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quinta-feira, 9 de julho de 2015

"Quem é esta gente?"

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"A Europa que eu vi formar-se e abrir as portas a Portugal era dirigida por gente como Willy Brandt, Helmut Schmidt, François Miterrand, Olof Palme, Harold Wilson, James Callaghan, Bettino Craxi, Felipe González, Mário Soares.
Todos eles tinham uma ideia de Europa onde se espelhavam os melhores valores da civilização europeia, como um todo, e na qual se reviam os povos europeus, do norte ao sul, do leste ao oeste.
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Depois veio a Europa dos burocratas sem ideologia, os longos dez anos de Durão Barroso, em que o grande exercício político consistiu em nada decidir e ficar de braços cruzados a ver tudo acontecer:
os progressos feitos pelos outros na ciência, na inovação, na energia, e os retrocessos próprios na integração, na moeda única, numa política diplomática e de defesa comum, no combate ao fundamentalismo islâmico.
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Um longo sono fatal.
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Mas agora há outra gente movida por um sentimento de superioridade em relação aos "PIGS", um desejo de os castigar porque são irresponsáveis, porque têm ilhas ou mar a mais, porque têm sol quando eles têm chuva, porque conseguem rir quando deveriam chorar apenas.
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Nada do que eles propõem para a Grécia tem a menor sustentabilidade económica: é apenas a continuação de uma receita garantida para o desastre e a miséria.
Impede o crescimento, estimula o desemprego, arruína o sector financeiro e empresarial e, no fim, só agravará a dimensão da dívida.
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Há quem acredite numa conspiração oculta da grande finança para expulsar do euro os que só enfraquecem a moeda; há quem pense que se trata antes de uma vendetta histórica da direita sobre décadas de predomínio intelectual e político da esquerda e uma oportunidade imperdível de aplicar a sua agenda em termos irreversíveis.
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Mas provavelmente é tudo menos grandioso do que isso: apenas uma terrível combinação entre ignorância e insensibilidade.
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Fixemos os seus nomes para memória futura: Merkel, Schäuble, Dijsselbloem, Lagarde, Juncker, Rajoy, Passos Coelho e alguns outros personagens menores."
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Miguel Sousa Tavares - Artigo completo em" Expresso" (Lisboa - Portugal), 4-Julho-2015, pág. 12.
(Sublinhados da responsabilidade da Torre)
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domingo, 1 de junho de 2014

Política à Portuguesa (Costa contra Seguro, no ringue - O último combate)

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"Costa saltou contra Seguro.
Se calhar ele pensava que o secretário-geral se encolhia...
Qual quê! António José Seguro subiu para o ringue, saltitando e dando ganchos no ar, com a pose de boxeur que se lhe conhece, queixo firme e discurso claro: "A minha consciência diz-me que eu tenho de continuar a lutar pelos valores e pelos princípios e habituem-se porque isto mudou."

Juro, ele disse isto, ontem. Na mesma frase, "tenho de continuar a lutar pelos valores" e "habituem-se porque isto mudou"!
No boxe chama-se a isso jabs, sucessão de golpes, esquerda-direita...
Em discurso parece contraditório, mas agora António Rocky Seguro quer passar a imagem de durão.

Ele adora desafios impossíveis, já antes queria passar por líder.
O outro quis encostá-lo às cordas do congresso. Com um jogo de pernas notável, o nosso Belarmino do Rato lançou-se para as primárias.
Eu explico o que isso quer dizer em boxe.

Suponhamos que o pugilista receia um KO, porque reconhece que o adversário é mais forte. Então, refugia-se nas cordas, dança, enfim, compra tempo.

Com um passado de ganhar por pouco, Seguro quer agora ganhar muito. Muito tempo.
O outro atrás dele para uma luta leal e ele às voltinhas à espera que o gong o salve.

Vocês vão dizer-me: "Mas ele vai ficar mal visto..."
Não sei. O erro mais visível de Seguro era ter o título de líder e sê-lo pouco.

 Agora, a fugir à luta, ele já ganha coerência. Já é ele.
Na política a coerência é importante." (*).

(*) Ferreira Fernandes, Seguro à espera que o ‘gong’ o salve, in Diário de Notícias, Lisboa, 1-Junho-2014.


