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sábado, 31 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 6.ª Parte


Continuação de:

27-Julho-2019 - 1.ª parte (ver aqui)
03-Agosto-2019 - 2.ª parte (ver aqui)
10-Agosto-2019 - 3.ª parte (ver aqui)
17-Agosto-2019 - 4.ª parte (ver aqui)
24-Agosto-2019 - 5.ª parte (ver aqui)
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Numa espécie de farsa trágica, Moctezuma foi acolhido nos aquartelamentos espanhóis com os maiores sinais de respeito. Deixaram-no escolher aposentos a seu gosto e rodear-se dos luxos habituais. Continuou acompanhado pelas suas mulheres e pelos servidores domésticos. A mesa era-lhe servida com a pompa e a abundância do costume. Nos dias seguintes, pôde continuar a receber os súbditos e a dar audiências como se estivesse no seu palácio.
Os invasores, por sua vez, persistiam nas demonstrações de respeito: ninguém, incluindo o comandante, se acercava dele sem destapar a cabeça e sem lhe prestar as honras devidas. Da mesma forma, ninguém se sentava na sua presença sem que ele autorizasse.

Estas demonstrações de acatamento não podiam esconder, todavia, o facto essencial: Moctezuma não era mais do que um refém dos Espanhóis. Provavam-no as extraordinárias medidas de segurança com que o rodeavam: diante do aquartelamento havia sempre, dia e noite, uma guarda de dezenas de homens, tal como sucedia nas imediações dos seus aposentos. E provou-o, também, a terrível sorte do governador Cuauhpopoca e dos quinze nobres que o acompanhavam, chegados finalmente a Tenochtitlán. Julgados num processo sumaríssimo conduzido por Cortés, foram todos condenados a morrer na fogueira, sentença logo executada na praça fronteira ao aquartelamento. Moctezuma, como é evidente, nada pôde fazer.

Cortés sentiu-se suficientemente forte para exigir de Moctezuma o reconhecimento da soberania do rei de Espanha. O imperador, como que vivendo um pesadelo, acabou por aceder, diante dos seus nobres, a mais esta imposição. Tal como concordou em pagar tributo àquele desconhecido e misterioso monarca que vivia do outro lado dos mares. Por sua parte, entregou sem demora o tesouro que fora do seu pai. E os seus arrecadadores de impostos espalharam-se pelo império a recolher ouro e prata para os invasores. 
Como remate deste longo processo de extorsão e humilhações, os Espanhóis obtiveram autorização do imperador - ainda que relutante - para instalar um altar cristão no grande templo onde os Astecas continuavam a adorar os "ídolos malditos".

Subitamente, um novo e distante acontecimento veio captar a atenção e as preocupações de Cortés. Com efeito, chegou-lhe a notícia de que, no litoral, próximo de Veracruz, desembarcara Pánfilo de Narváez, enviado pelo governador de Cuba - com 19 navios e um exército de quase mil homens - para o submeter à sua autoridade.
O comandante não perdeu tempo. Deixando um dos subordinados, Pedro de Alvarado (futuro conquistador da Guatemala), à testa da guarnição em Tenochtitlán, partiu para a costa com uma centena de homens. Quando localizou as forças de Narváez, em Cempoala, resolveu agir de surpresa e atacou-as durante a noite, sob chuva torrencial. A vitória foi total. Narváez, que perdeu um dos olhos no combate, acabou aprisionado. Cortés conseguiu depois uma coisa muito importante: à custa de promessas de ouro, a maior parte das tropas de Narváez passou para o seu lado.

Na altura em que se preparava para regressar a Tenochtitlán, o comandante recebeu a notícia de que os Astecas tinham montado cerco à guarnição chefiada por Pedro de Alvarado. Apressando a viagem, deu entrada na capital no dia 24 de Junho de 1520 e chegou ao seu quartel sem deparar com qualquer resistência.


Cortés foi então informado de que, na sua ausência, as tropas de Pedro de Alvarado tinham levado a cabo o horroroso massacre de seis centenas de nobres astecas enquanto eles se entregavam, no templo, a cerimónias rituais em honra dos seus deuses. Alvarado explicou ao comandante que receara um levantamento dos índios e que resolvera antecipar-se. Mas a sua versão foi posta em dúvida até hoje. Primeiro, porque a cerimónia asteca fora precedida de um pedido de autorização a que ele próprio anuíra; segundo, porque as vítimas se achavam desarmadas e indefesas; terceiro, porque o que se seguiu ao massacre não passou de um assalto, em que as vítimas foram despojadas das suas jóias pela soldadesca espanhola.
Cortés reagiu com aspereza às justificações de Alvarado. Disse-lhe que procedera mal e que não fora digno da confiança que nele depositara - em síntese, que ele se havia conduzido como um louco. Contudo, e embora lhe tivesse voltado as costas na ocasião, não se pôde dar ao luxo de dispensar os serviços de um oficial daquela têmpera. 

