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sábado, 17 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A Conquista do México pelos Espanhóis - 4.ª Parte

Cortés conferenciando com os habitantes do território.
A seu lado, trabalhando como intérprete, a famosa Dona Marina (Malinche para os índios).
Continuação de:
27-Julho-2019 - 1.ª parte (ver aqui)
03-Agosto-2019 - 2.ª parte (ver aqui)
10-Agosto-2019 - 3.ª parte (ver aqui)

Uma das vinte escravas oferecidas pelos chefes de Tabasco a Cortés ficaria para sempre na história da conquista espanhola do México. De rara formosura, expressiva, afável e muito inteligente, logo encantou os expedicionários. Nascida em território asteca, ficara órfã de pai em criança e acabara por andar de mão em mão até ser vendida aos Tabasquenhos. Os Espanhóis baptizaram-na com o nome de Marina, ficando conhecida nas suas crónicas como "Dona Marina". Os índios chamavam-lhe Malinche.

Depois do resgate de Gerónimo de Aguilar em Cozumel, o aparecimento de Dona Marina, ou Malinche, foi a ocorrência mais relevante da primeira fase da conquista, tanto mais que o tradutor índio Melchorejo se havia posto em fuga durante os recentes combates em Tabasco.
Com efeito, a jovem escrava tanto dominava a língua dos Astecas (o "náuatle") como o idioma "maia", que imperava entre os Tabasquenhos e seus vizinhos. Como Aguilar falava "maia", Dona Marina tornou-se imprescindível para a comunicação de Cortés com os povos que foi encontrando. Ela traduzia de náuatle para maia e Aguilar passava de maia para castelhano, assim se evitando os equívocos e conflitos suscitados por interpretações erróneas.

Com o tempo, e dada a sua capacidade aprendizagem, Malinche começou a falar com fluência a língua castelhana, pelo que Cortés pôde entender-se quase directamente com os naturais do território. Isso constituiu um factor fundamental para o desenvolvimento da sua política de alianças (e de confrontos) com os diferentes interlocutores.
Também com o tempo, Dona Marina tornou-se confidente, conselheira e amante do comandante espanhol e com ele teve um filho - Martín Cortés.

Nota: O papel de Dona Marina (Malinche) é ainda hoje objecto de discussão e controvérsia. Para alguns ela deve ser considerada "traidora", por se ter posto do lado dos conquistadores e ajudando-os a comunicar com os nativos (parecendo haver aqui alguma confusão entre mensagem e mensageira).
Para outros, ela foi sobretudo a hábil sobrevivente de um choque brutal. E, como progenitora de mestiços, acabou por transformar-se na "mãe da nação mexicana" (ou na "Eva mexicana"), constituindo-se como verdadeiro símbolo da mescla de culturas que caracteriza o México.
Tzvetan Todorov, numa síntese feliz, escreveu que Malinche, no desempenho do seu papel de intermediária, glorifica a mistura em detrimento da pureza (espanhola ou asteca).
Cortés com os emissários de Moctezuma. Aguilar e Dona Marina (Malinche) servem de intérpretes.

Embora estivesse já com o sentido no ouro, Cortés resolveu prosseguir durante mais algum tempo o reconhecimento da costa antes de se lançar à exploração do interior. No dia 21 de Abril de 1519 fundeou próximo do local onde actualmente se ergue a cidade de Veracruz e recebeu a bordo uma delegação de índios. Ainda que parecessem bem-intencionados, ninguém conseguia entender o que diziam, pois falavam "náuatle". Foi então que se lembraram de Dona Marina. Coadjuvada por Gerónimo de Aguilar, ela fez com que Cortés tivesse enfim acesso às informações por que ansiava.

Os índios - que não eram, ainda, os emissários de Moctezuma - falaram de uma magnífica cidade do interior, erigida na ilha de um enorme lago, que distaria dali cerca de três centenas de quilómetros. A cidade chamava-se Tenochtitlán e era a capital de um povo próspero e poderoso, os Astecas, aos quais quase todas as tribos tinham que pagar tributos. O chefe era uma espécie de rei-deus e tinha por nome Moctezuma.
Cortés ficou entusiasmado com as notícias. E compreendeu que os Astecas possuíam uma civilização mais rica e mais avançada do que qualquer outra achada pelos Espanhóis no Novo Mundo. Trocou presentes com os visitantes. No dia seguinte chegaram mais ofertas e o comandante confidenciou aos portadores que ele e os seus homens sofriam de uma doença no coração que só se curava com ouro.

A estranha e despudorada queixa de Cortés não caiu em saco-roto. Uma semana depois chegaram emissários do próprio imperador asteca, trazendo consigo presentes esplêndidos: dois discos de ouro e de prata do tamanho de rodas de carruagem, ornamentos cobertos de pérolas e turquesas, vestes enfeitadas com jóias e vistosos leques e penachos confeccionados com plumas. No entanto, ainda que indirectamente, os recém-chegados procuravam dissuadir os expedicionários de irem mais longe. Segundo eles, o imperador Moctezuma não poderia vir até ali porque se sentia doente e estava impossibilitado de viajar. Mas também não valia a pena que o comandante se deslocasse até Tenochtitlán: os caminhos atravessavam montanhas íngremes e vales desérticos, que se podiam tornar muito perigosos para estrangeiros. Cortés, fazendo-se desentendido, afirmou que aquelas dificuldades só lhe aumentavam o desejo de conhecer o grande imperador. E com isto se fechou a conferência e se despediram os emissários.

Aquele encontro só contribuiu para fazer germinar no comandante, e nos que o acompanhavam, as sementes da cobiça. Cortés tinha já elementos suficientes para farejar a imensa fortuna que se escondia no interior e, nessa conformidade, congeminou um plano para se apoderar dela.

Inutilização dos navios da expedição.

Nessa altura, ele já não estava interessado numa simples expedição comercial: passara a acreditar que, com o auxílio dos nativos que conseguisse pôr do seu lado, seria possível conquistar todo o reino de Moctezuma. O comandante percebera que alguns povos não aceitavam de bom grado o domínio dos Astecas e o consequente pagamento de tributos. Pensou então que seria vantajoso incentivá-los a recusar esse encargo, oferecendo-lhes ao mesmo tempo a protecção espanhola contra eventuais retaliações. Isso sucedeu, por exemplo, com o povo de Cempoala, de raça Totonaca, que se transformou subitamente em aliado dos invasores.

Antes do avanço final, Cortés tratou de consolidar jurídica e militarmente a sua posição. Assim, navegando um pouco mais para norte, fundou na costa uma colónia permanente, que recebeu o nome de Vila Rica de Vera Cruz e que se tornaria daí em diante uma testa-de-ponte para a conquista do território. Foram imediatamente designadas as autoridades da nova colónia - o Ayuntamiento.
Querendo ficar com as mãos livres para executar o seu plano, Cortés precisava de se furtar à autoridade que Diego Velásquez, o governador de Cuba, ainda tinha sobre ele. Tratou então de renunciar formalmente ao comando da expedição que este lhe atribuíra, e, em contrapartida, o Ayuntamiento de Vera Cruz nomeou-o capitão-general e primeiro magistrado da colónia. Com isto, passaria a agir doravante com autonomia.

