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sábado, 2 de novembro de 2019

Apache! (Episódios da resistência dos povos do sudoeste norte-americano) (4)


Na Primavera de 1875, em resultado das investidas do exército norte-americano, grande parte do povo apache tinha já sido confinado em reservas. Os que recusaram tal destino tinham fugido para o México ou vagueavam ainda pelos seus antigos territórios, onde praticavam assaltos e se confrontavam a espaços com os invasores, militares ou civis.

Em Apache Pass, após a morte do grande Cochise, o seu filho mais velho, Taza, ascendera à chefia dos Chiricahuas, mantendo-se Tom Jeffords como responsável pela administração da reserva. Ainda que ambos se esforçassem por manter a orientação de Cochise, que proibira terminantemente os ataques, estes recomeçaram em força, levados a cabo por grupos de índios revoltados com o crescente assédio de garimpeiros, colonos e políticos desejosos de se apoderarem de parcelas da reserva. Como esta ficava próxima da fronteira, esses chiricahuas desgarrados iam e vinham entre o Arizona e o México.
(Taza morreria de pneumonia pouco tempo depois, em 1876, passando a chefia para Naiche, o outro filho de Cochise).
…...

Os americanos foram evoluindo na sua política índia. A partir de certa altura optaram por concentrar um número máximo de nativos em enormes reservas regionais, o que implicava a reversão das concessões originais e a transferência para os novos destinos, mesmo que contra vontade, de grandes massas de gente.

A reserva de White Mountain, no Arizona oriental (cuja agência se situava em San Carlos), era, com o seu milhão de hectares, maior do que todas as outras reservas apaches juntas. Transformara-se, por isso, no local de concentração preferido pelas autoridades. O seu agente era John Clum, homem íntegro e de perfil moderado, seguidor da Igreja Reformada Holandesa.

Naiche (1857-1919), filho de Cochise,
acompanhado por sua esposa

Embora não possuísse a experiência e as qualidades de Tom Jeffords (o agente da reserva de Apache Pass, que sabia pensar como um índio), Clum estava a realizar um trabalho notável em White Mountain. Começara por fazer retirar os militares do local. Depois formou uma companhia apache para policiar os territórios da agência e fundou tribunais índios para julgarem os violadores da lei.
Ainda que cépticos e desconfiados relativamente aos métodos de Clum, os seus superiores tiveram que reconhecer que ele, ao devolver uma parcela importante do processo decisório aos índios - restituindo-lhes também, dessa forma, algum amor-próprio -, conseguira manter a paz na reserva.
Não obstante, impelidas pelo furor concentracionário, as autoridades governamentais logo perfilharam uma via de abusiva dureza para com os Apaches: John Clum recebeu um telegrama do comissário dos Assuntos Índios, ordenando-lhe que fosse à reserva de Apache Pass, afastasse dali o agente Tom Jeffords e transferisse os apaches chiricahuas para White Mountain.

A contragosto, Clum obedeceu e foi até Apache Pass. Era ainda no tempo da chefia de Taza, o filho e primeiro sucessor de Cochise. Lembrando-se dos conselhos e do comportamento do pai no final da vida, Taza não levantou obstáculos à transferência para White Mountain. Cerca de metade do seu povo decidiu seguir com ele. A outra metade rejeitou o novo destino, e, por isso, quando o Exército entrou na reserva para obrigar os recalcitrantes a viajar até White Mountain, já não os encontrou. A maioria resolvera atravessar a fronteira, passando-se para o México.
Um dos líderes dos fugitivos era um homem de 46 anos, que em jovem se aliara a Mangas Coloradas e que, após a morte deste, se pusera ao lado de Cochise. O seu nome índio era Goyathlay, mas os brancos conheciam-no como Gerónimo.



No México, Gerónimo e o seu grupo infernizaram a vida de outros velhos inimigos, os Mexicanos, que por vezes se associavam ao Exército americano para perseguirem os Apaches.
Os fugitivos assaltaram ranchos e caravanas isoladas, efectuando ricas presas de gado e cavalos. Na Primavera de 1877, Gerónimo trouxe os animais roubados para o Novo México e vendeu-os a rancheiros americanos, o que lhe possibilitou a compra de armas e provisões. Depois foi refugiar-se nas proximidades da agência governamental de Ojo Caliente (Novo México), onde os apaches eram chefiados por outro chefe prestigiado, Victorio.

Justamente nessa altura, John Clum recebeu instruções de Washington para se deslocar a Ojo Caliente e conduzir Victorio e a sua gente (os apaches Warm Springs) para a reserva de White Mountain, no Arizona.
Embora relutante, o chefe apache seguiu com os seus até à nova reserva, onde Clum, com a diplomacia do costume, lhe outorgou mais autoridade do que aquela que ele tivera em Ojo Caliente. Mas a parte derradeira do drama de Victorio tinha já começado.

As condições em White Mountain, e em particular na agência de San Carlos, foram-se deteriorando com a passagem do tempo. O Exército reforçou ali os seus contingentes, contrariando os processos de auto-governo de Clum. Este protestou, mas não foi atendido. Então, o agente demitiu-se e partiu para Tombstone, no Arizona, onde acabaria por fundar o jornal Epitaph.

A ausência de Clum revelou-se um desastre para os apaches de Victorio, pois o agente seguidamente nomeado para San Carlos não tinha nada em comum com ele. Os abastecimentos, de que dependia a sobrevivência dos índios, começaram a sofrer enormes atrasos. Piorando as coisas, o novo agente exigiu que os apaches de White Mountain se deslocassem até à sede da agência para receberem provisões, o que obrigava muitos deles a percorrer mais de seis léguas. Velhos e crianças, incapazes de cobrir tão longas distância, ficavam excluídos das distribuições.
Por outro lado, bandos de garimpeiros invadiam os terrenos da reserva índia, instalando-se na parcela nordeste da mesma e recusando-se a sair dali. 