Fosse como fosse, aquele dia - em que pereceu a fina flor da nobreza asteca - marcou uma importante viragem nas relações entre a população da cidade e os invasores. O ódio, longamente sustido por um medo supersticioso, soltou-se de vez: o ambiente da cidade tornou-se hostil para com os brancos e deixou de lhes ser fornecida alimentação. Foi até concretizado um primeiro, ainda que mal sucedido, ataque ao quartel. Quando Cortés reentrou na cidade, a situação mantinha-se tensa e não se adivinhava nada de bom para os Espanhóis. Ouviam-se ao longe, pela primeira vez, ameaçadores gritos de guerra. Grupos de populares empenhavam-se em destruir as pontes levadiças dos passadiços por forma a impedir a eventual fuga dos agressores.
O comandante sentiu que a situação se tornaria em breve insustentável, não tanto sob o ponto de vista militar - o quartel-general estava rodeado por um muro de pedra eriçado de canhões e arcabuzes - mas por razões de abastecimento: ele tinha agora que alimentar diariamente mais de mil soldados, bem como milhares de aliados tlaxcaltecas, e não via forma de o fazer.

Na madrugada seguinte, soou o alerta: aproximava-se uma enorme multidão ululante, encabeçada por aquele que os Astecas - na ausência de Moctezuma - pareciam ter escolhido como novo chefe: Cuitlahuac, irmão do imperador, desde sempre partidário da guerra contra os estrangeiros. Cortés, quando viu o inimigo a distância conveniente, deu ordem de fogo, lançando a confusão e o pânico nas linhas avançadas dos atacantes. Mas logo surgiram novas ondas de guerreiros, passando por cima de mortos e feridos, gritando e disparando setas incendiárias. Ao mesmo tempo, postadas nos telhados fronteiros, mulheres e crianças faziam tombar sobre os invasores uma chuva de pedras. A luta prolongou-se por todo o dia, mas o quartel espanhol logrou aguentar-se. Cortés, protegido por intenso fogo de artilharia, realizou uma surtida com a cavalaria e com centenas de guerreiros tlaxcaltecas, mas a oposição asteca foi tão feroz que ele teve que retroceder para o quartel após sofrer algumas baixas mortais.
O comandante, que até então menosprezara a capacidade militar daquele povo, compreendeu que tentar uma evasão de Tenochtitlán em tais condições constituiria um suicídio. Ele próprio recebera na refrega desse dia uma grave ferida na mão. Resolveu, por isso, pedir ajuda àquele que mais razões teria para recusá-la - o imperador Moctezuma.


O comandante, auxiliado pelo padre Olmedo, solicitou então ao soberano asteca que intercedesse junto do povo para que este permitisse aos Espanhóis uma saída pacífica da capital. Moctezuma respondeu com tristeza que o povo já não acreditava nele e muito menos nas promessas dos brancos. É impossível que possais sair daqui com vida, rematou. Cortés insistiu no pedido, e de tal maneira o fez que o imperador, exausto, concordou em dirigir-se ao povo.

Quando Moctezuma surgiu no topo do palácio, com as suas vestes e insígnias imperiais, fez-se um silêncio sepulcral entre a multidão que cercava o edifício. Alguns arrojaram-se ao solo em sinal de respeito. O imperador, em termos extremamente afectuosos, procurou falar ao coração dos que o ouviam. A sua intenção, segundo crêem muitos historiadores, residia sobretudo em poupar as vidas dos seus súbditos - e não as dos Espanhóis. Por isso, numa suprema tentativa de apaziguamento, insistiu na versão de que não se achava cativo, mas que, pelo contrário, poderia abandonar aquele quartel quando lhe aprouvesse. Os brancos - prosseguiu - eram seus hóspedes e estavam agora na disposição de se irem embora. Era portanto necessário que o povo lhes desimpedisse a passagem e os deixasse partir em paz. Concluiu dizendo que todos deviam depor as armas e voltar às suas casas: logo que os hóspedes partissem, tudo voltaria a ser como dantes em Tenochtitlán.

