Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
terça-feira, 4 de setembro de 2007
(Sophia de Mello Breyner Andresen) - Porque...
Porque os outros se mascaram, mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo, mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam, mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis, mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam, mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam, mas tu não.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
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António Gedeão - (Lágrima de Preta)
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
(António Gedeão)
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Recadinhos do Padre António Vieira (1) - Os Impostos
“A costela de que se havia de formar Eva, tirou-a Deus a Adão dormindo e não acordado, para mostrar quão dificultosamente se tira aos homens, e com quanta suavidade se deve tirar, ainda o que é para seu proveito.
Da criação de Eva dependia não menos do que a conservação e propagação do género humano: mas repugna tanto aos homens deixar arrancar de si aquilo que se lhes tem convertido em carne e sangue, ainda que seja para bem da sua casa e de seus filhos, que por isso traçou Deus tirar a costela a Adão, não acordado, senão dormindo; adormeceu-lhe os sentidos, para lhe escusar o sentimento.
Com tanta suavidade como isto se há-de tirar aos homens o que é necessário para sua conservação.
Se é necessário para a conservação da Pátria, tire-se a carne, tire-se o sangue, tirem-se os ossos, que assim é razão que seja; mas tire-se com tal modo, com tal indústria, com tal suavidade, que os homens não o sintam, nem quase o vejam.
Deus tirou a costela a Adão, mas ele não o viu nem o sentiu. E, se o soube, foi por revelação.
Assim aconteceu aos bem governados vassalos do imperador Teodorico, dos quais por grande glória sua dizia ele: Eu sei que há tributos, porque vejo as minhas rendas acrescentadas; vós não sabeis se os há, porque não sentis as vossas diminuídas. Tão ásperos podem ser os remédios, que seja menos feia a morte que a saúde. Que me importa a mim sarar do remédio, se hei-de morrer do tormento? (…)
Assim aconteceu aos bem governados vassalos do imperador Teodorico, dos quais por grande glória sua dizia ele: Eu sei que há tributos, porque vejo as minhas rendas acrescentadas; vós não sabeis se os há, porque não sentis as vossas diminuídas. Tão ásperos podem ser os remédios, que seja menos feia a morte que a saúde. Que me importa a mim sarar do remédio, se hei-de morrer do tormento? (…)
(…) O maior jugo de um reino, a mais pesada carga de uma república são os imoderados tributos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos.
Não há tributo mais pesado do que a morte, e contudo todos o pagam, e ninguém se queixa, porque é tributo de todos.
Se uns homens morressem e outros não, quem levaria em paciência esta rigorosa pensão da imortalidade? Mas a mesma razão que a estende, a facilita; e porque não há privilegiados, não há queixosos."
António Vieira nasceu em Lisboa (1608) e morreu na Baía, Brasil, em 1697
Pertenceu à Companhia de Jesus e tornou-se conhecido e famoso como orador sagrado de extraordinário talento.
Foi missionário no Brasil, onde utilizou o seu génio oratório em defesa dos índios e em apoio aos exércitos portugueses que ali se batiam.
Incomodado pela Inquisição, viu-se admirado e protegido por reis e pelo Papa.
Salientam-se no seu espólio literário os Sermões e as Cartas.
Pertenceu à Companhia de Jesus e tornou-se conhecido e famoso como orador sagrado de extraordinário talento.
Foi missionário no Brasil, onde utilizou o seu génio oratório em defesa dos índios e em apoio aos exércitos portugueses que ali se batiam.
Incomodado pela Inquisição, viu-se admirado e protegido por reis e pelo Papa.
Salientam-se no seu espólio literário os Sermões e as Cartas.
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sábado, 4 de agosto de 2007
(Manuel Alegre) - Ser ou Não Ser
Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marcas
e os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.
Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.
Até quando? Até quando?
Já de esperar se desespera.
E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso.
E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão
ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.
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(Manuel Alegre) - Abaixo el-rei Sebastião
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É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.
Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão a terra da aventura.
Vós que trazeis por dentro de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.
