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domingo, 19 de dezembro de 2010

Afonso de Albuquerque - 2.º Governador Português da Índia (1509-1515)

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Afonso de Albuquerque foi filho de Gonçalo de Gomide, senhor de Vila Verde, e de D. Leonor de Albuquerque. Terá nascido entre 1453 e 1462. Faleceu em 1515.

Moço fidalgo do rei D. Afonso V (1432-1481), serviu em Arzila (Norte de África) e na guarda pessoal do rei D. João II (1455-1495), de quem foi estribeiro-mor.

O rei D. Manuel (1469-1521) enviou-o à Índia em 1503, com o primo Francisco de Albuquerque, cada um comandando três naus, e levando ordens de combater Calecut, fazer fortaleza em Cochim e estabelecer relações comerciais com Coulão, incumbência plenamente realizada.

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De regresso a Portugal em 1504, Albuquerque foi bem recebido pelo rei, e terá sido então que expôs ao soberano um vastíssimo plano imperial, visando a conquista de posições estratégicas no Índico, desde as portas de Bab-el-Mandebe até ao estreito de Malaca, vedando à navegação muçulmana a saída das especiarias pelo mar Vermelho.
Isto transformaria o Índico num verdadeiro mar reservado de Portugal.

Concordando com este programa, o rei mandou que Albuquerque regressasse ao Oriente em 1506, na armada de Tristão da Cunha.
Levava com ele um documento secreto que o nomeava governador da Índia em sucessão do vice-rei Francisco de Almeida que então ocupava o cargo (e cujo mandato findaria em 1508).

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Neste intervalo de tempo, Albuquerque ficaria como capitão-mor do mar da Arábia, patrulhando as costas e apoderando-se das posições que julgasse convenientes.
Com forças diminutas, naus mal equipadas e tripulações doentes, Afonso de Albuquerque conseguiu vitórias espantosas, tomando os principais portos do Omão e conquistando a riquíssima cidade de Ormuz, que fez tributária de Portugal.

A desobediência de alguns capitães indisciplinados e a oposição do vice-rei obrigaram Albuquerque a deixar a fortaleza em construção, dirigindo-se à Índia, onde D. Francisco de Almeida não só se recusou a entregar-lhe o governo, como o perseguiu e prendeu.
A chegada do marechal Fernando Coutinho, em 1509, pôs termo à insólita situação. O vice-rei Almeida teve de partir, deixando os poderes a Albuquerque.

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Finalmente com as mãos livres, o novo governador principiou a série de triunfos ininterruptos, apesar da crónica escassez de recursos dos Portugueses na área.
Em 1510, chamado pelos naturais da bela cidade de Goa, oprimidos pelo jugo do turco Idalcão, Albuquerque apoderou-se da praça, que foi temporariamente abandonada devido à esmagadora maioria das forças turcas. Seria recuperada a 25 de Novembro do mesmo ano, após renhidos combates.

Afonso de Albuquerque tratou desde logo de firmar o domínio português sobre bases de justiça e de consideração pelos nativos, ao mesmo tempo que procurava criar uma raça luso-indiana, casando os seus homens com mulheres da terra.

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Restos da porta de Malaca, mandada construir por Afonso de Albuquerque
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Em 1511 Afonso de Albuquerque parte com a armada para Malaca, de onde lhe chegavam apelos de portugueses aprisionados.
Não conseguindo entender-se com o sultão para a libertação dos mesmos, assaltou e conquistou a riquíssima cidade, defendida por 20.000 homens e elefantes de combate. Depois de construir uma fortaleza em Malaca, largou para a Índia transportando um rico despojo, o qual se perdeu no naufrágio da nau capitania.
De regresso em 1512, achou Goa cercada pelos Turcos, mas libertou-a através de uma audaciosa manobra marítima e terrestre, tomando ao inimigo a fortaleza de Benastarim.