As palavras de Moctezuma produziram uma reacção contrária à desejada. Após um surdo murmúrio de mau agouro, ergueu-se da multidão uma ensurdecedora vozearia de protesto, e tudo o que restava da submissão e da reverência devidas ao imperador se desfez naquele instante. Ele tinha razão: ninguém confiava já nas suas palavras e todos o consideravam, como amigo dos Espanhóis, um traidor do seu povo. A escolta espanhola, iludida pelo silêncio, aparentemente respeitoso, com que o discurso do soberano fora escutado, nada pôde fazer para o proteger do dilúvio de setas e pedradas que caíram sobre ele. Moctezuma sofreu vários ferimentos graves e tombou por terra, inanimado.
Como que aterrados pelo sacrilégio que acabavam de cometer, os sitiadores do quartel soltaram um imenso grito de espanto e deitaram a correr em todas as direcções. Em pouco tempo, da multidão que enchia a praça não ficou um só homem ou mulher.

Moctezuma fora entretanto transportado para os seus aposentos. Quando recuperou os sentidos, mergulhou num mutismo absoluto. Rejeitou os tratamentos que os Espanhóis lhe queriam ministrar e também recusou alimentar-se. Consciente do ponto de degradação a que chegara aos olhos do seu próprio povo, só ambicionava despedir-se da vida. Os Espanhóis, vendo que o seu estado se agravava nos dias seguintes, insistiram para que se convertesse à religião cristã. O imperador quebrou o silêncio para dizer ao padre Olmedo, que o acompanhava junto do leito empunhando um crucifixo, que jamais abandonaria a religião dos seus avós. Moribundo, voltou a falar para rogar a Cortés que protegesse os seus filhos. Expirou, em fins de Junho de 1520, nos braços de alguns nobres astecas que se lhe tinham mantido fiéis até ao derradeiro instante.

Continua em 7-Setembro-2019  (7.ª Parte - Conclusão)

sábado, 24 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 5.ª Parte

Continuação de:
27-Julho-2019 - 1.ª parte (ver aqui)
03-Agosto-2019 - 2.ª parte (ver aqui)
10-Agosto-2019 - 3.ª parte (ver aqui)
17-Agosto-2019 - 4.ª parte (ver aqui)
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As notícias sobre o avanço implacável de Cortés abateram-se sobre a cidade de Tenochtitlán (México) como avisos de desgraça. Segundo relatos espanhóis, o imperador Moctezuma ter-se-á debatido até ao último instante com uma dúvida terrível acerca da verdadeira identidade do estranho visitante. Seria este um homem comum, a quem os seus exércitos talvez pudessem fazer frente? Ou tratar-se-ia, antes, de um enviado do deus Quetzalcoatl - que, nessa condição, não deveria ser hostilizado?
A angústia de Moctezuma, chefe político e religioso dos Astecas, era perfeitamente justificada. Ele sabia como tinham vindo a acumular-se, nos últimos tempos, os mais funestos presságios para o império. Por exemplo: uma enorme e resplandecente língua de fogo iluminara os céus havia dez anos; o pináculo de um templo do deus Huitzilopochtli pegara fogo sem razão aparente; caíra um raio sobre o templo do deus Xiuhtecutli  sem que as condições meteorológicas o justificassem; tinha-se revolvido em ondas enormes o lago da cidade e nos ares ecoara o lamento de uma mulher que anunciava a queda do império; surgiam repentinamente do nada figuras monstruosas que se desvaneciam diante de Moctezuma.

Os Astecas achavam-se realmente confusos e a sua divisão era evidente. Para uns, os invasores eram deuses, sendo inevitável que dirigentes e povo se lhes submetessem. Outros, porventura em minoria, acreditavam que se tratava de homens como quaisquer outros e que urgia combatê-los para os expulsar dali. No meio disto, Moctezuma, o valente guerreiro de outrora, esmagado pelos factos e pelas convicções religiosas, mostrava-se hesitante, pusilânime e incapaz de decidir.