Victorio (1825-1880)

Finalmente, a paciência de Victorio chegou ao fim. Na noite de 2 de Setembro de 1877, evadiu-se da reserva com a tribo e fez-se aos trilhos que levavam a Ojo Caliente, a terra natal. Pelo caminho, viram-se obrigados a combater soldados e rancheiros, mas conseguiram chegar ao destino.
Durante cerca de um ano o Exército permitiu que eles morassem ali, tal como antes. Todavia, em finais de 1878 chegaram ordens para que os índios fossem outra vez para San Carlos (White Mountain). Victorio, desesperado, pediu aos militares que deixassem o povo viver onde havia nascido. Quando compreendeu que as ordens eram irreversíveis, gritou que lhes poderiam roubar as mulheres e as crianças, mas que ele e os seus guerreiros não obedeceriam. Em seguida pôs-se em fuga, com cerca de 80 guerreiros, e foi passar um Inverno rigoroso nas montanhas Mimbre.

Em Fevereiro de 1879, o chefe apache achava-se de regresso e disposto à rendição, desde que o Exército restituísse as mulheres e as crianças presas em San Carlos. As autoridades concordaram, mas Victorio não poderia continuar em Ojo Caliente: deveria viajar com a tribo até Tularosa, fixando-se junto dos Apaches Mescaleros
Victorio, mais uma vez, cedeu, mas o acordo teve duração efémera: a meio do ano de 1879 foi desenterrada uma antiga acusação de roubo de cavalos e de assassínio contra ele, e os soldados entraram na reserva para o prender. Convencido de que fora marcado para morrer, o chefe apache concluiu que só lhe restava a opção da guerra.

Firmemente decidido a nunca mais se deixar aprisionar numa reserva, internou-se no México e começou a recrutar guerrilheiros para uma luta sem tréguas. Em breve contava com duas centenas de guerreiros, entre Chiricahuas e Mescaleros, e com eles assaltou ranchos mexicanos para obter provisões, cavalos e armas. Depois efectuou investidas audaciosas no Novo México e no Texas, matando todos os colonos que conseguiu surpreender, armando emboscadas mortíferas aos que procuravam capturá-lo e desaparecendo logo de seguida para lá da fronteira como se fosse um fantasma.

A liquidação de Victorio e da sua gente tornou-se uma prioridade para os seus perseguidores. A luta não dava sinais de abrandamento e o ódio do chefe apache parecia crescer de dia para dia. Torturava e mutilava os inimigos que lhe caíam nas mãos e transformou-se num matador implacável. O seu extremismo chegou a tal ponto, que muitos dos companheiros se assustaram e resolveram abandoná-lo.
Finalmente, os exércitos dos Estados Unidos e do México uniram esforços para colocar termo à ameaça. Como resultado de uma vasta manobra conjunta, soldados mexicanos lograram cercar Victorio nos montes Tres Castillos, situados entre Chihuahua e El Paso. Victorio foi abatido, com 77 dos seus guerreiros. Foram aprisionadas 68 mulheres e crianças. Cerca de 30 guerreiros conseguiram escapar-se.


(Conclui em 9-Novembro-2019 (5.ª Parte)


Ver 1.ª Parte - aqui
Ver 2.ª Parte aqui
       Ver 3.ª Parte - aqui       


Bibliografia:

Principal:
Dee Brown - Bury My Heart at Wounded Knee - An Indian History of the American West - 1970.
Outros:
Albert Britt - Great Indian Chiefs - 1938.
Britton Davis - The Truth About Geronimo - 1951.
John C. Cremony - Life Among the Apaches - 1868.
John G. Bourke - An Apache Campaign in the Sierra Madre - 1958.

sábado, 26 de outubro de 2019

Apache! (Episódios da resistência dos povos do sudoeste norte-americano) (3)


Nos primeiros anos da década de 1870, ainda que a instabilidade persistisse nalgumas regiões do Sudoeste, um número elevado de apaches já havia sido confinado em reservas, por regra muito afastadas dos sítios de fixação tradicionais. Ao fim de décadas de confrontos, o próprio Cochise compreendera que os seus obstinados inimigos eram demasiado poderosos para que os Apaches tivessem qualquer possibilidade de vencê-los. O chefe índio estava agora próximo dos sessenta anos de idade e sentia-se bastante fatigado. Andara algum tempo pelo México com o seu povo, mas, quando soube que o governo local oferecia 300 dólares por cada escalpe apache, decidira regressar aos seus velhos refúgios das Montanhas Dragoon, em território americano. Aí, passou a ser procurado, vivo ou morto, por diversas companhias de soldados do Exército, comandadas pelo general George Crook, a quem os índios chamavam Lobo Cinzento.

Certo dia, em Cañada Alamosa, Cochise aceitou falar do fim das hostilidades com o general Gordon Granger. No longo discurso que fez, garantiu que os Apaches Chiricahuas queriam  uma paz boa, sólida e duradoura. Referindo-se aos hábitos livres e à forma de vida apache, acrescentou: O mundo não foi sempre assim. Deus não nos fez como vocês. Nós nascemos como os animais, na erva seca, não em camas como vocês. Por isso fazemos como os animais; saímos à noite, atacamos e saqueamos. Se eu tivesse as coisas que vocês têm, não faria o que faço, pois então não precisaria. Há índios que matam e roubam. Eu não os comando. Se os comandasse, não fariam isso.