Em 1513 levou a armada até ao mar Vermelho, tentando de passagem um assalto aos fortíssimos muros de Ádem, que se malogrou por se terem quebrado as escadas. Prosseguindo a rota, entrou pelas portas de Bab-el-Mandebe, sendo o primeiro comandante europeu a navegar no mar Vermelho, que descreve num interessante relatório.
Passou o ano seguinte na Índia, em trabalhos administrativos e diplomáticos, tendo concluído pazes com Calecute.

Em 1515 dirige-se a Ormuz, a fim de acabar a construção da fortaleza abandonada em 1508. Desta vez não houve quem ousasse resistir ao conquistador, que tomou o reizinho, que vivia amedrontado por ministros ambiciosos, sob a protecção de Portugal.
As chaves do Índico estavam, pois, na posse dos Portugueses.

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Monumento a Afonso de Albuquerque, diante do Palácio da Presidência da República - Lisboa- Portugal
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Entretanto, no remoto Portugal, caluniadores invejosos conseguiram malquistar o rei com o governador que tão bem o servira, persuadindo-o a substituir Afonso de Albuquerque pelo seu inimigo Lopo Soares. Quando, em Novembro de 1515, Afonso de Albuquerque, doente e exausto por nove anos de trabalhos em climas insalubres, partiu de Ormuz para a Índia, soube, por uma nau que passava, da chegada do seu rival, acompanhado dos seus piores inimigos.

Proferiu então a célebre frase: Mal com os homens por amor de el-rei, mal com el-rei por amor dos homens.
À beira da morte, ditou uma carta para o rei D. Manuel, lembrando-lhe os serviços prestados e recomendando-lhe o seu filho natural, Brás. Acabou por morrer à vista da sua Goa bem amada, cujo povo o chorou em altas lamentações.

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Poucas vezes tem aparecido na história génio de maior envergadura do que Afonso de Albuquerque.
Foi ao mesmo tempo marinheiro, soldado, estadista, administrador e diplomata, colocando sempre as suas faculdades ao serviço de um único fim – exaltar o seu rei e a sua pátria.
Acrescente-se a isto um sugestivo poder de expressão nas admiráveis cartas que dirigia ao rei, as quais nos permitem acompanhar quase dia a dia a sua acção.

Trata-se de documentos únicos, escritos sem qualquer preocupação literária, em português simples e saboroso, uma linguagem forte e viva, que prende e impõe, dando-nos a impressão de contacto directo com a sua grande personalidade.
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Adaptado de um artigo de Elaine Sanceau na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura
(Editorial Verbo - Lisboa - Portugal).
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Naquele tempo... (Imagens - muito - antigas de Angola)

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Portugal em Angola: de 1482 a 1975.
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Fonte: IICT - Instituto de Investigação Científica Tropical - Lisboa - Portugal
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Você, Brasil (Jorge Barbosa - Cabo Verde)

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Mindelo - Cabo Verde
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Eu gosto de Você, Brasil,
porque Você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.

Eu já ouvi falar de suas cidades:
a maravilha do Rio de Janeiro,
São Paulo dinâmico,
Pernambuco,
Bahia de Todos-os-Santos.
Ao passo que as daqui
não passam de três pequenas cidades.

Eu sei tudo isso perfeitamente bem,
mas Você é parecido com a minha terra.

É o seu povo que se parece com o meu,
que todos eles vieram de escravos
com cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.
É o seu falar português
que se parece com o nosso falar,
ambos cheios de um sotaque vagaroso,
de sílabas pisadas na ponta da língua,
de alongamentos timbrados nos lábios
e de expressões terníssimas
e desconcertantes.

É a alma da nossa gente humilde que reflecte
a alma da sua gente humilde,
ambas cristãs e supersticiosas,
sentindo ainda saudades antigas
dos sertões africanos,
compreendendo uma poesia natural,
que ninguém lhes disse,
e sabendo uma filosofia sem erudição,
que ninguém lhes ensinou.

O gosto dos seus sambas, Brasil,
das suas batucadas,
dos seus cateretês,
das suas toadas de negros,
caiu também no gosto da gente de cá,
que os canta
e dança
e sente,
com o mesmo entusiasmo
e com o mesmo desalinho também...
As nossas mornas,
as nossas polcas,
os nossos cantares,
fazem lembrar as suas músicas,
com igual simplicidade
e igual emoção.