Na dúvida, e visando esconjurar o perigo iminente, a cidade mergulhou numa vaga de preces e de sacrifícios rituais. Mas tudo foi inútil. No dia 8 de Novembro de 1519, transpostas as imponentes montanhas vulcânicas de Popocatepetl e de Ixtlaziuatl, os Espanhóis, acompanhados pelos seus aliados tlaxcaltecas, tiveram enfim diante dos olhos a fascinante - e inesperada - visão de Tenochtitlán, capital do império dos Astecas. O espectáculo foi de tal modo surpreendente e arrebatador que eles se convenceram de que estavam diante de uma civilização não só muito adiantada - mas, sobretudo, detentora de grandes riquezas.

Cortés imobilizou o exército a meio de um dos passadiços que, atravessando o lago, davam acesso à cidade, e foi aí que ficou à espera de Moctezuma. Na urbe, entretanto, parecia ter sido finalmente tomada uma decisão. Milhares de astecas apinhavam-se no caminho, enquanto outros se movimentavam em canoas pelo lago para virem ver de perto os visitantes. Surgiu pouco depois um extenso cortejo de nobres magnificamente ataviados - exibiam vistosos mantos de plumas, argolas de ouro no nariz e colares e pulseiras de turquesa. Quando chegaram perto dos Espanhóis pousaram no chão um sumptuoso palanquim com franjas de prata. Depois cobriram o solo com ricas tapeçarias bordadas e foi por elas que Moctezuma caminhou e se aproximou do comandante espanhol.



Os recém-chegados tinham finalmente diante de si o esquivo e poderoso imperador dos Astecas. Nas suas crónicas, descreveram-no assim: O grande Moctezuma contava cerca de quarenta anos, tinha boa estatura, era bem proporcionado, magro, da cor e do tom natural nos Índios. Não usava cabelo comprido, mas apenas tapando as orelhas. A barba, negra e pouco abundante, apresentava-se bem cuidada. O rosto era um tanto comprido mas alegre, e revelava, na sua aparência e comportamento, afabilidade e, quando necessário, gravidade.

Cortés, seguindo o costume espanhol, avançou para abraçar o soberano, mas foi barrado por dois cortesãos: Moctezuma era demasiado sagrado para poder ser tocado. O soberano deu as boas-vindas aos Espanhóis, num discurso que Dona Marina traduziu. Trocaram-se presentes. Cortés ofereceu a Moctezuma um colar de pérolas e de contas de vidro, recebendo em troca dois colares de conchas de caracol com oito camarões de ouro cada um. Os camarões de ouro eram símbolos sagrados do deus Quetzalcoatl. Os recém-chegados foram depois alojados no luxuoso palácio que fora do pai do imperador (já falecido), sendo-lhes servida uma copiosa refeição. Moctezuma regressou ao seu palácio de mármore e alabastro, e, como era costume, jantou sozinho.

Nos dias seguintes os Espanhóis puderam visitar Tenochtitlán, uma vasta metrópole cercada de água e que um labirinto de canais atravessava em todas as direcções. Ficaram maravilhados com as casas caiadas, os jardins em socalcos, os templos imponentes, os edifícios públicos monumentais, as vastos mercados repletos de gente.
Cortés foi por fim conduzido, juntamente com os seus companheiros, ao templo principal, uma enorme estrutura em forma de pirâmide. No cimo da íngreme escadaria, o comandante tinha à sua espera o próprio Moctezuma, o qual lhe tomou a mão e o convidou a admirar a grande cidade e as numerosas povoações edificadas em torno do lago.

Cortés apreciou a vista fabulosa. Mas ficou muito mal impressionado com os "ídolos malditos" que se viam no local e com as cerimónias religiosas que tinham lugar no topo do templo. Numa sala, viam-se braseiros com incenso de copal onde ardiam os corações de três índios imolados naquele mesmo dia. As paredes e o chão da sala estavam enegrecidos por sangue seco e todo o local exalava um cheiro nauseabundo. Cortés, o mais amavelmente que pôde, disse ao imperador que não compreendia como um homem sensato como ele podia acreditar naquelas coisas maléficas. Os sacerdotes astecas que acompanhavam a visita deram sinais de hostilidade. Moctezuma, diplomaticamente, disse a Cortés que, se soubesse que ele iria insultar os seus deuses, não lhos teria mostrado. O comandante, reprimindo os seus sentimentos, respondeu com alguma secura: Se realmente assim é, perdoai-me. E desceu a escadaria.


