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domingo, 11 de agosto de 2019

Homenagem a Enid Blyton - Nasceu há 122 anos...

 


Enid Mary Blyton, escritora inglesa de livros de aventuras para crianças e adolescentes, nasceu a 11 de Agosto de 1897 e faleceu em 28 de Novembro de 1968.

Já a tínhamos recordado a propósito da sua mais famosa série de obras, os celebérrimos Cinco (rever aqui: "Os Cinco" - Quem não se lembra?).
Mas teve outras criações notáveis, como Noddy, Os Sete, The Naughtiest Girl e The Twins at St. Clare’s.

Os mais de 800 volumes da sua obra mantêm a popularidade e acham-se entre os mais vendidos do mundo, com cerca de 600 milhões de cópias traduzidas em quase uma centena de línguas.

Os famosos Cinco.
Da esquerda para a direita: o Júlio, o David, a Zé (remando), a Ana e o Tim.

Enid Blyton foi construindo um império literário com a sua escrita espontânea e fácil (chegava a produzir vários livros por ano). Contudo, esse império tornou-se algo controverso e ela ficou sob fogo nalguns meios  da crítica e do professorado.

Acompanhando os tempos, acusavam os livros de Blyton de serem elitistas, sexistas e xenófobos. A BBC, por exemplo, recusou divulgá-la até 1950 por não lhe reconhecer grande mérito literário. Algumas livrarias e escolas baniram os seus livros. Mas nada disso impediu que estes continuassem a ser grandes sucessos de vendas - tanto nessa altura como muitos anos depois do desaparecimento físico da autora.


Os saudosamente lembrados farnéis dos Cinco.

Enid Blyton pretendeu confessadamente passar aos seus leitores uma forte mensagem moral e incutir-lhes a ideia de apoiarem causas que ela considerava nobres. Em particular, incentivou-os - através de associações que criou, ou que apoiava - a juntarem meios financeiros para ajudar crianças e animais.

Acima de tudo, como se comprova pela maioria dos comentários produzidos pelos seus mais antigos (e encanecidos) leitores, Enid enriqueceu de forma inapagável as infâncias de milhões de seres humanos, fazendo-os sonhar e tornando-os mais felizes apesar dos quotidianos cinzentos, e por vezes bastante amargos, que muitos foram forçados a viver.



Enid Blyton e as suas filhas Gillian (esq.) e Imoge numa foto de 1949. A escritora disse ter-se inspirado nas vivências das duas meninas para abordar ambientes colegiais nas suas obras.

domingo, 21 de julho de 2019

"D. Sebastião desapareceu em Alcácer do Sal?"... "O grito do índio Ipiranga?"... etc., etc., etc.




Isabel Carla Moreira de Brito, licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal) e professora daquela disciplina no Ensino Básico e Secundário, teve a virtuosa ideia de editar em 2018, na Manuscrito, o livro cuja capa acima se reproduz.
A obra - cuja leitura vivamente recomendamos - contém mais de uma centena de respostas disparatadas fornecidas por alunos durante as aulas ou em fichas de trabalho, testes de avaliação e exames.

Como Isabel esclarece na Introdução:

os erros nas aulas e testes de História acontecem e, na maior parte das vezes, originam histórias engraçadas impossíveis de esquecer. Em momentos de ansiedade, de pouca inspiração, ou… de pouco estudo, podemos tornar-nos mais criativos! (…)
Sou professora de História há largos anos e fui reunindo as respostas mais divertidas que encontrei. Umas foram dadas em salas de aula, outras em testes escritos, umas aconteceram comigo, outras foram-me contadas por colegas e amigos, também docentes de História. São erros da História de Portugal e da História Universal capazes de proporcionar episódios com bastante humor.

Mas Isabel Moreira de Brito não se limita a reproduzir as originalíssimas e mirabolantes respostas de alguns discentes. Ela apresenta as perguntas que as originaram e o respectivo contexto; depois, relativamente a cada uma delas, expõe em linguagem atractiva, rigorosa e com notável sentido pedagógico a resposta que deveria ter sido dada.
Trata-se, portanto, de uma obra que tanto diverte (frequentemente até às lágrimas…) como ensina.
No final do volume é facultada uma útil e extensa bibliografia.  



