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sexta-feira, 26 de julho de 2019
sábado, 20 de julho de 2019
"Poema do Homem Novo" (na Lua, há precisamente 50 anos...)
![]() |
| Tripulação da Apolo XI, da esq. para a dir.: Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin |
Neil
Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se,
com espesso traço,
e a Humanidade saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se,
com espesso traço,
o memorável feito.
Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto,
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto,
do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão ao vento,
um invólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca,
de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas,
tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.
Numa cama de rede,
pendurada da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão ao vento,
um invólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca,
de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas,
tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.
Numa cama de rede,
pendurada da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.
Cá de longe, na Terra,
num burburinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam,
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Cá de longe, na Terra,
num burburinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam,
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Sobre
a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.
Lá
vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo
como bloco emperrado.
Mais
um passo.
Mais outro.
Num sobre-humano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu,
com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar,
no chão poeirento da Lua,
a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria
o Homem Velho.
Mais outro.
Num sobre-humano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu,
com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar,
no chão poeirento da Lua,
a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria
o Homem Velho.

Poema de António Gedeão, Portugal (1906-1997)
terça-feira, 2 de julho de 2019
Sophia de Mello Breyner e a Grécia, por entre odores de resina e mel...
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Sophia (n. 6 de Novembro de 1919 - f. 2 de Julho de 2004)
|
No dia em que se completam quinze anos sobre a sua partida e cinco sobre a justíssima trasladação para o Panteão Nacional (ver "Sophia no Panteão"), a Torre presta-lhe uma pequena homenagem com a transcrição de parte do texto que ela certo dia compôs sobre a sua amada Grécia.
A sensibilidade e o talento descritivo de Sophia emergem em quase tudo quanto escreveu, em verso ou em prosa, como se comprova na seguinte carta (dirigida a Jorge de Sena):
--------------
"Não tento descrever-lhe a Grécia nem tento dizer-lhe o que foi ali a minha total felicidade. Foi como se eu me despedisse de todos os meus desencontros, todas as minhas feridas, e acordasse no primeiro dia da Criação num lugar desde sempre pressentido.
Sobre a Grécia só o Homero me tinha dito a verdade: mas não toda.
O primeiro prodígio do mundo grego está na Natureza: no ar, na luz, no som, na água. É uma natureza mitológica onde as montanhas e as ilhas têm um halo azul que não é imaginado, mas sim fenómeno físico objectivo, que, segundo me disse o padre Manuel Antunes (…), já era um fenómeno notado e discutido na antiguidade.
Sob o sol a pique, numa claridade azul indescritível, o ar é tão leve que nos torna alados e o menor som se recorta com uma inteira nitidez.
As enormes e constantes montanhas povoam tudo de solenidade. Cheira a resina e a mel e há uma embriaguez austera e lúcida.
Mas tanto como a natureza - e ligada à natureza - espantou-me a incrível religiosidade de tudo (…). Pois o que ali há, além de tudo o mais, é uma intensa felicidade de existir que nos lava de tantas feridas." (*)
(*) - Texto extraído da obra "Sophia de Mello Breyner Andresen - Actas do Colóquio Internacional", publicada pela Porto Editora em Dezembro de 2013 (pág. 71).
sábado, 15 de junho de 2019
CALÇADA DE CARRICHE (António Gedeão)
Luísa
sobe,
sobe
a calçada,
sobe
e não pode
que
vai cansada.
Sobe,
Luísa,
Luísa,
sobe,
sobe
que sobe
sobe
a calçada.
Saiu
de casa
de
madrugada;
regressa
a casa
é
já noite fechada.
Na
mão grosseira,
de
pele queimada,
leva
a lancheira
desengonçada.
Anda,
Luísa,
Luísa,
sobe,
sobe
que sobe,
sobe
a calçada.
Luísa
é nova,
desenxovalhada,
tem
perna gorda,
bem
torneada.
Ferve-lhe
o sangue
de
afogueada;
saltam-lhe
os peitos
na
caminhada.
Anda,
Luísa.
Luísa,
sobe,
sobe
que sobe,
sobe
a calçada.
Passam
magalas,
rapaziada,
palpam-lhe
as coxas,
não
dá por nada.
Anda,
Luísa,
Luísa,
sobe,
sobe
que sobe,
sobe
a calçada.
Chegou
a casa
não
disse nada.
Pegou
na filha,
deu-lhe
a mamada;
bebeu
da sopa
numa
golada;
lavou
a loiça,
varreu
a escada;
deu
jeito à casa
desarranjada;
coseu
a roupa
já
remendada;
despiu-se
à pressa,
desinteressada;
caiu
na cama
de
uma assentada;
chegou
o homem,
viu-a
deitada;
serviu-se
dela,
não
deu por nada.
Anda,
Luísa.
Luísa,
sobe,
sobe
que sobe,
sobe
a calçada.
Na
manhã débil,
sem
alvorada,
salta
da cama,
desembestada;
puxa
da filha,
dá-lhe
a mamada;
veste-se
à pressa,
desengonçada;
anda,
ciranda,
desaustinada;
range
o soalho
a
cada passada;
salta
para a rua,
corre
açodada,
galga
o passeio,
desce
a calçada,
chega
à oficina
à
hora marcada,
puxa
que puxa,
larga
que larga,
puxa
que puxa,
larga
que larga,
puxa
que puxa,
larga
que larga,
puxa
que puxa,
larga
que larga;
toca
a sineta
na
hora aprazada,
corre
à cantina,
volta
à toada,
puxa
que puxa,
larga
que larga,
puxa
que puxa,
larga
que larga,
puxa
que puxa,
larga
que larga.
Regressa
a casa
já noite fechada.
Luísa
arqueja
pela
calçada.