O passo seguinte de Cortés foi o de enviar um navio para Espanha, com os tesouros recebidos de Moctezuma e um pedido ao rei (Carlos V) para que o reconhecesse como governador da colónia recém-fundada. O que fez depois demonstra o quão decidido estava em cumprir o objectivo. Quando alguns dos seus subordinados o acusaram de usurpar os poderes do governador Velásquez e expressaram o desejo de regressar imediatamente a Cuba, ele não esteve com meias medidas: fez enforcar dois deles, mandou açoitar os restantes e, não satisfeito com isso, ordenou que os navios da frota fossem afundados ou inutilizados para impedir quaisquer veleidades de fuga.
Com a sua posição de líder consolidada, Hernán Cortés deixou em Vila Rica de Vera Cruz uma guarnição de 100 homens comandada por Juan Escalante e partiu com os restantes na direcção das mesetas interiores onde se situava Tenochtitlán, a capital asteca (a mais de 2000 metros de altitude). Levava com ele o importante reforço de mil cempoaltecas.


Para prosseguir o avanço, Cortés teria que atravessar a região de Tlaxcala, que ele sabia independente do império asteca. Para sua surpresa, os Tlaxcaltecas receberam-no com uma saraivada de setas e ele teve que combatê-los durante várias semanas até conseguir dominar a inesperada resistência. No dia 23 de Setembro de 1519, os Espanhóis entravam na capital inimiga e conseguiram o que mais ambicionavam no momento: a celebração de um tratado que fazia dos Tlaxcaltecas aliados poderosos na conquista do México. Nos dias seguintes, os vencidos deram guarida aos expedicionários e cumularam-nos de amabilidades, oferecendo-lhes, para seu sustento, presentes de galinhas, tortilhas e figos-da-índia. Cortés tentou convencê-los a renunciarem aos seus ídolos e a tornarem-se cristãos, mas, quando eles recusaram - e porque precisava deles -, achou mais prudente não insistir.

Em meados de Outubro os Espanhóis retomaram a marcha, agora acompanhados por cerca de seis mil guerreiros tlaxcaltecas. Em breve chegavam a Cholula, cidade sagrada dos Astecas e importante centro religioso, que atraía peregrinos de todo o império. Nessa altura, estavam a pouco mais de uma centena de quilómetros do objectivo final, Tenochtitlán. A princípio os Cholultecas receberam bem os estrangeiros, aos quais forneceram alimentos. Mas três dias depois suspenderam os fornecimentos e informaram Cortés que Moctezuma o proibia de ir mais longe. O comandante, desafiador, ordenou às tropas que se preparassem para retomar a marcha no dia seguinte.

Nessa mesma noite, Cortés recebeu informações de que os Cholultecas planeavam armar-lhe uma emboscada quando as tropas saíssem da cidade. Resolveu, então, reagir com extrema violência. Os canhões entraram em acção e espalharam o terror pelas ruas da cidade, no que constituiu o prelúdio de uma luta encarniçada. Mas não havia hipóteses de  resistência séria aos invasores e aos seus recentes aliados. Ao cair da noite, milhares de cadáveres de cholultecas juncavam as ruas e os edifícios foram saqueados e incendiados.
A 1 de Novembro de 1519, depois de ter deixado um cacique de confiança a governar Cholula, Cortés colocou-se na dianteira das tropas e empreendeu a etapa final do seu avanço. Uma semana depois, os Espanhóis tinham Tenochtitlán à vista.

Rota de Hernán Cortés, desde o litoral, no Golfo do México, até à capital asteca, Tenochtitlán.
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(Continua em 24-Agosto-2019 - 5.ª Parte - ver aqui)

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

sábado, 10 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 3.ª Parte


Continuação de:
27-Julho-2019 - 1.ª parte (ver aqui)
03-Agosto-2019 - 2.ª parte (ver aqui)

Rumando ao Yucatán a partir de 18 de Fevereiro de 1519,  a frota de Cortés foi favorecida por um tempo bonançoso nos primeiros dias de viagem. O comandante tinha ordenado que os navios seguissem atrás dele e próximos uns dos outros. Durante a noite, uma luz colocada à popa da sua embarcação garantia que os navios não perdessem o rumo e que pudessem vogar na ondulação escura como uma matilha disciplinada.
O tempo mudou, todavia, subitamente, e os Espanhóis viram-se no meio de uma das tempestades tão frequentes na zona durante aquela altura do ano. Sacudidos por vagas alterosas, os navios progrediam semi-desgovernados e, perdendo de vista a luz do comando, em breve se dispersaram. Vários sofreram estragos consideráveis e quase todos se afastaram da rota que deviam seguir. Um após outro, contudo, conseguiram chegar a uma ilha habitada, Cozumel, que fica diante - e muito próxima - da costa oriental da península de Yucatán.

O navio de Cortés, que se atrasara para auxiliar uma das naves em pior estado, foi o último a chegar a Cozumel. E o comandante foi logo surpreendido por más notícias: um dos seus capitães, Pedro de Alvarado, aproveitara o avanço para invadir os templos da ilha e saquear os ornamentos que aí achou. O seu procedimento fora de tal ordem que a população, constituída por índios maias, se tinha refugiado em massa no interior da ilha, mantendo prudente distância em relação aos recém-chegados.

Cortés ficou furioso, pois aquela conduta contrariava a política de diplomacia que tencionava adoptar enquanto pudesse. Censurou asperamente o oficial prevaricador diante de todo o exército, após o que fez vir à sua presença dois homens aprisionados por Alvarado. Recorrendo a um tradutor índio - Melchorejo, que já acompanhara a expedição de Grijalva -, explicou-lhes que o objectivo da expedição era pacífico e que não queria fazer mal ao povo. Enchendo-os de presentes, pediu-lhes que informassem os fugitivos de que poderiam regressar sem receio de serem molestados.
A iniciativa do comandante surtiu efeito. Tranquilizados, os índios logo volveram aos seus lares e iniciaram relações amistosas com os europeus. Estes presentearam-nos com facas e quinquilharias variadas, ao que eles corresponderam com a oferta de vistosos adornos de ouro.


Apesar da atitude conciliadora com que ultrapassou o incidente provocado por Alvarado, Cortés não esquecera que um dos primeiros objectivos da Coroa espanhola naquelas terras era a conversão dos habitantes à fé cristã. Era por isso que expedições como aquela podiam ser encaradas como autênticas cruzadas. Os Espanhóis estavam convencidos de que a sua religião era a única verdadeira e de que os índios "pagãos" só teriam a ganhar se abandonassem para sempre os seus hábitos de idolatria. A recompensa deles, segundo os invasores, seria a salvação das suas almas, que de outro modo ficariam condenadas às penas eternas. Para alcançarem a conversão dos índios, todos os meios se consideravam legítimos: tanto valia a persuasão como o emprego da força. Ou seja: o que as palavras não conseguissem catequizar seria catequizado pela espada. 