Do fantástico e, por vezes, delirante universo contido neste livro, é quase impossível destacar qual o contributo mais inesperado, mais surpreendente ou, até, mais atordoante...
Algumas das respostas, se não chegaram para fugir ao doloroso "chumbo", mereceriam ao menos uma qualquer generosa recompensa pela extraordinária criatividade e pelo insuperável espírito de "desenrascanço" que revelam (atávica característica da lusitana humanidade…).
Sete exemplos, de um conjunto vastíssimo:

- D. Sebastião não morreu, de facto, em Alcácer-Quibir (como se contou aqui); ele terá antes desaparecido quando se encontrava a combater os mouros na cidade marroquina de Alcácer do Sal, ali para os lados de Setúbal...

- o presidente norte-americano Abraham Lincoln foi assassinado quando passava pelas ruas de Dallas num carro descapotável...

- Waterloo não se tornou conhecida por causa da derrota que Napoleão aí sofreu, mas porque foi com esse tema que os inesquecíveis Abba venceram o Festival Eurovisão da Canção...

- o sempre lembrado "Grito do Ipiranga" é assim explicado: os brasileiros não queriam continuar a ser uma colónia e por isso lutaram contra os portugueses; durante uma batalha, o índio Ipiranga, que estava junto de D. Pedro, gritou: "Independência ou Morte!"...

- ainda no Brasil, o padre António Vieira ensinava latim aos índios para que estes pudessem comunicar com os portugueses...

- a rainha D. Maria Pia (esposa do rei português D. Luís e mãe do rei D. Carlos, assassinado em 1908) "ficou para a História por ser uma gastadeira; vestidos, quadros, mobília, ela comprava de tudo com frequência e ainda dava festas grandiosas, gastando todo o dinheiro do marido, que depois tinha de pedir emprestado ao governo. Mais gastadeira do que ela, só mesmo a rainha Maria Antonieta de França"... 

- a Santa Aliança, criada na Europa após a derrota de Napoleão Bonaparte, tinha como responsáveis Deus Pai, Filho e Espírito Santo...

… e mais, muito mais, neste livro delicioso - que não deve perder!



Isabel Moreira de Brito, autora do livro


Isabel é ainda autora de um excelente blogue, Estórias da História, que, decerto com muitíssimo proveito, poderá visitar aqui.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Odette Sansom - A espia mais condecorada da 2.ª Guerra Mundial


Odette Sansom

Odette Sansom, uma dona de casa francesa e mãe de três filhas, resolveu tornar-se espia dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Foi capturada e torturada, mas sobreviveu sem nunca quebrar.
A sua história acaba de ser publicada em Portugal. Nome de código Lise”, editado este mês pela Vogais, é a história verdadeira de uma espia do SOE (Executivo de Operações Especiais), que poderia ser banal, não fosse o caso de esta mulher pouco conhecida ser a mais condecorada de todos os espiões da Segunda Guerra Mundial.

Odette Sansom Hallowes, também conhecida como Odette Churchill, era uma mulher “bastante vulgar, talvez até enfadonha”, que não bebia, não fumava, nem praguejava. Não obstante, era uma "assassina treinada”, uma heroína da resistência francesa, que foi presa, torturada e levada para um campo de concentração, sem nunca ter “quebrado”, conta o autor, Larry Loftis, no prefácio do livro.

Como refere o escritor num artigo publicado pela revista “Time”, “peça-se a um aficionado da Segunda Guerra Mundial que nomeie os espiões mais condecorados da guerra e provavelmente recebe-se uma de três respostas: Dusko Popov (nome de código: Tricycle), o agente duplo que avisou o FBI sobre Pearl Harbor e que inspirou o James Bond de Ian Fleming; Juan Pujol (nome de código: Garbo), o espanhol que enganou os alemães com uma falsa rede de 15 agentes; ou Roman Garby-Czerniawski (nome de código: Brutus), o agente duplo polaco que tinha cem agentes na rede de espionagem que criou, a Interallié.





À esquerda o espião sérvio Dusko Popov (Tricycle). À direita, a ficha consular brasileira do espião espanhol Juan Pujol (Garbo).



Afirma o autor: Todos eles foram grandes espiões e determinantes para enganar os alemães quanto ao dia D, todos eles foram condecorados, mas as suas condecorações empalidecem quando comparadas com as de uma espia chamada Odette Sansom (nome de código: Lise), distinguida com a Ordem do Império Britânico, a Ordem Nacional da Legião de Honra (a maior condecoração francesa), a Cruz de George (a mais alta condecoração civil do Reino Unido), e mais outras cinco medalhas”.