O general americano explicou que a paz só seria viável se os apaches aceitassem instalar-se numa reserva. Cochise, em princípio, aceitou, o que equivalia, finalmente, à sua rendição. Mas quando perguntou onde seria a reserva, Gordon informou-o de que o governo tencionava enviá-los para Forte Tularosa, nas montanhas Mogollons [Novo México]. Cochise reagiu mal: Quero viver onde estou [no Arizona]. Não quero ir para Tularosa. É muito longe daqui. As moscas dessas montanhas comem os olhos dos cavalos. Os maus espíritos moram ali.
Gordon garantiu que faria o possível para que o governo americano autorizasse os Chiricahuas a viverem em Cañada Alamosa, com as suas correntes de água fria e limpa. O chefe índio prometeu que manteria o seu povo em paz. E assim se despediram.


Cochise foi fiel à sua palavra e viveu pacificamente com o seu povo nos meses seguintes. O general Gordon procurou defender o que prometera, mas o governo não lhe secundou as boas intenções. E um dia chegou a ordem para que todos os Chiricahuas fossem arrebanhados e transferidos de Cañada Alamosa para Forte Tularosa, exactamente o local rejeitado pelo chefe índio. Este não suportou o procedimento dos brancos, que só veio confirmar no seu íntimo aquilo que há muito pensava: eles eram traiçoeiros por natureza e indignos de confiança. Dividiu então o povo em pequenos grupos e mudou-se com eles para as montanhas secas e pedregosas do sudeste do Arizona. Mesmo que Lobo Cinzento (o general George Crook) o perseguisse até ali, estava disposto a resistir-lhe por todos os meios e, se tivesse que morrer, tombaria com honra.

Em Setembro de 1872, Cochise recebeu a visita de Tom Jeffords, o Barba Vermelha, e de um general, Oliver Otis Howard, também de barba cerrada, ao qual faltava o braço direito.
Tom Jeffords era provavelmente o único branco em quem Cochise e os seus homens confiavam sem reservas. Conheciam-se desde a época em que os Apaches combatiam os Casacos Azuis, depois do incidente de Apache Pass. Nesse tempo, Jeffords estava contratado para levar o correio entre Forte Bowie e Tucson. Mas ele e os seus ajudantes eram frequentemente emboscados pelos índios, o que ameaçava acabar-lhes com o negócio.

Certa ocasião, Jeffords apresentou-se desarmado e sozinho no acampamento de Cochise e disse ao chefe índio que pretendia fazer um acordo pessoal com ele, para poder ganhar a vida transportando o correio. Cochise ficou espantado com o arrojo do interlocutor, mas admirou-lhe a coragem. Nunca vira um branco assim. A verdade é que prometeu a Tom Jeffords que podia carregar o correio à vontade, sem quaisquer problemas, e cumpriu escrupulosamente o seu compromisso. Firmou-se entre os dois, a partir daí, uma forte amizade, e Tom aparecia muitas vezes nos acampamentos de Cochise para conversar e beber com este.


Foi sem dúvida devido à confiança depositada em Tom Jeffords que Cochise aceitou conversar com o general Oliver Howard. Este ambicionava, obviamente, combinar o termo das lutas. Cochise ripostou-lhe que ninguém desejava mais a paz do que ele próprio. Howard sugeriu que os Chiricahuas viveriam muito melhor se aceitassem transferir-se para uma grande reserva, por exemplo, no Rio Grande. Cochise respondeu que preferia a região de Apache Pass e das Montanhas Chiricahua. O general disse que talvez se pudesse considerar tal hipótese.

Oliver Howard permaneceu no acampamento apache durante onze dias, ao longo dos quais se desenvolveram as conversações. O general teve tempo para conhecer melhor o chefe índio, ficando sensibilizado com a sua cortesia, simplicidade e estilo directo. Encantou-se também com as mulheres e as crianças apaches. A conclusão foi feliz: Fui forçado a abandonar o plano inicial, escreveu ele depois, e a dar-lhes, como Cochise sugerira, uma reserva que abrangia parte das Montanhas Chiricahua e do vale adjacente a oeste.
Faltava ainda abordar um ponto: pela lei americana, a nova reserva deveria ter à sua testa um homem branco. Para Cochise, como para os restantes Chiricahuas, não havia que pensar muito para solucionar o problema: Tom Jeffords era o único branco em quem confiavam plenamente. Tom resistiu à ideia, afirmando não ter experiência para um cargo desse tipo. Mas Cochise insistiu, repetidamente, com ele. Por fim, Tom Jeffords acedeu ao pedido do amigo e os Apaches concordaram em transferir-se.

Na Primavera de 1874, Cochise começou a sentir-se doente e o seu estado geral era de grande debilidade. Tom Jeffords foi a Forte Bowie buscar um médico do Exército, que não conseguiu diagnosticar ao certo de que padecia o chefe apache, mas que lhe deu alguns remédios. Cochise não melhorou e passou a sentir dores intensas.
Jeffords dispôs-se a ir de novo a Forte Bowie, e Cochise perguntou-lhe: Acha que me verá vivo quando voltar?
Jeffords usou da franqueza habitual entre os dois amigos: Não, não acho.
Cochise, resignado, disse: Penso que morrerei amanhã, por volta das dez horas da manhã. Acha que nos tornaremos a ver?
Jeffords: Não sei. O que acha?
Cochise: Não sei, não está claro no meu espírito. Mas talvez nos vejamos, sim, nalgum outro lugar.
Cochise faleceu em 8 de Junho de 1874, antes que o seu amigo Tom Jeffords regressasse de Forte Bowie.