Era assim que se pensava na época, e Cortés não constituía excepção. Tal como os seus subordinados, ele escandalizava-se com os hábitos religiosos do povo de Cozumel, ainda que não fossem ali muito frequentes os sacrifícios humanos. Por isso, começou por recorrer aos bons ofícios de dois clérigos que trouxera consigo, Juan Diáz e Bartolomé de Olmedo. Os homens da igreja procuraram convencer os índios de quão abomináveis eram as suas crenças e de como era pura e salvífica a religião que lhes queriam dar em troca. Depois pediram-lhes que os deixassem destruir os ídolos que guardavam nos templos: para os padres, como para os restantes expedicionários, aquelas imagens não passavam de genuínos retratos de Satanás.

É duvidoso que o intérprete Melchorejo tenha logrado transmitir, com um mínimo de fidelidade, ideias tão complexas e abstractas como as que Olmedo e Diáz queriam fazer chegar às gentes de Cozumel. Mas houve uma coisa que estas perceberam perfeitamente: os estrangeiros tencionavam privá-los dos seus deuses. Reagindo com horror ao que consideravam uma intolerável profanação, explicaram que aqueles eram os poderosos deuses que lhes enviavam a luz, a bonança, as tempestades, o sustento - tudo o que lhes permitia viver. E preveniram que, se lhes fosse infligido qualquer ultraje, eles, os deuses, fariam tombar raios fulminantes sobre os responsáveis.

Cortés, que se tinha abstido de intervir até então, concluiu que as palavras, por mais piedosas que fossem, não bastariam. E, embora não tenha feito uso da brutalidade que posteriormente se verificaria, resolveu o caso à sua maneira. Pensando que a melhor solução seria uma demonstração prática irrefutável, ordenou aos soldados que derrubassem dos pedestais as imagens veneradas e que as fizessem rebolar pelos degraus do templo abaixo. Em seu lugar mandou erguer um altar - onde foi colocada uma imagem da Virgem e outra de Jesus Cristo - e logo ali se celebrou a primeira missa. Como os índios estarrecidos puderam constatar, dos seus deuses, agora espalhados pelos terrenos circundantes, não vieram nem raios nem outra qualquer manifestação de vingança. Segundo as crónicas espanholas, alguns deles não tardaram a abraçar a religião cristã. Mas fica por saber se o fizeram pelo medo que lhes infundia aquela gente tão estranha, ou por estarem finalmente convencidos da total impotência dos velhos deuses. Afinal, estes nem sequer tinham sido capazes de defender os seus próprios lugares de culto.

A rota de Cortés (linhas vermelhas).
Desde Santiago, na ilha de Cuba (à direita), passando por Cozumel e contornando a península de Yucatán até fundar Vila Rica de Vera Cruz, no litoral mexicano (à esquerda).
Cortés levantou ferro da ilha de Cozumel no dia 4 de Março de 1519. Mas, antes disso, aconteceu algo de grande importância para a expedição: vindo das costas de Yucatán numa canoa, um grupo de índios trouxe-lhe um náufrago espanhol de anterior navegação. O homem, chamado Gerónimo de Aguilar, vivia entre os seus salvadores há cerca de oito anos. Cortés percebeu rapidamente a utilidade do recém-chegado: ele falava, com grande à-vontade, o idioma maia, que se utilizava na região a que iam ter acesso, pelo que poderia ajudar a resolver as insuficiências de Melchorejo enquanto único tradutor. Por essa razão, o comandante incorporou-o gostosamente na expedição.

Os navios começaram a bordejar o litoral do Yucatán. Acercando-se tanto quanto possível da costa, dobraram o cabo Catoche, atravessaram a todo o pano a vasta baía de Campeche e, pouco depois, chegavam à desembocadura do rio Tabasco (a que os Espanhóis chamariam rio Grijalva, em homenagem ao comandante da expedição anterior).
Ainda que o seu objectivo principal fosse alcançar o coração do império asteca, Cortés pretendia explorar aquela região e apurar o que pudesse sobre as suas riquezas. Por isso resolveu subir a correnteza do Tabasco (Grijalva) para atingir a grande cidade que se sabia existir nas suas margens. Os depósitos de areia no fundo do rio impediam, porém, a navegação da frota, pelo que Cortés embarcou em canoas com uma parte das forças. A progressão era lenta e penosa, pois as águas estavam cobertas de plantas aquáticas, cujas raízes, entrelaçadas, formavam uma rede quase impenetrável.
Nas margens surgiram entretanto guerreiros índios fazendo gestos ameaçadores. Cortés redobrou de precauções. Num lugar mais aberto, onde se concentravam muitos índios, recorreu ao intérprete para lhes pedir que o deixassem ir a terra. Mas eles brandiram as armas e ripostaram com gestos que expressavam cólera e desprezo. Cortés concluiu finalmente que ia ter que lutar. Retirou para uma pequena ilhota e ali passou a noite.


No dia seguinte, o comandante deu início àquilo que seria a sua primeira operação militar no território. Ainda que não contasse com a totalidade do exército, dispunha de bestas e de armas de fogo que, aliadas à enorme superioridade táctica, resolveram as coisas a seu favor. Desbaratados, os índios bateram em retirada e os Espanhóis entraram sem resistência na cidade de Tabasco, entretanto abandonada pelos habitantes. Cortés tomou posse da urbe em nome dos reis de Espanha.
Os índios preparavam, contudo, nova investida, agora associados aos habitantes dos povoados vizinhos. O seu número era, aparentemente, esmagador. Mas Cortés recebera entretanto reforços - em meios e homens. Nos navios da frota ficaram apenas os que, por qualquer razão, se achavam impossibilitados de combater. Foram trazidas para Tabasco sete peças de artilharia e uma outra novidade para se estrear na guerra: os cavalos embarcados em Cuba. Entorpecidos pela longa inacção, readquiriram em poucas horas de exercício as suas forças e agilidade.

Em vez de se deixar cercar em Tabasco, Cortés optou pela iniciativa do ataque. No dia 25 de Março de 1519, as tropas espanholas marcharam mais de uma légua, por vezes através de terrenos pantanosos, até se encontrarem com o grosso do exército inimigo. A luta foi intensa, mas o fogo da artilharia e dos arcabuzes varria as fileiras índias.
Subitamente, a cavalaria espanhola soltou o grito de guerra "Santiago e S. Pedro" e irrompeu no campo de batalha, com o metal dos elmos, das lanças e das espadas a reflectir sinistramente a luz do sol. Para os Tabasquenhos, esse foi o golpe final. Surpreendidos pela aparição daquelas criaturas monstruosas - eles pensavam que cavalo e cavaleiro formavam um único ser -, fugiram tomados de pânico, em muitos casos largando as armas e deixando de opor resistência.
Cortés, satisfeito com o triunfo, não cuidou de perseguir os vencidos. O sítio da batalha foi depois assento de uma povoação que se chamou Vila de Santa Maria da Vitória e que chegou a ser capital de província.