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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Política à Portuguesa (Seguro e o Princípio de Peter)



“(…) Seguro cumpriu o princípio da incompetência de Peter: foi o líder de transição que sempre é sacrificado entre lideranças marcantes. E, desse ponto de vista, cumpriu fielmente o papel que lhe foi destinado. Seguro ficará tanto na memória colectiva como Fernando Nogueira, o tal que sucedeu a Cavaco Silva no PSD.
Mas, como postula o princípio de Peter, Seguro não dá mais que isto.
A sua visão para o País tem a consistência de gelatina e a capacidade mediática de um pão seco.
Eu não sei se António Costa vai ser o próximo líder do PS.
Não sendo militante, a decisão não está nas minhas mãos. Mas, francamente, tenho pressa que as entranhas do PS não confundam, como tem sido hábito, deslealdades com divergências, a forma da letra com o espírito da mesma, e os interesses do País com os interesses de meia dúzia com genética de lapa, agarradinhos aos estatutos como tábua de salvação.
Mas se Seguro quiser desmentir quem clama por algo diferente, é simples: marque congresso extraordinário por sua iniciativa e olhe António Costa - e o País - nos olhos.” (*)

(*) Ana Martins, in “Económico”, Lisboa, 30-Maio-2014




domingo, 31 de outubro de 2010

A Dívida é Bela!

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"Portugal teve o terceiro menor crescimento económico do mundo na última década (6,47%), ganhando apenas à Itália (2,43%) e ao Haiti (-2,39%), numa lista de 180 países publicada pelo 'El País' com base em dados do FMI" - aposto que os leitores ficaram tristes com esta notícia.
Mas a notícia tem duas leituras - ganhar à Itália é sempre de festejar..
E é bonito (e surpreendente para muita gente) existirem 180 países.
Como vêem, existe beleza e felicidade no que à primeira vista parecia mais uma notícia cinzenta e desoladora.
E para quê ficar triste, se pode ficar solidário com a desesperada situação do Haiti?

Não adianta, não é? Só têm olhos para o lado negro. Só conseguem ver o número 178, numa lista de 180, a piscar.
Estão muito pessimistas?
Hum... Então, deitem-se no divã - deixem-me só tirar o busto de Freud, se não, ainda se magoam.


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Sabem qual é o nosso problema?
O problema é que andamos deprimidos.
Portugal está numa espécie de depressão pós-parto depois de uma gravidez histérica - um caso muito grave. Tanto sofrimento e enjoo para, afinal, ser só ar. Se o Doutor Egas Moniz fosse vivo sabia o que fazer… que frase deprimente.

Como podem ver, eu também estou em baixo. Estamos todos: os jornalistas, os políticos, os economistas. O povo, em geral, está deprimido e vê as coisas sempre pelo lado negativo.
Na Função Pública há funcionários tão deprimidos que nem têm força para pedir baixa.
É como se um mosquito, careca, com uma pequena barbicha branca, nos tivesse picado e transmitido o vírus da Medinacarreirice.
Uma espécie de mosca tsé-tsé arraçada de piolho.

Estamos presos na nossa depressão e vivemos com medo e ataques de pânico.
Se a notícia é - "Cientista indiano descobre cura do cancro, Parkinson e Alzheimer" - a nossa reacção é - "grande bronca!. Agora é que não vai haver dinheiro que chegue para as pensões".


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Temos que lutar contra isso.
É verdade que os factos são graves e a realidade é madrasta mas, porque não fazer como o Roberto Benigni no filme "A Vida é Bela"?

Todo o País a fingir que os funcionários do Ministério das Finanças são duendes bons que vêm buscar o nosso dinheiro para o transformar em unicórnios, flamingos rosa e bosques de cogumelos.

Negar a realidade, neste caso, não é falta de coragem.
Com tudo o que se passou, e nos foi dito, temos direito (até por uma questão de sobrevivência) a ter a versão benigna da negação do nosso maior drama.


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Temos que olhar para aquela pesada porta castanha (por onde entrava a comissão negociadora do PSD e do Governo), fechada, cerrar os olhos e abri-los para ver sair, com um estrondo de pandeiretas, um dragão de carnaval chinês, com o ministro das Finanças na cabeça e o Doutor Catroga, aos saltos, em último, fazendo agitar a cauda.
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Por que não dar o exemplo e começar, já, na próxima semana, neste jornal?

Experimentem pôr, na primeira página, os dígitos do défice como se fosse para crianças - um défice alegre, com um sete feito por uma simpática girafa e o três como uma divertida centopeia.
Ou um 7,3 todo em flores da Madeira, com uma trepadeira de rosas no lugar da vírgula.
Já não parece um número tão feio.

