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sábado, 5 de outubro de 2019

"A Volta ao Mundo", de Ferreira de Castro (3) - Das despedidas do Japão ao terrível tufão em alto mar




Ferreira de Castro visitou o Japão durante os primeiros tempos do conflito desencadeado por Adolf Hitler na Europa (1939). Nessa altura, os nipónicos ainda não haviam declarado guerra aos Estados Unidos, o que só viria a ocorrer após a sua agressão a Pearl Harbor (1941). Mas o escritor deu-se conta do clima belicista em seu redor, decorrente da invasão da China perpetrada pelos seus anfitriões a partir de 1937.
 Quando chegou o dia da despedida, a bordo do “Kamakura Maru”, no porto de Iocoama, ele pôde testemunhar um momento fugaz, mas eloquente, desse terrível conflito:

“Na baía passa um barco cinzento, carregado de tropas, a caminho da China. Junto das amuras, os soldados gesticulam para marinheiros de outros navios fundeados. Decerto também muitos olhos choraram e choram por eles, não aqui, mas lá nas aldeias do interior, onde a vida é mais dura e se sabe pouco do Mundo”.

O escritor notou, igualmente, um certo tipo de tensão racial no ambiente:

“Quanto mais se convive com os japoneses e melhor se conhecem as suas qualidades, mais se lastima este orgulho racial de que a maioria deles se encontra impregnada e o rumo bélico que a esse orgulho tem sido dado (…). Isto explica até a atitude que o próprio ministro do Japão no Canadá, que viaja, também, no “Kamakura Maru”, toma perante os passageiros europeus e americanos, afirmando, ostensivamente, os costumes nipónicos – fazendo-se servir à mesa antes da mulher, que o acompanha, e andando pelo convés sempre com ela três passos atrás dele…”





E Ferreira de Castro entra, propriamente, no relato da viagem:

“O cinzento barco que transporta soldados para a China desaparece no fim da baía de Iocoama. Também o “Kamakura Maru” está prestes a abalar. No grande salão de primeira classe, rudes funcionários examinam, até ao último “sen”, o dinheiro dos passageiros. É tão difícil a um japonês sair hoje do seu país, como a um estrangeiro nele entrar. Os nipões que enchem o “Kamakura Maru” são antigos emigrantes que, após uma visita à pátria, regressam às ilhas de Hawai e a S. Francisco, onde vivem há muito. As suas famílias continuam a acenar-lhes com leques e bandeirolas, no molhe. Sayonara! Sayonara! Adeus! Adeus!

O navio desatraca e vai-se afastando lentamente. Singramos entre barcos alemães que trafegavam no Oriente quando explodiu a guerra na Europa e que vieram refugiar-se aqui. Das suas amuras, os marinheiros contemplam, estáticos, o avanço do barco que nos conduz. Cruzamo-nos, em seguida, com dois orgulhosos couraçados nipões, que demandam a sua base em Iocosuca, onde se encontra, como símbolo naval, a lápide mortuária de Will Adams, o primeiro inglês que desembarcou no Japão. Lá se vê, também, transformado em museu, o velho navio do almirante Togo, o homem que convenceu os japoneses de que eles poderiam ser invencíveis nas águas do Pacífico…

Ao fim da tarde, com uma longínqua imagem do Monte Fuji, última visão da terra japonesa, estamos no mar largo (…). Vamos navegando, agora, no famoso “Mar de Iocoama”. Estamos já a um dia das costas nipónicas e, junto do escritório do comissário, numerosos japoneses aguardam, em fila, a sua vez de telefonar os últimos adeuses para Tóquio.