 Canção de guerra dos Apaches:

(Continua em 2-Novembro-2019) (4.ª Parte)

Ver 1.ª Parte - aqui
Ver 2.ª Parte - aqui


Bibliografia:

Principal:
Dee Brown - Bury My Heart at Wounded Knee - An Indian History of the American West - 1970.
Outros:
Albert Britt - Great Indian Chiefs - 1938.
Britton Davis - The Truth About Geronimo - 1951.
John C. Cremony - Life Among the Apaches - 1868.
John G. Bourke - An Apache Campaign in the Sierra Madre - 1958.

sábado, 19 de outubro de 2019

Apache! (Episódios da resistência dos povos do sudoeste norte-americano) (2)


Em 1862, o grande e carismático chefe apache Mangas Coloradas recuperava, nas Montanhas Mimbres (Novo México), do grave ferimento que sofrera em combate contra os soldados dos Estados Unidos. Embora envelhecido e bastante mais magro, achava-se ainda capaz de montar a cavalo e de conduzir os seus guerreiros, a maior parte dos quais com metade ou um terço da sua idade.

Mangas Coloradas não alimentava ilusões acerca dos caminhos da guerra. Mesmo podendo contar com um aliado excepcional como Cochise, seu genro, ou com guerreiros não menos valorosos, como Victorio ou Gerónimo, ele sabia que era impossível continuar a resistir por muito mais tempo ao poderio esmagador do exército norte-americano (os Casacos Azuis). Tomara conhecimento de que, ainda recentemente, o inimigo lograra cercar os seus irmãos Mescaleros, confinando-os no Bosque Redondo - mais uma "prisão sem grades". Por outro lado, sabia que os Casacos Azuis procuravam sem descanso os Apaches que recusavam render-se, para os matar com os seus sabres afiados e com a metralha das suas peças de artilharia. Como se não bastasse, os invasores brancos eram agora auxiliados por batedores índios, alguns deles apaches, habilíssimos em seguir os rastos deixados pelos seus irmãos insubmissos. O coração de Mangas Coloradas sofria muito com isso.

Foi nessa altura que o velho chefe começou a pensar em conseguir a paz para o seu povo antes que a morte o surpreendesse. Talvez lhe fosse possível repetir, cogitou ele, o que fizera em Santa Fé, uns anos antes, na década de 1850, quando os Apaches e os Estados Unidos tinham combinado viver em paz para sempre. É claro que esse acordo acabara por ser rompido - era por isso que agora se viviam os dias dramáticos que ameaçavam acabar com ele e com o seu povo. Mas o chefe acreditava, apesar de tudo, que seria ainda viável conversar amistosamente com aqueles terríveis inimigos.

Mangas Coloradas

Em Janeiro de 1863, estando Mangas Coloradas acampado nas margens do rio Mimbres, aconteceu algo que, face aos seus propósitos, ele achou providencial. Um mexicano desconhecido, brandindo a bandeira de tréguas, apresentou-se-lhe no acampamento e informou-o de que havia militares americanos, próximos dali, que tinham vontade de falar de paz. Os soldados, pertencentes aos Voluntários da Califórnia, eram comandados pelo capitão Edmond Shirland.
Mangas teria preferido conferenciar com alguém de patente mais elevada, como, por exemplo, um "chefe estrelado" (um general). No entanto, pressionado pela situação difícil em que se encontrava, resolveu acompanhar o mensageiro. Os seus guerreiros suspeitaram de uma armadilha e aconselharam-no a não ir. Recordaram-lhe o que sucedera a Cochise, em Apache Pass, e os conflitos que se haviam seguido.

Mangas insistiu na resolução e, seguido por uma escolta de quinze guerreiros, tomou o trilho que conduzia ao acampamento americano. Um homem que falava espanhol veio ao encontro da comitiva para guiar o chefe apache até ao capitão Shirland, mas os índios da escolta recusaram deixá-lo ir enquanto não fosse hasteada uma bandeira branca no ponto de destino.
A bandeira acabou por surgir e o próprio Mangas Coloradas ordenou aos seus homens que se fossem embora e o deixassem entrar sozinho no acampamento inimigo. Sentia-se protegido pela trégua oferecida pelos brancos. Cavalgou então, tranquilamente, para o que pensava vir a ser uma proveitosa conversa de paz. Contudo, mal os seus guerreiros desapareceram de vista, irrompeu das imediações um bando de soldados que lhe deram voz de prisão. Com esta pasmosa facilidade (e, certamente, com inesperada ingenuidade) se deixou capturar o famoso guerreiro índio.
Entretanto, no regresso ao acampamento do rio Mimbres, a escolta apache, agora neutralizada, estava longe de imaginar a trágica situação vivida nessa altura pelo seu velho chefe.



Mangas Coloradas foi pressurosamente conduzido ao acampamento dos seus captores. Chegou pouco depois ao local um "chefe estrelado", o general Joseph West, que se apressou a ir ver o prisioneiro e a deambular à sua volta, com mórbida curiosidade, como se estivesse na presença de um animal raro. West teve de o olhar de baixo para cima, porque o índio era muito mais alto do que ele. Mangas já se arrependera amargamente de ter concedido crédito à palavra dos inimigos, mas, com os seus guerreiros ausentes, não havia nada que ele pudesse fazer.

Nessa noite, o chefe apache foi entregue à guarda de dois soldados. Fazia frio, pelo que estes armaram uma grande fogueira de troncos para se aquecerem. Posteriormente, uma testemunha, o soldado Clark Stocking, revelaria ter ouvido o general West a falar com os dois guardas, tendo-lhes dirigido as seguintes palavras: Quero-o morto ou vivo amanhã de manhã - compreendem? - quero-o morto. O destino de Mangas Coloradas tinha sido traçado - e a sentença não poderia ser mais clara.

