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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Derramezinhos Cerebrais...




Argélia – "Aconteça o que acontecer, a França não abandonará a Argélia. Isto significa que não devemos permitir que seja posta em causa, seja sob que forma for, nem no interior nem no exterior, o facto de a Argélia ser nossa"(Autor: Charles de Gaulle, 1947).
Maridos – "Os arqueólogos são os maridos ideais. Quanto mais a mulher envelhece, mais eles a apreciam" (Agatha Christie).
Boxe – "Duas mulheres que se beijam fazem-me sempre pensar em dois boxeurs que trocam um aperto de mão" (Sacha Guitry, 1947).
Cantores – "Os cisnes cantam antes de morrer. Certos artistas fariam melhor se morressem antes de cantar" (George Bernard Shaw, 1928).
Fidel Castro – "Dou um ano ao Castro. Nada mais!" (General Fulgêncio Batista, ex-ditador de Cuba, 1959).


Casamento – "Os meus pais tinham vivido quarenta anos juntos, mas por pura animosidade" (Woody Allen, 1981).
Jacques-Yves Cousteau – "Há trinta anos que anda a chatear as pescadas com uma lanterna de bolso, para saber se elas dormem durante a noite" (Patrick Timsit, 1992)
Desporto feminino – "A mulher não precisa de nenhum exercício ou jogo. A sua actividade física normal chega-lhe, seja qual for o seu género de vida. Aliás, qualquer exercício em casa até se pode tornar perigoso, porque o seu corpo (órgãos e esqueleto) não foi feito para produzir um grande esforço muscular ou força, e o exercício provocará infalivelmente o sofrimento dos órgãos" (Dr. A. Narodetzi, 1910).
Diabo – "Não tentes atacar o demónio de frente. Ele ficaria encantado por ver que te ocupas dele. Pelo contrário, trata-o com desprezo, como se fosse um cão maçador de que nos queremos desembaraçar. Canta qualquer coisa, seja o que for: cântico, canção cómica. Faz algumas operações aritméticas. O demónio perceberá que o desprezas e ir-se-á embora" (Jean Pottier, 1922).
Deus – "Mata-se um homem, é-se um assassino. Matam-se milhares de homens, é-se um conquistador. Matam-se todos e é-se um deus"(Jean Rostand, 1967).


Hitler – "Apesar da dureza e do carácter implacável que vi no seu rosto, tive a impressão de que estava perante um homem em que se pode ter confiança a partir do momento em que ele dê a sua palavra" (Neville Chamberlain, Primeiro-Ministro inglês, 1938).
Idade – "Uma mulher tem várias idades: a que parece ter; a que as amigas lhe dão; a que ela confessa; e a que ela cala" (Achille Tournier).
Invasões – "Nada nos impede de pensarmos que, se a Inglaterra não é invadida desde 1066, tem sido porque os estrangeiros receiam ter de lá passar um domingo" (Pierre Daninos, 1960).
Pobres – "É preciso ir buscar o dinheiro onde ele está, isto é, aos pobres. Bem, de acordo, eles não têm muito dinheiro, mas são muitos" (Alphonse Allais, 1901)
Violência doméstica – "O homem é o único macho que bate na sua fêmea. É, por conseguinte, o mais brutal dos machos, a não ser que, de entre todas as fêmeas, a mulher seja a mais insuportável – hipótese muito defensável, em suma" (Georges Courteline, 1927).


Igualdade dos sexos – "A igualdade nos estudos, nas escolas, nas ciências, nos desportos e nos concursos aumenta no coração de muitas mulheres alguns sentimentos de orgulho. Acautelai-vos das palavras da serpente, da tentação, da mentira: não vos torneis também Evas" (Papa Pio XII, 1948).
Jesus Cristo – "Se Jesus Cristo voltasse à Terra, seria branco, americano e orgulhoso de o ser" (Reverendo J. B. Soames, 1923).
Alemanha – "Não existe nem a sombra de um início de prova de que uma câmara de gás tenha alguma vez sido construída com o propósito de exterminar pessoas - pelo menos na Alemanha. É exactamente o género de lenda fabricada pela propaganda de Londres" (Albert Paraz, 1957).
Holocausto – "Coloco-me a mim próprio um certo número de perguntas. Não digo que as câmaras de gás não existiram. Mas não consegui ver nenhuma. Não estudei a questão, mas creio que é um pormenor da história da segunda guerra mundial" (Jean-Marie Le Pen, 1987).
Lua – "Nenhum foguetão atingirá a Lua, a não ser que se dê a maravilhosa descoberta de um explosivo ainda mais poderoso que os que conhecemos. E, mesmo que esse combustível indispensável fosse produzido, ainda seria preciso demonstrar que o foguetão poderia funcionar a 459 graus abaixo de zero: é a temperatura do espaço interplanetário" (Nikola Telsa, 1928).