De súbito, aparece um criado, a recomendar, pressurosamente, aos passageiros, que acomodem bem os objectos frágeis que tenham nos camarotes, pois um tufão se aproxima.
Vemos alguns marinheiros colocarem cordas brancas ao longo dos corredores, para os viajantes a elas se agarrarem quando caminhem. Em todo o navio há passos lestos, portas que se abrem e fecham, um movimento nervoso.
Nós aceitamos o próximo acontecimento com certo optimismo. Havíamos atravessado o Mar da China, em pequenos barcos, justamente no período dos tufões – e não encontrámos tufão algum. Agora, que o navio era grande e íamos no Pacífico, o episódio devia carecer, talvez, de importância…

Cerca do meio-dia principiou o espectáculo – o medonho espectáculo! O céu escureceu mais. E o vento, que começara por suave litania, passou a ter uivos sinistros, prolongados, repetidos, uivos que se produzem no próprio navio e que, todavia, parecem vir das lonjuras infinitas do oceano. A bordo, a madeira, o ferro, o aço, tudo quanto se mantém inânime e mudo, brama e geme agora. O vento mete-se nos móveis, trespassa-os e fá-los gemer também.





Lá fora passa-se algo apocalíptico. O imenso oval do mar, tão liso, tão tranquilo na véspera, mostra-se lavrado por altivas ondas, que se sucedem umas às outras, se aniquilam a si próprias e renascem de novo, cada vez mais altaneiras. O oceano adquiriu, na sua majestosa revolta, um tom de azul forte, quase negro. Às vezes parece, mesmo, breu derretido correndo em fúria ciclópica. Ao quebrar-se, as enormes vagas projectam, sobre esta cor de tragédia, grandes manchas dum verde de sulfato de cobre, que alastram um momento e logo desaparecem. Com o dorso enfeitado de espuma, as ondas criam uma alucinante paisagem de montanhas riscadas de neve, montanhas móveis, que abrem, entre si, constantes abismos.

O “Kamakura Maru”, um dos cinco maiores navios do Japão, formosa nave de que os nipões tanto se vangloriam, é, agora, um mísero brinquedo entregue à cólera dos elementos. Ele inclina-se, tontamente, a bombordo e a estibordo, ergue-se de proa e logo de popa, como se procurasse uma estabilidade que jamais encontra. Cada vez as suas inclinações são maiores e dir-se-á que vai tombar definitivamente, dum momento para o outro.

De quando em quando, as ondas apresentam-se muito mais altas do que o navio; vemo-las ao nosso lado e acima de nós como quem contempla, de baixo, uma grande muralha, e essa mole rugidora parece ir desmoronar-se sobre o barco, afundando-nos num segundo. E sempre, sempre, o uivo macabro do vento, cada vez mais forte. O furacão pulveriza a água na crista das ondas, lançando, depois, longas nuvens de poeira líquida, que invadem o navio, fustigando-nos violentamente o rosto, como se fossem saibro. Não se pode andar no convés. O vento arrasta-nos e atira-nos contra a amurada.





A bordo já tudo foi amarrado e no soalho estenderam-se ásperas telas para evitar que os passageiros escorreguem, ao caminhar agarrados às cordas. Mas isso é quase inútil. Quando o navio se inclina mais, parecendo deitar-se, de lado, sobre o mar, ouvem-se gritos de alucinação, surdos rumores e sucessivos estrondos.
São passageiros aterrorizados e são móveis que se desaparafusam e correm, entrechocando-se, no declive subitamente criado; é o piano que se volta e vai bater no grande espelho, partindo-o com enervantes estrépitos. E, algures, algo tomba, pesadamente, como numa cisterna com eco.

No jardim de inverno, as longas cadeiras de repouso, que, com suas seis pernas, pareciam aptas a resistir ao trágico balanço, disparam também, como os móveis, umas fecham-se por si próprias, outras despedaçam-se, lançando violentamente os ocupantes ao chão.
Vários passageiros ficam feridos. Muitos deles já estavam doentes, com convulsões do estômago, desde o princípio do tufão; tinham, porém, abandonado os camarotes, receando que, no caso de naufrágio, estando eles lá metidos, não se pudessem salvar.

Com andamento grotesco, que outro não permitem as inclinações do barco, várias mulheres são conduzidas à enfermaria. E de entre os japoneses instalados na proa vêm constantes gritos, que o vento logo abafa. Vemos passar um homem numa maca, logo um segundo amparado por enfermeiros. O primeiro fracturou uma perna, e do outro o sangue escorre-lhe da cabeça.