Os Espanhóis não poderiam ter desejado entrada mais facilitada na capital asteca nem acolhimento mais amistoso por parte do imperador. Mas este acolhimento, que se foi prolongando no tempo, começou a colocar Cortés numa situação difícil. Com efeito, ele tinha-se apresentado como um visitante pacífico, sem demonstrar o menor sinal de ambições de qualquer tipo, se se descontar o desejo de converter os anfitriões à sua religião (uma obsessão de que os invasores jamais se conseguiriam libertar). A sua atitude, obviamente, estava longe de ser sincera - o comandante era um conquistador, não um turista… -, mas ele necessitava de se comportar assim para poder fixar-se no coração do império asteca sem resistência militar.

Nesta altura, Moctezuma já devia ter perdido as ilusões de que se encontrava diante de deuses ou de quaisquer enviados destes. Mas entendeu rapidamente que poucas hipóteses teria de os enfrentar num eventual cenário de guerra. Não fora por acaso que Cortés mandara saudar, com disparos de artilharia, a boa recepção que tivera: tratou-se, acima de tudo, de uma assustadora demonstração de poder. Moctezuma captou a mensagem e, visando apenas a sobrevivência, resolveu entrar naquele jogo de ficção. Procurou, assim, neutralizar os recém-chegados com uma chuva de amabilidades e de presentes: eles eram atendidos e tratados diariamente como se fossem reis e todos os desejos lhes eram satisfeitos.

Cortés sentiu que aquela situação de paz podre não favorecia os seus interesses. Agora que se instalara em Tenochtitlán, só pensava em arranjar um pretexto para romper com os anfitriões e alcançar enfim o seu inconfessado objectivo: substituir a organização e as autoridades astecas pelas espanholas, ou, por outras palavras, liquidar o império asteca para o converter numa simples província do império espanhol. Principiou assim um hábil jogo de enganos entre o conquistador e a sua futura vítima, ou, se se quiser, uma espécie de jogo do gato e do rato.
Cortés procurava incessantemente o seu pretexto; Moctezuma fazia tudo para não lho oferecer. Convencera-se definitivamente de que, se a situação desembocasse num confronto bélico, a independência asteca estaria perdida sem remédio. Para além da superioridade militar dos estrangeiros, ele sabia que o império assentava em grande parte na opressão dos povos tributários, que não hesitariam em aliar-se aos invasores para combater os senhores de Tenochtitlán. Deste modo, o imperador intensificou as gentilezas para com os visitantes: continuava a cobri-los de presentes, levava-os a visitar os seus maravilhosos jardins suspensos e exibia-lhes as suas magníficas colecções de animais selvagens e aves exóticas. 



À medida que o tempo passava, crescia a apreensão dos Espanhóis: a seus olhos, Tenochtitlán estava a transformar-se numa prisão, ainda que dourada. Eles temiam que as cortesias dessem repentinamente lugar à hostilidade e que os Astecas resolvessem esmagá-los com a força do seu número. Cortés arquitectou então um golpe audacioso, baseando-se num episódio ocorrido, há algum tempo, no litoral onde edificara Veracruz. O comandante soubera do sucedido em Cholula, ainda antes de entrar em Tenochtitlán, mas guardara consigo a informação até a poder utilizar em altura mais oportuna. Após madura reflexão, concluiu que a ocasião havia chegado.
Acontecera que os Cempoaltecas, seguindo o conselho dos invasores, se tinham recusado a pagar os impostos exigidos pelos cobradores astecas. Quando estes, chefiados por Cuauhpopoca, um governador de província, quiseram recorrer à força para impor a lei imperial, o comandante que Cortés deixara à frente de Veracruz, Juan Escalante (ver 4.ª Parte), saiu com a guarnição da colónia em socorro dos seus aliados. Na luta que se travou, os Espanhóis acabaram por ficar donos do campo, mas perderam sete ou oito homens. O próprio Juan Escalante, ferido no combate, morreria dias depois.

Cortés, finalmente decidido a precipitar os acontecimentos e a reforçar a sua posição em Tenochtitlán, deslocou-se então, acompanhado pelos intérpretes, por cinco dos seus oficiais e por alguns soldados, até ao palácio de Moctezuma. Nas avenidas contíguas ao palácio imperial, destacamentos espanhóis garantiam a segurança da operação.
O imperador recebeu os estrangeiros com a amabilidade habitual. Persistindo no seu jogo de sedução, mandou distribuir por eles uma generosa oferta de ouro e jóias. Dispôs-se mesmo a presentear Cortés com uma das suas filhas - honra que o comandante recusou, com refinada hipocrisia, alegando que já era casado em Cuba e que a sua religião lhe proibia ter várias mulheres.