Fonte: Antologia da Asneira no Século XX - Jérôme Duhamel - Editado por Publicações Europa-América, Mem Martins, Portugal (ano de 1997)

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

domingo, 11 de agosto de 2019

Homenagem a Enid Blyton - Nasceu há 122 anos...

 


Enid Mary Blyton, escritora inglesa de livros de aventuras para crianças e adolescentes, nasceu a 11 de Agosto de 1897 e faleceu em 28 de Novembro de 1968.

Já a tínhamos recordado a propósito da sua mais famosa série de obras, os celebérrimos Cinco (rever aqui: "Os Cinco" - Quem não se lembra?).
Mas teve outras criações notáveis, como Noddy, Os Sete, The Naughtiest Girl e The Twins at St. Clare’s.

Os mais de 800 volumes da sua obra mantêm a popularidade e acham-se entre os mais vendidos do mundo, com cerca de 600 milhões de cópias traduzidas em quase uma centena de línguas.

Os famosos Cinco.
Da esquerda para a direita: o Júlio, o David, a Zé (remando), a Ana e o Tim.

Enid Blyton foi construindo um império literário com a sua escrita espontânea e fácil (chegava a produzir vários livros por ano). Contudo, esse império tornou-se algo controverso e ela ficou sob fogo nalguns meios  da crítica e do professorado.

Acompanhando os tempos, acusavam os livros de Blyton de serem elitistas, sexistas e xenófobos. A BBC, por exemplo, recusou divulgá-la até 1950 por não lhe reconhecer grande mérito literário. Algumas livrarias e escolas baniram os seus livros. Mas nada disso impediu que estes continuassem a ser grandes sucessos de vendas - tanto nessa altura como muitos anos depois do desaparecimento físico da autora.


Os saudosamente lembrados farnéis dos Cinco.

Enid Blyton pretendeu confessadamente passar aos seus leitores uma forte mensagem moral e incutir-lhes a ideia de apoiarem causas que ela considerava nobres. Em particular, incentivou-os - através de associações que criou, ou que apoiava - a juntarem meios financeiros para ajudar crianças e animais.

Acima de tudo, como se comprova pela maioria dos comentários produzidos pelos seus mais antigos (e encanecidos) leitores, Enid enriqueceu de forma inapagável as infâncias de milhões de seres humanos, fazendo-os sonhar e tornando-os mais felizes apesar dos quotidianos cinzentos, e por vezes bastante amargos, que muitos foram forçados a viver.



Enid Blyton e as suas filhas Gillian (esq.) e Imoge numa foto de 1949. A escritora disse ter-se inspirado nas vivências das duas meninas para abordar ambientes colegiais nas suas obras.

domingo, 21 de julho de 2019

"D. Sebastião desapareceu em Alcácer do Sal?"... "O grito do índio Ipiranga?"... etc., etc., etc.




Isabel Carla Moreira de Brito, licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal) e professora daquela disciplina no Ensino Básico e Secundário, teve a virtuosa ideia de editar em 2018, na Manuscrito, o livro cuja capa acima se reproduz.
A obra - cuja leitura vivamente recomendamos - contém mais de uma centena de respostas disparatadas fornecidas por alunos durante as aulas ou em fichas de trabalho, testes de avaliação e exames.

Como Isabel esclarece na Introdução:

os erros nas aulas e testes de História acontecem e, na maior parte das vezes, originam histórias engraçadas impossíveis de esquecer. Em momentos de ansiedade, de pouca inspiração, ou… de pouco estudo, podemos tornar-nos mais criativos! (…)
Sou professora de História há largos anos e fui reunindo as respostas mais divertidas que encontrei. Umas foram dadas em salas de aula, outras em testes escritos, umas aconteceram comigo, outras foram-me contadas por colegas e amigos, também docentes de História. São erros da História de Portugal e da História Universal capazes de proporcionar episódios com bastante humor.