Aproxima-se a noite e a inferneira prossegue. As vagas apresentam-se mais sombrias, mais trágicas, na sua batalha imensa e inútil. E o rugido aéreo continua satanicamente.
Poucos descem para jantar. Quase todos estão de olhos fixos no mar e de ouvidos captando a ária sinistra, à espera do que pode acontecer, do que eles pensam que pode acontecer dum instante para o outro.

Às vezes, o navio eleva-se tanto que nos falta o ar. E dir-se-á que o próprio barco deixou de respirar perante a incerteza do seu destino imediato, como se receasse não poder escapar desta ou daquela onda que, de súbito, o ergue no seu dorso e logo o deixa cair no abismo.

Assim vivemos a noite, até que a fadiga nos venceu. O homem habitua-se a tudo e nós acabamos por adormecer. De manhã, já o tufão ia longe. Tínhamos saído, enfim, do “Mar de Iocoama”. Estávamos já distantes do Japão, mundo de estranhas e contraditórias imagens que, provavelmente, a nossa vida não permitirá que voltemos a ver. Sayonara!"
.....................

Fonte: Ferreira de Castro - A Volta ao Mundo (3.º vol., de um total de 3 - Livraria Editora Guimarães & C.ª - Lisboa - Portugal - Ano de 1952.

Ver anteriores postagens de "A Volta ao Mundo":
 
(1) No cemitério dos Parsis, em Bombaim, Índia: aqui
(2) Encontro com as Gueixas, no Japão: aqui
 

sábado, 28 de setembro de 2019

" A Volta ao Mundo", de Ferreira de Castro (2) - Encontro com as Gueixas, no Japão





Na sua longa viagem, Ferreira de Castro chegou ao Japão pouco depois do começo da 2.ª Guerra Mundial (1939). Nessa altura, faltavam quase dois anos para o ataque nipónico a Pearl Harbor, o qual traria como consequência a entrada em força dos Estados Unidos na guerra. Mas o Japão não se achava em paz, estando empenhado, desde Julho de 1937, na brutal invasão da China (2.º conflito sino-japonês).

Apesar disso, o escritor pôde percorrer demoradamente várias cidades do país, legando-nos sobre essas visitas dezenas de páginas interessantíssimas. Em Tóquio, como não podia deixar de ser, decorreu o seu


Encontro com as Gueixas


“Os nossos companheiros metem-nos num dos restaurantes. Ao lado de cada um de nós senta-se uma gueixa. Japonês saturado da mulher e do ambiente doméstico, se pensa ir jantar fora de casa com um amigo, pensa, ao mesmo tempo, jantar com o amigo e com duas gueixas.

Pequeno ou grande burguês, industrial, financeiro, almirante, ministro do imperador, nenhum deles concebe banquete ou simples colação num restaurante sem a companhia destas raparigas. Por mor disso, muitas personagens nipónicas têm perdido a vida, porque algumas gueixas, senhoras de segredos de Estado e de conspirações que surpreendem durante os jantares, acabam por cometer funestas inconfidências. Mas tão arreigado está o hábito da companhia grácil, que se, um dia, as gueixas desaparecerem da vida nacional, haverá muitos infelizes entre os homens endinheirados do Japão…



As gueixas não são prostitutas. O seu nome significa, em japonês, “pessoas de arte”. Quase todas elas são vendidas, pelos pais, às donas das geishayas, quando se encontram ainda na infância, e, depois, metidas num dos vários colégios, destinados a educá-las, que existem em Tóquio e noutras cidades.
Ali, até aos quinze anos, aprendem as boas maneiras e a cultura artística que devem tornar grata a sua presença junto dos homens. Ensinam-lhes poesia, música e danças. Ministram-lhes, ao mesmo tempo, conhecimentos sobre a história nipónica e a geografia universal.