Você, Brasil,
é parecido com a minha terra,
as secas do Ceará
são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
Mas há uma diferença no entanto:
é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui
nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar...

Nós também temos a nossa cachaça,
o grog de cana
que é bebida rija.
Temos também os nossos tocadores de violão
e sem eles não haveria bailes de jeito.
Conhecem na perfeição todos os tons
e causam sucesso nas serenatas,
feitas de propósito para despertar as moças
que ficam na cama a dormir
nas noites de lua cheia.
Temos também o nosso café da ilha do Fogo
que é pena ser pouco,
mas — Você não fica zangado? —
é melhor do que o seu.

Eu gosto de Você, Brasil.
Você é parecido com a minha terra.

O que é - é que lá tudo é à grande
e tudo aqui é em ponto mais pequeno...
Eu desejava fazer-lhe uma visita
mas isso é coisa impossível.
Queria ver de perto as coisas espantosas
que todos nos contam de Você,
assistir aos sambas nos morros,
estar nessas cidadezinhas do interior
que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,
queria deixar-me arrastar na onda da Praça Onze
na terça-feira de Carnaval.

Eu gostava de ver de perto o luar do sertão,
de apertar a cintura de uma cabocla — Você deixa? —
e rolar com ela um maxixe requebrado.
Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto
e você veria como sou um bom camarada.
Havia então de botar uma fala
ao poeta Manuel Bandeira
de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima
para ver como é que a poesia receitava
este meu fígado tropical bastante cansado.

Havia de falar como Você
Com um i no si
— “si faz favor”—
de trocar sempre os pronomes
para antes dos verbos
— “mi dá um cigarro?”.

Mas tudo isso são coisas impossíveis
— Você sabe? -
impossíveis.


Salvador da Bahia - Brasil

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Jorge Vera-Cruz Barbosa nasceu em 1902 na Ilha de Santiago, Cabo Verde, antiga colónia portuguesa, independente a partir de 1975.
Faleceu na Cova da Piedade, Portugal, em 1971.
Foi funcionário público e um dos membros mais importantes do movimento Claridade.
Publicou:
Arquipélago. São Vicente: Cabo Verde, 1936.
Ambiente. Praia: Cabo Verde, 1941.
Caderno de um Ilhéu. Lisboa: 1956.

sábado, 28 de agosto de 2010

A Fundação de Moçâmedes (Namibe), no Sul de Angola, por uma Colónia Vinda do Brasil (Ano de 1849)

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Mapa de Angola. Moçâmedes corresponde ao actual Namibe (área assinalada)
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Nota Prévia

No longo e difícil processo de consolidação territorial da sua colónia de Angola, os Portugueses enfrentavam, a meio do século XIX, o desafio de cobiçosas potências estrangeiras, desejosas de os substituírem naquelas paragens.


É certo que a presença lusitana em Angola datava de 1482, ano em que os navios de Diogo Cão chegaram à embocadura do rio Zaire e se estabeleceram relações, ao princípio amistosas, com o povo Bacongo.