Mas Isabel Moreira de Brito não se limita a reproduzir as originalíssimas e mirabolantes respostas de alguns discentes. Ela apresenta as perguntas que as originaram e o respectivo contexto; depois, relativamente a cada uma delas, expõe em linguagem atractiva, rigorosa e com notável sentido pedagógico a resposta que deveria ter sido dada.
Trata-se, portanto, de uma obra que tanto diverte (frequentemente até às lágrimas…) como ensina.
No final do volume é facultada uma útil e extensa bibliografia.  



Do fantástico e, por vezes, delirante universo contido neste livro, é quase impossível destacar qual o contributo mais inesperado, mais surpreendente ou, até, mais atordoante...
Algumas das respostas, se não chegaram para fugir ao doloroso "chumbo", mereceriam ao menos uma qualquer generosa recompensa pela extraordinária criatividade e pelo insuperável espírito de "desenrascanço" que revelam (atávica característica da lusitana humanidade…).
Sete exemplos, de um conjunto vastíssimo:

- D. Sebastião não morreu, de facto, em Alcácer-Quibir (como se contou aqui); ele terá antes desaparecido quando se encontrava a combater os mouros na cidade marroquina de Alcácer do Sal, ali para os lados de Setúbal...

- o presidente norte-americano Abraham Lincoln foi assassinado quando passava pelas ruas de Dallas num carro descapotável...

- Waterloo não se tornou conhecida por causa da derrota que Napoleão aí sofreu, mas porque foi com esse tema que os inesquecíveis Abba venceram o Festival Eurovisão da Canção...

- o sempre lembrado "Grito do Ipiranga" é assim explicado: os brasileiros não queriam continuar a ser uma colónia e por isso lutaram contra os portugueses; durante uma batalha, o índio Ipiranga, que estava junto de D. Pedro, gritou: "Independência ou Morte!"...

- ainda no Brasil, o padre António Vieira ensinava latim aos índios para que estes pudessem comunicar com os portugueses...

- a rainha D. Maria Pia (esposa do rei português D. Luís e mãe do rei D. Carlos, assassinado em 1908) "ficou para a História por ser uma gastadeira; vestidos, quadros, mobília, ela comprava de tudo com frequência e ainda dava festas grandiosas, gastando todo o dinheiro do marido, que depois tinha de pedir emprestado ao governo. Mais gastadeira do que ela, só mesmo a rainha Maria Antonieta de França"... 

- a Santa Aliança, criada na Europa após a derrota de Napoleão Bonaparte, tinha como responsáveis Deus Pai, Filho e Espírito Santo...

… e mais, muito mais, neste livro delicioso - que não deve perder!



Isabel Moreira de Brito, autora do livro


Isabel é ainda autora de um excelente blogue, Estórias da História, que, decerto com muitíssimo proveito, poderá visitar aqui.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Odette Sansom - A espia mais condecorada da 2.ª Guerra Mundial


Odette Sansom

Odette Sansom, uma dona de casa francesa e mãe de três filhas, resolveu tornar-se espia dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Foi capturada e torturada, mas sobreviveu sem nunca quebrar.
A sua história acaba de ser publicada em Portugal. Nome de código Lise”, editado este mês pela Vogais, é a história verdadeira de uma espia do SOE (Executivo de Operações Especiais), que poderia ser banal, não fosse o caso de esta mulher pouco conhecida ser a mais condecorada de todos os espiões da Segunda Guerra Mundial.

Odette Sansom Hallowes, também conhecida como Odette Churchill, era uma mulher “bastante vulgar, talvez até enfadonha”, que não bebia, não fumava, nem praguejava. Não obstante, era uma "assassina treinada”, uma heroína da resistência francesa, que foi presa, torturada e levada para um campo de concentração, sem nunca ter “quebrado”, conta o autor, Larry Loftis, no prefácio do livro.

Como refere o escritor num artigo publicado pela revista “Time”, “peça-se a um aficionado da Segunda Guerra Mundial que nomeie os espiões mais condecorados da guerra e provavelmente recebe-se uma de três respostas: Dusko Popov (nome de código: Tricycle), o agente duplo que avisou o FBI sobre Pearl Harbor e que inspirou o James Bond de Ian Fleming; Juan Pujol (nome de código: Garbo), o espanhol que enganou os alemães com uma falsa rede de 15 agentes; ou Roman Garby-Czerniawski (nome de código: Brutus), o agente duplo polaco que tinha cem agentes na rede de espionagem que criou, a Interallié.