O comandante mandou libertar os prisioneiros que havia feito, incluindo alguns chefes, e fez espalhar a notícia de que os habitantes da terra nada teriam a temer da sua parte se deixassem de o hostilizar e lhe prometessem obediência. Caso contrário, seriam todos passados a fio de espada.
Os Tabasquenhos já não tinham alento para resistir. Acorrendo ao chamamento de Cortés, acercaram-se dele e, tal como ocorrera em Cozumel, foi possível iniciar contactos mais ou menos cordiais entre espanhóis e índios. Tiveram também começo umas tímidas relações comerciais, que contribuíram para o estabelecimento de um clima de confiança entre as duas partes.
Cortés foi obsequiado com diversos presentes pelos seus ex-inimigos. Alguns eram de ouro puro, e, quando o comandante pretendia saber de onde provinha o metal, os índios apontavam para o interior do território e respondiam: "México".
Entre as ofertas dos Tabasquenhos contavam-se vinte jovens escravas. Uma delas assumiria em breve um papel relevantíssimo na conquista espanhola do território.

Continua em 17 de Agosto de 2019 - 4.ª parte (ver aqui)

sábado, 3 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 2.ª Parte

Hernán Cortés, nascido em Medellín, Espanha, em 1485

Continuação de 27-Julho-2019 (1.ª parte - Ver aqui)

Hernán Cortés, o homem que em breve corporizaria os terrores e a desgraça dos Astecas, vivia há anos em Cuba - a ilha do mar do Caribe que, estendida à entrada do golfo do México, entre a Florida e a península do Yucatán, parecia apontar ameaçadoramente, com a sua extremidade ocidental, para as terras longínquas de Moctezuma.

Em Espanha, Cortés iniciara estudos de leis na Universidade de Salamanca, mas não tardou a desistir deles. Dois anos depois trabalhava como escrivão da corte em Valladolid, mas logo concluiu que também não nascera para aquele tipo de existência sedentária. Em 1504 resolveu embarcar para vida mais aventurosa, nas então chamadas Índias Ocidentais, e acabou por fixar-se em Cuba, governada, ao tempo, por Diego Velásquez. Conseguiu, como funcionário do governo, reunir um conjunto considerável de bens, mas estava ainda longe da fortuna que ambicionava.

Por essa altura, os Espanhóis já deitavam olhares cobiçosos para oeste de Cuba. Nos últimos anos, as costas do golfo do México tinham sido bordejadas pelos seus navios e Diego Velásquez, o governador da ilha, achou as informações obtidas suficientemente auspiciosas para mandar expedições à península de Yucatán.
Em 1517 partiu a primeira expedição, comandada por Francisco Hernández de Córdoba, que alcançou fracos resultados. Em 1518 seguiu outra, chefiada por Juan de Grijalva. Ambas tiveram de enfrentar, nalguns locais, a resistência armada dos habitantes. Noutros pontos, todavia, sobretudo no caso de Grijalva, a recepção tinha sido amistosa, sendo mesmo possível reunir, a troco de bugigangas, algumas jóias primorosamente trabalhadas.

Grijalva regressou a Cuba com as jóias e com duas notícias de sinal diferente. Primeira: ele encontrara inesperadamente uns índios que se lhe haviam anunciado como emissários de um misterioso imperador, Moctezuma, que habitava muito para o interior do território. Além das jóias gentilmente ofertadas aos expedicionários, o imperador prometia-lhes amizade.
A segunda notícia era mais inquietante. Num dos ilhéus que exploraram, dentro de uma construção repleta de ídolos, os Espanhóis tinham deparado com uma cena horrorosa - cinco cadáveres de índios, recentemente sacrificados, naquilo que parecia corresponder a um qualquer ritual religioso.


Grijalva achara que correria riscos excessivos se se tivesse fixado num dos locais explorados. O governador Diego Velásquez pensava exactamente ao contrário e repreendeu-o por não ter tentado. Ao mesmo tempo, começou a congeminar o envio de outra expedição, desta vez conduzida por alguém mais expedito. Assim pensando, fixou-se na figura de Hernán Cortés, que, para além de ter colaborado na conquista de Cuba, servira durante algum tempo como seu secretário.

Os objectivos do governador eram múltiplos, mas rodavam todos em torno de um eixo fundamental: o de se criarem condições para a futura ocupação daquelas terras. A expedição deveria encetar relações comerciais com os habitantes; procuraria lançar bases para a sua conversão à fé cristã; instilaria neles o respeito pela grandeza e poderio do rei de Espanha; sobretudo, devia reconhecer a costa em pormenor, sondando as suas entradas e baías com vista a futuras navegações; devia informar-se sobre os produtos da terra, sobre as características dos diferentes povos, sobre as suas instituições e o seu grau de civilização; e devia elaborar acerca de tudo um relatório minucioso, a enviar oportunamente para Espanha, acompanhado de amostras dos produtos passíveis de comercialização. (Nota)

Cortés, convocado para o efeito, agarrou a oportunidade como se fosse a última da sua vida. Empenhou-se a fundo na organização da expedição e gastou nisso praticamente todos os bens que fora acumulando na ilha. A dado passo teve que recorrer a empréstimos, incorrendo numa dívida elevadíssima. Semelhante entusiasmo, associado à sua personalidade autoritária e às ideias próprias que professava - ele orgulhava-se de pensar pela própria cabeça -, começaram a suscitar as desconfianças do governador Velásquez, que se recordou então das fricções que tinham acontecido entre os dois no passado. As intrigas de alguns fizeram o resto. Assim, já convencido de que Cortés poderia transformar-se, em caso de êxito, num rival temível, o governador resolveu retirar-lhe o comando da expedição. Mais do que isso, pensou em metê-lo na prisão.


Cortés, prevenido a tempo, decidiu antecipar-se. No dia 18 de Novembro de 1518 levantou âncora do porto de Santiago de Cuba e fez-se à aventura da sua vida. Durante alguns meses rondou as costas da ilha, detendo-se sucessivamente em Trinidad e La Habana para completar os recursos humanos e materiais de que necessitava.
Diego Velásquez, numa derradeira tentativa de o neutralizar, expediu ordens para que o prendessem durante essas paragens, informando que o destituíra do comando da expedição. Mas não achou ninguém com disposição ou coragem para cumprir tais ordens: o rebelde era já suficientemente poderoso para dissuadir qualquer iniciativa do género.
Quando enfim se achou pronto para partir à conquista do império de Moctezuma, o comandante dispunha de 11 navios, de mais de seis centenas de homens capazes de combater (entre soldados e marinheiros), de 200 carregadores índios e de uns poucos auxiliares negros. O seu poder de fogo era considerável: além das armas individuais, como os arcabuzes, contava com dez peças grandes de artilharia e quatro peças ligeiras (falconetes), tudo servido por municiamento abundante. Seguiam ainda na frota dúzia e meia de cavalos, animais desconhecidos dos Astecas. 