A conversa prosseguiu com amenidade, até que Cortés deixou cair a máscara e falou a Moctezuma das ocorrências de Veracruz, responsabilizando-o por elas. O imperador negou a acusação. Cortés respondeu que, assim sendo, o mal só poderia ser reparado com o castigo do governador Cuauhpopoca e dos seus cúmplices. Moctezuma concordou em chamá-los a Tenochtitlán para se apurarem as culpas, mas Cortés comunicou-lhe que, enquanto o assunto não estivesse encerrado, o imperador deveria transferir-se para o quartel dos Espanhóis. Moctezuma, pálido como um cadáver, começou por rejeitar o "convite". Cortés insistiu. Ao fim de duas horas de conversa, e quando os oficiais espanhóis já davam sinais de impaciência, ele concordou em acompanhar os invasores. Nas avenidas, enquanto se encaminhava para a nova residência, o imperador deu a entender aos súbditos que se deslocava de livre vontade.
Embora ninguém o dissesse em voz alta, todos se achavam compenetrados de que Moctezuma, o grande imperador dos Astecas, não passava já de um prisioneiro - e de um refém - nas mãos dos Espanhóis.

Continua em 31-Agosto-2019 (6.ª Parte - ver aqui)

domingo, 2 de dezembro de 2018

"Manitas de Plata". Olé!





"Manitas de Plata" (Ricardo Baliardo) foi um extraordinário guitarrista de flamenco.

Nasceu numa caravana cigana, em Sète, sul de França, a 7 de Agosto de 1921.

Faleceu em Montpellier, com 93 anos (5 de Novembro de 2014).
Tocou com Paco de Lucia e para a dançarina Nina Corti.

Pablo Picasso, que foi um dos seus grandes admiradores, comentou ao ouvi-lo pela primeira vez: "Este homem vale mais do que eu!"

Apreciem, abaixo, o seu virtuosismo.
(Vídeo de jezagrom)




Manitas de Plata em 1968


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

DA "CULTURA" EM PORTUGAL...


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“(…) Há um momento nas touradas em que o touro, muito ferido já pelas bandarilhas, o sangue a escorrer, cansado pelos cavalos e as capas, titubeia e parece ir desistir. Afasta-se para as tábuas. Cheira o céu.
Vêm os homens e incitam-no.
A multidão agita-se e delira com o sangue.

O touro sabe que vai morrer.
Só os imbecis podem pensar que os animais não sabem. Os empregados dos matadouros, profissionais da sensibilidade embaciada, conhecem o momento em que os animais "cheiram" a morte iminente.

Por desespero, coragem ou raiva (não é o mesmo?), o touro arremete pela última vez. Em Espanha morre. Aqui, neste país de maricas, é levado lá para fora para, como é que se diz? ah sim: ser abatido. A multidão retira-se humanamente, portuguesmente, de barriga cheia de cultura portuguesa, na tradição milenar à qual nenhuma piedade chegou.

(…) Os toureiros são corajosos, mas entram na arena sabendo que haverá sempre quem os safe, se não à primeira colhida, então à segunda. Às vezes aleijam-se a sério e às vezes morrem, o que talvez prove que os deuses da Antiguidade são justos, vingativos e amigos de todos os animais por igual.

Os touros, esses, não têm ninguém que os vá safar em situação de risco, estão absolutamente sós perante a morte. Querem os toureiros ser hombres até ao fim? Experimentem ser tão homens como eram os homens e os animais na Antiguidade: se ficarem no chão, fiquem no chão.
Morram na arena.
É cultura.
A senhora ministra da Cultura certamente compensará tão antigo costume.

Também era da tradição em Portugal, por exemplo, executar em público os condenados, bater nas mulheres, escravizar pessoas.
Foi assim durante milénios.
Ninguém via mal nenhum nisso a não ser, confusamente, com dúvidas, as próprias vítimas. Até que a piedade, na sua interpretação moderna e laica, acabou com tão veneráveis tradições.