À esquerda o espião sérvio Dusko Popov (Tricycle). À direita, a ficha consular brasileira do espião espanhol Juan Pujol (Garbo).



Afirma o autor: Todos eles foram grandes espiões e determinantes para enganar os alemães quanto ao dia D, todos eles foram condecorados, mas as suas condecorações empalidecem quando comparadas com as de uma espia chamada Odette Sansom (nome de código: Lise), distinguida com a Ordem do Império Britânico, a Ordem Nacional da Legião de Honra (a maior condecoração francesa), a Cruz de George (a mais alta condecoração civil do Reino Unido), e mais outras cinco medalhas”.

O mesmo se passou com o próprio autor do livro, que, até “descobrir” Lise, estava convencido de que Dusko Popov fora o maior espião da Segunda Guerra Mundial, e talvez o maior espião da história.

Foi ocasionalmente, quando lia “História do Coronel Henri”, as memórias do sargento Hugo Bleicher, agente secreto alemão que trabalhava contra a Resistência Francesa na França ocupada pelos nazis, que esbarrou com Odette Sansom. Hugo Bleicher infiltrara-se numa rede em que estava implicada uma espia dos Aliados chamada ‘Lise’”, descreve o autor no prefácio do livro.

Foi então que ele mergulhou em tudo o que tivesse sido publicado em inglês sobre o assunto, a começar pelas fontes primárias, desde biografias a memórias de várias personalidades que com ela privaram ou se cruzaram. Analisou ainda todos os documentos do SOE que lhe fizessem referência e viu as entrevistas pessoais de Odette em 1986.

Depois de toda a informação que recolheu, questionou-se “como era possível que quase ninguém tivesse conhecimento daquela mulher” e decidiu contar a sua história.

Odette Sansom

Em 1942, não se vislumbrava um fim para a Segunda Guerra Mundial e Odette Sansom, casada com um inglês e mãe de três meninas, decidiu seguir o exemplo do pai na Primeira Guerra Mundial e tornou-se agente do SOE, como mensageira, para ajudar a Grã-Bretanha e a França.
Após cinco tentativas falhadas e um acidente de avião, Odette desembarca por fim na França ocupada para dar início à sua missão e é então que conhece o seu oficial superior, o capitão Peter Churhill, líder do circuito.

À medida que completam com êxito missão atrás de missão, Peter e Odette apaixonam-se, mas cada sucesso aproxima os inimigos da sua localização, até que são traídos por outro agente.

Os dois foram detidos por Hugo Bleicher e enviados para a prisão em Paris, sendo posteriormente interrogados. Mas enquanto Peter Churchill seguiu o protocolo do SOE e se fez de “tonto” - negando tudo, exceto ser um agente britânico -, Odette fez o oposto e disse aos alemães que ela era a líder da rede e que Peter era apenas um peão na operação.

Odette foi então entregue à Gestapo, sendo interrogada 14 vezes. Sujeita à fome e à tortura, “nunca quebrou”, e a sua resposta era sempre a mesma: “Não tenho nada a dizer”.

Prisioneiras no campo alemão de Ravensbrück.

Quando a Gestapo percebeu que ela nunca falaria, condenou-a à morte e enviou-a para o local mais temido por todas as mulheres na Europa, Ravensbrück, um campo de concentração feminino a cerca de 90 quilómetros de Berlim. Ali foi colocada numa prisão subterrânea, conhecida como “o Bunker” (rever aqui e aqui).

Durante três meses e oito dias definhou numa pequena cela, ora demasiado quente, ora gelada, praticamente sem comida e em escuridão total, exceto durante cinco minutos por dia em que se acendia uma luz por cima da sua cabeça.
O corpo não tardou a ficar coberto de chagas, sofreu de disenteria e escorbuto, perdeu o cabelo e dentes, e acabou por sucumbir a um estado de semi-coma, mas o médico da enfermaria reanimou-a com uma injeção e ela voltou para a cela. Aguentou até ao fim sem nunca entregar o nome de nenhum agente.

Odette sobreviveu à guerra quase milagrosamente, ao contrário de muitos dos seus camaradas do SOE. Até ao fim da vida, pediu para que ninguém os esquecesse.