Anda,
Luísa,
Luísa,
sobe,
sobe
que sobe,
sobe
a calçada,
sobe
que sobe,
sobe
a calçada,
sobe
que sobe,
sobe
a calçada.
Anda,
Luísa,
Luísa,
sobe,
sobe
que sobe,
sobe a calçada.
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quarta-feira, 12 de junho de 2019
Cantiga para Não Morrer
Quando você se for embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Autor: Ferreira Gullar (pseudónimo de José Ribamar Ferreira).
Poeta brasileiro.
Poeta brasileiro.
Nasceu em São Luís do Maranhão (1930).
Faleceu no Rio de Janeiro (2016).
Faleceu no Rio de Janeiro (2016).
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sexta-feira, 3 de maio de 2019
Receita de Mulher (2) (Dita por Vinicius de Moraes)
(Vídeo de Ricardo Teixeira)
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quinta-feira, 2 de maio de 2019
Receita de Mulher (1) (Escrita por Vinicius de Moraes)
As muito feias que me
perdoem
mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture em tudo isso
(ou então que a mulher se socialize elegantemente,
em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível.
É preciso que tudo isso seja belo.
É preciso que, súbito,
mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture em tudo isso
(ou então que a mulher se socialize elegantemente,
em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível.
É preciso que tudo isso seja belo.
É preciso que, súbito,
tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada
e que um rosto adquira de vez em quando
essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser,
mas que se reflita e desabroche
no olhar dos homens.
É preciso, é absolutamente preciso
que isso tudo seja belo e inesperado.
e que um rosto adquira de vez em quando
essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser,
mas que se reflita e desabroche
no olhar dos homens.
É preciso, é absolutamente preciso
que isso tudo seja belo e inesperado.
É preciso que umas
pálpebras cerradas
lembrem um verso de Éluard
e que se acaricie nuns braços
alguma coisa além da carne:
que se os toque como ao âmbar de uma tarde.
Ah, deixai-me dizer-vos
que é preciso que a mulher que está ali
como a corola ante o pássaro
seja bela
ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo
e que seja leve como um resto de nuvem:
mas que seja uma nuvem com olhos e nádegas.
Nádegas é importantíssimo.
Olhos, então, nem se fala,
que olhem com uma certa maldade inocente.
Uma boca fresca (nunca húmida!)
móvel, acordada
é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras;
que uns ossos despontem,
sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
no enlaçar de uma cintura semovente.
lembrem um verso de Éluard
e que se acaricie nuns braços
alguma coisa além da carne:
que se os toque como ao âmbar de uma tarde.
Ah, deixai-me dizer-vos
que é preciso que a mulher que está ali
como a corola ante o pássaro
seja bela
ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo
e que seja leve como um resto de nuvem:
mas que seja uma nuvem com olhos e nádegas.
Nádegas é importantíssimo.
Olhos, então, nem se fala,
que olhem com uma certa maldade inocente.
Uma boca fresca (nunca húmida!)
móvel, acordada
é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras;
que uns ossos despontem,
sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
no enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo, porém, é o problema das saboneteiras: (*)
uma mulher sem saboneteiras
é como um rio sem pontes.
Indispensável que haja uma hipótese de barriguinha,
e em seguida a mulher se alteie em cálice,
e que seus seios sejam uma expressão greco-romana,
mais que gótica ou barroca
e possam iluminar o escuro
com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinente
é estarem a caveira e a coluna vertebral
levemente à mostra;
e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que se terminem como hastes,
com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinente
é estarem a caveira e a coluna vertebral
levemente à mostra;
e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que se terminem como hastes,
mas bem haja um certo volume de coxas
e que elas sejam lisas,
e que elas sejam lisas,
lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
no entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva
no entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva
com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
de forma que a cabeça dê por vezes a impressão
de nada ter a ver com o corpo,
e a mulher não lembre flores sem mistério.
Pés e mãos devem conter elementos góticos discretos.
Pés e mãos devem conter elementos góticos discretos.
A pele deve ser fresca
nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias
tenham uma temperatura
nunca inferior a 37º centígrados,
podendo eventualmente
provocar queimaduras do primeiro grau.
Os olhos, que sejam de preferência grandes
e de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra;
e que se coloquem sempre
para lá de um invisível muro de paixão
que é preciso ultrapassar.
Que a mulher seja em princípio alta
ou, caso baixa,
que tenha a altitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão
de que se fechar os olhos
ao abri-los ela não mais estará presente
com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha;
parta, não vá
e que possua uma certa capacidade
de emudecer subitamente
e nos fazer beber o fel da dúvida.
de que se fechar os olhos
ao abri-los ela não mais estará presente
com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha;
parta, não vá
e que possua uma certa capacidade
de emudecer subitamente
e nos fazer beber o fel da dúvida.
Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca,
não importa em que mundo
não importa em que circunstâncias,
a sua infinita volubilidade de pássaro;
E que acariciada no fundo de si mesma
transforme-se em fera sem perder sua graça de ave;
e que exale sempre o impossível perfume;
e destile sempre o embriagante mel;
e cante sempre o inaudível canto da sua combustão;
e não deixe de ser nunca
a eterna dançarina do efêmero;
e em sua incalculável imperfeição
constitua a coisa mais bela e mais perfeita
de toda a criação inumerável.
e que exale sempre o impossível perfume;
e destile sempre o embriagante mel;
e cante sempre o inaudível canto da sua combustão;
e não deixe de ser nunca
a eterna dançarina do efêmero;
e em sua incalculável imperfeição
constitua a coisa mais bela e mais perfeita
de toda a criação inumerável.
(*) Saboneteira: cada uma das duas depressões situadas logo acima da clavícula, mais visíveis em pessoas magras.
Autor: Vinícius de Moraes (Brasil)
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