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domingo, 15 de janeiro de 2017

O RISO DE MÁRIO SOARES (1924-2017)



 
"Uma vez, era ele Presidente e eu jornalista, encontrámo-nos entre cabinas de um avião, num voo presidencial sobrevoando a Ásia. Como sabia que ele gostava de anedotas, perguntei-lhe se sabia a anedota sobre a sua própria morte.
Respondeu-me que não e eu contei-lha:
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Mário Soares morre e vai ter com São Pedro para pedir para entrar no Paraíso. Depois de consultar o seu computador, São Pedro responde-lhe que nem pensar: "Tu foste um pecador horrível, vais é para o Inferno!"
Mas Soares insiste, justifica os seus pecados, pede clemência. E São Pedro reconsidera: "OK, vou pôr-te à prova: durante dez anos, dia por dia, do acordar ao adormecer, tu vais estar sempre ligado à madre Teresa de Calcutá e sem nenhuma relação com mais quem quer que seja. E, daqui a dez anos, se te portares bem, logo se vê."
Sem nenhuma escapatória, Soares aceita. Mas, assim que arranca, de mão dada com a madre Teresa, vê Cavaco Silva de mão dada com Madonna. E, aí, Soares passa-se, volta atrás e diz a São Pedro: "Está bem que eu fui um grande pecador. Mas o Cavaco foi algum santinho para ter como penitência a Madonna?"
Ao que São Pedro lhe responde: "Calma, Mário, essa é a penitência da Madonna!"
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Nessa noite, nesse avião, algures no céu da Ásia, Mário Soares ia-se engasgando a rir com a anedota que eu lhe contei sobre a sua morte. Estávamos os dois vivos, a Ásia estava lá em baixo e a morte era apenas uma anedota.
Mas não tenho a certeza se agora, voando lá em cima sobre o mundo, ele não estará a desafiar as regras estabelecidas da eternidade."
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Narrado por Miguel Sousa Tavares na "E", Revista do jornal Expresso - Edição 2307, de 14 de Janeiro de 2017, pág. 16 - Número Especial inteiramente dedicado à figura de Mário Soares.
Título do artigo: "O Seu Nome, Liberdade".
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Onde estão os neoliberais? (*)

"Onde estão os neoliberais, que ninguém os ouve?
Há meses reclamavam, sem cessar, "menos Estado", mais privatizações.
Nada de constrangimentos, de regras éticas, nem de serviços públicos.
O importante era "reduzir os impostos", "deixar o mercado funcionar", quanto menos intervenções públicas, melhor.
A "auto-regulação do mercado", dirigida pela "mão invisível", era bastante, o ideal.
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Privatizar os serviços de saúde (uma invenção socialista),
a segurança social,
as águas,
os cemitérios,
os correios,
os transportes;
pôr gestores privados a gerir os parques nacionais,
privatizar as pousadas,
recorrer a "seguranças privados", mesmo em estado de guerra, como no Iraque;
privatizar, privatizar...
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Os políticos - e a política - que não alinhassem passaram a ser uma praga, uma arqueologia, vinda de outros tempos, o bom mesmo eram os negócios, quanto mais melhor, a especulação - os políticos nos negócios e os negócios na política - os paraísos fiscais, ganhar dinheiro, a qualquer custo o dinheiro como o supremo valor das sociedades ditas livres e o mercado, "teologizado", como o Deus ex maquina do progresso.
As regras para o funcionamento do mercado eram velharias obsoletas.
A própria "democracia dita liberal" escorregou, a pouco e pouco, para a plutocracia.
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E a pobreza? Os pobres? Os operários, os camponeses, os empregados, as próprias antigamente chamadas classes médias?
Deixados entregues à sua sorte, sujeitos à regra da selecção natural, a chamada lei da selva, em que os mais fortes (os ricos) devoram naturalmente os mais fracos (os pobres)...
Quando muito, as almas sensíveis, que não compreendiam o "espírito do tempo", tinham a caridade, um recurso que não prejudicava o sistema e fazia bem às almas...
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Assim, o capitalismo americano, na sua fase financeira-especulativa, guiado pela ideologia neoliberal, fortalecida com o colapso do comunismo, influenciou fortemente the way of life americano, a ponto de conduzir a América do Norte às portas do descalabro financeiro e da recessão económica (Bush dixit).
Tendo, ao mesmo tempo, efeitos muito negativos na Europa, inclusivamente na esquerda, chamada "terceira via" de Blair e dos seus adeptos...
E começa a contaminar todo o mundo.
Os maiores bancos e seguradoras - coisa nunca vista, desde 1929 - entraram em falência técnica, devido, em parte, à avidez dos subprime (...), ameaçando engolir no descalabro as economias dos que neles confiaram.
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Resultado: o recurso ao Estado (que heresia para os neoliberais!), como no caso das catástrofes naturais, como o Katrina, por exemplo.
Quem paga?
O Estado, quando os privados fogem e assobiam para o lado...
Assim surgiu o plano Paulson, feito e refeito, sob a égide de Bush - que aceitou tudo - para salvar o sistema.
Mas será que o plano, mobilizando 700 mil milhões de dólares, vai resolver alguma coisa? Ou tenta apenas salvar o sistema, nesta situação única de aperto?
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Ora o que está podre, a agonizar, é justamente o capitalismo, na sua fase financeira e especulativa.
É isso que se impõe mudar,
regularizando a globalização,
acabando com os paraísos fiscais, fonte das maiores especulações,
introduzindo regras éticas estritas,
preocupações sociais e ambientais
e, como disse o "extremista" Sarkozy, no seu discurso de Toulon, "metendo na cadeia os grandes responsáveis das falências fraudulentas".
Haverá coragem para o fazer e modificar profundamente o sistema?
Eis o que não está ainda nada claro, quer na América quer na Europa (...)"
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(*) - (Mário Soares, ex-Presidente da República e ex-Primeiro Ministro de Portugal - Diário de Notícias, Lisboa, 7 de Outubro de 2008).