Quem vai tocar a rebate os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.
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sexta-feira, 3 de agosto de 2007
(Sophia de Mello Breyner Andresen) - As Pessoas Sensíveis
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não: "Com o suor dos outros ganharás o pão".
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
(Olegário Mariano) - Foi um dia de kremesse...
Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo?
- Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
- Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
- Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.
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Irene no Céu (Manuel Bandeira - Brasil)
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro, bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
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Carta-Poema a Um Prefeito (Manuel Bandeira)
Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,
Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,
Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.
É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.
Que imundície!
Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo,
papéis...
Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!
Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!
A um distinto amigo europeu
Disse eu: - Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco,
este é o Grande Chaco!
Senão, olhai!
Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois!
Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Manuel Bandeira (Recife, 19 de Abril de 1886 - Rio de Janeiro, 13 de Outubro de 1968) foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.
Juntamente com escritores como João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire, Gilberto Freyre e José Condé, representa o que há de melhor na produção literária do estado de Pernambuco. (Wikipédia).
Juntamente com escritores como João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire, Gilberto Freyre e José Condé, representa o que há de melhor na produção literária do estado de Pernambuco. (Wikipédia).
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quarta-feira, 1 de agosto de 2007
(Imagens do Verão Português) - Pistas Campestres
domingo, 29 de julho de 2007
(Ecos do Século XIX) - Carregue-lhe, Senhor Ministro da Fazenda!

Alberto Pimentel viveu entre 1849 e 1925.
Dedicou-se ao romance, ao teatro, à história, ao ensaio, à poesia, à intervenção política.
Esgrimia com pena afiadíssima e certeira.
O País, claro, era outro, os homens eram outros, as aflições, as injustiças e as desigualdades eram outras.
Eram?
"Mas isto é um país delicioso, que não precisa de governo para coisa nenhuma! Isto é um país que a si mesmo se governa com tanta alegria como juízo! E quando os povos são alegres, são felizes. Viva Deus! Mas que importa o déficit de 6.000 contos! Até lhe podemos dar licença de ser de 7.000 como a expedição dos bravos do Mindelo ou de 10.000 como os soldados de Artaxerxes.
Oh! que delicioso país!, oh! que grande pena que eu teria se, em vez de haver nascido em Portugal, fosse francês, e tivesse agora a entristecer-me o espírito a medonha trapalhada do istmo do Panamá! Mas que vi eu que pudesse justificar este veemente solilóquio?
Ah! sabem o que eu vi? Duzentas, trezentas carruagens, brilhantes de vernizes e de brasões, tiradas por cavalos magníficos, governadas por cocheiros encadernados em boas librés, subir a Avenida, descer a Avenida, tornar a subir, tornar a descer, passar, voltar, a trote moderado, para que a gente pudesse ver à vontade as caras felizes, resplendorosas das pessoas que essas centenas de carruagens conduziam.
Ah! ele é isto!, disse eu com os meus botões. Então não é realmente preciso que todos façam o sacrifício de apertar os cordões à bolsa para salvar o País?! Não há necessidade de que o Estado faça uma emissão de papel-moeda, nem é necessário tributar os filhos varões? Não tem razão o Comércio do Porto para se retrair, nem os Bancos motivo justificado para pedirem mais do que um auxílio moral?! É certo que não temos por cá Panamás, nem outros istmos escandalosos, mas que, pelo contrário, navegamos em mar de rosas, com vento fresco?
Pois bem! Senhor Ministro da Fazenda, carregue-lhe na mola, que isto ainda tem muito que dar; aperte o fiado, que isto ainda pode render muito. E não trate de outra coisa, Senhor Ministro da Fazenda, senão de restaurar a debilidade do Tesouro, porque decretos, portarias e regulamentos não são cá precisos.
Isto é um país que se governa por si mesmo, principalmente ao domingo. Aqui há ainda muita vida, muito miolo, muita matéria colectável.
Carregue-lhe, Senhor Ministro da Fazenda!