O mesmo se passou com o próprio autor do livro, que, até “descobrir” Lise, estava convencido de que Dusko Popov fora o maior espião da Segunda Guerra Mundial, e talvez o maior espião da história.

Foi ocasionalmente, quando lia “História do Coronel Henri”, as memórias do sargento Hugo Bleicher, agente secreto alemão que trabalhava contra a Resistência Francesa na França ocupada pelos nazis, que esbarrou com Odette Sansom. Hugo Bleicher infiltrara-se numa rede em que estava implicada uma espia dos Aliados chamada ‘Lise’”, descreve o autor no prefácio do livro.

Foi então que ele mergulhou em tudo o que tivesse sido publicado em inglês sobre o assunto, a começar pelas fontes primárias, desde biografias a memórias de várias personalidades que com ela privaram ou se cruzaram. Analisou ainda todos os documentos do SOE que lhe fizessem referência e viu as entrevistas pessoais de Odette em 1986.

Depois de toda a informação que recolheu, questionou-se “como era possível que quase ninguém tivesse conhecimento daquela mulher” e decidiu contar a sua história.

Odette Sansom

Em 1942, não se vislumbrava um fim para a Segunda Guerra Mundial e Odette Sansom, casada com um inglês e mãe de três meninas, decidiu seguir o exemplo do pai na Primeira Guerra Mundial e tornou-se agente do SOE, como mensageira, para ajudar a Grã-Bretanha e a França.
Após cinco tentativas falhadas e um acidente de avião, Odette desembarca por fim na França ocupada para dar início à sua missão e é então que conhece o seu oficial superior, o capitão Peter Churhill, líder do circuito.

À medida que completam com êxito missão atrás de missão, Peter e Odette apaixonam-se, mas cada sucesso aproxima os inimigos da sua localização, até que são traídos por outro agente.

Os dois foram detidos por Hugo Bleicher e enviados para a prisão em Paris, sendo posteriormente interrogados. Mas enquanto Peter Churchill seguiu o protocolo do SOE e se fez de “tonto” - negando tudo, exceto ser um agente britânico -, Odette fez o oposto e disse aos alemães que ela era a líder da rede e que Peter era apenas um peão na operação.

Odette foi então entregue à Gestapo, sendo interrogada 14 vezes. Sujeita à fome e à tortura, “nunca quebrou”, e a sua resposta era sempre a mesma: “Não tenho nada a dizer”.

Prisioneiras no campo alemão de Ravensbrück.

Quando a Gestapo percebeu que ela nunca falaria, condenou-a à morte e enviou-a para o local mais temido por todas as mulheres na Europa, Ravensbrück, um campo de concentração feminino a cerca de 90 quilómetros de Berlim. Ali foi colocada numa prisão subterrânea, conhecida como “o Bunker” (rever aqui e aqui).

Durante três meses e oito dias definhou numa pequena cela, ora demasiado quente, ora gelada, praticamente sem comida e em escuridão total, exceto durante cinco minutos por dia em que se acendia uma luz por cima da sua cabeça.
O corpo não tardou a ficar coberto de chagas, sofreu de disenteria e escorbuto, perdeu o cabelo e dentes, e acabou por sucumbir a um estado de semi-coma, mas o médico da enfermaria reanimou-a com uma injeção e ela voltou para a cela. Aguentou até ao fim sem nunca entregar o nome de nenhum agente.

Odette sobreviveu à guerra quase milagrosamente, ao contrário de muitos dos seus camaradas do SOE. Até ao fim da vida, pediu para que ninguém os esquecesse.

Em algumas entrevistas que deu, admitiu não haver outra razão para ter sobrevivido senão o nome Churchill. Apesar de não haver qualquer parentesco entre Peter Churchill e Winston Churchill (primeiro-ministro do Reino Unido durante a guerra), existia a convicção deste parentesco, que ela nunca desmentiu.

Odette separou-se de Peter ao fim de nove anos de casamento (em 1956) e casou-se com Geoffrey Hallowes. Morreu em 1995, com 82 anos.

Em 1950 foi feito um filme sobre ela, “Odette”, que se estreou na altura com grande aclamação em Inglaterra e nos Estados Unidos (ver cartaz a seguir).