Uma outra testemunha, Daniel Conner, que patrulhava o acampamento, contou ter presenciado uma cena sinistra por volta da meia-noite. Perto da fogueira, o prisioneiro dormia, ou tentava dormir, tapado por uma manta, mas de vez em quando remexia-se furiosamente. Conner escondeu-se fora do alcance da luz da fogueira e não tardou a perceber o que se passava: os dois guardas aqueciam as lâminas das baionetas nas chamas para logo as encostarem às pernas do chefe índio. Este foi suportando a tortura, até que se ergueu, cheio de indignação, para censurar asperamente os seus algozes. Disse-lhes, em espanhol, que não era uma criança para que brincassem assim com ele. Mas não pôde falar muito mais, porque os guardas dispararam sem aviso e, quando o viram tombado no chão, esvaziaram os tambores dos revólveres no corpo inerte. A cabeça foi-lhe separada do corpo e o seu crânio acabaria por ser vendido a um frenologista do Leste. O corpo decapitado foi atirado para uma vala.
No relatório militar dedicado ao assunto escreveu-se que Mangas Coloradas havia sido abatido quando tentava fugir do acampamento.


Como é óbvio, episódios como este em nada contribuíam para a pacificação das relações entre Apaches e Norte-Americanos. Pelo contrário, a primeira consequência da traição perpetrada por Joseph West foi, como seria de esperar, o recrudescimento das hostilidades. Como testemunhou Daniel Conner: Os índios entraram francamente em guerra e pareciam decididos a vingar a morte de Mangas Coloradas com todas as suas forças.
Cochise, que salvara a vida de Mangas pouco tempo antes, tratava agora, com os seus trezentos guerreiros, de o vingar com ofensivas vigorosas desde o território chiricahua do Arizona até às montanhas Mimbres do Novo México. Desejava, como sempre, expulsar da região os brancos que haviam traído outra vez a sua palavra.

Outros chefes, como Nana e Gerónimo, empenhavam-se também nesta luta de vida ou morte. Victorio conseguiu reunir um importante efectivo, ao qual juntou apaches mescaleros fugidos da reserva de Bosque Redondo, e com ele atacou núcleos de colonos, postos de exército e vias de comunicação, contribuindo para lançar o pânico na região que se estendia ao longo do Rio Grande até El Paso. Durante cerca de dois anos, estes pequenos exércitos apaches mantiveram o Sudoeste americano em sobressalto, impedindo ou dificultando a fixação branca ou o trânsito para a Califórnia. Nem sempre dispunham de armas de fogo, mas não era por isso que renunciavam ao combate. Tinham sempre à disposição os seus arcos e flechas, sendo estas dotadas de pontas de quartzo de terrível eficácia: quando atingiam os alvos, elas penetravam com a força de uma bala cónica.
Lutando numa proporção de um para cem, os Apaches não tinham outro futuro que não fosse a morte ou a prisão. A esse destino só conseguiam furtar-se aqueles que, seduzidos pelas palavras dos brancos, concordavam em servi-los como batedores, seguindo no terreno as pistas dos seus irmãos em luta.

Batedores apaches ao serviço do exército dos Estados Unidos

A outra consequência da atitude dos invasores para com os nativos foi a perda de confiança destes nas diversas iniciativas de negociação. Mas a guerra cansava e destruía, e o poder avassalador dos brancos parecia crescer a cada dia. Por isso, não admira que, já depois de terminada a Guerra Civil americana, alguns chefes índios, com os recursos esgotados, se dispusessem enfim a fazer a paz com aquele inimigo aparentemente invencível. Foi o que sucedeu com Victorio e Nana, por exemplo.

Em Abril de 1865, ambos se avistaram com um representante dos Estados Unidos. Victorio disse que o seu povo era pobre e que quase já não tinham nada para comer ou vestir. Estavam todos cansados e queriam a paz. No fim, para garantir a seriedade das suas palavras, proclamou: Lavei as minhas mãos e a boca com água fria e fresca e o que digo é verdade. Mas a resposta do americano foi curta e brutal, comunicando aos interlocutores que não viera pedir-lhes que fizessem a paz. Se queriam paz, só tinham que aceitar abandonar a região com a sua gente e deslocar-se para a reserva de Bosque Redondo.

Tanto Victorio como Nana tinham ouvido as piores coisas acerca de Bosque Redondo, uma das "prisões sem grades" que os inimigos ofereciam aos índios. Não era por acaso que muitos dos seus irmãos se evadiam de lá e se juntavam às forças em luta. Ficaram, por isso, indignados, e Nana traduziu essa indignação com secura. Disse: Não tenho bolsos para guardar o que acaba de dizer. Mas as suas palavras mergulharam fundo no meu coração. Não serão esquecidas.
Victorio percebeu também que não havia mais nada para falar com aquele homem. Para não levantar suspeitas, disse-lhe que partiria para a reserva dentro de dias, depois de reunir o seu povo e os cavalos. Mas estava evidentemente decidido a não ceder ao ultimato.

O agente americano esperou pelos índios, em Pinos Altos, durante quatro dias. Mas não apareceu um só apache: eles tinham perdido completamente a confiança nos brancos e odiavam a simples ideia de se deixarem confinar em Bosque Redondo. Alguns abdicaram da luta e seguiram para sul, internando-se nas terras mexicanas. Outros cavalgaram para se juntarem a Cochise, no seu refúgio das Montanhas Dragoon.


Lembrado do que lhe sucedera em Apache Pass e do traiçoeiro assassínio de Mangas Coloradas, Cochise continuava o combate contra os americanos. Estes, considerando-o o adversário mais temível, haviam tentado várias aproximações para pôrem fim à guerra com um acordo. Mas o chefe apache não se dignou responder a tais iniciativas: não acreditava na sinceridade dos brancos.
Durante cinco anos, prosseguiram as guerrilhas apaches. Os índios evitavam sistematicamente acercar-se das povoações de colonos ou dos fortes militares, preferindo emboscar caravanas, rancheiros ou garimpeiros isolados. Nessas alturas, investiam para obter cavalos, armas e gado, deixando às vezes para trás algumas vítimas mortais.