O Governo que faça uma experiência. Cerceie mais os juros das inscrições, aumente as décimas, reduza os ordenados dos funcionários a 50 por cento e verá que, logo no domingo seguinte, à mesma hora, à hora aristocrática, quatro da tarde, duzentas carruagens sobem a Avenida, descem a Avenida, passam para cima, passam para baixo, passam e repassam cheias de pessoas ricas, de pessoas felizes, cheias de contribuintes contentes como umas páscoas.
E deixem chegar a Lisboa os deputados sem subsídio. Vê-los-ão de carruagem aos três em cada banco - única economia que tenho visto fazer agora aos que pagam contribuição sumptuária - alegres, bem dispostos, de violetas ao peito, de charuto na boca, passeando na Avenida o seu único diploma ou o seu duplicado de diploma, sem sequer se lembrarem do subsídio que Deus lá tem, vai para dois meses.
Isto é que é!, e o mais são Panamás, misérias da França e dos outros países pobres. As libras não fazem cá falta, as pautas não estragaram nada, as reduções e deduções ainda não fizeram uma vítima.
Aqui há massa, aqui há miolo.
Carregue-lhe, Senhor Ministro da Fazenda, que é o que o país precisa!"
(Alberto Pimentel - Vida de Lisboa - Parceria António Maria Pereira, 1900)
(Alberto Pimentel - Vida de Lisboa - Parceria António Maria Pereira, 1900)
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sábado, 28 de julho de 2007
Hereros de Angola - (Os Cuvales)
"Durante o século XVI, os Hereros, pastores negros que viviam na região dos Grandes Lagos, no Leste de África, voltaram costas aos solos gastos do que havia sido até essa altura a sua pátria. Deram então começo com o seu gado a uma extensa viagem para sudoeste, em busca de pastos e sobrevivência.
Segundo o que se presume ter sido um dos seus itinerários, irromperam pelo que viria a constituir, muitos anos mais tarde, a fronteira oriental de Angola. Rumando a ocidente, atravessaram o coração do Bié, contornaram por norte os domínios das tribos nhanecas-humbes e desceram enfim do planalto em direcção ao mar, um pouco abaixo da actual Benguela.
Achavam-se agora numa faixa de território espartilhada entre as vagas do Atlântico e as cadeias montanhosas da Chela. Era uma imensidão escalvada e pedregosa, crestada de mil sóis, com pouco mais de uma centena de quilómetros de largo nalguns pontos.
A vegetação, definhada e triste, animava-se a espaços com manchas de arbustos e arvoredos ralos. Para os lados do mar desdobrava-se um cordão arenoso de enseadas e baías, divididas por arribas de um dourado vivo, confinantes com o deserto do Namibe. Na parcela mais meridional deste mundo inóspito estendiam-se grandes dunas movediças, a que as ventanias salgadas arrancavam turbilhões espessos que encobriam a luz solar (...)
Secos, altivos e ferozmente independentes, os Cuvales chegaram ao território com as suas mulheres de invulgar beleza - os olhos amendoados e cintilantes, o sorriso enigmático, a cabeça coberta pelo gracioso chapéu de pele de carneiro - e procederam sem delongas à conquista das áreas mais fecundas. (...)
Senhores de uma nova pátria, desembaraçados de qualquer oposição séria, os Cuvales, tal como os restantes hereros, disseminaram pelo território a sua lei (...)." (*)
(*) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa, 1999
(*) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa, 1999
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(Ecos do Império Luso) - Deserto, Fim de Tarde...
repartido por Angola e pela Namíbia.
Parte do mundo onde os Portugueses gastaram séculos, orçamentos, vidas, ilusões...
Parte do mundo onde os Portugueses gastaram séculos, orçamentos, vidas, ilusões...
Galiza e Portugal nos Inícios do Terceiro Milénio (ou As Ironias da História)
Do Jornal de Notícias (4 de Junho de 2007):
Galiza deixa o Norte para trás
Os indicadores económicos mais recentes não deixam margem para dúvidas, a Galiza atravessa o período mais próspero da sua história e promete, até, superar todos os índices de crescimento de Espanha. A produtividade dispara, impulsionada pelos sectores da indústria e serviços.