(Fonte do texto: Redacção da TVI24 - Lisboa - Portugal - 27-Junho-2019)

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Grandes Livros - A PESTE (Albert Camus)

 

O Estrangeiro e A Peste, romances complementares quanto ao significado, são dois momentos capitais na obra de Camus.
Se O Estrangeiro termina em pleno absurdo, A Peste conclui com a lúcida aceitação do destino humano.
Pelo seu sentido humanista e por uma consumada arte literária, A Peste é considerada uma das mais puras obras-primas do nosso tempo.

Na manhã de um dia 16 de abril dos anos de 1940, o doutor Bernard Rieux sai do seu consultório e tropeça num rato morto. Este é o primeiro sinal de uma epidemia de peste que em breve toma conta de toda a cidade de Orão, na Argélia. Sujeita a quarentena, esta torna-se um território irrespirável e os seus habitantes são conduzidos até estados de sofrimento, de loucura, mas também de compaixão de proporções desmedidas.

Uma história arrebatadora sobre o horror, a sobrevivência e a resiliência do ser humano, A Peste é uma parábola de ressonância intemporal, um romance magistralmente construído, que, publicado originalmente em 1947, consagrou em definitivo Albert Camus como um dos autores fundamentais da literatura moderna.

A Peste é publicada em Portugal pela Editora Livros do Brasil. Os extractos abaixo transcritos pertencem a uma edição da década de 1960 (capa seguidamente reproduzida). O livro continua disponível na editora a um preço que ronda os 15 €.
Colecção Dois Mundos.
Páginas: 334.
LEITURA MUITO RECOMENDADA PELA TORRE.


“Os curiosos acontecimentos que servem de assunto a esta história produziram-se em 194…, em Orão. Segundo a opinião geral, não estavam aí no seu devido lugar, antes saíam um pouco do habitual.
À primeira vista, Orão é, com efeito, uma cidade vulgar, que não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina.
A própria cidade, confessemo-lo, é feia. Com o seu aspecto calmo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombas, sem árvores e sem jardins, onde não se sente o bater de asas nem o sussurro de folhas, uma cidade neutra, para dizer tudo? Apenas no céu se lê a mudança das estações.

A Primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelos cestos de flores trazidos por rapazitos dos arredores: é uma Primavera que se vende nos mercados. Durante o Verão, o sol incendeia as casas demasiado secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então só é possível viver à sombra das persianas corridas. No Outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama.
Os dias bonitos só vêm no Inverno. (…)




Na manhã do dia 16 de Abril, o doutor Bernard Rieux saiu do seu consultório e tropeçou num rato morto, no meio do patamar. Nesse momento, afastou o bicho sem lhe prestar atenção e desceu a escada. Chegado à rua, porém, veio-lhe a ideia de que esse rato não estava no seu lugar e voltou atrás para prevenir o porteiro.

Perante a reacção do velho Michel, sentiu melhor o que a sua descoberta tinha de insólito. A presença desse rato parecera-lhe apenas estranha, enquanto que para o porteiro ela constituía um escândalo. A posição deste último era, aliás, categórica: não havia ratos em casa. Por mais que o médico lhe afirmasse que havia um no patamar do primeiro andar e, provavelmente, morto, a convicção de Michel permanecia íntegra. Não havia ratos na casa, e era, pois, provável que tivessem trazido aquele de fora. Em resumo, tratava-se de uma partida.

Nessa mesma noite, Bernard Rieux, de pé no corredor do edifício, procurava as chaves antes de subir para sua casa, quando viu surgir do fundo obscuro do corredor um rato enorme, de passo incerto e pelo molhado.
O animal parou, pareceu procurar o equilíbrio, correu em direcção ao médico, parou de novo, deu uma volta sobre si mesmo com um pequeno guincho e parou, por fim, deitando sangue pela boca entreaberta. O médico contemplou-o um momento e subiu. (…)


No dia seguinte, 17 de Abril, às oito horas, o porteiro deteve o médico e acusou três brincalhões de mau gosto de haverem posto três ratos mortos no meio do corredor. Deviam tê-los apanhado com grandes ratoeiras, pois estavam cheios de sangue. O porteiro ficara algum tempo à porta, segurando os ratos pelas patas, esperando que os culpados se traíssem por algum sarcasmo. Mas nada acontecera.
- Ah – dizia Michel -, hei-de acabar por apanhá-los.