Em algumas entrevistas que deu, admitiu não haver outra razão para ter sobrevivido senão o nome Churchill. Apesar de não haver qualquer parentesco entre Peter Churchill e Winston Churchill (primeiro-ministro do Reino Unido durante a guerra), existia a convicção deste parentesco, que ela nunca desmentiu.

Odette separou-se de Peter ao fim de nove anos de casamento (em 1956) e casou-se com Geoffrey Hallowes. Morreu em 1995, com 82 anos.

Em 1950 foi feito um filme sobre ela, “Odette”, que se estreou na altura com grande aclamação em Inglaterra e nos Estados Unidos (ver cartaz a seguir).



(Fonte do texto: Redacção da TVI24 - Lisboa - Portugal - 27-Junho-2019)

sábado, 6 de julho de 2019

O Homem da "Máscara de Ferro"

O homem da máscara

Paris, França, 18 de Setembro de 1698, em pleno reinado de Luís XIV, o famoso Rei-Sol.
Nesse dia chegou à cidade o novo governador da prisão da Bastilha, Bénigne d'Auvergne de Saint-Mars, acompanhado de um misterioso prisioneiro com o rosto oculto por uma máscara. Segundo se viria a apurar, Saint-Mars era há muito responsável por este homem, mantendo sobre ele, em sucessivos presídios, apertadíssima vigilância. Na opinião de alguns historiadores, a reclusão do homem da máscara duraria há cerca de três décadas quando os portões da prisão parisiense se fecharam sobre ele.
O registo de entradas na Bastilha foi, a seu respeito, de extrema concisão, não fornecendo pistas ou indícios de relevo: deu entrada no cárcere às 3 horas da tarde de 18 de Setembro de 1698 um prisioneiro mascarado trazido de Pignerol.

O regime em que o mantiveram naquela que viria a ser a sua última prisão foi semelhante ao que tivera nos presídios anteriores. Pormenor fundamental: não podia, por ele próprio, retirar a máscara. Esta não lhe fora imposta como tortura ou castigo: visava, apenas, impedir que pudesse ser reconhecido por alguém.
A propósito, a máscara não era "de ferro", como tem sido difundido. Crê-se que fosse de couro ou de um tecido forte a que teria sido acoplado um dispositivo metálico, com cadeado, que impossibilitava a remoção pelo portador. 
O nome do preso nunca era pronunciado por ninguém e era proibido manter com ele, para além do estritamente necessário, quaisquer conversas (talvez com excepção do omnipresente Saint-Mars). Durante o longo período em que penou nas prisões, os seus carcereiros foram obrigados a jurar, sob pena de morte, que guardariam segredo da sua existência. Nenhuma resposta deviam dar às suas eventuais observações. Não se lhe forneceu tinta nem pena, nem nada que lhe pudesse servir para escrever. Ele devia passar os dias segregado do mundo e dos seus semelhantes como se tivesse sido sepultado em vida.

Prisão da Bastilha, em Paris

Apesar do seu cruel confinamento, diz-se que o homem da máscara estava muito longe de ser maltratado. Pelo contrário, usava-se para com ele de excepcionais deferências e procurava-se, tanto quanto possível, satisfazer-lhe os desejos. Podia, por exemplo, assistir à missa. Facultavam-lhe livros, roupas e, ao que parece, pelo menos um instrumento musical. Os guardas acercavam-se dele com uma vénia respeitosa, curvando a cabeça e dobrando o joelho, num tratamento por norma reservado a pessoas de elevada condição.

A permanência do enigmático prisioneiro na Bastilha durou pouco mais de cinco anos. No dia 19 de Novembro de 1703 ele sentiu-se mal depois da missa. O médico da prisão, chamado de urgência, declarou que nada podia fazer para o salvar.
Quando, pelas 10 da noite, faleceu, uma actividade febril tomou conta da Bastilha. O cadáver foi rapidamente levado para o cemitério de Saint-Paul, onde foi enterrado em local desconhecido. Um registo paroquial atribuiu-lhe na ocasião uma identidade, obviamente forjada: M. de Marchiel.
Entretanto, na sinistra Bastilha, tratava-se de apagar todos os vestígios da sua passagem por ali. As roupas, bem como os parcos objectos de uso pessoal, foram lançados ao fogo. O mobiliário da cela sofreu o mesmo destino. Nem as paredes escaparam: foram cuidadosamente raspadas e, logo a seguir, pintadas, pois temia-se que o prisioneiro pudesse ter gravado nelas, por processos secretos, alguma mensagem comprometedora.