Contudo, mais de três séculos depois, a ocupação do território, com a respectiva delimitação de fronteiras, estava ainda muito longe daquilo que veio a ser já no século XX (mapa acima).
Os Portugueses tinham nesta altura duas grandes preocupações: a ocupação da costa sul, para baixo de Benguela, e a subsequente penetração para o interior, praticamente dominado pelas tribos africanas (no Sul, e de ocidente para leste, essas tribos pertenciam sobretudo aos grupos Herero, Nhaneca-Humbe e Ambós).
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Baía de Moçâmedes (Namibe)
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A zona de Moçâmedes, posteriormente baptizada de Namibe, era vital para os Portugueses.
Com efeito, não se poderia pensar em progredir para leste, com ideias de ocupação do território, sem possuir à retaguarda, junto ao mar, uma posição solidamente estabelecida.
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A preocupação começara umas décadas antes, com o envio de várias expedições de exploração e reconhecimento às paragens meridionais.
As mais famosas foram as que ordenou o governador de Angola, barão de Moçâmedes, em 1785 (uma por mar e duas por terra).
Mais tarde, em 1839, veio uma corveta comandada pelo capitão-tenente Pedro Alexandrino da Cunha, que estabeleceu contacto com os povos da zona (Cuvales, do grupo Herero).
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Foi decidida a instalação de uma colónia em Moçâmedes, encravada entre as águas da baía e o deserto. Chegaram alguns comerciantes, oriundos sobretudo de Benguela e de Luanda. Nasceram feitorias na praia. E, em 1840, decidiu-se a construção da fortaleza de S. Fernando.
O impulso não tardou contudo a afrouxar, sobretudo devido à escassez de europeus. Parecia fora de dúvida que, sem uma qualquer reviravolta, dificilmente poderiam os Portugueses sonhar com a transformação da baía na estratégica rampa de lançamento para o interior.
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Welwitschia Mirabilis, unicamente existente no deserto do Namibe
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Foi então que, de Pernambuco, no Brasil, chegou uma petição às autoridades lusitanas.
Algumas dezenas de Portugueses, queixando-se de problemas de convívio com grupos de nativistas brasileiros (ocorridos posteriormente à independência daquela antiga colónia portuguesa, datada de 1822), solicitavam que fosse providenciada a sua retirada para qualquer ponto do império português.
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Agarrando-se ao apelo desses candidatos a colonos verdadeiramente tombados dos céus, o Governo ofereceu-lhes o embarque para a longínqua baía angolana, onde, amparados pelas autoridades, deveriam fundar uma colónia agrícola.
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Assim que os peticionários manifestaram o seu assentimento, Lisboa agiu com de­termina­ção e desusada celeridade, despachando para águas brasileiras o brigue de guerra Douro.
No dia 23 de Maio de 1849 o navio saiu do Recife de Pernambuco rumo às costas de África, escoltando a barca Tentativa Feliz.
Seguiam a bordo, nessa primeira leva, cento e setenta e quatro refugiados.
Os Portugueses estavam prestes a apresentar-se em força às portas dos desertos meridionais de Angola.
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Os Colonos Vindos do Brasil

"(...) Em Lisboa, nas sessões do Parlamento de 12 e 14 de Junho de 1849, discute-se finalmente a proposta que autoriza o Governo a fundar uma colónia agrícola em Moçâmedes, no Sudoeste de Angola, e a transferir para lá os refugiados do Brasil.
Quando estes vogam já pelo Atlântico há cerca de três semanas, a Oposição resol­ve bater-se com afinco contra o projecto. Regateia até à exaustão a verba de dezoi­to contos de réis metálicos consagrada ao empreendimen­to. Um deputado salta com o Alentejo para o debate e proclama que todo aquele esforço seria muito mais bem empregado nas planícies agrestes do Sul português, onde, ainda por cima, há ca­rência de braços para o trabalho.

O ministro abespinha-se e replica que a entidade menos própria para influir sobre quaisquer cidadãos para irem para esta ou aquela região é o Governo. Quanto às intenções dos portugueses de Pernambuco, fica de uma vez por todas a saber-se que eles não desejam retornar à Pátria para se meterem a colonizar o Alentejo. Provavelmente não fa­zem finca-pé quanto à ida para Moçâmedes: mas o que sem dúvida pretendem é virar costas ao Brasil e pas­sar-se para África.
A proposta acaba aprovada por maioria de votos.

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A muitas centenas de milhas destas discussões inflamadas, a barca Tentativa Feliz, escoltada pelo brigue de guerra e pejada de gente que mal pode mexer-se no tombadilho atravancado de bagagens, continua a sua carreira para Angola. Empurradas por ventanias contrárias ou tolhidas pela brusca calmaria de verdadei­ros mares de leite, as embarcações começam a atrasar-se.