Vamos a isso?  (*)
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(*) João Quadros – Jornal de Negócios – Lisboa – Portugal – 29-Out-2010.
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sábado, 16 de outubro de 2010

De que estamos à espera?

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"(…) O que está a acontecer no nosso país é elucidativo.
O paradigma está a alterar-se, já se alterou, e os nossos políticos, culturalmente muito enfezados, agem na mesma esquadria de há trinta e quarenta anos.
Quero dizer: obedecem, cegamente, ao que do exterior lhes sussurram, e abdicam de criar um esquema próprio de solução dos problemas nacionais.

Sei que é difícil, mas não impossível.
Berlim manda e Bruxelas é o porta-voz. Porém, alguém tem de bater o pé a essa hegemonia.
Desde Bismarck que o Alemão vem por aí abaixo, com armas na mão.
E houve 1914-18 e 1939-45.
Derrotados e humilhados, serviram de veículo a ressentimentos seus e de outros.
A Alemanha não precisa da bomba nem do campo de concentração para ser a potência dominante na Europa.
Chega-lhe e sobra-lhe a força da economia. (…)
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A Direita e a Extrema-Direita avançam em toda a Europa.
A Europa é uma massa inerte que só existe porque a Alemanha assim o permite. Basta atentar na teimosia abstrusa de Ângela Merkel, no pungente problema grego, para nos apercebermos do carácter unilateral e arbitrário de uma política que somente dá garantias e suporte aos mais fortes.
O renascimento da xenofobia, do racismo e dos movimentos neonazis não acontece por acaso.

A Esquerda abandonou as velhas bandeiras que a qualificavam, e esqueceu as causas que a iluminavam.
Só agora, um pouco em Itália e em França, se discute e debate o torção a que a História foi submetida.
Os novos problemas que emergiram, com o financiamento do capital, o movimento migratório, a fome como endemia, a exclusão (ideológica, cultural, identitária) a que assistimos, um pouco por todo o lado, assemelham-se aos anos que antecederam a queda da República de Weimar. (…)


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Como se pode alterar estas situações, tendo presente que o "mercado", a finança, o capitalismo, enfim, tem nas mãos as rédeas de todos os poderes e de todas as decisões?
Creio que o valor moral do ser humano está dependente das circunstâncias.
Ortega o disse.

Todavia, o ser humano dispõe de força suficiente para alterar as circunstâncias.
Historicamente, os ensinamentos são de molde a alimentar as nossas esperanças e a estimular as nossas desafrontas.
Não podemos mais admitir as humilhações a que diariamente somos submetidos.
Nem aceitar viver nesta mentira constante, nesta falta de escrúpulos e de pudor.

Mais é de mais.
De que estamos à espera?"
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Baptista-Bastos – Jornal de Negócios – Lisboa - Portugal (15-Out-2010)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A Nova Face da Direita Política em Portugal - "Vai Tudo Raso!"

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O projecto de revisão constitucional do PSD não deixa pedra sobre pedra do regime democrático nascido a 25 de Abril.
Em sete revisões, a Constituição já levara fortes machadadas dadas pelas maiorias qualificadas para o efeito.
O PSD quer acabar com o resto.

E não se diga que se trata de limar a Constituição dos resquícios ideológicos de pendor revolucionário.
Ao propor a abolição da justa causa para os despedimentos, o PSD revela o carácter da sua mais recente face, não apenas neoliberal, no sentido europeu ou norte-americano, mas inspirada nas economias asiáticas de ditadura do capital financeiro e de mão-de-obra descartável.

Ao propor a abolição do carácter tendencialmente gratuito da prestação dos cuidados de saúde, o projecto do PSD situa-se na América pré-Obama, da ditadura das companhias de seguros com absoluto menosprezo do direito humano à saúde.

E ao propor a substituição de um governo sem recurso à realização de eleições, o PSD revela a costeleta peruana, com governos cozinhados no churrasco da democracia.

Ou seja: o projecto de revisão da Constituição que o PSD vai apresentar não tem nada original, é tudo mais ou menos plasmado do que de mais tenebroso, explorador e totalitário há no mundo actual.

É um projecto raivoso, revanchista, de ajuste de contas contra o carácter de uma democracia nascida da liquidação de uma ditadura de 48 anos.