Intrigado, Rieux decidiu começar a sua volta pelos bairros exteriores, onde habitavam os mais pobres dos seus clientes. A recolha do lixo fazia-se aí muito mais tarde e o automóvel, rolando ao longo das ruas direitas e poeirentas, roçava os caixotes do lixo deixados à beira dos passeios. Numa rua que percorria assim, o médico contou uma dúzia de ratos lançados sobre restos de legumes e trapos sujos. (…)




Em todo o caso, foi mais ou menos por esta época que os nossos concidadãos começaram a inquietar-se, pois a partir do dia 18 as fábricas e os depósitos apareceram enxameados de centenas de cadáveres de ratos.
Em alguns casos foi necessário acabar de matar os bichos, cuja agonia era demasiado longa. Mas desde os bairros exteriores até ao centro da cidade, por toda a parte onde o doutor Rieux passava, por toda a parte onde os nossos concidadãos se reuniam, os ratos esperavam em montes, nos caixotes do lixo ou junto às sarjetas, em longas filas.

A imprensa da tarde ocupou-se do assunto a partir desse dia e perguntou se a municipalidade se propunha ou não agir e que medidas de urgência tencionava adoptar para proteger os seus munícipes dessa repugnante invasão.
A municipalidade não se tinha proposto coisa nenhuma, mas começou por reunir em conselho para deliberar.

Foi dada ordem ao serviço de luta contra os ratos para proceder à sua recolha todas as manhãs, ao romper da alva. Acabada a recolha, dois carros de serviço deviam conduzir os animais ao posto de incineração dos lixos a fim de serem queimados.




Porém, nos dias que se seguiram a situação agravou-se.
O número de roedores apanhados ia crescendo e a recolha era cada manhã mais abundante. A partir do quarto dia, os ratos começaram a sair para morrerem em grupos. Das arrecadações, das caves, dos esgotos, subiam em longas filas titubeantes, para virem vacilar à luz, girar sobre si mesmos e morrer perto dos seres humanos.

À noite, nos corredores ou nas ruelas, ouviam-se distintamente os seus guinchos de agonia. De manhã, nas ruas, encontravam-se junto aos passeios, com uma pequena flor de sangue no focinho pontiagudo, uns inchados e pútridos, outros rígidos e com os bigodes ainda hirtos.

Na própria cidade, encontravam-se em pequenos montes, nos patamares e nos pátios. Vinham também morrer isoladamente nos vestíbulos administrativos, nos recreios das escolas, por vezes nos terraços dos cafés. Os nossos concidadãos, estupefactos, encontravam-nos nos locais mais frequentados da cidade. A Praça de Armas, as avenidas, o Passeio do Front-de-Mer apareciam conspurcados de longe a longe.

Expurgada, ao amanhecer, dos animais mortos, a cidade voltava a encontrá-los pouco a pouco, cada vez mais numerosos, durante o dia. Dir-se-ia que a própria terra onde estavam plantadas as nossas casas se purgava dos seus humores, que deixava subir à superfície furúnculos e podridões que, até aqui, a minavam interiormente. (…)




As coisas foram tão longe que a Agência Ransdoc – todas as informações sobre qualquer assunto – anunciou, na sua emissão radiofónica de informações gratuitas, seis mil duzentos e trinta e um ratos apanhados e queimados, só no dia 25.

Este número, que dava um sentido claro ao espectáculo quotidiano que a cidade tinha perante os seus olhos, aumentou a agitação. Até então, as pessoas tinham-se apenas queixado de um espectáculo um pouco repugnante.
Compreendia-se agora que este fenómeno, de que não se podia avaliar a amplitude nem precisar a origem, tinha qualquer coisa de ameaçador.
Só o velho espanhol asmático continuava a esfregar as mãos e a repetir com uma alegria senil: Eles saem, eles saem.”




Albert Camus nasceu na Argélia, em Mondovi, província de Constantina, a 7 de Novembro de 1913, e morreu num acidente de automóvel em Janeiro de 1960, ao regressar a Paris de uma pequena digressão pela província.

Foram difíceis as condições em que Albert Camus efectuou os seus estudos na Universidade de Argel. Foi obrigado a recorrer a diversos empregos para custear as despesas da vida de estudante: vendedor de acessórios de automóvel, meteorologista, empregado num escritório, manga-de-alpaca na Prefeitura da Polícia. Ao mesmo tempo entregava-se aos desportos e animava um grupo teatral, L’Équipe.