No ano de 1870, as guerrilhas atingiram o auge, em locais dispersos e separados uns dos outros por centenas de quilómetros. Como Cochise era o apache mais conhecido dos Americanos, estes responsabilizavam-no, invariavelmente, pela totalidade dos ataques. Na Primavera de 1871, o comissário americano para os Assuntos Índios, Ely Parker, teve a ideia de convidar o chefe apache para viajar até Washington a fim de conversarem. Cochise tornou a recusar. Se já desconfiava antes, mais desconfiado tinha ficado nesse ano, após ser informado do que acontecera ao povo do chefe Eskiminzin.

Eskiminzin, que liderava uma pequena tribo de 150 apaches estabelecidos nas margens do riacho Aravaipa, falara com os Americanos  e aceitara entregar as armas. O seu povo vivia agora pacificamente ao longo do Aravaipa, plantando milho e cozinhando mescal. Alguns chegaram mesmo a empregar-se como lavradores em ranchos das proximidades. Um dia, houve um ataque de apaches a cerca de uma centena de quilómetros dali, incidente logo atribuído, injustamente, aos apaches do Aravaipa.

Uma força fortemente armada, composta por voluntários e mercenários, partiu então de Tucson  para assaltar a aldeia do Aravaipa. O massacre foi terrível. Em cerca de meia hora, e com excepção de umas poucas fugas, a população foi abatida pelos atacantes.
O tenente Royal Whitman, que estabelecera relações amistosas com Eskiminzin, testemunhou: Descobri várias mulheres mortas enquanto dormiam, ao lado dos fardos de forragem que haviam reunido para transportar de manhã. Os feridos que não puderam fugir tiveram as cabeças esmagadas com clavas ou pedras, enquanto alguns haviam sido crivados de flechas depois de mortalmente feridos a tiros. Todos os corpos foram desnudados.
O médico C. B. Briesly, que acompanhava o tenente Whitman, informou que duas das mulheres estavam numa tal posição e, pela aparência dos seus órgãos genitais e das suas feridas, não podia haver dúvida de que haviam sido primeiramente violadas e, depois, mortas a tiros… Uma criança de cerca de dez meses foi atingida duas vezes e a sua perna quase foi cortada.
Posteriormente, foram encontrados nas proximidades da aldeia mais alguns cadáveres, fixando-se em 144 o total de vítimas mortais.
Eskiminzin escapou ao massacre, e alguns apaches acreditavam que ele voltaria a fazer a guerra. Mas não voltou. Anos mais tarde, acabaria por ir parar a uma reserva com algumas dezenas de sobreviventes do seu povo.

Dança apache do Espírito da Montanha:




Continua em 26-Outubro-2019 (3.ª Parte)
Ver 1.ª Parte (aqui)

Bibliografia:
Principal:
Dee Brown - Bury My Heart at Wounded Knee - An Indian History of the American West - 1970.
Outros:
Albert Britt - Great Indian Chiefs - 1938.
Britton Davis - The Truth About Geronimo - 1951.
John C. Cremony - Life Among the Apaches - 1868.
John G. Bourke - An Apache Campaign in the Sierra Madre - 1958.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Catalunha (Catalunya) - Presos políticos, "por supuesto". Qual é a dúvida?...


Convenhamos: na Europa, ponderados os equilíbrios globais e regionais da presente arrumação político-económica, uma eventual independência catalã seria potencialmente catastrófica - e, portanto, é quase impossível que algum dia possa vir a ser tolerada.
Mas, dito isto, sobram do passado a consciência histórica e, vá lá, um dever de gratidão e a necessidade de alguma honestidade intelectual.  Aos que dizem que a Catalunha nunca foi independente e que, portanto, não lhe assiste o direito de reivindicar o que nunca teve, só pode dizer-se que respirem fundo, que se acalmem e que peguem nos livros de estudo...

A Catalunha formou, juntamente com Aragão, a chamada "Coroa de Aragão", tendo o processo começado quando Petronila, filha do rei de Aragão, se casou com Raimundo, conde de Barcelona. Foi isto no ano de 1137, numa altura em que Castela (que fora, ao princípio, um modesto condado nortenho integrante do reino de Leão) ainda mal iniciava o processo de afirmação expansionista que levaria, ao correr dos séculos, à Espanha actual.
Só em 1230 Castela se uniria definitivamente ao reino de Leão para formar o reino de Leão e Castela, mais tarde Coroa de Castela.

À margem dessa entidade política, prosperava, com absoluta autonomia e independência política, a Coroa de Aragão (e, portanto, a Catalunha).
Imensamente mais poderosa e rica do que a vizinha Leão e Castela, a Coroa expandiu-se pelo Mediterrâneo. Integrando já Valência e Maiorca, e tendo Barcelona como sua estrela mais refulgente, esse império estendeu-se pela Sicília, Sardenha, reino de Nápoles e, na Grécia, pelos ducados de Atenas e de Neopatria.
Pode ter uma visão disto no mapa seguinte (espaços vermelho-acastanhados). Repare como Castela (em amarelo) se espremia, à esquerda, contra o flanco deste poderosíssimo império.


As coisas começariam a pender para o que são hoje quando o herdeiro do trono aragonês (Fernando) se casou com a (depois) rainha de Castela, Isabel (1469). Foram mais tarde conhecidos como os Reis Católicos.