Ultimamente, dada a evolução do país, as gueixas aprendem, também, assuntos militares que possam interessar, durante os banquetes, aos ministros, aos almirantes e aos generais, pois estes preferem, hoje, falar de canhões, de navios de guerra e de soldados do que ouvir poemas clássicos…



Após tão variada educação, a nova gueixa está apta a comparecer nos restaurantes. Basta telefonar para a geishaya e ela acorre à chamada, com outras companheiras – tantas quantos são os senhores que pretendem comer em companhia feminina. A sua presença é paga à hora e incluída na conta do jantar, aumentada de uma sobretaxa, porque o Estado considera actualmente as gueixas como artigo de luxo.

O dinheiro vai daqui para a bolsa das matronas que exploram estas raparigas. As gueixas raramente vêem uma nota de banco. Vestidas e alimentadas pelas geishayas, creditam-lhes a quinta parte de quanto fazem, em desconto dos yenes que os pais receberam pela sua venda. Este dinheiro deve estar integralmente coberto antes de a gueixa atingir 25 anos, pois, com essa idade, já a têm por velha.



Há gueixas que, pela sua beleza ou pelo seu espírito, criam fama semelhante à das artistas em voga – e, para as ter à mesa de jantar, é necessário o candidato à sua companhia inscrever-se com dias e até semanas de antecedência… Quando se pede determinada gueixa, as matronas consideram que essa preferência vale dinheiro e cobram o dobro do preço de uma gueixa indeterminada.

(…) Junto dos seus clientes, as gueixas devem mostrar-se como figuras de encanto visual e espiritual e não como cortesãs. Elas podem sorrir maliciosamente e nublarem de voluptuosidade os seus olhos; nada mais, porém, lhes é consentido pelos regulamentos, nem aos que elas fazem companhia é permitido solicitar mais.

Se surgem paixões devem curar-se fora dos restaurantes, porque o contrário seria atentado aos bons costumes. Geralmente, a dona da geishaya, uma velha gueixa reformada, vende, por alto preço, a “primeira noite” da pupila. Depois disso, a nova gueixa é livre de amar quem quiser, desde que o não faça nas horas destinadas ao seu trabalho. E ela ama, quase sempre, um jovem nipónico que não tem dinheiro para ir aos restaurantes e que detesta, como é humano, todos os restaurantes onde a eleita vai exercer a profissão.



Das três gueixas que, esta noite, nos fazem companhia, nenhuma conta mais de vinte anos. Não são muito bonitas, mas são graciosas – bonecas de sorriso doce e delicados gestos. Ajoelhadas sobre as almofadas e corpo repousando nos calcanhares, enchem os nossos copos e dominam o riso perante a careta que nos provoca o “saké”, bebida feita de arroz. Têm sempre à mão uma caixa de fósforos para acender os nossos cigarros e mesmo palitos para servir os clientes…

Entendemos ser injusto e absurdo que, estando nós a jantar, elas não jantem também. Mas as três dizem-nos que não podem fazê-lo, por ser contra o regulamento do seu ofício. Comeram antes de vir para aqui e comerão novamente logo que daqui saiam. Falam inglês com uma suavidade que as próprias inglesas não conseguem ter. Todos os seus gestos foram estudados, mas, agora, elas portam-se com tanta naturalidade como se já tivessem nascido assim.


No restaurante, cheio de balões japoneses, há outros grupos de comensais e de gueixas e sente-se que, perante uma risada, uma harmonia de poema recitado, um trecho de música, estas três raparigas desejariam voltar a cabeça e ver o que se passa. Contudo, não o fazem. Por fim, uma delas recita, também, velhas poesias nipónicas, que, para nós, valem apenas pela sua melodia e pelo encanto que lhes dá a própria recitadora.
Em seguida, a “Ritmo de Fonte”, a mais nova das três, toca o seu “shamisen” e logo as demais dançam. Até há pouco, as danças ocidentais eram cultivadas na vida nocturna de Tóquio e algumas das próprias gueixas as executavam.