Para agravar as coisas, declara-se entre os passageiros um surto de varíola. Cinquenta e seis pes­soas são atingidas pela doença e jazem desfiguradas pelas pústulas. O médico do brigue anda numa roda-viva entre os dois barcos. Auxiliam-no o patrão da barca, um bar­beiro e o chefe da colónia de emigrantes. Mas a epidemia cedo ofe­rece à escuridão dos abismos atlânticos os corpos de oito vítimas - três adultos e cinco crianças.

No auge do infortúnio, de olhos perdidos na espuma deslizante das vagas ou em remo­tos horizontes de esperança, os emigrantes entoam os seus vi­bran­tes hinos de fé. Depositam apesar de tudo uma confiança inquebran­tável na sua estrela. E, também, em Bernardino Castro, o chefe carismático que os trouxe até ali.


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Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, um beirão de Nogueira do Cravo, povoação vizinha de Oliveira do Hospital, vai nos quarenta anos à data da viagem.
É um homem moreno e seco, de sulcos vincados no rosto ossudo e grave. Possui cabelos escuros e lisos, que contrastam com a fina barba de colar, precoce­mente embranquecida, que lhe escorre de orelha a orelha por baixo do queixo. A sisudez da fisionomia atenua-se com o fulgor de uns olhos miúdos e insinuantes.

Este emigrante de marcada personalidade tem vivido uma existência rocambo­lesca. Aos vinte anos é aluno de leis em Coimbra, mas passa fugazmente pelos bancos universitários. Seduzido pela causa do rei Miguel, integra como tenente de caçado­res um contingente de voluntários e mergulha a fundo nas lutas em que libe­rais e absolutistas se chacinam mutuamente.
Após a capitulação de Miguel, Bernardino compromete-se num plano que visa devolver o trono ao soberano exi­lado. Descoberta a conspiração, furta-se por uma unha negra à captura e esgueira-se das montanhas da Beira para Lisboa.

Em 1839, desfeitas as ilusões, asila-se no Brasil, em Recife de Pernambuco, onde ganha a vida como professor de um colé­gio. Dado às letras, publica um romance - Nossa Senhora de Guararapes - e uma arrojada História Geral, em seis volumes, que remexe os dias da Humanidade desde as enevoadas narrativas do Antigo Testamento até à história re­cente de Portugal e do Brasil.

É pela sua pena que o Governo português toma co­nhecimento das violências perpetradas no Brasil contra os cidadãos lusos. É ele o autor da pe­tição por essa altura dirigida a Lisboa. É ainda Bernardino quem lança entre os compatriotas de Pernambuco a entusiástica campanha da aventura africana.
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A viagem prolonga-se há mais de dois meses e não se vislumbram indícios do litoral de África.
Os emigrantes suspeitam de que se tenha deixado de contar com eles no porto de destino. Bernardino Castro conferencia com o coman­dante do bri­gue e pede-lhe que siga na dianteira a fim de prevenir o desembarque. O Douro distancia-se da Tentativa Feliz na noite de 26 de Julho.

Os refugiados rompem agora as trevas, silenciosos e cismadores, embalados pelo marulhar das vagas contra o costado da barca. Quando nasce o dia, não há sinais do Douro nem de terra. Tornam então a elevar-se os cânticos religiosos por sobre as reverbera­ções metálicas do oceano.

A 4 de Agosto, mortificados por setenta e quatro dias de na­vegação, os passageiros têm enfim à vista, coados pelo véu pardacento de um dia de cacimbo, os desertos fulvos das costas de Moçâmedes. Quando se internam na baía, onde paira a silhueta familiar do Douro, enxergam, com um re­colhimento an­gustiado, as fugidias pinceladas de vegetação da foz do rio Bero, a mo­notonia dos areais sem fim, o recorte severo da fortaleza de S. Fernando. Sobressaindo na de­solação, erguem-se os seus novos lares - meia dúzia de choupanas de pau-a-pique e alguns barracões de paredes de madeira e coberturas de palha.

O desânimo dos emigrantes face ao despojamento daqueles lugares encontra al­gum consolo no calor da recepção que lhes é dispensada. Com efeito, pressen­tindo na sua chegada o novo alento de que carecem para sobreviver, os pou­cos europeus da baía submergem-nos numa onda de júbilo.