Que será preciso para acabar com a tradição da tourada? Que sobressalto do coração será necessário para despertar em nós a piedade pelos animais?”(*)

(*) Paulo Varela Gomes – Morrer como um touro – Jornal Público, 27 de Fevereiro de 2010

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

segunda-feira, 7 de março de 2011

Júlio Dantas

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"(…) Figura insigne da literatura portuguesa, Dantas é uma daquelas personalidades sobre as quais foi lançado um manto de silêncio. Hoje em dia, os chamados intelectuais evitam pronunciar o seu nome e citar a sua obra e, quando o fazem, é normalmente com um sentido de escárnio e mal-dizer. Nos tempos que correm, só é possível mencionar o nome de Dantas quando se evoca o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, cuja redacção se deve unicamente à projecção de Júlio Dantas na sociedade portuguesa de então.
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Júlio Dantas nasceu em Lagos, em 19 de Maio de 1876, e morreu em Lisboa em 25 de Maio de 1962. Médico por formação e escritor por vocação, oficial do exército, jornalista, tradutor, presidente do Conservatório Nacional, embaixador no Brasil, ministro da Instrução Pública e dos Negócios Estrangeiros, foi durante muitos anos presidente da Academia das Ciências, cargo em que se nobilitou e nobilitou a Academia.
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Consideram muitos o seu estilo pomposo, a sua escrita retrógrada quando não reaccionária, censuram-lhe a sua suposta conivência com o anterior regime, a sua ignorância dos temas sociais. Nem sequer lhe reconhecem que foi, no seu tempo, um dos portugueses que melhor manejou a língua portuguesa e a quem figuras gradas pediam conselho antes de publicarem os seus escritos.
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Para além dos discursos, peças de oratória notável que revelam uma cultura humanística das mais brilhantes do seu tempo, Dantas escreveu poesia, prosa e teatro, deixando-nos obras, hoje infelizmente esgotadas ou que apenas se encontram, e com dificuldade, em alfarrabistas e leilões, que foram um sucesso na sua época e muitas o seriam ainda hoje, se fossem lidas, o que é difícil dada a conspiração de silêncio que se teceu à sua volta.
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Das suas peças, o público (e só o mais informado) conhecerá apenas A Ceia dos Cardeais, aliás traduzida em mais de vinte línguas, e A Severa, até pelo filme que dela extraiu Leitão de Barros e que foi o primeiro filme sonoro português. Quem se recorda de Um Serão nas Laranjeiras, Santa Inquisição, Frei António das Chagas ou Os Crucificados, em que se aborda pela primeira vez no nosso teatro, e num ambiente proletário, um caso de homossexualidade?
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E da obra em prosa, quem se lembrará de Pátria Portuguesa, de O Amor em Portugal no Século XVIII ou de Marcha Triunfal? Já para não falarmos dos seus discursos, notáveis peças que fariam corar de vergonha, se a tivessem, os discursadores dos nossos dias!

Não cabe, neste pequeno apontamento, tudo o que haveria a dizer sobre Júlio Dantas, não só na literatura como na própria política. Agora considerá-lo um escritor menor, ou ignorá-lo, só poderá acontecer por ignorância (que é o que prolifera nos nossos dias) ou por má-fé."

Fonte: blogue “Do Médio Oriente e afins” (26-Maio-2009)
Com a devida vénia e parabéns pelo texto.
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domingo, 2 de janeiro de 2011

Coisas que nunca deverão mudar em Portugal...

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O embaixador de Inglaterra em Portugal, Alexander Ellis, escreveu, no momento em que deixou o cargo, o seguinte texto (divulgado pelo jornal Expresso em 18 de Dezembro de 2010).
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Portugueses:

