos como o de Mombeltrán (século XIV) ou o Castillo de la Triste Condesa (século XV), na localidade de Arenas de San Pedro.

Outros pontos de interesse são as grutas de Cuevas de Águila e as quatro grandes estátuas de pedra, semelhantes a touros, de Toros de Guisando, provavelmente de origem celta.