A revisão da Constituição da República Portuguesa far-se-á e será ou não aprovada em função de trocas e baldrocas de bastidores entre o proponente PSD e os colaborantes do costume, PS e CDS.

Antes de propor a revisão da Constituição da República, este PSD deveria rever a sua própria constituição, porque a designação social-democrata é neste particular um caso de publicidade enganosa. (*)

(*) - João Paulo Guerra - Vai Tudo Raso - Diário Económico (Lisboa - Portugal- 21 de Julho de 2010

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sábado, 29 de maio de 2010

Lusas Servidões...

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Fomos os "alunos exemplares" de Bruxelas:
aceitámos a destruição do nosso tecido produtivo com a submissão de quem não foi habituado a expor questões e a enumerar perguntas.

Pescas, agricultura, tecelagem, metalurgia, pequenas e médias empresas desapareceram na voragem, em nome da "incorporação" europeia.
A lista de cúmplices desta barbaridade é enorme.
Andam todos por aí.

(...) Os economistas que nos afundaram tratam da vidinha, com desenvolta disposição.
Nenhum é responsável do crime; e passam ao lado da insatisfação e da decepção permanentes, como cães por vinha vindimada.

Impuseram-nos modos de viver, crenças (a mais sinistra das quais: a da magnitude do "mercado"), um outro estilo de existência, e o conceito da irredutibilidade do "sistema."

Tratam-nos como dados estatísticos, porque o carácter relacional do poder estabelece-se entre quem domina e quem é dominado - ou quem não se importa de o ser.
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Baptista-Bastos - A Tendência da Servidão - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal (26 de Maio de 2010)
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sábado, 22 de maio de 2010

Crise e Aparências...

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"(...) Temos "benfeitores", sem obra social que se conheça, mas cujas Fundações o Estado ou o Governo cumulam de gentilezas e facilidades.
Temos respeitados "empresários", cuja fortuna começou no desvio de dinheiros europeus e acabou nas offshores do costume, que o poder distingue e apoia.
Temos "produtores" artísticos que só produzem quando subsidiados, que a crítica venera e o público despreza.
Temos "agricultores" que trocaram os tractores por Mercedes topo-de-gama e as culturas tradicionais por regadios de golfe.
Temos uma quantidade de "mestres" e até professores universitários formados em Universidades de vão de escada e agora até um rol de "doutores enfermeiros", reivindicando a equiparação salarial correspondente ao seu estatuto "académico".

E o que tem tudo isto a ver com a crise financeira que vivemos?
Nada ou tudo.
Depende da perspectiva com que olhamos as coisas: um país que se contenta com as aparências, que toma por genuíno o que não passa de oportunismo, que não escrutina o mérito nem questiona socialmente os pantomineiros, está condenado ao fracasso.
Na economia, como no resto.

Tal como na Grécia, o défice público e a dívida acumulada pelo Estado são o resultado directo de anos a fio de cedência a aparências, facilidades, reivindicações demagógicas e apoios não justificados.
Acham que alguém aprendeu a lição?
Não: leiam os blogues ou os comentários dos leitores de jornais - "eles", os sucessivos governos, é que nos desgovernaram; "nós", o bom povo, nada fizemos para merecer esta catástrofe.
É verdade, sim, que eles nos desgovernaram, mas em obediência à vontade do bom povo e porque ceder à demagogia e à facilidade vale muitos votos.

O enfermeiros querem ser doutores?
O Governo cede.
Os professores querem ser todos classificados com "muito bom"?
A oposição aplaude e o Governo rende-se.
O Ministério Público quer ter o sagrado direito de trabalhar sem prazos e os venerandos conselheiros do Supremo querem-no limpar de processos, dificultando a possibilidade de recurso?
O Governo concorda.
Os militares, os polícias, os bombeiros, querem o "legítimo" direito de receber um subsídio de risco por fazerem aquilo para que foram contratados e treinados?
O Governo acha justo.
O dr. Madail quer dez novos estádios para um Europeu de futebol que até o Presidente Sampaio afirmou ser "um desígnio nacional"?
O país festeja - e já se candidata a um Mundial e suspira por uns Jogos Olímpicos.

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(...) A casa está a arder mas há quem ainda não tenha percebido.
Na semana passada, li neste jornal um extraordinário texto em que alguém tentava explicar que essa história do défice é uma invenção dos economistas e que o combate ao défice é um combate contra a economia - a velha tese de que "há mais vida para além do défice", essa fabulosa verdade política que nos trouxe até onde estamos.