Luís XIV, rei da França (n. 1638 - f. 1715)

Pela correspondência que sobrou do caso, sabe-se que Luís XIV, rei absoluto da França, conhecia perfeitamente a identidade do prisioneiro, bem como os motivos do seu encarceramento. Aliás, terá sido o próprio soberano a determinar a condenação e o tratamento a adoptar para com ele. Para além do rei, poucos dos seus homens de confiança estavam a par do assunto. Mas a reserva e os cuidados com que sempre se conduziram fizeram com que todos se fossem despedindo da vida sem que nada transpirasse do segredo.

Este facto originou ao longo do tempo numerosas especulações, calculando-se em cerca de meia centena o número de identidades atribuídas ao preso. Homens intelectualmente respeitáveis como Voltaire ou Alexandre Dumas debruçaram-se sobre o episódio, produzindo conclusões tão imaginativas como indemonstráveis. Muitos anos depois do reinado de Luís XIV, um dos seus distantes sucessores, Luís XVI, ainda procurava - sem êxito - descobrir a verdade. O mesmo terá sucedido a Napoleão, promotor de diversas e infrutíferas investigações.

A febre especulativa levou às hipóteses mais extravagantes, na maioria rapidamente desmontadas. O mascarado foi por exemplo identificado como Molière; ou como Nicolas Fouquet, o venal superintendente das Finanças de Luís XIV (efectivamente preso por ordem deste, mas falecido no cárcere em 1680); ou como um filho ilegítimo de Carlos II de Inglaterra; ou como um amante da rainha Maria Teresa, esposa do rei...


Uma outra hipótese foi a que identificou o preso como Ercole Antonio Mattioli, ministro na corte do duque de Mântua. Mattioli terá ludibriado o monarca francês num negócio que envolvia a compra, pela França, da fortaleza fronteiriça de Casale Monferrato. Zangado, Luís XIV mandou raptar o italiano e fez com que o encerrassem na prisão de Pignerol. Os que não acreditam na hipótese dizem que Saint-Mars jamais fez segredo sobre este caso, aludindo abertamente a Mattioli nas suas cartas (ao contrário do que fazia relativamente à figura misteriosa, sempre mencionada como o "Mascarado" ou o "Prisioneiro").

De qualquer modo, em nenhuma das versões anteriores se vislumbram razões para tamanhas cautelas (rosto sempre tapado, ocultação de identidade) e, em simultâneo, para tantas manifestações de respeito diante do prisioneiro.
Com efeito, se tudo não tivesse passado de um acto de vingança do rei (ou pelo desfalque das suas finanças por um ministro desonesto; ou pela vigarice de um italiano astucioso; ou por ter sido desrespeitado na sua relação conjugal), mal se compreende que Luís XIV, monarca absoluto e poderoso, não tenha decidido tratar do caso de forma mais rápida, simples e radical - por exemplo, mandando eliminar fisicamente o abusador.

Alguma coisa terá levado a que o rei optasse por solução diferente, fazendo com que o mistério se fosse arrastando através das décadas. O caminho que ele escolheu parece indiciar, claramente, três coisas: primeiro, o temor de que o preso pudesse ser reconhecido por alguém; segundo, que a condição do mesmo justificava um tratamento cortês e reverencioso; por último, face à hipótese da execução do preso, uma espécie de má consciência ou, noutra perspectiva, algum escrúpulo.
O escrúpulo que até um monarca tão poderoso como Luís XIV não deixaria certamente de sentir perante um eventual fratricídio. 


Ana de Áustria, esposa de Luís XIII e mãe de Luís XIV (n. 1601 - f. 1666)

Isto conduz-nos, finalmente, à mais fantástica das hipóteses - a de que o prisioneiro mais não seria do que um irmão gémeo de Luís XIV.
O cardeal Richelieu, primeiro-ministro de Luís XIII (pai de Luís XIV), revelou nas suas memórias que Ana de Áustria (mãe do rei) tinha dado à luz dois filhos gémeos no dia 5 de Setembro de 1638. A primeira criança, nascida por volta do meio-dia, foi imediatamente declarada herdeira do trono. Mas, inesperadamente, pelas 8.30 horas da noite, a rainha entrou outra vez em trabalho de parto e uma segunda criança nasceu.
De acordo com o entendimento de então, o gémeo que nascia em segundo lugar era considerado o "mais velho" (porque se acreditava que fora concebido antes do outro). Por consequência, como a primeira criança fora já nomeada herdeira de Luís XIII, e para evitar complicações e disputas futuras, achou-se mais prudente ocultar o segundo nascimento. À rainha disseram que a criança tinha morrido.