Ultimamente, porém, as autoridades proibiram todas as danças da Europa e da América, por as considerarem imorais e anti-nacionalistas. Assim, estas duas gueixas dançam com movimentos puramente nacionais – movimentos tão vagarosos e monótonos que nem os das sagradas virgens do templo de Nara…

Quando elas terminam, o nosso anfitrião decide ir mostrar-nos o famoso jardim de Asakusa.”





Fonte: Ferreira de Castro - A Volta ao Mundo (3.º vol., de um total de 3) - Livraria Editora Guimarães & C.ª - Lisboa - Portugal - Ano de 1952.

Ver a postagem (1) de "A Volta ao Mundo".

sábado, 14 de setembro de 2019

"A Volta ao Mundo", de Ferreira de Castro (1) - "No cemitério dos Parsis, em Bombaim, Índia"


José Maria Ferreira de Castro, nascido em Ossela, Oliveira de Azeméis (Portugal), em 24 de Maio de 1898, foi um dos mais ilustres escritores portugueses. Faleceu na cidade do Porto no dia 29 de Junho de 1974.

Emigrado para Belém do Pará (Brasil) com a idade de 12 anos, sofreria na carne e no espírito, durante vários anos, a dura experiência do trabalho na floresta amazónica, em pleno seringal Paraíso. Mas foi aí que pôde recolher material para um livro que, bastante mais tarde, o tornaria conhecido e lhe traria a consagração (A Selva). Saiba mais sobre o grande escritor: aqui.

Busto de Ferreira de Castro, em Manaus, Amazonas, Brasil

Às vésperas da 2.ª Guerra Mundial, Ferreira de Castro embarcou, com a esposa, para uma peregrinação ao redor do planeta, cujas peripécias revelaria na obra A Volta ao Mundo.
Passando por Grécia, Turquia, Iraque, Índia, Birmânia, Malaca, Bornéu, Sião, Indochina, China, Japão, Honolulu e Estados Unidos da América, deixou sobre tais paragens centenas de páginas memoráveis. Partiu do rio Tejo, em Lisboa, no navio Saturnia, a primeira das vinte embarcações em que tomaria lugar, nos meses seguintes, para completar a fascinante viagem. E fixou, logo ali, as primeiras impressões:
 
O navio larga às três da tarde. No cais, os nossos amigos acenam-nos os últimos adeuses. E, por detrás, nas suas sete colinas, espairece ao sol a velha cidade de Lisboa.
Outrora, estes outeiros, vestidos de policromo casario, viam partir os homens em frágeis caravelas, rumo ao desconhecido, que os oceanos eram, para eles, tão fabulosos como o foram, um dia, para os nossos olhos de menino.
Nós vamos ver, agora, o planeta que eles devassaram em todas as direcções, há quase cinco séculos, e, para se iniciar a volta ao Mundo, bom é o porto de onde largaram aqueles que o Mundo andaram a descobrir.
O Saturnia desce, lentamente, o Tejo, e, à direita, entre as velas do rio, fulge a Torre de Belém, símbolo do país das grandes viagens. Mais abaixo, a luz vespertina enche de colorido as vivendas do Estoril, enquanto, lá ao fundo, na serra de Sintra, irisada bruma dá ao castelo um aspecto fantástico (...)

A Torre da História Ibérica inicia uma homenagem ao escritor, abrindo com uma selecção de textos desta obra.




No cemitério dos Parsis, em Bombaim, Índia

“A maior curiosidade de Bombaim reside, porém, nas aves que devoram cadáveres humanos, em tácito acordo com a família dos mortos. São abutres ao serviço de velha religião, banqueteando-se, diariamente, com os corpos dos Parsis, uma das muitas raças que vivem na Índia. Os abutres não passam, talvez, de 500, e os Parsis de 80 000.

