domingo, 15 de julho de 2007

Miguel Torga - Poemas Ibéricos (Bartolomeu Dias)




Bartolomeu Dias

Eu não cheguei ao fim.
Dobrei o Cabo, mas havia em mim
Um herói sem remate.
Quando os loiros da fama me sorriam,
Aceitei o debate
Do meu destino de predestinado
Com singelos destinos que teriam
Um futuro apagado,
Fosse qual fosse a glória prometida.
E sempre que uma nau enfrenta o mar e o teme,
E regressa vencida,
Sou eu que venho ao leme
Com a Índia perdida.

(Miguel Torga - Poesia Completa - Dom Quixote, vol. II)

Espírito da África - Angola Eterna


sábado, 14 de julho de 2007

Oração de um Chefe Africano a Favor do Etnólogo Routlege



"Ó Deus, o homem branco veio a minha casa.
Aceita este sacrifício.
Quando o homem branco adoecer,
faz que nem ele nem a sua mulher
fiquem muito doentes.
O homem branco veio do seu país à nossa terra,
do outro lado da água;
é um homem bom
e trata bem aqueles que trabalham com ele.

Se o homem branco e a sua mulher adoecerem,
faz com que não fiquem muito doentes,
porque eu e o homem branco nos unimos
para te fazermos um sacrifício.
Não os deixes morrer,
pois nós sacrificámos um cordeiro bem gordo.
O homem branco veio de muito longe para nos visitar,
e decidimos fazer-te um sacrifício.
Onde quer que ele for não deixes que ele adoeça,
pois ele é bom e extraordinariamente rico,
e eu também sou bom e rico;
e eu e o homem branco damo-nos tão bem
como se fôssemos filhos da mesma mãe.
Ó Deus, este grande carneiro destinámo-lo a ti;
o homem branco, a sua mulher e eu e o meu povo
vamos sacrificar por ti sobre o tronco de uma árvore
um carneiro,
um precioso carneiro.
Faz com que ele não fique gravemente doente,
porque eu ensinei-o a rezar-te
como se ele fosse um verdadeiro Mikikuyu. "


(Povo Kikouyou - Quénia)

(1) (Extraído de "A Oração dos Homens - Uma Antologia das Tradições Espirituais", pág. 74 - Editora Assírio & Alvim, 2006)
(2) (A foto - africana - deve-se a Okawa Ryuko, uma sul-angolana de extraordinária sensibilidade).

Núpcias na Ibéria: "Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha"







Saiu em Junho e chegou há dias à Torre uma obra de Marsilio Cassotti, Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha (A Esfera dos Livros, € 23,00), que aborda as uniões de "onze das doze mulheres portuguesas que, entre 1165 e 1816, casaram com outros tantos príncipes herdeiros ou reis de outros reinos peninsulares, convertendo-se assim em rainhas de Leão, Castela, Aragão e finalmente Espanha".
São elas Urraca (filha de Afonso Henriques); Teresa (Sancho I); Mafalda (idem); Constança (Dinis); Maria (Afonso IV); Beatriz (Fernando I); Isabel (neta de João I); Joana (filha de Duarte); Isabel (Manuel I); Bárbara (João V); Maria Isabel (João VI).

Já aqui se tinha abordado este tipo de laços ibéricos (em 8 de Julho de 2007), dando-se conta, como Cassotti faz agora na Introdução, de como eles por vezes se articulavam com inequívocos projectos de unidade das Coroas (normalmente as de Portugal e Castela). Cassotti aponta, e aponta bem, outros objectivos, como o da consolidação do poder do Estado, o alargamento das fronteiras ou a simples realização de manobras estratégicas defensivas (em relação a qualquer das outras nações ibéricas).

Extraia-se do texto da contracapa: "Esta obra aborda também a vida privada destas infantas. Os seus casamentos e gravidezes. As rivalidades com a rainha-mãe (ou seja, a sogra) e as amantes do rei (o marido). A educação dos príncipes (os filhos). As lutas pelo poder. O mecenato a pintores, músicos e arquitectos. As vocações religiosas. Trata-se de um fresco original e apaixonante da História de Portugal (e da Península Ibérica) através da felicidade e do sofrimento de onze portuguesas que deram prestígio ao seu país na amada/odiada Espanha".