Essa união pessoal não originou a imediata união ou fusão das duas coroas (Aragão e Castela), constituindo apenas um primeiro passo  para ela. Mas durante séculos as respectivas instituições e mecanismos de governo conservaram a autonomia: só nos princípios do século XVIII, através de uma série de decretos, foi a mesma abolida na Catalunha, tornando-se preponderante (e, sempre que foi preciso, ferozmente interveniente) a autoridade centrada em Madrid. Mas esse domínio "espanhol" nunca foi pacífico em terras da Catalunha.

É desta memória histórica que muitos dos que hoje se manifestam são portadores - sendo por causa da mesma memória que os cidadãos acima retratados definham na prisão sob o peso das sentenças recentemente baixadas. Nessa memória cabem igualmente os inúmeros abusos que o poder dominante foi perpetrando ao longo da história - desde cerceamento de direitos, supressão de leis autonomizantes e intervenções militares brutais, até (pasme só quem não conheça bem "Castela/Espanha"...) à proibição de falar, escrever ou publicar na própria língua (o Catalão). Isto ainda se passava há cerca de meio século...

Portugal - Dia 1 de Dezembro - Ano de 1640

Passemos agora ao que nos toca: Portugal poderia estar a viver hoje situação idêntica à dos Catalães. Também tínhamos sido independentes durante séculos, como eles foram. Também detínhamos um império. Mas, caso Castela houvesse triunfado sobre nós, estaríamos agora a escrever palavras muito parecidas com estas, trocando apenas o mapa acima por um outro, mais virado ao Atlântico e ao Índico.
Seria talvez assim se o país não tivesse sacudido a pata imperial castelhana em diversas ocasiões (Aljubarrota, por exemplo). Seria com certeza assim se, no ano de 1640, o país não tivesse expulsado o poder de Madrid, simbolizado pela duquesa de Mântua, entrando num período de vinte e oito anos de guerras para nos vermos livres de "Castela/Espanha" (ver aqui).

Consideram os estrategas lusos e, pelos vistos, a maioria dos que por aqui vão fazendo opinião, que uma independência catalã, ou outra tendência separatista de uma diferente região (potencialmente desagregadoras da Espanha que conhecemos), não nos convêm...
Sob um ângulo egoisticamente calculista, pode ser que sim.
Todavia, sempre que um qualquer português se sinta tentado a, por essa razão, censurar aqueles homens e mulheres agora condenados (bem como os que se apresentam, marchando com as suas bandeiras, nas ruas da Catalunha), é melhor que o faça baixinho e, já agora, com uma honesta dose de pudor.

É que os Portugueses devem em grande parte a sua liberdade e a sua independência aos antepassados desta gente. O nosso golpe de 1640 dificilmente teria sido bem sucedido se "Castela/Espanha" não andasse por essa altura a dispersar os seus exércitos para enfrentar os que se lhe opunham na Europa e, em particular, para esmagar os que, na Catalunha, nesse mesmo ano, pugnavam, tal como Portugal, por reconquistar a independência perdida.
Nós ganhámos. Eles perderam - e continuam a perder até hoje.
Se não fosse isso, teríamos presumivelmente sido obrigados a passar pela humilhação - como eles passaram - de ter de renunciar ao nosso belo idioma para adoptar o dos nossos opressores.
"Por supuesto"...



sábado, 12 de outubro de 2019

Apache! (Episódios da resistência dos povos do sudoeste norte-americano) (1)


Os Apaches, não obstante o seu número relativamente reduzido, lutaram com ferocidade, durante séculos, contra os estrangeiros que, vaga após vaga, devassavam as suas terras - uma extensa região compreendida entre o sudeste da Califórnia e o oeste do Texas e o nordeste do Arizona e o norte do México.
Primeiro fizeram frente aos Espanhóis, com os quais aprenderam técnicas refinadas de tortura e mutilações. Foram alunos aplicados e tornaram-se exímios seguidores dessas práticas, incorporando-as nas suas actividades de resistência e transmitindo-as de geração em geração. Combateram depois os Mexicanos, ainda que não lograssem expulsar de vez qualquer dos inimigos.
Nos finais da primeira metade do século XIX chegaram outros adversários, infinitamente mais poderosos e letais, os Norte-Americanos, que organizaram pouco depois a primeira campanha em forma contra eles (1851). Deste modo se inaugurou um longo ciclo de conflitos (as Guerras Apache), que se arrastaria, com intermitências, até quase ao fim do século.

Do lado dos Apaches, sub-divididos em diversas tribos (Chiricahua, Mescalero, Lipan, Jicarilla, etc.), sobressaíram chefes notáveis, de que ainda se recordam, com ressonâncias míticas, as vidas, os feitos e os nomes: Mangas Coloradas (1793-1863), Cochise (cerca de 1810-1874), Victorio (1825-1880) e Nana (1800?-1896). E, ainda, Gerónimo (1829-1909), o último dos grandes resistentes).



Os períodos de guerrilha apache eram esporadicamente interrompidos por conversações com as autoridades norte-americanas, de que resultavam acordos de paz. Mas, regra geral, esses tempos de acalmia revelavam-se efémeros - e as culpas podem repartir-se pelos dois lados. Nalgumas ocasiões, garimpeiros ambiciosos, atraídos pelo ouro daquelas terras, impunham a sua presença a ferro e fogo. Famílias de colonos deambulavam também pela região, atraindo a animosidade dos índios. Assaltos a caravanas e a propriedades, realizados por estes, tornaram-se frequentes, com o seu cortejo de roubos e massacres.
A partir de certa altura, a política do governo americano implicou a remoção dos Apaches (e de outras tribos) para as chamadas "reservas", o que só serviu para intensificar os ódios e a vontade de resistência dos nativos, muitos dos quais se evadiam dessas "prisões sem grades" à primeira oportunidade.
A precipitação e a inabilidade de alguns agentes governamentais, responsáveis por abusos e injustiças gritantes, originavam amiúde verdadeiras tragédias, como sucedeu, por exemplo, com Cochise (genro de Mangas Coloradas).