Pequenos em número, uns e outros são poderosos em Bombaim, aqueles na morte, estes na vida. Banqueiros, industriais, grandes comerciantes, os Parsis luzem boas gorduras entre uma população que é, quase toda ela, esquelética. Por mor disso e ainda por um casaco que lhes desce até aos joelhos e uma espécie de mitra de oleado negro, salpicada de bolinhas brancas, eles distinguem-se de todos os outros transeuntes nas ruas de Bombaim.
Ricos e com opulentos interesses a defender, eram os principais colaboradores dos Ingleses. Até há pouco, o movimento de libertação hindu mereceu-lhes indiferença e, por vezes, mesmo oposição. Eles estavam, comodamente, com o mais forte. Ano após ano, Gandhi fatigou-se, em vão, lançando “apelos aos irmãos Parsis” para que lhe dessem o seu apoio. Mas só nos últimos tempos, quando viram a Inglaterra hesitar perante a insurreição latente, eles concederam alguma simpatia ao velho libertador.

De origem persa, os Parsis mantiveram, através dos séculos, uma das religiões da pátria perdida: a doutrina de Zoroastro, o Zaratustra lendário. São masdeístas e têm o culto do fogo (…).

Como em quase todas as religiões, os ritos funerários são os mais impressionantes do Masdeísmo. Os Parsis consideram o fogo, a água e a terra elementos sagrados, que não devem ser conspurcados pela vil matéria humana. Assim, para se desfazerem dos cadáveres da sua comunidade, eles usam singular processo: em vez de os entregar à terra ou ao fogo, entregam-nos aos abutres. Os Parsis têm, mesmo, um sítio próprio para a macabra função, um sítio de nome belo – as Torres do Silêncio. Lugar vedado ao público, para visitá-lo é necessária autorização especial, que se concede poucas vezes e quase que exclusivamente a estrangeiros. Após várias formalidades, conseguimos obter essa regalia (…).

Uma das Torres do Silêncio

Fica a estranha necrópole em Malabar Hill, bairro luxuoso de Bombaim, situado sobre uma colina, ao fundo da cidade e próximo do mar. Entre opulentas moradias burguesas, cercadas de parques, topa-se, de súbito, com um vasto jardim. De começo, vêem-se apenas árvores. Há, em seguida, uma porta, logo uma alameda e, mais além, a casa dos guardas (…).

Entre longas áleas, vários talhões arrelvados exibem palmeiras, acácias, arequeiras, muitas outras árvores. Quase ocultos pela vegetação, divisam-se, ao fundo, os Dokmas – as Torres do Silêncio. São cinco: uma destinada aos parsis ricos, três aos pobres e remediados, a outra aos suicidas. Circulares e de fraca altura, estas fúnebres construções assemelham-se a minúsculas praças de touros. Cada torre tem uma só porta, que ninguém, salvo os sacerdotes, pode transpor. Os próprios Parsis só a atravessam quando já são cadáveres. Nas alamedas, há placas de ferro prevenindo: Stop here. Até as famílias dos mortos devem despedir-se deles aqui, no mesmo lugar em que estamos, a cinquenta metros das torres.

Olhamos as árvores. Belas acácias rubras, agora em flor, estão cobertas de abutres, uma espécie de urubus, negros, gordos, repugnantes, que dormitam com as asas negligentemente descaídas. Todos os dias eles devoram três, quatro e mais cadáveres. Certos de que terão alimento, raramente saem do jardim. Quando os corpos humanos não bastam para todos eles, é-lhes fornecida carne podre, já que os Parsis não desejam ver emigrar estes seus preciosos colaboradores no culto de Zoroastro…
Parsis de Bombaim (1878)
O guarda mostra-nos uma miniatura, em gesso, das Torres do Silêncio, para que possamos saber como elas são interiormente e como se efectua a eliminação dos mortos.

Cada torre, que nenhum tecto cobre, apresenta, quase no cimo, um pavimento circular, afunilando-se, em declive suave, até um poço central. Este pavimento divide-se em três secções concêntricas, onde se abrem os pavis, sucessivas cavidades destinadas aos cadáveres. A primeira secção, a maior, reservam-na aos homens; a segunda às mulheres e, às crianças, a terceira.

Bem lavado, bem penteado e envolto em pulcro tecido, leve como pluma e níveo como a neve, o cadáver é conduzido para o jardim, num cortejo em que todos vestem de branco: a família, os amigos, os sacerdotes e a própria padiola onde repousa o morto.