Apesar do pequeno reparo feito abaixo, a Torre recomenda a leitura. A obra está bem estruturada, o autor trabalhou muito e o estilo é agradável. Marsilio Cassotti (como ele próprio informava há dias numa entrevista) não inventou, quer dizer, não cedeu à tentação de compor mais uma das execráveis (mas muito vendáveis) pasteladas que se alcunham atrevidamente de romances históricos e que, por deficiência insanável de autores com falta de arquivo e de reflexão - e para gáudio de alguns editores de preocupações culturais rudimentares -, nos infestam ultimamente as estantes das livrarias.
É que há romances históricos e "romances históricos". Situar-se em ambiências e enquadramentos históricos para inserir a trama romanceada é caminho legítimo; colocar na boca ou no gesto de uma personagem histórica o que ela documentadamente não disse ou não fez é trapaça cultural, maroteira sinuosa de mero caçador de edições.

(A propósito: devo ao inefável Campos Júnior - que Deus haja - ter palmilhado alguns anos da minha adolescência iludido - e bem iludido - acerca das proezas políticas do nosso terrível Pombal; Campos inventava delirantemente, facto sim, facto não, e o verdadeiro Marquês saiu irreconhecível daquelas páginas amarelecidas; é claro que nem o grande e probo Alexandre Herculano resistiu a meter uns pozinhos de imaginação (culturalmente) ilegítima nos seus devaneios romanceados; mas esse, ao contrário de Campos, tinha do outro lado, na sua obra "séria", o peso de uma genialidade que na Torre se não discute, merecendo por isso absolvição).

Obs. final - O pequeno reparo tem a ver com alguns descuidos de pormenor (descuidos de investigação ou de revisão?), como datas erradas, por exemplo.
Recomendamos à Esfera dos Livros e ao autor, Marsilio Cassotti, um esforço de correcção em próxima edição. Alguns exemplos:
nas págs. 169 e 194 indicam-se, contraditoriamente, as datas de 20 de Julho e de 11 de Julho de 1454 como sendo as da morte de Juan II de Castela (são ambas inexactas);
Enrique IV de Castela não nasceu em 1422, pág. 161 (mas sim em 1425);
a dinastia Trastâmara (originária de Castela) não começou a reinar em Aragão desde 1420, pág. 187 (mas sim desde 1412; relembra-se que, com o Compromisso de Caspe, acontecido neste ano, o regente de Castela - Fernando, irmão do falecido Enrique III - foi escolhido por um grupo de parlamentares como herdeiro da Coroa de Aragão; esta Coroa abrangia Aragão, Valência e a Catalunha, para além de um vastíssimo império mediterrânico que chegou a dominar a Sardenha, a Sicília e grande parte do que é hoje a Itália).

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Miguel Torga, Trasmontano e Ibérico




Miguel Torga nasceu em São Martinho da Anta, proximidades de Vila Real, Trás-os-Montes, em Agosto de 1907, e faleceu em Janeiro de 1995.

Era prosador e poeta à maneira da sua terra nortenha. Esquivo, face angulosa, cheio de esquinas, grandioso e duro, esmagador como as fragas natais.
Um dia pôs-se a mirar em redor com um olhar grande e abrangente, nostálgico da terra antiga e vasta dos antepassados. A terra próxima alargou-se-lhe até à Hispânia velha e total, herdeira de Visigodos, mãe de nações de aventureiros, avó de povos morenos longínquos, para lá do mar. E, porventura sentado numa fraga rasa, criou este espantoso poema:

Ibéria


Terra.
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.


Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...


Terra de pão e vinho
(A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).


Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.

(Miguel Torga - Poesia Completa - Vol. II - pág. 245 - Publicações Dom Quixote)

António Carlos Manso Pinheiro: partiu o Grande Almirante da Estampa


Zarpou aos sessenta e cinco anos, em meados de Março, no dia seguinte ao do seu aniversário, rumo às estrelas em que tanto acreditava...