Cochise


Cochise era um chefe apache chiricahua, alto, entroncado, bem-parecido e inteligente. Os brancos que o conheceram elogiaram-lhe as boas maneiras e relataram que era muito asseado e cuidadoso da sua aparência. Na altura em que os Americanos chegaram ao Arizona, ele recebeu-os bem, não lhes dando quaisquer razões de queixa. Em 1856 chegou mesmo a um acordo com o major Steen, do 1.ª Regimento de Dragões dos Estados Unidos, prometendo deixar que os americanos atravessassem pacificamente as terras chiricahuas na sua marcha para a Califórnia. Não viu também inconveniente em que o Butterfield Overland Mail instalasse uma estação de diligências em Apache Pass. Pelo contrário: a troco de provisões, os chiricahuas concordaram em cortar madeira para a estação.

A tragédia começou a esboçar-se em Fevereiro de 1861, quando um oficial americano - o tenente George Bascom - solicitou a presença de Cochise na estação de Apache Pass. Completamente desprevenido, o chefe índio compareceu ao encontro acompanhado por cinco membros da sua família - um irmão, dois sobrinhos, uma mulher e uma criança.
Mal deu entrada em Apache Pass, viu-se cercado por uma dúzia de soldados, enquanto o tenente Bascom lhe atribuía crimes graves: assalto ao rancho de John Ward, roubo de gado e rapto de um menino mestiço residente no rancho.
Cochise ficou incrédulo com a acusação. Quando percebeu que o militar estava a falar a sério, ofereceu-se para colaborar na recuperação do gado e da criança (o assalto fora perpetrado por um bando de coyoteros, índios errantes que raziavam o território). Bascom não só rejeitou a proposta, como deu voz de prisão ao chefe índio e aos acompanhantes, afirmando que só os libertaria quando o gado e a criança voltassem ao rancho de John Ward.


Cochise resistiu à prisão. Com um golpe de punhal rasgou o pano da tenda em que se encontravam e, apesar de ferido, conseguiu fugir sob uma chuva de balas. Os seus parentes ficaram nas mãos dos americanos. Furioso com o procedimento destes, reuniu os guerreiros e não tardou a capturar três brancos, que se propôs trocar pela sua gente. Bascom insistiu teimosamente nas exigências: não largaria os reféns apaches sem que o gado e a criança fossem devolvidos. O episódio acabaria da pior maneira. Cochise torturou e matou os seus três prisioneiros; o tenente Bascom mandou enforcar os sobrinhos e o irmão do chefe índio.

Diz-se que foi depois destes acontecimentos que os Apaches Chiricahuas transferiram para os Americanos o ódio que tinham votado aos Espanhóis. Durante o quarto de século que se seguiu, eles - e as demais tribos apaches - desencadearam campanhas de guerrilha que custaram aos brancos, em vidas e dinheiro, bastante mais do que qualquer outra das guerras índias.

Cochise, sedento de vingança, juntou as suas forças às do sogro, Mangas Coloradas, ainda um grande guerreiro nessa época (1861) apesar dos seus quase 70 anos. O objectivo comum consistia em afastar definitivamente os Americanos da sua terra natal.
Foram atacadas, e por vezes destroçadas, inúmeras caravanas de colonos. O tráfego das diligências e dos correios sofreu interrupções prolongadas. Centenas de mineiros brancos tiveram de deixar precipitadamente a região compreendida entre as montanhas Chiricahua e as Mogollons, e alguns deles perderam a vida antes de poderem escapar.

Batalha de Apache Pass

Durante a Guerra Civil americana (1861-1865), Mangas e Cochise tiveram recontros com os beligerantes que passavam ou estacionavam no território - primeiro com os Confederados (os Casacos Cinza), depois com as tropas da União (os Casacos Azuis).
Num desses combates com os Casacos Azuis, perto de Apache Pass, os militares americanos fizeram uso de peças de artilharia de grande calibre, muito mais poderosas do que os pequenos canhões que os Espanhóis tinham utilizado contra os Apaches. As forças de Cochise e de Mangas Coloradas sofreram na ocasião mais de 60 baixas mortais. Na perseguição a um pelotão de soldados desgarrado, Mangas foi gravemente ferido no peito e tombou do cavalo.

Desalentados com a perda do seu chefe, os Apaches cessaram a luta e retiraram para as montanhas com ele. Mas Cochise fez tudo para não deixar morrer o seu respeitado e famoso sogro. Colocou-o numa padiola e, acompanhado por uma escolta de guerreiros, cavalgou mais de 150 quilómetros para sul, através do México, até chegar à aldeia de Janos, onde habitava um médico famoso. As palavras que dirigiu a este foram breves, mas claríssimas: Cura-o. Se ele morrer, esta aldeia morrerá com ele.
Mangas Coloradas salvou-se, e com isso se salvaram o médico e a aldeia. Alguns meses mais tarde, o velho guerreiro estava de volta às suas montanhas Mimbres.

(Continua em 19-Outubro-2019)


Bibliografia:
Principal:
Dee Brown - Bury My Heart at Wounded Knee - An Indian History of the American West - 1970.
Outros:
Albert Britt - Great Indian Chiefs - 1938.
Britton Davis - The Truth About Geronimo - 1951.
John C. Cremony - Life Among the Apaches - 1868.
John G. Bourke - An Apache Campaign in the Sierra Madre - 1958.