Chorem agora Granada caída para os sitiantes:
sem educar, sem seleccionar, sem premiar o mérito, sem denunciar os falsificadores, sem produzir, sem conseguir competir numa economia global, vivendo de subsídios à preguiça e de dívidas acumuladas, que mais vida tínhamos a esperar?" (*)
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(*) - Miguel Sousa Tavares – Uma Vida de Aparências - Expresso – Lisboa – 15 de Maio de 2010
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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Capitalismo Moderno e Finanças Virtuais - ou: A Era dos Novos Corsários

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"Quando o bando de saqueadores passa pela aldeia os aldeões entregam-lhe o que têm.
Fazem por manter a compostura e a humildade para lhes agradar.
Talvez assim partam mais depressa e escolham outra vítima do saque.
Assim se comportam os Estados perante os salteadores da modernidade.

Primeiro foi a Grécia.
Agora é Portugal.
O Reino Unido, com uma situação económica que esteve, em termos relativos, pior do que a nossa, manteve-se, mesmo depois da falência quase generalizada dos seus bancos, com a sua avaliação intocável.
Porque será?
Porque é um jogo mais pesado.

O facto de a correcção dos ratings da Grécia e de Portugal serem feitos no mesmo dia encaixa na narrativa que foi construída.
Quem tem dúvidas de que estas notações fazem parte dos ataques especulativos às dívidas dos países mais frágeis da União vive num Mundo de fantasia - não há fé mais ingénua do que a fé no equilíbrio purificador do mercado.

Dirão que exagero.
Que as agências de rating não inventam a realidade.
Falso.
A realidade não precisaria delas quando falamos de contas que são públicas e auditadas, como são as dos Estados (recordo que em Portugal não houve, ao contrário do que aconteceu com a Grécia, encobrimentos oficiais do défice).
Os números estão aí para quem os queira analisar.

Estas agências constroem narrativas para os especuladores (ou, na melhor das hipóteses, em vez de darem informação rigorosa, limitam-se a devolver aos mercados a sua própria histeria, acabando por ajudar a criar aquilo que anunciam).
E isso basta para que o virtual se torne real.
Os especuladores só querem saber se na realidade virtual em que jogam terão ganhos.
Como percebemos com o que nos levou a esta crise financeira internacional, enquanto for possível alimentar o jogo a realidade não interessa para nada.

Dirão que exagero.
Que as agências de notação são competentes e que se não fossem deixariam de ser ouvidas pelos investidores.
Falso.
Devo recordar que a mesma Standard & Poor's, que agora corrige em baixa o rating português, foi obrigada, aquando do começo da crise, a corrigir num só dia a notação de mais de 90 activos financeiros ligados ao imobiliário.
Tinha falhado em todos.
Porque o jogo obrigava a alimentar a ilusão.
Como falhou na AIG e na Lehman Brothers.
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Vale a pena recordar que foram estas agências que só se aperceberam da catástrofe financeira do Dubai quando ela chegou aos jornais.
Que deram uma excelente nota à Islândia na véspera de o país ter entrado em falência.
Que avaliaram com um triplo A o que agora chamamos de activos tóxicos.
E aí estão a dar conselhos aos investidores sobre a credibilidade das contas dos Estados.

Dirão que, mesmo assim, a vida é como é e que devemos fazer sacrifícios para lhes agradar.
Elas querem sangue.
O discurso sacrificial diz bem ao ponto a que deixámos que o capitalismo financeiro, que nada produz, nos levasse.

Mas, ainda assim, nada chegaria para contrariar a profecia.
As mesmas agências que já ameaçavam cortes no rating se o PEC não fosse suficientemente austero, também ameaçavam cortes no rating se ele não apontasse para o crescimento económico.
E ameaçavam cortes no rating se prometêssemos as duas coisas e tal não fosse credível, coisa que nunca poderia ser.
Somos uma carta marcada a quem só resta esperar pela sua sorte.

Dirão que exagero.
Que as agências de rating são independentes.
Falso.
Elas dependem dos investidores que têm dinheiro empatado no jogo.
Elas estão dependentes de vários interesses no mercado que lhes pagam os serviços.
No dia em que a Europa decidir, como já prometeu, avançar com uma estrutura dependente do Banco Central Europeu que possa ser árbitro e não apenas agente, talvez haja um contrapeso neste jogo viciado.