Conheci-o numa tarde quente do Verão de 1998, na salinha pequena mas hospitaleira da Rua da Escola do Exército onde se acolheu com a Editorial Estampa - magnífica caravela de cultura de que ele foi, desde os primeiros e arrojados dias de bolina literária, o Grande Almirante. Com o desfiar da conversa fui colhendo os indícios fortes de uma personalidade multifacetada e rara, começando a descobrir nele aquilo que pelos anos fora autenticaria vezes sem conta - a generosidade desarmante, o humor culto e subtil, a delicadeza educada, as crenças profundas.
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Homem de afectividades, de convicções e de nobres causas, era muitíssimo capaz de "obrigar" os astros a pressagiarem, através de cartas geometricamente complexas - que ele mesmo se encarregava de confeccionar -, futuros esplendorosos àqueles necessitados e deprimidos que tinham a ventura de lhe passar ao alcance da bondade proverbial e do sentido de inesgotável solidariedade. Singular conduta a deste editor, que parecia por vezes acreditar mais em certos originais do que os seus mesmos autores, e que, a partir de miraculosos lances de gestão em que era pródigo, conseguia a margem financeira bastante para lançar ao grande mundo obras consabidamente pouco vendáveis - mas de que ele tinha gostado e que, portanto, olimpicamente decretava deverem ser dadas a conhecer ao País...
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Na bela homenagem que alguns dos seus muitos amigos e admiradores lhe fizeram a 31 de Maio na última Feira do Livro de Lisboa - Feira de que ele foi defensor esclarecido e firme -, um dos oradores lembrou que este homem possuía o estranho condão de fazer sentir a qualquer mortal, por mais sumidas que fossem as qualidades deste, que ele, Manso Pinheiro, o reputava tão importante como ao Presidente da República... Posso prestar sobre isso testemunho pessoal e reforçado: a mim, a quem não conhecia de lado nenhum, acolheu-me, sorridente, prestável e empenhadíssimo, como se lhe tivesse acabado de entrar portas adentro, na tarde cálida daquele Verão de há nove anos, alguém ainda mais importante do que o Presidente da República.
O próprio Óscar Wilde.
Ou Jorge Luís Borges.
Ou Aquilino Ribeiro.
Ou os três juntos...
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António Carlos Manso Pinheiro, da Editorial Estampa, foi um grande português, um grande homem e um ser humano de eleição.
Adeus, Grande Almirante. A caravela continua, todavia, a vogar triunfalmente de velas pandas - tendo certos os destinos traçados por ti. Como estava, de resto, garantido, a partir da infalível interpretação das estrelas, nas tuas cartas astrais. Naturalmente...

terça-feira, 10 de julho de 2007

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica




Um poema de Ibne Sare, do antigo Al-Andaluz.
Nascido em Santarém, faleceu em 1123, quando Portugal independente ainda não havia surgido.

LARANJEIRA

São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
as suas cores vivas,
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?

São os ramos que se balouçam,
ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?

Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.

Estão congeladas, mas, se fundissem,
seriam vinho.
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.

São como bolas de cornalina em ramos de topázio,
e na mão do zéfiro há martelos para as golpear.

Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor,
e assim são alternadamente
rosto de donzelas ou pomos de perfume.


(António Borges Coelho - "Portugal na Espanha Árabe" - Vol. 1, pág. 242 - Edit. Caminho)

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (I)






Os muçulmanos que ocuparam a Península Ibérica a partir da invasão do ano de 711 (até cair Granada, em 1492) deixaram-nos, para além de outras lembranças de uma civilização requintada, alguns tesouros de poesia extraordinariamente sensitiva e elaborada.
Um exemplo, da autoria do poeta Ibne Arraia:

O Repuxo

Que belo o repuxo!
Apedreja o céu com estrelas cadentes
que saltam como ágeis acrobatas!

Serpentes de água caem em borbotões
que correm até à taça como víboras amedrontadas.

E, habituada a escorrer furtivamente sob a terra,
não corre a água lesta ao ver um espaço aberto?