Antes do embarque que os levaria ao Yucatán, Cortés dirigiu uma alocução motivadora aos seus homens. Ele era o tipo de líder que combinava sabiamente as manifestações de afecto e a severidade disciplinadora como suporte do seu carisma natural, o que lhe garantia um ascendente sem sobressaltos sobre os que o seguiam. Por isso o ouviram com credulidade e respeito quando ele lhes prometeu que os conduziria à glória, a mais sublime recompensa a que pode aspirar um homem.
Acreditaram igualmente que Deus - que nunca tinha abandonado os Espanhóis nos seus combates com os infiéis - os salvaria em qualquer provação, ainda que se vissem rodeados por uma nuvem de inimigos. Mas Cortés conhecia profundamente os seus ouvintes, pelo que acrescentou: se alguns ambicionam algo mais do que a fama, a riqueza, sejam-me fiéis como eu vos serei fiel; e prometo que vos farei donos de mais ouro do que aquele que qualquer europeu possa ter visto nos seus sonhos mais ambiciosos.

Esta oratória, assente no zelo religioso e na cobiça, produziu o efeito pretendido. Os expedicionários irromperam em aclamações delirantes e todos se mostravam impacientes por partir. Cortés, satisfeitíssimo com aquele entusiasmo, colocou a frota sob a protecção de S. Pedro e mandou celebrar uma missa.
No dia 18 de Fevereiro de 1519, os navios levantaram ferro e rumaram finalmente à península do Yucatán. 
..................

Entretanto, em Cuba, Diego Velásquez fervia de raiva. Mas, não se dando por vencido, começou logo a planear mais uma expedição, cujo comando confiaria a Pánfilo de Narváez. A ideia consistia em perseguir Cortés para, quando fosse oportuno, o meter na ordem de uma vez por todas.

(Continua em 10 de Agosto de 2019 - 3.ª Parte - ver aqui)

(Nota) - Itálico transcrito de: William H. Prescott, History of the Conquest of México, 1843, vol. 1

sábado, 27 de julho de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 1.ª Parte

Ao fundo: reconstituição de Tenochtitlán (actual cidade do México)


A origem dos Astecas perde-se na noite dos tempos. Mas acredita-se que chegaram ao vale do México, com outros grupos nómadas, por volta do século XIII.
As suas qualidades guerreiras fizeram com que, nos primeiros tempos, servissem como mercenários dos povos já fixados na região.

Em 1325 fundaram a sua capital, Tenochtitlán, no local onde se acha hoje a cidade do México. A urbe, magnífica, deixaria os Espanhóis maravilhados, quando eles apareceram para desferir o golpe fatal. Esse golpe, perpetrado por Hernán Cortés, antecedeu, em cerca de década e meia, aquele que o também espanhol Pizarro vibraria noutra grande civilização, a dos Incas (recordar aqui).

Tenochtitlán assentava numa ilha, a meio de um lago que seria posteriormente aterrado. O tráfego aquático era muito intenso, pelo que as estradas que ligavam a cidade às margens do lago se interrompiam em vários pontos por aberturas que deixavam passar as canoas. Para ultrapassar o vazio destas aberturas utilizavam-se pontes de tábuas que se podiam retirar sempre que necessário (por exemplo, em caso de ataque inimigo).

Cerca de 1430, Tenochtitlán entrou numa coligação militar com as vizinhas cidades de Texcoco e Tlacopán. A coligação conseguiu, após combates impiedosos, acabar com o poder dos Tepanecas, hegemónicos na região até essa altura.
Tenochtitlán foi aumentando o seu poder na Tripla Aliança, até que se tornou a potência dominante e, submetendo os povos da região, se tornou um império poderoso - o império Asteca.

A expansão asteca conduziu rapidamente à conquista dos lugares produtores de alimentos - o vale de Toluca, a oeste, e a costa do golfo do México, a leste -, bem como de todas as regiões da Mesoamérica Ocidental. Povos como os Tarascos, os Mixtecos, os Huastecos e muitos outros tiveram de ceder perante a força dos Astecas.
Só se registou uma excepção: a dos Tlaxcaltecas (habitantes da região de Tlaxcala), que resistiram ao ataque, mantiveram a sua independência e viriam a desempenhar um papel importante na altura em que os Espanhóis irromperam no território.

Reconstituição do centro de Tenochtitlán (cidade do México)

A expansão territorial dos Astecas modificou profundamente a sua organização social e política. Com os abastecimentos garantidos a partir das regiões conquistadas, o tecido social modificou a sua antiga base agrícola e converteu-se numa complexa rede de funcionários - guerreiros, sacerdotes, cobradores de impostos, artesãos e mercadores. À cabeça estava o imperador, simultaneamente chefe de exército e sumo-sacerdote. 

Um elemento essencial da coesão social asteca era a religião. Ao princípio, esteve sobretudo centrada na adoração dos astros: o Sol era a divindade que dava vida ao universo e que havia criado os seres humanos. Mais tarde, essa religião evoluiu para um complicado sistema politeísta, em que o primeiro lugar - de acordo com a índole belicista do povo - era ocupado por Huitzilopochtli, o sanguinário deus da guerra.

O terrível culto de Huitzilopochtli dominava a vida de Tenochtitlán. A ele se dedicara a grande pirâmide erguida no centro da cidade (ver acima), onde se celebravam os ritos em sua honra.
A parte fundamental desses ritos consistia em sacrifícios humanos, que os Astecas criam indispensáveis para que os deuses lhes conservassem as forças e pudessem manter vivo o universo.
Havia várias formas de imolar as vítimas. A mais comum consistia em abrir-lhes o peito, ainda em vida, para lhes extrair o coração, que era acto contínuo oferecido à estátua do deus.
O povo participava no ritual comendo pedaços de carne da vítima, dando-se prioridade aos sacerdotes e aos nobres presentes. 




Esta forma de culto dos Astecas chegou a atingir proporções monstruosas. Se, no começo da expansão imperial, praticamente só se sacrificavam os prisioneiros feitos nas batalhas, a partir de certa altura já se partia para a guerra com o único fito de capturar mais e mais vítimas para os deuses - especialmente para o insaciável Huitzilopochtli.

Os crânios das vítimas amontoavam-se aos lados do templo. Mais tarde, os invasores espanhóis chegariam a contar 136 000. Algumas fontes referem que só na consagração inaugural do templo se imolaram 20 000 seres humanos.

Entre muitos outros deuses, Tlaloc, deus da água, era objecto de especial veneração. Também em honra deste, como de muitos outros, se realizavam sacrifícios de morte. O costume estendeu-se aos deuses protectores das demais populações do império. À semelhança do que sucedia na capital, Tenochtitlán, os templos onde a mortandade tinha lugar eram sempre edificados em forma de pirâmide.

Um outro deus a que os Astecas atribuíam grande importância era Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada, divindade herdada dos Toltecas. Segundo um velho mito asteca, Quetzalcoatl fora há muito expulso da terra por um deus rival, mas prometera voltar, vindo do mar oriental, sob a aparência de uma criatura barbuda e de pele clara - e provavelmente com o propósito de se vingar.