Entretanto, com uma Europa cega e disposta a ver as suas aldeias (todas da periferia - porque será?) a serem saqueadas sem uma reacção à altura, teremos de aceitar resignados o triunfo da política da aparência - tem de parecer que vai haver sangue -, do capitalismo financeiro improdutivo e da acção sem rosto dessa entidade etérea à qual chamamos "os mercados".
Tudo é virtual menos os estragos que os salteadores deixam à sua passagem.

Há dois anos todos os políticos juraram, perante a irresponsabilidade dos negócios financeiros imobiliários, em que estas agências tiveram o papel de promover lixo tóxico, que alguma coisa teria de mudar.
Também essa vontade era uma ilusão.
Os aldeões continuam entregues aos caprichos dos saqueadores." (*)

(*) Daniel Oliveira - Expresso Online e blogue Arrastão (Lisboa - Portugal)

sábado, 27 de março de 2010

Os Manipuladores - A Imprensa em Portugal no séc. XXI

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“(…) A nossa imprensa, quase toda, vive à procura de sangue, escândalos, tragédias ou heróis.
(...) Entre procurar a verdade da história além das aparências, esperar pelas investigações das autoridades sem antecipar conclusões, ou optar logo pela versão mais trágica e chocante, escolheu esta sem hesitar.
Nada disto aconteceu por acaso.

Não deixa de ser eloquente que, num momento em que na Comissão de Ética da Assembleia da República prosseguem as penosas audições para apurar se há ou não liberdade de imprensa em Portugal, a maior e mais real ameaça a essa liberdade esteja ausente de todas as questões colocadas e de todos os depoimentos prestados.

Essa ameaça é o tipo de jornalismo que hoje se faz e que é ditado, primeiro que tudo, pela necessidade de vender informação e conquistar audiências a qualquer preço.

Os célebres 'conteúdos', que tanto movem os novos patrões da imprensa, são ditados exclusivamente pela vontade de obter lucros e não pelo desejo de prestar um serviço público de informação e formação.
Ninguém pergunta à Ongoing ou à PT para que querem eles ter uma televisão ou um jornal, quais são os seus pergaminhos, o seu currículo, as suas intenções em matéria jornalística.
Parece que ter dinheiro, próprio ou emprestado, é critério suficiente.

Durante quatro semanas a fio, o jornal "Sol" levou a cabo, tranquilamente, a divulgação de escutas telefónicas recolhidas num processo em segredo de justiça e abrangendo até alguma gente que, tanto quanto sabemos, não é suspeita de qualquer crime.
E assim continuou mesmo depois de um tribunal o ter proibido de o fazer, a pedido de um dos escutados.

Todos sabemos que o que o "Sol" fez é crime, que é inaceitável num Estado de direito e que é uma perversão deontológica do jornalismo, grave e insustentável.

Mas a verdade é que onze, entre doze directores de jornais interrogados, conseguiram justificar a atitude do "Sol" com "o direito à informação" e "o interesse público".

E todos nós, mesmo os discordantes, fomos obrigados a ler as escutas e concluir a partir dos factos e indícios nelas contidos, sob pena de sermos excluídos da discussão pública.

E, para que dúvidas não restassem, esse farol da ética jornalística, que é o "Público", titulava na primeira página e triunfantemente, no dia seguinte a o "Sol" ter ignorado altivamente a providência cautelar decretada pelo tribunal: "Primeira tentativa de censura em trinta anos falha". (...) (*)

.(*) Miguel Sousa Tavares – Confesso que não Entendo – Crónica completa no jornal Expresso – Lisboa – Portugal – 23-Março-2010

sábado, 6 de março de 2010

A República Doente - "O que faz falta"

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Faz falta um sopro de lucidez
que varra este país de cima a baixo
e nos devolva o bom senso e a esperança.

Faz-nos falta meter na cabeça,
nem que seja à martelada,
que Portugal enfrenta problemas e perigos
de uma dimensão tamanha
que perder tempo a lavar roupa suja
e a discutir lingerie
enquanto os problemas se acumulam e agravam
sem solução,
é mais do que diletância,
é verdadeiro suicídio.

Faz-nos falta que cada um perceba
qual é o seu lugar e a sua função
e não se envolva em tentações e confusões
onde todos se perdem,
sem honra nem proveito público.

Ao Governo cabe governar,
e não imiscuir-se na vida das redacções
ou nas jogadas do poder económico.