O contraste com a crise que se vive na Região Norte de Portugal é evidente. Dois exemplos: o salário médio galego já vai nos 1240 euros, o dobro da Região Norte, que se fica pelos 635 euros. A taxa de desemprego da Galiza desceu para o nível mais baixo dos últimos 25 anos, enquanto no Norte continua a subir e a bater recordes pela negativa.
"O Norte de Portugal e a Galiza estão a viver dois ciclos completamente diferentes. Enquanto aqui se viveu um ciclo de recessão e de estagnação económica que perpassou pelo país a partir de 2001, a Galiza viveu o ciclo de crescimento de que a Espanha gozou nos últimos três anos", explica o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), Carlos Lage, evidenciando que a prosperidade galega de hoje resulta de "boas opções em matéria de política macro-económica e de despesa pública", aplicadas ao território espanhol no seu todo.
O mais recente relatório sobre a conjuntura económica divulgado pela Junta da Galiza confere o cenário de franca expansão económica. "Ao longo de 2006, a economia galega evoluiu muito favoravelmente. A taxa de crescimento do PIB atingiu 4,1%, superando a do conjunto da economia espanhola (3,9%)", relata o documento, onde consta, também, que rompendo tendências anteriores, o sector da indústria é o que apresenta maior dinamismo.
"A produção industrial registou uma sensível recuperação, com uma variação média durante 2006 em relação ao ano anterior de 7,7%, o que, além de dobrar a média espanhola (3,7%), constitui o nível mais alto de sempre", lê-se no relatório. (...)
A Galiza está com uma pujança económica, política, cultural e com uma capacidade de afirmação muito grande. Já não é aquela Galiza que a Rosalia de Castro cantava, um território pobre, de emigrantes, subalterno", explica Lage, vincando que os "progressos extraordinários" dos vizinhos galegos não passam despercebidos. Outro sinal da prosperidade galega é o facto de a taxa de desemprego, sempre elevada e que há muito trazia os galegos com o coração nas mãos, ter caído de 9,9% (2005) para, pela primeira vez no último quarto de século, os 8,5%.
Carlos Lage entende que, associada a outros factores, esta reabsorção do desemprego, que "era massivo", indica que a Galiza "passa pelo seu pequeno milagre económico", num evidente desfasamento face ao Norte de Portugal.
Lage acrescenta que, apesar das vincadas desigualdades, Portugal beneficia dos bons ventos que sopram do outro lado da fronteira.
"O galego tem hoje um maior poder de compra e isso também é bom para o Norte. Vê-se muito galego que frequenta as nossas cidades, restaurantes e equipamentos culturais", sustenta, referindo também que "o mercado galego é fundamental para a exportações do Norte de Portugal e até do país".
Uma das grandes surpresas que porventura deixaram boquiabertos analistas e estudiosos que trabalham em Lisboa foi ter percebido que a Galiza é o quinto mercado para as exportações portuguesas", diz Lage, concluindo que a situação galega proporciona "esperança" que o mesmo aconteça no Norte de Portugal. "O pêndulo vai e vem. É possível que entremos num ciclo económico ascendente e possamos recuperar", nomeadamente se a Região Norte adquirir "mais autonomia política e administrativa". Uma das vias para o "progresso e o êxito".
Automóveis na vanguarda
O sector automóvel garante todos os anos à Galiza receitas de milhões de euros, estimula o emprego e o crescimento do PIB. Uma indústria que não pára de crescer e que tem cada vez mais peso na economia local. Segundo dados oficiais do Governo Regional, o "cluster" da indústria automóvel inclui mais de 70 empresas, que representam uma facturação anual superior a 2600 milhões de euros. No que toca a componentes, a fábrica da Citroën (grupo PSA) de Vigo absorve 36% do total da produção das várias empresas da região, 21% destinam-se a outras unidades de Espanha e os restante 43% seguem para exportação.