No ano de 1519 começaram a chegar notícias preocupantes a Moctezuma Xocoyo, o imperador asteca. Vindos dos pontos mais longínquos do território, correios especiais informavam que a profecia de Quetzalcoatl parecia em vias de ser confirmada.
Com efeito, homens estranhos, brancos e barbudos, tinham acabado de desembarcar nas praias do império. Não era a primeira vez que tal ocorria nos últimos anos. No entanto, os estrangeiros pouco se haviam demorado nessas primeiras visitas: tinham sido devolvidos ao mar à custa de ofertas generosas ou de escaramuças com as populações costeiras.
Agora, o caso parecia ser diferente, pois os intrusos davam sinais claros de pretenderem avançar para o interior do império. Viria Quetzalcoatl com eles?


Continua em 3 de Agosto de 2019 (2.ª parte - ver aqui)

domingo, 30 de junho de 2019

D. Sebastião morreu em Alcácer Quibir? (Os Falsos D. Sebastião) - 5.ª PARTE (Conclusão)



Continuação de:
2 de Junho de 2019 - 1.ª Parte (ver: O Sebastianismo)
9 de Junho de 2019 - 2.ª Parte (ver: O "rei de Penamacor")
16 de Junho de 2019 - 3.ª Parte (ver: O "rei da Ericeira")
23 de Junho de 2019 - 4.ª Parte (ver: O Pasteleiro de Madrigal)

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O "rei de Veneza"

Em Junho de 1598, na cidade de Veneza, espalhou-se o boato de que andava por ali um indivíduo que se fazia passar pelo rei D. Sebastião de Portugal, oficialmente dado como morto, em 1578, na batalha de Alcácer-Quibir.
Nesse tempo, habitavam em Veneza muitos exilados portugueses, na maioria antigos oponentes de Felipe II de Espanha quando este resolvera avançar para o trono lusitano. Apesar das versões contraditórias que corriam sobre aquele "D. Sebastião", alguns deles acreditaram no boato. E essa crença sairia reforçada pela acção infatigável de um seu compatriota, D. João de Castro, que apareceu a garantir que, dessa vez, era verdade: estavam, de facto, perante o rei português, miraculosamente escapado, vinte anos antes, dos mortíferos areais marroquinos.

D. João de Castro pertencia a uma ilustre família de fidalgos portugueses. Seu pai, Álvaro de Castro, fora superintendente das finanças de D. Sebastião. Seu avô, também chamado João de Castro, desempenhara as altíssimas funções de vice-rei da Índia sob domínio português.
Educado na universidade de Évora, tinha feito as Humanidades e seguido os cursos de Teologia. Nos estudos a que se dedicou, desenvolveu grande interesse por histórias extraordinárias e maravilhosas, que procurava apresentar e interpretar com base em metodologias engenhosas, inventivas mas, por vezes, confusas. Uma das suas actividades favoritas consistia no estudo dos escritos e profecias que afirmavam a sobrevivência de D. Sebastião e anunciavam o seu regresso para salvar Portugal das garras espanholas. Em 1597, profetizara, ele próprio, que o rei faria a sua aparição no ano seguinte - e os acontecimentos de Veneza vieram dar-lhe aparente razão. Lúcio de Azevedo, que o qualifica como "maníaco de boa fé", reconhece-o como "o S. Paulo da religião sebastianista". Não é pois de admirar que se tenha transformado numa das personagens centrais deste drama.

D. João de Castro terá falado com alguns dos que acompanharam o rei na jornada fatídica de Marrocos. A partir desses contactos, abalançou-se a escrever a história dos dias vividos por "D. Sebastião" depois do recontro de Alcácer-Quibir. E assim surgiu o relato que alimentaria durante anos a imaginação e as ilusões de muitos portugueses.

Segundo Castro, o rei conseguira evadir-se do campo de batalha, em companhia de vários fidalgos portugueses, nos instantes que se seguiram ao desastre militar. Chegados ao litoral marroquino, apoderaram-se de uma embarcação e logo navegaram até às costas do Algarve. Mas o rei, que sofria mais com a vergonha da derrota do que com a perda do trono, perdera a vontade de reinar. Desse modo, refugiando-se no anonimato, pôs-se a percorrer o mundo com os companheiros de fuga. Terá deambulado por diversos países europeus e asiáticos. Terá também combatido os Turcos na Pérsia. Certo dia, um santo homem, um eremita com quem travara conhecimento, disse-lhe ter recebido de Deus a revelação de que era chegado o tempo de ele pôr fim à sua peregrinação para voltar a Portugal e ao trono que por direito lhe pertencia.
Assim, após uma paragem na Sicília, "D. Sebastião" viajara para norte e dera finalmente entrada em Veneza.





Porém, o embaixador de Espanha na República de Veneza, D. Iñigo López de Mendoza, não dormia. Conhecedor dos boatos que corriam, pôs-se em campo e em breve julgou ter apurado a verdadeira nacionalidade do estranho indivíduo. Após informar o seu novo rei acerca da situação (Felipe II falecera em 13 de Setembro de 1598, tendo-lhe sucedido o filho, Felipe III), apresentou-se às autoridades venezianas a 27 de Outubro e solicitou-lhes que agissem contra aquele que ele classificava como descarado impostor. Sensíveis aos seus argumentos, os venezianos ordenaram ao pretenso "D. Sebastião" que abandonasse o território da República no prazo de oito dias.

D. Iñigo supôs ter resolvido o problema. Contudo, como o tempo fosse passando sem que "D. Sebastião" desse sinais de pretender viajar, o embaixador espanhol tratou de insistir. A 7 de Novembro de 1598 dirigiu-se ao palácio ducal e, com base no argumento de que o visado desobedecera ostensivamente à intimação recebida, exigiu a sua prisão. Acrescentou que a morte de D. Sebastião não podia ser posta em causa, depois de todas as diligências que o rei espanhol (à época, Felipe II) e o imperador de Marrocos (Mulei Ahmed) tinham levado a cabo sobre o assunto.
D. Iñigo de Mendoza sustentava que o pretenso monarca nem sequer era português, mas sim calabrês. Aliás, reforçava, ele não só não exibia parecenças físicas com o verdadeiro D. Sebastião, como mal falava a língua portuguesa. E o embaixador rematou dizendo que não era a primeira vez que tais imposturas se produziam e que todas tinham tido grandes semelhanças com a conduta deste "calabrês".

A reclamação do embaixador espanhol foi tomada em consideração pelas autoridades de Veneza. No mesmo dia, o Conselho dos Dez (responsável pela segurança da República) decretou a prisão do homem que dizia ser o rei D. Sebastião de Portugal. No entanto, só a 24 de Novembro a ordem foi executada. Um ano depois, em finais de 1599, a misteriosa figura continuava encarcerada nas prisões de Veneza sem que as autoridades tivessem assumido uma decisão definitiva sobre a sua sorte.