O gémeo rejeitado foi confiado aos cuidados de uma parteira que o criou longe da corte - a corte onde Luís XIV, o outro gémeo, ia sendo preparado para suceder ao pai. Com o decurso dos anos, verificou-se que a semelhança física do "proscrito" com o irmão se tornara tão notória, que seriam de prever, em breve, problemas graves. Mandaram-no então para fora do país, mais concretamente para Inglaterra, onde, não se sabe por que meios, terá acabado por conhecer a sua verdadeira identidade.
Diz-se que, nessa altura, o gémeo rejeitado terá pensado em fazer valer os seus direitos - como "mais velho" que era. Mas quando reentrou em França, sob o falso nome de Eustache Dauger, os serviços secretos de Luís XIV deitaram-lhe a mão. Isso terá sucedido em Dunquerque no dia 19 de Julho de 1769.
Nesse mesmo dia, o ministro da Guerra da França, Louvois, escreveu a Saint-Mars informando-o de que iria ser enviado um prisioneiro importante para Pignerol. O preso seria mantido sob vigilância permanente, devendo ser-lhe aplicada uma máscara impeditiva de que alguém o pudesse reconhecer.

Assim terá começado o calvário de 34 anos de reclusão do infeliz Homem da Máscara de Ferro.
No entanto, por mais esforços que historiadores e estudiosos em geral tenham levado a cabo ao longo de mais de três séculos, ninguém pode garantir, de ciência certa, que algum deles tenha resolvido definitivamente o enigma... 

Décadas e décadas de clausura. Qual teria sido o seu crime?

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Um conto exemplar do povo Cuanhama (Sul de Angola)

Angola, com as suas províncias.
O povo Cuanhama, que pertence ao grupo Ambó, vive no sul do país (na província do Cunene, que faz fronteira com a Namíbia).

O conto que abaixo se transcreve pertence a uma recolha efectuada pelo missionário espiritano Carlos Estermann, distinto etnólogo que dedicou a maior parte da sua vida ao estudo dos povos do Sul e, particularmente, do Sudoeste angolano.
Estermann, nascido alemão (na Alsácia, em 1896), chegou a Angola em 1924 e aqui faleceu em 1976.
Deixou uma obra vastíssima, ainda hoje indispensável referencial para qualquer investigador do tema. E ganhou com ela o direito de emparceirar com os mais ilustres espiritanos que o antecederam no Sul de Angola.

Quanto aos contos que apresenta na sua obra, ele faz esta importante prevenção:

O conto popular, tirado do seu ambiente natural (que é o de ser contado e ouvido), perde muito da sua espontaneidade e frescura. Isto é duplamente verdade quando se trata do conto africano. O seu ambiente é a noite, quando, depois do jantar, os habitantes da aldeia se reúnem em conversa amena em volta da fogueira.
Para narrar o conto, destaca-se um indivíduo que, em geral, fala de pé. Pouco a pouco, ele vai-se animando, modula a voz segundo os vários actores que intervêm na história e intercala interjeições - ora lamentosas ora explosivamente admirativas. Gesticula, não só com os braços, mas, conforme as exigências da narrativa, com o corpo todo.
O auditório toma parte activa, ficando às vezes como que electrizado. Manifesta de onde a onde, ruidosamente, a sua aprovação ou desaprovação, sublinha as partes hilariantes com risos estrepitosos e reage entendidamente às frases sarcásticas (…).


