Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Angola, Angola... ("Meus Olhos Ficaram Mar")

Raul (à esquerda) e Emílio (à direita).
Ao fundo, Luanda, capital de Angola.

Deixei a minha terra
Adeus mãe, adeus meu lar!
Deixei na Praia Morena
O meu amor a chorar...

Deixei a minha terra
Fui para o mundo cantar
No peito uma grande pena
Tinha os olhos a brilhar...

Ai, meus olhos ficaram mar,
meus olhos ficaram mar,
meus olhos ficaram mar...

(Vídeo de Rétros World Music)

Em 1959, os angolanos Raul Aires Peres Cruz (depois conhecido como Raul Indipwo) e Emílio MacMahon de Victoria Pereira formaram o Duo Ouro Negro, cujo reportório se centrava no folclore da sua terra natal.

O grupo fez enorme sucesso nas décadas de 1960 e 1970, quer em Angola quer em Portugal. Nas primeiras gravações contaram com a colaboração do brasileiro Sivuca.
Muxima, Kurikutela e Tala on n'Bundo foram os seus primeiros grandes êxitos.

Emílio, nascido em 1938, faleceu em 1985.
Raul mudou então o seu nome artístico para Raul Ouro Negro e prosseguiu uma carreira a solo. É dele a interpretação da canção acima (Meus Olhos Ficaram Mar).
Nascido em 1933, faleceu no ano de 2006.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Poema da Malta das Naus (António Gedeão)



Lancei ao mar um madeiro
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
 
Dormi  no dorso das vagas
pasmei na orla das praias
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pelo hirsuto
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

 
Com a mão direita benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vilas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

António Gedeão - Portugal (Lisboa, 1906-1997)

terça-feira, 26 de março de 2019

Poema do Coração (António Gedeão)


Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".


Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos
(duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.


Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste,
que endurece a luz nos olhos
em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão - Portugal (Lisboa, 1906-1997)

segunda-feira, 4 de março de 2019

Poema de Helena Lanari (Sophia de Mello Breyner)


Gosto de ouvir
o português do Brasil
Onde as palavras recuperam
sua substância total
Concretas como frutas
nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra
com suas sílabas todas
Sem perder sequer
um quinto de vogal.

Quando Helena Lanari dizia
o "coqueiro"
O coqueiro ficava
muito mais vegetal.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal)
(1919-2004)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A Cachorrinha

 
Mas que amor de cachorrinha!
Mas que amor de cachorrinha!

Pode haver coisa no mundo
Mais branca, mais bonitinha
Do que a tua barriguinha
Crivada de mamiquinha?

Pode haver coisa no mundo
Mais travessa, mais tontinha
Que esse amor de cachorrinha
Quando vem fazer festinha
Remexendo a traseirinha?
 
Vinícius de Moraes - Brasil (Rio de Janeiro, 1913-1980)



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Recordando Uma Velha Amizade...

.


.
Infância Perdida

Nesse tempo, Edelfride,
com quatro macutas
a gente comprava
dois pacotes de ginguba
na loja do Guimarães.


Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.


Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.


Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.


Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta
batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.


Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão.


Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!


Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre
e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias
do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande
e gostava dos meninos.


Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.
Mais tarde
vieram os passeios noturnos
à Massangarala
e ao Bairro Benfica.
E o Bairro Benfica ao luar
O poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze e seu colar de missangas...)


Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos
e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche.
.

.
Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia de chipipa da mafumeira.


Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
(lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita
essa mulata...)


Tu me ensinaste onde havia
a melhor quissângua de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.


Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora
infância perdida
sonhos dos tempos de menino.


Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varrer das cinzas
do velho Camalundo.
Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento.

Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.


Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo e com teus irmãos
e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então
aquele calulu
de dona Ema.
.
Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
branco
bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.


Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.
Diz-lhes. Diz-lhes
grita-lhes aos ouvidos
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da Praia Morena.


Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade
as veias latejando
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela
a Esperança
(como dizia aquele nosso poeta
que anda perdido nos longes da Europa)
está na Esperança, Amigo.


Edelfride, você não chore
saudades do Castimbala
nem lhe escreva cartas como essa
que são de partir
meu pobre coração.


Nesse tempo, Edelfride,
infância perdida
era no tempo dos tamarineiros em flor...
.
.
Ernesto Lara Filho - Angola
(1922 - 1977)
.