2010 tem sido um ano difícil para muitos; incerteza, mudanças, ansiedade sobre o futuro.
O espírito do momento é de pessimismo, não de alegria. Mas o ânimo certo para entrar na época natalícia deve ser diferente. Por isso permitam-me, em vésperas da minha partida pela segunda vez deste pequeno jardim, eleger dez coisas que espero bem que nunca mudem em Portugal..
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1. A ligação intergeracional.
Portugal é um país em que os jovens e os velhos conversam - normalmente dentro do contexto familiar. O estatuto de avô é altíssimo na sociedade portuguesa - e ainda bem. Os portugueses respeitam a primeira e a terceira idade, para o benefício de todos.
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2. O lugar central da comida na vida diária.
O almoço conta - não uma sandes comida com pressa e mal digerida, mas uma sopa, um prato quente, etc., tudo comido à mesa e em companhia. Também aqui se reforça uma ligação com a família..
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3. A variedade da paisagem.
Não conheço outro pais onde seja possível ver tanta coisa num dia só, desde a imponência do rio Douro até à beleza das planícies do Alentejo, passando pelos planaltos e pela serra da Beira Interior.
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4. A tolerância.
Nunca vivi num país que aceite tão bem os estrangeiros. Não é por acaso que Portugal é considerado um dos países mais abertos aos emigrantes pelo estudo internacional MIPEX.
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5. O café e os cafés.
Os lugares são simples, acolhedores e agradáveis; a bebida é um pequeno prazer diário, especialmente quando acompanhado por um pastel de nata quente.
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6. A inocência.
É difícil descrever esta ideia em poucas palavras sem parecer paternalista; mas vi no meu primeiro fim-de-semana em Portugal, numa festa popular em Vila Real, adolescentes a dançar danças tradicionais com uma alegria e abertura que têm, na sua raiz, uma certa inocência..
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7. Um profundo espírito de independência.
Olhando para o mapa ibérico parece estranho que Portugal continue a ser um país independente.
Mas é - e não é por acaso.
No fundo de cada português há um espírito profundamente autónomo e independentista.
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8. As mulheres.
O Adido de Defesa na Embaixada há quinze anos deu-me um conselho precioso:
Jovem, se quiser uma coisa para ser mesmo bem feita neste país, dê a tarefa a uma mulher.
Concordei tanto que me casei com uma portuguesa.
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9. A curiosidade sobre, e o conhecimento, do mundo.
A influência de "lá" é evidente cá, na comida, nas artes, nos nomes.
Portugal é um pais ligado, e que quer continuar ligado, aos outros continentes do mundo.
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10. Que o dinheiro não é a coisa mais importante no mundo.
As coisas boas de Portugal não são caras. Antes pelo contrário: não há nada melhor do que sair da praia ao fim da tarde e comer um peixe grelhado, acompanhado por um simples copo de vinho.
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Então, terminaremos a contemplação do país não com miséria, mas com brindes e abraços.
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Novo livro - Rainhas Medievais de Portugal

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Acaba de ser lançada em Portugal, por A Esfera dos Livros, mais uma obra de divulgação histórica, dentro do estilo a que a Editora nos tem vindo felizmente a habituar.

Trata-se de “Rainhas Medievais de Portugal”, da autoria de Ana Rodrigues Oliveira (professora de História, com especialização na área de História Cultural e das Mentalidades).

É-nos proposto um conjunto de biografias de 17 mulheres, que se estendem por duas dinastias e por quatro séculos de história.

Na introdução, o livro aborda brevemente as origens e a estruturação do Condado Portucalense, de onde surgiria o Portugal de hoje. Opção com toda a razão de ser, uma vez que a primeira biografada é a condessa Dona Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal.

Depois de Dona Teresa vêm, por ordem cronológica, as biografias de Mafalda de Sabóia (1125-1158) – Dulce de Aragão – Urraca Afonso de Castela – Mécia Lopez de Haro – Beatriz de Gusmão – Isabel de Aragão – Beatriz de Castela – Constança Manuel – Inês de Castro – Leonor Teles – D. Beatriz – Filipa de Lencastre – Leonor de Aragão – Isabel de Lencastre – Joana de Castela – Leonor de Lencastre (1458-1525).

São, como se vê, com raríssimas excepções, mulheres ibéricas (da Galiza, de Aragão, de Castela, de Portugal), o que reflecte a estratégia matrimonial de aproximação entre as monarquias da época.

Da apresentação da obra destacamos:

Numa época em que as fontes escasseiam, os silêncios e as omissões são frequentes e em que as mulheres, mesmo sendo rainhas, eram vistas através, e em função, dos seus maridos, os reis, Ana Rodrigues Oliveira, baseada numa pesquisa exaustiva e numa investigação rigorosa, consegue trazer-nos as biografias destas mulheres, desvendando o seu papel, a sua acção, o seu sentir e a sua voz no fluir dos acontecimentos da família, da sua corte, dos seus reinos de nascimento e de casamento.

Nesta obra original e única, ficamos a conhecer estas mulheres que deixaram marcas no imaginário dos Portugueses e, através delas, viajamos ao longo de quatro séculos de um período fascinante da História de Portugal.

A obra tem 673 páginas, com 21 de referências bibliográficas
(PVP € 30,00).

Fontes documentais utilizadas com rigor, estilo despretensioso, claro e atractivo.

Leitura recomendada pela Torre.

domingo, 14 de novembro de 2010

Festas de Sevilha! (Espanha)

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Sevilla (de Isaac Albéniz) - Interpretação de John Williams
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