Os postos de trabalho que a indústria automóvel emprega na Galiza ronda os 20 mil. Destes, metade respeita ao Centro de Vigo do grupo PSA e o restante às fábricas de componentes. O progresso desta indústria na Galiza há muito que tem reflexos na economia portuguesa, com a implantação de um grande número de fábricas de componentes para automóveis, principalmente na Região Norte.
"Vigo é uma cidade de trabalho" (José Pastor, empresário português na Galiza).
O clima de prosperidade que transpira da Galiza captou, há sete anos, a atenção do fotógrafo português José Pastor, 50 anos, que desde essa altura se divide entre Viana do Castelo e Vigo, onde criou, com a desenhadora de moda galega Rita Vidal, uma empresa de fotografia de moda e de publicidade. Admite que a opção pelo mercado do outro lado da fronteira aconteceu "por intuição", mas hoje em dia Pastor apresenta muitas razões racionais para a justificar.
Um livro com imagens suas, intitulado "Vigo, cidade de trabalho", resume-as de uma penada "Os galegos sabem que é pelo trabalho que ficarão grandes", conta o fotógrafo. "Nunca trabalhei tanto na minha vida. Os ritmos de trabalho são totalmente distintos, os tempos, a qualidade que é pedida, tudo é diferente".
José Pastor critica a "falta de alma" do português e não se cansa de elogiar o espírito aberto, o empreendedorismo e a capacidade de trabalho galegos. Confessa que devido à "concorrência feroz" que caracteriza qualquer mercado na Galiza a sua implantação não foi fácil.
"Os galegos falam grosso e buzinam muito e pensamos que é por nós sermos portugueses, mas não. É assim entre eles. Concorrem entre si, porque o galego está habituado a lutar pelas coisas. As empresas trabalham para estar à frente umas das outras em qualidade, embora de forma leal".
Pastor acrescenta que ainda há "duas Galizas": "Uma que é quase uma extensão do nosso país, que pensa que nós, como eles, não temos nada. Outra, que se afasta de Portugal, mais cosmopolita, urbana, inovadora, criativa, empreendedora… E essa é cada vez mais a Galiza de hoje".
"Hoje sou um médico português" (Carlos Salgado, galego)
Carlos Salgado, médico galego em Portugal.Carlos Salgado, 50 anos, clínico de medicina familiar, natural de Ourense, trocou a sua residência na cidade de Santiago de Compostela por Tui, para poder viver - com a mulher, enfermeira, e os seus três filhos - mais próximo de Ponte de Lima, onde exerce a profissão há sete anos.
Salgado integrou a leva de médicos espanhóis que rumou a Portugal na última década à procura de melhores condições de trabalho. "Naquela altura havia muitas dificuldades de trabalho na Galiza e víamos Portugal como uma oportunidade. Era um mercado que nos criava grande expectativa", conta o médico. A tentativa de encontrar "estabilidade" fê-lo arriscar uma mudança que acabou por se revelar positiva.
"Hoje em dia não sou um médico espanhol, sou um médico português", afirma, frisando "Passo mais tempo em Portugal que na Galiza". De resto, as semelhanças entre a terra que o viu nascer e aquela onde actualmente se sente "perfeitamente integrado" não serão assim tantas. "Sou galego de pura cepa. Se tiver de escolher, escolho a Galiza, mas se há algo parecido com a Galiza neste mundo é Portugal. Ali só não temos tanto sarrabulho", brinca.
Carlos Salgado, coordenador da Urgência do Hospital de Ponte de Lima, faz questão de lembrar que a afluência de profissionais de saúde espanhóis ao Norte de Portugal foi vantajosa para os médicos que, como ele, finalmente encontraram condições de trabalho dignas, mas também para a população portuguesa. "Quando cheguei a Ponte de Lima havia 10 mil utentes sem médico de família. Hoje isso já não acontece, também graças aos médicos espanhóis", refere.
(Ana Peixoto Fernandes in Jornal de Notícias de 4 de Junho de 2007)
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