Licenciado em Filosofia, a doença impediu-o de levar mais longe a carreira de professor. Entrou para o jornalismo. Com a invasão da França ingressou na Resistência, e a Libertação encontrou-o redactor do jornal Combat.
O seu nome subira entretanto ao primeiro plano das Letras francesas e mundiais. Em 1957 sobreveio a consagração do Prémio Nobel da Literatura.

A sua obra é uma das mais influentes nas gerações do pós-guerra, tanto pelo valor humanístico da sua crítica dos homens e da vida, como pelo brilho, pureza e sobriedade do seu estilo.
Ancorada rijamente ao nosso tempo, está pois destinada a ultrapassar os limites da época que a viu nascer.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

O Túmulo de Tutankhamon

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Máscara funerária do faraó Tutankhamon, que reinou por volta de 1350 a. C. (há cerca de 3370 anos).
Feita de ouro polido, incrustado com vidro multicolor, lazulite, feldspato verde, cornalina, alabastro e obsidiana.
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O Vale dos Reis situa-se na margem ocidental do Nilo, em frente de Karnac e de Luxor, e faz parte dos vastos terrenos onde outrora existia a necrópole de Tebas.
Foi ali que se construíram, sob o Novo Império, os túmulos dos mortos ilustres e os templos dos faraós.
O projecto daquela necrópole, a maior do mundo, deveu-se à iniciativa de Tutmés I (1545 a. C. a 1515 a. C.).
Foi Tutmés que decidiu separar o sepulcro do templo. Pensava obter desse modo a segurança que não tinham conseguido os seus predecessores, como demonstrava a sistemática violação de túmulos pelos ladrões.

Em 1922, o Vale dos Reis foi teatro de uma descoberta arqueológica que causou sensação: o túmulo do faraó Tutankhamon. Tal achado deveu-se à feliz conjugação de esforços de duas figuras: Howard Carter, o sábio especialista, “homem do terreno”, que dirigiu os trabalhos de escavação; e Lord Carnarvon, financiador do projecto, um amador de arte, desportista e globe-trotter.

Os trabalhos principiaram em 1916, numa altura em que especialistas garantiam que, no Vale, mexido e remexido por inúmeras escavações, fora já descoberto tudo quanto havia para descobrir. Todos os grãos de areia tinham sido literalmente virados, revirados e peneirados, pelo que se compreende que tenham dito a Lord Carnarvon, quando ele conseguiu a concessão, que esta era inútil, pois o Vale não poderia oferecer mais nada.
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Howard Carter (1874-1939, Londres)
.Howard Carter era um daqueles seres possuidores de inesgotável confiança em si próprio. Ele acreditava que em determinado local do Vale dos Reis acabaria por encontrar um túmulo importante.
Porquê? Porque em tempos ali se haviam realizado alguns achados que ele acreditava tratarem-se de pistas inequívocas: uma taça de faiança, alguns vasos de barro, meia dúzia de selos e, pormenor dos pormenores, um nome – Tutankhamon – gravado nalgumas peças.

A probabilidade de êxito de Carter era, à partida, mínima: tinham passado mais de três milénios sobre o eventual sepultamento de um faraó na zona. Acrescia a acção dos salteadores de túmulos, as inúmeras transferências “defensivas” levadas a cabo pelos sacerdotes ou a imperícia de muitos arqueólogos que o haviam antecedido - e que poderiam ter destruído vestígios importantes.

No primeiro Inverno, Carter desentulhou as imediações do túmulo de Ramsés IV (anteriormente descoberto). Interrompidos os trabalhos devido às visitas turísticas, as escavações concentraram-se perto da entrada daquele túmulo em 1919-1920.
Perante os fracos resultados (apenas os restos soterrados de antiquíssimas cabanas de operários), as escavações foram então concentradas em redor do túmulo de Tutmés III, situado num pequeno vale adjacente, onde também não se achou “nada que valesse a pena”.
Regressou-se portanto às proximidades do túmulo de Ramsés IV, onde antes se tinham negligenciado as cabanas dos trabalhadores (datadas, provavelmente, da XX.ª dinastia egípcia).
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Em 3 de Novembro de 1922 (com Lord Carnarvon em Inglaterra), Howard Carter começou a demolir as cabanas, fazendo enfim o que já poderia ter feito seis anos antes.
Na manhã seguinte achou debaixo da primeira cabana um degrau de pedra. Na tarde de 5 de Novembro já não restava a Carter a mínima dúvida de que havia realmente encontrado a entrada de um túmulo.
Mas principiaram então os receios.
Seria algum túmulo por acabar, que não tivesse sido sequer utilizado? Tratar-se-ia de um túmulo profanado e saqueado, como sucedera a tantos outros no Vale? Ou seria apenas o túmulo de algum cortesão ou de um sacerdote?