Recriado, deste modo, o "ambiente natural" do conto africano, estamos prontos para ouvir a seguinte história cuanhama:

 
O Leão e o Chacal
 
O leão tinha um bode.
O chacal possuía uma cabra.
O chacal foi ao leão e disse:
- Majestade, empresta-me o teu bode para fazer criação com a minha cabra. Quando esta tiver parido, eu virei trazer-te o bode com o respectivo pagamento.
O leão concordou.
Depois de ter ficado coberta, a cabra pariu dois cabritinhos: uma fêmea e um macho. Então, o chacal agarrou o bode e a pequena fêmea e levou-os ao leão, dizendo:
- Cá tens o teu bode e também o pagamento.
O leão perguntou ao chacal: Nasceu só esta cabrita?
- Nasceram dois - respondeu o chacal.
- Então, onde deixaste o outro?
- Um deles, o pequeno macho, ficou para mim, para fazer criação com a mãe.
O rei da floresta, quando ouviu isto, ficou zangado e disse:
- Vai já, já, procurar o outro cabrito, para mo entregares. Tu queres roubar-me? Se o meu bode não tivesse fecundado a tua cabra, teria ela, porventura, tido cabritos? Os dois cabritos são meus, pois o meu bode é que os gerou!
O chacal disse: - Isso não pode ser de maneira nenhuma! Tu queres roubar-me porque és rei! Vamos chamar todos os bichos da floresta para fazer um julgamento e vermos se sou eu que quero roubar-te ou se és tu que me queres roubar a mim.
Disse então o rei da floresta: - O animais da floresta vou mandá-los vir amanhã de manhã cedo. Mas, se eu tiver razão, hei-de acabar com toda a tua raça! 


Quando o chacal se separou do leão, foi à procura do cágado e disse-lhe:
- Amigo cágado, amanhã tenho um julgamento com o senhor da floresta. Vem defender-me. Pedi-lhe emprestado um bode para fecundar a minha cabra. Agora que esta pariu, diz o leão que ambos os cabritos são dele, porque foi o bode que os teve.
- Está bem - respondeu o cágado. - Encontrar-nos-emos amanhã na residência do rei, mas não deixes começar o julgamento sem eu estar presente. 

Na manhã seguinte, todos os animais se dirigiram ao local da reunião. Perguntou então o rei da floresta:
- Estão cá todos?
- Sim, viemos todos.
- Então vamos ao julgamento, para ver se chegamos a uma conclusão - disse o leão.
Disse o chacal: Não, senhor, não pode ser! Ainda falta chegar um.
- Quem é que falta?
- É o cágado.
Ficaram os bichos à espera, até que o sol se ergueu a prumo. O cágado não havia meio de chegar. Alguns impacientaram-se e disseram:
- Façamos o julgamento. Porque ficar à espera de um só? Será ele porventura mais inteligente do que nós?

Ainda não tinham acabado de falar quando o cágado se apresentou. Assim que ele chegou, disse a hiena:
- Ah! Sim! Foi este fedelho que fez de nós seus criados! É este bichinho de casca que pretende ser mais inteligente do que todos nós. Toda a manhã estivemos à tua espera, com o rei da floresta. O que andavas a fazer então? Todos os teus companheiros já vieram muito cedo. Tu és muito malcriado!
- Está calada e não me ralhes - disse o cágado. - Eu tive que fazer em casa porque o meu pai deu à luz!
Os bichos ficaram muito admirados com esta desculpa e perguntaram uns aos outros: - Todos vós que estais aqui presentes: quem é que viu um macho que desse à luz?
Ninguém sabia o que havia de responder ao cágado, ficaram todos embaraçados e disseram: - Nunca vimos um macho que parisse; são só as fêmeas que dão à luz. O teu pai deve ser o único a dar à luz nesta terra!
- Ah, sim? - disse o cágado. - Só o meu pai é que teve filhos? Então a causa do julgamento por que estais reunidos, qual é? Não sois vós que dizeis que o bode teve dois cabritos?
Então os bichos puseram-se de pé, resmungaram e disseram: - Aqui não há uma causa justa!
E assim o leão foi declarado vencido por todos os bichos e o chacal ficou com ambos os cabritos.

………

Nota do padre Carlos Estermann:

O sentido desta fábula é tão claro e a narrativa tão bem encadeada, que dispensa quaisquer comentários. Celebra ela o direito eterno e inviolável dos fracos contra os fortes e, por este lado, apesar da ingenuidade da exposição, emparceira com as obras mais sublimes da literatura mundial. Lembra-nos a "Antígona", de Sófocles, onde se proclamam os direitos não escritos e imutáveis que nenhum tirano poderá impunemente esmagar.


Fonte: Carlos Estermann, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro), Vol. 2, p. 290-291.
Publicado pelo Instituto de Investigação Científica Tropical
Lisboa - 1983