Quando, a 5 de Agosto de 1849, os passageiros da barca tomam lugar nos batéis e iniciam o de­sembarque, o brigue salva alegremente com as suas bocas de fogo, no que é imi­tado pela artilharia da fortaleza logo que eles saltam em terra. Silvam foguetes no espa­ço, trespassando a cortina de cacimbo e estralejando, longínquos e amorteci­dos, por sobre a quietude do deserto. Na praia há abraços, risos e promessas. Soam vi­vas aos recém-chega­dos, às autoridades, à rainha Maria Segunda e a Portugal.
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Alojados nos barracões que constituiriam a sua morada provisória, e mantendo com os cuvales das vizinhanças relações de uma cordialidade distante, os colonos esquadrinharam meticulosamente os subúrbios da povoação. Procuravam os terre­nos mais aptos para as culturas. Informados das inundações periódi­cas do Bero, exteriorizaram algum optimismo sobre as possibilidades da região.

A 16 de Agosto Bernardino Castro viajou por mar até Luanda, onde se avistou com o go­vernador-geral e conheceu Sérgio de Sousa, o primeiro governador nomeado para Moçâmedes. Com este volveu ao Sul em 12 de Outubro. No dia seguinte, Sousa tomou posse do cargo. Durante as comemorações nocturnas, as águas serenas da baía faiscaram sob o clarão dos archotes, que luziam feericamente nos esconsos desalinhados da povoação.

A 14 de Outubro elegeu-se o Conselho Colonial de Moçâmedes, órgão consultivo do Governo, onde Bernardino Castro ganhou, natu­ralmente, assento. Repartiram-se de imediato os campos marginais do rio e tive­ram começo as lides agrícolas.
A pena de Bernardino esboça um cenário de bucólica azáfama nesses primeiros dias de efectiva ocupação do Sul de Angola pelos Portugueses:
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É um bulício, Moçâmedes; uns edificam casas na povoação que escolhe­ram para habitar; outros nas faldas da serra dos Cavaleiros, no sítio chama­do dos Namorados, e que dista uma légua; outros arroteiam terras nas Hortas; outros, no sítio da Olaria, a légua e meia de distância, mas com em­barque próximo, onde se vai fazer tijolo e telha; outros, na várzea da União, duas léguas longe daqui; outros, enfim, no vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos; lá se vê um carro carregado de caibros; há ali pretos conduzindo junco e tábuas; acolá, as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos; noutra parte se quebra pedra, que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente (...) .


Igreja de Santo Adrião, Moçâmedes (Namibe), de construção posterior à época aqui referida
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Católicos devotados, os colonos somente a 1 de Novembro de 1849 viveram o conforto espiritual da sua primeira missa em Moçâmedes.
Como não houvesse ain­da pároco na povoação, recorreu-se aos préstimos do padre Matias Rebelo, de Benguela, que se achava de passagem pela baía a bordo da corveta Oito de Julho.
Instalou-se um altar portátil numa dependência inacabada da fortaleza e a corveta forneceu uma profusão de pavilhões de cores vivas, que alegraram as paredes despidas.

Às dez da manhã, a banda do navio abriu a marcha de um concorrido cortejo que, galgando o morro, se encaminhou com vagar solene para o templo provisório. Incorporavam-se na procissão os marinheiros e a oficia­lidade da Oito de Julho, a guarnição da fortaleza, as autoridades, os colonos e muitos dos escra­vos e libertos trazidos para a baía.

A missa contou com a presença de convidados especiais - alguns cuvales do Giraul que estavam de visita a Moçâmedes.
Nesse dia histórico, associados àquela multidão de brancos possuídos de pia excitação, os Cuvales testemunharam, curiosos e circunspectos, os estranhos ritos litúrgicos dos seus novos vizinhos. Deleitaram-se sobretudo com as melodio­sas intervenções da banda, que sublinhavam a espaços as falas indecifráveis do celebrante.