Reconhecimento do corpo de D. Sebastião perante Mulei Ahmed, imperador de Marrocos
(Na interpretação imaginária de Caetano da Costa Lima - séc. XIX)

Durante o período em que permaneceu privado da liberdade, o prisioneiro foi sujeito a diversos interrogatórios. O processo havia sido confiado a quatro juízes, aos quais ele sempre afirmou ser, de facto, o monarca português desaparecido em Alcácer-Quibir.
Nesse espaço de tempo, tinha-se verificado um autêntico corrupio de portugueses em torno do cárcere. O preso fora entretanto transferido para uma prisão menos rigorosa, o que lhe possibilitou pôr-se em contacto com alguns dos adeptos. Um deles era um tal frei Crisóstomo, que lhe trazia livros portugueses e notícias do mundo exterior. Sobretudo, mantinha-o informado sobre os esforços que os portugueses que nele acreditavam vinham desenvolvendo para lhe melhorarem a sorte.
Alguns daqueles adeptos conseguiram levar o caso a diversos governos europeus, como os da Inglaterra, Países Baixos e França. Por vezes logravam certo êxito, ainda que ambíguo, nas suas diligências. Por exemplo, no dia 1 de Dezembro de 1600, o rei francês, Henrique IV, dirigia-se do seguinte modo ao seu embaixador em Veneza: Desejo também que não negueis assistência a esse pobre prisioneiro que pretendem que seja o rei D. Sebastião, se houver fundamento para o fazer; porque, uma vez que o rei de Espanha favorece abertamente os meus inimigos, devo vingar-me por todos os meios que se me apresentem.

Às dez horas da noite do dia 15 de Dezembro de 1600, após mais de dois anos de reclusão, a sorte do prisioneiro pareceu tomar novo e promissor rumo. Conduzido ao Senado, comunicaram-lhe que seria posto imediatamente em liberdade. Teria no entanto que abandonar a cidade de Veneza nas vinte e quatro horas seguintes e o território da República veneziana em três dias. Caso não cumprisse, seria condenado às galés. A única coisa que se lhe ouviu, depois de lida a sentença, foi a reafirmação de que era, verdadeiramente, D. Sebastião - como era certo Deus estar no céu.

A madrugada imediata foi cheia de movimento e emoções para ele e para os seus partidários. Acolhido na casa onde residia D. João de Castro (que chegara a Veneza em 28 de Julho anterior), foi recebendo a visita dos adeptos - entre outros Rodrigo Marques, frei Crisóstomo, Sebastião Figueira, Manuel Brito de Almeida, Pantaleão Pessoa de Neiva, Francisco António, frei Estêvão de Sampaio e até Cristóvão, um dos filhos de D. António, prior do Crato (que falecera em Paris no ano de 1595).
Frei Estêvão de Sampaio tinha vindo oportunamente a Portugal para se informar acerca de certos sinais e marcas que o verdadeiro D. Sebastião ostentava no seu corpo. Enigmaticamente, alguns deles pareciam estar presentes no corpo do recém-libertado: a mão direita mais comprida do que a esquerda, bem como o braço, a coxa, a perna e o pé do mesmo lado; a falta de um dente no maxilar inferior; as sardas na cara e nas mãos; a verruga no dedo mínimo do pé direito - tão grande que parece um sexto dedo, como escreveu Pantaleão Pessoa.
Havia, no entanto, várias coisas que não pareciam bater certo: o homem estava longe de ostentar a pele branca que caracterizava D. Sebastião (e todas as personagens da Casa de Áustria); os cabelos e a barba eram escuros; e, sobretudo, falava um português imperfeito, pejado de erros grosseiros.

Felipe III de Espanha (1578-1621). Foi o Filipe II de Portugal.
Sucedeu a Felipe II, seu pai, a 13 de Setembro de 1598.

É provável que a dúvida tenha assaltado o espírito de alguns dos presentes. Mas a emoção do momento e a esperança de poderem finalmente dispor de um campeão anti-espanhol impuseram-se a todos. O próprio frei Estêvão de Sampaio, que estivera várias vezes com D. Sebastião, achou que o indivíduo que tinha diante de si poucas semelhanças apresentava com a imagem que guardava na memória. Mas tinham passado 22 anos sobre o desaparecimento do monarca! Por isso, também ele se lançou aos pés do antigo prisioneiro e o reconheceu como seu rei.
Sem demora, os presentes decidiram tirar "D. Sebastião" de Veneza. A ideia era levá-lo até Florença, depois a Livorno, e embarcar aí para um porto de França.
Ao cair da noite de 16 de Dezembro, o pretenso rei deixou Veneza, disfarçado de monge, na companhia de frei Crisóstomo. A 20 chegavam a Florença, capital do Grão-Ducado da Toscana, e foram instalar-se num convento da Ordem de S. Bernardo. Tencionavam aguardar por alguns portugueses com os quais embarcariam, em Livorno, rumo a Marselha. Desta cidade seguiriam, finalmente, para Paris.

Desgraçadamente para a causa do "rei de Veneza", a espionagem espanhola não abrandara a vigilância e conhecia os passos dos fugitivos na Toscana. Por consequência, o novo embaixador da Espanha em Veneza, D. Francisco de Vera y Aragón, sucessor de D. Iñigo de Mendoza, contactou o representante do Grão-Duque Fernando de Médicis e fez-lhe saber como Felipe III ficaria agradado se eles prendessem o "charlatão calabrês".
Na Toscana, o Grão-Duque percebeu o recado, pois era grande e temível o poder da Espanha imperial. Assim, na noite de 27 ou 28 de Dezembro de 1600, as suas tropas invadiram o convento e deram voz de prisão aos fugitivos. Mas só o pretenso "D. Sebastião" ficaria atrás das grades: temendo a reacção do Papa, o Grão-Duque Fernando ordenou a libertação de frei Crisóstomo.

O Grão-Duque manteve "D. Sebastião" preso, na Toscana, durante quatro meses, apesar dos esforços realizados pelos portugueses de Veneza para que fosse solto. Por fim, cedendo às pressões de Felipe III, Fernando de Médicis mandou entregar o prisioneiro aos espanhóis. Às onze horas da noite de 23 de Abril de 1601, retiraram-no da cela e meteram-no num carro que logo partiu sob forte escolta. Acabaria entregue ao vice-rei espanhol de Nápoles, o conde de Lemos, no dia 1 de Maio.
O Grão-Duque apressou-se a escrever ao rei de Espanha, num tom subserviente, dando-lhe conta da sua acção - entreguei-o [ao preso] conforme a sua ordem, aproveitando esta ocasião para lhe apresentar de todo o meu coração as minhas mais humildes homenagens.
Henrique IV de França, que tinha intercedido pelo prisioneiro junto do Grão-Duque, ficou profundamente desagradado com o gesto de Fernando de Médicis. E conta-se que terá exclamado: Em Florença negoceia-se toda a espécie de mercadorias!