Os trabalhos continuavam, a ansiedade de Carter aumentava. Os degraus surgiam do entulho, uns após outros. E sob os últimos raios de sol apareceu o décimo segundo degrau e distinguimos a parte superior de uma porta selada, coberta de argamassa.

Carter examinou os selos. Eram os da necrópole real. Por detrás da porta devia portanto repousar uma personagem ilustre. E quando ele, numa agitação febril, abriu na porta um buraco do tamanho indispensável para nele introduzir uma lâmpada eléctrica, avistou um corredor atulhado de pedras – mais uma prova da protecção segura que fora dada ao túmulo.

Oiçamo-lo: Atrás daquele corredor entulhado podia encontrar-se tudo, absolutamente tudo, e precisei de toda a minha abnegação para não arrombar a porta.
Mas o sábio, prestes a alcançar o objectivo perseguido durante seis anos infrutíferos, tomou a resolução de fechar novamente a entrada do túmulo para aguardar a chegada de Lord Carnarvon, seu Mecenas e amigo.
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Na manhã de 6 de Novembro, Carter expediu o seguinte telegrama para o seu associado: Magnífica descoberta no Vale; túmulo grandioso com selos intactos; tudo fechado novamente até à sua chegada. Parabéns!
Recebeu a resposta no dia 8: Vou o mais depressa possível. Espero chegar 20 a Alexandria.

A 23, Lord Carnarvon chegava com a filha (Evelyn, ao lado do pai na imagem acima).
Na tarde de 24, os operários desobstruíram completamente a escada. Carter desceu os dezasseis degraus que iam dar à porta selada. Viu nos selos o nome de Tutankhamon:

Quando a luz do dia iluminou a porta, verificámos uma coisa que até então nos escapara: por duas vezes a porta fora aberta e tornada a fechar. O túmulo não estava intacto, como supuséramos. Os ladrões tinham lá entrado. Mas, a julgar pelas cabanas construídas por cima, a pilhagem não podia datar de época posterior ao reinado de Ramsés IV, e o facto de o túmulo ter sido outra vez selado era indício de que não estava vazio”.
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Ao fim de alguns dias toparam com outra porta, a cerca de dez metros da entrada do corredor.
Essa porta ostentava também os selos de Tutankhamon e da necrópole real. A comoção de Carnarvon e de Carter crescia à medida que iam retirando o entulho da frente da segunda porta.
Escreve Carter: Tinha chegado o momento decisivo. Com mãos trémulas fizemos uma pequena abertura no canto de cima à esquerda…

Carter pegou então numa barra de ferro e enfiou-a pela abertura; não encontrando a menor resistência, introduziu por várias vezes uma chama, e como nenhum gás manifestasse a sua presença, alargou o buraco. Nesse momento toda a assistência se aproximou – Lord Carnarvon, sua filha Evelyn e o egiptólogo Callender, que se oferecera para colaborar logo que tivera notícia da descoberta.
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Com um movimento nervoso, Carter riscou um fósforo, acendeu uma vela e chegou-a ao buraco. A mão tremia-lhe. Quando aproximou a cabeça da abertura, para fazer finalmente ideia do que havia do outro lado, o ar quente que vinha do interior fez vacilar a chama.
No primeiro instante Carter não pôde distinguir nada, mas quando os seus olhos se habituaram à luz indecisa, não soltou qualquer exclamação de entusiasmo: ficou mudo!
Incapaz de suportar mais a incerteza, Carnarvon acabou por perguntar: Vê alguma coisa?.
Howard virou-se devagar e respondeu com voz profundamente comovida: Sim, coisas admiráveis.


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Aquela resposta foi confirmada quando abriram a segunda porta e a luz mais forte de outra lâmpada eléctrica fez cintilar os esquifes de ouro e o trono de ouro, tirando reflexos mates das duas grandes estátuas negras, dos vasos de alabastro, das urnas estranhas.
Nunca, em toda a história das escavações, se tinham realmente visto coisas tão maravilhosas como as que então nos desvendou essa lâmpada eléctrica!
Cabeças de animais exóticos projectavam nas paredes sombras disformes. De uma das urnas saía uma serpente de ouro com a língua de fora. Como sentinelas, as duas estátuas postadas frente a frente, com avental e sandálias de ouro, seguravam o bastão e a clava, brilhando-lhes na fronte a serpente sagrada.
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Passado longo tempo de contemplação daquela pompa fúnebre, Carnarvon e Carter repararam, consternados, que entre tantos tesouros não havia sarcófago nem múmia.
Descobriram então que entre as duas sentinelas reais existia uma terceira porta selada. Que poderia esconder aquela segunda câmara ou segundo corredor?