Terão prova­velmente sofrido um susto na altura da elevação da hóstia, quando, sem aviso, as peças da fortaleza estrondearam numa descarga súbita, en­quanto os foguetes as­so­biavam ruidosamente pelos céus da baía. Mas sentiam-se fascinados. E a impres­são que lhes causaram aqueles cerimoniais permaneceria para sempre guardada nas suas memórias.

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Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino de Abreu e Castro
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Não obstante as grandes esperanças iniciais, foram calamitosos os primeiros anos dos colonos de Moçâmedes. Eles não tardaram a experimentar na carne e no espírito a dolorosa dimensão da terra, plena de sortilégios e oportunidades, mas simultaneamente pródiga em amargas surpresas.

O triénio de 1850 a 1852 foi um período de calores sufocantes e águas escassas. O leito do rio Bero - o Nilo de Moçâmedes, como lhe chamava Bernardino Castro - tornou-se numa língua de arei­as crestadas, as margens revestidas por uma crosta acastanhada de lodo velho e seco.
Os homens vagueavam abatidos por ali acima, até muitas léguas da foz. Dos céus, patrulhados por ruidosas esquadrilhas de corvos, não se despegava um sinal de chuva. Os colonos remediavam-se com as cacimbas escavadas nas proximida­des do rio ou nos quintais das residências.

As primeiras águas, empurradas do pla­nalto, desapareceram com celeridade no chão martirizado. A colónia vacilava. Bernardino não media esforços para revigorar os ânimos, apelando à fé e à resis­tência num estilo de ressonâncias bíblicas: Só será salvo o que perseve­rar até ao fim!

Cobertos de andrajos e com os víveres esgotados, os colonos so­breviviam graças à caridade dos seus compatriotas de Benguela e Luanda. Foi num quadro destes que a povoação viu apesar de tudo ampliada a sua população branca: a 26 de Novembro de 1850 desembarcaram na baía mais cento e sete colonos oriundos de Pernambuco. Outros núcleos, mais reduzidos, se lhes seguiram, pro­venientes do Rio de Janeiro e da Baía. Cerca de três centenas de refugiados procu­ravam agora dar corpo ao projecto português no Sul de Angola.
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Rio Bero
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As águas, abundantes, chegaram de um dia para o outro, escoadas das distantes cadeias montanhosas. Juntamente com o húmus providencial vieram na correnteza algumas exóticas novidades - carcaças de elefantes, búfalos, antílo­pes e outros animais, arrebatados ao sertão pela violência das enxurradas.

Apareceram três ze­bras a rebolar nas águas tumultuosas, recupe­rando-se uma delas, a única que mos­trava sinais de vida.
Uma ser­pente descomunal emergiu bruscamente dos cachões de espuma amarelada como um demónio do rio e infiltrou-se, coleante e agressiva, na várzea dos Cavaleiros, a três léguas da foz, onde Bernardino de­marcara os seus terrenos. Quando o bicho investiu contra os bois espavoridos das manadas, colonos e serviçais viveram ins­tantes de sobressalto e emoção antes que conseguissem pôr cobro à ameaça.
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Das águas brotou igualmente a ressurreição de Moçâmedes.
Isso deveu-se em parte ao sucesso das fazendas ribeirinhas, onde se espraiavam a perder de vista os campos de cana-de-açúcar, algodão, tabaco, vinhas e árvores de fruto.
Progrediu também a indústria do charque, carne salgada e seca pelos sistemas uru­guaio e brasileiro.

Alguns moradores meteram-se esperançosamente aos caminhos do mar e retornaram com os barcos a transbordar. Os quintais cobriram‑se de estrados de caniço, onde o peixe secava exalando um cheiro acre.
A baía passou a ser procu­rada por embarcações ávidas de géneros frescos, predominando os baleeiros norte-americanos que devassavam os refúgios dos cetáceos entre a costa angolana e a ilha de Santa Helena. Moçâmedes prospe­rava e, em 1855, seria elevada à catego­ria de vila (...)" (*)
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(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal (1999)

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