Ao repousar depois satisfeita com a nova casa
sorri orgulhosa mostrando os dentes de bolhas.

E então, quando o sorriso descobre a deliciosa dentadura,
inclinam-se a beijá-la os enamorados ramos.

domingo, 8 de julho de 2007

História de Portugal? História de Espanha? Ou "História Ibérica"?


Descansem os de sentido patriótico mais apurado, que não venho fazer a apologia de uma qualquer união política apressada - nem lenta -, mas apenas dizer que continua a espantar-me a forma autista como, com raras excepções, se continua a encarar e a escrever a história deste rincão ocidental deitado ao mar.

Como se Espanha - e antes Castela, mais Aragão, mais Navarra, mais a Granada muçulmana... - não existissem, ou existissem apenas como comparsas de segunda, espécie de vilões longínquos e ameaçadores, sobretudo a primeira, sempre predisposta a devassar fronteiras e direitos para se apoderar da nossa independência, tão duramente reclamada e obtida pelo pai Afonso...

A Espanha dos nossos compêndios tem sempre ou quase sempre o mesmíssimo papel que em Walt Disney assume o Lobão, dentuça rebrilhante de cobiças pela carninha rosada dos três porquinhos. E, no entanto, como se oculta - ignorância? premeditação? - que, do lado de cá, através de matrimónios calculistas ou de acções armadas, se procurou várias vezes unir as duas coroas num corpo único (o que daria obviamente lugar, a prazo, à absorção política do anão lusitano pelo gigante da Meseta).

Lembram-se de João II, o maior dos nossos reis? - a casar o filho com a castelhana, na secreta esperança de que a nora se transformasse na herdeira dos Reis Católicos, juntando-se depois tudo em família, mas com comando do lado "de cá"... Não surtiu efeito, o rapaz caiu mal do cavalo, à beira do Tejo, e a coisa ficou por ali. Mas logo veio Manuel I, primo e sucessor de João II, que casou ele próprio com a infanta espanhola para pôr no mundo um menino - Miguel da Paz - que chegou a ser o potencial e único herdeiro dos dois tronos. Morreu, todavia, criança, e lá se foi outra vez a união desejada por quem a tinha engendrado.

E Afonso V, o Africano, pai de João II, que não fez por menos e invadiu em armas o reino vizinho para reclamar pela violência tudo para si - Portugal e Castela - com argumentos quase decalcados dos que, menos de um século antes, invocara Juan I, o segundo dos Trastâmaras castelhanos, para exigir o mesmo até soçobrar em Aljubarrota (1385) diante dos portugueses de João de Avis e de Nuno Álvares Pereira.
O nosso generoso mas estouvado Afonso V sofreu, como se sabe, uma derrota definitiva em Toro (1476) - e, pesem algumas carpideiras descentradas do real entendimento das coisas, foi isso que nos salvou a independência.

Não defendo a união política. O que tão-somente sustento é que não é possível, nem desejável, abordar-se com rigor intelectual o passado comum ibérico sem uma perspectiva da comunidade de interesses que então constituíamos - pelo menos ao nível que contava, que era o das altas esferas em que tudo se planeia e decide.
Uma história que se entenda e divulgue de outra maneira - a maneira antiga - pode ser mais tranquilizadora, mas será decerto uma história amputada e coxa.

Transcrevo uns excertos do que a propósito escreveu o insuspeito António Sardinha:


"Quando eu vim para o exílio trazia contra Espanha todos os preconceitos da minha inteligência e da minha sensibilidade. É certo que já pressentia a importância duma maior aproximação entre os dois povos, sobretudo pelo que tocava à continuidade e ao desenvolvimento da nossa influência na América impropriamente chamada latina. O estudo da história levava-me também à compreensão de muitas figuras espanholas, relacionadas com a vida do nosso país. E assim aprendera lentamente, mas com juízo seguro, a corrigir bastantes das prevenções do meu patriotismo alarmado (...)