Pouco depois, fizeram outro achado importante. Um deles, espreitando por baixo de um dos três grandes esquifes, notou um pequeno buraco. Com o auxílio da lâmpada viram então uma pequena câmara lateral, mais pequena do que a antecâmara, mas cheia, atravancada mesmo, de utensílios e preciosidades de toda a espécie.
Depois de se aperceberem do recheio desta câmara e na expectativa do que poderia ainda ocultar a terceira porta selada, compreenderam quanto trabalho lhes seria necessário para levarem até ao fim a tarefa que se lhes apresentava.
Decidiram então fechar de novo o túmulo para voltarem mais tarde.


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Em 16 de Dezembro, o túmulo foi reaberto. E, em meados de Fevereiro, a antecâmara estava desimpedida. Só aqui referenciaram-se seiscentas e setenta peças.
No dia 17, às duas da tarde, Carter removeu com infinitas precauções a primeira camada de pedras da porta selada que haviam descoberto entre as duas sentinelas reais.
Ao fim de uns minutos pediu a lâmpada eléctrica e passou-a pela abertura.

Houve um murmúrio na assistência - cerca de vinte pessoas, entre cientistas e entidades oficiais.
O que Carter viu excedeu todas as expectativas. Tinha diante dos olhos aquilo que lhe pareceu um enorme muro reluzente, sem dúvida feito de ouro maciço. Em breve se compreenderia que se tratava da face anterior da urna funerária de Tutankhamon, sem dúvida a mais preciosa do mundo.
Essa urna enorme, como mais tarde verificariam, ocultava os diferentes ataúdes e o sarcófago da múmia.
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Carter pegou na lâmpada e deixou-se cair dentro do compartimento. A urna mortuária era de tais dimensões que ocupava o espaço quase todo. Já na presença de várias testemunhas, entre as quais Lord Carnarvon, verificou-se que as medidas exactas da urna eram as seguintes: 5,20x3,35x2,75 m.
Era toda recoberta de ouro. Painéis de faiança azul brilhante, embutidos nos lados, ostentavam os signos mágicos destinados a proteger o defunto. Sobre o sarcófago havia um selo intacto, sinal de que eram eles os primeiros a chegar.
Os despojos de Tutankhamon, que reinara por volta de 1350 a. C. (havia portanto cerca de 3300 anos), estavam diante deles. Um faraó falecido muito jovem, por volta dos 18 anos…

No minuto seguinte, nova surpresa. Na outra extremidade da câmara divisaram uma porta baixa que dava para outra câmara pequena. E, depois das maravilhas que tinham contemplado até então, esta frase de Carter é suficientemente expressiva: Uma olhadela bastou-nos para compreender que se encontravam ali os maiores tesouros do túmulo!

Carter e Carnarvon retiraram-se lentamente, passaram diante da urna e voltaram para a antecâmara. Três horas depois, às cinco da tarde, deixaram o túmulo. Quando saíram afigurou-se-lhes que o vale havia mudado e estava inundado de uma luz estranha.



No meio de tanto esplendor, o que é que mais impressionou Carter?
Ele informa-nos: … foi a coroazinha de flores, último adeus da jovem viúva ao esposo querido. Toda a pompa, toda a magnificência reais, todo o brilho deslumbrante do ouro empalideceram ao pé das pobres flores secas cujas cores não tinham desaparecido completamente. Eram elas que evocavam de maneira mais tocante a rápida passagem dos milénios.

Quando, no Inverno de 1925-26, desceu outra vez ao túmulo para abrir o caixão, Carter observou:

Tornou a impressionar-nos o mistério do túmulo, o temor e o respeito pelo que passou há muito e, não obstante, se conserva poderoso. Mesmo no trabalho puramente mecânico, o arqueólogo nunca perde completamente esse sentimento.
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Adaptado de Deuses Túmulos e Sábios, de C. W. Ceram.
Publicado em Portugal por Editora Livros do Brasil (Lisboa).