Sobre as árvores, os urubus estendem o pescoço depenado e movimentam levemente as asas para lhes quebrar a inacção. Mas não disparam logo; eles conhecem já de cor toda a cerimónia e sabem que o festim tarda ainda algum tempo.

A procissão funerária avança pela alameda central e detém-se junto do Templo do Fogo, que se ergue no meio do jardim. Agora, os sacerdotes traçam misteriosos gestos e murmuram sagradas encomendações. Novamente os vivos se põem em marcha, levando o morto. Vinte passos adiante, está uma peanha de mármore, onde é colocada a padiola.

Aproxima-se o último momento. Os abutres sabem-no e aproximam-se também, voando de árvore em árvore, os olhos fixos na carne humana que lhes vai ser oferecida.
Para a família, o trânsito já findou. Aqui se despede do morto, porque os ritos não consentem que ela vá mais além.
Quatro servidores de Zoroastro pegam no cadáver e, com ele, avançam para a porta da torre correspondente à categoria social do falecido. Lá dentro, depositam-no numa das cavidades e tiram-lhe o tecido branco que o envolve, deixando-o completamente nu às aves que hão-de devorá-lo.

O fúnebre silêncio é subitamente quebrado por um forte estrépito de asas; e centenas de abutres, descidos das árvores, pousam sobre as extremidades da torre. Os quatro sacerdotes voltam a aparecer, cerrando a porta; os abutres, ao contrário, desaparecem, num rápido movimento de mergulho. Os quatro homens batem, então, as palmas e, a esse sinal, a família começa a entoar preces no jardim.

Entretanto, dentro da torre, principia a festa macabra. Nisto, descem do céu outros competidores, os corvos negros. Mas, mais fracos de corpo, eles sabem, dada a experiência de todos os dias, que serão perseguidos pelos abutres. Baixam, por isso, rapidamente e logo se retiram, para tornar a volver, para tornar a partir, levando no bico, de cada vez, o pedaço de carne humana que conseguiram conquistar. Esta batalha das aves negras dura pouco tempo. Ao cabo de meia hora, minuto mais, minuto menos, os abutres saem da torre, num voo pesado. E começam, já tranquilos, a limpar o bico sobre as árvores.

Numa das cavidades da torre, recentemente cheia, há, agora, apenas um esqueleto. Ao lado, enfileiram-se outros, da véspera e da ante-véspera. Alguns dias quedarão ao sol, para perder as últimas impurezas da carne. Depois, um dos quatro homens que fruem o privilégio de entrar nas torres calça luvas impermeáveis, pega em grandes tenazes e, agora os fémures e as tíbias, logo as costelas e o crânio, despenha todos os ossos no poço central. Ali, durante um período de seis a oito meses, o sol forte do Oriente calciná-los-á (…).

(…) Se não houvéssemos vindo aqui, se tivéssemos apenas lido a história destes ritos, julgaríamos que se tratava não de costume do nosso tempo e sim de antanho, costume perdido, como os ossos dos primeiros Parsis, na poeira dos séculos. Mas não. Cá estão os abutres, dormitando sobre as acácias rubras e indiferentes aos nossos passos. Têm os olhos cerrados, a cabeça repelente encostada ao peito e dir-se-á que não vêem nem ouvem coisa alguma.

Subitamente, porém, agitam-se, distendem o pescoço e olham para a ponte de madeira… O guarda que nos acompanha pede-nos desculpa e diz-nos que temos de sair imediatamente. Pelo túnel que há sob a estrada avança um grupo de indivíduos, todos de branco, o braço de um ligado ao de outro por uma faixa, branca também, segundo ordena o rito.
Os da frente conduzem um longo vulto inerme em posição horizontal…"


……………….

Fonte: Ferreira de Castro - A Volta ao Mundo (2.º vol., de um total de 3) - Livraria Editora Guimarães & C.ª - Lisboa - Portugal - Ano de 1952.