sábado, 16 de agosto de 2008

Mário Soares - A Monstruosidade Neoliberal


(...) Vale a pena insistir: o neoliberalismo, como ideologia e modelo da chamada "democracia liberal", esgotou-se.
Está a conduzir o Ocidente - e talvez o mundo - a uma crise do capitalismo pior do que a de 1929.

Vale a pena insistir, porque muitos políticos, intelectuais e economistas, embora reconheçam a crise, que aí está a instalar-se, ainda pensam poder resolvê-la sem abandonar o modelo neoliberal, que afirma o primado do mercado sobre tudo o resto.
O que representa uma contradição insanável.

Porque foi este modelo economicista, anti-social e anti-ambiental, que nos conduziu aonde estamos.

O Courrier Internacional, no número que chegou a Lisboa sábado passado, anuncia em grandes letras na primeira página: "O regresso de Marx."
E, em subtítulo, escreve: "Como o século XXI repõe na actualidade o pensador do capitalismo."

Com efeito, 2008 celebra o 190.º aniversário de Karl Marx e os 160 anos da publicação do Manifesto Comunista.
Depois do colapso do comunismo, em 1989-91, parecia que o mercado seria o centro do mundo e a sua bússola.
Chegou a confundir-se mercado e democracia.
Contudo, o capitalismo financeiro, especulativo e dito de casino, do séc. XXI, e o descalabro a que está a conduzir o Ocidente - e as desigualdades e exclusões sociais que provoca - suscitam uma nova reflexão sobre a obra de Marx (...).

Seja, porém, como for - e o futuro próximo o dirá - à "democracia liberal" terá de suceder a democracia social e ambiental, com uma grande preocupação distributiva e socialmente inclusiva.
Se quisermos evitar revoltas graves e violentas, se não revoluções...

É um caminho que passa pelo regresso em força aos valores éticos, ao respeito pelos Direitos Humanos, pela Lei, pelo Direito Internacional, pelo diálogo multicultural e inter-religioso, pelo respeito pelo outro e pelo direito à diferença, pela solidariedade e, sobretudo, pela paz.

Porque não é o mercado - não obstante a sua importância para assegurar a liberdade individual - nem, muito menos, a economia que conduzem o mundo.
São as ideias.
Como há mais de um século escrevia o grande Antero de Quental, fundador do Partido Socialista, em 1875...

(Mário Soares, no Diário de Notícias, de Lisboa, Portugal, em 22 de Julho de 2008).

Mário Alberto Nobre Lopes Soares, 83 anos, foi Primeiro-Ministro e Presidente da República de Portugal.