(...) Nada mais agradável, para quem tem o amor das ideias e o gosto salutar da verdade, do que reconhecer os seus erros, se os acolheu com espírito livre e sincero. É esse o caso presente, que eu me apresso a confessar num cuidadoso exame de consciência. Evidentemente não é para aqui a análise das mil e uma circunstâncias que afastaram as duas pátrias uma da outra, como se de permeio ficasse o deserto sem fim ou, numa comparação mais incisiva, a muralha infranqueável da China. O que me cabe é acentuar, antes de mais nada, que dum convívio atento com a moderna erudição de Espanha o meu nacionalismo só tirou para si raízes mais fundas e mais documentadas (...)

(...) Claro que nos achamos assim em face de dois etnos diferenciados, em que visivelmente afloram as tendências separatistas das duas pátrias. Separatistas, mas não antagónicas - registe-se. E o erro político de tantos séculos é aí medularmente que reside: - na entranhada e sistemática desconfiança que hoje, tão vizinhos e tão parentes, nos põe uns para os outros de "espaldas vueltas" (...)


(...) Ora, o que não admite dúvidas é que a esse erro político, a essa entranhada e sistemática desconfiança, se deve talvez a decadência das duas nações peninsulares. Se por acaso o esforço absorcionista de Castela colocou em risco a existência autónoma de Portugal, também Portugal colocou mais duma vez em risco a existência autónoma de Castela. Refugiada na dureza da sua meseta, jamais Castela poderia, porém, ser nossa, nem nós, enquadrados na depressão ocidental da Península, vivendo do mar e para o mar, permaneceríamos muito tempo reduzidos pela pressão centrípeta de Castela. As razões da nossa autonomia não são apenas razões dinásticas (...) É conveniente lembrarmos que um autorizado nome espanhol, Torres Campos, ia pedir à própria geologia a explicação da independência de Portugal (...)


(...) Vê-se já por que, exactamente no exílio, cheio de preconceitos sentimentais e intelectuais, o meu nacionalismo se fortificou e esclareceu, ao contacto da mentalidade espanhola - ao mesmo tempo que uma outra noção de "hispanismo" o desdobrava e completava, pela ideia de solidariedade social e espiritual necessária, como pão para a boca, ao prestígio e à vitalidade externa de ambas as pátrias. E eu que envolvera em tantas tiradas de ódio melodramático a Espanha do planalto, a Espanha da conquista, imaginando-a imperialista e agressora, não tardei a sentir, com Almeida Garret e com Oliveira Martins, a fascinação antiga da Grande Madre, aleivosamente difamada.


Foi em pleno coração de Castela que as fontes ocultas do meu ser me testemunharam a presença eterna duma comunhão de origens e de fins que, para desgraça nossa, desde que adormeceu na cinza das coisas mortas, nos levou consigo a única possibilidade de, novamente (...), Portugal desempenhar no mundo a sua alta missão civilizadora. Podemo-nos orgulhar, de que nós, e connosco Castela, nossa irmã mais velha, somos um poder criador de nacionalidades. Do outro lado do mar vinte estados de formação ibérica bendizem com carinho filial o nome de Espanha. Ao coro das suas vozes junta-se a voz do Brasil, apelando debalde para Portugal (...)


(...) Se o lusitano de cabelos corredios difere do celtibero, mais mesclado com cabeleira encrespada, um e outro são "hispânicos" de nascimento e finalidade, lutando ambos em Numância contra o romano, expulsando juntos o muçulmanismo na epopeia da Reconquista; e acabando por abrir à Europa um oceano novo, com a bula solene dum Papa repartindo pelos dois paternalmente as terras que ainda estivessem por ocupar.


Tal foi a "Espanha" que eu vim descobrir a Espanha. É a Espanha-Madre - são as "Espanhas" das inscrições clássicas e dos roteiros primitivos. Tanto é Castela como Aragão, tanto é Portugal como Navarra, senti-a num dia amargo de saudade, à sombra da catedral de Toledo (...)".


(Escrito por António Sardinha em 1919 - Livro: "À Lareira de Castela" - Capítulo "À Descoberta de Espanha" - Editorial Restauração - Excertos recolhidos entre as págs. 5 e 13).