Aos juízes cabe acusar e julgar
de acordo com a lei e a sua consciência,
e não de acordo com as suas ideias políticas
ou os seus interesses corporativos.

Aos jornalistas cabe informar
de acordo com os factos e a verdade investigada,
mas não cabe a tarefa
de derrubar governos
nem promover julgamentos públicos
em substituição dos tribunais.

Às empresas públicas ou participadas pelo Estado,
gerindo bens e serviços de necessidade pública,
cabe apenas o papel
de servir os utentes nas melhores condições,
e não o envolvimento
nos grandes negócios do regime
ou em jogadas menores de baixa política
ao serviço do poder do momento. (…)

(…) Se não nos entendemos no essencial -
o que é a liberdade,
o que é a censura,
o que são direitos absolutos e relativos,
o que é o Estado de Direito,
o que valem as decisões dos tribunais -
dificilmente nos entenderemos no resto.

E o resto são coisas factuais,
que não dependem de opiniões ou ideias
e que qualquer um sabe:
são 563.000 desempregados,
um Estado no limiar da insolvência
e um país deserto de esperança. (*)

(*) - Miguel Sousa Tavares - "O Que Faz Falta"
Jornal Expresso - Lisboa - Portugal - 20-Fev-2010

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mataram Zapata! Outra vez!

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Mataram Zapata
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"Aminatu Haidar.
Orlando Zapata.
Ela, uma activista sarauí de 44 anos, fez greve de fome num aeroporto espanhol, depois de ver a sua entrada em Marrocos recusada pelas autoridades locais e conseguiu, graças à atenção e pressão internacionais, regressar à sua terra e aos seus filhos;
ele, um activista cubano de 42 anos, morreu anteontem, após 85 dias de greve de fome na prisão.

Sim: Zapata morreu.
Mas dele só soubemos o nome porque morreu.
Para ele não houve petições a circular no Facebook e entre as "personalidades" portuguesas e estrangeiras, mesmo se houve cartas e apelos do Movimento Republicano Alternativo (a que pertencia) e da Amnistia Internacional a alertar para a sua greve de fome e para os maus tratos e espancamentos de que era alvo. Merecia menos que Aminatu?
Cuba é menos cruel que Marrocos?
Ou faltaram os directos e as entrevistas e as fotografias e os artigos inflamados?

Zapata foi preso em 2003 por "desobediência", "desrespeito" e "desordem pública" e condenado a 25 anos.
Os seus "crimes" dizem tudo por ele.
Tudo sobre a atrocidade da sua morte e tudo sobre o obsceno regime cubano - um regime que continua a merecer o beneplácito e a bonomia de tanta gente que não hesitou em pôr o seu nome na lista pela "libertação" de Aminatu mas que de Orlando não sabe "o suficiente".

Eu, pelo contrário, sei pouco sobre Aminatu e sobre o Sara e Marrocos (deveria saber mais, decerto) mas sei o que é preciso sobre um regime do qual tanta gente diz "não é assim tão mau".
Um regime envolto na mitificação romântica dos heróis de uma esperança massacrada e nas suas imagens épicas, recortadas em multidões empolgadas e em frases grandiosas que só sabem a mágoa.
Um regime horripilante de verdugos charmosos.
Um regime onde se usa sobre pessoas uma palavra que pensei, depois do fim da ditadura portuguesa, nunca mais ouvir ao vivo: "subversivo".

"Esse indivíduo é um subversivo", disseram-me dois polícias a propósito de um rapaz de 19 ou 20 anos, filho de um veterinário, que tanto me seringara na rua que, inexperiente repórter por quatro dias na Havana de 1991, lhe oferecera um jantar na Bodeguita del Medio, o restaurante "de Hemingway", e que o prenderam (prenderam!) à saída porque "é proibido os cubanos falarem com turistas".

Um regime que fez de um país bonito de gente bonita, praias bonitas, calor, rum e charutos uma coisa única, uma espécie de museu-prisão das revoluções traídas da América do Sul, das utopias "generosas" das esquerdas europeias.
Um cenário de inesgotável nostalgia e amargura, sim, bom para fotografias e documentários.
Mas onde se morre por "desobediência".
Cuba é uma ditadura, os Castro são criminosos e Zapata foi assassinado. Outra vez." (*)

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(*) - Fernanda Câncio - "Mataram Zapata" - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal - 26-Fevereiro-2010.
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