Muitos portugueses acreditaram durante anos que o rei D. Sebastião
regressaria um dia a Portugal numa manhã mágica de nevoeiro.
Os espanhóis controlavam finalmente a situação e o conde de Lemos deu início ao processo.
O preso manteve durante muito tempo a sua versão - a de que era o rei de Portugal. E, quando se encerrava um interrogatório, assinava com firmeza: D. Sebastião.
Um dia veio ter com o vice-rei um homem que lhe disse que conhecia o prisioneiro: este nascera  na Calábria, chamava-se Marco Túlio Catizone e era casado em Messina com Paula Gallardeta.
Confrontado com o denunciante, o preso pareceu ceder finalmente. Confessou que visitara Veneza uns anos antes e que alguns portugueses lhe tinham dito então que ele se parecia muito com o rei D. Sebastião. Ele tentara esclarecê-los. Mas, quanto mais negava, mais eles insistiam naquela ideia, chegando a beijar-lhe as mãos como se faz a um rei. E teria sido desse modo que acabara por aceitar a qualificação que lhe davam.
Mais tarde, o preso sustentaria que aquelas declarações lhe tinham sido arrancadas à força, versão que D. João de Castro corroboraria nas histórias que punha a correr entre a comunidade portuguesa e que ficariam para a posteridade.

A Espanha, ciosa da unidade ibérica que conquistara, predispôs-se a condenar o incómodo "D. Sebastião". Mas a verdade é que havia comportamentos estranhos - ou pelo menos ambíguos - em relação ao prisioneiro, tratado com extraordinária deferência. Aos domingos e dias de festa saía da cela para assistir à missa e comungar - e, na capela, as pessoas que aí se encontravam ficavam maravilhadas com a sua grande devoção. Quando passava, saudava toda a gente com modos de cavalheiro. Tinha para o servir um criado que lhe preparava a comida na cela. E, abrandada a vigilância, arranjou maneira de comunicar secretamente com os adeptos que, no exterior, continuavam a pugnar pela sua libertação.
O próprio rei espanhol, Felipe III, achou por bem intervir, ordenando expressamente que ele não fosse condenado à morte. Assim, no mês de Maio de 1602, "D. Sebastião", ou Marco Túlio Catizone, viu-se condenado perpetuamente às galés. Dias depois, embarcado na frota de Nápoles para cumprir a pena, foi dispensado de remar.

A frota levantou âncora. Depois de ter feito escala em vários portos mediterrânicos, chegou ao porto de Santa Maria, junto de Sanlúcar de Barrameda, na embocadura do Guadalquivir. Daí em diante, os navios passaram a navegar em acções de vigilância entre os portos vizinhos. Sempre que as galés se detinham, chegavam grupos de curiosos para verem "o falso rei de Portugal", sendo provável que entre eles se achasse um ou outro partidário da realeza do prisioneiro.
Nos começos de 1603, a galera almirante estava no porto de Santa Maria. "D. Sebastião", ou Marco Túlio, achava-se a bordo. Continuava a ser bem tratado: não o obrigavam a envergar o vestuário dos condenados e mantinha a preciosa dispensa de remar.



As liberdades de que o condenado gozava a bordo da galé cedo lhe possibilitaram o contacto com os seus indefectíveis adeptos. Entre os que mais trabalhavam a seu favor contava-se o nosso já conhecido frei Estêvão de Sampaio, que conseguiu aliciar para a causa um outro religioso - frei Boaventura de Santo António, da Ordem de S. Bernardo.
O incansável frei Estêvão teve artes de fazer chegar às mãos do preso uma importante correspondência conspiratória. Aconselhava-o, por exemplo, a dirigir-se a importantes figuras da fidalguia portuguesa em busca de auxílio. "D. Sebastião" seguiu, com zelo, os conselhos do apoiante. Nalguns casos, foi o próprio religioso que lhe forneceu as minutas das cartas para que ele as copiasse.
A audácia dos conspiradores, e o óbvio desleixo que reinava na galé, pareciam não conhecer limites. O condenado chegou a receber secretamente os mensageiros de frei Estêvão, que, para além de o manterem informado acerca do que se passava no exterior, lhe entregaram marmelada trazida de Portugal, a crónica do rei D. João II e alguns volumes de poetas portugueses para o ajudar a passar o tempo.

As facilidades encontradas pelos conspiradores acabaram por levá-los a imprudências. Um dia, "D. Sebastião" resolveu abrir-se com um frade capuchinho genovês, frei Francisco Ansaldo, que o visitou na galé. O frade, mal acabou a conversa, correu a denunciar a trama que se vinha desenvolvendo para fazer evadir o preso.
Dessa vez, Felipe III não contemporizou. A Espanha recorria enfim à violenta firmeza com que sempre tratou de manter a integridade do seu império e, numa perspectiva mais regional, a união ibérica resultante do espírito anexionista do expansionismo castelhano.

"D. Sebastião" foi retirado da galé e conduzido à prisão de Sanlúcar de Barrameda, onde foi torturado. Frei Estêvão de Sampaio e frei Boaventura de Santo António, entretanto caídos nas malhas da justiça, sofreram idêntico tratamento. Como não podia deixar de ser, todos disseram aquilo que os interrogadores quiseram que eles dissessem. No processo ficou então definitivamente estabelecido que o preso não passava de um impostor - o calabrês Marco Túlio Catizone - e que, como tal, deveria morrer.
Em resultado do processo de tortura, recolheram à prisão dezenas de cúmplices dos conspiradores, oportunamente condenados a diversas penas.

No dia 23 de Setembro de 1603, Marco Túlio Catizone foi levado até à praça principal de Sanlúcar de Barrameda, onde começaram por lhe amputar a mão direita. A seguir, enforcaram-no, não sem que ele tivesse apelado à multidão para que mandasse rezar missas em sua intenção.
No mesmo dia foram também enforcados Aníbal Balsamo (calabrês), Fabio Craveta (napolitano) e António Mendes (português).
Outros réus sofreram penas variáveis de chicotadas e de reclusão nas galés.
Cerca de um mês depois, Felipe III confirmou as sentenças de frei Estêvão de Sampaio e de frei Boaventura de Santo António. Foram ambos enforcados, também em Sanlúcar de Barrameda, no dia 20 de Outubro de 1603. 

D. João de Castro, provavelmente o maior responsável por toda esta maquinação, salvou-se por entre os pingos da chuva. Vivia ainda em 1628, contando na altura, segundo a sua própria informação, à volta de oitenta anos.
Não deixou nunca de trabalhar sobre os temas favoritos. Os seus numerosos escritos, conservados até hoje, não permitem dúvidas acerca das convicções sebastianistas do autor. Certamente acreditou, até ao último suspiro, que o seu rei não estava morto e que um dia regressaria, por entre bafos de nevoeiro mágico, para devolver a liberdade e a felicidade ao seu povo.


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Fontes principais: MIGUEL D'ANTAS - Les Faux D. Sébastien - Étude sur l'histoire de Portugal - Publicado no ano de 1866 por Chez Auguste Durand, Libraire - Rue Cujas (ancienne Rue des Grès, 7), PARIS - FRANCE

J. LÚCIO D'AZEVEDO - A Evolução do Sebastianismo - Publicado no ano de 1918 por Livraria Clássica Editora - Lisboa - Portugal.
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Pode ouvir seguidamente José Cid e o Quarteto 1111 num dos maiores êxitos da música ligeira portuguesa: "A Lenda de El-Rei D. Sebastião" (Vídeo do Arquivo Portugal):